O Irão está a atravessar uma fase de excepcional violência e intensidade. Depois do genocídio na Palestina e da destruição em grande escala infligida ao Líbano, os Estados Unidos e Israel participam também na destruição de vidas, corpos, territórios e infra-estruturas vitais no Irão. Têm alvejado não só refinarias e depósitos de combustível, mas também instituições de saúde, recursos hídricos, sistemas energéticos, instalações petrolíferas, escolas e outros espaços civis. Em Minab, uma escola de raparigas foi totalmente destruída e mais de 168 pessoas foram mortas, entre elas crianças baloches. A guerra desfaz as condições da reprodução social, aprofundando ainda mais a vulnerabilidade das classes trabalhadoras. Mina a base material da autonomia social, fazendo recuar vários patamares as lutas dos de baixo e reforçando formas de etno-nacionalismo promovidas pelo Estado ou pela sociedade. A rápida passagem, no espaço de um mês, da promessa de Trump de “voltar a engrandecer o Irão” à ameaça de reduzir o país à “idade da pedra” — uma fórmula que lembra inevitavelmente a linguagem da Guerra do Golfo de 1991 contra o Iraque — dissipou a última réstia de ambiguidade quanto à lógica imperial do que se passa.
Não se pode, porém, entender esta violência imperialista “externa” separadamente da crise interna pela qual a República Islâmica tem tentado restaurar a sua autoridade. Desde a revolta de 2022 a seguir ao assassinato da jovem curda Jina Mahsa Amini pela polícia, a República Islâmica tem sempre procurado, em todas as guerras e crises geopolíticas, maneira de repor parte da autoridade e respeitabilidade perdidas.
O paradoxo do ataque imperialista e da legitimidade do regime
A guerra travada pelo poder colonial genocida israelita contra os palestinianos após 7 de Outubro de 2023, a que se seguiu o primeiro ataque israelo-americano ao Irão, em Junho de 2025, ofereceu à República Islâmica o primeiro quadro de reabilitação. No entanto, o massacre de Janeiro de 2026, em que milhares de manifestantes iranianos foram mortos pelas forças do Estado teocrático em apenas dois dias, simplesmente por protestarem contra a crise económica e a ditadura política, reabriu uma crise de legitimidade aguda para Teerão, a nível interno e internacional.
Estavam os Iranianos ainda de luto, e muitas famílias ainda nem tinham conseguido recuperar os corpos dos seus entes queridos mortos em Janeiro, quando os Estados Unidos e Israel lançaram uma nova invasão imperialista, em 28 de Fevereiro de 2026, ainda mais violenta do que os ataques anteriores. Paradoxalmente, estes ataques têm, para já, ajudado a República Islâmica a recuperar parte da credibilidade que tinha perdido com a repressão sangrenta do mês anterior.
Estes dois acontecimentos, o massacre e a guerra, não constituem sequências separadas nem duas formas opostas de violência — uma repressiva e a outra supostamente libertadora —, mas sim momentos sucessivos, assimétricos até, de um processo contra-revolucionário interligado. A guerra “externa” prolonga e aprofunda a contra-revolução interna, permitindo ao Estado iraniano reforçar a coesão interna e, mais uma vez, abafar a inconformidade popular.
Reconhecê-lo não minimiza de modo algum que o Irão tenha sido e continue a ser alvo de uma agressão imperialista e colonialista levada a cabo com impunidade. Obriga-nos, sim, a ver este ataque em termos da sua função política mais profunda: em primeiro lugar, como empreitada assassina de destruição que alveja vidas, corpos, infraestruturas e territórios civis, posta em andamento com falsos pretextos e extensão da empreitada genocida levada a cabo em Gaza, assim como na Cisjordânia e no Líbano; e, em segundo lugar, como oferta de novos recursos à República Islâmica para a sua própria reconstituição.
O que é o “campismo”?
A agressão israelo-americana reforça a militarização do Irão, a repressão e a esmagamento das revoltas vindas de baixo. Intensifica, também, uma letal polarização política. De um lado, parte da oposição, especialmente os monárquicos, aplaudiu os bombardeamentos imperialistas em nome da hostilidade ao Estado teocrático. Do outro lado, outras forças políticas voltaram a cair na órbita da República Islâmica em nome do anti-imperialismo e da oposição à guerra. Se a natureza reaccionária da primeira destas correntes — pró-Israel, pró-EUA e pró-genocídio — tem merecido pronta oposição, assente num relativo consenso entre as forças progressistas e de esquerda, a segunda tem infelizmente captado partes da esquerda — e é, em absoluto, igualmente significativa.
É neste impasse que a questão do “campismo” ressurge com particular premência. Por “campismo” refiro-me a um leque de posições e tendências que apoiam qualquer força ou Estado com base na respectiva oposição ao imperialismo ocidental, independentemente da sua própria natureza reaccionária ou progressista.
O “campismo” é um legado da Guerra Fria, articulado por auto-proclamados anti-imperialistas e apoiantes do chamado “campo da resistência”, costumando reduzir o mundo a uma lógica binária de dois “campos”: o imperialismo (os Estados Unidos, a NATO, Israel e os seus aliados) versus “a resistência” (o Irão, a Rússia, a China, a Síria de Assad, etc.). Levantamentos democráticos e subversivos contra estes últimos Estados, como o Rojava, vêem-se assim rejeitados, vistos como intrinsecamente suspeitos ou “cavalos de Tróia” do inimigo. Qualquer crítica aos ditadores é de imediato desqualificada como “cumplicidade com o imperialismo”.
Mobilizações populares são reduzidas a meras “correias de transmissão ocidentais”, ou então instrumentalizadas na medida em que possam servir a um dos campos. A lógica do “inimigo do meu inimigo” torna-se um álibi: passa a servir de desculpa para ignorar a repressão interna e os protestos que se seguem, reduzindo-os a meras parcelas de um conflito geopolítico mais vasto.
O resultado é a paralisação da solidariedade mútua internacionalista baseada nas experiências e destinos partilhados das classes oprimidas, agora porém incapaz de segurar anti-autoritarismo e anti-imperialismo na mesma mão. A pretexto de impedir a “exploração imperialista” das revoluções, os campistas tendem a privilegiar uma esquerda estruturalmente marginalizada, “prudente”, não raro condenada à derrota perpétua.
Este “anti-imperialismo assente na identidade” privilegia a lealdade a Estados “anti-ocidentais” em detrimento de uma análise do capitalismo global. E, ao fazê-lo, justifica a repressão, o patriarcado, a homofobia e o colonialismo interno em nome da “resistência”. Dá-se prioridade absoluta à luta contra o imperialismo ocidental, reduzindo-se as vítimas dos Estados “anti-imperialistas” a “danos colaterais”.
O ensaísta irlandês Fred Halliday descreveu este tipo de pensamento como “anti-imperialismo para tolos”. Em nome da hostilidade para com os Estados Unidos, esta postura reforça violentamente, na prática, um Estado teocrático que reprime a esquerda, as minorias nacionais, as feministas e os conselhos populares. O conceito foi posteriormente recuperado pela activista síria Leila Al-Shami no seu livro Burning Country para designar os apoiantes de Bashar al-Assad durante a revolução árabe da década de 2010. Da repressão soviética da revolta húngara de Budapeste em 1956 aos nossos dias, este anti-imperialismo para tolos tem servido de máscara à violência de Estado e ao esmagamento da revolta.
Observa-se tal tendência em certos segmentos da esquerda ocidental branca, mas também em modos de pensamento ligados aos processos de descolonização. Enquadra-se no que se poderia chamar de “branqueamento anti-imperialista”, o uso estratégico da retórica anti-imperialista para ocultar, justificar ou minimizar formas de autoritarismo e violência fascizante exercidas dentro das fronteiras nacionais, especialmente quando os Estados se apresentam como adversários do poder hegemónico ocidental. Embora estas figuras denunciem o colonialismo das potências ocidentais, mantêm muita cegueira, cumplicidade mesmo, para com formas de “colonialismo interno”, forma usada por povos minoritários como os curdos e os baloches para descrever a sua relação com o poder estatal iraniano.
Esta prática é também frequentemente acompanhada por uma forma de manipulação psicológica racial. A forma de manipulação psicológica clássica refere-se à que consiste em pôr sistematicamente em dúvida a palavra e estado mental das mulheres. Tendo o termo inglês “gaslighting” passado a termo de referência em psicologia e, mais tarde, ferramenta crítica do feminismo, ele abrange agora, mais amplamente, um tipo de linguagem política enganosa, violenta e até negacionista. Do estrado do relativo privilégio, “ensina-se” a comunidades historicamente sujeitas tanto à dominação imperial como à repressão interna como hão-de interpretar “como deve ser” o imperialismo e a resistência. Esta postura condescendente não se limita a restaurar hierarquias coloniais de conhecimento; tira legitimidade às ideias e experiências vividas — à própria agência — de quem está sujeito a uma trama complexa de sistemas de violência.
As consequências são bem visíveis. A República Islâmica do Irão instrumentaliza este discurso tributário da “descolonização” para rotular manifestantes de “terroristas” e endurecer o seu aparelho coercivo. É uma lógica que igualmente ajuda a justificar políticas discriminatórias dirigidas contra os migrantes afegãos no Irão: retratando-os como ameaça interna, o Estado alija para cima deles a responsabilidade por dificuldades que derivam realmente do seu próprio regime político, social e económico.
A lógica contra-revolucionária do “campismo”
Após o genocídio em Gaza e a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão em Junho de 2025, o “campismo” voltou a dominar parte da esquerda radical global no Ocidente, bem como na América Latina, em África e no mundo árabe. Ele reduz a política iraniana a um duelo entre o “Irão” e o “eixo EUA-Israel”. As revoltas populares, reprimidas no sangue desde 2017, são passadas em silêncio ou refeitas segundo os moldes do discurso oficial do Estado: “infiltração da Mossad”, “revolução colorida”, “conspiração ocidental” e assim por diante. Transforma-se os movimentos sociais em ameaças à segurança e legitima-se a repressão — da violência de rua às execuções — a pretexto do “estado de emergência” ou da “inoportunidade”. Fazendo do povo que se insurge o inimigo principal, o campismo é, na verdade, profundamente contra-revolucionário.
Sob o regime de guerra permanente que alastra, passa-se o tempo a dizer aos povos em luta que retrocedam, se aguentem aí em nome de uma urgência superior. Até os que reconhecem a natureza repressiva daquelas forças põem amiúde de lado as lutas emancipatórias em nome da estratégia. A isto chamaram Morteza Samanpour e Amir Kianpour “campismo estratégico”. Há muito que se anda a armadilhar as lutas feministas exactamente nesta mesma lógica: pede-se-lhes sempre que esperem, primeiro pela classe, agora pelo anti-imperialismo. Mas o feminismo político tem identificado claramente que a essência do adiar é que “mais tarde” tende para “nunca”. Não se relegue nenhuma luta para a “sala de espera da história” em nome de uma concepção linear de libertação, nem as sacrifiquemos a uma hierarquia de causas alegadamente mais urgentes.
Desenvolvimentos geopolíticos recentes ainda dão maior campo de manobra aos campistas. Durante a guerra de Israel contra o Irão, em Junho de 2025, a que se costuma agora chamar “Guerra dos Doze Dias”, a experiência concreta de destruição reforçou as tendências anti-guerra no interior do Irão. No entanto, após o massacre sangrento perpetrado pelo Estado, em Janeiro de 2026, parte da sociedade, exausta e confrontada com um beco sem saída, começou a ver a intervenção estrangeira, erroneamente, como meio para derrubar o governo, uma vez tentadas sem êxito outras vias internas, e mantendo-se o Estado imune à pressão. Um médico proeminente relatou que, a seguir aos protestos de Janeiro, se tinham apresentado num só hospital, em Teerão, “pelo menos mil” pacientes (manifestantes) com lesões oculares graves, todos a necessitarem de tratamento urgente para lhes tentar salvar a vista.
É precisamente aqui que o “campismo” cai por terra. Condenar a guerra externa ficando em silêncio quanto à violência estatal interna não é uma posição anti-guerra de princípio, mas uma forma de relativismo que apaga diferenças cruciais entre regimes e modalidades de violência. O caso não é uma alegação de excepcionalismo iraniano, invocado para legitimar um ataque militar, como algumas correntes trumpistas e monárquicas fizeram. A questão é, sim, a insistência em que não se possa pôr um sinal de igual entre uma ditadura teocrática em que um chefe não eleito exerce um poder extralegal sobre noventa milhões de pessoas pelo terror social, execuções, tortura, prisão política, isolamento digital, poder religioso misógino e políticas racistas-coloniais para com minorias nacionais e os migrantes afegãos; e Estados em que ainda existem liberdades civis e legais, por mais limitadas que sejam, e onde a violência opera a uma escala e em moldes estruturalmente diferentes.
Condenar, como fazem os campistas, a guerra externa ou a intervenção imperialista sem denunciar explicitamente esta violência interna e o massacre da própria população tanto é, politicamente, tresler completamente as dinâmicas no Irão, como equivale a aliar-se ao Estado contra o povo que ele mata. Os Estados governam dividindo a população e esmagando revoltas. Os campistas não resistem a esta lógica; seguem-na. Ao tomarem os Estados e os respectivos alinhamentos geopolíticos para seu ponto de referência primário, eles reproduzem e legitimam as divisões impostas de cima, substituindo as solidariedades forjadas entre os povos em luta a partir de baixo por lealdades a campos estatais.
(continua)
1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.
No passado dia 14 de setembro, a Jacobin, revista de esquerda norte-americana com grande projeção internacional, apresentou os resultados do relatório “The working-class vote is not lost” (“O voto da classe trabalhadora não está perdido”), realizado pelo Center for Working-Class Politics e pela professora de Direito norte-americana Joan C. Williams, com apoio da própria revista e da Fundação Rosa Luxemburgo.
Através das preferências de 40 000 entrevistados, o estudo procurou chegar às caraterísticas, posições e táticas que tornariam mais provável um maior apoio eleitoral dos trabalhadores dos EUA a uma hipotética candidatura do campo da esquerda (neste contexto, a alojada no Partido Democrata). Com grande sustentação estatística, o relatório apresenta conclusões que merecem um olhar interessado.
Os entrevistados valorizam, face a tópicos como “defesa da democracia” ou “questões climáticas e de guerras culturais”, a priorização da questão económica, inclusive de forma ambiciosa: investimentos públicos mais robustos em infraestruturas e criação de emprego foram considerados com maior importância do que medidas mais “contidas”, como incentivos fiscais. Foram privilegiados o acesso a boas condições laborais e a recompensa ao “trabalho árduo”, face a programas de distribuição de riqueza no abstrato, como a maior taxação a fortunas e grandes grupos económicos.
Investimentos públicos mais robustos em infraestruturas e criação de emprego foram considerados com maior importância do que medidas mais “contidas”, como incentivos fiscais.
A conexão com os “valores da classe trabalhadora” foi também enaltecida no relatório. Destes, foram destacados “a lealdade à comunidade e ao país, o orgulho no trabalho árduo, o respeito pelas instituições tradicionais e pelo cumprimento das regras, a segurança pessoal e o antielitismo”. Medidas mais progressistas (a nível de política climática, por exemplo) não necessariamente afastam os trabalhadores americanos, desde que exista uma tentativa de as conjugar com os valores identificados.
Foram bem considerados o discurso político centrado na auscultação das classes trabalhadoras (ao invés do foco nas classes intermédias) e a retórica populista visando a elite (sobretudo política). Quanto à proveniência dos candidatos, os entrevistados rejeitam aqueles surgidos de estratos mais altos, mas não necessariamente cingem a sua preferência a perfis de trabalhadores manuais. Segundo a Jacobin, “pequenos empresários, profissionais de áreas como enfermagem e ensino (frequentemente associadas ao trabalho de prestação de serviços e cuidados) e trabalhadores do setor de serviços, como empregados de mesa e balconistas, têm um desempenho junto aos eleitores da classe trabalhadora tão bom como o dos candidatos oriundos do trabalho manual”. A origem étnico-racial e o género dos candidatos foram, em regra, irrelevantes.
Estas foram algumas conclusões deste estudo alargado. Que merece, não obstante, algumas cautelas.
Mais do que conceber um projeto político de emancipação da classe trabalhadora norte-americana, o relatório pretende auxiliar, de um ponto de vista meramente eleitoral, o Partido Democrata a ligar-se às massas. Sabemos, no entanto, como a cúpula dirigente deste partido, tão comprometida com os interesses oligárquicos da classe dominante como a do Partido Republicano, tentará barrar qualquer aproximação ao ideário socialista ou mesmo social-democrata. Nesse aspeto, sem uma força político-partidária autónoma da classe trabalhadora norte-americana, o estudo arrisca-se a cair “em saco roto”. E o relatório, sendo útil para compreender os interesses eleitorais dos trabalhadores dos EUA, não os ausculta para a construção de uma real alternativa política.
Ainda assim, não se pode negar a sua importância no contexto presente. Esta assenta, simplificadamente, em três pontos.
O primeiro é, obviamente, o auxílio interno que este estudo pode oferecer à organização, preparação e (re)orientação tática de candidaturas do campo socialista (ainda que dentro dos limites do Partido Democrata) e o sucesso destas em embates futuros com o Partido Republicano, que, em 2024, granjeou amplamente o apoio das massas trabalhadoras americanas. Auxílio que “pode” oferecer, não necessariamente “vai” oferecer: falta compreender a vontade dos dirigentes políticos da esquerda norte-americana para considerar e assimilar estes dados, mesmo que eles desdigam a estratégia previamente adotada.
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Em segundo lugar, este estudo recentra a reflexão do campo socialista sobre a sua própria crise não apenas nas teorizações e sugestões de especialistas, académicos e militantes já completamente entrosados com a esquerda, mas nos genuínos anseios das massas. Curiosamente, apesar de se constituir como uma proposta política em benefício da emancipação destas últimas, são estas as menos consideradas na sua construção. As cúpulas partidárias não raras vezes fecham-se a esta auscultação. Estudos como este demonstram que a necessidade de recentrar o discurso nos problemas económicos de quem trabalha, sem deixar de considerar o trabalho como o centro da nossa vida comunitária, não é só um palpite que um punhado de intelectuais de esquerda apregoa, mas uma honesta vontade de quem dá razão de ser a esta mesma esquerda. Este recentramento não implica abdicar de determinadas linhas vermelhas, erigidas pela própria tradição intelectual em que a esquerda se insere, mas ajustar a proposta e a estratégia política para voltar a ganhar a confiança das massas.
Em terceiro lugar, o relatório pode ter o condão de inspirar experiências semelhantes noutras realidades nacionais. “Pode”, porque mais uma vez deve aliar-se à possibilidade a motivação de a concretizar. Foi sempre ressalvado que o estudo incluiu entrevistas a trabalhadores norte-americanos sobre a sua apetência por votar à esquerda em eleições nos EUA. Se consideramos a sua importância para a estratégia da esquerda, como campo político, é porque é muito o que une os anseios da classe trabalhadora norte-americana à de outras realidades nacionais, quanto mais não seja a própria condição… de classe. Ainda assim, as condicionantes nacionais importam e podem impactar alguns destes resultados. Os trabalhadores, existindo como categoria sem conhecer fronteiras geográficas, sentem-se, em grande medida, parte da sua unidade nacional, na qual estão organizados, como este mesmo relatório aponta. Olhar, em Portugal, a título de exemplo, para estes resultados e aplicá-los sem ter em conta as especificidades das massas trabalhadoras portuguesas incorre nos mesmos erros que o estudo aponta.
Por isso mesmo é necessário que se multipliquem as iniciativas deste tipo, só possíveis com uma esfera pública própria, independente do Estado e do mercado. Estas iniciativas devem ajudar a (re)pensar os caminhos da esquerda, numa altura em que surgem novos projetos políticos e em que os antigos repensam (ou deveriam) as suas orientações estratégicas. Para que antigos e novos não insistam na tendência de prezar mais uma almejada pureza ideológica do que a confiança daqueles para quem falamos.
Em 18 de junho de 2026, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou, em sessão extraordinária, o maior pacote de reformas económicas da história de Cuba depois da Revolução: 176 medidas que abrem espaço à banca privada, convertem empresas estatais em sociedades por ações, eliminam o teto de trabalhadores das pequenas e médias empresas, autorizam o investimento de cubanos residentes no exterior — com usufruto de terras por até 99 anos — e suprimem o cabaz alimentar universal vigente desde 1962. Anunciado como Programa Económico y Social 2026 e justificado pelo próprio Governo como resposta à asfixia provocada pelo bloqueio, o pacote inscreve em lei a viragem pró-mercado mais profunda desde 1959. A entrevista que aqui publicamos, realizada em Havana e Cienfuegos com Aldo Cordeiro Sauda e originalmente publicada no site brasileiro Quilombo Invisível em maio de 2026, antecedeu em poucas semanas a institucionalização desse programa.
Em 18 de junho de 2026, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou, em sessão extraordinária, o maior pacote de reformas económicas da história da Revolução: 176 medidas, organizadas em vinte e três eixos, que abrem espaço para a banca privada, convertem empresas estatais em sociedades por ações, eliminam o teto de trabalhadores das pequenas e médias empresas, autorizam o investimento de cubanos residentes no exterior — com usufruto de terras por até noventa e nove anos — e suprimem a cesta básica universal vigente desde 1962. Anunciado como Programa Económico y Social 2026 e justificado pelo próprio governo como resposta à asfixia provocada pelo bloqueio, o pacote inscreve em lei o giro pró-mercado mais profundo desde 1959.
A proposta do Partido Comunista Cubano invoca explicitamente os modelos chinês e vietnamita de abertura controlada. Os números expõem a distância que separa Havana desses paradigmas de “socialismo de mercado”. Segundo os dados compilados pelo economista Carmelo Mesa-Lago, o Estado responde ainda por 90,8% do PIB cubano, contra 40% na China e 37,3% no Vietname, e apenas 21,9% das empresas cubanas são não estatais, ante 89,7% na China e 96,7% no Vietname. Entre 2009 e 2020, enquanto a China crescia 7,4% ao ano e o Vietname 5,9%, Cuba avançava 0,9%. Já o coeficiente de Gini cubano, estimado pela socióloga Mayra Espina Prieto em 0,407, é hoje superior ao vietnamita (0,357) e ao chinês (0,385). A entrevista que se segue, realizada em Havana e Cienfuegos, originalmente publicada no site Quilombo Invisível em maio de 2026, antecedeu em poucas semanas a institucionalização desse programa. Cabe ao leitor avaliar em que medida as tendências discutidas na conversa e os limites estruturais da integração de Cuba no mercado mundial encontram confirmação nos acontecimentos anteriores.
Mesmo que as reformas económicas sejam introduzidas sem qualquer alteração no sistema político de partido único da ilha, elas seriam bem-vindas se ajudassem a aliviar a situação económica do povo cubano. Convém lembrar que nem a China nem o Vietname reformaram sob um intenso bloqueio energético e um regime de restituição patrimonial como os que pesam sobre Cuba: a ilha abre-se sob o cerco do Helms-Burton Act — a legislação extraterritorial que permite aos antigos proprietários radicados em Miami reivindicar, na justiça norte-americana, os bens nacionalizados após 1959 —, o que ameaça tornar a reintrodução do capital estadunidense incomparavelmente mais violenta do que nas experiências do Leste Asiático. A via cubana, portanto, parece aproximar-se muito mais do desastre económico dos países que sucederam à União Soviética nos anos 1990 do que o modelo apresentado pelo PC Cubano.
Longe de corrigir a crise social, a abertura ao capital estrangeiro, vindo em particular dos exilados pró-Trump de Miami, tende a aprofundá-lo. A dolarização de facto da economia diária — agora formalizada pela reforma — beneficia quem dispõe de dólares, remessas e passaporte estrangeiro, e penaliza quem depende dos salários em pesos e da caderneta esvaziada. Esse recorte é também racial: como regista a entrevista, cubanos de ascendência africana recebem menos remessas que os brancos, de modo que a economia dolarizada amplia a desigualdade racial herdada do Período Especial. O pacote de junho acentua essa lógica ao converter a diáspora em investidora interna e ao desmontar os mecanismos universais de proteção social.
O texto procura reconstruir algumas das contradições estruturais da sociedade cubana contemporânea a partir de conversas com investigadores, ativistas e organizadores associados ao livro CUBA 11J, obra produzida por militantes marxistas que participaram nas massivas mobilizações anti-austeridade dos dias 11 e 12 de julho de 2021. As questões abordadas incluem a crise energética e os seus efeitos territoriais, a recomposição das formas de mercado, o papel estrutural das remessas e da emigração, as desigualdades racializadas, areconfiguração do trabalho e da reprodução social, a repressão política e as dificuldades enfrentadas por correntes críticas de esquerda no contexto atual.
Aldo Cordeiro Sauda
Quilombo Invisível: No ano passado, o Congresso cubano aprovou uma série de reformas económicas. Entre elas, destacam-se a dolarização parcial da economia e a expansão das situações em que cubanos poderiam ser detentores de mais de uma propriedade. Como essas mudanças foram recebidas pela população? Quem mais tende a beneficiar com elas?
Aldo Cordeiro Sauda: A grande maioria das relações económicas de Havana com o resto do mundo é influenciada pelo chamado Helms-Burton Act, uma legislação aprovada no Congresso norte-americano em 1996, durante o Governo Clinton. Essa lei radicalizou, intensificou e institucionalizou a agressão norte-americana a Cuba. Ela deu a Washington os chamados mecanismos de aplicação extraterritorial do direito estadunidense, ou, se você quiser, uma forma de jurisdição imperial, na qual a lei americana é imposta a Cuba para reverter as expropriações de refinarias, fábricas, hotéis e latifúndios rurais ou urbanos nacionalizados após a Revolução de 1959.
Isso significa que, se você mora em Miami e seu avô teve lá atrás uma empresa, um prédio ou outra propriedade expropriada na Revolução de 1959, você pode entrar com um processo nos Estados Unidos para reclamar essa propriedade em Cuba. Isso criou um nó nas relações de propriedade em Cuba e o sistema jurídico norte-americano, difícil de superar e que, na prática, trava as relações económicas cubanas com o resto do mundo.
Um bom exemplo de litígio é o caso da rede de hotéis Meliá, em particular seu empreendimento na Praia Esmeralda, em Holguín. Os cubanos atraíram a rede hoteleira, de capital espanhol, para investir na indústria do turismo cubano. Os EUA responderam processando o grupo Meliá porque o hotel foi construído em um terreno baldio que era de suposta propriedade da familia Sánchez Hill, expropriada em 1959. Como existe um processo nos Estados Unidos de reintegração dessa propriedade, a estrutura financeira do grupo Meliá, dentro ou fora de Cuba, passa a ter suas transações em dólares dificultadas, travando o acesso a capital norte-americano. Essa questão da jurisdição internacional dificulta qualquer tipo de processo de abertura da economia cubana.
Esses mecanismos de jurisdição extraterritorial, na verdade, representam o elemento mais extremo de um amplo complexo jurídico imperial norte-americano. Esse extremismo em relação a Cuba está presente quando Trump diz que vai assumir o controle absoluto da ilha. Isso em parte se explica por motivos temporais: durante o colapso da União Soviética, não existia uma legislação norte-americana que delimitasse a questão da propriedade naqueles países equivalente ao Helms-Burton Act, com jurisdição extraterritorial. Inclusive, se você pega o caso chinês, os Estados Unidos, em 1979, basicamente resolvem esse problema com as relações de propriedade na China com um acordo rápido e pragmático. Portanto, há um excepcionalismo no caso cubano, talvez ligado à necessidade de combater a esquerda na América Latina independente da Guerra Fria.
Quando você pega o caso das propriedades na União Soviética, houve todo um processo de privatização, mas ninguém falou em restaurar as propriedades anteriores à Revolução de 1917. Se houve, foi algo mais concentrado na questão da Igreja Ortodoxa, mas não existia uma mobilização para trazer os proprietários anteriores, inclusive porque eles não estavam geograficamente concentrados como estão os proprietários do período pré-revolução cubana em Miami, com relações com os políticos na Florida, com relações aprofundadas com o governo norte-americano.
Então, essas relações fazem que qualquer projeto maior de abertura por parte dos cubanos acabe caindo nessa barreira. De novo, é algo que não se teve, por exemplo, nos países do Leste Europeu como Polónia ou Checoslováquia, onde, mesmo tendo havido alguns casos de restauração de propriedades anteriores ou compensação, foram processos com uma certa maleabilidade. Em muitos desses lugares, a propriedade continuou estatal ou foi privatizada, mas não se retornou aos proprietários do período anterior.
Essa é a grande barreira, porque basicamente os americanos querem retomar a propriedade das usinas de açúcar, das refinarias de petróleo, dos bancos e, principalmente, as propriedades urbanas e rurais. No caso de propriedades urbanas, isso se relaciona diretamente com os interesses da família Trump. Você pega Havana, uma das cidades mais bonitas da América Latina, se não a cidade mais bonita, exatamente porque não existe especulação imobiliária. Havana Vieja tem aqueles prédios lindos, antigos, que a despeito da degradação dão todo um charme à cidade e que, provavelmente, quando houver de facto uma invasão do capital norte-americano, vão virar edifícios gentrificados, mercadoria ao serviço da especulação imobiliária, fenómeno que, na prática, é dissuadido através da restrição ao grande capital pelo Estado.
Dito isso, a abertura que se tem, que é de novo uma abertura lenta, travada e pautada pelo Helms-Burton Act, em geral beneficia a burocracia, seus filhos e seus netos, os chamados ‘nepo babies’. A abertura do mercado é, em geral, isso: quem beneficia são aqueles vinculados ao Partido Comunista. Uma figura muito mencionada aqui em Havana é o “Cangrejo”, neto de Raúl Castro, descrito como um playboy que virou dono dos empreendimentos de turismo e de uma série de empresas privadas. Ele é odiado aqui em Havana; todos falam dele. São críticas baseadas certamente em relatos jornalísticos, sem claro lastro documental, mas me parece inevitável que essas figuras acabem surgindo. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia acaba empurrando para isso, porque a dolarização foi acompanhada de uma enorme crise: as cadernetas – aquilo que garantia a alimentação pelo Estado – vão tendo cada vez menos alimentos à disposição, e passa a haver cada vez mais alimentos à disposição de quem tem acesso a esses mercados privados em dólares, o que aumenta brutalmente a desigualdade no próprio acesso à comida.
Isso também está ligado ao facto de que, desde os anos 90, mas muito mais agora, principalmente desde a Covid, milhões de cubanos saíram do país e mandam dinheiro de volta às suas famílias. O envio de remessas, junto com o turismo e, em alguns sentidos, a exportação de missões médicas, são as três grandes fontes de capital estrangeiro aqui em Cuba. Elas acabam sempre beneficiando alguns em detrimento de outros, em geral os brancos em detrimento dos negros, porque quem é imigrante, quem está fora do país, consegue melhores empregos e depois consegue mandar esse dinheiro com facilidade, são na maioria das vezes as pessoas brancas. Isso acaba tendo um recorte racializado, a centralidade que ocupa a economia dolarizada. Portanto, a dolarização da economia aumenta a desigualdade racial.
Vale mencionar também que a questão da restauração dos direitos de propriedade no caso de Cuba é, em alguns sentidos, mais complexa do que na Venezuela. As grandes estatizações que ocorreram durante o governo Chávez foram de duas grandes empresas norte-americanas, a Exxon Mobil e a ConocoPhillips, que tinham participado nas privatizações neoliberais dos anos 90, do setor petroleiro venezuelano e que foram expropriadas depois por Caracas. É relativamente fácil restaurar os direitos de propriedade anteriores, primeiro porque eles ocorreram nos anos 90. Existe toda uma estrutura legal internacional vinculada ao Banco Mundial e a tribunais internacionais que garantem esses direitos de propriedade ao grande capital estrangeiro principalmente a partir dos anos 90. Essa questão se resolve com os americanos retomando para si o petróleo venezuelano da PDVSA, algo que na prática já está acontecendo.
Em Cuba, não. Em Cuba, você tem particulares individuais que não são grandes empresas petroleiras norte-americanas, com quem você resolve por meio de um acordo imposto pela agressão imperial norte-americana ocorrida esse ano. No caso de Cuba, você tem milhares e milhares de processos que correm na justiça norte-americana para restaurar a propriedade em todos os níveis. Portanto, a violência do que será a reintrodução do capital norte-americano e dos interesses norte-americanos em Cuba vai perpassar centralmente a restauração desses direitos individuais.
