Rússia

Ucrânia-Rússia: quatro anos depois
categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia edicao-2026-03-19 (20)

Ucrânia-Rússia: quatro anos depois

Quatro anos de guerra enfraqueceram drasticamente Ucrânia e Rússia. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. A Rússia sustenta o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025

Michael Roberts
A juventude recusa ir para o matadouro
categoria-internacional Alemanha EUA Greve estudantil Guerra Irão Rússia Ucrânia edicao-2026-03-12 (19)

A juventude recusa ir para o matadouro

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército

Adriano Zilhão
Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista
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Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista

De “algures na Rússia” chega-nos uma denúncia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e das consequências diametralmente opostas que tem para o povo e para os oligarcas.

Adriano Zilhão
Premissas económicas para a paz
categoria-internacional Guerra Rússia edicao-2026-01-08 (10)

Premissas económicas para a paz

Ao avaliar, no final de 2025, a situação económica na Rússia, Ekaterina Shulman, considerada agente do estrangeiro, sugeriu que o país estava a ficar sem dinheiro e sem pessoas. E, de facto, tudo indica que alguma coisa está a acabar. Mas o dinheiro não é com certeza. Ao Estado nunca se acaba o dinh

Boris Kagarlitski
Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Rússia Ucrânia

Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky

Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia, defende Felipe Alegria.

Filipe Alegria
O inimigo dentro de portas
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Rússia União Europeia Venezuela edicao-2026-01-08 (10)

O inimigo dentro de portas

A EU, em conivência com Zelenski, faz campanha não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO.

Viriato Soromenho-Marques
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Ucrânia-Rússia: quatro anos depois

Quatro anos de guerra enfraqueceram drasticamente Ucrânia e Rússia. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. A Rússia sustenta o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025. A população da Ucrânia diminuiu 37% desde o colapso da União Soviética e 20% desde o início da guerra. O PIB real caiu 37% em relação ao valor de 1991 e 21% desde o início da guerra.

ilustração: www.instagram.com/ricardomiguelferreira/

Hoje é o último dia do quarto ano da guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Nestes quatro anos, a invasão da Ucrânia pela Rússia causou impressionantes estragos ao povo e à economia ucranianos. As estimativas do número de mortos e feridos na guerra, bem como das vítimas civis, divergem radicalmente. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. Os russos sustentam o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025. A estimativa mais recente da Mediazona, uma agência sediada na Ucrânia, situa-se entre os dois extremos: 160 mil mortos do lado da Rússia e um número ligeiramente superior do lado ucraniano.

Seja a verdade qual for, a guerra tem sido uma crise humanitária para a Ucrânia, especialmente durante este Inverno, em que os sistemas de energia e aquecimento das principais cidades foram em grande parte destruídos por mísseis russos. Em quatro anos de guerra, milhões de pessoas fugiram para o estrangeiro e muitos milhões mais foram deslocados de casa dentro da Ucrânia. A população da Ucrânia diminuiu 37% desde o colapso da União Soviética e 20% desde o início da guerra. O PIB real caiu 37% em relação ao valor de 1991 e 21% desde o início da guerra.

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Os danos físicos e mentais para aqueles que permanecem na Ucrânia têm sido imensos. Preocupação particular são as perdas de aprendizagem das crianças ucranianas. Há estudos que mostram que uma guerra nos primeiros cinco anos de vida de uma pessoa fica associada, passados os sessenta anos, a um declínio de cerca de 10% dos índices de saúde mental. O problema não se reduz, assim, às vítimas da guerra e à economia; abrange também danos a longo prazo para os ucranianos que ficaram no país.

Apesar da guerra, nos últimos dois anos tem havido alguma recuperação económica na Ucrânia – pelo menos em termos de PIB. Os portos ucranianos no Mar Negro continuam a funcionar, e o comércio flui ao longo do Danúbio para ocidente, mas em menor escala por caminho de ferro. A agricultura registou, entretanto, uma recuperação modesta. Não obstante, a produção de ferro e aço continua reduzida a uma fracção da do nível pré-guerra; desceu de 1,5 milhões de toneladas por mês antes da guerra para apenas 0,6 milhões por mês. No final de 2025, a produção industrial na Ucrânia diminuiu 3,5% em termos homólogos.

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A Ucrânia carece cada vez mais de pessoas fisicamente aptas para produzir ou ir para a guerra. Análises independentes mostram uma taxa de desemprego que, embora volátil, se mantém a um nível constantemente elevado, com um pico de 22,8% no final de 2025. Mais de 80% são mulheres, uma vez que os homens têm sido em grande parte recrutados para as forças armadas. Metade dos jovens (de menos de 35 anos) ainda não recrutados não têm trabalho. Existe uma enorme escassez de pessoas qualificadas; grande parte delas abandonou o país. O governo está tão desesperado por mobilizar homens para o exército que recorreu a «brigadas de recrutamento» que fazem rusgas pelas ruas, dia e noite, para apanhar homens e mandá-los à força para a frente de guerra.

A Ucrânia continua completamente dependente do apoio do Ocidente. Precisa de pelo menos 40 mil milhões de dólares por ano para manter a administração a funcionar, sustentar a população e manter a produção. Somem-se-lhe os mais de 40 mil milhões de dólares por ano de que carece para sustentar as forças armadas. Desde o início da invasão em grande escala da Rússia, mais de metade do orçamento do Estado tem sido gasto na defesa, 26% do PIB. A Ucrânia tem contado com a UE para o financiamento civil, e com os EUA para todo o financiamento militar – uma «divisão de tarefas» linear. Contudo, desde a investidura da administração Trump, em 2025, os EUA reduziram drasticamente a sua ajuda militar directa. Instaram os europeus a revezá-los tanto no financiamento civil como no militar.

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Em 2025, a ajuda europeia aumentou significativamente, com a verba afecta à ajuda militar a subir 67% e à ajuda financeira e humanitária, 59%. A quota da ajuda civil total da UE subiu para 90%, contra cerca de 50% no início da guerra. No entanto, devido à retirada dos EUA, a ajuda militar em 2025 registou ainda assim uma queda global de 13%, e o financiamento civil de 5%, em termos reais.

A ajuda militar da Europa depende de apenas alguns países da Europa Ocidental, principalmente a Alemanha e o Reino Unido, que foram responsáveis por cerca de dois terços da ajuda militar da Europa Ocidental entre 2022 e 2025. A UE ficou entalada a tentar encontrar fundos para a Ucrânia para este ano. O plano da UE de se servir de activos cambiais russos congelados soçobrou por os depositários dos activos, a Euroclear, na Bélgica, temerem pesadas perdas nos tribunais internacionais. Mantém-se em suspenso um novo plano da UE para, emitindo obrigações soberanas, mobilizar cerca de 100 mil milhões de dólares.

O FMI e o Banco Mundial propuseram assistência monetária, mas, para isso, a Ucrânia tem de demonstrar «sustentabilidade», portanto ser capaz de reembolsar os empréstimos num dado momento. Assim, a não se concretizarem empréstimos bilaterais dos EUA e dos países da UE (e estão em causa essencialmente empréstimos, não fundo perdido), o FMI não poderá pôr à disposição o seu programa de financiamento. Está para ser anunciada pelo FMI, para 2026, uma nova parcela de empréstimo, no valor de cerca de 8 mil milhões de dólares.

