Engels, pensador da guerra, pensador da revolução 1
parte 3
Este estudo foi redigido para um colóquio organizado por Georges Labica na Universidade de Nanterre, em 1995, por ocasião do centenário da morte de Friedrich Engels. Pela sua extensão, apresentamo-lo aqui em três partes. Nesta terceira e última parte, Engels reforça a sua convicção de que o destino da revolução social seria determinado pela sua capacidade de neutralizar o exército burguês, o que exigia “que as próprias massas cooperem na tarefa, que hajam compreendido do que se trata, o motivo da sua intervenção (com o corpo e com a vida)”, para o que era “necessário um trabalho prolongado e perseverante”.
3ª parte
Estratégia revolucionária e exército
Após a sangrenta derrota dos operários parisienses às mãos de Cavaignac, em Junho de 1848, Engels compreendeu perfeitamente que se havia virado uma página da história das revoluções. Como escreveu em 1852, “ficou demonstrado que era uma ilusão a invencibilidade de uma insurreição popular numa grande cidade (…). O exército voltava a ser o poder decisivo do Estado…”2. Reiterou essa mesma lição da história no final da sua vida, na famosa Introdução de 18953 à reedição da obra de Marx sobre As lutas de classes em França, que, mutilada com ele ainda em vida, tantas vezes foi desvirtuada durante o século que decorreu após a sua morte.
Portanto, Engels já em 1848 adquirira a convicção, que reforçou com o passar dos anos, de que o destino da revolução social seria determinado pela sua capacidade de neutralizar o exército burguês. Até 1871, podia prever com optimismo, em particular no que concerne à Alemanha, um processo inspirado em 1793, em que o exército se visse enfraquecido, para não dizer derrotado, no decorrer de um confronto externo, de forma que os revolucionários se pudessem pôr à cabeça da “pátria em perigo”.
Engels já em 1848 adquirira a convicção, que reforçou com o passar dos anos, de que o destino da revolução social seria determinado pela sua capacidade de neutralizar o exército burguês
Pelas razões já explicadas, a guerra franco-prussiana e o sangrenta esmagamento da Comuna de Paris, em 1871, levaram Engels a pôr em dúvida o modelo guerra-revolução, com consequências dramáticas e imprevisíveis, e a preferir-lhe de longe a estratégia de divisão do exército burguês a partir de dentro.
O militarismo domina e devora a Europa. Mas o militarismo também carrega no seu seio o germe de própria ruína. A competição entre os diferentes Estados obriga-os, por um lado, a gastar, ano após ano, mais dinheiro com o exército, a frota, os canhões, etc., e, portanto, a acelerar cada vez mais o colapso financeiro; e, por outro lado, a contemplar cada vez mais seriamente o serviço militar obrigatório e, no fim de contas, a familiarizar o povo em geral com o manuseio das armas, habilitando-o, portanto, a, em determinado momento, impor a sua vontade ao poder do comando militar. Chegará esse momento quando a massa popular – operários da cidade e do campo e camponeses – tiver uma vontade. Nessa altura, o exército dinástico transforma-se em exército popular; a máquina deixa de funcionar, o militarismo morre, vítima da dialéctica do seu próprio desenvolvimento. (…) Tal importa a explosão do militarismo por dentro e, com ele, de todos os exércitos4.
Quebrar o exército burguês deixava, então, de ser apenas a tarefa iniludível da revolução proletária, tal como a Comuna o havia demonstrado aos olhos de Marx e Engels, passando também, segundo a concepção estratégica elaborada por Engels, a ser a condição sine qua non para o triunfo da revolução, sem a qual ela abortaria num banho de sangue. Era, finalmente, uma tarefa realizável por meios políticos, na medida em que ao proletariado se abriam de par em par as portas da acção política e da organização legal, enquanto a osmose entre exércitos e populações aumentava notoriamente com a generalização da conscrição. Isso conferia à influência dos socialistas no exército uma importância crucial e decisiva. E, quanto mais os exércitos cresciam, mais imperativo se tornava assimilar este preceito revolucionário, incessantemente vincado por Engels até ao fim de seus dias e retomado depois por Lenine e pela Internacional Comunista5.