Por isso, a restauração aqui em Cuba vai ser provavelmente mais violenta do que qualquer outra, mais violenta no sentido da expropriação dos direitos à habitação e dos direitos sociais do que talvez na Rússia ou Leste Europeu. Provavelmente, alguma fração da burocracia do Partido Comunista vai continuar com o domínio sobre alguns setores da propriedade hoje estatal, mas isso vai ter que se dar em por meio de um acordo com essas frações burguesas cubanas que estão na Florida querendo reclamar sua propriedade como um todo, o que, de novo, não ocorreu na União Soviética. No caso cubano, é isso o que eles querem, e é isso o que cria essa situação em que o Trump fala com algum grau de verdade que vai voltar a ser “dono” de Cuba se seu plano der certo.
Quilombo Invisível: Diante da inflação severa, dos apagões exaustivos e do sistema de lojas em Moeda Livremente Conversível (MLC), como as pessoas nas ruas interpretam a raiz da crise? A quem a população costuma atribuir a culpa pela escassez diária?
Aldo Cordeiro Sauda: A questão das reformas na política monetária de 2021 é algo que todos os cubanos criticam. A primeira questão é o fim daquela moeda chamada CUC, que era uma espécie de dólar oficial, um câmbio oficial controlado pelo Estado que controlava o dinheiro vindo do exterior. Com a reforma do governo Díaz-Canel, o dólar oficial foi abandonado e a CUP, o peso cubano, passou a oscilar de forma livre em relação à moeda norte-americana. Essa política liberou a utilização do dólar, na prática, dolarizando a economia local. De novo, isso remete àquela questão das remessas financeiras enviadas pelos imigrantes a quem ainda está dentro do país. A questão das remessas é uma parte estrutural da economia, não só de Cuba, mas de diversos países do Caribe e da América Central: Guatemala, o próprio El Salvador, o Haiti.
Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.
Na prática, a política de sanções energéticas do Governo Trump entrou para quebrar as pernas da economia do turismo, dando às remessas em dólar um papel ainda maior. Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.
Eu vim através do Panamá, por exemplo, que ainda mantém os voos para Havana, mas voos diretos que vinham de lugares como Canadá, Rússia, com turistas que vinham aqui com moeda estrangeira, consumiam e injetavam dólares na economia, isso quase secou por conta da falta de combustível.
Mas ao mesmo tempo existe uma crise aqui em Cuba que vem basicamente desde a Covid, quando a indústria do turismo toma o seu primeiro golpe, e agora, digamos, com a crise venezuelana, tomou o segundo golpe, e o golpe agora é ainda mais forte. Mas desde o período da Covid, há uma crise na qual se estima que mais de um milhão de cubanos saíram, deixaram o país. A consequência disso é que cerca de 10% da população foi embora. Tem lugares que estão esvaziados de gente, principalmente de gente jovem, porque quem é jovem e tem algum recurso saiu do país.
A questão dos apagões e da escassez, ao mesmo tempo, não é nova: obviamente, são intensificadas pela situação atual, mas houve também uma redução na vinda de petróleo venezuelano para cá desde o período da Covid. Desde 2020 os venezuelanos aumentaram a exportação de petróleo para países como a China, e em grau menor para os Estados Unidos, reduzindo o envio de petróleo para cá. Então, a crise energética é anterior ao sequestro de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, porém foi acelerada por ela.
É nesse cenário que vai se abolir o CUC, um processo acompanhado por aumentos nos preços de quase todos os serviços públicos e pela redução no acesso a alimentos disponíveis pelas cadernetas. A caderneta é basicamente um instrumento para se ter acesso à comida distribuída pelo Governo. Os salários são muito baixos comparados ao dólar. Isso era compensado pela caderneta e por um acesso a uma certa quantidade de alimentos, como farinha, óleo, feijão e carne de porco, que agora vem sumindo das prateleiras. Por conta da situação atual, a comida que se conseguia acessar antes ficou escassa. E isso é uma coisa que é comentada o tempo inteiro nas ruas.
Por conta dos problemas de planificação, também causados pela falta de gasolina para os carros, de diesel para os caminhões, a distribuição dos alimentos subsidiados, em particular no interior, antes acessíveis pelas cadernetas, secou. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia, mesmo que tenha em parte expandido o acesso a bens de consumo e uma pluralidade maior de alimentos industrializados, não é democratizadora. Ela barra, ela impede: os preços de alimentos se tornam proibitivos para quem não tem acesso a dólares. Na verdade, o que se tem é uma desigualdade acelerada e intensificada no acesso a alimentos, porque quem tem acesso a dólares consegue superar a falta de alimentos que se teria antes no acesso pela caderneta. E para quem não tem dólares? São pessoas que muitas vezes estão no interior. É aí que entra a questão da fome.
Nós viemos aqui em Havana com uma mala de medicamentos para distribuir para as famílias, enviados por alguns companheiros no Brasil. O que mais nos impressionou foi que, conversando com as pessoas, elas faziam questão de sempre dizer: “Olha, agora existe fome em Cuba.” Porque existe essa ilusão na esquerda brasileira de que não existe fome em Cuba, e principalmente desde essa crise, há uma situação realmente de insegurança alimentar.
Acompanhada da dolarização, houve uma enorme alta inflacionária e também uma série de políticas antipopulares, de introdução de princípios da economia de mercado, incluindo aumento exponencial no custo da eletricidade, da água e do transporte.
Muitos ganhos da revolução vêm sendo mais ou menos perdidos pela expansão do mercado, pela expansão de relações capitalistas de propriedade. Só que, ao mesmo tempo, ainda são processos mercadológicos muito limitados porque ocorrem por fora do acesso ao grande capital estrangeiro por conta das medidas do Helms-Burton Act.
Qualquer integração no mercado acaba sendo limitada por isso. Ao mesmo tempo, desde 2021 você tem as chamadas Pymes (PME, Pequenas e Médias Empresas), que são as empresas particulares em processo de expansão. Isso retorna àquilo que eu tinha colocado: quem tem acesso às PME são muitas vezes os filhos e os netos da burocracia, e também vem com um recorte racial: são frequentemente brancos.
Quem tem capacidade de empreender através das PME, quem tem acesso a atravessar as limitações burocráticas, são os filhos e netos daqueles que encabeçaram a Revolução de 59. As PME são em geral celebradas pela população. A abertura económica, por motivos pragmáticos, parece ser quase consensual, o que é algo em muitos sentidos perverso, porque parece, principalmente entre os jovens, existir uma ideia de que o capitalismo e a entrada do capital norte-americano vão resolver todos os problemas da ilha. Mas a restauração de direitos de propriedade anteriores a 1959 tende a intensificar a desigualdade social, e não a reverter aos padrões anteriores aos anos 1990.
Só que isso é um pouco ignorado. As pessoas querem mudança, elas não aguentam mais o estado das coisas. Quando as pessoas te explicam a situação económica e você responde dizendo “Ah, mas o bloqueio”, elas dizem: “Bom, bloqueio já tem 60 anos, quase 70 anos. Não deu tempo de resolver essas questões?” Basicamente, a abertura económica é vista com bons olhos, é celebrada e vista como uma necessidade cubana. Há uma leitura de que desde os anos 1990, do período especial, a vida só piora. De facto, é compreensível o desespero, porém ignora que países como Haiti, a Guatemala e El Salvador estão plenamente integrados no capitalismo mundial, e ao mesmo tempo em uma condição de vida muito pior que Cuba.
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Quilombo Invisível: O apagão recente afetou a ilha inteira. No Brasil, quando apagões acontecem, bairros mais pobres, e com maior presença de populações negras, costumam ser mais afetados e demorar mais para ter a energia restaurada. Em Cuba, há algum paralelo com a situação no Brasil?
Aldo Cordeiro Sauda: O que dita o apagão, além de atingir mais as populações negras, é o recorte Havana versus interior. Quando estive no interior, quase sempre a única fonte de eletricidade eram os painéis solares. Existe mais acesso à eletricidade na capital, inclusive em Havana Vieja e Centro Habana, partes da cidade com uma grande população negra. Aqui a energia é mais preservada até porque os cabos são subterrâneos. Onde há cabo subterrâneo, eles evitam cortar a luz por conta da dificuldade de fazer o reparo que pode ser causado pelas sobrecargas nas variações de tensão. Onde o cabo é aéreo, há mais crise de energia.
Enquanto o principal responsável pela crise de energia é o bloqueio norte-americano, não se pode ignorar as consequências destrutivas da planificação burocrática. Segundo pesquisa da Universidade de Columbia, em Nova York, a reestruturação do sistema elétrico cubano está estimada em 10 bilhões de dólares1, porém o Governo cubano gastou uma quantidade de dinheiro ainda mais elevada em novos hotéis nos últimos 15 anos, negligenciando a importância do sistema elétrico. Os mega investimentos em grandes hotéis de 5 estrelas são destacados pela população como um símbolo de desperdício, em particular porque a política se acentuou durante a crise da Covid, enquanto a taxa de turismo no país despencou. A taxa de ocupação nos hotéis hoje está estimada em 20%. Conheci o caso de um casal de brasileiros que foram transferidos de seu hotel para um com maior ocupação por uma questão de excesso de vagas, porém, as construções de novos edifícios hoteleiros continuam. A isso se soma a questão da força de trabalho, que segundo relatos de moradores vem em grande parte trazida de países como Índia e Paquistão, substituindo a mão de obra local.
Agora, a questão da luz é importante lembrar que ela vem de antes do sequestro de Maduro, porque já desde a Covid os venezuelanos reduziram o envio de combustível para cá, e as crises energéticas têm ocorrido desde a Covid, sendo um dos elementos que motivaram o 11J, o movimento de massas que tomou as ruas em julho de 2021, cuja palavra de ordem era “Pátria y Vida”, uma ideia de se opor ao slogan do regime, “Pátria o Muerte”. E aí, sim, essa mobilização tem uma grande participação negra, e os rappers associados aos protestos, ligados ao Movimiento San Isidro (MSI), também são rappers negros. Existe esse recorte de que as pessoas que foram às ruas em rejeição ao regime tiveram uma forte presença da comunidade negra cubana.
O melhor balanço que conheço sobre as mobilizações do 11 de julho, é um livro chamado Cuba 11J, perspectivas contrahegemónicas de las protestas sociales. Ele mostra sob diferentes ângulos os protestos de uma perspectiva crítica marxista, organizado por um jovem militante socialista do movimento negro.
Quilombo Invisível: Alguns relatos elogiosos sobre Cuba destacam o cultivo de alimentos em cidades (agricultura urbana) como estratégia de superação da escassez de alimentos. Pelo seu contacto, como a população cubana se relaciona com a produção de alimentos? E como isso se relaciona com a burocracia estatal do país?
Aldo Cordeiro Sauda: Me parece que a questão do acesso a verduras, legumes e frutas não cítricas em Cuba não é o problema principal. O que falta é a comida industrializada, assim como a carne. Óbvio, o problema da carne também é o problema da falta de eletricidade. Se cai a energia, se você tem quatro, cinco, seis dias de apagão, você perde a carne nas geladeiras e nas arcas frigoríficas.
Sobre essa questão da agricultura urbana, existe o livro publicado pela editora Elefante, Entre a Utopia e o Cansaço, que tem um conjunto de textos muito interessantes, em particular o que trata da militarização da economia. A própria Joana Salem, especialista em Cuba, tem uma pesquisa muito rica sobre a questão agrária que merece ser lida. O trabalho dela sobre Cuba e a América Latina em geral é bastante sério. Fabio Luís Barbosa dos Santos, professor de RI da Unifesp, um dos editores do livro junto com Aline Miglioli e Vanessa Oliveira, também é um pesquisador muito qualificado, com longa trajetória no tema. O trabalho organizado por ele tem textos muito interessantes, inclusive sobre o papel dos militares na economia, que hoje é preponderante.
A militarização da economia cubana, através do GAESA (Grupo de Administración Empresarial) segundo o sociólogo cubano-americano Samuel Faber, atinge pelo menos 40% dos empreendimentos. Então, você tem esse recorte, similar a países como Egito e Paquistão. A GAESA é em boa parte responsável pelos problemas burocráticos da planificação económica.
Quilombo Invisível: Assim como no Brasil, em Cuba também há um discurso oficial de superação das discriminações raciais (a tal da “democracia racial”), usado como forma de impor uma unidade popular. No entanto, a quase totalidade dos comércios em Cuba seguem comandados por pessoas brancas. Na sua visão, o racismo em Cuba foi superado? De que forma o racismo se relaciona com as ações do Estado?
Aldo Cordeiro Sauda: A questão do racismo, atenuada pelos ganhos sociais da revolução, é intensificada principalmente após o Período Especial iniciadlo depois dos anos 90. É importante dizer, quando se fala da questão racial em Cuba, o papel central que Cuba teve na libertação no Sul da África, em Angola, Moçambique, e também na Guiné-Bissau. Cuba teve um papel muito importante no combate ao apartheid na África do Sul. Isso é um marco e algo que não pode ser esquecido quando a gente fala de Cuba, em particular o envio de tropas em apoio ao MPLA na guerra anticolonial em Angola e o apoio ao ANC de Nelson Mandela na África do Sul. Essa é uma marca do regime que faz parte da história cubana.
O problema é que a abertura aos mercados e o surgimento da desigualdade económica atingem principalmente a população negra, em parte porque a direção inicial da revolução, à exceção de Juan Almeida Bosque, foi majoritariamente formada por intelectuais brancos de origem hispânica. Quando se inicia a restauração nos anos 90, serão os filhos e os netos da direção revolucionária que vão sair na frente, e isso significa que os negros tendem a ser mais afetados.
Com isso se combina o papel da imigração: quem tem mais acesso à imigração na Europa e América do Norte, por redes familiares, são em geral os brancos. Portanto, as famílias de pessoas brancas vão ter mais acesso a passaportes e cidadanias europeias (espanhola e italiana), a dólares vindos do exterior, e a dolarização da economia afeta de forma muito desigual os brancos e os negros por isso. Segundo ativistas do movimento negro com quem conversei, há um aumento, pós-anos 90 na desigualdade racial. Desde o Período Especial, essa questão vem ganhando relevância.
Quilombo Invisível: É um bordão irónico e famoso, em apoio a Cuba, dizer que na ilha apenas três coisas funcionam: saúde, educação e segurança. Mas como a segurança é mantida na prática na ilha? A ação policial possui contornos raciais? Algum grupo tende a ser mais perseguido pela polícia?
Aldo Cordeiro Sauda: Cuba, segundo a Amnistia Internacional, há hoje centenas de presos políticos e, junto com isso, um alto índice de presos per capita. Existe uma análise do Instituto de Pesquisa em Política Criminal, do Birkbeck College, de Londres, que aponta Cuba entre os países com altos índices de encarceramento, porém muito abaixo de EUA, Brasil e El Salvador. Tudo isso, possivelmente, acaba tendo um recorte racial.
Um dos grandes problemas, me parece, é que Cuba colocou nas negociações com os americanos a libertação de presos políticos. Isso é terrível, porque acaba entregando aos Estados Unidos a bandeira das liberdades civis, da liberdade de associação e expressão. Produz ilusões sobre os Estados Unidos como defensores da democracia. Isso apenas contribui para o problema que existe aqui, isto é: a geração que nasceu nos anos 80 e atravessou o Período Especial dos anos 90 na juventude só vê a piora da economia cubana, só vê Cuba piorar.
Isso faz surgir, principalmente entre os jovens, todo um setor que podemos dizer ser “pró-intervenção imperialista”, pró-Estados Unidos, na juventude, que vê a intervenção norte-americana como aquilo que vai resolver o problema de Cuba e a única alternativa para a atual conjuntura. Então, surge a possibilidade de setores pró-restauração capitalista entre a juventude trabalhadora.
O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que os jovens culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano.
Essa é a maior derrota que a política da burocracia impõe, principalmente entre os jovens. O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Ernesto Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano, e que acaba sendo gerida por uma camada de profissionais técnicos e gestores cubanos cuja função acaba sendo gerir as consequências do bloqueio.
O facto de a revolução não se ter expandido para além da própria ilha – assim como não se pode ter socialismo em um só país, como, em última instância, foi na derrota da revolução russa nos anos 20 e 30 – torna ainda mais difícil manter uma revolução em uma só ilha. É isso que acaba alimentando as próprias divergências entre Fidel Castro e Che Guevara, porque o Che é muito crítico do que ele chama de “manuais soviéticos”, a adoção de políticas burocráticas e um modelo baseado na experiência soviética em Cuba, mas que acaba sendo a consequência inevitável de uma revolução que não consegue expandir.
Quilombo Invisível: Como sabemos, a América Latina enfrenta, em particular nos últimos meses, uma escalada do imperialismo estadunidense. Muitos na esquerda ficam em silêncio sobre os abusos do regime cubano por receio de que poderiam alimentar um imperialismo que, em última instância, poderia levar a uma piora nas condições na ilha. Na sua visão, como a esquerda latinoamericana pode contribuir para a superação da ditadura na ilha?
Aldo Cordeiro Sauda: Toda a ajuda, todo o apoio humanitário a Cuba é bem-vindo. Toda a esquerda que se esforça para combater o bloqueio cumpre um papel progressivo. Isso é algo que nós precisamos ter em mente. Ao mesmo tempo, é preciso diferenciar o que é solidariedade com o povo cubano do que é a solidariedade com o regime. Muitas vezes, vemos em muitas iniciativas, sejam elas de socialistas, maoistas, trotskistas ou autonomistas, uma confusão nesse sentido.
A iniciativa da flotilha para Cuba, para ajudar o país é muito positiva, mas uma questão que não podemos esquecer é a forma como ela é canalizada e inclusive interpretada pelos próprios cubanos. Sem os devidos cuidados, os cubanos podem acabar criando desconfiança da esquerda mundial, que pode acabar sendo interpretada como legitimando o Governo Díaz-Canel, sem esquecer que o Governo usa isso como instrumento para legitimar suas reformas económicas e sociais.
Essa solidariedade, que é necessária, precisa ser acompanhada – e infelizmente não se vê isso entre as diferentes correntes da esquerda – de apoio aos presos políticos que foram detidos no 11 de julho. Um apoio às correntes marxistas dissidentes aqui em Cuba, uma oposição à repressão que existe contra a própria esquerda, aquilo que a gente pode chamar dos dissidentes entre os dissidentes. É preciso separar o que é a oposição “gusana” de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão.
É preciso separar o que é a oposição ‘gusana’ de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão
Sem que haja essa diferenciação, colocar tudo o que se opõe ao regime cubano como parte das iniciativas norte-americanas enfraquece alternativas anticapitalistas no longo prazo. As pessoas podem achar que o que está colocado é dual, com apenas dois lados: ou você está com os Estados Unidos ou você está com o regime. O problema é que isso ignora o amplo desejo de mudança que vem dos trabalhadores cubanos. Ser cego a isso não ajuda ninguém.
O 11 de julho é um movimento de massas baseado num sentimento geral de necessidade de mudança, e que, por conta dos próprios problemas do regime – por conta da criminalização dos dissidentes, de empurrar para fora da ilha a esquerda crítica –, os movimentos sociais da juventude acabam muito facilmente sendo manipulados e capturados pelas forças pró-americanas. A partir do momento em que a esquerda mundial rechaça a oposição cubana de esquerda, a partir do momento em que a esquerda internacional se associa de forma acrítica ao regime, e a partir do momento em que não existem dissidentes cubanos que possam cumprir um papel organizacional progressivo em relação às mobilizações sociais, elas tendem a ir para a direita. E essa é a realidade. À medida que os movimentos sociais vão se radicalizando, elas tendem a ir mais e mais para a direita, o que é um desastre, um desastre político para Cuba e para toda a América Latina.
As manifestações são legítimas, assim como a exigência de substituição do Governo. As pessoas estão cansadas, querem mudanças na política económica que dolarizou o consumo, encarecendo a vida. A partir do momento que você não cria mecanismos para isso e quando você taxa toda a oposição de mercenários e agentes pró-americanos, a consequência disso é que você acaba fortalecendo exatamente esses setores. É óbvio que existem setores distintos dentro do movimento – como qualquer movimento de massas, o 11J é plural. Vai ter gente que é pró-americana, antiamericana, gente que só quer melhorar a sua própria vida. Mas o problema é que, na medida que os poucos socialistas críticos são presos e empurrados para fora da ilha, o que sobra é a direita.
Portanto, é muito difícil ser otimista em relação à realidade política cubana por conta do isolamento da esquerda cubana dissidente em escala nacional e internacional. Há muita gente de esquerda que foi presa em julho e que agora quer sair do país. É um sentimento natural.
Existe um problema demográfico grave em Cuba. Os jovens que têm capacidade financeira pegam um avião até à Nicarágua e muitas vezes de lá, pela rota sul, vão para o Chile ou para o Brasil, quando não tentam, a partir da América Central, chegar de forma arriscada e clandestina aos Estados Unidos pela rota norte, um caminho perigoso agora dificultado ainda mais pelo Governo Trump. Desde a crise da Covid, o número de jovens na ilha tem encolhido.
Há o problema demográfico também de as pessoas terem poucos filhos. A população da ilha não para de cair, há poucas crianças, a população está envelhecendo, e os jovens estão saindo. Isso é um desastre de longo prazo.
Quilombo Invisível: A repressão do Estado aos manifestantes do 11J foi severa, chegando a 25 anos de prisão, e com órgãos internacionais denunciando a morte de vários dos detidos. Como esses presos são vistos pela população com que o senhor teve contacto? A população estaria disposta a se arriscar em outras ondas de protesto?
Aldo Cordeiro Sauda: Vale dizer que existe muito medo em relação aos protestos em massa, porque uma parte relevante da liderança de rua foi presa. O que eu vejo aqui em Cuba, conversando com as pessoas e com as próprias lideranças da ala esquerda dos protestos, é que existe muito medo, muito medo de sair para a rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba. Você ouve as pessoas, elas são muito críticas do regime, atacam o Governo, atacam o Presidente o tempo inteiro quando você conversa com elas na rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba, a questão é como criticar o Governo em Cuba. A mesma coisa com as redes sociais. Não é que você não possa falar mal do Governo nas redes sociais, é o que você fala. Há forte repressão a protestos nas ruas. Aí, sim, é que vem o problema. Não que você não possa falar mal do Governo, é por onde e como você fala mal do Governo.
Você fala com as pessoas, em geral elas dizem “apoio os protestos do dia 11”, mas, obviamente, a grande maioria não foi aos protestos do dia 11. Você pergunta e a resposta é: “Não, não quero pegar 8, 10 anos de cana. Ninguém quer ir preso.” O regime é muito efetivo pelo facto de ser uma ilha, o controle político-social é mais fácil. Isso não significa que os protestos, de forma localizada, não sigam ocorrendo. Ontem, por exemplo, teve um panelaço na rua por onde havia passado algumas horas antes por conta da falta de energia. Também teve o caso, noticiado mundo afora, do ataque à sede do PC no interior do país. Então os protestos seguem, porém sem clara coordenação política.
Quilombo Invisível: Como a população comum reage às campanhas de propaganda da imprensa oficial? Elas ainda têm eficácia em jogar a população contra seus pares, ou o descrédito da mídia estatal já é generalizado?
Aldo Cordeiro Sauda: Eu acho que o regime tem apoio cada vez menor na população. Existe uma ideia de que os anos 80 foi o período de auge, e de lá para cá a situação só piora. Existe um sentimento geral por inovação, de que é preciso mudar.
Acho que a nossa solidariedade com Cuba exige duas tarefas. A primeira é combater e ser solidário no combate ao bloqueio, e todas as iniciativas de combate ao bloqueio têm que ter nosso apoio. Nós temos que defender que a Petrobras envie petróleo para Cuba, apoio energético brasileiro a Cuba. Mais que ajuda humanitária, Cuba precisa de gasolina, diesel, petróleo. Se você olha as ruas, as ruas estão quase vazias, não tem carros nas ruas, as estradas estão vazias, praticamente não tem caminhões nas estradas. O grande problema é a falta de combustível.
Portanto, o papel da esquerda internacional é se solidarizar, exigir de seus governos, exigir do Governo Lula, exigir da esquerda, exigir também do Governo mexicano – onde existe menos oposição interna a uma política pro-Cuba – exigir dos governos internacionais o apoio contra o bloqueio e principalmente o envio de petróleo para Havana. Essa é a primeira tarefa. A segunda tarefa é se opor à repressão da esquerda, de artistas críticos independentemente de suas posições ideológicas, se opor à repressão do movimento de massas e defender uma alternativa que seja ao mesmo tempo socialista e democrática.
Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes, que não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada no balanço da greve geral.
ilustração: ricardo Ferreira
Algo mexeu nos Estados Unidos. A tentativa do Governo Trump de impor deportações em massa ao serviço da sua agenda etnonacionalista encontrou resistência massiva e determinada nas maiores cidades democratas do país — de Los Angeles a Chicago e Minneapolis. Tropas federais, a Guarda Nacional, agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — até os fuzileiros navais, em Los Angeles — viram-se obrigados a recuar diante da oposição nada comum da gente comum. Nos bairros, locais de trabalho, hospitais, escolas e paragens de transportes públicos, os moradores enfrentaram a máquina deportadora federal sem se deixarem intimidar. A indignação moral transformou-se em insurreição colectiva a uma escala que há décadas se não via nos Estados Unidos e que, em várias cidades, forçou um dos governos mais autoritários e agressivos da história americana a recuar, pelo menos temporariamente.
Esta é a história de como esse movimento tomou forma e do sinal para que poderá apontar quanto aos limites de um regime autoritário na América. É também um aviso: o poder autoritário, mesmo em plena expansão do Estado securitário, não é ilimitado se e quando comunidades organizadas, o movimento operário e instituições democráticas o enfrentarem.
Uma ocupação, mais do que uma política
Para entender o que se passou em Minneapolis e Los Angeles, é preciso começar pelo que Trump tem andado a fazer: não a fiscalizar a imigração, seja qual for o sentido tradicional que se queira dar à palavra. Ele declarou antes uma guerra política às cidades e comunidades que são bastiões democratas, muitas delas dirigidas por pessoas de cor, e aos laços de solidariedade que lhes mantêm a coesão.
As fileiras do ICE e da Guarda de Fronteiras dispararam, alimentadas por prémios à contratação de 50 mil dólares, feitos para atrair recrutas que são depois rapidamente treinados e colocados. Os agentes da Guarda de Fronteiras enviados para Minneapolis — que não é uma cidade fronteiriça — não estão habituados a lidar com pessoas que gozam dos direitos garantidos pela Primeira Emenda Constitucional. Ambas as forças servem-se de armas e tácticas militares, tratando a população civil como alvos inimigos.
Não é policiamento de rotina, nem sequer é o modelo já conhecido de rusgas aos imigrantes. Assistimos à militarização da fiscalização da imigração e à transformação de agências federais numa força de segurança interna.
Há quem descreva a enorme expansão do aparelho de segurança federal — exactamente quando Trump e Musk despedem centenas de milhares de outros funcionários públicos federais — como forma de keynesianismo policial: um programa de criação de emprego construído para a repressão. Dito com menos cerimónia, é um canal de recrutamento para as milícias dos Proud Boys e de outras formações de extrema-direita.
É, contudo, um fracasso, mesmo como programa de criação de emprego. Ao contrário do rearmamento militar dos nazis, que vinculou sectores significativos da população alemã ao projecto de Hitler, criando empregos a sério e expectativas económicas crescentes, a expansão do Estado de segurança nacional por intermédio do ICE não é capaz de oferecer estabilidade ou poder de compra aos trabalhadores. Não cria uma base de beneficiários alargada. O que gera é medo, raiva e repulsa. Minneapolis tanto pôs a nu os limites do poder repressivo do ICE como os limites políticos do projecto de deportação de Trump.
A administração Trump destacou para Minneapolis mais de três mil agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — mais do dobro da força policial combinada das cidades gémeas de Minneapolis e St. Paul —, no que o governo denominou de Operação Metro Surge. Os agentes do ICE espancaram e gasearam manifestantes, perseguiram autocarros escolares, lançaram bombas de gás lacrimogéneo à frente de hospitais e fizeram rusgas a pequenas empresas. Em 7 de Janeiro de 2026, o agente do ICE Jonathan Ross atirou a matar contra Renée Nicole Good, uma poeta e mãe de três filhos, enquanto ela e a mulher observavam uma rusga no seu bairro, sem violar nenhuma lei. “Nós tínhamos apitos”, disse depois Rebecca, a mulher de Good, “e eles tinham armas.” Três semanas depois, agentes federais executaram o manifestante Alex Pretti numa esquina. Dezenas de milhões de espectadores horrorizados assistiram à cena do assassinato, captada de vários ângulos.
Mesmo sem contar os montes de neve encharcados de sangue, os aspectos mais correntes da vida debaixo de ocupação são tão drásticos como os mais chocantes crimes. O jornalista sindical Luis Feliz León estava em Minneapolis, no terreno, nos dias que antecederam e se seguiram ao Dia da Verdade e da Liberdade de 23 de Janeiro. Descreveu assim o que viu:
“Varandas com montes de casacos a arejar do gás lacrimogéneo ao ar do Inverno; gatos a vaguear pelas ruas, farejando o que resta do cheiro de donos raptados; crianças de cor à boleia de vizinhos brancos por os pais terem medo de a polícia os parar; professores a recolherem sacos de roupa suja à chegada à escola por os pais não poderem sair para pôr roupa a lavar.”
Ir à escola passou a ser um risco. Aniversários e quinceañeras (festas dos quinze anos) foram cancelados. Uma comunidade inteira, sitiada.
O procurador-geral adjunto da República, Todd Blanche, queixou-se à Fox News: “Temos estes abusos e este barril de pólvora numa cidade — em mais lado nenhum.” Disse-o como insulto. Minneapolis ouviu-o com orgulho.
Raízes fundas, fogo súbito
A revolta que se seguiu não surgiu do nada. É um dos argumentos centrais apresentados pelos analistas do movimento operário que estudaram o que aconteceu — e é o argumento que mais há-de interessar leitores em Portugal e noutros países que desejem tirar ilações, mais do que meramente admirar a coragem.
Minneapolis tem uma história de luta sedimentada, nas palavras de um militante, incrustada “bem fundo no solo gelado do Minnesota”. A greve dos Teamsters (camionistas) de 1934, dirigida por militantes trotskistas, foi um dos momentos fundacionais do sindicalismo americano, conjugando entreajuda, acção de massas disciplinada e uma política que extravasou da simples contratação para o desafio ao carácter da própria cidade. A revolta de 2020 em reacção ao assassinato de George Floyd pela polícia — a poucos quarteirões de onde Renée Good foi depois morta — ergueu redes inteiramente novas de solidariedade e confiança entre moradores que superaram barreiras raciais. Em 2022, a Federação dos Professores de Minneapolis fez greve não apenas pelos salários, mas por justiça racial. As enfermeiras fizeram greve. Os trabalhadores da saúde sindicalizaram-se. Ao longo de mais de uma década, uma aliança de organizações de direitos dos imigrantes, sindicatos, comunidades religiosas e centros operários foi construindo o que os militantes chamavam, deliberadamente, não aliança, mas “alinhamento” — algo mais profundo, em que as organizações se conhecem intimamente e estão profundamente empenhadas em fortalecer as bases organizativas umas das outras.
Emilia González Avalos, a directora executiva da Unidos, descreve assim a trajectória desta organização: começando por ser considerada um “grupo especializado”, periférico na aliança progressista, a sua organização passou anos a juntar poder através da infra-estrutura eleitoral, de trabalho junto do eleitorado e da aprovação do programa legislativo do “Milagre do Minnesota”, em 2023: cartas de condução para residentes indocumentados, remuneração das faltas por doença, maior cobertura de assistência médica e muito mais. Quando o ICE apareceu em força, já estavam criados os alicerces de algo muito mais vasto do que qualquer organização tivesse podido conseguir isoladamente. A invasão do ICE foi a faísca. Décadas de organização, o combustível.
Cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra.
O Dia da Verdade e da Liberdade
Em 23 de Janeiro de 2026, com temperaturas de -30°C e vento a produzir sensações térmicas de -45°C, entre 75 mil e 100 mil pessoas acorreram ao centro da cidade de Minneapolis, a meio de um dia útil. Escolas, instituições culturais e mais de mil pequenas empresas fecharam. Mais de 80% dos membros da secção 7250 do Sindicato dos Trabalhadores em Comunicação da América (CWA) faltaram ao trabalho. Os motoristas da Uber e da Lyft — quase todos eles trabalhadores imigrantes de cor — choraram ao saber que cem religiosos haviam sido presos no Aeroporto de Minneapolis por exigirem que a Delta, a Target, a 3M e a General Mills tomassem publicamente posição contra a ocupação federal da cidade. Segundo uma sondagem realizada posteriormente, cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra, apesar de a acção ter sido convocada com apenas duas semanas de antecedência. Aderiram à acção cidades e vilas de todo o país.