Tudo isto repõe a pergunta: que acontecerá à economia da Ucrânia se e quando a guerra com a Rússia chegar ao fim? A estimativa mais recente do Banco Mundial aponta para custos de 588 mil milhões de dólares nos próximos dez anos para a recuperação e reconstrução da Ucrânia – admitindo que a guerra termine este ano. É o triplo do actual PIB ucraniano. Tal não impede, porém, que até esse valor esteja subestimado. A própria Ucrânia estima que será necessário um bilião de dólares, dos quais quase 400 mil milhões para a reabilitação do setor energético, 300 mil milhões para habitação e infra-estruturas urbanas, 200 mil milhões para corredores de transporte e logística, e 100 mil milhões para serviços sociais e instituições públicas. O total é equivalente a seis anos do antigo PIB da Ucrânia. São cerca de 2% do PIB da UE por ano ou 1,5% do PIB do G7, durante cinco anos. Mesmo que a reconstrução corra bem e admitindo que sejam repostos todos os recursos pré-guerra da Ucrânia (a indústria e a mineração no Leste da Ucrânia passaram para as mãos da Rússia), a economia (PIB) continuaria a situar-se 15% abaixo do nível pré-guerra. Caso contrário, a recuperação será ainda mais demorada.

A Comissão Europeia anunciou um Fundo-Bandeira Europeu, um suposto «veículo de capital» conjunto apoiado pela UE, Itália, Alemanha, França, Polónia e pelo Banco Europeu de Investimento, para mobilizar investimentos públicos e privados em larga escala para reconstruir a Ucrânia no pós-guerra. Na prática, equivaleria à aquisição da economia e dos recursos da Ucrânia por investidores ocidentais. Acontece que grande parte do que resta dos recursos da Ucrânia (os não anexados pela Rússia) já foi saldado a empresas ocidentais. Um total de 28% das terras aráveis da Ucrânia passaram a ser propriedade de uma mistura de oligarcas ucranianos, empresas europeias e norte-americanas e, ainda, do fundo soberano da Arábia Saudita. A Nestlé investiu 46 milhões de dólares numa nova unidade na região ocidental de Volyn, enquanto a Bayer, gigante alemã com uma linha de produção que vai dos medicamentos aos pesticidas, planeia investir 60 milhões de euros na produção de sementes de milho na região central de Zhytomyr. O dono da MHP, a maior empresa avícola da Ucrânia, é um antigo conselheiro do presidente ucraniano Poroshenko. A MHP recebeu mais de um quinto dos empréstimos do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD) nos últimos anos. Emprega 28 mil trabalhadores e controla cerca de 360 mil hectares de terra na Ucrânia — uma área superior à dum membro da UE, o Luxemburgo.

O governo ucraniano está vinculado a uma solução de «livre mercado» para a economia do pós-guerra que passe por novas vagas de desregulamentação do mercado de trabalho por baixo dos próprios padrões laborais mínimos da UE — a exploração desbragada; e cortes drásticos nos impostos sobre as sociedades e sobre o rendimento; a par da privatização total dos activos estatais remanescentes. As pressões da economia de guerra obrigaram, contudo, o governo a, para já, pôr estas políticas em lume brando, dominando as exigências militares a agenda.

O objectivo do governo ucraniano, da UE, do governo dos EUA, das agências multilaterais e das instituições financeiras americanas agora encarregadas de angariar fundos e afectá-los à reconstrução é restaurar a economia ucraniana como uma espécie de zona económica especial, com dinheiros públicos a cobrirem eventuais perdas potenciais do capital privado. A Ucrânia ficará livre de sindicatos, de regimes e regulamentações fiscais exigentes para as empresas e de quaisquer obstáculos significativos ao investimento lucrativo do capital ocidental, aliado a antigos oligarcas ucranianos.

Rússia: economia de guerra

E a Rússia? Durante algum tempo, a invasão russa da Ucrânia para tomar as quatro províncias de língua russa no Donbass, no leste da Ucrânia, no início de 2022, acabou, ironicamente, por dar um empurrão à economia. A Rússia conseguiu-se desenvencilhar por entre as sanções ocidentais, investindo, do mesmo passo, quase um terço do seu orçamento na defesa. Apesar de ter ficado excluída dos mercados de energia da Europa, conseguiu diversificar para a China e Índia, em parte servindo-se de uma frota «fantasma» de petroleiros (portanto, não segurados pelo Ocidente) para dar a volta ao tecto de preço que os países ocidentais esperavam reduzisse o tesouro de guerra do país. A China passou a absorver 45% das exportações de petróleo russo, e a Rússia passou a principal fornecedor de petróleo à China.

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As importações russas da China aumentaram mais de 60% desde que a guerra começou, subindo 26% em 2025, com a China a abastecer a Rússia de um fluxo constante de mercadorias, incluindo automóveis e aparelhos electrónicos, colmatando a lacuna das importações ocidentais perdidas.

No entanto, a guerra veio agravar uma escassez aguda de mão de obra. A Rússia vê-se a braços — tal como a Ucrânia — com uma carência desesperada de pessoas, ainda que por razões diferentes. Mesmo antes da guerra, a força de trabalho da Rússia estava a minguar devido a causas demográficas naturais. Depois, quando a guerra começou, em 2022, cerca de 750 mil trabalhadores russos e estrangeiros, a classe média dos sectores da informática, finanças e gestão, deixaram o país. Enquanto isso, o exército russo precisa de entre 10 e 30 mil novos recrutas todos os meses, sugando força de trabalho à produção interna. Para reforçar as forças armadas, a Rússia tem recrutado a contrato presidiários e outros. O balão de oxigénio à economia e aos salários que os enormes gastos com a defesa encheram já se começou a esvaziar. E os preços do petróleo à escala global caíram bem abaixo do limiar de rentabilidade da receita petrolífera da Rússia.

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As receitas de petróleo e gás da Rússia, que representam até 50% das receitas do Estado, caíram 27% em relação ao ano anterior. A inflação situa-se em cerca de 8%, menos do que os máximos já atingidos de dois dígitos, mas o banco central russo continua a manter as taxas de juro em 16%, impossibilitando as famílias e as empresas de contraírem empréstimos para investimento ou consumo de bens de maior valor. As despesas com a guerra representam agora mais de 7% do PIB anual. Apesar do aumento da tributação, a forte subida do défice orçamental necessária para financiar a guerra está a drenar o fundo soberano da Rússia, obrigando as autoridades monetárias a considerar a possibilidade de monetizar os défices.

No entanto, a Rússia ainda dispõe de grandes reservas cambiais e de um rácio baixo da dívida pública em relação ao PIB. Ainda que as receitas da exportação encolham, o sistema bancário, em grande parte estatal, tem à mão montes de dinheiro mobilizável; Além de que os bancos também poderiam receber directivas para comprarem obrigações do Estado, como aconteceu no final de 2024. Se tudo falhasse, o banco central ainda poderia comprar obrigações do Tesouro, monetizando a dívida — se bem que isso importasse numa forte desvalorização do rublo e, consequentemente, num empurrão à inflação.

A economia da Rússia entrou em 2026 mais fraca do que estava um ano antes, com o crescimento em declínio e os preços do petróleo bem abaixo das projecções orçamentadas.

Os índices de actividade dos serviços e da indústria transformadora (PMIs) caíram muito; encontram-se agora em trajectória de contracção. As estimativas de crescimento real do PIB para o ano no seu todo foram revistas em baixa, para menos de 1% em 2025. O Instituto de Previsões Económicas da Academia Russa de Ciências projecta um crescimento de 0,7% em 2025 e de 1,4% em 2026, acelerando para cerca de 2% em 2027. O Fundo Monetário Internacional prevê um crescimento de 0,6% em 2025 e de 1,0% em 2026.

Na prática, a economia russa, tal como muitas outras na OCDE, encontra-se mergulhada na «estagflação» (a inflação mantém-se alta, mas a produção estagna). O «keynesianismo militar» da Rússia já não está a dar os resultados de outrora. Daí que todas as formas de oposição à guerra sejam impiedosamente reprimidas. O dissidente anti-guerra mais famoso é o marxista Boris Kagarlitsky, detido em Julho de 2023, que cumpre uma pena de cinco anos numa colónia penal. Mas há outros. Em Novembro de 2025, membros de um pequeno círculo de estudos marxista da cidade de Ufa foram condenados a 24 anos, acusados de «terrorismo» e «conspiração para derrubar o governo» — por lerem obras de Marx.