Sem ter presente esta ideia-força do pensamento estratégico revolucionário de Engels, não se pode deixar de interpretar mal o sentido dos textos públicos que ele escreveu nos últimos anos da sua vida, quando não tinha outro remédio senão expressar-se dentro de certos limites e, muitas vezes, por alusões. Devia-se isto, por um lado, ao temor de que os espectaculares avanços do movimento operário alemão fossem aniquilados por um golpe de Estado reaccionário ou por uma nova lei contra os socialistas, exactamente porque estes últimos, não tendo ainda influência suficiente no exército, não estavam preparados para o confronto. Por outro lado, porque, para que esses mesmos socialistas o publicassem, tinha de levar em conta o medo que eles tinham da repressão e o seu culto da legalidade, que tão severamente estigmatizou quando lhe mutilaram a sua Introdução de 1895, não obstante todas as suas precauções semânticas6.
Aliás, se Engels, apaixonado como era pela história militar (assim como pela história em geral), costumava citar a famosa frase dos franceses em Fontenoy (1745): “Senhores ingleses, disparem vocês primeiro!”, aplicando-a aos senhores burgueses, é porque considerava que o tempo e a legalidade jogavam a favor dos socialistas e sabia perfeitamente que, por conseguinte, mais cedo ou mais tarde a burguesia reagiria violando as suas próprias leis. “Não se duvide, serão eles os primeiros a disparar”7. Colherão então os socialistas o que semearam, ou seja, a revolução.
Quantas vezes nos não cominaram os burgueses a renunciarmos para sempre ao emprego de meios revolucionários, a mantermo-nos dentro da legalidade (…). Para desgraça deles, não é nossa intenção agradar aos senhores burgueses. O que não impede que, por enquanto, não sejamos nós quem a legalidade mata. Funciona tão bem a nosso favor que seríamos loucos se, enquanto durar, dela saíssemos8.
Para já, que trave o proletariado uma guerra de posições, poderia ter dito Engels, cuja fórmula de 1895 parece remeter directamente para a metáfora militar que mais tarde, depois de outros, Antonio Gramsci fará sua9. Escreveu da necessidade de o proletariado “avançar lentamente de posição em posição, num combate duro e obstinado”. Tal sendo possível, porque “as instituições do Estado em que a dominação da burguesia se organiza ainda oferecem novas possibilidades de utilização que permitem à classe operária combater essas mesmas instituições do Estado”10.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
O tempo dos golpes de mão, das revoluções executadas por pequenas minorias conscientes à cabeça das massas inconscientes, pertence ao passado. Quando está em causa uma transformação completa da organização da sociedade, é preciso que as próprias massas cooperem na tarefa, que hajam compreendido do que se trata, o motivo da sua intervenção (com o corpo e com a vida). […] Contudo, para que as massas compreendam o que é preciso fazer, é necessário um trabalho prolongado e perseverante […]. Em todo o lado se tem imitado o exemplo alemão de utilização do direito de voto, de conquista de todos os cargos a que se pode ter acesso, em todo o lado o início do ataque sem preparação passa para segundo plano. Manter incessantemente tal crescimento até ele ser, por si mesmo, mais forte do que o sistema governamental no poder e, em vez de utilizar nos combates de vanguarda as tropas de choque que se vão reforçando todos os dias, conservá-las intactas até ao momento decisivo: essa é a nossa principal tarefa11.
Porque, no caso de uma “hemorragia” como a de 1871 em Paris, “as tropas de choque talvez não estejam disponíveis no momento crítico, o combate decisivo ficará adiado e prolongado e acompanhar-se-á de maiores sacrifícios12. Assim, a guerra de posições não era para Engels mais do que uma longa e paciente preparação da melhor relação de forças para o “momento crítico” em que a guerra de movimento voltasse ao primeiro plano para o “combate decisivo”.
A arte da insurreição
Significa isso que, no futuro, já não haverá lugar algum para o combate de rua? De modo nenhum. Significa simplesmente que, desde 1848, as condições se tornaram muito menos favoráveis para os combatentes civis e muito mais favoráveis para as tropas. Um combate de rua, portanto, só poderá, no futuro, ser vitorioso se essa inferioridade for compensada por outros factores. Assim, ocorrerá mais raramente no início de uma grande revolução do que no decorrer do seu desenvolvimento, uma vez que será necessário empreendê-lo com o grosso das forças.
Entendia Engels por outros factores susceptíveis de compensar a inferioridade dos civis nos combates de rua, sem dúvida, a influência dos socialistas dentro do exército graças ao seu trabalho político anterior.
Quando, em 1891, descreveu em francês, com grande liberdade de expressão, o avanço espectacular dos resultados eleitorais dos seus camaradas alemães, elucidou imediatamente que “os votos dos eleitores estão longe de representar a principal força do socialismo alemão”; esta reside, explicou, nos soldados, dado “o Exército alemão estar cada vez mais contagiado pelo socialismo”13.