Terá sido uma greve geral? Interessa menos a resposta do que o que o dia representou. Na sua análise da greve de massas na Rússia de 1905, Rosa Luxemburgo argumentou que a greve geral não era um evento específico, mas um processo — um vaivém entre luta económica e política, erupção espontânea e resposta organizada, coragem individual e consciência colectiva. O que Minneapolis demonstrou foi exactamente isso: o momento em que uma comunidade deixa de ser um agregado de indivíduos isolados e se torna, ainda que brevemente, num actor colectivo consciente de si.
Kieran Knutson, presidente da secção 7250 do CWA e um dos principais arquitectos da resposta sindical, é franco tanto a respeito do que se conseguiu como dos seus limites. As grandes empresas continuaram a funcionar. A acção de 23 de Janeiro foi uma greve política de massas, não uma greve geral no sentido clássico. Mas houve algo de qualitativamente novo. Os trabalhadores que marcharam até ao escritório do patrão antes do dia da acção para exigir o encerramento da empresa voltaram no dia seguinte com mais reivindicações: que o ICE fosse definitivamente proibido de entrar na empresa. “Tal é o nível de confiança a que estamos a assistir”, disse León. Pela primeira vez há muito tempo, uma classe trabalhadora que acabava de ganhar confiança em sim mesma tomava conta de uma grande cidade americana.
Eric Blanc, cuja avaliação rigorosa do momento de Minneapolis está entre as melhores que apareceram, identifica três ingredientes necessários para uma verdadeira greve geral: a energia, a organização e uma direcção militante e disposta a correr riscos. Minneapolis teve-os aos três em grau pouco habitual. Ainda assim, onde Blanc vê o reverso da medalha e o calcanhar de Aquiles do movimento é no sector privado, onde a densidade sindical é de apenas 6% ao nível nacional e onde os trabalhadores de empresas como Target, Amazon e Home Depot — cujos empregadores são cúmplices directos do ICE — têm o maior potencial estrutural, mas a menor protecção organizacional.
Uma das inovações tácticas mais importantes, em Minneapolis, foi o que González Avalos chama a “rampa de observação constitucional”. A Unidos treinou 30 mil habitantes do Minnesota para observar e documentar as rusgas do ICE nos termos da lei. Parecia coisa modesta, passiva, até: pessoas a filmar, a serem testemunhas. Contudo, ver-se cara a cara com sete agentes federais armados a prender um pai que levava os filhos à escola mudou as pessoas. “Muda as pessoas”, disse simplesmente González Avalos. Esses 30 mil observadores passaram a ser a base da qual podia crescer uma organização mais profunda — recrutados não ideologicamente, mas pela experiência de testemunharem actos de crueldade e decidirem não olhar para o lado.
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Los Angeles: o modelo
Antes de Minneapolis, houvera Los Angeles. E a história de Los Angeles tem significado especial para mim, que lá vivo e trabalho.
Trump odeia Los Angeles, cidade de maioria negra e parda que vota esmagadoramente nos democratas, com quase 35% de imigrantes, cidade com sindicatos fortes, orgulhosa cidade-refúgio. Entre Junho e Julho de 2025, Trump mandou para a cidade 4800 soldados da Guarda Nacional e 700 fuzileiros navais, expressamente para esmagar a resistência, abrir um precedente e fomentar a violência. Apanhou, em vez disso, com o escantilhão da sua derrota.
A resistência intensificou-se quando as tropas entraram. O governador, o presidente da câmara, os dois senadores federais, a maioria absoluta na legislatura da Califórnia e os superintendentes dos condados uniram-se em oposição, dando à resistência cobertura política e legitimidade institucional. Mas a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, declarou que iria “libertar Los Angeles do presidente da câmara e do governador socialistas” — aparentemente ignorante da sua falta de autoridade para destituir funcionários eleitos.
O ponto de viragem deu-se em 6 de Junho, quando o presidente do sindicato dos empregados de serviços, SEIU California, David Huerta, foi espancado e preso enquanto documentava uma operação do ICE no centro da cidade. Da cama de hospital, Huerta definiu o que se passara não como um incidente, mas como um movimento: “O que temos de saber é como nós, a comunidade que somos, nos unimos e resistimos à injustiça que está a acontecer”. A Federação Sindical do Condado de Los Angeles, uma das maiores do país, mobilizou-se imediatamente. Os sindicatos organizaram comícios e acções de defesa dos imigrantes por toda a cidade.
Ganhou forma uma ampla frente antifascista: sindicatos e centros de trabalhadores, incluindo o Centro de Trabalhadores Filipinos, a Aliança de Trabalhadores Imigrantes Coreanos e a CHIRLA, a Aliança pelos Direitos Humanos dos Imigrantes de Los Angeles; comunidades religiosas, incluindo a Diocese Católica e a Holman United Methodist, a maior igreja negra da cidade; organizações jurídicas, incluindo a ACLU e a MALDEF; artistas e músicos; e, elemento crucial, a comunidade empresarial. Tanto a Câmara de Comércio como o Conselho Empresarial de Los Angeles tomaram posição, não por solidariedade, mas porque as rusgas estavam a dar cabo da economia da cidade. Empresas de construção, restaurantes, hotéis, lavagens automáticas e fábricas de vestuário sofriam perdas de receitas com os trabalhadores imigrantes a ficarem em casa e os clientes imigrantes a não aparecerem.
Um juiz federal sentenciou que o envio de tropas violava a Lei Posse Comitatus, que proíbe o uso das forças armadas como forças da ordem interna.
Trump acabou por mandar retirar as suas forças com o argumento forçado de ter “salvo a cidade de ficar reduzida a cinzas”. Como comentou o militante Bill Gallegos, Los Angeles reagiu ao som de milhões de habitantes a rirem-se do dislate. A retirada fora resultado de uma frente ampla, disciplinada, multi-sectorial.
A lição de Los Angeles não é a mesma de Minneapolis — eram diferentes a infra-estrutura organizativa, a cultura política e o rastilho. Mas a lógica de fundo é a mesma: construir a partir da base de organização; unir quem é susceptível de união; manter uma reivindicação clara e coerente; e não lhes oferecer a violência por que eles anseiam.
Onde estamos e onde podemos chegar
Entre Los Angeles e Minneapolis houve Chicago, onde o ICE foi brutal, mas a resistência, igualmente feroz. A contribuição de Chicago para o arsenal da luta popular foi prática e elegante: a distribuição em massa de apitos, permitindo às comunidades alertar os vizinhos assim que o ICE aparecesse nas suas ruas. As brigadas do apito alastraram a Minneapolis e outros pontos, tornando-se uma ferramenta quase universal da resistência, uma ilustração pequena, mas perfeita, de como as pessoas se apropriaram de formas de auto-organização e defesa, transmitindo a experiência das cidades de uma para a outra.
Luis Feliz León invoca o conceito de greve de massas de Rosa Luxemburgo para descrever o que estava a acontecer: não um único evento programado, mas um processo de radicalização mútua entre a indignação e a organização, entre a acção espontânea da gente comum e a armadura institucional que lhe empresta direcção e solidez. A greve geral, escreveu Luxemburgo, é o “pulso vivo da revolução” — não pode ser decretada, apenas preparada e aproveitada.
Este processo está em andamento nos Estados Unidos em moldes que seriam quase inimagináveis há cinco anos. A infra-estrutura de organização — anos de construção de alianças, desenvolvimento de direcções, de plenários de trabalhadores, de redes de entreajuda, de formação de observadores constitucionais — já existia. A faísca da violência do ICE acendeu-a. E dessa combustão algo de novo se criou: uma confiança da classe trabalhadora em si mesma e um novo sentido das possibilidades colectivas, que não desaparece quando a crise imediata recua.
A história não parou. Trump recuou em algumas das tácticas mais agressivas — que foram extremamente impopulares, prejudicaram os seus índices de aprovação e enfureceram até republicanos, furiosos por o método Trump-Miller ter prejudicado o emblema da sua política, a demonização dos imigrantes. Há décadas que a “imigração ilegal” tem sido usada como cacete para mobilizar o medo, enquanto a sua verdadeira função económica — criar uma força de trabalho imigrante super-explorada e sem direitos, para fazer baixar os salários — passava despercebida. Agora a violência é visível, as vítimas merecem simpatia, e a política é corrosiva.
O ICE recuou, mas continua a sua missão de deportação, agora com pontaria mais afinada. A resistência respondeu com nova energia. Os comícios No Kings (“não queremos reis!”) passaram a ser comícios de massas; em Los Angeles, moradores patrulham os parques de estacionamento da Home Depot, protegendo os seus vizinhos, que trabalham no duro, porque “silêncio é violência”.
Um designer gráfico de um bairro de Los Angeles descreveu o que muitos manifestantes de primeira viagem estão a viver: “Acho que é como uma primeira droga — até pessoas que nunca fizeram nada de militante na vida acabam por ir parar a protestos, animadas pelo espírito de comunidade, pelo propósito e pelo amor à democracia”. Outro activista disse-o de forma simples:
“Minneapolis é o modelo. Quando duas pessoas inocentes foram mortas a protestar contra as rusgas do ICE, a comunidade uniu-se e levantou-se em protesto, forçando as forças de Trump a retirar. Minneapolis reagiu com humanidade — esse é o futuro que queremos construir.”
Kieran Knutson tem estado a convocar assembleias de trabalhadores em Minneapolis — novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes. Não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada pela greve geral em vez de a devolver a quem tem interesses e programas diferentes, onde se incluem os funcionários democratas que condenaram publicamente o ICE enquanto cooperavam com ele em privado.
O horizonte imediato é o Dia do Trabalhador de 2026, um Dia Nacional Sem Trabalho, Sem Escola e Sem Compras. O horizonte mais distante é uma temporada de greves a organizar para 2028, com os sindicatos a alinharem a caducidade dos seus contratos para maximizar o impacto nos sectores manufactureiro, da logística, da educação e do retalho alimentar.
Nenhuma dessas datas está garantida. No entanto, o que é já certo é que dezenas de milhares de americanos comuns olharam agentes federais olhos nos olhos, denunciaram-nos com apitos, mantiveram-se firmes e recusaram-se a abandonar o local.
Como escreveu Boris Kagarlitsky de uma colónia penal russa, num contexto muito diferente, mas num espírito que afina pelo mesmo diapasão: “Não somos vítimas. Somos lutadores.”
O movimento em Minneapolis, Chicago e Los Angeles diz-nos uma coisa que os movimentos de esquerda de toda a parte têm de escutar. Só por si, a resistência não basta, mas é com ela que tudo o mais começa. Quando as pessoas se organizam, se mantêm a pé firme e se recusam a cair na violência que o Estado provoca, pode-se resistir até a um presidente determinado em reprimir.
Quando isso acontece, as pessoas mudam. Surgem novos dirigentes. Novas formas de organização ganham raízes. Novos horizontes tornam-se imagináveis.
É isso que uma greve de massas faz. Não conquista apenas reivindicações. Refaz as pessoas que a fazem.
Yassamine Mather é uma académica iraniana, editora da revista Critique, Journal of Socialist Theory e investigadora na Universidade de Oxford. Ela tem analisado a situação no Médio Oriente e no Irão e é também uma intelectual pública no Reino Unido, militante empenhada na luta contra o genocídio e na reflexão sobre os regimes no Médio Oriente no contexto do sistema capitalista actual. Raquel Varela entrevistou-a para o Maio sobre a situação da guerra contra o Irão e no Médio Oriente.
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ilustração e animação: Pedro Páscoa
Raquel Varela: Qual o significado político dos bombardeamentos israelitas e dos EUA no Irão? As notícias dão-nos uma ideia muito rudimentar. Há uma ditadura no Irão. Há Trump, que não respeita o direito internacional, mas no Irão há, ainda assim, uma ditadura. E tudo gira à volta do petróleo. Isto não é uma explicação demasiado simples?
Yassamine Mather: Sim. A revolução iraniana de 1975 (onde os trabalhadores do petróleo foram centrais) fez-se contra um governo pró-ocidental. Contudo, apesar de o governo que subiu ao poder não ser anticapitalista nem mesmo, na minha opinião, anti-imperialista, o Ocidente não se esqueceu da perda do seu fantoche Mohammad Reza Pahlavi. A derrota da revolução levou ao poder não um sector socialista, mas uma República Islâmica. Acontece, porém, que, nas últimas quatro décadas, a República Islâmica não conseguiu dar resposta a nenhuma das reivindicações da revolução. As palavras de ordem que as pessoas gritavam durante a revolução de 1975 eram pela igualdade, pelo socialismo não diria, porque não era nessa forma que o exprimiriam, mas o que as pessoas queriam era liberdade, igualdade, uma república em que fossem elas a tomar as decisões. Em vez disso, apanharam com uma ditadura religiosa que se mete na vida privada, não é democrática. E não há igualdade. No Irão, há um grande fosso entre ricos e pobres: uma das razões dos protestos de Janeiro deste ano. Os protestos de Janeiro também eram contra a corrupção, porque as pessoas se dão conta de que grande parte da riqueza está nas mãos de uma minoria muito pequena, também ligada à corrupção. Bom, há, portanto, muita insatisfação com o regime. E há também intervenção estrangeira. A intervenção estrangeira fazem-na ou a Mossad ou os EUA, que andam a ver se encontram a sua própria alternativa para mudar o regime.
É, portanto, uma situação muito complicada, pois não se pode dizer que isto seja um governo revolucionário que devamos apoiar por ele apoiar os trabalhadores. Do outro lado, temos um governo comprometido com o genocídio e um governo que apoia o genocídio, os EUA e Israel a fazer a guerra, e os países europeus a apoiarem essa empresa sem fazerem perguntas.
A questão do petróleo é, de certa forma, mais complicada para os EUA. A questão é impedir que a China obtenha petróleo barato do Irão. É um problema sério para os EUA. Não é que, actualmente, os EUA estejam necessariamente de olho nas reservas de petróleo do Irão. Talvez estejam de olho nas reservas de minérios iranianas e assim por diante. Mas quanto ao petróleo, o factor crucial é impedir o acesso da China ao petróleo do Irão a um preço muito barato. Bom, no meio disto tudo, há as tentativas de mudar o regime. Só que aqui há dois projectos diferentes. Os israelitas querem trazer de volta um certo grupo, a família do ex-xá. Os EUA têm uma visão mais sofisticada, diria eu. Não é bem como na Venezuela, mas andam a ver se, decapitando regimes, conseguem fazer mudanças suficientes para não terem de fazer mais nada. Os objectivos de Israel e dos EUA são contraditórios, mas convergem em ambos quererem enfraquecer o poder actual no Irão. As negociações: acho que é forçoso admitir que não foram conduzidas de boa-fé. Não sei se o Irão estava a negociar de boa-fé, mas pode dizer-se com certeza que os EUA não estavam a negociar de boa-fé, porque, enquanto isso, já estavam a discutir a operação militar conjunta com Israel. A operação militar conjunta tem aspectos algo estranhos: tem tentado atingir alvos muito específicos, como a casa do chefe supremo, que eles mataram, ou os comandantes da Guarda Revolucionária, mas também instalações militares. Para já, nem tentaram atacar as instalações nucleares, tanto quanto sei. É, portanto, uma situação muito complicada, pois não se pode dizer que isto seja um governo revolucionário que devamos apoiar por ele apoiar os trabalhadores. Do outro lado, temos um governo comprometido com o genocídio e um governo que apoia o genocídio, os EUA e Israel a fazer a guerra, e os países europeus a apoiarem essa empresa sem fazerem perguntas.
Raquel Varela: Deixa-me fazer esta súmula, e corrige-me, por favor, no que não esteja certa. Houve no Médio Oriente, nas décadas de 50, 60 e 70, alguns governos ditos “burgueses desenvolvimentistas”, especialmente no Irão, no Iraque e no Egipto; e os EUA apoiaram, contra esse desenvolvimento, governos religiosos altamente conservadores, com algum impacto. Por exemplo, Gordon Tearborn, no livro Sex and Power, observa que, com “estas mudanças políticas”, houve um retorno inesperado das religiões, que pensávamos estarem, estar o seu poder, a desaparecer. Vê-se o mesmo em Israel. Vê-se o mesmo com os católicos fundamentalistas que apoiam a extrema-direita. Ora, esse apoio está também muito ligado a uma viragem da economia para a extracção de petróleo. E a mudança do papel das mulheres, que era muito mais desenvolvido nos anos 70, tem algo que ver com este tipo de economia retrógrada, onde não há emprego real para as mulheres nem economia produtiva, desenvolvida. Gostava de entender a relação entre a organização política do regime e a economia baseada nesse, como é que havemos de chamar-lhe, talvez “extractivismo”.
O ataque israelo-americano desafia a própria existência do Irão como país; portanto, as facções do poder terão mais facilidade em unir-se
Yassamine Mather: Sim, isso é muitíssimo importante. A política dos anos 60 e 70 era dominada, de ambos os lados, pela guerra fria. Na guerra fria, os EUA tinham a estratégia de construir “cinturas verdes” [islâmicas] em redor dos tais países burgueses em desenvolvimento que, aliás, às vezes colaboravam com a antiga União Soviética. O interesse era comum. Isso permitia-lhes, por vezes, em matéria de programas de desenvolvimento, jogar os EUA contra a União Soviética e vice-versa. Há, portanto, estas cinturas islâmicas, das quais o Afeganistão fazia parte, é claro, com o crescimento do fundamentalismo religioso que lá se dá e a sua exportação para os países da região. Acho que, no caso da Palestina, foi muito deliberado, promoveu-se o Hamas em detrimento da OLP, mas também, e sobretudo, em detrimento dos grupos de esquerda na aliança palestiniana.
Há quem argumente que, em 1979, na revolução iraniana, a esquerda era muito poderosa, e foram os EUA que impulsionaram o movimento religioso. Eu aduzi argumentos contrários, pois, infelizmente, em 1979, o movimento religioso no Irão era forte, e era forte por causa do xá, porque o xá, talvez a CIA lho tenha ensinado, era muito agressivo contra a esquerda, contra os liberais. Os grupos religiosos sobreviviam nas suas mesquitas, nas suas madraças, nos seus seminários. Não eram reprimidos da mesma maneira que a esquerda. Não digo que estivessem em grande, mas convém lembrar que, por exemplo, o próprio xá se apresentava como um homem religioso islâmico, ao contrário de seus apoiantes atuais. Portanto, foi mais fácil ao movimento religioso manter um certo poder, e depois tornou-se no que hoje é.
Este retorno é mau para as mulheres. Sempre que vou à Turquia, fico chocada de ver cada vez mais mulheres a usar o véu. Não quero dizer com isto que o véu, em si mesmo, as oprima. Só que, na minha opinião, não ajuda, para o futuro das mulheres na região, haver um regresso à religião, visto que o véu é apenas um sinal de retorno ao movimento religioso. E, claro, aqueles pequenos emirados do Golfo Pérsico e alguns dos outros países agarraram-se à religião porque é assim que podem sobreviver — o emir passa a ser um governante de direito divino. Tens toda a razão em dizer que as economias, e a economia iraniana mais ainda, são o que eu chamaria de economias rentistas. Sobrevivem graças ao petróleo. Não têm mais nenhuma produção a sério. A industrialização parou ou estagnou. E isso abre caminho a mais corrupção. Outro elemento que contribuiu para a corrupção foram as sanções impostas ao Irão. Quando há sanções, há sempre maneiras de iludi-las. Quem está no poder consegue iludi-las facilmente. E fica com a possibilidade de comprar mercadoria a baixo preço e vendê-la muito mais caro. No Irão, pelo quíntuplo. Olhando para os protestos operários, não só em Janeiro de 2026 ou Dezembro de 2025, mas nos últimos 15 anos, eles são contra a corrupção e contra as políticas económicas que empobrecem continuamente os pobres e enriquecem os aliados do regime, mas também o capital privado, não apenas os aliados do regime. E às mulheres tiram direitos. Por exemplo, o Irão tem grande número de mulheres licenciadas, até mesmo nas ciências e engenharias. Tem mais mulheres licenciadas em ciências STEM [ciências, tecnologia, engenharias e matemáticas] do que o Reino Unido, não vou dar um número porque não sei, mas uma percentagem muito grande delas nunca chega a conseguir emprego. Trabalham a contrato ou em coisas que não têm nada que ver com as suas áreas de formação. São trabalhadoras precárias, fazem, sei lá, trabalho ao domicílio, costuram e vendem as suas peças em casa. Não fazem uso das suas especialidades. Na melhor das hipóteses, são professoras em escolas privadas, que é a maneira de conseguirem ganhar um mínimo. No fundo, empobrece-se ainda mais as mulheres. Entretanto, a economia está parada. Não se pode fazer grande coisa, não só por causa das sanções, mas também por causa da incompetência, da corrupção e da ausência de avanços, de desenvolvimento. Fica-se pela produção rentista de petróleo, pela venda de petróleo, agora restringida, etc.
Raquel Varela: Podes dizer-nos algo mais do regime? As diferentes facções do regime estão unidas?
Yassamine Mather: Eu explico. Fala-se da ditadura do Irão, e é, mas é uma ditadura complicada. Não é como Saddam Hussein, que era um homem só, percebes? Ou Khadafi, que era um homem só. O papel do chefe supremo é, se quiseres, unir as facções. As facções têm diferentes níveis de contradições internas, que variam no tempo. Portanto, quando há um ataque dos EUA ou está em causa a sobrevivência do regime, elas aproximam-se umas das outras. Neste momento, estão muito próximas, porque está em causa sobreviverem. No entanto, historicamente, há várias interpretações de como um governo islâmico há-de funcionar. Não são apenas duas facções, há muitas facções dentro das duas tendências. As duas tendências são a reformista e a conservadora, mas os reformistas só são reformistas para efeitos da política social. Não são reformistas para efeitos de economia política. O que quero dizer com isto? Os reformistas insistem menos no uso do véu, na imposição de regras sobre a não segregação de homens e mulheres na mesma reunião, esse tipo de coisa: são socialmente reformistas. Politicamente, porém, para efeitos de economia política, eles são bastante... são adeptos do livre mercado. Todo o regime é adepto do livre mercado. Mas a facção reformista é de alma e coração pela política económica neoliberal. Foi defensora da política económica neoliberal logo desde o início dos anos 2000 e continuou. Os conservadores também são defensores do mercado livre. Lembre-se, esta gente saiu do bazar, é gente do mercado. Nem é que sejam capitalistas de Estado. São capitalistas. Mas são socialmente conservadores. São eles que se opõem ao que as mulheres conseguiram na questão de tirar o véu. São conservadores em termos de regulamentação de reuniões mistas e assim por diante. São conservadores no forçarem toda a gente a acatar a lei religiosa. O papel do chefe supremo passa, em certos momentos, por garantir que nenhum dos lados se torne dominante. Um dos papéis de Khamenei era, por conseguinte, servir de negociador entre todas as facções e lidar com as divergências. Será esse o papel do novo chefe supremo, se ele sempre vier a aceder ao poder. Será um homem, as mulheres não podem ser chefe supremo. Isso já está definido. Visto assim, tem de se considerar a ditadura com mais complexidade do que se apresenta na imprensa ocidental. Parece-me que este papel de negociador não será, neste momento, muito difícil, porque o país está a ser ameaçado no seu todo. O ataque israelo-americano desafia a própria existência do Irão como país; portanto, as facções terão mais facilidade em unir-se. Uma vez passada a ameaça, e supondo que eles sobrevivam – não sabemos se sobreviverão, mas se sobreviverem –, as diferenças ainda sobressairão mais.
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Raquel Varela: A esquerda iraniana tem uma longa história política, embora parte dela tenha emigrado. Mas ainda ficaram dirigentes de esquerda no Irão? Há alguma alternativa política? É que estamos a falar de um país que tem um sector da classe trabalhadora altamente qualificado, com história política. Mas ainda lá ficou alguma esquerda?
Yassamine Mather: Bem, não podemos dizer que não haja esquerda organizada, no sentido de não haver partidos ou organizações. Se uma pessoa se declarar de um partido, é presa. Isso não foi possível nos últimos 45 anos, 47 anos. Mas há muita esquerda no Irão. Quem é? Bem, em primeiro lugar, parece-me que se deve mencionar as organizações operárias. Não são tão... parecem ser organizações operárias espontâneas, mas houve claramente trabalhadores com tradições de radicalismo a participar em pleno na criação dessas organizações. Talvez já tenhas ouvido falar do Sindicato dos Trabalhadores de Autocarros Wahed. Não é reconhecido como sindicato pelo governo. Os seus dirigentes são presos com frequência. No entanto, eu diria que, nos últimos vinte anos, talvez mais, eles têm organizado protestos quase todos os anos. Eles defendem outros trabalhadores e as suas próprias reivindicações. Exigem o reconhecimento das organizações de trabalhadores. Depois, há os trabalhadores da cana-de-açúcar da Haftap. Eles têm-se batido arduamente contra a privatização, não só da sua própria indústria, mas contra a privatização em geral. Uma vez mais, embora pareçam ser uma organização operária espontânea, eu conheço lá gente muito activa, que se mantém abaixo do radar para não ser presa. São sindicalistas e militantes de esquerda comprometidos. São duas grandes organizações activas, das quais tenho lido posições nos últimos meses. Convém não esquecer, se por acaso leste histórias da revolução iraniana, que os operários do petróleo foram muito importantes na revolução. Só que a República Islâmica dividiu a indústria petrolífera em muitas pequenas empresas privadas, um contrato aqui, um contrato ali. Há um número muito grande de empresas privadas, e as próprias empresas privadas têm subempreiteiros. O que acontece é que os trabalhadores se estão a tentar organizar transversalmente a estas dezenas de empresas, juntando-se na base de serem da mesma indústria. É muito significativo, muito promissor. Há uma série de páginas web de esquerda. De quando em quando bloqueiam-nas, e as pessoas que lá escrevem são presas. Mesmo assim, há uns meses, não agora, estava eu a ver uma dessas páginas, e ias-te surpreender com a quantidade de artigos de Michael Roberts traduzidos para o persa nessa página web.
Raquel Varela: Michael Roberts é um economista marxista. Ele também escreve regularmente para o Maio.
Yassamine Mather: É, pois é. Ias-te surpreender. Até lha mandei, porque queria que ele visse que os artigos dele estão publicados. Algumas destas páginas aceitaram o convite da Critique para falar em persa. Ou seja, eles não tiveram medo de aceitar um convite da Critique, mas obviamente que teriam medo se fosse organizado por uma organização de tipo marxista. Portanto, sim, há limitações ao que eles podem fazer. Nenhuma delas ocupa uma posição de direcção, mas o que eu quero dizer, em suma, é que a esquerda não está morta. Há movimento operário, há movimento intelectual. A página a que me referi é uma de três ou quatro. Tenho mais contacto com uma delas. Chama-se Critique of Political Economy. Não copiaram de nós. Já se chamavam assim antes. Portanto, há vida.
Raquel Varela: Há vida. E onde há vida, há esperança, evidentemente. Nós, na esquerda crítica, na tradição da oposição de esquerda, temos tido que haver-nos com o campismo, que é a ideia de que, especialmente depois da invasão russa da Ucrânia, é preciso escolher entre a Rússia e os EUA, e apoiar os EUA é estar a apoiar os maiores e mais perigosos imperialistas do mundo. Apoiar os EUA é apoiar o imperialismo. Portanto, há como que uma divisão, e seria preciso apoiar a Rússia, digamos assim, porque embora não sendo a Rússia socialista, não sendo o Estado dos trabalhadores para os trabalhadores, sendo um Estado capitalista, com uma ditadura, se não apoiarmos a Rússia, ficamos sem quem nos defenda do imperialismo americano. Tem sido sempre assim, também na Venezuela, e agora também com o Irão. Achas que esta maneira de dividir não tem alternativa, ou há uma alternativa socialista, dos trabalhadores?
Yassamine Mather: Bom, eu acho que, felizmente, aquela gente que eu referi antes não tem ilusões sobre a Rússia e a China. Sim, havia muita gente, antes da agressão, antes do ataque dos EUA, que dizia, bom, se houver guerra, a Rússia vem socorrer-nos, ou então o que temos é de nos despacharmos com o desenvolvimento do nuclear. Precisamos de melhor desenvolvimento nuclear. A Rússia ajuda, a China ajuda. Mas é claro, como se viu na guerra dos doze dias, em Junho de 2025, quando Israel e, depois, os EUA atacaram, claro que a China e a Rússia não quiseram nada com a guerra. A Rússia tem tão boas relações com Israel como com o Irão. Mais, a Rússia e Putin têm melhores relações com Israel do que com muitos outros países. Lembro-me de ele ter afirmado uma vez que Israel era o segundo maior país de língua russa do mundo, o que, aliás, não é verdade, a Ucrânia é maior, assim como muitos outros países. Até a Alemanha, na Europa, é maior. Mas isto era ele a tentar cair nas boas graças de Israel. A ideia é um disparate. No entanto, política e economicamente, a Rússia tem relações muito estreitas com Israel. Emite declarações em tempos de guerra, mas não é aliada do Irão e não fará nada pelo Irão. Mas, também, como é que se vai procurar apoio a um país cujos marxistas são presos, onde não se pode criticar Putin, onde Putin está no poder por causa dos oligarcas, do FSB e das forças de segurança? Portanto, se ter ilusões sobre a ex-União Soviética era terrível, ter ilusões em Putin é muito pior. Já a China, bem, a China está determinadíssima a ser uma potência ainda mais forte do que é. Nada disto a impede. Mesmo quando compra petróleo iraniano a baixo preço, não incorre em risco de sanções ou outro. Fá-lo às escondidas, para a economia não ser afectada. Sim, há um acordo económico entre a China e o Irão, mas não é melhor nem diferente do acordo que a China tem com a Arábia Saudita. A China não se vai pôr do lado do Irão só porque tem um acordo com o Irão. Mas também me parece que quem tem ilusões quanto à China se esquece, até certo ponto, por a China estar em ascensão, de que ela não anda longe de ser uma potência imperialista. Ao dizer isto, bem, tu e eu estamos na Critique, somos críticos, tenho de ter muito cuidado quanto aos nomes que dou às coisas, mas a China tem tendências imperialistas. A China, o governo chinês, a economia chinesa que lá quer chegar, tem-se portado com generosidade relativamente a empréstimos. As taxas de juro dos empréstimos chineses são melhores do que as do FMI, por exemplo. Mas as condições que impõe aos empréstimos são drásticas. 99 anos num porto que a China constrói? Exigir períodos de um século de compromisso com a economia de um dado país para lhe conceder um empréstimo! Não podemos, portanto, vê-la como uma espécie de benfeitora do Sul Global. Está a tentar lucrar com o Sul Global, mas podendo dar-se ao luxo de parecer mais simpática. Nem sequer estou a tentar fazer uma análise marxista da economia da China, porque não sei. Estou a dizer o que pressinto.
Raquel Varela: Só para os nossos leitores compreenderem: o nosso debate na Critique, que é um debate que decorre em várias organizações marxistas pelo mundo fora e na esquerda em geral, é para perceber se a China é um país imperialista ou não, se há uma diferença entre o seu Estado e a sua economia e a sua relação política com os trabalhadores e, ao mesmo tempo, se a China está ou não aberta ao comércio mundial no sentido em que outros Estados capitalistas estão. Infelizmente, não temos tempo para analisar que tipo de Estado é a China. O Michael Roberts tem um debate muito bom sobre isso.
Mencionaste o Irão. Não sabemos bem se o Irão sobreviverá com o regime actual, ou mesmo como país, mas estamos a falar de um país de 93 milhões de pessoas. Que sociologia é a deste país? Quanto desemprego há? É um país de jovens. Uma coisa é usar drones para matar, como os EUA e Israel agora fazem, outra coisa é derrotar 93 milhões de pessoas com uma ocupação; isso não faz parte do programa dos EUA.