No entanto, apesar destas pressões sobre a economia russa e da crescente austeridade imposta ao povo russo, não haverá colapso financeiro, ao contrário do que afirmam muitos comentadores ocidentais. Este tipo de pensamento fruto do desejo dominou a agenda de muitos «especialistas» ocidentais durante todos os quatro anos de guerra. Mas a economia russa sobreviveu e a perspectiva é de que é suficientemente forte para continuar a guerra em 2026 e mais além. Ao contrário da Ucrânia, ela pode endividar-se mais, dado o relativamente baixo stock da dívida — e é possível voltar a aumentar os impostos. O banco central pode imprimir dinheiro, e o governo pode continuar a nacionalizar empresas para fortalecer a economia de guerra.

A situação será diferente se e quando a guerra terminar. A produção de guerra é essencialmente improdutiva para efeitos de acumulação de capital a longo prazo. A economia russa voltará à acumulação de capital civil logo que a guerra terminar. Isso porá na berlinda os sectores produtivos da Rússia. É muito provável declarar-se uma recessão no pós-guerra. A economia russa continua fundamentalmente assente em recursos naturais. Depende mais da indústria extractiva do que da indústria transformadora. A Rússia continua a sofrer de atraso tecnológico e a depender de importações de alta tecnologia. A Rússia não é um actor de tomo em nenhuma das tecnologias de ponta, da inteligência artificial à biotecnologia. Continua sem produzir tecnologias adequadas para um mercado de exportação competitivo que não se reduza às armas e à energia nuclear, estando as primeiras sujeitas a sanções e a segunda à beira disso.

Declínio demográfico, declínio da qualidade do ensino universitário, corte de laços com escolas internacionais e fuga de cérebros são factores agravantes destes problemas. O fosso tecnológico irá provavelmente cavar-se mais, com a Rússia a depender cada vez mais de importações chinesas e da engenharia reversa (cópia). O crescimento potencial do PIB real da Rússia não deve passar de 1,5% ao ano, limitado o crescimento por uma população envelhecida e minguante e por taxas de investimento e produtividade baixas. A mensagem subjacente é que a fraqueza económica da Rússia se manterá pelo resto da década.


E a paz?

Não me parece que haja grande perspectiva de acordo de paz num futuro previsível. Quando tomou posse, faz um ano, o Presidente Trump declarou que ia resolver a guerra na Ucrânia em uma semana. Estamos em 2026, continuam negociações intermináveis, e não há nenhum sinal de acordo. A actual direcção ucraniana opõe-se a qualquer acordo que implique perda de território (mesmo a Crimeia) e a qualquer veto a uma adesão futura à NATO. Os dirigentes europeus têm declarado que apoiarão a Ucrânia e continuarão a financiar a guerra e a prestar apoio militar. Os russos recusam quaisquer concessões quanto à posição, que há muito afirmam, de que o Donbass e a Crimeia passaram a fazer parte da Rússia, que os russo-falantes da Ucrânia devem ser protegidos da repressão e da discriminação, que a Ucrânia tem de renunciar a aderir à NATO e que as suas forças armadas devem ser reduzidas a níveis puramente defensivos. Pelo seu lado, os europeus ameaçam enviar tropas terrestres para a Ucrânia para apoiar um suposto «cessar-fogo».

O impasse lembra o da Guerra da Coreia da década de cinquenta (oficialmente ainda não terminado!). A guerra parece mais destinada a ser resolvida no campo de batalha do que pela via diplomática. Continuará, pois — fazendo mais milhares de baixas entre os soldados, mais privações para os ucranianos e deterioração do nível de vida da maioria dos russos.

A guerra não se tem limitado a destruir a Ucrânia; enfraqueceu gravemente a economia europeia, onde os custos de produção dispararam, uma vez perdidas as importações de energia barata da Rússia.

A guerra não se tem limitado a destruir a Ucrânia; enfraqueceu gravemente a economia europeia, onde os custos de produção dispararam, uma vez perdidas as importações de energia barata da Rússia. O Reino Unido, por exemplo, tem agora os custos de electricidade e energia mais elevados do mundo (com a Alemanha não muito atrás)! Um inquérito recente da confederação patronal britânica (CBI) indicou que o Reino Unido tem preços industriais quase dois terços acima da mediana dos países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) e os mais elevados dos membros do G7. Os preços da electricidade no Reino Unido são cerca do dobro da mediana da UE. Actualmente, as empresas britânicas debatem-se com custos da electricidade que são cerca de 70% mais altos do que antes da crise, ao passo que os custos do gás são mais de 60% superiores. Quatro de cada dez empresas indicaram planear reduzir o investimento por causa disso.

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Parece, porém, que os dirigentes europeus querem continuar a guerra mesmo que Trump acabe por se retirar. Alegam eles que, se se apoiar a Ucrânia por mais algum tempo, as perdas russas serão demasiado altas, a economia russa ruirá, e Putin não terá remédio senão pedir a paz, acabando, porventura, destituído. Os russos pensam o contrário; que a Ucrânia está de joelhos e não conseguirá aguentar muito mais tempo.

Os europeus acham que a Rússia está fraca e virtualmente derrotada – se bem que se prepare para invadir a Europa logo que derrotada a Ucrânia: se há análise contraditória… Ora, o argumento serve para justificar uma duplicação espectacular das despesas das principais economias europeias com a defesa para 5% do PIB nos próximos dez anos, de modo que se possam «defender» da iminente invasão russa. A ridícula justificação apresentada assenta no argumento de que os gastos com «defesa» “são o maior de todos os benefícios públicos”, parafraseando Bronwen Maddox (que promove a visão dos serviços de segurança britânicos). Conclui ela que “o Reino Unido poderá ter de contrair mais dívida para pagar os gastos com defesa de que tão urgentemente necessita. No próximo ano e anos seguintes, os políticos terão de estar preparados para arranjar dinheiro cortando nos subsídios de doença, nas pensões e nos cuidados de saúde… Enfim, os políticos terão de persuadir os eleitores a abdicar de algumas regalias para pagar a defesa.»

Será um imenso desvio do investimento para a improdutiva e destrutiva produção de armamento, afastando-o dos serviços públicos e direitos e garantias, bem como do investimento tecnológico, que tão necessários são, e canalizando-o para a improdutiva e destrutiva produção de armamento. É uma enorme incerteza que se levanta sobre o futuro da Europa como entidade económica dirigente pelo resta da década e depois dela.


Tradução: Adriano Zilhão

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A juventude recusa ir para o matadouro

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército

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Ucrânia: “Cada deserção aproxima-nos da paz”

Era esse o titulo da página antimilitarista ‘Assembleia’ (Ассамблея) da cidade ucraniana de Kharkiv, no dia 24 de Fevereiro, quarto aniversário do início da guerra.