Significa isto que Engels propusesse ganhar tempo até os socialistas se terem apoderado do exército? Denotará a sua estratégia revolucionária, neste particular, uma lacuna importante? É o que parece acreditar Martin Berger, que, apesar de situar correctamente o lugar do exército na estratégia de Engels, lhe chama “Teoria do Exército Desfalecente” (Theory of the Vanishing Army) e a qualifica de “doutrina essencialmente passiva”14.
Na interpretação de Berger, a doutrina de Engels consistia em esperar que, num processo natural, houvesse “o número necessário de socialistas” no exército para que este “desaparecesse” por si só15. A luta pela conquista do exército preconizada por Lenine afigura-se, para Berger, “estranha à visão de Engels”.
Quando as forças da revolução tiverem conseguido ganhar previamente a simpatia de grande parte dos soldados, podendo assim compensar a sua inferioridade militar, e quando tiverem de meter-se ao combate de rua, no início da revolução ou no seu decurso, ‘preferirão sem dúvida o ataque aberto à táctica passiva da barricada’.
Tal interpretação é que é estranha à visão de Engels. Lenine, em 1906, no artigo citado por Berger, “Lições da insurreição de Moscovo”, mais não fez do que sublinhar a ideia, afinal clássica, de que o uso da força por parte dos insurrectos e a sua determinação podem fazer que as tropas indecisas passem para o seu lado16. Engels não disse outra coisa na sua Introdução de 1895:
Não nos iludamos a esse respeito: uma verdadeira vitória da insurreição sobre as tropas, em combate de rua, uma vitória como na batalha entre dois exércitos, é coisa raríssima. Igualmente raro é, obviamente, os insurrectos proporem-se tentá-lo. Para eles, a questão era amaciar as tropas, influenciando-as moralmente (…). Conseguindo-o, as tropas recusam-se a mobilizar-se, ou as cabeças dos chefes rolam, e a insurreição triunfa. Não o conseguindo, então – mesmo com tropas em número inferior – a superioridade do equipamento e da instrução, da direcção única, do emprego sistemático da força armada e da disciplina leva a melhor. O máximo que a insurreição pode esperar numa acção verdadeiramente táctica é construir correctamente e defender uma barricada isolada. (…) A resistência passiva é, portanto, a forma de luta predominante; a ofensiva, reunindo as forças, realizará – quando a ocasião se apresentar, mas de forma puramente excepcional – avanços e ataques pelo flanco, mas, em geral, limitar-se-á à ocupação das posições abandonadas pelas tropas que batem em retirada. (…)
Mesmo na época clássica dos combates de rua, a barricada tinha, portanto, um efeito mais moral do que material. Era uma maneira de quebrar a firmeza dos soldados. Se ela resistisse até esta última vacilar, a vitória era certa; caso contrário, perdíamos. Este é o aspecto principal que cumpre ter também em mente no futuro, quando se examinar a possibilidade de eventuais combates de rua”17.
No entanto, no futuro, quando as forças da revolução tiverem conseguido ganhar previamente a simpatia de grande parte dos soldados, podendo assim compensar a sua inferioridade militar, e quando tiverem de meter-se ao combate de rua, no início da revolução ou no seu decurso, “preferirão sem dúvida o ataque aberto à táctica passiva da barricada”18. O velho Engels reatava assim as famosas linhas que, 43 anos antes, captando já perfeitamente os aspectos militares da mudança de época revolucionária, escrevera sobre a arte da insurreição, essas mesmas linhas em que Lenine se apoiava e que tanto costumava citar. Que melhor demonstração da notável continuidade de um pensamento estratégico totalmente dedicado à revolução, como o foi a própria vida dos dois compadres barbudos cujo fantasma continua a assombrar o mundo?
Em primeiro lugar, nunca brinquem com a insurreição se não estiverem absolutamente decididos a lidar com todas as consequências do vosso jogo. A insurreição é um cálculo de variáveis muito indeterminadas, cujo valor pode variar todos os dias; as forças do adversário têm todas as vantagens da organização, da disciplina e do hábito da autoridade; se não lhes puderdes opor forças muito superiores, estareis derrotados, tereis perdido. Em segundo lugar, uma vez iniciado o acto insurreccional, é preciso agir com a máxima determinação e de forma ofensiva. A defensiva é a morte de toda a insurreição armada; está perdida antes mesmo de se medir com os inimigos desta. Atacai os vossos adversários de surpresa, enquanto as suas forças estão dispersas, preparai novos êxitos, por pequenos que sejam, mas diários; mantende a moral alta que o primeiro levantamento vitorioso vos deu; trareis, assim, para o vosso lado os elementos vacilantes que seguem sempre o impulso mais forte e procuram sempre colocar-se do lado mais seguro; forçai os vossos inimigos a bater em retirada antes de poderem reunir as suas forças contra vós, dizendo, com Danton, o maior mestre da política revolucionária até hoje conhecido: Audácia, audácia e mais audácia19.