No Irão, a percentagem de pessoas com formação universitária é muito alta. Mas a maioria está desempregada. Mais de 33%, diz-se
Yassamine Mather: Tens toda a razão, os EUA não podem fazer isso. Qual é então o plano de Israel, e talvez dos EUA? O Irão é composto por muitas nacionalidades. Não me vou pôr a dar números, mas os curdos, por exemplo, são uma parte grande da população. Há também azeris. As duas províncias do Norte do Irão chamam-se Azerbaijão Oriental e Azerbaijão Ocidental. Falam uma língua túrquica, diferente da de Teerão. Depois há os árabes do Sul do Irão. Têm parentes no Iraque ou no Qatar ou noutro sítio, mas são iranianos árabes. No Irão Oriental há os baluchis, junto à fronteira com o Afeganistão. Há turcomanos, mais próximos talvez da Geórgia, do Turquemenistão, no Norte do Irão. O plano de Israel é criar divisões para criar separações. Em vez dos actuais 93 milhões, ficava-se com um Curdistão iraniano independente, um Azerbaijão independente. Por falar nisso, Israel tem trabalhado muito de perto com a República do Azerbaijão para fomentar o separatismo. Até agora, não tem sido bem sucedido, a não ser com um segmento da oposição curda. E é assim porque toda a gente vê que as separações não têm servido para nada. É olhar para o Iraque, por exemplo: as autoridades curdas não se têm saído melhor do que o resto do Iraque. Tudo subdesenvolvido e em péssimas condições: Estados falidos, no fundo. Mas eles tentam, há dinheiro metido na separação. Sei que os EUA estão metidos no separatismo baluchi. A ideia está lá. Ao nível do desemprego: no Irão, a percentagem de pessoas com formação universitária é muito alta. Mas a maioria delas, uma percentagem muito grande, está desempregada. Mais de 33% desempregados, diz-se. E quem tem emprego não está empregado nos estudos que fez. É provável que trabalhe no sector informal. O Irão tem uma coisa parecida com a Uber, chamada Snap. Motoristas da Uber, motoristas do Uber Eats. A Snap Eats é como a Snap. Salários baixíssimos. A moeda desvaloriza-se, as pessoas empobrecem. Esta é a situação.
Raquel Varela: Uma última pergunta. O que hão-de fazer as organizações dos nossos países, dos países ocidentais? Sindicatos, organizações, partidos políticos, associações, o que havemos de fazer?
Yassamine Mather: Parece-me que somos precisos todos. Eu também vivo na Grã-Bretanha, é lá que tenho de lutar. Temos de ser derrotistas revolucionários. Temos de apelar à derrota dos Estados Unidos e do Reino Unido. Talvez Portugal não esteja directamente comprometido.
Raquel Varela: Não, não, está totalmente comprometido, a grande base militar dos Açores é essencial para a manutenção dos aviões militares americanos.
Yassamine Mather: Então pronto, temos de apelar à derrota dos nossos países imperialistas. Não há nem “ses” nem “mas”. Que havemos de fazer? Como sindicalistas, parece-me que podemos chamar ao boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel, porque é Israel que está a desempenhar este terrível papel no Médio Oriente. Gaza não é uma questão apenas da Palestina. É impedir que Israel e os Estados Unidos destruam toda a região do Médio Oriente com as suas políticas exploradoras. Os sindicalistas podem bater-se por isso. Tenho visto sindicalistas a impedir o carregamento de armas com destino a Israel. São coisas que podemos fazer, que são muito importantes. Enviar informação deste género aos povos do Irão, da Palestina, ajuda a levantar-lhes o moral, mas é também eficaz em si mesmo, porque é fazer algo com efeito prático.
Raquel Varela: Pois, vimos a coragem dos trabalhadores portuários de Génova e de Gotemburgo que impediram o envio de armas para Israel e boicotaram os países que apoiam estas guerras. Podes explicar essa ideia de derrotismo revolucionário?
Yassamine Mather: Acho que foi o nosso bom velho Lenine que se saiu com ela. Creio que no contexto da Primeira Guerra Mundial. Dizia ele que eles deviam querer a derrota do Império Russo, e os social-democratas e comunistas alemães deviam querer a derrota da Alemanha. Portanto, para os países imperialistas, é simples. Queremos que eles saiam derrotados. Querer a derrota do nosso próprio país. É revolucionário, porque o habitual é ser patriota e defendê-lo.
Raquel Varela: Pois, transformar o mundo imperialista numa guerra de classes, em que estaríamos ao lado dos trabalhadores de todo o mundo contra os nossos próprios Estados. E temos de começar pelo nosso próprio Estado. Yassamine, muito obrigada por esta entrevista. Em nome de todos nós, do Maio, por nos teres ajudado a compreender muito melhor estes acontecimentos.
Yassamine Mather: Muito obrigada por me convidares. As perguntas foram muito boas. Espero ter feito jus a algumas.
Paulo Rangel fala de “cumprimento das nossas obrigações atlânticas”, esperando que tanto o povo como a oposição aceitem esta afirmação de covardia e cinismo como resignação “sensata” ao poderio dos norte-americanos.
À margem da reunião, em Bruxelas, dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos Estados-membros da União Europeia, Paulo Rangel foi questionado sobre a intensa atividade militar americana nas Lajes. Num contexto geopolítico de escalada de conflito, Rangel tentou escudar-se no Acordo de 1995: “Qualquer outra operação, essa não tem de ser nem autorizada, nem conhecida, nem comunicada por Portugal. Nunca foi e não era agora que ia ser.”
É irónica esta posição quando a invasão do Irão tem estado na ordem do dia. Tratando-se de uma operação conjunta entre os EUA e Israel, as primeiras declarações de Rangel demonstraram uma falha jurídica e institucional. O Acordo Técnico de 1995, no seu Artigo I, número 4, é esclarecedor: “qualquer utilização pelos Estados Unidos da América das instalações [...] que não decorra ou integre as situações previstas nos números anteriores deverá ser objecto de autorização prévia”.
Estaremos a repetir a façanha de 2003, quando um outro governo do PSD, liderado por Durão Barroso, acolheu a Cimeira dos Açores que serviu de prelúdio à guerra contra o Iraque, que se prolongaria até 2010 com efeitos devastadores sobre esse país?
Recordemos que em 16 de março de 2003 na Base Aérea das Lajes, na ilha Terceira, reuniram-se os chefes de governo dos EUA, Reino Unido, Espanha e Portugal, na altura, George W. Bush, Tony Blair, José María Aznar e também o anfitrião, ou porteiro, José Manuel Durão Barroso. Dessa cimeira saiu um ultimato ao regime de Saddam Hussein para entregar “armas de destruição maciça” que, afinal, como veio a confirmar-se, nunca tinham existido.
Qualquer utilização pelos EUA das instalações [das Lajes] que não decorra ou integre as situações previstas nos números anteriores deverá ser objeto de autorização prévia”, diz o Acordo entre Portugal e EUA.
No MNE fala-se de “cumprimento das nossas obrigações atlânticas”, esperando que tanto o povo como a oposição aceitem esta afirmação de covardia e cinismo como resignação “sensata” ao poderio dos norte-americanos. Não disse Trump a Espanha (que recusou o uso das suas bases para os ataques ao Irão), que “se quisesse” as usaria na mesma, ameaçando o país vizinho com o corte de todas as relações comerciais?
Não podemos pretender que temos uma espinha dorsal e uma política externa que não seja de submissão ao mais forte e continuar a ter as Lajes como ponte de passagem para um massacre de terror humano e para expansão dos seus interesses capitais. Relembremos que, num passado recente, estendeu-se o alcatrão das Lajes para receber três F-35 americanos com destino ao empreendimento israelita no genocídio palestiniano, logo após Espanha ter negado a sua receção, primeiramente.
O Governo português serve-se da conivência institucional para mascarar a sua cumplicidade com os massacres em curso. É esta a diplomacia humanista que os burocratas das Necessidades gostam de proclamar? Esta política serve os interesses nacionais ou os interesses de outrem?
Portugal tem sangue nas mãos. No meio desta incursão ocidental morreram 165 jovens. Mortes derivadas de brutais bombardeamentos em locais civis, escolas, zonas de habitação. Como colateral, pagam o preço da história as netas e filhas das mulheres que viram a sua liberdade ser retirada pelos mesmos que agora querem aclamar a sua libertação.
Narramos utopias de paz, pregamos o humanismo, mas no fim arrastamo-nos na cobardia. Como diria Eça de Queirós n’ As Farpas:
“O País perdeu a inteligência e a consciência moral. […] A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. [...] Já se não crê na honestidade dos homens públicos.”
A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército
Nesta página web tomam a palavra desertores ucranianos — que, segundo números do governo, se contam por uns duzentos mil. Um dos testemunhos: “A Ucrânia é Zelensky, como o Império Romano era César. O Ocidente deu-lhe dinheiro para fazer a guerra e Moscovo deu-lhe garantias de segurança. Nem a sua autoridade nem a sua integridade estão ameaçadas. A linha da frente, algures no Donbass, não mexe há quatro anos e continuará sem mexer mais três. O Exército ucraniano é um grupo de sem-abrigo (no sentido literal do termo) que combate contra outro grupo de sem-abrigo. Dão-te uma Kalachnikov, dois carregadores, duas granadas, e mandam-te combater. Dois exércitos de sem-abrigo que lutam sem a mínima perspectiva. Que moralidade se há-de esperar deles? (...) Vi um responsável de uma das nossas administrações militares a falar apaixonadamente. Sustentava, entusiasmado, que 50% dos soldados recrutados à força em rusgas de rua para serem mandados para a linha da frente se tornariam em soldados muito patriotas que tomariam de assalto as zonas ocupadas. Talvez fosse assim em 2023, até no primeiro semestre de 2024, mas tudo isso pertence ao passado. Mesmo entre os potencialmente motiváveis, o sistema abafa qualquer motivação logo à cabeça. Os soldados mobilizados ficam meses sem receber. (...) E por cada soldado ucraniano há dez chuis do alto comando e do SBU [serviços de segurança da Ucrânia, Ndr] a vigiá-lo.”
Rússia:“Sois cobardes?”
A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército. A directora Kirsanova reuniu então os 400 estudantes de dezoito anos de idade e lançou-se numa longa tirada de imprecações contra eles. A cena foi filmada por um estudante e vazada para as redes sociais. A directora acusou os jovens de só se terem inscrito no instituto para conseguirem adiar o serviço militar até “a guerra acabar”. Aos berros: “Gente, é a pátria que chama! Têm de aceitar! De que têm medo? Têm medo de regressar num caixão de zinco? De onde vos vem esse medo? Quem vo-lo inspirou? (...) Vocês são cobardolas, para aí sentados, aterrorizados?” A divulgação da cena nas redes sociais causou indignação. Houve alunos que se queixaram aos pais de os estarem a “manipular”. Não contente, a directora apresentou queixa ao FSB, a polícia política. Parece que nem a propaganda militarista do regime de Putin, nem a repressão nem a censura conseguem convencer a juventude a ir voluntariamente para o “matadouro”.
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Alemanha:“Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”
Realizou-se em Göttingen, na Alemanha, nos dias 14 e 15 de Fevereiro, a primeira conferência nacional do movimento de greve escolar contra o serviço militar obrigatório. Participaram mais de 250 jovens e estudantes de 70 cidades. Excertos da resolução aprovada:
“No dia 5 de Dezembro, na manifestação de 55 mil jovens e estudantes, manifestámos claramente que “Não queremos serviço militar! Queremos ter um futuro!” Nesse mesmo dia, o Bundestag [o Parlamento federal] adoptou a lei dita de modernização do serviço militar, dando um passo para a restauração do serviço militar obrigatório. Logo em Janeiro, todo os jovens nascidos em 2008 começaram a receber questionários de avaliação das suas competências e motivação para o serviço militar. A conscrição obrigatória é para começar em 2027. O governo diz que o serviço militar obrigatório e o rearmamento são necessários para nos defendermos. Nós perguntamos: como há-de o rearmamento garantir a paz e porque havemos nós de precisar de ter o Exército mais poderoso da Europa para vivermos em segurança? O chanceler Merz fala numa nova “era de política de grandes potências”, na qual a Alemanha teria que actuar com confiança em si. Mas nós sabemos que política de grandes potências quer dizer disputa, recorrendo à força, de mercados, recursos e esferas de influência à custa de meter ainda mais dinheiro no Exército e na economia, e menos na educação, na protecção social e no ambiente. Quer dizer ampliar ainda mais a NATO, mesmo que o preço seja provocar novas guerras. No mundo que o Governo federal quer para nós, não sobra nenhuma perspectiva para o nosso futuro a não ser crescer na pobreza e aprender em escolas arruinadas, enquanto a crise climática progride sem dar tréguas.
O ministro da Defesa Pistorius quer-nos convencer de que a conscrição de uma geração inteira serve para defender a democracia. Nós dizemos que o que interessa a este Estado não é a nossa liberdade e a nossa opinião. O destacamento de tropas para o estrangeiro, a militarização e o serviço militar obrigatório são contra os nossos interesses. (...) Põem-se milhares de milhões no rearmamento, preparando o terreno para a próxima grande guerra. Enquanto isso, as cotações das acções de empresas de armamento como a Rheinmetall, ThyssenKrupp, KNDS e companhia sobem vertiginosamente. (...) Por tudo isto, preparamos desde já a greve à escola de 5 de Março e levaremos a cabo acções nas nossas escolas.”
A concluir, a resolução apela à generalização de comités de organização da greve à escola e a entrar em contacto com as secções de juventude dos sindicatos, com os sindicatos, os pais e professores. Conclui com o título deste artigo: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”
Irão, Estados Unidos:Generalização da guerra contra os povos e a juventude de todo o mundo
No Irão, a aliança israelo-americana continua a matar e a destruir sem piedade. Trump diz agora que só parará quando o Irão se render incondicionalmente. Ninguém sabe sequer o que tal significa.
Como escrevíamos no editorial da semana passada, as descabeladas justificações dadas por Trump e pela sua mafia para o ataque ao Irão — da destruição dos projectos nucleares do Irão (que Trump há meses declarara ter “obliterado” com as suas fantásticas bombas de perfuração profunda) a uma ameaça iminente (!) de ataque iraniano e ao inexistente programa de construção de mísseis intercontinentais do Irão — têm como única lógica a destruição de tudo o que possa fazer frente ao polícia sionista designado para o Médio Oriente.
Submetam-se ou morrem, é a palavra de ordem que sai da Casa Branca.
Do genocídio de Gaza à virtual anexação da Cisjordânia, da entrega do poder ao regime talibã no Afeganistão à entrega da Síria desfeita a um comandante do Daesh e aos bombardeamentos do Irão, há um fio condutor, um só: e não, não é a “democracia” nem o fim da ditadura teocrática dos mulás. É que mergulhem os povos e países no caos absoluto, que sobrem Estados “falhados” — o que interessa, a segurança do petróleo e dos respectivos lucros, ficará garantido pelo Exército sionista, por milícias privadas e, em última análise, pelo Pentágono. No fundo, a situação que campeia há décadas na África Central, a zona mais rica do mundo em minérios, onde as multinacionais prosseguem calmamente os seus negócios no meio da guerra e do caos permanentes. Não há actualmente solução mais barata para os imperialistas, enquanto eles preparam as próximas guerras.
Têm toda a razão, pois, os liceais alemães, os desertores e refractários ucranianos e russos, tal como a tem a população do Minnesota, que fez greve geral para correr com os esbirros nazis do ICE. Contra esta marcha para a generalização do caos e da guerra, a única saída está em organizar a resistência e lutar contra os opressores e seus cúmplices nos nossos próprios países.
Estas guerras não são nossas. Elas vão contra os interesses dos jovens e dos trabalhadores na Rússia, na Ucrânia, na Alemanha, no Irão, nos Estados Unidos — e em Portugal, onde um governo servil deixou os agressores norte-americanos usarem à vontade a base das Lajes, sem sequer lhe darem cavaco a ele, nem ele o dar ao povo.
Em parte alguma do mundo os trabalhadores e os jovens, destinados a ser ou carne para canhão ou “danos colaterais”, têm interesse em matar ou morrer pelas conquistas e os super-lucros do grande capital, que só servirão para explorar ainda mais quem sobreviver à matança.
O sindicato condena veementemente toda a propaganda, justificação ou apoio a uma intervenção militar por parte de governos estrangeiros.
Sindicato dos Professores da Província de Buxer (ou Bushehr, Sul, no Golfo Pérsico):
“Há mais de cento e vinte anos que o povo iraniano reivindica a liberdade e a justiça. Tem-se batido contra todas as formas de tirania e exploração. Da Revolução Constitucional1 ao movimento pela nacionalização do petróleo, das lutas que redundaram na revolução de 1957 aos levantamentos de 2009, 2010 e 2011 e aos dias de hoje, o povo iraniano segue a mesma trajetória e persegue as mesmas reivindicações há mais de um século. De cada vez, a reação, a tirania e o colonialismo — agindo concertadamente — esmagaram os defensores da liberdade e da justiça e perpetuaram a exploração.
O Sindicato dos Professores da Província de Buxer analisa o recente levantamento, cuja palavra de ordem é a rejeição de toda a tirania e a reivindicação de liberdade e igualdade, expressa com particular veemência nas regiões oprimidas, como parte integrante da longa luta do povo iraniano. Condenando todas as formas de opressão, tirania e exploração, o sindicato manifesta a sua solidariedade e apoio ao povo iraniano.”
O Sindicato dos Trabalhadores da Companhia de Autocarros de Teerão e Subúrbios reitera a sua posição de princípio de 2021:
“Declaramos a nossa solidariedade com as lutas populares contra a pobreza, o desemprego, a discriminação e a opressão, mas opomo-nos categoricamente a qualquer regresso ao passado2 marcado pela desigualdade, corrupção e injustiça. É nossa convicção que a verdadeira libertação só poderá ser obra da mobilização consciente e organizada da classe trabalhadora e dos oprimidos, sem passar pela reprodução de formas antigas e autoritárias de poder. (…)
O sindicato condena veementemente toda a propaganda, justificação ou apoio a uma intervenção militar por parte de governos estrangeiros.
“Já o dissemos antes e repetimo-lo: o caminho para a libertação dos trabalhadores não passa por um chefe autoproclamado acima do povo, nem na dependência de potências estrangeiras, nem em lutas intestinas dentro do Estado, mas antes na unidade, na solidariedade e na criação de organizações independentes no local de trabalho e a nível nacional. Não nos devemos deixar manipular outra vez pelos jogos de poder e pelos interesses das classes dominantes. O sindicato condena firmemente qualquer propaganda, justificação ou apoio à intervenção militar de governos estrangeiros, particularmente os dos Estados Unidos e de Israel. Tais intervenções não só redundam na destruição da sociedade civil e em massacres, como fornecem um pretexto adicional para a repressão governamental. (…)
Viva a liberdade, a igualdade e a solidariedade de classe! A solução para os trabalhadores e trabalhadoras está na unidade e na organização.”
1 1905: Revolução popular que impõe uma Constituição. 1951: Nacionalização do petróleo pelo primeiro-ministro Mossadegh. 1957: Fim da lei marcial. 2009, 2010 e 2011: Movimentos de protesto contra o regime teocrático.
2 Referências às forças monárquicas que tentam manipular os protestos.
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta. Mas a tragédia da Venezuela e da América Latina é também que a desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente.
Poucas horas passadas do ataque militar dos EUA à Venezuela e da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o presidente Trump proclamou que “as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos vão lá entrar, investir milhares de milhões de dólares, consertar a infraestrutura muito danificada e começar a pôr o país a ganhar dinheiro”. Trump não escondeu que uma das principais razões para o ataque e rapto de Maduro era conseguir que os Estados Unidos passassem a controlar as vastas reservas petrolíferas da Venezuela, a que Trump se refere como “o nosso petróleo”.
A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo, cerca de 303 mil milhões de barris, ou 17% das reservas globais, segundo o Energy Institute, com sede em Londres — mais do que a Arábia Saudita, a primeira da OPEP+. Apesar destas vastas reservas, a produção de petróleo bruto da Venezuela continua muito abaixo da capacidade. A produção atingiu um pico de 3,5 milhões de barris/dia na década de 1970 (mais de 7% da produção global), mas caiu para menos de 2 milhões de barris/dia durante a década de 2010, caindo o valor médio para apenas 1,1 milhões de barris/dia no ano passado.
Os EUA passaram a ser o maior produtor mundial graças à chamada revolução do xisto, na década de 2000. Consequência disso foi, porém, o mundo ficar encharcado em petróleo, com a oferta a ultrapassar o aumento da procura global. Esta está em travagem, porque a expansão económica na maioria das grandes economias se faz à velocidade de uma lesma e devido à mudança gradual da produção de energia para as renováveis. Aliás, quando a Venezuela foi atacada, o preço do petróleo bruto Brent, referência do mercado, estava perto do mínimo dos últimos cinco anos, cerca de 60 dólares por barril.
Bem pode Trump dizer às grandes companhias petrolíferas do mundo que agora é ele quem manda na Venezuela e que elas se podem candidatar a investir para ganhar “uma data de massa” — as petrolíferas são capazes de não ter assim tanta certeza. Ali Moshiri, um antigo executivo da Chevron, está a tentar angariar 2 mil milhões de dólares para adquirir variados ativos venezuelanos. Porém, a aposta é arriscada. O entusiasmo de empresas como a própria Chevron, que até já detém uma licença dos EUA para perfurar e produzir petróleo venezuelano, é capaz de não ser por aí além.
O preço da restauração da produção de petróleo na Venezuela não vai ser baixo. A infraestrutura de perfuração está degradada, e o petróleo extraído é “pesado”, Extrair petróleo pesadíssimo implica fazer muitos furos e criar poços com vida útil relativamente curta — um processo bastante semelhante ao da produção de petróleo do xisto nos EUA — e, em seguida, misturar as vasas com petróleo mais leve ou nafta, de modo a poder correr por oleodutos antes de ser exportado e refinado. Produzir e comercializar petróleo “pesado” requer técnicas avançadas, como injeção de vapor e mistura com petróleos mais leves. Acresce que as reservas do país se concentram essencialmente na cintura do Orenoco, uma vasta e remota região na parte oriental do país, que se estende por cerca de 55 mil quilómetros quadrados.
O governo de Maduro passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais.
Além disso, a enchente do petróleo já começou a afetar os lucros esperados da nova exploração e extração. As perdas acumuladas da indústria americana do petróleo de xisto na década de 2010 atingiram quase quinhentos mil milhões de dólares. Tudo depende do “limiar de rentabilidade”, que, para o xisto americano, se tem estimado num preço médio de cerca de 60 dólares por barril. Tudo isto, enquanto a oferta global de petróleo cresce mais rapidamente do que a procura, projetando a Agência Internacional de Energia um aumento da oferta global na ordem de 3 milhões de barris/dia em 2025 e mais 2,4 milhões em 2026, contra aumentos da procura de apenas 830 mil barris em 2025 e 860 mil em 2026. Jorge León, da Rystad Energy, estima em 115 mil milhões de dólares o custo da duplicação da produção para 2 milhões de barris no início da década de 2030 — quase o triplo das despesas de capital combinadas da ExxonMobil e da Chevron no ano passado. Conseguirão a Exxon e a Chevron fazê-lo lucrativamente, considerando o atual equilíbrio mundial da oferta e da procura de petróleo e tanto mais que esse petróleo “pesado” teria de ser vendido abaixo do preço de referência?
No entanto, há outros fatores por trás da jogada de Trump contra a Venezuela. A nova Estratégia de Segurança Nacional deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta, e com “doping”. Naquela época, o presidente Monroe declarou que as nações europeias não se podiam ingerir na América Latina nem tentar controlá-la: passava a estar na “esfera de influência” dos Estados Unidos da América. Com Trump, a globalização cedeu o lugar ao‘”Making America Great Again" (“Voltar a Engrandecer a América”), o que situa firmemente a América Latina como quintal do imperialismo norte-americano. A implicação é que nenhum país pode resistir à política e aos interesses dos EUA. É necessário instaurar “regimes amigos” que permitam quer o acesso privilegiado dos norte-americanos aos respetivos recursos, quer capacidade para negá-los aos concorrentes: barrar, por conseguinte, a crescente influência e investimento chinês na região – apesar de o petróleo venezuelano representar meros 300 mil dos 11,3 milhões de barris que a China importou diariamente em 2025, segundo o Instituto de Estudos de Energia de Oxford —, tendo empresas da República Popular da China ganhado posições na indústria de perfuração de petróleo da Venezuela.
Em 2024, quando a contestada reeleição de Maduro ocorreu, salientei que o capitalismo venezuelano estava intimamente preso à rentabilidade do setor energético, que se encontrava numa espiral de morte após o colapso dos preços do petróleo a seguir a 2010 e as sanções americanas.
As conquistas que a classe trabalhadora alcançou no tempo de Chávez, na década de 2000, só foram possíveis porque os preços do petróleo atingiram o auge. A seguir, porém, os preços das matérias-primas, incluindo o petróleo, caíram, mais ou menos coincidindo com a morte de Chávez. O governo de Maduro perdeu o apoio da sua base operária à medida que a hiperinflação destruía o nível de vida. O governo passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais. Os militares podiam comprar em mercados exclusivos (por exemplo, em bases militares), tinham acesso privilegiado a empréstimos e aquisições de carros e apartamentos e recebiam aumentos salariais substanciais. Exploravam, ainda, o controle do câmbio e os subsídios, vendendo, por exemplo, com enorme lucro, gasolina barata comprada em países vizinhos.
A tragédia da Venezuela é que tudo dependia do preço do petróleo; pouco ou nenhum desenvolvimento houve dos sectores não petrolíferos, que, no mais, estavam nas mãos de empresas privadas. Não havia plano nacional de investimentos independente controlado pelo Estado. Com as sanções dos EUA e a contínua subversão contra o governo, os dias da revolução chavista estavam contados.
É uma lição para toda a América Latina. A desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente, dada a fraqueza dos capitalistas nacionais e a longa sombra do imperialismo americano.
Em Novembro de 2025, Trump anunciou a nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana. Modestamente, como é seu hábito proclamou: “Este documento é um roteiro para garantir que os Estados Unidos continuem a ser a nação mais grandiosa e bem-sucedida da história da humanidade e o berço da liberdade na Terra.”
O documento regista, com efeito, o “declínio económico da Europa”.
Mais notável, no entanto, é ele considerar que esse declínio económico é “eclipsado” pela “perspectiva de obliteração da civilização” europeia a que as políticas dos dirigentes do continente levam — tornando “mais do que plausível” que, daqui a vinte anos, a Europa deixe de ser “europeia”. Subentende-se sem dificuldade: a “raça branca” europeia irá ser superada por “raças” africanas, árabes e asiáticas, inimigas da América branca.
A NSS reflecte, assim, sem pudor, a propaganda nazi sobre a “substituição populacional” na Europa. E é tudo menos velado o apoio que promete aos partidos e dirigentes neofascistas (“patriotas”) europeus: Meloni, Orban, Chega, Vox, AfD, RN…
Não obstante, não podia ser mais absurda a conclusão de alguns assustados comentadores europeus — e portugueses1— de que a estratégia trumpiana designa a “Europa” como “inimigo principal” do império americano.
Em quase toda a extensão do documento, a administração Trump dedica-se a descrever como combater e atacar a China, apesar de a palavra ser pouco usada no documento2.
Assim, se a primeira prioridade da estratégia americana (O que queremos no e do mundo?) é o controle absoluto dos Estados Unidos sobre o “hemisfério ocidental”3, não se deixam dúvidas sobre o que está em disputa.
Essencialmente, trata-se de manter o hemisfério “livre das incursões hostis e da propriedade de activos essenciais” por “externos” (leia-se: pela China) e de manter o acesso dos EUA “a localizações estratégicas essenciais” (leia-se: expulsando, por exemplo, a empresa de Hong Kong proprietária dos portos do canal do Panamá e impedindo a entrada de capitais chineses no aço e nas “tecnológicas” americanas); “deter e reverter o mal que actores externos têm infligido à economia americana, mantendo, do mesmo passo, o Indo-Pacífico [não exactamente “hemisfério ocidental”!] livre e aberto, salvaguardando a liberdade de navegação em todas as rotas marítimas críticas e mantendo cadeias de abastecimento seguras e fiáveis, bem como o acesso a materiais críticos” (leia-se: manter o controle naval do canal do Suez, dos estreitos de Ormuz e de Malaca, do mar da China Meridional e das novas rotas do Ártico e o acesso às terras raras chinesas. Hemisfério ocidental?)
A maneira de assegurar tais desígnios é indicada sem subterfúgios diplomáticos: “queremos recrutar, treinar, equipar e pôr no terreno o exército mais poderoso, letal e tecnologicamente avançado do mundo para proteger os nossos interesses, deter guerras e — se necessário — ganhá-las rápida e decisivamente, com o mínimo de baixas das nossas forças”. Além, naturalmente, do “dissuasor nuclear mais robusto, credível e moderno do mundo, bem como defesas antimísseis de novíssima geração — incluindo uma Abóbada Dourada sobre a América — que protejam o povo americano, o património americano no estrangeiro e os aliados da América.”
Eis o que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário.
Falando directamente da China, a “estratégia de segurança nacional” refere que Trump reverteu mais de três décadas de suposições erradas a respeito daquele país, a saber, que a abertura de mercados à China, os incentivos ao investimento americano na China e à deslocalização industrial para a China conduziriam à integração daquele país na “chamada ordem internacional assente em regras” (a ordem mundial ao serviço dos interesses americanos) — coisa que “não aconteceu”.
Daí a necessidade de “reequilibrar a relação económica da América com a China”: acabando com “estratégias industriais e subsídios estatais predatórios; práticas comerciais injustas; a destruição de empregos e a desindustrialização; o roubo de propriedade industrial e a espionagem industrial em grande escala; ameaças às nossas cadeias de abastecimento que ponham em risco o acesso dos EUA a recursos críticos, designadamente minerais e terras raras; (...) propaganda, operações de influência e outras formas de subversão cultural”. Exige-se, para tal fim, o concurso da “Europa, do Japão, da Coreia, da Austrália, do Canadá, do México e de outras nações importantes”.
Corresponda ou não à prática do Estado chinês esta descrição, ela corresponde sem sombra de dúvida à caracterização que dela têm feito as administrações americanas.
Trata-se, portanto, sem equívoco, de acabar com o Estado chinês na sua forma actual por meio de uma estratégia política, comercial e militar que lembra fatalmente o cerco à União Soviética e o avanço inexorável da NATO sobre as fronteiras da URSS (e, depois, da Rússia) que caracterizaram a política americana pelo menos desde Reagan.
Todo o capítulo sobre a “dissuasão de ameaças militares” é dedicado à preparação do confronto político-militar com a China: “uma relação de forças militar convencional favorável continua a ser uma componente essencial da competição estratégica. O foco está muito, e bem, em Taiwan, em parte por esse país dominar a produção de semicondutores, mas, sobretudo, porque Taiwan dá acesso directo à Segunda Cadeia Insular [as ilhas onde os EUA detêm colónias e bases militares importantes situadas a oriente do Japão e doutras ilhas mais próximas do continente chinês], dividindo a Ásia em dois teatros [militares] distintos, Nordeste e Sudeste. O facto de dois terços do transporte marítimo passarem pelo mar da China Meridional tem implicações de primeira ordem para a economia americana. Deter um conflito por Taiwan, de preferência mantendo a nossa superioridade militar, é, pois, uma prioridade. (...) Poremos de pé uma força militar capaz de impedir agressões em qualquer ponto da Primeira Cadeia Insular. Contudo, as forças armadas americanas não podem nem devem ter de fazê-lo sozinhas. Os nossos aliados [Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Nova Zelândia] têm de responder presente e gastar — e, ainda mais importante, fazer — muito mais pela defesa colectiva. (...) É imperioso desenvolver as medidas de força e dissuasão necessárias para manter essas rotas abertas, livres de “portagens” e não sujeitas a encerramento arbitrário por algum país.”
Pese aos comentadores que estranham a linguagem aparentemente menos hostil à China (e à Rússia) do que a usada na doutrina da primeira administração Trump, a NSS 2025 é transparente nas suas prioridades — e no número de páginas dedicado a cada “região”:
— acabar com a actual economia e Estado chinês, ainda predominantemente assente na propriedade estatal dos meios de produção;
— acabar com a guerra “lateral” da NATO com a Rússia pela Ucrânia, agora que a Rússia já está significativamente desgastada; ou então deixá-la supurar, mas exclusivamente à custa dos orçamentos e das economias dos imperialismos europeus e para lucro da indústria armamentista americana;
— promover um surto sem precedentes da economia do armamento e cavar a superioridade das forças armadas americanas, transferindo, de passagem, maciçamente lucros para o capital americano em prejuízo dos concorrentes menores, europeus e não só;
— no Médio Oriente, apoiar sem reservas os regimes feudais e Israel, acabando com quaisquer fantasias de “democratização”.
— explorar sem limites os recursos dos países do “terceiro mundo”, acabando com as fantasias da “ajuda ao desenvolvimento”.
Este é o mundo que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário. Um mundo de ditaduras e de destruição da democracia.
Todos os poderosos do mundo rastejam e capitulam, uns atrás dos outros.
A única oposição aos bárbaros desígnios do imperialismo é a que lhes montem as classes trabalhadoras: da América, da Europa, da Ásia e do mundo.
1 Por exemplo, no Expresso de 12 de Dezembro, Miguel Monjardino escreve que “o principal adversário dos EUA em todo o documento parece ser a União Europeia, vista agora em Washington como um projeto das elites liberais e internacionalistas que se opõe aos seus valores políticos e interesses tecnológicos e comerciais.”