Nesta página web tomam a palavra desertores ucranianos — que, segundo números do governo, se contam por uns duzentos mil. Um dos testemunhos: “A Ucrânia é Zelensky, como o Império Romano era César. O Ocidente deu-lhe dinheiro para fazer a guerra e Moscovo deu-lhe garantias de segurança. Nem a sua autoridade nem a sua integridade estão ameaçadas. A linha da frente, algures no Donbass, não mexe há quatro anos e continuará sem mexer mais três. O Exército ucraniano é um grupo de sem-abrigo (no sentido literal do termo) que combate contra outro grupo de sem-abrigo. Dão-te uma Kalachnikov, dois carregadores, duas granadas, e mandam-te combater. Dois exércitos de sem-abrigo que lutam sem a mínima perspectiva. Que moralidade se há-de esperar deles? (...) Vi um responsável de uma das nossas administrações militares a falar apaixonadamente. Sustentava, entusiasmado, que 50% dos soldados recrutados à força em rusgas de rua para serem mandados para a linha da frente se tornariam em soldados muito patriotas que tomariam de assalto as zonas ocupadas. Talvez fosse assim em 2023, até no primeiro semestre de 2024, mas tudo isso pertence ao passado. Mesmo entre os potencialmente motiváveis, o sistema abafa qualquer motivação logo à cabeça. Os soldados mobilizados ficam meses sem receber. (...) E por cada soldado ucraniano há dez chuis do alto comando e do SBU [serviços de segurança da Ucrânia, Ndr] a vigiá-lo.”

Rússia: “Sois cobardes?”

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército. A directora Kirsanova reuniu então os 400 estudantes de dezoito anos de idade e lançou-se numa longa tirada de imprecações contra eles. A cena foi filmada por um estudante e vazada para as redes sociais. A directora acusou os jovens de só se terem inscrito no instituto para conseguirem adiar o serviço militar até “a guerra acabar”. Aos berros: “Gente, é a pátria que chama! Têm de aceitar! De que têm medo? Têm medo de regressar num caixão de zinco? De onde vos vem esse medo? Quem vo-lo inspirou? (...) Vocês são cobardolas, para aí sentados, aterrorizados?” A divulgação da cena nas redes sociais causou indignação. Houve alunos que se queixaram aos pais de os estarem a “manipular”. Não contente, a directora apresentou queixa ao FSB, a polícia política. Parece que nem a propaganda militarista do regime de Putin, nem a repressão nem a censura conseguem convencer a juventude a ir voluntariamente para o “matadouro”.

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Alemanha: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”

Realizou-se em Göttingen, na Alemanha, nos dias 14 e 15 de Fevereiro, a primeira conferência nacional do movimento de greve escolar contra o serviço militar obrigatório. Participaram mais de 250 jovens e estudantes de 70 cidades. Excertos da resolução aprovada:

“No dia 5 de Dezembro, na manifestação de 55 mil jovens e estudantes, manifestámos claramente que “Não queremos serviço militar! Queremos ter um futuro!” Nesse mesmo dia, o Bundestag [o Parlamento federal] adoptou a lei dita de modernização do serviço militar, dando um passo para a restauração do serviço militar obrigatório. Logo em Janeiro, todo os jovens nascidos em 2008 começaram a receber questionários de avaliação das suas competências e motivação para o serviço militar. A conscrição obrigatória é para começar em 2027. O governo diz que o serviço militar obrigatório e o rearmamento são necessários para nos defendermos. Nós perguntamos: como há-de o rearmamento garantir a paz e porque havemos nós de precisar de ter o Exército mais poderoso da Europa para vivermos em segurança? O chanceler Merz fala numa nova “era de política de grandes potências”, na qual a Alemanha teria que actuar com confiança em si. Mas nós sabemos que política de grandes potências quer dizer disputa, recorrendo à força, de mercados, recursos e esferas de influência à custa de meter ainda mais dinheiro no Exército e na economia, e menos na educação, na protecção social e no ambiente. Quer dizer ampliar ainda mais a NATO, mesmo que o preço seja provocar novas guerras. No mundo que o Governo federal quer para nós, não sobra nenhuma perspectiva para o nosso futuro a não ser crescer na pobreza e aprender em escolas arruinadas, enquanto a crise climática progride sem dar tréguas.

O ministro da Defesa Pistorius quer-nos convencer de que a conscrição de uma geração inteira serve para defender a democracia. Nós dizemos que o que interessa a este Estado não é a nossa liberdade e a nossa opinião. O destacamento de tropas para o estrangeiro, a militarização e o serviço militar obrigatório são contra os nossos interesses. (...) Põem-se milhares de milhões no rearmamento, preparando o terreno para a próxima grande guerra. Enquanto isso, as cotações das acções de empresas de armamento como a Rheinmetall, ThyssenKrupp, KNDS e companhia sobem vertiginosamente. (...) Por tudo isto, preparamos desde já a greve à escola de 5 de Março e levaremos a cabo acções nas nossas escolas.”

A concluir, a resolução apela à generalização de comités de organização da greve à escola e a entrar em contacto com as secções de juventude dos sindicatos, com os sindicatos, os pais e professores. Conclui com o título deste artigo: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”

Irão, Estados Unidos: Generalização da guerra contra os povos e a juventude de todo o mundo

No Irão, a aliança israelo-americana continua a matar e a destruir sem piedade. Trump diz agora que só parará quando o Irão se render incondicionalmente. Ninguém sabe sequer o que tal significa.

Como escrevíamos no editorial da semana passada, as descabeladas justificações dadas por Trump e pela sua mafia para o ataque ao Irão — da destruição dos projectos nucleares do Irão (que Trump há meses declarara ter “obliterado” com as suas fantásticas bombas de perfuração profunda) a uma ameaça iminente (!) de ataque iraniano e ao inexistente programa de construção de mísseis intercontinentais do Irão — têm como única lógica a destruição de tudo o que possa fazer frente ao polícia sionista designado para o Médio Oriente.

Submetam-se ou morrem, é a palavra de ordem que sai da Casa Branca.

Do genocídio de Gaza à virtual anexação da Cisjordânia, da entrega do poder ao regime talibã no Afeganistão à entrega da Síria desfeita a um comandante do Daesh e aos bombardeamentos do Irão, há um fio condutor, um só: e não, não é a “democracia” nem o fim da ditadura teocrática dos mulás. É que mergulhem os povos e países no caos absoluto, que sobrem Estados “falhados” — o que interessa, a segurança do petróleo e dos respectivos lucros, ficará garantido pelo Exército sionista, por milícias privadas e, em última análise, pelo Pentágono. No fundo, a situação que campeia há décadas na África Central, a zona mais rica do mundo em minérios, onde as multinacionais prosseguem calmamente os seus negócios no meio da guerra e do caos permanentes. Não há actualmente solução mais barata para os imperialistas, enquanto eles preparam as próximas guerras.

Têm toda a razão, pois, os liceais alemães, os desertores e refractários ucranianos e russos, tal como a tem a população do Minnesota, que fez greve geral para correr com os esbirros nazis do ICE. Contra esta marcha para a generalização do caos e da guerra, a única saída está em organizar a resistência e lutar contra os opressores e seus cúmplices nos nossos próprios países.

Estas guerras não são nossas. Elas vão contra os interesses dos jovens e dos trabalhadores na Rússia, na Ucrânia, na Alemanha, no Irão, nos Estados Unidos — e em Portugal, onde um governo servil deixou os agressores norte-americanos usarem à vontade a base das Lajes, sem sequer lhe darem cavaco a ele, nem ele o dar ao povo.

Em parte alguma do mundo os trabalhadores e os jovens, destinados a ser ou carne para canhão ou “danos colaterais”, têm interesse em matar ou morrer pelas conquistas e os super-lucros do grande capital, que só servirão para explorar ainda mais quem sobreviver à matança.

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Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista

De “algures na Rússia” chega-nos uma denúncia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e das consequências diametralmente opostas que tem para o povo e para os oligarcas.

ilustração: www.instagram.com/ricardomiguelferreira/

Começou há quatro anos a “Operação Militar Especial” (SVO), a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Para o Governo Russo, era para ser uma “guerrita vitoriosa”, uma blitzkrieg que em pouco tempo daria “resultados excepcionais”.

Entramos no quinto ano de lei marcial. Não obstante, os dirigentes russos continuam a afirmar que a guerra é uma bênção, que puxa a economia para êxitos sem precedentes. Será verdade? Tentemos perceber.