1 Este estudo foi redigido para o colóquio organizado por Georges Labica na Universidade de Nanterre, em 1995, por ocasião do centenário da morte de Friedrich Engels. Foi publicado pela primeira vez na obra resultante do colóquio, Friedrich Engels, savant et révolutionnaire, dirigida por Georges Labica e Mireille Delbraccio e saída em 1997 nas Presses Universitaires de France.
2 Revolução e contra-revolução na Alemanha.
3 Ibid., pp. 194-212.
4 Anti-Dühring, op. cit., p. 203 (texto destacado pelo próprio Engels).
5 “O dever de propagar as ideias comunistas implica a necessidade absoluta de levar a cabo uma propaganda e agitação sistemáticas e perseverantes entre as tropas”, estipulava a 4ª das 21 condições de admissão dos partidos na Internacional Comunista (Teses, manifestos e resoluções adoptados pelos quatro primeiros congressos da Internacional Comunista (1919-1923).
6 “[A minha introdução] sofreu um pouco do excessivo desejo que, a meu ver, os nossos amigos de Berlim sentem de nada dizer que possa ser usado como pretexto para o Reichstag aprovar o Umsturzvorlage [projecto de lei contra as actividades subversivas]. Dadas as circunstâncias, tive de ceder.” Carta a Laura Lafargue de 28 de Março de 1895 (Engels, Lafargue, Correspondance, t. 3, op. cit., pp. 400-401).
7 “Não posso crer que tenhais a intenção de vos dedicardes de corpo e alma à legalidade absoluta, à legalidade independentemente das condições, à legalidade, inclusivamente, ante as leis que os seus próprios autores violam, em suma, à política que consiste em oferecer a face esquerda quando te dão uma bofetada na direita.” Carta a Fischer de 8 de Março de 1895 (MEW, t. 39, p. 424).
8 Le Socialisme en Allemagne, op. cit., p. 133.
9 Para análise crítica das reflexões de Gramsci nos seus Cadernos do Cárcere e uma visão global penetrante dos debates estratégicos marxistas posteriores a Engels, veja-se o estudo magistral de Perry Anderson, As antinomias de Antonio Gramsci. Ainda assim, nem Gramsci, nem Anderson remontam até Engels, apesar de ser ele a estar na origem desta problemática.
10 Engels, Introdução, op. cit. A maneira de olhar o parlamentarismo reflectida neste texto está nos antípodas do “cretinismo parlamentar”, que Marx e ele sempre fustigaram. Assemelha-se mais à que Lenine adoptará no Esquerdismo, doença infantil do comunismo do que à dos sociais-democratas europeus, mesmo antes de 1914. Acresce que, ao descrever, mais adiante, com satisfação, os progressos realizados pelos socialistas no Parlamento nos demais países europeus, Engels apressa-se a acrescentar: “É evidente que os nossos camaradas estrangeiros de modo algum renunciam, para tal efeito, ao seu direito à revolução. O direito à revolução é, afinal de contas, o único ‘direito histórico’ real, o único em que assentam os Estados modernos, sem excepção…” (op. cit.). Longe de rever as opções revolucionárias da sua juventude, Engels manteve-se fiel ao que escrevera na sua primeira declaração de princípios, em 1847: “É possível abolir a propriedade privada pela via pacífica? Era desejável que assim fosse, e os comunistas seriam, sem dúvida, os últimos a queixar-se do facto. […] Mas eles também vêem que o desenvolvimento do proletariado choca, em quase todos os países civilizados, com repressão brutal, e que, deste modo, os adversários dos comunistas trabalham, por sua vez, con todas as suas forças, a favor da revolução.” Princípios do comunismo, em Marx Engels, Obras escolhidas, op. cit.
11 Ibid. A edição de Moscovo traduz Gewalthaufen por “grupo de choque”, expressão substituída aqui por “tropa de choque”, correcção que se justifica porque a primeira fórmula tem una conotação de comando, quando, para Engels, se trata de uma massa considerável de partidários do socialismo na Alemanha, “tropa de choque decisiva do exército proletário internacional” (Ibid.; MEW, t. 22, pp. 524-525).