2 A razão principal da aparência algo fantasmática do alvo chinês é dupla, como refere The Economist (26/12/25): a cimeira Trump-Xi Jinping de Abril de 2026, que os negociadores americanos estão a preparar intensamente, querendo evitar interferências diplomáticas até lá; e batalhas intestinas na administração americana, entre vários interesses que se cruzam.
3 Na definição da NSS, hemisfério ocidental parece referir-se principalmente às Américas, de Norte a Sul. No entanto, tradicionalmente, também inclui a Europa Ocidental. O documento deixa ambiguidade a este respeito, tratando a Europa à parte.
O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Se o objectivo de Mamdani é realmente executar o programa com que se apresentou, o melhor é romper rapidamente com o Partido Democrático e convocar os trabalhadores e os jovens, em Nova Iorque e em todo o país, para lançar as bases de um autêntico Labor Party, que não hesite em reclamar-se do socialismo”.
Zohran Mamdani ganhou há dias as eleições para a Câmara Municipal de Nova Iorque com mais de 1 milhão de votos — mais de 50% dos votos expressos.
Mamdani ganhou as eleições com uma campanha radical, de mobilização. Trouxe para a rua dezenas de milhares de trabalhadores e jovens, por reivindicações que os chefes do Partido Democrático classificaram como demasiado radicais e Trump como “comunistas”: congelamento das rendas, creches gratuitas para todas as crianças de menos de 5 anos, transportes públicos gratuitos, mercearias populares. Tudo reivindicações que iam ao encontro da população trabalhadora e pobre de Nova Iorque, para quem viver numa das cidades mais caras do mundo é um inferno.
Mamdani concorrera antes às “primárias” do Partido Democrático e ganhara. Foi, assim, o candidato oficial do partido. O seu principal oponente era Andrew Cuomo, o ex-governador do Estado de Nova Iorque, democrata também, mas concorrendo como “independente”, porque derrotado por Mamdani nas primárias.
A votação foi esmagadora: mais de 1 milhão de votos para Mamdani, maioria absoluta. Sem precedentes, há décadas.
A vitória de Mamdani tem, porém, muitas singularidades. Há um ano, era um perfeito desconhecido. Imigrante de origem indiana nascido em África, era e é militante dos Democratic Socialists of America (DSA), uma organização política interna ao Partido Democrático. Nas fileiras dos DSA contam-se, por exemplo, Alexandria Ocasio-Cortez e alguns outros deputados democratas.
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O Partido Democrático, saliente-se, é um dois partidos históricos do grande capital americano. É o partido dos grandes financeiros de Wall Street. De socialista, não tem nada. Foi o partido dos presidentes Kennedy e Johnson, da guerra do Vietname; de Clinton e Obama e Biden, das invasões e guerras sem fim no Médio Oriente…
Nós, no Maio, só nos podemos congratular por ver um candidato que se declara socialista ganhar a Câmara Municipal de Nova Iorque. Tanto mais que o suporte da sua candidatura foi a mobilização de dezenas de milhares de jovens e trabalhadores.
Se Zohran Mamdani conseguir executar o programa de congelamento de rendas e outras reivindicações dos mais pobres, que alívio será para estes!
O Partido Democrático, saliente-se, é um dois partidos históricos do grande capital americano. É o partido dos grandes financeiros de Wall Street. De socialista, não tem nada
Mas conseguirá ele levar a cabo esse programa, dentro de tal partido?
Trump manifestou ruidosamente a sua raiva com a eleição de Mamdani. A administração federal e os grandes grupos capitalistas tudo farão para sabotar os seus planos.
Que fará Mamdani? Defender-se-á, apelando para a mobilização das massas trabalhadoras e dos jovens que nele votaram? Ou, dependente, orgânica e financeiramente do Estado de Nova Iorque e da administração central, deixar-se-á emaranhar nas redes de interesses, dominar pelas “inevitabilidades”, volver-se, por fim, em mais um radical domesticado pelo sistema?
Uma coisa é certa. Não será o Partido Democrático que o vai defender. Zohran Mamdani faria bem em lembrar-se das lições da “vitória” de Mitterrand em 81 — e da sua viragem para a “austeridade” um ano depois; de Syriza e Tsipras, na Grécia, que desafiaram a austeridade imposta pela troika da Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu, apelaram para o apoio do povo grego, em referendo, para romper com o diktat dos banqueiros, ganharam estrondosamente o referendo… e dias depois capitularam miseravelmente ante a UE e a banca.
Pela nossa parte, só podemos incentivar Mamdani a romper com o Partido Democrático. Se o objectivo é executar o programa com que se apresentou, o melhor é que ele rompa rapidamente. Mais: que convoque, em Nova Iorque e em todo o país, os trabalhadores e os jovens para lançar as bases de uma autêntica política e de um autêntico Labor Party, que não hesite em reclamar-se do socialismo — como Zohran Mamdani faz, mas só pessoalmente, sem largar a filiação no Partido Democrático.
Entre reivindicar o socialismo e reivindicar o Partido Democrático, o que é costume é a filiação no Partido Democrático levar a melhor…
Um bom exemplo de litígio é o caso da rede de hotéis Meliá, em particular seu empreendimento na Praia Esmeralda, em Holguín. Os cubanos atraíram a rede hoteleira, de capital espanhol, para investir na indústria do turismo cubano. Os EUA responderam processando o grupo Meliá porque o hotel foi construído em um terreno baldio que era de suposta propriedade da familia Sánchez Hill, expropriada em 1959. Como existe um processo nos Estados Unidos de reintegração dessa propriedade, a estrutura financeira do grupo Meliá, dentro ou fora de Cuba, passa a ter suas transações em dólares dificultadas, travando o acesso a capital norte-americano. Essa questão da jurisdição internacional dificulta qualquer tipo de processo de abertura da economia cubana.
Esses mecanismos de jurisdição extraterritorial, na verdade, representam o elemento mais extremo de um amplo complexo jurídico imperial norte-americano. Esse extremismo em relação a Cuba está presente quando Trump diz que vai assumir o controle absoluto da ilha. Isso em parte se explica por motivos temporais: durante o colapso da União Soviética, não existia uma legislação norte-americana que delimitasse a questão da propriedade naqueles países equivalente ao Helms-Burton Act, com jurisdição extraterritorial. Inclusive, se você pega o caso chinês, os Estados Unidos, em 1979, basicamente resolvem esse problema com as relações de propriedade na China com um acordo rápido e pragmático. Portanto, há um excepcionalismo no caso cubano, talvez ligado à necessidade de combater a esquerda na América Latina independente da Guerra Fria.
Quando você pega o caso das propriedades na União Soviética, houve todo um processo de privatização, mas ninguém falou em restaurar as propriedades anteriores à Revolução de 1917. Se houve, foi algo mais concentrado na questão da Igreja Ortodoxa, mas não existia uma mobilização para trazer os proprietários anteriores, inclusive porque eles não estavam geograficamente concentrados como estão os proprietários do período pré-revolução cubana em Miami, com relações com os políticos na Florida, com relações aprofundadas com o governo norte-americano.
Então, essas relações fazem que qualquer projeto maior de abertura por parte dos cubanos acabe caindo nessa barreira. De novo, é algo que não se teve, por exemplo, nos países do Leste Europeu como Polónia ou Checoslováquia, onde, mesmo tendo havido alguns casos de restauração de propriedades anteriores ou compensação, foram processos com uma certa maleabilidade. Em muitos desses lugares, a propriedade continuou estatal ou foi privatizada, mas não se retornou aos proprietários do período anterior.
Essa é a grande barreira, porque basicamente os americanos querem retomar a propriedade das usinas de açúcar, das refinarias de petróleo, dos bancos e, principalmente, as propriedades urbanas e rurais. No caso de propriedades urbanas, isso se relaciona diretamente com os interesses da família Trump. Você pega Havana, uma das cidades mais bonitas da América Latina, se não a cidade mais bonita, exatamente porque não existe especulação imobiliária. Havana Vieja tem aqueles prédios lindos, antigos, que a despeito da degradação dão todo um charme à cidade e que, provavelmente, quando houver de facto uma invasão do capital norte-americano, vão virar edifícios gentrificados, mercadoria ao serviço da especulação imobiliária, fenómeno que, na prática, é dissuadido através da restrição ao grande capital pelo Estado.
Dito isso, a abertura que se tem, que é de novo uma abertura lenta, travada e pautada pelo Helms-Burton Act, em geral beneficia a burocracia, seus filhos e seus netos, os chamados ‘nepo babies’. A abertura do mercado é, em geral, isso: quem beneficia são aqueles vinculados ao Partido Comunista. Uma figura muito mencionada aqui em Havana é o “Cangrejo”, neto de Raúl Castro, descrito como um playboy que virou dono dos empreendimentos de turismo e de uma série de empresas privadas. Ele é odiado aqui em Havana; todos falam dele. São críticas baseadas certamente em relatos jornalísticos, sem claro lastro documental, mas me parece inevitável que essas figuras acabem surgindo. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia acaba empurrando para isso, porque a dolarização foi acompanhada de uma enorme crise: as cadernetas – aquilo que garantia a alimentação pelo Estado – vão tendo cada vez menos alimentos à disposição, e passa a haver cada vez mais alimentos à disposição de quem tem acesso a esses mercados privados em dólares, o que aumenta brutalmente a desigualdade no próprio acesso à comida.
Isso também está ligado ao facto de que, desde os anos 90, mas muito mais agora, principalmente desde a Covid, milhões de cubanos saíram do país e mandam dinheiro de volta às suas famílias. O envio de remessas, junto com o turismo e, em alguns sentidos, a exportação de missões médicas, são as três grandes fontes de capital estrangeiro aqui em Cuba. Elas acabam sempre beneficiando alguns em detrimento de outros, em geral os brancos em detrimento dos negros, porque quem é imigrante, quem está fora do país, consegue melhores empregos e depois consegue mandar esse dinheiro com facilidade, são na maioria das vezes as pessoas brancas. Isso acaba tendo um recorte racializado, a centralidade que ocupa a economia dolarizada. Portanto, a dolarização da economia aumenta a desigualdade racial.
Vale mencionar também que a questão da restauração dos direitos de propriedade no caso de Cuba é, em alguns sentidos, mais complexa do que na Venezuela. As grandes estatizações que ocorreram durante o governo Chávez foram de duas grandes empresas norte-americanas, a Exxon Mobil e a ConocoPhillips, que tinham participado nas privatizações neoliberais dos anos 90, do setor petroleiro venezuelano e que foram expropriadas depois por Caracas. É relativamente fácil restaurar os direitos de propriedade anteriores, primeiro porque eles ocorreram nos anos 90. Existe toda uma estrutura legal internacional vinculada ao Banco Mundial e a tribunais internacionais que garantem esses direitos de propriedade ao grande capital estrangeiro principalmente a partir dos anos 90. Essa questão se resolve com os americanos retomando para si o petróleo venezuelano da PDVSA, algo que na prática já está acontecendo.
Em Cuba, não. Em Cuba, você tem particulares individuais que não são grandes empresas petroleiras norte-americanas, com quem você resolve por meio de um acordo imposto pela agressão imperial norte-americana ocorrida esse ano. No caso de Cuba, você tem milhares e milhares de processos que correm na justiça norte-americana para restaurar a propriedade em todos os níveis. Portanto, a violência do que será a reintrodução do capital norte-americano e dos interesses norte-americanos em Cuba vai perpassar centralmente a restauração desses direitos individuais.
Por isso, a restauração aqui em Cuba vai ser provavelmente mais violenta do que qualquer outra, mais violenta no sentido da expropriação dos direitos à habitação e dos direitos sociais do que talvez na Rússia ou Leste Europeu. Provavelmente, alguma fração da burocracia do Partido Comunista vai continuar com o domínio sobre alguns setores da propriedade hoje estatal, mas isso vai ter que se dar em por meio de um acordo com essas frações burguesas cubanas que estão na Florida querendo reclamar sua propriedade como um todo, o que, de novo, não ocorreu na União Soviética. No caso cubano, é isso o que eles querem, e é isso o que cria essa situação em que o Trump fala com algum grau de verdade que vai voltar a ser “dono” de Cuba se seu plano der certo.
Quilombo Invisível: Diante da inflação severa, dos apagões exaustivos e do sistema de lojas em Moeda Livremente Conversível (MLC), como as pessoas nas ruas interpretam a raiz da crise? A quem a população costuma atribuir a culpa pela escassez diária?
Aldo Cordeiro Sauda: A questão das reformas na política monetária de 2021 é algo que todos os cubanos criticam. A primeira questão é o fim daquela moeda chamada CUC, que era uma espécie de dólar oficial, um câmbio oficial controlado pelo Estado que controlava o dinheiro vindo do exterior. Com a reforma do governo Díaz-Canel, o dólar oficial foi abandonado e a CUP, o peso cubano, passou a oscilar de forma livre em relação à moeda norte-americana. Essa política liberou a utilização do dólar, na prática, dolarizando a economia local. De novo, isso remete àquela questão das remessas financeiras enviadas pelos imigrantes a quem ainda está dentro do país. A questão das remessas é uma parte estrutural da economia, não só de Cuba, mas de diversos países do Caribe e da América Central: Guatemala, o próprio El Salvador, o Haiti.
Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.
Na prática, a política de sanções energéticas do Governo Trump entrou para quebrar as pernas da economia do turismo, dando às remessas em dólar um papel ainda maior. Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.
Eu vim através do Panamá, por exemplo, que ainda mantém os voos para Havana, mas voos diretos que vinham de lugares como Canadá, Rússia, com turistas que vinham aqui com moeda estrangeira, consumiam e injetavam dólares na economia, isso quase secou por conta da falta de combustível.
Mas ao mesmo tempo existe uma crise aqui em Cuba que vem basicamente desde a Covid, quando a indústria do turismo toma o seu primeiro golpe, e agora, digamos, com a crise venezuelana, tomou o segundo golpe, e o golpe agora é ainda mais forte. Mas desde o período da Covid, há uma crise na qual se estima que mais de um milhão de cubanos saíram, deixaram o país. A consequência disso é que cerca de 10% da população foi embora. Tem lugares que estão esvaziados de gente, principalmente de gente jovem, porque quem é jovem e tem algum recurso saiu do país.
A questão dos apagões e da escassez, ao mesmo tempo, não é nova: obviamente, são intensificadas pela situação atual, mas houve também uma redução na vinda de petróleo venezuelano para cá desde o período da Covid. Desde 2020 os venezuelanos aumentaram a exportação de petróleo para países como a China, e em grau menor para os Estados Unidos, reduzindo o envio de petróleo para cá. Então, a crise energética é anterior ao sequestro de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, porém foi acelerada por ela.
É nesse cenário que vai se abolir o CUC, um processo acompanhado por aumentos nos preços de quase todos os serviços públicos e pela redução no acesso a alimentos disponíveis pelas cadernetas. A caderneta é basicamente um instrumento para se ter acesso à comida distribuída pelo Governo. Os salários são muito baixos comparados ao dólar. Isso era compensado pela caderneta e por um acesso a uma certa quantidade de alimentos, como farinha, óleo, feijão e carne de porco, que agora vem sumindo das prateleiras. Por conta da situação atual, a comida que se conseguia acessar antes ficou escassa. E isso é uma coisa que é comentada o tempo inteiro nas ruas.
Por conta dos problemas de planificação, também causados pela falta de gasolina para os carros, de diesel para os caminhões, a distribuição dos alimentos subsidiados, em particular no interior, antes acessíveis pelas cadernetas, secou. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia, mesmo que tenha em parte expandido o acesso a bens de consumo e uma pluralidade maior de alimentos industrializados, não é democratizadora. Ela barra, ela impede: os preços de alimentos se tornam proibitivos para quem não tem acesso a dólares. Na verdade, o que se tem é uma desigualdade acelerada e intensificada no acesso a alimentos, porque quem tem acesso a dólares consegue superar a falta de alimentos que se teria antes no acesso pela caderneta. E para quem não tem dólares? São pessoas que muitas vezes estão no interior. É aí que entra a questão da fome.
Nós viemos aqui em Havana com uma mala de medicamentos para distribuir para as famílias, enviados por alguns companheiros no Brasil. O que mais nos impressionou foi que, conversando com as pessoas, elas faziam questão de sempre dizer: “Olha, agora existe fome em Cuba.” Porque existe essa ilusão na esquerda brasileira de que não existe fome em Cuba, e principalmente desde essa crise, há uma situação realmente de insegurança alimentar.
Acompanhada da dolarização, houve uma enorme alta inflacionária e também uma série de políticas antipopulares, de introdução de princípios da economia de mercado, incluindo aumento exponencial no custo da eletricidade, da água e do transporte.
Muitos ganhos da revolução vêm sendo mais ou menos perdidos pela expansão do mercado, pela expansão de relações capitalistas de propriedade. Só que, ao mesmo tempo, ainda são processos mercadológicos muito limitados porque ocorrem por fora do acesso ao grande capital estrangeiro por conta das medidas do Helms-Burton Act.
Qualquer integração no mercado acaba sendo limitada por isso. Ao mesmo tempo, desde 2021 você tem as chamadas Pymes (PME, Pequenas e Médias Empresas), que são as empresas particulares em processo de expansão. Isso retorna àquilo que eu tinha colocado: quem tem acesso às PME são muitas vezes os filhos e os netos da burocracia, e também vem com um recorte racial: são frequentemente brancos.
Quem tem capacidade de empreender através das PME, quem tem acesso a atravessar as limitações burocráticas, são os filhos e netos daqueles que encabeçaram a Revolução de 59. As PME são em geral celebradas pela população. A abertura económica, por motivos pragmáticos, parece ser quase consensual, o que é algo em muitos sentidos perverso, porque parece, principalmente entre os jovens, existir uma ideia de que o capitalismo e a entrada do capital norte-americano vão resolver todos os problemas da ilha. Mas a restauração de direitos de propriedade anteriores a 1959 tende a intensificar a desigualdade social, e não a reverter aos padrões anteriores aos anos 1990.
Só que isso é um pouco ignorado. As pessoas querem mudança, elas não aguentam mais o estado das coisas. Quando as pessoas te explicam a situação económica e você responde dizendo “Ah, mas o bloqueio”, elas dizem: “Bom, bloqueio já tem 60 anos, quase 70 anos. Não deu tempo de resolver essas questões?” Basicamente, a abertura económica é vista com bons olhos, é celebrada e vista como uma necessidade cubana. Há uma leitura de que desde os anos 1990, do período especial, a vida só piora. De facto, é compreensível o desespero, porém ignora que países como Haiti, a Guatemala e El Salvador estão plenamente integrados no capitalismo mundial, e ao mesmo tempo em uma condição de vida muito pior que Cuba.
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Quilombo Invisível: O apagão recente afetou a ilha inteira. No Brasil, quando apagões acontecem, bairros mais pobres, e com maior presença de populações negras, costumam ser mais afetados e demorar mais para ter a energia restaurada. Em Cuba, há algum paralelo com a situação no Brasil?
Aldo Cordeiro Sauda: O que dita o apagão, além de atingir mais as populações negras, é o recorte Havana versus interior. Quando estive no interior, quase sempre a única fonte de eletricidade eram os painéis solares. Existe mais acesso à eletricidade na capital, inclusive em Havana Vieja e Centro Habana, partes da cidade com uma grande população negra. Aqui a energia é mais preservada até porque os cabos são subterrâneos. Onde há cabo subterrâneo, eles evitam cortar a luz por conta da dificuldade de fazer o reparo que pode ser causado pelas sobrecargas nas variações de tensão. Onde o cabo é aéreo, há mais crise de energia.
Enquanto o principal responsável pela crise de energia é o bloqueio norte-americano, não se pode ignorar as consequências destrutivas da planificação burocrática. Segundo pesquisa da Universidade de Columbia, em Nova York, a reestruturação do sistema elétrico cubano está estimada em 10 bilhões de dólares1, porém o Governo cubano gastou uma quantidade de dinheiro ainda mais elevada em novos hotéis nos últimos 15 anos, negligenciando a importância do sistema elétrico. Os mega investimentos em grandes hotéis de 5 estrelas são destacados pela população como um símbolo de desperdício, em particular porque a política se acentuou durante a crise da Covid, enquanto a taxa de turismo no país despencou. A taxa de ocupação nos hotéis hoje está estimada em 20%. Conheci o caso de um casal de brasileiros que foram transferidos de seu hotel para um com maior ocupação por uma questão de excesso de vagas, porém, as construções de novos edifícios hoteleiros continuam. A isso se soma a questão da força de trabalho, que segundo relatos de moradores vem em grande parte trazida de países como Índia e Paquistão, substituindo a mão de obra local.
Agora, a questão da luz é importante lembrar que ela vem de antes do sequestro de Maduro, porque já desde a Covid os venezuelanos reduziram o envio de combustível para cá, e as crises energéticas têm ocorrido desde a Covid, sendo um dos elementos que motivaram o 11J, o movimento de massas que tomou as ruas em julho de 2021, cuja palavra de ordem era “Pátria y Vida”, uma ideia de se opor ao slogan do regime, “Pátria o Muerte”. E aí, sim, essa mobilização tem uma grande participação negra, e os rappers associados aos protestos, ligados ao Movimiento San Isidro (MSI), também são rappers negros. Existe esse recorte de que as pessoas que foram às ruas em rejeição ao regime tiveram uma forte presença da comunidade negra cubana.
O melhor balanço que conheço sobre as mobilizações do 11 de julho, é um livro chamado Cuba 11J, perspectivas contrahegemónicas de las protestas sociales. Ele mostra sob diferentes ângulos os protestos de uma perspectiva crítica marxista, organizado por um jovem militante socialista do movimento negro.
Quilombo Invisível: Alguns relatos elogiosos sobre Cuba destacam o cultivo de alimentos em cidades (agricultura urbana) como estratégia de superação da escassez de alimentos. Pelo seu contacto, como a população cubana se relaciona com a produção de alimentos? E como isso se relaciona com a burocracia estatal do país?
Aldo Cordeiro Sauda: Me parece que a questão do acesso a verduras, legumes e frutas não cítricas em Cuba não é o problema principal. O que falta é a comida industrializada, assim como a carne. Óbvio, o problema da carne também é o problema da falta de eletricidade. Se cai a energia, se você tem quatro, cinco, seis dias de apagão, você perde a carne nas geladeiras e nas arcas frigoríficas.
Sobre essa questão da agricultura urbana, existe o livro publicado pela editora Elefante, Entre a Utopia e o Cansaço, que tem um conjunto de textos muito interessantes, em particular o que trata da militarização da economia. A própria Joana Salem, especialista em Cuba, tem uma pesquisa muito rica sobre a questão agrária que merece ser lida. O trabalho dela sobre Cuba e a América Latina em geral é bastante sério. Fabio Luís Barbosa dos Santos, professor de RI da Unifesp, um dos editores do livro junto com Aline Miglioli e Vanessa Oliveira, também é um pesquisador muito qualificado, com longa trajetória no tema. O trabalho organizado por ele tem textos muito interessantes, inclusive sobre o papel dos militares na economia, que hoje é preponderante.
A militarização da economia cubana, através do GAESA (Grupo de Administración Empresarial) segundo o sociólogo cubano-americano Samuel Faber, atinge pelo menos 40% dos empreendimentos. Então, você tem esse recorte, similar a países como Egito e Paquistão. A GAESA é em boa parte responsável pelos problemas burocráticos da planificação económica.
Quilombo Invisível: Assim como no Brasil, em Cuba também há um discurso oficial de superação das discriminações raciais (a tal da “democracia racial”), usado como forma de impor uma unidade popular. No entanto, a quase totalidade dos comércios em Cuba seguem comandados por pessoas brancas. Na sua visão, o racismo em Cuba foi superado? De que forma o racismo se relaciona com as ações do Estado?
Aldo Cordeiro Sauda: A questão do racismo, atenuada pelos ganhos sociais da revolução, é intensificada principalmente após o Período Especial iniciadlo depois dos anos 90. É importante dizer, quando se fala da questão racial em Cuba, o papel central que Cuba teve na libertação no Sul da África, em Angola, Moçambique, e também na Guiné-Bissau. Cuba teve um papel muito importante no combate ao apartheid na África do Sul. Isso é um marco e algo que não pode ser esquecido quando a gente fala de Cuba, em particular o envio de tropas em apoio ao MPLA na guerra anticolonial em Angola e o apoio ao ANC de Nelson Mandela na África do Sul. Essa é uma marca do regime que faz parte da história cubana.
O problema é que a abertura aos mercados e o surgimento da desigualdade económica atingem principalmente a população negra, em parte porque a direção inicial da revolução, à exceção de Juan Almeida Bosque, foi majoritariamente formada por intelectuais brancos de origem hispânica. Quando se inicia a restauração nos anos 90, serão os filhos e os netos da direção revolucionária que vão sair na frente, e isso significa que os negros tendem a ser mais afetados.
Com isso se combina o papel da imigração: quem tem mais acesso à imigração na Europa e América do Norte, por redes familiares, são em geral os brancos. Portanto, as famílias de pessoas brancas vão ter mais acesso a passaportes e cidadanias europeias (espanhola e italiana), a dólares vindos do exterior, e a dolarização da economia afeta de forma muito desigual os brancos e os negros por isso. Segundo ativistas do movimento negro com quem conversei, há um aumento, pós-anos 90 na desigualdade racial. Desde o Período Especial, essa questão vem ganhando relevância.
Quilombo Invisível: É um bordão irónico e famoso, em apoio a Cuba, dizer que na ilha apenas três coisas funcionam: saúde, educação e segurança. Mas como a segurança é mantida na prática na ilha? A ação policial possui contornos raciais? Algum grupo tende a ser mais perseguido pela polícia?
Aldo Cordeiro Sauda: Cuba, segundo a Amnistia Internacional, há hoje centenas de presos políticos e, junto com isso, um alto índice de presos per capita. Existe uma análise do Instituto de Pesquisa em Política Criminal, do Birkbeck College, de Londres, que aponta Cuba entre os países com altos índices de encarceramento, porém muito abaixo de EUA, Brasil e El Salvador. Tudo isso, possivelmente, acaba tendo um recorte racial.
Um dos grandes problemas, me parece, é que Cuba colocou nas negociações com os americanos a libertação de presos políticos. Isso é terrível, porque acaba entregando aos Estados Unidos a bandeira das liberdades civis, da liberdade de associação e expressão. Produz ilusões sobre os Estados Unidos como defensores da democracia. Isso apenas contribui para o problema que existe aqui, isto é: a geração que nasceu nos anos 80 e atravessou o Período Especial dos anos 90 na juventude só vê a piora da economia cubana, só vê Cuba piorar.
Isso faz surgir, principalmente entre os jovens, todo um setor que podemos dizer ser “pró-intervenção imperialista”, pró-Estados Unidos, na juventude, que vê a intervenção norte-americana como aquilo que vai resolver o problema de Cuba e a única alternativa para a atual conjuntura. Então, surge a possibilidade de setores pró-restauração capitalista entre a juventude trabalhadora.
O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que os jovens culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano.
Essa é a maior derrota que a política da burocracia impõe, principalmente entre os jovens. O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Ernesto Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano, e que acaba sendo gerida por uma camada de profissionais técnicos e gestores cubanos cuja função acaba sendo gerir as consequências do bloqueio.
O facto de a revolução não se ter expandido para além da própria ilha – assim como não se pode ter socialismo em um só país, como, em última instância, foi na derrota da revolução russa nos anos 20 e 30 – torna ainda mais difícil manter uma revolução em uma só ilha. É isso que acaba alimentando as próprias divergências entre Fidel Castro e Che Guevara, porque o Che é muito crítico do que ele chama de “manuais soviéticos”, a adoção de políticas burocráticas e um modelo baseado na experiência soviética em Cuba, mas que acaba sendo a consequência inevitável de uma revolução que não consegue expandir.
Quilombo Invisível: Como sabemos, a América Latina enfrenta, em particular nos últimos meses, uma escalada do imperialismo estadunidense. Muitos na esquerda ficam em silêncio sobre os abusos do regime cubano por receio de que poderiam alimentar um imperialismo que, em última instância, poderia levar a uma piora nas condições na ilha. Na sua visão, como a esquerda latinoamericana pode contribuir para a superação da ditadura na ilha?
Aldo Cordeiro Sauda: Toda a ajuda, todo o apoio humanitário a Cuba é bem-vindo. Toda a esquerda que se esforça para combater o bloqueio cumpre um papel progressivo. Isso é algo que nós precisamos ter em mente. Ao mesmo tempo, é preciso diferenciar o que é solidariedade com o povo cubano do que é a solidariedade com o regime. Muitas vezes, vemos em muitas iniciativas, sejam elas de socialistas, maoistas, trotskistas ou autonomistas, uma confusão nesse sentido.
A iniciativa da flotilha para Cuba, para ajudar o país é muito positiva, mas uma questão que não podemos esquecer é a forma como ela é canalizada e inclusive interpretada pelos próprios cubanos. Sem os devidos cuidados, os cubanos podem acabar criando desconfiança da esquerda mundial, que pode acabar sendo interpretada como legitimando o Governo Díaz-Canel, sem esquecer que o Governo usa isso como instrumento para legitimar suas reformas económicas e sociais.
Essa solidariedade, que é necessária, precisa ser acompanhada – e infelizmente não se vê isso entre as diferentes correntes da esquerda – de apoio aos presos políticos que foram detidos no 11 de julho. Um apoio às correntes marxistas dissidentes aqui em Cuba, uma oposição à repressão que existe contra a própria esquerda, aquilo que a gente pode chamar dos dissidentes entre os dissidentes. É preciso separar o que é a oposição “gusana” de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão.
É preciso separar o que é a oposição ‘gusana’ de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão
Sem que haja essa diferenciação, colocar tudo o que se opõe ao regime cubano como parte das iniciativas norte-americanas enfraquece alternativas anticapitalistas no longo prazo. As pessoas podem achar que o que está colocado é dual, com apenas dois lados: ou você está com os Estados Unidos ou você está com o regime. O problema é que isso ignora o amplo desejo de mudança que vem dos trabalhadores cubanos. Ser cego a isso não ajuda ninguém.
O 11 de julho é um movimento de massas baseado num sentimento geral de necessidade de mudança, e que, por conta dos próprios problemas do regime – por conta da criminalização dos dissidentes, de empurrar para fora da ilha a esquerda crítica –, os movimentos sociais da juventude acabam muito facilmente sendo manipulados e capturados pelas forças pró-americanas. A partir do momento em que a esquerda mundial rechaça a oposição cubana de esquerda, a partir do momento em que a esquerda internacional se associa de forma acrítica ao regime, e a partir do momento em que não existem dissidentes cubanos que possam cumprir um papel organizacional progressivo em relação às mobilizações sociais, elas tendem a ir para a direita. E essa é a realidade. À medida que os movimentos sociais vão se radicalizando, elas tendem a ir mais e mais para a direita, o que é um desastre, um desastre político para Cuba e para toda a América Latina.
As manifestações são legítimas, assim como a exigência de substituição do Governo. As pessoas estão cansadas, querem mudanças na política económica que dolarizou o consumo, encarecendo a vida. A partir do momento que você não cria mecanismos para isso e quando você taxa toda a oposição de mercenários e agentes pró-americanos, a consequência disso é que você acaba fortalecendo exatamente esses setores. É óbvio que existem setores distintos dentro do movimento – como qualquer movimento de massas, o 11J é plural. Vai ter gente que é pró-americana, antiamericana, gente que só quer melhorar a sua própria vida. Mas o problema é que, na medida que os poucos socialistas críticos são presos e empurrados para fora da ilha, o que sobra é a direita.
Portanto, é muito difícil ser otimista em relação à realidade política cubana por conta do isolamento da esquerda cubana dissidente em escala nacional e internacional. Há muita gente de esquerda que foi presa em julho e que agora quer sair do país. É um sentimento natural.
Existe um problema demográfico grave em Cuba. Os jovens que têm capacidade financeira pegam um avião até à Nicarágua e muitas vezes de lá, pela rota sul, vão para o Chile ou para o Brasil, quando não tentam, a partir da América Central, chegar de forma arriscada e clandestina aos Estados Unidos pela rota norte, um caminho perigoso agora dificultado ainda mais pelo Governo Trump. Desde a crise da Covid, o número de jovens na ilha tem encolhido.
Há o problema demográfico também de as pessoas terem poucos filhos. A população da ilha não para de cair, há poucas crianças, a população está envelhecendo, e os jovens estão saindo. Isso é um desastre de longo prazo.
Quilombo Invisível: A repressão do Estado aos manifestantes do 11J foi severa, chegando a 25 anos de prisão, e com órgãos internacionais denunciando a morte de vários dos detidos. Como esses presos são vistos pela população com que o senhor teve contacto? A população estaria disposta a se arriscar em outras ondas de protesto?