A SVO: para os trabalhadores, morte; para os oligarcas, lucros

Olhemos para os números. Primeiro número: 1461 dias. O tempo que a guerra já dura. Para comparação, a Grande Guerra Patriótica (1941-1945), a mais terrível para o nosso povo, durou 1418 dias. Sobrevivemos. Mas nessa altura, o povo sabia que estava a defender as conquistas do sistema socialista contra os invasores fascistas. Hoje, em nome de que interesses são os soldados mandados para a frente de batalha?

Outro número: 1,2 milhões de pessoas. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) dos Estados Unidos, é o número de baixas russas até ao final de 2025 (mortos, feridos e desaparecidos). As baixas combinadas de ambos os lados aproximam-se de 2 milhões. Mais do que em qualquer outra guerra, desde a Segunda Guerra Mundial. Por trás de cada número há um trabalhador, um irmão nosso enviado para o matadouro pelos dois lados.

Quem lucra com esta carnificina? Terceiro número: 146. O número de milionários com mais de mil milhões de dólares que a Rússia tinha em 2025. Número que, durante a guerra, subiu de 125 para 146. A sua riqueza combinada atingiu o valor recorde de 625 500 milhões de dólares.

1,2 milhões de pessoas. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) dos Estados Unidos, é o número de baixas russas até ao final de 2025.

Quarto número: 90%. Menos de 1% da população russa é detentora de mais de 90% dos depósitos bancários.

Não contente em lucrar com a guerra, o capital concentra-se mais do que nunca nas mãos de um punhado de oligarcas. Quanto ao comércio da Rússia com a Europa, não parou. O petróleo e o gás fluem, desde que sejam pagos. Não é um “choque de civilizações”, como afirma a televisão. É uma guerra imperialista clássica, por mercados e por lucros.

O Estado está a construir um campo de concentração digital

Para silenciar a população enquanto a espolia e sacrifica, o governo cria um sistema de controlo total sobre a internet.

Segundo o site OVD-Info, de 24 de Fevereiro de 2022 a 17 de Fevereiro de 2025, 20 081 pessoas foram detidas por manifestarem a sua oposição ao conflito. Censura total e inaceitável.

A saúde? O Estado capitalista advoga a “optimização” dos serviços públicos. Em vez de nos tratar, o Estado aconselha-nos a “praticar desporto em vez de ir ao médico”. Não é uma piada, é a realidade nua e crua. As consequências desta “optimização” são dramáticas: a prevalência do sarampo aumentou onze vezes, a da rubéola seis vezes, a da tosse convulsa 4,5 vezes e a da papeira 3,5 vezes.

Metade dos doentes afectados por doenças raras foram obrigados a interromper o tratamento em 2024 por falta de subsídios estatais para medicamentos. Em Kaliningrado, tenta-se privatizar os serviços de emergência: as chamadas vão passar a ser cobradas. Diz-se com todas as letras à classe trabalhadora: não precisamos de vocês, vão-se lixar. Um trabalhador que se atreva a protestar fica sujeito à lei que pune “ofensas à reputação do Exército”. Criticar a carestia ou exigir salários dignos é considerado “ofensa à reputação do Exército”, com o consequente cortejo de processos judiciais, penas de prisão e revistas.

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Duas Rússias frente a frente

A guerra pôs duas Rússias uma contra a outra. A primeira, menos de 1% da população, tudo possui. A outra, que trabalha e combate na linha da frente, endividada e pobre. Quinto número: 50 milhões. É o número de russos fortemente endividados, 40% da população solvente.

A propaganda oficial alardeia que “a taxa de desemprego está historicamente baixa”. Entretanto, os trabalhadores das fábricas de armamento matam-se a trabalhar, em três turnos, e vêem os salários comidos pela inflação. Mais: quando acabar a economia de guerra, estes trabalhadores vão parar à rua; esperam-se despedimentos em massa.

A campanha anti-imigração lançada nos últimos anos prejudica igualmente os interesses dos trabalhadores. O governo, que se atreve a intitular-se “antifascista”, organiza rusgas policiais de mãos dadas com grupos de extrema-direita como a Russkaïa Obchtchina (Comunidade Russa) e a Severny Chelovek (Homem do Norte). Em algumas regiões, os imigrantes estão proibidos de trabalhar ou de receber tratamento médico, e os filhos, impedidos de frequentar a escola. Países da Ásia Central, como o Quirguistão, têm protestado. Os sentimentos nacionalistas estão a ganhar terreno, minando a solidariedade internacional do proletariado.

Negociações: a ilusão da paz

Há um ano, nós, comunistas, avisámos que as negociações não passam de uma forma alternativa da competição imperialista. Assim acontece. Com Trump, os Estados Unidos mudaram de discurso, não porque desejem a paz, mas para atrair a Rússia para o seu lado e desviá-la da China. Apesar das fanfarronadas do secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Sergei Shoigu, as armas russas vendem-se cada vez menos.

Que lições para a classe trabalhadora?

Lenine demonstrou que os trabalhadores só conseguem dos seus exploradores condições melhores se as conquistarem pela sua própria luta. A greve na fábrica Morozov, em 1885, obrigara os patrões a fazerem concessões graças à acção colectiva e consciente dos trabalhadores.

A lição mantém a sua relevância. Enquanto permitirmos que os capitalistas nos dividam por nacionalidade, enquanto confiarmos na televisão e enquanto temermos ser processados ​​por “ofensa à reputação do Exército”, eles continuarão a enviar-nos para o matadouro para exclusivo lucro dos oligarcas.

Os números apresentados revelam a verdadeira face da guerra imperialista. Só a união pelos nossos interesses de classe e contra o nosso inimigo comum — o capital e o Estado — lhe poderá pôr termo.

Abaixo a guerra imperialista! Viva a luta consciente da classe trabalhadora! Pela revolução socialista!

Algures na Rússia, 20 de Fevereiro de 2026.

categoria-internacional Guerra Rússia edicao-2026-01-08 (10)

Premissas económicas para a paz

НАСТОЯЩИЙ МАТЕРИАЛ (ИНФОРМАЦИЯ) ПРОИЗВЕДЕН И (ИЛИ) РАСПРОСТРАНЕН ИНОСТРАННЫМ АГЕНТОМ КАГАРЛИЦКИМ БОРИСОМ ЮЛЬЕВИЧЕМ ЛИБО КАСАЕТСЯ ДЕЯТЕЛЬНОСТИ ИНОСТРАННОГО АГЕНТА КАГАРЛИЦКОГО БОРИСА ЮЛЬЕВИЧА. 18+


(ESTE MATERIAL (INFORMATIVO) FOI PRODUZIDO E (OU) DIVULGADO PELO AGENTE DO ESTRANGEIRO BORIS IULEVICH KAGARLITSKI OU RELACIONA-SE COM ATIVIDADES DO AGENTE DO ESTRANGEIRO BORIS IULEVICH KAGARLITSKI. 18+)1

Ao avaliar, no final de 2025, a situação económica na Rússia, Ekaterina Shulman, considerada agente do estrangeiro, sugeriu que o país estava a ficar sem dinheiro e sem pessoas. E, de facto, tudo indica que alguma coisa está a acabar. Mas o dinheiro não é com certeza. Ao Estado nunca se acaba o dinheiro.

É uma particularidade do pensamento dos especialistas liberais tudo reduzirem ao dinheiro. Ora, o dinheiro não passa de um instrumento que ajuda a redistribuir outros recursos. Claro que, se irrefletidamente criado, ele deprecia-se. Sabemos de épocas em que até o ouro e a prata se desvalorizaram. Não obstante, a questão fundamental é: que recursos; e: como se distribuem eles através da despesa pública. Ora, esses recursos são sempre limitados (é nisso, aliás, que consiste a essência da economia, a ciência de trabalhar com recursos limitados), o eles acabarem é uma sua propriedade intrínseca.