Engels relativizou notoriamente, pouco depois, este texto, qualificado abusivamente por certa posteridade de seu “testamento político”: “Liebknecht acaba de pregar uma partida. Tirou da minha introdução […] tudo o que lhe pode servir para sustentar a qualquer preço a sua táctica pacífica e anti-violenta, que se compraz em pregar há algum tempo, sobretudo neste momento em que se preparam leis repressivas em Berlim. Ora, esta é uma táctica que eu só preconizo para a Alemanha de hoje e com muitas reservas.
Em França, na Bélgica, em Itália e na Áustria, será impossível seguir esta táctica no seu conjunto, e é bem possível que se venha a mostrar inaplicável na Alemanha já amanhã.” Carta a Paul Lafargue de 3 de Abril de 1895 (Engels, Lafargue, Correspondance, t. 3, op. cit., pp. 404, texto destacado por Engels).
Segundo Liebknecht, foi Eduard Bernstein quem usou este documento desnaturado para fundamentar as suas posições “revisionistas”, assim contribuindo para forjar o mito de uma mudança de posição de Engels no final da sua vida. Desde então, numerosos autores, de Karl Kautsky a Lucio Colletti, julgaram necessário contradizer Engels, acreditando tal mudança. Seja como for, a partir da publicação do texto integral da Introdução de 1895, por obra de Riazanov, em 1930, muitos foram os que se aplicaram em restituir-lhe o seu sentido original, apoiando-se na correspondência de Engels.
12 Ibid., p. 208.
13 O socialismo…, op. cit., pp. 132-133 (texto destacado por mim). “E se ganharmos as circunscrições rurais das seis províncias orientais da Prússia, onde predominam o latifúndio e as grandes culturas, o Exército alemão será nosso”, escreveu Engels a Paul Lafargue no mesmo ano (Engels, Lafargue, Correspondance, t. 3, op. cit., p. 89, texto destacado por Engels).
Como explica Ernst Wangermann na sua breve, mas excelente, introdução à primeira edição inglesa de Engels de O papel da violência na história, o autor “preconizava políticas que visavam minar o espírito de submissão absoluta da tropa nos regimentos prussianos, que ainda se recrutavam, em grande medida, entre as massas oprimidas de trabalhadores rurais” (The Role of Force in History, Lawrence & Wishart, Londres, 1968, p. 23). Falta aqui espaço para explicar como o programa agrário defendido por Engels, e rejeitado pelos socialistas alemães, se articulava com a sua estratégia revolucionária. Também se poderia mostrar como a óptica programática de Engels, tanto no âmbito agrário como no que toca ao exército, prefigurava a das “reivindicações transitórias” que a Internacional Comunista adoptou no tempo de Lenine.
À luz de todas as críticas, dispersas, mas acerbas, formuladas por Engels aos socialistas alemães, em particular, não seria exagerado afirmar que o companheiro de Marx foi o primeiro marxista que pressentiu a futura evolução da social-democracia (seguir-se-lhe-á Rosa Luxemburgo, enquanto, até que Lenine se inteirasse, foi preciso que se desse a traição de 1914).
14 Engels, Armies…, op. cit., p. 169.
15 Berger tem dificuldade em reconciliar a sua interpretação com o testemunho do socialista britânico Ernest Belfort Bax sobre Engels: “Embora soubesse calibrar devidamente, em todas as circunstâncias, as exigências práticas do momento, este velho companheiro de Marx, que lhe sobrevivera, convenceu-se até ao fim de que a revolução social só podia começar com uma insurreição armada, sobretudo na Alemanha. Ouvi-o dizer mais do que uma vez que se os dirigentes do partido pudessem contar com um de cada três soldados, ou seja, com um terço do Exército alemão, deveriam passar de imediato à acção revolucionária.” (“Rencontres avec Engels”, en Souvenirs sur Marx et Engels, op. cit., pp. 332-333).
16 Nas Obras Completas, Editorial Progresso, Moscovo, 1966, t. 11. “Temo-nos dedicado e continuaremos a dedicar-nos com mais tenacidade a ‘trabalhar’ ideologicamente o exército. Mas não passaríamos de patéticos pedantes se nos esquecêssemos que, quando soar o momento da insurreição, também há que empregar a força para ganhar o exército”.
17 Op. cit., pp. 205-206.
18 Ibid., p. 208.
19 Revolução e contra-revolução…, op. cit., p. 392 (texto destacado por mim, salvo a citação de Danton, reproduzida por Engels em francês).