Aldo Cordeiro Sauda: Vale dizer que existe muito medo em relação aos protestos em massa, porque uma parte relevante da liderança de rua foi presa. O que eu vejo aqui em Cuba, conversando com as pessoas e com as próprias lideranças da ala esquerda dos protestos, é que existe muito medo, muito medo de sair para a rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba. Você ouve as pessoas, elas são muito críticas do regime, atacam o Governo, atacam o Presidente o tempo inteiro quando você conversa com elas na rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba, a questão é como criticar o Governo em Cuba. A mesma coisa com as redes sociais. Não é que você não possa falar mal do Governo nas redes sociais, é o que você fala. Há forte repressão a protestos nas ruas. Aí, sim, é que vem o problema. Não que você não possa falar mal do Governo, é por onde e como você fala mal do Governo.
Você fala com as pessoas, em geral elas dizem “apoio os protestos do dia 11”, mas, obviamente, a grande maioria não foi aos protestos do dia 11. Você pergunta e a resposta é: “Não, não quero pegar 8, 10 anos de cana. Ninguém quer ir preso.” O regime é muito efetivo pelo facto de ser uma ilha, o controle político-social é mais fácil. Isso não significa que os protestos, de forma localizada, não sigam ocorrendo. Ontem, por exemplo, teve um panelaço na rua por onde havia passado algumas horas antes por conta da falta de energia. Também teve o caso, noticiado mundo afora, do ataque à sede do PC no interior do país. Então os protestos seguem, porém sem clara coordenação política.
Quilombo Invisível: Como a população comum reage às campanhas de propaganda da imprensa oficial? Elas ainda têm eficácia em jogar a população contra seus pares, ou o descrédito da mídia estatal já é generalizado?
Aldo Cordeiro Sauda: Eu acho que o regime tem apoio cada vez menor na população. Existe uma ideia de que os anos 80 foi o período de auge, e de lá para cá a situação só piora. Existe um sentimento geral por inovação, de que é preciso mudar.
Acho que a nossa solidariedade com Cuba exige duas tarefas. A primeira é combater e ser solidário no combate ao bloqueio, e todas as iniciativas de combate ao bloqueio têm que ter nosso apoio. Nós temos que defender que a Petrobras envie petróleo para Cuba, apoio energético brasileiro a Cuba. Mais que ajuda humanitária, Cuba precisa de gasolina, diesel, petróleo. Se você olha as ruas, as ruas estão quase vazias, não tem carros nas ruas, as estradas estão vazias, praticamente não tem caminhões nas estradas. O grande problema é a falta de combustível.
Portanto, o papel da esquerda internacional é se solidarizar, exigir de seus governos, exigir do Governo Lula, exigir da esquerda, exigir também do Governo mexicano – onde existe menos oposição interna a uma política pro-Cuba – exigir dos governos internacionais o apoio contra o bloqueio e principalmente o envio de petróleo para Havana. Essa é a primeira tarefa. A segunda tarefa é se opor à repressão da esquerda, de artistas críticos independentemente de suas posições ideológicas, se opor à repressão do movimento de massas e defender uma alternativa que seja ao mesmo tempo socialista e democrática.
Nesta página web tomam a palavra desertores ucranianos — que, segundo números do governo, se contam por uns duzentos mil. Um dos testemunhos: “A Ucrânia é Zelensky, como o Império Romano era César. O Ocidente deu-lhe dinheiro para fazer a guerra e Moscovo deu-lhe garantias de segurança. Nem a sua autoridade nem a sua integridade estão ameaçadas. A linha da frente, algures no Donbass, não mexe há quatro anos e continuará sem mexer mais três. O Exército ucraniano é um grupo de sem-abrigo (no sentido literal do termo) que combate contra outro grupo de sem-abrigo. Dão-te uma Kalachnikov, dois carregadores, duas granadas, e mandam-te combater. Dois exércitos de sem-abrigo que lutam sem a mínima perspectiva. Que moralidade se há-de esperar deles? (...) Vi um responsável de uma das nossas administrações militares a falar apaixonadamente. Sustentava, entusiasmado, que 50% dos soldados recrutados à força em rusgas de rua para serem mandados para a linha da frente se tornariam em soldados muito patriotas que tomariam de assalto as zonas ocupadas. Talvez fosse assim em 2023, até no primeiro semestre de 2024, mas tudo isso pertence ao passado. Mesmo entre os potencialmente motiváveis, o sistema abafa qualquer motivação logo à cabeça. Os soldados mobilizados ficam meses sem receber. (...) E por cada soldado ucraniano há dez chuis do alto comando e do SBU [serviços de segurança da Ucrânia, Ndr] a vigiá-lo.”
Rússia:“Sois cobardes?”
A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército. A directora Kirsanova reuniu então os 400 estudantes de dezoito anos de idade e lançou-se numa longa tirada de imprecações contra eles. A cena foi filmada por um estudante e vazada para as redes sociais. A directora acusou os jovens de só se terem inscrito no instituto para conseguirem adiar o serviço militar até “a guerra acabar”. Aos berros: “Gente, é a pátria que chama! Têm de aceitar! De que têm medo? Têm medo de regressar num caixão de zinco? De onde vos vem esse medo? Quem vo-lo inspirou? (...) Vocês são cobardolas, para aí sentados, aterrorizados?” A divulgação da cena nas redes sociais causou indignação. Houve alunos que se queixaram aos pais de os estarem a “manipular”. Não contente, a directora apresentou queixa ao FSB, a polícia política. Parece que nem a propaganda militarista do regime de Putin, nem a repressão nem a censura conseguem convencer a juventude a ir voluntariamente para o “matadouro”.
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Alemanha:“Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”
Realizou-se em Göttingen, na Alemanha, nos dias 14 e 15 de Fevereiro, a primeira conferência nacional do movimento de greve escolar contra o serviço militar obrigatório. Participaram mais de 250 jovens e estudantes de 70 cidades. Excertos da resolução aprovada:
“No dia 5 de Dezembro, na manifestação de 55 mil jovens e estudantes, manifestámos claramente que “Não queremos serviço militar! Queremos ter um futuro!” Nesse mesmo dia, o Bundestag [o Parlamento federal] adoptou a lei dita de modernização do serviço militar, dando um passo para a restauração do serviço militar obrigatório. Logo em Janeiro, todo os jovens nascidos em 2008 começaram a receber questionários de avaliação das suas competências e motivação para o serviço militar. A conscrição obrigatória é para começar em 2027. O governo diz que o serviço militar obrigatório e o rearmamento são necessários para nos defendermos. Nós perguntamos: como há-de o rearmamento garantir a paz e porque havemos nós de precisar de ter o Exército mais poderoso da Europa para vivermos em segurança? O chanceler Merz fala numa nova “era de política de grandes potências”, na qual a Alemanha teria que actuar com confiança em si. Mas nós sabemos que política de grandes potências quer dizer disputa, recorrendo à força, de mercados, recursos e esferas de influência à custa de meter ainda mais dinheiro no Exército e na economia, e menos na educação, na protecção social e no ambiente. Quer dizer ampliar ainda mais a NATO, mesmo que o preço seja provocar novas guerras. No mundo que o Governo federal quer para nós, não sobra nenhuma perspectiva para o nosso futuro a não ser crescer na pobreza e aprender em escolas arruinadas, enquanto a crise climática progride sem dar tréguas.
O ministro da Defesa Pistorius quer-nos convencer de que a conscrição de uma geração inteira serve para defender a democracia. Nós dizemos que o que interessa a este Estado não é a nossa liberdade e a nossa opinião. O destacamento de tropas para o estrangeiro, a militarização e o serviço militar obrigatório são contra os nossos interesses. (...) Põem-se milhares de milhões no rearmamento, preparando o terreno para a próxima grande guerra. Enquanto isso, as cotações das acções de empresas de armamento como a Rheinmetall, ThyssenKrupp, KNDS e companhia sobem vertiginosamente. (...) Por tudo isto, preparamos desde já a greve à escola de 5 de Março e levaremos a cabo acções nas nossas escolas.”
A concluir, a resolução apela à generalização de comités de organização da greve à escola e a entrar em contacto com as secções de juventude dos sindicatos, com os sindicatos, os pais e professores. Conclui com o título deste artigo: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”
Irão, Estados Unidos:Generalização da guerra contra os povos e a juventude de todo o mundo
No Irão, a aliança israelo-americana continua a matar e a destruir sem piedade. Trump diz agora que só parará quando o Irão se render incondicionalmente. Ninguém sabe sequer o que tal significa.
Como escrevíamos no editorial da semana passada, as descabeladas justificações dadas por Trump e pela sua mafia para o ataque ao Irão — da destruição dos projectos nucleares do Irão (que Trump há meses declarara ter “obliterado” com as suas fantásticas bombas de perfuração profunda) a uma ameaça iminente (!) de ataque iraniano e ao inexistente programa de construção de mísseis intercontinentais do Irão — têm como única lógica a destruição de tudo o que possa fazer frente ao polícia sionista designado para o Médio Oriente.
Submetam-se ou morrem, é a palavra de ordem que sai da Casa Branca.
Do genocídio de Gaza à virtual anexação da Cisjordânia, da entrega do poder ao regime talibã no Afeganistão à entrega da Síria desfeita a um comandante do Daesh e aos bombardeamentos do Irão, há um fio condutor, um só: e não, não é a “democracia” nem o fim da ditadura teocrática dos mulás. É que mergulhem os povos e países no caos absoluto, que sobrem Estados “falhados” — o que interessa, a segurança do petróleo e dos respectivos lucros, ficará garantido pelo Exército sionista, por milícias privadas e, em última análise, pelo Pentágono. No fundo, a situação que campeia há décadas na África Central, a zona mais rica do mundo em minérios, onde as multinacionais prosseguem calmamente os seus negócios no meio da guerra e do caos permanentes. Não há actualmente solução mais barata para os imperialistas, enquanto eles preparam as próximas guerras.
Têm toda a razão, pois, os liceais alemães, os desertores e refractários ucranianos e russos, tal como a tem a população do Minnesota, que fez greve geral para correr com os esbirros nazis do ICE. Contra esta marcha para a generalização do caos e da guerra, a única saída está em organizar a resistência e lutar contra os opressores e seus cúmplices nos nossos próprios países.
Estas guerras não são nossas. Elas vão contra os interesses dos jovens e dos trabalhadores na Rússia, na Ucrânia, na Alemanha, no Irão, nos Estados Unidos — e em Portugal, onde um governo servil deixou os agressores norte-americanos usarem à vontade a base das Lajes, sem sequer lhe darem cavaco a ele, nem ele o dar ao povo.
Em parte alguma do mundo os trabalhadores e os jovens, destinados a ser ou carne para canhão ou “danos colaterais”, têm interesse em matar ou morrer pelas conquistas e os super-lucros do grande capital, que só servirão para explorar ainda mais quem sobreviver à matança.
O documento regista, com efeito, o “declínio económico da Europa”.
Mais notável, no entanto, é ele considerar que esse declínio económico é “eclipsado” pela “perspectiva de obliteração da civilização” europeia a que as políticas dos dirigentes do continente levam — tornando “mais do que plausível” que, daqui a vinte anos, a Europa deixe de ser “europeia”. Subentende-se sem dificuldade: a “raça branca” europeia irá ser superada por “raças” africanas, árabes e asiáticas, inimigas da América branca.
A NSS reflecte, assim, sem pudor, a propaganda nazi sobre a “substituição populacional” na Europa. E é tudo menos velado o apoio que promete aos partidos e dirigentes neofascistas (“patriotas”) europeus: Meloni, Orban, Chega, Vox, AfD, RN…
Não obstante, não podia ser mais absurda a conclusão de alguns assustados comentadores europeus — e portugueses1— de que a estratégia trumpiana designa a “Europa” como “inimigo principal” do império americano.
Em quase toda a extensão do documento, a administração Trump dedica-se a descrever como combater e atacar a China, apesar de a palavra ser pouco usada no documento2.
Assim, se a primeira prioridade da estratégia americana (O que queremos no e do mundo?) é o controle absoluto dos Estados Unidos sobre o “hemisfério ocidental”3, não se deixam dúvidas sobre o que está em disputa.
Essencialmente, trata-se de manter o hemisfério “livre das incursões hostis e da propriedade de activos essenciais” por “externos” (leia-se: pela China) e de manter o acesso dos EUA “a localizações estratégicas essenciais” (leia-se: expulsando, por exemplo, a empresa de Hong Kong proprietária dos portos do canal do Panamá e impedindo a entrada de capitais chineses no aço e nas “tecnológicas” americanas); “deter e reverter o mal que actores externos têm infligido à economia americana, mantendo, do mesmo passo, o Indo-Pacífico [não exactamente “hemisfério ocidental”!] livre e aberto, salvaguardando a liberdade de navegação em todas as rotas marítimas críticas e mantendo cadeias de abastecimento seguras e fiáveis, bem como o acesso a materiais críticos” (leia-se: manter o controle naval do canal do Suez, dos estreitos de Ormuz e de Malaca, do mar da China Meridional e das novas rotas do Ártico e o acesso às terras raras chinesas. Hemisfério ocidental?)
A maneira de assegurar tais desígnios é indicada sem subterfúgios diplomáticos: “queremos recrutar, treinar, equipar e pôr no terreno o exército mais poderoso, letal e tecnologicamente avançado do mundo para proteger os nossos interesses, deter guerras e — se necessário — ganhá-las rápida e decisivamente, com o mínimo de baixas das nossas forças”. Além, naturalmente, do “dissuasor nuclear mais robusto, credível e moderno do mundo, bem como defesas antimísseis de novíssima geração — incluindo uma Abóbada Dourada sobre a América — que protejam o povo americano, o património americano no estrangeiro e os aliados da América.”
Eis o que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário.
Falando directamente da China, a “estratégia de segurança nacional” refere que Trump reverteu mais de três décadas de suposições erradas a respeito daquele país, a saber, que a abertura de mercados à China, os incentivos ao investimento americano na China e à deslocalização industrial para a China conduziriam à integração daquele país na “chamada ordem internacional assente em regras” (a ordem mundial ao serviço dos interesses americanos) — coisa que “não aconteceu”.
Daí a necessidade de “reequilibrar a relação económica da América com a China”: acabando com “estratégias industriais e subsídios estatais predatórios; práticas comerciais injustas; a destruição de empregos e a desindustrialização; o roubo de propriedade industrial e a espionagem industrial em grande escala; ameaças às nossas cadeias de abastecimento que ponham em risco o acesso dos EUA a recursos críticos, designadamente minerais e terras raras; (...) propaganda, operações de influência e outras formas de subversão cultural”. Exige-se, para tal fim, o concurso da “Europa, do Japão, da Coreia, da Austrália, do Canadá, do México e de outras nações importantes”.
Corresponda ou não à prática do Estado chinês esta descrição, ela corresponde sem sombra de dúvida à caracterização que dela têm feito as administrações americanas.
Trata-se, portanto, sem equívoco, de acabar com o Estado chinês na sua forma actual por meio de uma estratégia política, comercial e militar que lembra fatalmente o cerco à União Soviética e o avanço inexorável da NATO sobre as fronteiras da URSS (e, depois, da Rússia) que caracterizaram a política americana pelo menos desde Reagan.
Todo o capítulo sobre a “dissuasão de ameaças militares” é dedicado à preparação do confronto político-militar com a China: “uma relação de forças militar convencional favorável continua a ser uma componente essencial da competição estratégica. O foco está muito, e bem, em Taiwan, em parte por esse país dominar a produção de semicondutores, mas, sobretudo, porque Taiwan dá acesso directo à Segunda Cadeia Insular [as ilhas onde os EUA detêm colónias e bases militares importantes situadas a oriente do Japão e doutras ilhas mais próximas do continente chinês], dividindo a Ásia em dois teatros [militares] distintos, Nordeste e Sudeste. O facto de dois terços do transporte marítimo passarem pelo mar da China Meridional tem implicações de primeira ordem para a economia americana. Deter um conflito por Taiwan, de preferência mantendo a nossa superioridade militar, é, pois, uma prioridade. (...) Poremos de pé uma força militar capaz de impedir agressões em qualquer ponto da Primeira Cadeia Insular. Contudo, as forças armadas americanas não podem nem devem ter de fazê-lo sozinhas. Os nossos aliados [Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Nova Zelândia] têm de responder presente e gastar — e, ainda mais importante, fazer — muito mais pela defesa colectiva. (...) É imperioso desenvolver as medidas de força e dissuasão necessárias para manter essas rotas abertas, livres de “portagens” e não sujeitas a encerramento arbitrário por algum país.”
Pese aos comentadores que estranham a linguagem aparentemente menos hostil à China (e à Rússia) do que a usada na doutrina da primeira administração Trump, a NSS 2025 é transparente nas suas prioridades — e no número de páginas dedicado a cada “região”:
— acabar com a actual economia e Estado chinês, ainda predominantemente assente na propriedade estatal dos meios de produção;
— acabar com a guerra “lateral” da NATO com a Rússia pela Ucrânia, agora que a Rússia já está significativamente desgastada; ou então deixá-la supurar, mas exclusivamente à custa dos orçamentos e das economias dos imperialismos europeus e para lucro da indústria armamentista americana;
— promover um surto sem precedentes da economia do armamento e cavar a superioridade das forças armadas americanas, transferindo, de passagem, maciçamente lucros para o capital americano em prejuízo dos concorrentes menores, europeus e não só;
— no Médio Oriente, apoiar sem reservas os regimes feudais e Israel, acabando com quaisquer fantasias de “democratização”.
— explorar sem limites os recursos dos países do “terceiro mundo”, acabando com as fantasias da “ajuda ao desenvolvimento”.
Este é o mundo que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário. Um mundo de ditaduras e de destruição da democracia.
Todos os poderosos do mundo rastejam e capitulam, uns atrás dos outros.
A única oposição aos bárbaros desígnios do imperialismo é a que lhes montem as classes trabalhadoras: da América, da Europa, da Ásia e do mundo.
1 Por exemplo, no Expresso de 12 de Dezembro, Miguel Monjardino escreve que “o principal adversário dos EUA em todo o documento parece ser a União Europeia, vista agora em Washington como um projeto das elites liberais e internacionalistas que se opõe aos seus valores políticos e interesses tecnológicos e comerciais.”
2 A razão principal da aparência algo fantasmática do alvo chinês é dupla, como refere The Economist (26/12/25): a cimeira Trump-Xi Jinping de Abril de 2026, que os negociadores americanos estão a preparar intensamente, querendo evitar interferências diplomáticas até lá; e batalhas intestinas na administração americana, entre vários interesses que se cruzam.
3 Na definição da NSS, hemisfério ocidental parece referir-se principalmente às Américas, de Norte a Sul. No entanto, tradicionalmente, também inclui a Europa Ocidental. O documento deixa ambiguidade a este respeito, tratando a Europa à parte.
O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
O Irão está a atravessar uma fase de excepcional violência e intensidade. Depois do genocídio na Palestina e da destruição em grande escala infligida ao Líbano, os Estados Unidos e Israel participam também na destruição de vidas, corpos, territórios e infra-estruturas vitais no Irão. Têm alvejado não só refinarias e depósitos de combustível, mas também instituições de saúde, recursos hídricos, sistemas energéticos, instalações petrolíferas, escolas e outros espaços civis. Em Minab, uma escola de raparigas foi totalmente destruída e mais de 168 pessoas foram mortas, entre elas crianças baloches. A guerra desfaz as condições da reprodução social, aprofundando ainda mais a vulnerabilidade das classes trabalhadoras. Mina a base material da autonomia social, fazendo recuar vários patamares as lutas dos de baixo e reforçando formas de etno-nacionalismo promovidas pelo Estado ou pela sociedade. A rápida passagem, no espaço de um mês, da promessa de Trump de “voltar a engrandecer o Irão” à ameaça de reduzir o país à “idade da pedra” — uma fórmula que lembra inevitavelmente a linguagem da Guerra do Golfo de 1991 contra o Iraque — dissipou a última réstia de ambiguidade quanto à lógica imperial do que se passa.
Não se pode, porém, entender esta violência imperialista “externa” separadamente da crise interna pela qual a República Islâmica tem tentado restaurar a sua autoridade. Desde a revolta de 2022 a seguir ao assassinato da jovem curda Jina Mahsa Amini pela polícia, a República Islâmica tem sempre procurado, em todas as guerras e crises geopolíticas, maneira de repor parte da autoridade e respeitabilidade perdidas.
O paradoxo do ataque imperialista e da legitimidade do regime
A guerra travada pelo poder colonial genocida israelita contra os palestinianos após 7 de Outubro de 2023, a que se seguiu o primeiro ataque israelo-americano ao Irão, em Junho de 2025, ofereceu à República Islâmica o primeiro quadro de reabilitação. No entanto, o massacre de Janeiro de 2026, em que milhares de manifestantes iranianos foram mortos pelas forças do Estado teocrático em apenas dois dias, simplesmente por protestarem contra a crise económica e a ditadura política, reabriu uma crise de legitimidade aguda para Teerão, a nível interno e internacional.
Estavam os Iranianos ainda de luto, e muitas famílias ainda nem tinham conseguido recuperar os corpos dos seus entes queridos mortos em Janeiro, quando os Estados Unidos e Israel lançaram uma nova invasão imperialista, em 28 de Fevereiro de 2026, ainda mais violenta do que os ataques anteriores. Paradoxalmente, estes ataques têm, para já, ajudado a República Islâmica a recuperar parte da credibilidade que tinha perdido com a repressão sangrenta do mês anterior.
Estes dois acontecimentos, o massacre e a guerra, não constituem sequências separadas nem duas formas opostas de violência — uma repressiva e a outra supostamente libertadora —, mas sim momentos sucessivos, assimétricos até, de um processo contra-revolucionário interligado. A guerra “externa” prolonga e aprofunda a contra-revolução interna, permitindo ao Estado iraniano reforçar a coesão interna e, mais uma vez, abafar a inconformidade popular.
Reconhecê-lo não minimiza de modo algum que o Irão tenha sido e continue a ser alvo de uma agressão imperialista e colonialista levada a cabo com impunidade. Obriga-nos, sim, a ver este ataque em termos da sua função política mais profunda: em primeiro lugar, como empreitada assassina de destruição que alveja vidas, corpos, infraestruturas e territórios civis, posta em andamento com falsos pretextos e extensão da empreitada genocida levada a cabo em Gaza, assim como na Cisjordânia e no Líbano; e, em segundo lugar, como oferta de novos recursos à República Islâmica para a sua própria reconstituição.
O que é o “campismo”?
A agressão israelo-americana reforça a militarização do Irão, a repressão e a esmagamento das revoltas vindas de baixo. Intensifica, também, uma letal polarização política. De um lado, parte da oposição, especialmente os monárquicos, aplaudiu os bombardeamentos imperialistas em nome da hostilidade ao Estado teocrático. Do outro lado, outras forças políticas voltaram a cair na órbita da República Islâmica em nome do anti-imperialismo e da oposição à guerra. Se a natureza reaccionária da primeira destas correntes — pró-Israel, pró-EUA e pró-genocídio — tem merecido pronta oposição, assente num relativo consenso entre as forças progressistas e de esquerda, a segunda tem infelizmente captado partes da esquerda — e é, em absoluto, igualmente significativa.
É neste impasse que a questão do “campismo” ressurge com particular premência. Por “campismo” refiro-me a um leque de posições e tendências que apoiam qualquer força ou Estado com base na respectiva oposição ao imperialismo ocidental, independentemente da sua própria natureza reaccionária ou progressista.
O “campismo” é um legado da Guerra Fria, articulado por auto-proclamados anti-imperialistas e apoiantes do chamado “campo da resistência”, costumando reduzir o mundo a uma lógica binária de dois “campos”: o imperialismo (os Estados Unidos, a NATO, Israel e os seus aliados) versus “a resistência” (o Irão, a Rússia, a China, a Síria de Assad, etc.). Levantamentos democráticos e subversivos contra estes últimos Estados, como o Rojava, vêem-se assim rejeitados, vistos como intrinsecamente suspeitos ou “cavalos de Tróia” do inimigo. Qualquer crítica aos ditadores é de imediato desqualificada como “cumplicidade com o imperialismo”.
Mobilizações populares são reduzidas a meras “correias de transmissão ocidentais”, ou então instrumentalizadas na medida em que possam servir a um dos campos. A lógica do “inimigo do meu inimigo” torna-se um álibi: passa a servir de desculpa para ignorar a repressão interna e os protestos que se seguem, reduzindo-os a meras parcelas de um conflito geopolítico mais vasto.
O resultado é a paralisação da solidariedade mútua internacionalista baseada nas experiências e destinos partilhados das classes oprimidas, agora porém incapaz de segurar anti-autoritarismo e anti-imperialismo na mesma mão. A pretexto de impedir a “exploração imperialista” das revoluções, os campistas tendem a privilegiar uma esquerda estruturalmente marginalizada, “prudente”, não raro condenada à derrota perpétua.
Este “anti-imperialismo assente na identidade” privilegia a lealdade a Estados “anti-ocidentais” em detrimento de uma análise do capitalismo global. E, ao fazê-lo, justifica a repressão, o patriarcado, a homofobia e o colonialismo interno em nome da “resistência”. Dá-se prioridade absoluta à luta contra o imperialismo ocidental, reduzindo-se as vítimas dos Estados “anti-imperialistas” a “danos colaterais”.
O ensaísta irlandês Fred Halliday descreveu este tipo de pensamento como “anti-imperialismo para tolos”. Em nome da hostilidade para com os Estados Unidos, esta postura reforça violentamente, na prática, um Estado teocrático que reprime a esquerda, as minorias nacionais, as feministas e os conselhos populares. O conceito foi posteriormente recuperado pela activista síria Leila Al-Shami no seu livro Burning Country para designar os apoiantes de Bashar al-Assad durante a revolução árabe da década de 2010. Da repressão soviética da revolta húngara de Budapeste em 1956 aos nossos dias, este anti-imperialismo para tolos tem servido de máscara à violência de Estado e ao esmagamento da revolta.
Observa-se tal tendência em certos segmentos da esquerda ocidental branca, mas também em modos de pensamento ligados aos processos de descolonização. Enquadra-se no que se poderia chamar de “branqueamento anti-imperialista”, o uso estratégico da retórica anti-imperialista para ocultar, justificar ou minimizar formas de autoritarismo e violência fascizante exercidas dentro das fronteiras nacionais, especialmente quando os Estados se apresentam como adversários do poder hegemónico ocidental. Embora estas figuras denunciem o colonialismo das potências ocidentais, mantêm muita cegueira, cumplicidade mesmo, para com formas de “colonialismo interno”, forma usada por povos minoritários como os curdos e os baloches para descrever a sua relação com o poder estatal iraniano.
Esta prática é também frequentemente acompanhada por uma forma de manipulação psicológica racial. A forma de manipulação psicológica clássica refere-se à que consiste em pôr sistematicamente em dúvida a palavra e estado mental das mulheres. Tendo o termo inglês “gaslighting” passado a termo de referência em psicologia e, mais tarde, ferramenta crítica do feminismo, ele abrange agora, mais amplamente, um tipo de linguagem política enganosa, violenta e até negacionista. Do estrado do relativo privilégio, “ensina-se” a comunidades historicamente sujeitas tanto à dominação imperial como à repressão interna como hão-de interpretar “como deve ser” o imperialismo e a resistência. Esta postura condescendente não se limita a restaurar hierarquias coloniais de conhecimento; tira legitimidade às ideias e experiências vividas — à própria agência — de quem está sujeito a uma trama complexa de sistemas de violência.
As consequências são bem visíveis. A República Islâmica do Irão instrumentaliza este discurso tributário da “descolonização” para rotular manifestantes de “terroristas” e endurecer o seu aparelho coercivo. É uma lógica que igualmente ajuda a justificar políticas discriminatórias dirigidas contra os migrantes afegãos no Irão: retratando-os como ameaça interna, o Estado alija para cima deles a responsabilidade por dificuldades que derivam realmente do seu próprio regime político, social e económico.
A lógica contra-revolucionária do “campismo”
Após o genocídio em Gaza e a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão em Junho de 2025, o “campismo” voltou a dominar parte da esquerda radical global no Ocidente, bem como na América Latina, em África e no mundo árabe. Ele reduz a política iraniana a um duelo entre o “Irão” e o “eixo EUA-Israel”. As revoltas populares, reprimidas no sangue desde 2017, são passadas em silêncio ou refeitas segundo os moldes do discurso oficial do Estado: “infiltração da Mossad”, “revolução colorida”, “conspiração ocidental” e assim por diante. Transforma-se os movimentos sociais em ameaças à segurança e legitima-se a repressão — da violência de rua às execuções — a pretexto do “estado de emergência” ou da “inoportunidade”. Fazendo do povo que se insurge o inimigo principal, o campismo é, na verdade, profundamente contra-revolucionário.
Sob o regime de guerra permanente que alastra, passa-se o tempo a dizer aos povos em luta que retrocedam, se aguentem aí em nome de uma urgência superior. Até os que reconhecem a natureza repressiva daquelas forças põem amiúde de lado as lutas emancipatórias em nome da estratégia. A isto chamaram Morteza Samanpour e Amir Kianpour “campismo estratégico”. Há muito que se anda a armadilhar as lutas feministas exactamente nesta mesma lógica: pede-se-lhes sempre que esperem, primeiro pela classe, agora pelo anti-imperialismo. Mas o feminismo político tem identificado claramente que a essência do adiar é que “mais tarde” tende para “nunca”. Não se relegue nenhuma luta para a “sala de espera da história” em nome de uma concepção linear de libertação, nem as sacrifiquemos a uma hierarquia de causas alegadamente mais urgentes.
Desenvolvimentos geopolíticos recentes ainda dão maior campo de manobra aos campistas. Durante a guerra de Israel contra o Irão, em Junho de 2025, a que se costuma agora chamar “Guerra dos Doze Dias”, a experiência concreta de destruição reforçou as tendências anti-guerra no interior do Irão. No entanto, após o massacre sangrento perpetrado pelo Estado, em Janeiro de 2026, parte da sociedade, exausta e confrontada com um beco sem saída, começou a ver a intervenção estrangeira, erroneamente, como meio para derrubar o governo, uma vez tentadas sem êxito outras vias internas, e mantendo-se o Estado imune à pressão. Um médico proeminente relatou que, a seguir aos protestos de Janeiro, se tinham apresentado num só hospital, em Teerão, “pelo menos mil” pacientes (manifestantes) com lesões oculares graves, todos a necessitarem de tratamento urgente para lhes tentar salvar a vista.
É precisamente aqui que o “campismo” cai por terra. Condenar a guerra externa ficando em silêncio quanto à violência estatal interna não é uma posição anti-guerra de princípio, mas uma forma de relativismo que apaga diferenças cruciais entre regimes e modalidades de violência. O caso não é uma alegação de excepcionalismo iraniano, invocado para legitimar um ataque militar, como algumas correntes trumpistas e monárquicas fizeram. A questão é, sim, a insistência em que não se possa pôr um sinal de igual entre uma ditadura teocrática em que um chefe não eleito exerce um poder extralegal sobre noventa milhões de pessoas pelo terror social, execuções, tortura, prisão política, isolamento digital, poder religioso misógino e políticas racistas-coloniais para com minorias nacionais e os migrantes afegãos; e Estados em que ainda existem liberdades civis e legais, por mais limitadas que sejam, e onde a violência opera a uma escala e em moldes estruturalmente diferentes.
Condenar, como fazem os campistas, a guerra externa ou a intervenção imperialista sem denunciar explicitamente esta violência interna e o massacre da própria população tanto é, politicamente, tresler completamente as dinâmicas no Irão, como equivale a aliar-se ao Estado contra o povo que ele mata. Os Estados governam dividindo a população e esmagando revoltas. Os campistas não resistem a esta lógica; seguem-na. Ao tomarem os Estados e os respectivos alinhamentos geopolíticos para seu ponto de referência primário, eles reproduzem e legitimam as divisões impostas de cima, substituindo as solidariedades forjadas entre os povos em luta a partir de baixo por lealdades a campos estatais.
(continua)
1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.
ilustração: Rita Comedida
No passado dia 14 de setembro, a Jacobin, revista de esquerda norte-americana com grande projeção internacional, apresentou os resultados do relatório “The working-class vote is not lost” (“O voto da classe trabalhadora não está perdido”), realizado pelo Center for Working-Class Politics e pela professora de Direito norte-americana Joan C. Williams, com apoio da própria revista e da Fundação Rosa Luxemburgo.