As pessoas, a reserva de efetivos tanto para a guerra como para a produção, são também um recurso — e são um recurso extremamente limitado. Já lá vai, e há muito, o tempo em que se podia partir do princípio, tal como o fazia o oficial russo do século XVIII, de que “as mulheres parem mais”. Não são menores, porém, os problemas que, em tempo de guerra, se manifestam noutros recursos: metais, combustíveis, energia elétrica, capacidade ferroviária, equipamento que tende para a obsolescência e se desgasta, etc. O resultado de uma campanha militar depende, em boa medida, da forma como todos esses recursos são distribuídos.

O famoso economista soviético Y. V. Yaremenko fez notar, ao desenvolver a noção da economia multiníveis, que a diferença também está na qualidade dos recursos. Assim como o metal pode ser bom ou nem tanto, também os especialistas podem ser altamente qualificados ou não muito competentes. Na URSS, o complexo militar-industrial absorvia todos os melhores recursos de forma ilimitada. Os demais sectores da economia viam-se obrigados a compensar a falta de qualidade com quantidade. E quanto menor a prioridade do sector, pior a situação.


As pessoas, a reserva de efetivos tanto para a guerra como para a produção, são também um recurso — e são um recurso extremamente limitado

Voltando à questão dos recursos humanos, vê-se que, sendo esse o método, a produção civil começa a sofrer de uma escassez crónica de pessoal, mesmo que pareça haver gente suficiente. No fim de contas, os melhores especialistas são necessários precisamente onde faltam recursos e onde eles, com a sua inteligência, talento e experiência, podem corrigir a situação, imaginar maneiras de se desenvencilhar, inventar algo novo. Porém, passa-se exatamente o contrário. Com as melhores cabeças técnicas já concentradas na indústria militar, os restantes sectores têm de viver de migalhas.

O problema é que a crise crescente da produção civil começa a afetar a economia como um todo, espalhando-se de baixo para cima. Os trabalhadores do complexo militar-industrial também precisam de comprar roupa e ovos, de levar os filhos às creches e escolas, de se tratar nas clínicas, etc. Os dirigentes do país estão cientes do problema, mas é aí que surgem as dificuldades com o dinheiro. Verifica-se, no mais, que tais dificuldades são ainda maiores na economia de capitalismo de mercado russa do que eram na economia de planeamento administrativo da URSS.

Como já se disse, os economistas liberais — não sendo exceção os que trabalham para o Estado — veem todos os problemas como problemas monetários e resolvem-nos em consonância. Em condições “normais”, a coisa funciona mais ou menos, mas, em condições de crise, não. O que distingue, com efeito, as situações de crise é que, nelas, os métodos habituais não só não produzem o efeito esperado, como muitas vezes ainda agravam a situação. A própria especificidade da crise atual é que as autoridades económicas se preocupam (em total conformidade com a doutrina da gestão financeira) não só em cobrir o défice objetivo de recursos — que, no mais, não irá desaparecer — , injetando fundos adicionais, mas também em manter o financiamento de sectores e projetos prioritários, combinando-o com uma austeridade rigorosa e uma política fiscal ainda mais rigorosa, na tentativa de conter o aumento dos preços e equilibrar o orçamento. O principal resultado desta maneira de fazer é os desequilíbrios económicos e sociais intensificarem-se.

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A teoria monetária moderna (TMM) alternativa à teoria liberal clássica é muitíssimo mais tolerante com a impressão de dinheiro, não divisando grande desastre no aumento do défice orçamental — que, no final de 2025, já ultrapassava os quatro biliões de rublos. Um matiz importante é, contudo, que os teóricos da TMM propõem que o dinheiro adicional vá para onde há recursos inativos que, graças ao financiamento estatal, possam ser postos em movimento. Por exemplo, jazigos minerais conhecidos para os quais não há investidores. Ou um número grande de desempregados, que possam ser ocupados em trabalhos socialmente úteis. A situação em que nos encontramos é, porém, o contrário disto. O Banco Central e o Ministério das Finanças estão a pôr dinheiro não onde há potencial de recursos, mas onde já não há recursos disponíveis. Que não vão aparecer só por se aumentar o financiamento. O metal não se funde sozinho, e os soldados não crescem de debaixo da terra, por muito que a semeiem com dentes de dragão como fizeram os heróis do mito antigo.

Há, além disso, um outro recurso limitado: o tempo. Só Deus o tem infinitamente — e para isso é preciso que ele exista. Para os mortais, o tempo não só é um recurso limitado, como não é renovável. Por outras palavras, erros cometidos antes e oportunidades perdidas costumam tornar impossível recuperá-lo. Na primavera e no verão de 2024, quando parecia que a economia nacional não se estava a dar nada mal com as sanções nem com o fardo das despesas militares, era possível tomar medidas de racionamento dos recursos, protegendo o sector civil da escassez e o sistema financeiro do aumento espontâneo dos preços. Mas para quê, se, nessa altura, tudo estava, em princípio, a correr bem sem nada disso? Ainda por cima, se se alcançasse um acordo de paz entre o outono de 2024 e a primavera de 2025, como muitos esperavam, as dificuldades temporárias não chegariam provavelmente a transformar-se em crise aberta. Só que esse momento já lá vai. A escassez de recursos agudizou-se, tomando, para o poder, a forma de défice monetário crítico. Continuar a aumentar o financiamento de sectores e programas prioritários só fará que os desequilíbrios se aprofundem ainda mais, o sistema monetário se desequilibre definitivamente e a crise social se aprofunde quando sectores inteiros da economia e grupos sociais reduzidos a rações míseras não conseguirem sequer garantir minimamente o nível necessário de investimentos para a sua própria reprodução.

A situação é perfeitamente reconhecida pelas autoridades e, por isso, a vontade de paz dos círculos dominantes aumenta na proporção direta do agravamento da crise. Só que o problema não se reduz a que o agravamento da crise irá inevitavelmente exigir que os recursos voltem a ser redistribuídos para os sectores civis; surgirão igualmente questões políticas e ideológicas que só podem continuar a ser sacudidas enquanto as hostilidades continuam. Além disso, tal redistribuição implicará uma série de decisões difíceis. Poderá ser feita por métodos de mercado ou administrativos, de forma mais ou menos eficaz — em qualquer dos casos, ela já hoje é incompatível com a intensificação do esforço militar. E mesmo que tudo seja feito de forma competente, é inevitável que surjam inúmeras dificuldades e conflitos ao longo do processo. A compreensão disso por parte dos detentores do poder também contribui para a tendência para deixar tudo como está por algum tempo, sem tomar medidas irreversíveis. No entanto, adiar decisões para um futuro indefinido não só não facilita a escolha, como agrava problemas existentes.

Em última análise, as autoridades terão de tomar decisões políticas. Talvez então se possa pôr um ponto final.


1 Esta nota acompanha o artigo de Boris Kagarlitski, que está preso, acusado de ser um “agente do estrangeiro” por ter criticado a “operação especial” do Kremlin na Ucrânia.


Publicado originalmente em Рабкор (Rabkor, Correspondência dos Trabalhadores). Tradução de Adriano Zilhão.

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Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky

Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia, defende Felipe Alegria.

A intervenção de potências imperialistas rivais nos conflitos e guerras dos países semicoloniais é um facto presente desde o surgimento do imperialismo e hoje apresenta-se de forma cada vez mais acentuada. Ninguém pode negar a intensa intervenção indireta dos EUA e da UE na guerra da Ucrânia, bem como o carácter pró-imperialista e anti-operário do governo Zelensky. No entanto, isso não elimina o aspeto central: estamos perante uma guerra de agressão nacional do imperialismo russo, segunda potência militar do mundo, contra uma nação semicolonial, muito mais fraca, usando como ferramenta a violência e métodos de extrema crueldade. Uma guerra cujo objetivo é o controle de um país que é um enorme “celeiro”, tem uma localização geográfica fundamental para o trânsito energético e comercial da região e uma dimensão e recursos que o Kremlin precisa para o seu projeto da Grande Rússia.

Este facto define uma guerra justa por parte dos Ucranianos: uma guerra de libertação nacional contra um exército imperialista invasor. A intervenção indireta dos imperialismos norte-americano e europeu (sem esquecer o chinês), cada um com os seus próprios interesses, bem como a natureza pró-burguesa e pró-imperialista do governo Zelensky, devem ser tidas em conta para precisar a política, mas não alteram este facto substancial.

Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia. Para aqueles que defendem esta posição, não importa se a Ucrânia ou a Rússia triunfam, porque em ambos os casos um campo imperialista venceria e a classe trabalhadora e os povos ucraniano e russo perderiam sempre.

Contudo, apenas poderíamos definir a guerra atual na Ucrânia como imperialista, caso o comando militar efetivo passasse para as mãos dos EUA, com o controlo tecnológico completo e a necessária intervenção de tropas no terreno. Algo que não aconteceu e que é altamente improvável, justamente quando Trump quer obrigar Zelensky a aceitar as condições de Putin, em troca de dividir com este os recursos ucranianos e a exploração do Ártico, bem como afastar a Rússia da China.

Alguém acha que é possível desmascarar as intrigas e os enganos da NATO se não for a partir das trincheiras ucranianas?

A classe trabalhadora europeia deve apoiar o povo ucraniano na luta pela sua liberdade e integridade nacional, integrando esse apoio na luta por uma saída socialista para a Ucrânia e a Rússia e por uma Europa socialista; desmascarando e enfrentando, nesse processo, o governo Zelensky, o imperialismo norte-americano e a UE.

O apoio expressa-se, por exemplo, na organização de comboios de ajuda, como os enviados por sindicatos como o Solidaires (França), a CSP-Conlutas (Brasil), a Inicjatywa Pracownicza (Polónia), ou o STASA (Portugal), ao sindicato mineiro-metalúrgico de Kryvyi Rih (com muitos dos seus membros na frente de batalha), ou na campanha para que os lutadores classistas como Denys Matsola e Vlad Zhuravlev, presos na defesa de Mariupol, sejam incluídos nas listas de troca de prisioneiros de guerra. Significa também apoiar as grandes mobilizações que ocorreram contra a tentativa de Zelensky de controlar os organismos anticorrupção, bem como unir-se à repulsa generalizada do povo ucraniano às pretensões de Trump.

Os defensores da tese “Nem com Rússia, nem com a Ucrânia”, quando defendem a retirada das tropas russas da Ucrânia, não vão além de uma declaração verbal. Isto porque, para eles, não existe uma guerra justa de libertação nacional, mas sim uma “guerra reacionária” de ambos os lados, na qual os Ucranianos são meros “bancos de carne” dos EUA… que são amigos de Putin.

Por outro lado, alguém acha que é possível desmascarar as intrigas e os enganos da NATO se não for a partir das trincheiras ucranianas? Alguém considera que é possível combater Zelensky sem ser “os melhores soldados contra Putin”? O que dizem aos trabalhadores ucranianos, muitos deles na linha de frente: que não se deve combater o invasor porque ambos os campos bélicos são reacionários e que eles não passam de fantoches dos EUA e da UE?

O resultado da guerra dependerá da força da resistência da classe trabalhadora e do povo ucraniano ao seu governo pró-imperialista e à pilhagem russa, norte-americana e europeia. Também dependerá disso o impulso da luta da classe trabalhadora e dos povos da Federação Russa e da sua periferia.

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O inimigo dentro de portas

A EU, em conivência com Zelenski, faz campanha não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO.

A guerra é um momento de verdade para os Estados, que são os seus protagonistas essenciais, mas também para os indivíduos, que, na sua origem e decurso, são os seus potenciais algozes e vítimas. A minha tese principal consiste em afirmar que a União Europeia se transformou no principal inimigo dos Estados europeus e sobretudo da vida e da fazenda dos cidadãos europeus. E é a guerra da Ucrânia a grande prova de fogo que serve de demonstração a esta tese.

É verdade que até Josep Borrell, Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança (2019-2024), afirmou em final de outubro de 2024, que com a cumplicidade ativa da UE no genocídio praticado pelo Estado de Israel contra o povo palestiniano em Gaza, o projeto iniciado por Jean Monnet “perdeu a sua alma”. Contudo, essa queda da UE no espesso lodo da moral pública, começou muito antes, tendo-se revelado com a guerra da Ucrânia e as suas raízes. Compreender a historicidade e multidimensionalidade desse processo é indispensável para perceber os motivos que me levam a sustentar que atualmente a principal ameaça existencial aos povos europeus não reside na Rússia nem nos EUA, mas sim no colapso cognitivo e na furiosa russofobia dos órgãos supremos da UE. Vejamos os principais argumentos demonstrativos.

Primeiro. A UE, com uma responsabilidade especial para a Alemanha, confundiu-se crescentemente com a NATO, sendo cúmplice ativa da tentativa dos EUA de, depois da dissolução da URSS, manter a Rússia à margem de um novo e indivisível sistema de segurança europeia. De 1990, ano da falsa promessa de não alargamento da NATO para Leste, até 24-02-2022, data da invasão russa da Ucrânia, temos três décadas de sucessivas tentativas de marginalizar as “garantias de segurança” da Rússia, explorando todas as vias para fomentar a fragmentação e a dissensão dentro e fora das fronteiras desse país. Isso continua bem vivo, já depois da 2022, na manutenção do objetivo declarado da UE de infligir uma “derrota estratégica” a Moscovo, o que seria igual à fragmentação da Rússia em cinco ou seis Estados mais pequenos, como lembra, repetidamente, a atual chefe da diplomacia de Bruxelas, Kaja Kallas.

Segundo. Usando o direito internacional como desculpa para a autoflagelação estratégica, a UE, e em particular a Alemanha, enveredaram (depois de 2014 e 2022) por uma política de sanções contra a Rússia que se voltou contra os interesses da economia e da qualidade de vida dos Europeus, suportando o objetivo disruptivo dos EUA de destruir a cooperação mutuamente vantajosa entre a Rússia e a UE, contrariando todos os esforços diplomáticos para encontrar uma solução para o rápido fecho do conflito. O gigantesco financiamento do governo de Kiev, conhecido pelo tradicional e elevado nível de corrupção, foi feito sem escrutínio (ao contrário do que ocorreu no período da crise do euro com a vigilância da troika à política orçamental de Portugal, da Grécia e da Irlanda).

Como recompensa pelos seus bons serviços, talvez Paulo Rangel termine a sua carreira política como governador [de uns Açores tutelados pelos EUA].

Terceiro. A UE mergulhou os Europeus numa cortina de propaganda, com um controlo férreo das narrativas sobre a guerra. A imposição de uma mitologia simplificadora foi feita com a cumplicidade da maioria dos media convencionais e o entusiasmo colaborante de muitos académicos, manifestando também o desastroso crepúsculo da “imparcialidade homérica” e da lisura intelectual nas instituições de ensino superior europeias, que as deveriam defender incondicionalmente.

Quarto. Com uma economia destroçada pela dívida pública crescente, pela estagnação económica, e pelo “imposto Trump” de 5% do PIB europeu para garantir a compra de armas aos EUA, a UE entrou num processo de violação das regras do jogo dos mercados financeiros. A tentativa gorada de roubar os ativos russos, sobretudo em títulos de dívida dos Estados europeus, transformando-os em dinheiro oferecido a Kiev para o esforço de guerra, teve como resultado a consolidação de um sentimento de desconfiança dos mercados financeiros relativamente à UE. Não só aumenta a taxa de esforço da dívida dos Estados europeus como se expande o abandono do euro como moeda de reserva internacional.