Através das preferências de 40 000 entrevistados, o estudo procurou chegar às caraterísticas, posições e táticas que tornariam mais provável um maior apoio eleitoral dos trabalhadores dos EUA a uma hipotética candidatura do campo da esquerda (neste contexto, a alojada no Partido Democrata). Com grande sustentação estatística, o relatório apresenta conclusões que merecem um olhar interessado.
Os entrevistados valorizam, face a tópicos como “defesa da democracia” ou “questões climáticas e de guerras culturais”, a priorização da questão económica, inclusive de forma ambiciosa: investimentos públicos mais robustos em infraestruturas e criação de emprego foram considerados com maior importância do que medidas mais “contidas”, como incentivos fiscais. Foram privilegiados o acesso a boas condições laborais e a recompensa ao “trabalho árduo”, face a programas de distribuição de riqueza no abstrato, como a maior taxação a fortunas e grandes grupos económicos.
Investimentos públicos mais robustos em infraestruturas e criação de emprego foram considerados com maior importância do que medidas mais “contidas”, como incentivos fiscais.
A conexão com os “valores da classe trabalhadora” foi também enaltecida no relatório. Destes, foram destacados “a lealdade à comunidade e ao país, o orgulho no trabalho árduo, o respeito pelas instituições tradicionais e pelo cumprimento das regras, a segurança pessoal e o antielitismo”. Medidas mais progressistas (a nível de política climática, por exemplo) não necessariamente afastam os trabalhadores americanos, desde que exista uma tentativa de as conjugar com os valores identificados.
Foram bem considerados o discurso político centrado na auscultação das classes trabalhadoras (ao invés do foco nas classes intermédias) e a retórica populista visando a elite (sobretudo política). Quanto à proveniência dos candidatos, os entrevistados rejeitam aqueles surgidos de estratos mais altos, mas não necessariamente cingem a sua preferência a perfis de trabalhadores manuais. Segundo a Jacobin, “pequenos empresários, profissionais de áreas como enfermagem e ensino (frequentemente associadas ao trabalho de prestação de serviços e cuidados) e trabalhadores do setor de serviços, como empregados de mesa e balconistas, têm um desempenho junto aos eleitores da classe trabalhadora tão bom como o dos candidatos oriundos do trabalho manual”. A origem étnico-racial e o género dos candidatos foram, em regra, irrelevantes.
Estas foram algumas conclusões deste estudo alargado. Que merece, não obstante, algumas cautelas.
Mais do que conceber um projeto político de emancipação da classe trabalhadora norte-americana, o relatório pretende auxiliar, de um ponto de vista meramente eleitoral, o Partido Democrata a ligar-se às massas. Sabemos, no entanto, como a cúpula dirigente deste partido, tão comprometida com os interesses oligárquicos da classe dominante como a do Partido Republicano, tentará barrar qualquer aproximação ao ideário socialista ou mesmo social-democrata. Nesse aspeto, sem uma força político-partidária autónoma da classe trabalhadora norte-americana, o estudo arrisca-se a cair “em saco roto”. E o relatório, sendo útil para compreender os interesses eleitorais dos trabalhadores dos EUA, não os ausculta para a construção de uma real alternativa política.
Ainda assim, não se pode negar a sua importância no contexto presente. Esta assenta, simplificadamente, em três pontos.
O primeiro é, obviamente, o auxílio interno que este estudo pode oferecer à organização, preparação e (re)orientação tática de candidaturas do campo socialista (ainda que dentro dos limites do Partido Democrata) e o sucesso destas em embates futuros com o Partido Republicano, que, em 2024, granjeou amplamente o apoio das massas trabalhadoras americanas. Auxílio que “pode” oferecer, não necessariamente “vai” oferecer: falta compreender a vontade dos dirigentes políticos da esquerda norte-americana para considerar e assimilar estes dados, mesmo que eles desdigam a estratégia previamente adotada.
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Em segundo lugar, este estudo recentra a reflexão do campo socialista sobre a sua própria crise não apenas nas teorizações e sugestões de especialistas, académicos e militantes já completamente entrosados com a esquerda, mas nos genuínos anseios das massas. Curiosamente, apesar de se constituir como uma proposta política em benefício da emancipação destas últimas, são estas as menos consideradas na sua construção. As cúpulas partidárias não raras vezes fecham-se a esta auscultação. Estudos como este demonstram que a necessidade de recentrar o discurso nos problemas económicos de quem trabalha, sem deixar de considerar o trabalho como o centro da nossa vida comunitária, não é só um palpite que um punhado de intelectuais de esquerda apregoa, mas uma honesta vontade de quem dá razão de ser a esta mesma esquerda. Este recentramento não implica abdicar de determinadas linhas vermelhas, erigidas pela própria tradição intelectual em que a esquerda se insere, mas ajustar a proposta e a estratégia política para voltar a ganhar a confiança das massas.
Em terceiro lugar, o relatório pode ter o condão de inspirar experiências semelhantes noutras realidades nacionais. “Pode”, porque mais uma vez deve aliar-se à possibilidade a motivação de a concretizar. Foi sempre ressalvado que o estudo incluiu entrevistas a trabalhadores norte-americanos sobre a sua apetência por votar à esquerda em eleições nos EUA. Se consideramos a sua importância para a estratégia da esquerda, como campo político, é porque é muito o que une os anseios da classe trabalhadora norte-americana à de outras realidades nacionais, quanto mais não seja a própria condição… de classe. Ainda assim, as condicionantes nacionais importam e podem impactar alguns destes resultados. Os trabalhadores, existindo como categoria sem conhecer fronteiras geográficas, sentem-se, em grande medida, parte da sua unidade nacional, na qual estão organizados, como este mesmo relatório aponta. Olhar, em Portugal, a título de exemplo, para estes resultados e aplicá-los sem ter em conta as especificidades das massas trabalhadoras portuguesas incorre nos mesmos erros que o estudo aponta.
Por isso mesmo é necessário que se multipliquem as iniciativas deste tipo, só possíveis com uma esfera pública própria, independente do Estado e do mercado. Estas iniciativas devem ajudar a (re)pensar os caminhos da esquerda, numa altura em que surgem novos projetos políticos e em que os antigos repensam (ou deveriam) as suas orientações estratégicas. Para que antigos e novos não insistam na tendência de prezar mais uma almejada pureza ideológica do que a confiança daqueles para quem falamos.
Em 18 de junho de 2026, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou, em sessão extraordinária, o maior pacote de reformas económicas da história de Cuba depois da Revolução: 176 medidas que abrem espaço à banca privada, convertem empresas estatais em sociedades por ações, eliminam o teto de trabalhadores das pequenas e médias empresas, autorizam o investimento de cubanos residentes no exterior — com usufruto de terras por até 99 anos — e suprimem o cabaz alimentar universal vigente desde 1962. Anunciado como Programa Económico y Social 2026 e justificado pelo próprio Governo como resposta à asfixia provocada pelo bloqueio, o pacote inscreve em lei a viragem pró-mercado mais profunda desde 1959. A entrevista que aqui publicamos, realizada em Havana e Cienfuegos com Aldo Cordeiro Sauda e originalmente publicada no site brasileiro Quilombo Invisível em maio de 2026, antecedeu em poucas semanas a institucionalização desse programa.
Em 18 de junho de 2026, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou, em sessão extraordinária, o maior pacote de reformas económicas da história da Revolução: 176 medidas, organizadas em vinte e três eixos, que abrem espaço para a banca privada, convertem empresas estatais em sociedades por ações, eliminam o teto de trabalhadores das pequenas e médias empresas, autorizam o investimento de cubanos residentes no exterior — com usufruto de terras por até noventa e nove anos — e suprimem a cesta básica universal vigente desde 1962. Anunciado como Programa Económico y Social 2026 e justificado pelo próprio governo como resposta à asfixia provocada pelo bloqueio, o pacote inscreve em lei o giro pró-mercado mais profundo desde 1959.
A proposta do Partido Comunista Cubano invoca explicitamente os modelos chinês e vietnamita de abertura controlada. Os números expõem a distância que separa Havana desses paradigmas de “socialismo de mercado”. Segundo os dados compilados pelo economista Carmelo Mesa-Lago, o Estado responde ainda por 90,8% do PIB cubano, contra 40% na China e 37,3% no Vietname, e apenas 21,9% das empresas cubanas são não estatais, ante 89,7% na China e 96,7% no Vietname. Entre 2009 e 2020, enquanto a China crescia 7,4% ao ano e o Vietname 5,9%, Cuba avançava 0,9%. Já o coeficiente de Gini cubano, estimado pela socióloga Mayra Espina Prieto em 0,407, é hoje superior ao vietnamita (0,357) e ao chinês (0,385). A entrevista que se segue, realizada em Havana e Cienfuegos, originalmente publicada no site Quilombo Invisível em maio de 2026, antecedeu em poucas semanas a institucionalização desse programa. Cabe ao leitor avaliar em que medida as tendências discutidas na conversa e os limites estruturais da integração de Cuba no mercado mundial encontram confirmação nos acontecimentos anteriores.
Mesmo que as reformas económicas sejam introduzidas sem qualquer alteração no sistema político de partido único da ilha, elas seriam bem-vindas se ajudassem a aliviar a situação económica do povo cubano. Convém lembrar que nem a China nem o Vietname reformaram sob um intenso bloqueio energético e um regime de restituição patrimonial como os que pesam sobre Cuba: a ilha abre-se sob o cerco do Helms-Burton Act — a legislação extraterritorial que permite aos antigos proprietários radicados em Miami reivindicar, na justiça norte-americana, os bens nacionalizados após 1959 —, o que ameaça tornar a reintrodução do capital estadunidense incomparavelmente mais violenta do que nas experiências do Leste Asiático. A via cubana, portanto, parece aproximar-se muito mais do desastre económico dos países que sucederam à União Soviética nos anos 1990 do que o modelo apresentado pelo PC Cubano.
Longe de corrigir a crise social, a abertura ao capital estrangeiro, vindo em particular dos exilados pró-Trump de Miami, tende a aprofundá-lo. A dolarização de facto da economia diária — agora formalizada pela reforma — beneficia quem dispõe de dólares, remessas e passaporte estrangeiro, e penaliza quem depende dos salários em pesos e da caderneta esvaziada. Esse recorte é também racial: como regista a entrevista, cubanos de ascendência africana recebem menos remessas que os brancos, de modo que a economia dolarizada amplia a desigualdade racial herdada do Período Especial. O pacote de junho acentua essa lógica ao converter a diáspora em investidora interna e ao desmontar os mecanismos universais de proteção social.
O texto procura reconstruir algumas das contradições estruturais da sociedade cubana contemporânea a partir de conversas com investigadores, ativistas e organizadores associados ao livro CUBA 11J, obra produzida por militantes marxistas que participaram nas massivas mobilizações anti-austeridade dos dias 11 e 12 de julho de 2021. As questões abordadas incluem a crise energética e os seus efeitos territoriais, a recomposição das formas de mercado, o papel estrutural das remessas e da emigração, as desigualdades racializadas, areconfiguração do trabalho e da reprodução social, a repressão política e as dificuldades enfrentadas por correntes críticas de esquerda no contexto atual.
Aldo Cordeiro Sauda
Quilombo Invisível: No ano passado, o Congresso cubano aprovou uma série de reformas económicas. Entre elas, destacam-se a dolarização parcial da economia e a expansão das situações em que cubanos poderiam ser detentores de mais de uma propriedade. Como essas mudanças foram recebidas pela população? Quem mais tende a beneficiar com elas?
Aldo Cordeiro Sauda: A grande maioria das relações económicas de Havana com o resto do mundo é influenciada pelo chamado Helms-Burton Act, uma legislação aprovada no Congresso norte-americano em 1996, durante o Governo Clinton. Essa lei radicalizou, intensificou e institucionalizou a agressão norte-americana a Cuba. Ela deu a Washington os chamados mecanismos de aplicação extraterritorial do direito estadunidense, ou, se você quiser, uma forma de jurisdição imperial, na qual a lei americana é imposta a Cuba para reverter as expropriações de refinarias, fábricas, hotéis e latifúndios rurais ou urbanos nacionalizados após a Revolução de 1959.
Isso significa que, se você mora em Miami e seu avô teve lá atrás uma empresa, um prédio ou outra propriedade expropriada na Revolução de 1959, você pode entrar com um processo nos Estados Unidos para reclamar essa propriedade em Cuba. Isso criou um nó nas relações de propriedade em Cuba e o sistema jurídico norte-americano, difícil de superar e que, na prática, trava as relações económicas cubanas com o resto do mundo.
Um bom exemplo de litígio é o caso da rede de hotéis Meliá, em particular seu empreendimento na Praia Esmeralda, em Holguín. Os cubanos atraíram a rede hoteleira, de capital espanhol, para investir na indústria do turismo cubano. Os EUA responderam processando o grupo Meliá porque o hotel foi construído em um terreno baldio que era de suposta propriedade da familia Sánchez Hill, expropriada em 1959. Como existe um processo nos Estados Unidos de reintegração dessa propriedade, a estrutura financeira do grupo Meliá, dentro ou fora de Cuba, passa a ter suas transações em dólares dificultadas, travando o acesso a capital norte-americano. Essa questão da jurisdição internacional dificulta qualquer tipo de processo de abertura da economia cubana.
Esses mecanismos de jurisdição extraterritorial, na verdade, representam o elemento mais extremo de um amplo complexo jurídico imperial norte-americano. Esse extremismo em relação a Cuba está presente quando Trump diz que vai assumir o controle absoluto da ilha. Isso em parte se explica por motivos temporais: durante o colapso da União Soviética, não existia uma legislação norte-americana que delimitasse a questão da propriedade naqueles países equivalente ao Helms-Burton Act, com jurisdição extraterritorial. Inclusive, se você pega o caso chinês, os Estados Unidos, em 1979, basicamente resolvem esse problema com as relações de propriedade na China com um acordo rápido e pragmático. Portanto, há um excepcionalismo no caso cubano, talvez ligado à necessidade de combater a esquerda na América Latina independente da Guerra Fria.
Quando você pega o caso das propriedades na União Soviética, houve todo um processo de privatização, mas ninguém falou em restaurar as propriedades anteriores à Revolução de 1917. Se houve, foi algo mais concentrado na questão da Igreja Ortodoxa, mas não existia uma mobilização para trazer os proprietários anteriores, inclusive porque eles não estavam geograficamente concentrados como estão os proprietários do período pré-revolução cubana em Miami, com relações com os políticos na Florida, com relações aprofundadas com o governo norte-americano.
Então, essas relações fazem que qualquer projeto maior de abertura por parte dos cubanos acabe caindo nessa barreira. De novo, é algo que não se teve, por exemplo, nos países do Leste Europeu como Polónia ou Checoslováquia, onde, mesmo tendo havido alguns casos de restauração de propriedades anteriores ou compensação, foram processos com uma certa maleabilidade. Em muitos desses lugares, a propriedade continuou estatal ou foi privatizada, mas não se retornou aos proprietários do período anterior.
Essa é a grande barreira, porque basicamente os americanos querem retomar a propriedade das usinas de açúcar, das refinarias de petróleo, dos bancos e, principalmente, as propriedades urbanas e rurais. No caso de propriedades urbanas, isso se relaciona diretamente com os interesses da família Trump. Você pega Havana, uma das cidades mais bonitas da América Latina, se não a cidade mais bonita, exatamente porque não existe especulação imobiliária. Havana Vieja tem aqueles prédios lindos, antigos, que a despeito da degradação dão todo um charme à cidade e que, provavelmente, quando houver de facto uma invasão do capital norte-americano, vão virar edifícios gentrificados, mercadoria ao serviço da especulação imobiliária, fenómeno que, na prática, é dissuadido através da restrição ao grande capital pelo Estado.
Dito isso, a abertura que se tem, que é de novo uma abertura lenta, travada e pautada pelo Helms-Burton Act, em geral beneficia a burocracia, seus filhos e seus netos, os chamados ‘nepo babies’. A abertura do mercado é, em geral, isso: quem beneficia são aqueles vinculados ao Partido Comunista. Uma figura muito mencionada aqui em Havana é o “Cangrejo”, neto de Raúl Castro, descrito como um playboy que virou dono dos empreendimentos de turismo e de uma série de empresas privadas. Ele é odiado aqui em Havana; todos falam dele. São críticas baseadas certamente em relatos jornalísticos, sem claro lastro documental, mas me parece inevitável que essas figuras acabem surgindo. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia acaba empurrando para isso, porque a dolarização foi acompanhada de uma enorme crise: as cadernetas – aquilo que garantia a alimentação pelo Estado – vão tendo cada vez menos alimentos à disposição, e passa a haver cada vez mais alimentos à disposição de quem tem acesso a esses mercados privados em dólares, o que aumenta brutalmente a desigualdade no próprio acesso à comida.
Isso também está ligado ao facto de que, desde os anos 90, mas muito mais agora, principalmente desde a Covid, milhões de cubanos saíram do país e mandam dinheiro de volta às suas famílias. O envio de remessas, junto com o turismo e, em alguns sentidos, a exportação de missões médicas, são as três grandes fontes de capital estrangeiro aqui em Cuba. Elas acabam sempre beneficiando alguns em detrimento de outros, em geral os brancos em detrimento dos negros, porque quem é imigrante, quem está fora do país, consegue melhores empregos e depois consegue mandar esse dinheiro com facilidade, são na maioria das vezes as pessoas brancas. Isso acaba tendo um recorte racializado, a centralidade que ocupa a economia dolarizada. Portanto, a dolarização da economia aumenta a desigualdade racial.
Vale mencionar também que a questão da restauração dos direitos de propriedade no caso de Cuba é, em alguns sentidos, mais complexa do que na Venezuela. As grandes estatizações que ocorreram durante o governo Chávez foram de duas grandes empresas norte-americanas, a Exxon Mobil e a ConocoPhillips, que tinham participado nas privatizações neoliberais dos anos 90, do setor petroleiro venezuelano e que foram expropriadas depois por Caracas. É relativamente fácil restaurar os direitos de propriedade anteriores, primeiro porque eles ocorreram nos anos 90. Existe toda uma estrutura legal internacional vinculada ao Banco Mundial e a tribunais internacionais que garantem esses direitos de propriedade ao grande capital estrangeiro principalmente a partir dos anos 90. Essa questão se resolve com os americanos retomando para si o petróleo venezuelano da PDVSA, algo que na prática já está acontecendo.
Em Cuba, não. Em Cuba, você tem particulares individuais que não são grandes empresas petroleiras norte-americanas, com quem você resolve por meio de um acordo imposto pela agressão imperial norte-americana ocorrida esse ano. No caso de Cuba, você tem milhares e milhares de processos que correm na justiça norte-americana para restaurar a propriedade em todos os níveis. Portanto, a violência do que será a reintrodução do capital norte-americano e dos interesses norte-americanos em Cuba vai perpassar centralmente a restauração desses direitos individuais.
Por isso, a restauração aqui em Cuba vai ser provavelmente mais violenta do que qualquer outra, mais violenta no sentido da expropriação dos direitos à habitação e dos direitos sociais do que talvez na Rússia ou Leste Europeu. Provavelmente, alguma fração da burocracia do Partido Comunista vai continuar com o domínio sobre alguns setores da propriedade hoje estatal, mas isso vai ter que se dar em por meio de um acordo com essas frações burguesas cubanas que estão na Florida querendo reclamar sua propriedade como um todo, o que, de novo, não ocorreu na União Soviética. No caso cubano, é isso o que eles querem, e é isso o que cria essa situação em que o Trump fala com algum grau de verdade que vai voltar a ser “dono” de Cuba se seu plano der certo.
Quilombo Invisível: Diante da inflação severa, dos apagões exaustivos e do sistema de lojas em Moeda Livremente Conversível (MLC), como as pessoas nas ruas interpretam a raiz da crise? A quem a população costuma atribuir a culpa pela escassez diária?
Aldo Cordeiro Sauda: A questão das reformas na política monetária de 2021 é algo que todos os cubanos criticam. A primeira questão é o fim daquela moeda chamada CUC, que era uma espécie de dólar oficial, um câmbio oficial controlado pelo Estado que controlava o dinheiro vindo do exterior. Com a reforma do governo Díaz-Canel, o dólar oficial foi abandonado e a CUP, o peso cubano, passou a oscilar de forma livre em relação à moeda norte-americana. Essa política liberou a utilização do dólar, na prática, dolarizando a economia local. De novo, isso remete àquela questão das remessas financeiras enviadas pelos imigrantes a quem ainda está dentro do país. A questão das remessas é uma parte estrutural da economia, não só de Cuba, mas de diversos países do Caribe e da América Central: Guatemala, o próprio El Salvador, o Haiti.
Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.
Na prática, a política de sanções energéticas do Governo Trump entrou para quebrar as pernas da economia do turismo, dando às remessas em dólar um papel ainda maior. Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.
Eu vim através do Panamá, por exemplo, que ainda mantém os voos para Havana, mas voos diretos que vinham de lugares como Canadá, Rússia, com turistas que vinham aqui com moeda estrangeira, consumiam e injetavam dólares na economia, isso quase secou por conta da falta de combustível.
Mas ao mesmo tempo existe uma crise aqui em Cuba que vem basicamente desde a Covid, quando a indústria do turismo toma o seu primeiro golpe, e agora, digamos, com a crise venezuelana, tomou o segundo golpe, e o golpe agora é ainda mais forte. Mas desde o período da Covid, há uma crise na qual se estima que mais de um milhão de cubanos saíram, deixaram o país. A consequência disso é que cerca de 10% da população foi embora. Tem lugares que estão esvaziados de gente, principalmente de gente jovem, porque quem é jovem e tem algum recurso saiu do país.
A questão dos apagões e da escassez, ao mesmo tempo, não é nova: obviamente, são intensificadas pela situação atual, mas houve também uma redução na vinda de petróleo venezuelano para cá desde o período da Covid. Desde 2020 os venezuelanos aumentaram a exportação de petróleo para países como a China, e em grau menor para os Estados Unidos, reduzindo o envio de petróleo para cá. Então, a crise energética é anterior ao sequestro de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, porém foi acelerada por ela.
É nesse cenário que vai se abolir o CUC, um processo acompanhado por aumentos nos preços de quase todos os serviços públicos e pela redução no acesso a alimentos disponíveis pelas cadernetas. A caderneta é basicamente um instrumento para se ter acesso à comida distribuída pelo Governo. Os salários são muito baixos comparados ao dólar. Isso era compensado pela caderneta e por um acesso a uma certa quantidade de alimentos, como farinha, óleo, feijão e carne de porco, que agora vem sumindo das prateleiras. Por conta da situação atual, a comida que se conseguia acessar antes ficou escassa. E isso é uma coisa que é comentada o tempo inteiro nas ruas.
Por conta dos problemas de planificação, também causados pela falta de gasolina para os carros, de diesel para os caminhões, a distribuição dos alimentos subsidiados, em particular no interior, antes acessíveis pelas cadernetas, secou. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia, mesmo que tenha em parte expandido o acesso a bens de consumo e uma pluralidade maior de alimentos industrializados, não é democratizadora. Ela barra, ela impede: os preços de alimentos se tornam proibitivos para quem não tem acesso a dólares. Na verdade, o que se tem é uma desigualdade acelerada e intensificada no acesso a alimentos, porque quem tem acesso a dólares consegue superar a falta de alimentos que se teria antes no acesso pela caderneta. E para quem não tem dólares? São pessoas que muitas vezes estão no interior. É aí que entra a questão da fome.
Nós viemos aqui em Havana com uma mala de medicamentos para distribuir para as famílias, enviados por alguns companheiros no Brasil. O que mais nos impressionou foi que, conversando com as pessoas, elas faziam questão de sempre dizer: “Olha, agora existe fome em Cuba.” Porque existe essa ilusão na esquerda brasileira de que não existe fome em Cuba, e principalmente desde essa crise, há uma situação realmente de insegurança alimentar.
Acompanhada da dolarização, houve uma enorme alta inflacionária e também uma série de políticas antipopulares, de introdução de princípios da economia de mercado, incluindo aumento exponencial no custo da eletricidade, da água e do transporte.
Muitos ganhos da revolução vêm sendo mais ou menos perdidos pela expansão do mercado, pela expansão de relações capitalistas de propriedade. Só que, ao mesmo tempo, ainda são processos mercadológicos muito limitados porque ocorrem por fora do acesso ao grande capital estrangeiro por conta das medidas do Helms-Burton Act.
Qualquer integração no mercado acaba sendo limitada por isso. Ao mesmo tempo, desde 2021 você tem as chamadas Pymes (PME, Pequenas e Médias Empresas), que são as empresas particulares em processo de expansão. Isso retorna àquilo que eu tinha colocado: quem tem acesso às PME são muitas vezes os filhos e os netos da burocracia, e também vem com um recorte racial: são frequentemente brancos.
Quem tem capacidade de empreender através das PME, quem tem acesso a atravessar as limitações burocráticas, são os filhos e netos daqueles que encabeçaram a Revolução de 59. As PME são em geral celebradas pela população. A abertura económica, por motivos pragmáticos, parece ser quase consensual, o que é algo em muitos sentidos perverso, porque parece, principalmente entre os jovens, existir uma ideia de que o capitalismo e a entrada do capital norte-americano vão resolver todos os problemas da ilha. Mas a restauração de direitos de propriedade anteriores a 1959 tende a intensificar a desigualdade social, e não a reverter aos padrões anteriores aos anos 1990.
Só que isso é um pouco ignorado. As pessoas querem mudança, elas não aguentam mais o estado das coisas. Quando as pessoas te explicam a situação económica e você responde dizendo “Ah, mas o bloqueio”, elas dizem: “Bom, bloqueio já tem 60 anos, quase 70 anos. Não deu tempo de resolver essas questões?” Basicamente, a abertura económica é vista com bons olhos, é celebrada e vista como uma necessidade cubana. Há uma leitura de que desde os anos 1990, do período especial, a vida só piora. De facto, é compreensível o desespero, porém ignora que países como Haiti, a Guatemala e El Salvador estão plenamente integrados no capitalismo mundial, e ao mesmo tempo em uma condição de vida muito pior que Cuba.
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Quilombo Invisível: O apagão recente afetou a ilha inteira. No Brasil, quando apagões acontecem, bairros mais pobres, e com maior presença de populações negras, costumam ser mais afetados e demorar mais para ter a energia restaurada. Em Cuba, há algum paralelo com a situação no Brasil?
Aldo Cordeiro Sauda: O que dita o apagão, além de atingir mais as populações negras, é o recorte Havana versus interior. Quando estive no interior, quase sempre a única fonte de eletricidade eram os painéis solares. Existe mais acesso à eletricidade na capital, inclusive em Havana Vieja e Centro Habana, partes da cidade com uma grande população negra. Aqui a energia é mais preservada até porque os cabos são subterrâneos. Onde há cabo subterrâneo, eles evitam cortar a luz por conta da dificuldade de fazer o reparo que pode ser causado pelas sobrecargas nas variações de tensão. Onde o cabo é aéreo, há mais crise de energia.
Enquanto o principal responsável pela crise de energia é o bloqueio norte-americano, não se pode ignorar as consequências destrutivas da planificação burocrática. Segundo pesquisa da Universidade de Columbia, em Nova York, a reestruturação do sistema elétrico cubano está estimada em 10 bilhões de dólares1, porém o Governo cubano gastou uma quantidade de dinheiro ainda mais elevada em novos hotéis nos últimos 15 anos, negligenciando a importância do sistema elétrico. Os mega investimentos em grandes hotéis de 5 estrelas são destacados pela população como um símbolo de desperdício, em particular porque a política se acentuou durante a crise da Covid, enquanto a taxa de turismo no país despencou. A taxa de ocupação nos hotéis hoje está estimada em 20%. Conheci o caso de um casal de brasileiros que foram transferidos de seu hotel para um com maior ocupação por uma questão de excesso de vagas, porém, as construções de novos edifícios hoteleiros continuam. A isso se soma a questão da força de trabalho, que segundo relatos de moradores vem em grande parte trazida de países como Índia e Paquistão, substituindo a mão de obra local.
Agora, a questão da luz é importante lembrar que ela vem de antes do sequestro de Maduro, porque já desde a Covid os venezuelanos reduziram o envio de combustível para cá, e as crises energéticas têm ocorrido desde a Covid, sendo um dos elementos que motivaram o 11J, o movimento de massas que tomou as ruas em julho de 2021, cuja palavra de ordem era “Pátria y Vida”, uma ideia de se opor ao slogan do regime, “Pátria o Muerte”. E aí, sim, essa mobilização tem uma grande participação negra, e os rappers associados aos protestos, ligados ao Movimiento San Isidro (MSI), também são rappers negros. Existe esse recorte de que as pessoas que foram às ruas em rejeição ao regime tiveram uma forte presença da comunidade negra cubana.
O melhor balanço que conheço sobre as mobilizações do 11 de julho, é um livro chamado Cuba 11J, perspectivas contrahegemónicas de las protestas sociales. Ele mostra sob diferentes ângulos os protestos de uma perspectiva crítica marxista, organizado por um jovem militante socialista do movimento negro.
Quilombo Invisível: Alguns relatos elogiosos sobre Cuba destacam o cultivo de alimentos em cidades (agricultura urbana) como estratégia de superação da escassez de alimentos. Pelo seu contacto, como a população cubana se relaciona com a produção de alimentos? E como isso se relaciona com a burocracia estatal do país?
Aldo Cordeiro Sauda: Me parece que a questão do acesso a verduras, legumes e frutas não cítricas em Cuba não é o problema principal. O que falta é a comida industrializada, assim como a carne. Óbvio, o problema da carne também é o problema da falta de eletricidade. Se cai a energia, se você tem quatro, cinco, seis dias de apagão, você perde a carne nas geladeiras e nas arcas frigoríficas.
Sobre essa questão da agricultura urbana, existe o livro publicado pela editora Elefante, Entre a Utopia e o Cansaço, que tem um conjunto de textos muito interessantes, em particular o que trata da militarização da economia. A própria Joana Salem, especialista em Cuba, tem uma pesquisa muito rica sobre a questão agrária que merece ser lida. O trabalho dela sobre Cuba e a América Latina em geral é bastante sério. Fabio Luís Barbosa dos Santos, professor de RI da Unifesp, um dos editores do livro junto com Aline Miglioli e Vanessa Oliveira, também é um pesquisador muito qualificado, com longa trajetória no tema. O trabalho organizado por ele tem textos muito interessantes, inclusive sobre o papel dos militares na economia, que hoje é preponderante.
A militarização da economia cubana, através do GAESA (Grupo de Administración Empresarial) segundo o sociólogo cubano-americano Samuel Faber, atinge pelo menos 40% dos empreendimentos. Então, você tem esse recorte, similar a países como Egito e Paquistão. A GAESA é em boa parte responsável pelos problemas burocráticos da planificação económica.
Quilombo Invisível: Assim como no Brasil, em Cuba também há um discurso oficial de superação das discriminações raciais (a tal da “democracia racial”), usado como forma de impor uma unidade popular. No entanto, a quase totalidade dos comércios em Cuba seguem comandados por pessoas brancas. Na sua visão, o racismo em Cuba foi superado? De que forma o racismo se relaciona com as ações do Estado?
Aldo Cordeiro Sauda: A questão do racismo, atenuada pelos ganhos sociais da revolução, é intensificada principalmente após o Período Especial iniciadlo depois dos anos 90. É importante dizer, quando se fala da questão racial em Cuba, o papel central que Cuba teve na libertação no Sul da África, em Angola, Moçambique, e também na Guiné-Bissau. Cuba teve um papel muito importante no combate ao apartheid na África do Sul. Isso é um marco e algo que não pode ser esquecido quando a gente fala de Cuba, em particular o envio de tropas em apoio ao MPLA na guerra anticolonial em Angola e o apoio ao ANC de Nelson Mandela na África do Sul. Essa é uma marca do regime que faz parte da história cubana.
O problema é que a abertura aos mercados e o surgimento da desigualdade económica atingem principalmente a população negra, em parte porque a direção inicial da revolução, à exceção de Juan Almeida Bosque, foi majoritariamente formada por intelectuais brancos de origem hispânica. Quando se inicia a restauração nos anos 90, serão os filhos e os netos da direção revolucionária que vão sair na frente, e isso significa que os negros tendem a ser mais afetados.
Com isso se combina o papel da imigração: quem tem mais acesso à imigração na Europa e América do Norte, por redes familiares, são em geral os brancos. Portanto, as famílias de pessoas brancas vão ter mais acesso a passaportes e cidadanias europeias (espanhola e italiana), a dólares vindos do exterior, e a dolarização da economia afeta de forma muito desigual os brancos e os negros por isso. Segundo ativistas do movimento negro com quem conversei, há um aumento, pós-anos 90 na desigualdade racial. Desde o Período Especial, essa questão vem ganhando relevância.