Quinto. A Comissão Europeia tem governado por decreto. O Tratado da União Europeia e o Tratado de Funcionamento da União Europeia têm sido violentados com brutalidade, através de interpretações totalmente contrárias, tanto à letra como ao espírito, desses documentos para-constitucionais. Mais recentemente, o Conselho da União Europeia na área da política externa e de segurança tem violado grosseiramente os direitos humanos ao alargar a cidadãos europeus brutais sanções que os privam de acesso aos seus bens materiais e coartam o seu direito de circulação (Council Decision (CFSP) 2025/2572 of 15 December 2025. https://eur-lex.europa.eu/eli/dec/2025/2572/oj). Estamos a falar da transformação da liberdade de expressão em delito de opinião, abolindo a separação de poderes, e o direito à defesa num julgamento justo. A UE faz-nos regressar aos tempos anteriores à Magna Carta!

Sexto. O mais grave, contudo, é a campanha organizada pela UE, em conivência com Zelenski, não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO. Responsáveis políticos e militares têm indicado o período entre 2026 e 2030 como a janela provável para tal ocorrência. Como afirmou J. F. Kennedy, num discurso em Washington, em 10 de junho de 1963: “Acima de tudo, enquanto defendem os seus próprios interesses vitais, as potências nucleares devem evitar os confrontos que levam o adversário a optar entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear. Adotar esse tipo de atitude na era nuclear seria apenas uma prova da falência da nossa política – ou de um desejo coletivo de morte para o mundo.” Esquecer a mais importante lição da Guerra Fria, que é o princípio da Destruição Mútua Assegurada (MAD). Sustentar hoje que é possível travar uma guerra vitoriosa contra a maior potência nuclear do planeta é uma prova abominável do “desejo coletivo de morte para o mundo”, reinante em Bruxelas, que só poderá conduzir à destruição definitiva da Europa, incluindo o seu património e memória, varridos no inferno nuclear.

O sonho de paz com justiça da União Europeia há muito que foi raptado pela avidez e os caprichos de uma elite neoliberal para quem a democracia é um mero instrumento, só valioso quando o resultado é o mais conveniente (basta ver a doutrina de choque praticada durante a crise do euro). Mas desta vez é diferente. Os inimigos da vida e dos bens dos cidadãos europeus, com a cumplicidade da maioria dos governos nacionais, estão sentados na Comissão Europeia, no Conselho Europeu, no Conselho da União Europeia, no Parlamento Europeu. O seu niilismo ético só é ultrapassado pela sua profunda ignorância dos resultados de uma guerra levada ao extremo entre potências nucleares. Ursula von der Leyen, António Costa e Kaja Kallas são hoje o rosto de uma incompetente desmesura europeia que nos poderá condenar a todos à aniquilação.


PS. Escassas horas depois de ter escrito o texto acima, os EUA atacaram a Venezuela e raptaram o presidente Maduro e a sua mulher, levando-os para Nova Iorque. Maduro será julgado sob a acusação de liderar o narcotráfico para os EUA. Há ainda muitas dúvidas por esclarecer. A ausência de resistência dos sistemas aéreos e das tropas terrestres venezuelanas ao raide das forças especiais norte-americanas indicia a possibilidade de um acordo prévio, talvez através do suborno de uma parte da hierarquia militar. Nas questões essenciais, contudo, não restam dúvidas. Enquanto os soldados norte-americanos destruíam qualquer resistência (fala-se de 40 mortos, pelo menos), o presidente Trump indicava o petróleo como o motivo principal do ataque. A explicação mereceria um texto mais longo, mas as questões-chave são as seguintes: a) os EUA carecem de crude pesado (heavy crude oil) para as suas principais refinarias. Elas estão instaladas perto do Canadá (nos estados do Illinois e do Montana) e da Venezuela (nos estados da Luisiana e do Texas). Os outros grandes exportadores, Arábia Saudita e Rússia, estão envolvidos na construção dos BRICS e num novo sistema monetário internacional que rompa com os petrodólares (a obrigação de todas as compras de combustíveis fósseis serem efetuadas na moeda dos EUA). Este ataque dos EUA à Venezuela é um regresso ao imperialismo boçal, baseado na força militar e não no softpower do poderio económico e cultural, que passou a ser dominante após 1945. Trump fala como se a submissão da Venezuela estivesse completa, mas esse país não é o Panamá. Muito sangue irá ainda escorrer. O que é certo é a total inaceitabilidade desta ação bélica dos EUA à luz do direito internacional e do mais elementar respeito pela soberania dos Estados sobre os seus recursos naturais. Contudo, com a exceção da condenação espanhola, tanto a Comissão Europeia como os principais países europeus recusaram-se a condenar Trump, mostrando uma vergonhosa cumplicidade com ele. Porém, pelo que conheço, o cúmulo da desfaçatez pertence ao ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, que considerou “benigna” a intenção de Trump e chegou mesmo a aconselhar a Trump o nome de Edmundo González para futuro chefe de Estado em Caracas… É uma pena que Trump não o tenha escutado, pois estava ocupado a dizer que Corina Machado, a Nobel da Paz 2025, apesar de entusiasmada com a intervenção americana não tinha qualidades para esse cargo. Não tenho palavras para expressar a infelicidade que me assola por ver Portugal, além de encurralado numa UE enlouquecida, ser governado por quem prejudica os interesses nacionais e ofende o melhor da nossa herança histórica. Talvez o presidente Trump, depois de ter arrancado a Gronelândia à soberania dinamarquesa, também desembarque os seus marines em todas as ilhas da Região Autónoma dos Açores, declarando-as como um novo Porto Rico, um território tutelado por Washington. Nessa altura, como recompensa pelos seus bons serviços, talvez Paulo Rangel termine a sua carreira política como governador. Viver rodeado pelo Atlântico por todos os lados será o melhor habitat para um atlantista incondicional como o atual MNE.

Ucrânia-Rússia: quatro anos depois
A juventude recusa ir para o matadouro
Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista
Premissas económicas para a paz
Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky
O inimigo dentro de portas
Ucrânia-Rússia: quatro anos depois
categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia edicao-2026-03-19 (20)

Ucrânia-Rússia: quatro anos depois

Quatro anos de guerra enfraqueceram drasticamente Ucrânia e Rússia. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. A Rússia sustenta o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025

Michael Roberts
A juventude recusa ir para o matadouro
categoria-internacional Alemanha EUA Greve estudantil Guerra Irão Rússia Ucrânia edicao-2026-03-12 (19)

A juventude recusa ir para o matadouro

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército

Adriano Zilhão
Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista
categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia

Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista

De “algures na Rússia” chega-nos uma denúncia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e das consequências diametralmente opostas que tem para o povo e para os oligarcas.

Adriano Zilhão
Premissas económicas para a paz
categoria-internacional Guerra Rússia edicao-2026-01-08 (10)

Premissas económicas para a paz

Ao avaliar, no final de 2025, a situação económica na Rússia, Ekaterina Shulman, considerada agente do estrangeiro, sugeriu que o país estava a ficar sem dinheiro e sem pessoas. E, de facto, tudo indica que alguma coisa está a acabar. Mas o dinheiro não é com certeza. Ao Estado nunca se acaba o dinh

Boris Kagarlitski
Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Rússia Ucrânia

Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky

Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia, defende Felipe Alegria.

Filipe Alegria
O inimigo dentro de portas
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Rússia União Europeia Venezuela edicao-2026-01-08 (10)

O inimigo dentro de portas

A EU, em conivência com Zelenski, faz campanha não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO.

Viriato Soromenho-Marques

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