Quilombo Invisível: É um bordão irónico e famoso, em apoio a Cuba, dizer que na ilha apenas três coisas funcionam: saúde, educação e segurança. Mas como a segurança é mantida na prática na ilha? A ação policial possui contornos raciais? Algum grupo tende a ser mais perseguido pela polícia?
Aldo Cordeiro Sauda: Cuba, segundo a Amnistia Internacional, há hoje centenas de presos políticos e, junto com isso, um alto índice de presos per capita. Existe uma análise do Instituto de Pesquisa em Política Criminal, do Birkbeck College, de Londres, que aponta Cuba entre os países com altos índices de encarceramento, porém muito abaixo de EUA, Brasil e El Salvador. Tudo isso, possivelmente, acaba tendo um recorte racial.
Um dos grandes problemas, me parece, é que Cuba colocou nas negociações com os americanos a libertação de presos políticos. Isso é terrível, porque acaba entregando aos Estados Unidos a bandeira das liberdades civis, da liberdade de associação e expressão. Produz ilusões sobre os Estados Unidos como defensores da democracia. Isso apenas contribui para o problema que existe aqui, isto é: a geração que nasceu nos anos 80 e atravessou o Período Especial dos anos 90 na juventude só vê a piora da economia cubana, só vê Cuba piorar.
Isso faz surgir, principalmente entre os jovens, todo um setor que podemos dizer ser “pró-intervenção imperialista”, pró-Estados Unidos, na juventude, que vê a intervenção norte-americana como aquilo que vai resolver o problema de Cuba e a única alternativa para a atual conjuntura. Então, surge a possibilidade de setores pró-restauração capitalista entre a juventude trabalhadora.
O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que os jovens culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano.
Essa é a maior derrota que a política da burocracia impõe, principalmente entre os jovens. O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Ernesto Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano, e que acaba sendo gerida por uma camada de profissionais técnicos e gestores cubanos cuja função acaba sendo gerir as consequências do bloqueio.
O facto de a revolução não se ter expandido para além da própria ilha – assim como não se pode ter socialismo em um só país, como, em última instância, foi na derrota da revolução russa nos anos 20 e 30 – torna ainda mais difícil manter uma revolução em uma só ilha. É isso que acaba alimentando as próprias divergências entre Fidel Castro e Che Guevara, porque o Che é muito crítico do que ele chama de “manuais soviéticos”, a adoção de políticas burocráticas e um modelo baseado na experiência soviética em Cuba, mas que acaba sendo a consequência inevitável de uma revolução que não consegue expandir.
Quilombo Invisível: Como sabemos, a América Latina enfrenta, em particular nos últimos meses, uma escalada do imperialismo estadunidense. Muitos na esquerda ficam em silêncio sobre os abusos do regime cubano por receio de que poderiam alimentar um imperialismo que, em última instância, poderia levar a uma piora nas condições na ilha. Na sua visão, como a esquerda latinoamericana pode contribuir para a superação da ditadura na ilha?
Aldo Cordeiro Sauda: Toda a ajuda, todo o apoio humanitário a Cuba é bem-vindo. Toda a esquerda que se esforça para combater o bloqueio cumpre um papel progressivo. Isso é algo que nós precisamos ter em mente. Ao mesmo tempo, é preciso diferenciar o que é solidariedade com o povo cubano do que é a solidariedade com o regime. Muitas vezes, vemos em muitas iniciativas, sejam elas de socialistas, maoistas, trotskistas ou autonomistas, uma confusão nesse sentido.
A iniciativa da flotilha para Cuba, para ajudar o país é muito positiva, mas uma questão que não podemos esquecer é a forma como ela é canalizada e inclusive interpretada pelos próprios cubanos. Sem os devidos cuidados, os cubanos podem acabar criando desconfiança da esquerda mundial, que pode acabar sendo interpretada como legitimando o Governo Díaz-Canel, sem esquecer que o Governo usa isso como instrumento para legitimar suas reformas económicas e sociais.
Essa solidariedade, que é necessária, precisa ser acompanhada – e infelizmente não se vê isso entre as diferentes correntes da esquerda – de apoio aos presos políticos que foram detidos no 11 de julho. Um apoio às correntes marxistas dissidentes aqui em Cuba, uma oposição à repressão que existe contra a própria esquerda, aquilo que a gente pode chamar dos dissidentes entre os dissidentes. É preciso separar o que é a oposição “gusana” de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão.
É preciso separar o que é a oposição ‘gusana’ de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão
Sem que haja essa diferenciação, colocar tudo o que se opõe ao regime cubano como parte das iniciativas norte-americanas enfraquece alternativas anticapitalistas no longo prazo. As pessoas podem achar que o que está colocado é dual, com apenas dois lados: ou você está com os Estados Unidos ou você está com o regime. O problema é que isso ignora o amplo desejo de mudança que vem dos trabalhadores cubanos. Ser cego a isso não ajuda ninguém.
O 11 de julho é um movimento de massas baseado num sentimento geral de necessidade de mudança, e que, por conta dos próprios problemas do regime – por conta da criminalização dos dissidentes, de empurrar para fora da ilha a esquerda crítica –, os movimentos sociais da juventude acabam muito facilmente sendo manipulados e capturados pelas forças pró-americanas. A partir do momento em que a esquerda mundial rechaça a oposição cubana de esquerda, a partir do momento em que a esquerda internacional se associa de forma acrítica ao regime, e a partir do momento em que não existem dissidentes cubanos que possam cumprir um papel organizacional progressivo em relação às mobilizações sociais, elas tendem a ir para a direita. E essa é a realidade. À medida que os movimentos sociais vão se radicalizando, elas tendem a ir mais e mais para a direita, o que é um desastre, um desastre político para Cuba e para toda a América Latina.
As manifestações são legítimas, assim como a exigência de substituição do Governo. As pessoas estão cansadas, querem mudanças na política económica que dolarizou o consumo, encarecendo a vida. A partir do momento que você não cria mecanismos para isso e quando você taxa toda a oposição de mercenários e agentes pró-americanos, a consequência disso é que você acaba fortalecendo exatamente esses setores. É óbvio que existem setores distintos dentro do movimento – como qualquer movimento de massas, o 11J é plural. Vai ter gente que é pró-americana, antiamericana, gente que só quer melhorar a sua própria vida. Mas o problema é que, na medida que os poucos socialistas críticos são presos e empurrados para fora da ilha, o que sobra é a direita.
Portanto, é muito difícil ser otimista em relação à realidade política cubana por conta do isolamento da esquerda cubana dissidente em escala nacional e internacional. Há muita gente de esquerda que foi presa em julho e que agora quer sair do país. É um sentimento natural.
Existe um problema demográfico grave em Cuba. Os jovens que têm capacidade financeira pegam um avião até à Nicarágua e muitas vezes de lá, pela rota sul, vão para o Chile ou para o Brasil, quando não tentam, a partir da América Central, chegar de forma arriscada e clandestina aos Estados Unidos pela rota norte, um caminho perigoso agora dificultado ainda mais pelo Governo Trump. Desde a crise da Covid, o número de jovens na ilha tem encolhido.
Há o problema demográfico também de as pessoas terem poucos filhos. A população da ilha não para de cair, há poucas crianças, a população está envelhecendo, e os jovens estão saindo. Isso é um desastre de longo prazo.
Quilombo Invisível: A repressão do Estado aos manifestantes do 11J foi severa, chegando a 25 anos de prisão, e com órgãos internacionais denunciando a morte de vários dos detidos. Como esses presos são vistos pela população com que o senhor teve contacto? A população estaria disposta a se arriscar em outras ondas de protesto?
Aldo Cordeiro Sauda: Vale dizer que existe muito medo em relação aos protestos em massa, porque uma parte relevante da liderança de rua foi presa. O que eu vejo aqui em Cuba, conversando com as pessoas e com as próprias lideranças da ala esquerda dos protestos, é que existe muito medo, muito medo de sair para a rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba. Você ouve as pessoas, elas são muito críticas do regime, atacam o Governo, atacam o Presidente o tempo inteiro quando você conversa com elas na rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba, a questão é como criticar o Governo em Cuba. A mesma coisa com as redes sociais. Não é que você não possa falar mal do Governo nas redes sociais, é o que você fala. Há forte repressão a protestos nas ruas. Aí, sim, é que vem o problema. Não que você não possa falar mal do Governo, é por onde e como você fala mal do Governo.
Você fala com as pessoas, em geral elas dizem “apoio os protestos do dia 11”, mas, obviamente, a grande maioria não foi aos protestos do dia 11. Você pergunta e a resposta é: “Não, não quero pegar 8, 10 anos de cana. Ninguém quer ir preso.” O regime é muito efetivo pelo facto de ser uma ilha, o controle político-social é mais fácil. Isso não significa que os protestos, de forma localizada, não sigam ocorrendo. Ontem, por exemplo, teve um panelaço na rua por onde havia passado algumas horas antes por conta da falta de energia. Também teve o caso, noticiado mundo afora, do ataque à sede do PC no interior do país. Então os protestos seguem, porém sem clara coordenação política.
Quilombo Invisível: Como a população comum reage às campanhas de propaganda da imprensa oficial? Elas ainda têm eficácia em jogar a população contra seus pares, ou o descrédito da mídia estatal já é generalizado?
Aldo Cordeiro Sauda: Eu acho que o regime tem apoio cada vez menor na população. Existe uma ideia de que os anos 80 foi o período de auge, e de lá para cá a situação só piora. Existe um sentimento geral por inovação, de que é preciso mudar.
Acho que a nossa solidariedade com Cuba exige duas tarefas. A primeira é combater e ser solidário no combate ao bloqueio, e todas as iniciativas de combate ao bloqueio têm que ter nosso apoio. Nós temos que defender que a Petrobras envie petróleo para Cuba, apoio energético brasileiro a Cuba. Mais que ajuda humanitária, Cuba precisa de gasolina, diesel, petróleo. Se você olha as ruas, as ruas estão quase vazias, não tem carros nas ruas, as estradas estão vazias, praticamente não tem caminhões nas estradas. O grande problema é a falta de combustível.
Portanto, o papel da esquerda internacional é se solidarizar, exigir de seus governos, exigir do Governo Lula, exigir da esquerda, exigir também do Governo mexicano – onde existe menos oposição interna a uma política pro-Cuba – exigir dos governos internacionais o apoio contra o bloqueio e principalmente o envio de petróleo para Havana. Essa é a primeira tarefa. A segunda tarefa é se opor à repressão da esquerda, de artistas críticos independentemente de suas posições ideológicas, se opor à repressão do movimento de massas e defender uma alternativa que seja ao mesmo tempo socialista e democrática.
10 mil milhões de dólares.
Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes, que não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada no balanço da greve geral.
ilustração: ricardo Ferreira
Algo mexeu nos Estados Unidos. A tentativa do Governo Trump de impor deportações em massa ao serviço da sua agenda etnonacionalista encontrou resistência massiva e determinada nas maiores cidades democratas do país — de Los Angeles a Chicago e Minneapolis. Tropas federais, a Guarda Nacional, agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — até os fuzileiros navais, em Los Angeles — viram-se obrigados a recuar diante da oposição nada comum da gente comum. Nos bairros, locais de trabalho, hospitais, escolas e paragens de transportes públicos, os moradores enfrentaram a máquina deportadora federal sem se deixarem intimidar. A indignação moral transformou-se em insurreição colectiva a uma escala que há décadas se não via nos Estados Unidos e que, em várias cidades, forçou um dos governos mais autoritários e agressivos da história americana a recuar, pelo menos temporariamente.
Esta é a história de como esse movimento tomou forma e do sinal para que poderá apontar quanto aos limites de um regime autoritário na América. É também um aviso: o poder autoritário, mesmo em plena expansão do Estado securitário, não é ilimitado se e quando comunidades organizadas, o movimento operário e instituições democráticas o enfrentarem.
Uma ocupação, mais do que uma política
Para entender o que se passou em Minneapolis e Los Angeles, é preciso começar pelo que Trump tem andado a fazer: não a fiscalizar a imigração, seja qual for o sentido tradicional que se queira dar à palavra. Ele declarou antes uma guerra política às cidades e comunidades que são bastiões democratas, muitas delas dirigidas por pessoas de cor, e aos laços de solidariedade que lhes mantêm a coesão.
As fileiras do ICE e da Guarda de Fronteiras dispararam, alimentadas por prémios à contratação de 50 mil dólares, feitos para atrair recrutas que são depois rapidamente treinados e colocados. Os agentes da Guarda de Fronteiras enviados para Minneapolis — que não é uma cidade fronteiriça — não estão habituados a lidar com pessoas que gozam dos direitos garantidos pela Primeira Emenda Constitucional. Ambas as forças servem-se de armas e tácticas militares, tratando a população civil como alvos inimigos.
Não é policiamento de rotina, nem sequer é o modelo já conhecido de rusgas aos imigrantes. Assistimos à militarização da fiscalização da imigração e à transformação de agências federais numa força de segurança interna.
Há quem descreva a enorme expansão do aparelho de segurança federal — exactamente quando Trump e Musk despedem centenas de milhares de outros funcionários públicos federais — como forma de keynesianismo policial: um programa de criação de emprego construído para a repressão. Dito com menos cerimónia, é um canal de recrutamento para as milícias dos Proud Boys e de outras formações de extrema-direita.
É, contudo, um fracasso, mesmo como programa de criação de emprego. Ao contrário do rearmamento militar dos nazis, que vinculou sectores significativos da população alemã ao projecto de Hitler, criando empregos a sério e expectativas económicas crescentes, a expansão do Estado de segurança nacional por intermédio do ICE não é capaz de oferecer estabilidade ou poder de compra aos trabalhadores. Não cria uma base de beneficiários alargada. O que gera é medo, raiva e repulsa. Minneapolis tanto pôs a nu os limites do poder repressivo do ICE como os limites políticos do projecto de deportação de Trump.
A administração Trump destacou para Minneapolis mais de três mil agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — mais do dobro da força policial combinada das cidades gémeas de Minneapolis e St. Paul —, no que o governo denominou de Operação Metro Surge. Os agentes do ICE espancaram e gasearam manifestantes, perseguiram autocarros escolares, lançaram bombas de gás lacrimogéneo à frente de hospitais e fizeram rusgas a pequenas empresas. Em 7 de Janeiro de 2026, o agente do ICE Jonathan Ross atirou a matar contra Renée Nicole Good, uma poeta e mãe de três filhos, enquanto ela e a mulher observavam uma rusga no seu bairro, sem violar nenhuma lei. “Nós tínhamos apitos”, disse depois Rebecca, a mulher de Good, “e eles tinham armas.” Três semanas depois, agentes federais executaram o manifestante Alex Pretti numa esquina. Dezenas de milhões de espectadores horrorizados assistiram à cena do assassinato, captada de vários ângulos.
Mesmo sem contar os montes de neve encharcados de sangue, os aspectos mais correntes da vida debaixo de ocupação são tão drásticos como os mais chocantes crimes. O jornalista sindical Luis Feliz León estava em Minneapolis, no terreno, nos dias que antecederam e se seguiram ao Dia da Verdade e da Liberdade de 23 de Janeiro. Descreveu assim o que viu:
“Varandas com montes de casacos a arejar do gás lacrimogéneo ao ar do Inverno; gatos a vaguear pelas ruas, farejando o que resta do cheiro de donos raptados; crianças de cor à boleia de vizinhos brancos por os pais terem medo de a polícia os parar; professores a recolherem sacos de roupa suja à chegada à escola por os pais não poderem sair para pôr roupa a lavar.”
Ir à escola passou a ser um risco. Aniversários e quinceañeras (festas dos quinze anos) foram cancelados. Uma comunidade inteira, sitiada.
O procurador-geral adjunto da República, Todd Blanche, queixou-se à Fox News: “Temos estes abusos e este barril de pólvora numa cidade — em mais lado nenhum.” Disse-o como insulto. Minneapolis ouviu-o com orgulho.
Raízes fundas, fogo súbito
A revolta que se seguiu não surgiu do nada. É um dos argumentos centrais apresentados pelos analistas do movimento operário que estudaram o que aconteceu — e é o argumento que mais há-de interessar leitores em Portugal e noutros países que desejem tirar ilações, mais do que meramente admirar a coragem.
Minneapolis tem uma história de luta sedimentada, nas palavras de um militante, incrustada “bem fundo no solo gelado do Minnesota”. A greve dos Teamsters (camionistas) de 1934, dirigida por militantes trotskistas, foi um dos momentos fundacionais do sindicalismo americano, conjugando entreajuda, acção de massas disciplinada e uma política que extravasou da simples contratação para o desafio ao carácter da própria cidade. A revolta de 2020 em reacção ao assassinato de George Floyd pela polícia — a poucos quarteirões de onde Renée Good foi depois morta — ergueu redes inteiramente novas de solidariedade e confiança entre moradores que superaram barreiras raciais. Em 2022, a Federação dos Professores de Minneapolis fez greve não apenas pelos salários, mas por justiça racial. As enfermeiras fizeram greve. Os trabalhadores da saúde sindicalizaram-se. Ao longo de mais de uma década, uma aliança de organizações de direitos dos imigrantes, sindicatos, comunidades religiosas e centros operários foi construindo o que os militantes chamavam, deliberadamente, não aliança, mas “alinhamento” — algo mais profundo, em que as organizações se conhecem intimamente e estão profundamente empenhadas em fortalecer as bases organizativas umas das outras.
Emilia González Avalos, a directora executiva da Unidos, descreve assim a trajectória desta organização: começando por ser considerada um “grupo especializado”, periférico na aliança progressista, a sua organização passou anos a juntar poder através da infra-estrutura eleitoral, de trabalho junto do eleitorado e da aprovação do programa legislativo do “Milagre do Minnesota”, em 2023: cartas de condução para residentes indocumentados, remuneração das faltas por doença, maior cobertura de assistência médica e muito mais. Quando o ICE apareceu em força, já estavam criados os alicerces de algo muito mais vasto do que qualquer organização tivesse podido conseguir isoladamente. A invasão do ICE foi a faísca. Décadas de organização, o combustível.
Cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra.
O Dia da Verdade e da Liberdade
Em 23 de Janeiro de 2026, com temperaturas de -30°C e vento a produzir sensações térmicas de -45°C, entre 75 mil e 100 mil pessoas acorreram ao centro da cidade de Minneapolis, a meio de um dia útil. Escolas, instituições culturais e mais de mil pequenas empresas fecharam. Mais de 80% dos membros da secção 7250 do Sindicato dos Trabalhadores em Comunicação da América (CWA) faltaram ao trabalho. Os motoristas da Uber e da Lyft — quase todos eles trabalhadores imigrantes de cor — choraram ao saber que cem religiosos haviam sido presos no Aeroporto de Minneapolis por exigirem que a Delta, a Target, a 3M e a General Mills tomassem publicamente posição contra a ocupação federal da cidade. Segundo uma sondagem realizada posteriormente, cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra, apesar de a acção ter sido convocada com apenas duas semanas de antecedência. Aderiram à acção cidades e vilas de todo o país.
Terá sido uma greve geral? Interessa menos a resposta do que o que o dia representou. Na sua análise da greve de massas na Rússia de 1905, Rosa Luxemburgo argumentou que a greve geral não era um evento específico, mas um processo — um vaivém entre luta económica e política, erupção espontânea e resposta organizada, coragem individual e consciência colectiva. O que Minneapolis demonstrou foi exactamente isso: o momento em que uma comunidade deixa de ser um agregado de indivíduos isolados e se torna, ainda que brevemente, num actor colectivo consciente de si.
Kieran Knutson, presidente da secção 7250 do CWA e um dos principais arquitectos da resposta sindical, é franco tanto a respeito do que se conseguiu como dos seus limites. As grandes empresas continuaram a funcionar. A acção de 23 de Janeiro foi uma greve política de massas, não uma greve geral no sentido clássico. Mas houve algo de qualitativamente novo. Os trabalhadores que marcharam até ao escritório do patrão antes do dia da acção para exigir o encerramento da empresa voltaram no dia seguinte com mais reivindicações: que o ICE fosse definitivamente proibido de entrar na empresa. “Tal é o nível de confiança a que estamos a assistir”, disse León. Pela primeira vez há muito tempo, uma classe trabalhadora que acabava de ganhar confiança em sim mesma tomava conta de uma grande cidade americana.
Eric Blanc, cuja avaliação rigorosa do momento de Minneapolis está entre as melhores que apareceram, identifica três ingredientes necessários para uma verdadeira greve geral: a energia, a organização e uma direcção militante e disposta a correr riscos. Minneapolis teve-os aos três em grau pouco habitual. Ainda assim, onde Blanc vê o reverso da medalha e o calcanhar de Aquiles do movimento é no sector privado, onde a densidade sindical é de apenas 6% ao nível nacional e onde os trabalhadores de empresas como Target, Amazon e Home Depot — cujos empregadores são cúmplices directos do ICE — têm o maior potencial estrutural, mas a menor protecção organizacional.
Uma das inovações tácticas mais importantes, em Minneapolis, foi o que González Avalos chama a “rampa de observação constitucional”. A Unidos treinou 30 mil habitantes do Minnesota para observar e documentar as rusgas do ICE nos termos da lei. Parecia coisa modesta, passiva, até: pessoas a filmar, a serem testemunhas. Contudo, ver-se cara a cara com sete agentes federais armados a prender um pai que levava os filhos à escola mudou as pessoas. “Muda as pessoas”, disse simplesmente González Avalos. Esses 30 mil observadores passaram a ser a base da qual podia crescer uma organização mais profunda — recrutados não ideologicamente, mas pela experiência de testemunharem actos de crueldade e decidirem não olhar para o lado.
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Los Angeles: o modelo
Antes de Minneapolis, houvera Los Angeles. E a história de Los Angeles tem significado especial para mim, que lá vivo e trabalho.
Trump odeia Los Angeles, cidade de maioria negra e parda que vota esmagadoramente nos democratas, com quase 35% de imigrantes, cidade com sindicatos fortes, orgulhosa cidade-refúgio. Entre Junho e Julho de 2025, Trump mandou para a cidade 4800 soldados da Guarda Nacional e 700 fuzileiros navais, expressamente para esmagar a resistência, abrir um precedente e fomentar a violência. Apanhou, em vez disso, com o escantilhão da sua derrota.
A resistência intensificou-se quando as tropas entraram. O governador, o presidente da câmara, os dois senadores federais, a maioria absoluta na legislatura da Califórnia e os superintendentes dos condados uniram-se em oposição, dando à resistência cobertura política e legitimidade institucional. Mas a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, declarou que iria “libertar Los Angeles do presidente da câmara e do governador socialistas” — aparentemente ignorante da sua falta de autoridade para destituir funcionários eleitos.
O ponto de viragem deu-se em 6 de Junho, quando o presidente do sindicato dos empregados de serviços, SEIU California, David Huerta, foi espancado e preso enquanto documentava uma operação do ICE no centro da cidade. Da cama de hospital, Huerta definiu o que se passara não como um incidente, mas como um movimento: “O que temos de saber é como nós, a comunidade que somos, nos unimos e resistimos à injustiça que está a acontecer”. A Federação Sindical do Condado de Los Angeles, uma das maiores do país, mobilizou-se imediatamente. Os sindicatos organizaram comícios e acções de defesa dos imigrantes por toda a cidade.
Ganhou forma uma ampla frente antifascista: sindicatos e centros de trabalhadores, incluindo o Centro de Trabalhadores Filipinos, a Aliança de Trabalhadores Imigrantes Coreanos e a CHIRLA, a Aliança pelos Direitos Humanos dos Imigrantes de Los Angeles; comunidades religiosas, incluindo a Diocese Católica e a Holman United Methodist, a maior igreja negra da cidade; organizações jurídicas, incluindo a ACLU e a MALDEF; artistas e músicos; e, elemento crucial, a comunidade empresarial. Tanto a Câmara de Comércio como o Conselho Empresarial de Los Angeles tomaram posição, não por solidariedade, mas porque as rusgas estavam a dar cabo da economia da cidade. Empresas de construção, restaurantes, hotéis, lavagens automáticas e fábricas de vestuário sofriam perdas de receitas com os trabalhadores imigrantes a ficarem em casa e os clientes imigrantes a não aparecerem.
Um juiz federal sentenciou que o envio de tropas violava a Lei Posse Comitatus, que proíbe o uso das forças armadas como forças da ordem interna.
Trump acabou por mandar retirar as suas forças com o argumento forçado de ter “salvo a cidade de ficar reduzida a cinzas”. Como comentou o militante Bill Gallegos, Los Angeles reagiu ao som de milhões de habitantes a rirem-se do dislate. A retirada fora resultado de uma frente ampla, disciplinada, multi-sectorial.
A lição de Los Angeles não é a mesma de Minneapolis — eram diferentes a infra-estrutura organizativa, a cultura política e o rastilho. Mas a lógica de fundo é a mesma: construir a partir da base de organização; unir quem é susceptível de união; manter uma reivindicação clara e coerente; e não lhes oferecer a violência por que eles anseiam.
Onde estamos e onde podemos chegar
Entre Los Angeles e Minneapolis houve Chicago, onde o ICE foi brutal, mas a resistência, igualmente feroz. A contribuição de Chicago para o arsenal da luta popular foi prática e elegante: a distribuição em massa de apitos, permitindo às comunidades alertar os vizinhos assim que o ICE aparecesse nas suas ruas. As brigadas do apito alastraram a Minneapolis e outros pontos, tornando-se uma ferramenta quase universal da resistência, uma ilustração pequena, mas perfeita, de como as pessoas se apropriaram de formas de auto-organização e defesa, transmitindo a experiência das cidades de uma para a outra.
Luis Feliz León invoca o conceito de greve de massas de Rosa Luxemburgo para descrever o que estava a acontecer: não um único evento programado, mas um processo de radicalização mútua entre a indignação e a organização, entre a acção espontânea da gente comum e a armadura institucional que lhe empresta direcção e solidez. A greve geral, escreveu Luxemburgo, é o “pulso vivo da revolução” — não pode ser decretada, apenas preparada e aproveitada.
Este processo está em andamento nos Estados Unidos em moldes que seriam quase inimagináveis há cinco anos. A infra-estrutura de organização — anos de construção de alianças, desenvolvimento de direcções, de plenários de trabalhadores, de redes de entreajuda, de formação de observadores constitucionais — já existia. A faísca da violência do ICE acendeu-a. E dessa combustão algo de novo se criou: uma confiança da classe trabalhadora em si mesma e um novo sentido das possibilidades colectivas, que não desaparece quando a crise imediata recua.
A história não parou. Trump recuou em algumas das tácticas mais agressivas — que foram extremamente impopulares, prejudicaram os seus índices de aprovação e enfureceram até republicanos, furiosos por o método Trump-Miller ter prejudicado o emblema da sua política, a demonização dos imigrantes. Há décadas que a “imigração ilegal” tem sido usada como cacete para mobilizar o medo, enquanto a sua verdadeira função económica — criar uma força de trabalho imigrante super-explorada e sem direitos, para fazer baixar os salários — passava despercebida. Agora a violência é visível, as vítimas merecem simpatia, e a política é corrosiva.
O ICE recuou, mas continua a sua missão de deportação, agora com pontaria mais afinada. A resistência respondeu com nova energia. Os comícios No Kings (“não queremos reis!”) passaram a ser comícios de massas; em Los Angeles, moradores patrulham os parques de estacionamento da Home Depot, protegendo os seus vizinhos, que trabalham no duro, porque “silêncio é violência”.
Um designer gráfico de um bairro de Los Angeles descreveu o que muitos manifestantes de primeira viagem estão a viver: “Acho que é como uma primeira droga — até pessoas que nunca fizeram nada de militante na vida acabam por ir parar a protestos, animadas pelo espírito de comunidade, pelo propósito e pelo amor à democracia”. Outro activista disse-o de forma simples:
“Minneapolis é o modelo. Quando duas pessoas inocentes foram mortas a protestar contra as rusgas do ICE, a comunidade uniu-se e levantou-se em protesto, forçando as forças de Trump a retirar. Minneapolis reagiu com humanidade — esse é o futuro que queremos construir.”
Kieran Knutson tem estado a convocar assembleias de trabalhadores em Minneapolis — novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes. Não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada pela greve geral em vez de a devolver a quem tem interesses e programas diferentes, onde se incluem os funcionários democratas que condenaram publicamente o ICE enquanto cooperavam com ele em privado.
O horizonte imediato é o Dia do Trabalhador de 2026, um Dia Nacional Sem Trabalho, Sem Escola e Sem Compras. O horizonte mais distante é uma temporada de greves a organizar para 2028, com os sindicatos a alinharem a caducidade dos seus contratos para maximizar o impacto nos sectores manufactureiro, da logística, da educação e do retalho alimentar.
Nenhuma dessas datas está garantida. No entanto, o que é já certo é que dezenas de milhares de americanos comuns olharam agentes federais olhos nos olhos, denunciaram-nos com apitos, mantiveram-se firmes e recusaram-se a abandonar o local.
Como escreveu Boris Kagarlitsky de uma colónia penal russa, num contexto muito diferente, mas num espírito que afina pelo mesmo diapasão: “Não somos vítimas. Somos lutadores.”
O movimento em Minneapolis, Chicago e Los Angeles diz-nos uma coisa que os movimentos de esquerda de toda a parte têm de escutar. Só por si, a resistência não basta, mas é com ela que tudo o mais começa. Quando as pessoas se organizam, se mantêm a pé firme e se recusam a cair na violência que o Estado provoca, pode-se resistir até a um presidente determinado em reprimir.
Quando isso acontece, as pessoas mudam. Surgem novos dirigentes. Novas formas de organização ganham raízes. Novos horizontes tornam-se imagináveis.
É isso que uma greve de massas faz. Não conquista apenas reivindicações. Refaz as pessoas que a fazem.
Tradução: Adriano Zilhão
Entrevista de Raquel Varela
Yassamine Mather é uma académica iraniana, editora da revista Critique, Journal of Socialist Theory e investigadora na Universidade de Oxford. Ela tem analisado a situação no Médio Oriente e no Irão e é também uma intelectual pública no Reino Unido, militante empenhada na luta contra o genocídio e na reflexão sobre os regimes no Médio Oriente no contexto do sistema capitalista actual. Raquel Varela entrevistou-a para o Maio sobre a situação da guerra contra o Irão e no Médio Oriente.
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ilustração e animação: Pedro Páscoa
Raquel Varela: Qual o significado político dos bombardeamentos israelitas e dos EUA no Irão? As notícias dão-nos uma ideia muito rudimentar. Há uma ditadura no Irão. Há Trump, que não respeita o direito internacional, mas no Irão há, ainda assim, uma ditadura. E tudo gira à volta do petróleo. Isto não é uma explicação demasiado simples?
Yassamine Mather: Sim. A revolução iraniana de 1975 (onde os trabalhadores do petróleo foram centrais) fez-se contra um governo pró-ocidental. Contudo, apesar de o governo que subiu ao poder não ser anticapitalista nem mesmo, na minha opinião, anti-imperialista, o Ocidente não se esqueceu da perda do seu fantoche Mohammad Reza Pahlavi. A derrota da revolução levou ao poder não um sector socialista, mas uma República Islâmica. Acontece, porém, que, nas últimas quatro décadas, a República Islâmica não conseguiu dar resposta a nenhuma das reivindicações da revolução. As palavras de ordem que as pessoas gritavam durante a revolução de 1975 eram pela igualdade, pelo socialismo não diria, porque não era nessa forma que o exprimiriam, mas o que as pessoas queriam era liberdade, igualdade, uma república em que fossem elas a tomar as decisões. Em vez disso, apanharam com uma ditadura religiosa que se mete na vida privada, não é democrática. E não há igualdade. No Irão, há um grande fosso entre ricos e pobres: uma das razões dos protestos de Janeiro deste ano. Os protestos de Janeiro também eram contra a corrupção, porque as pessoas se dão conta de que grande parte da riqueza está nas mãos de uma minoria muito pequena, também ligada à corrupção. Bom, há, portanto, muita insatisfação com o regime. E há também intervenção estrangeira. A intervenção estrangeira fazem-na ou a Mossad ou os EUA, que andam a ver se encontram a sua própria alternativa para mudar o regime.
É, portanto, uma situação muito complicada, pois não se pode dizer que isto seja um governo revolucionário que devamos apoiar por ele apoiar os trabalhadores. Do outro lado, temos um governo comprometido com o genocídio e um governo que apoia o genocídio, os EUA e Israel a fazer a guerra, e os países europeus a apoiarem essa empresa sem fazerem perguntas.
A questão do petróleo é, de certa forma, mais complicada para os EUA. A questão é impedir que a China obtenha petróleo barato do Irão. É um problema sério para os EUA. Não é que, actualmente, os EUA estejam necessariamente de olho nas reservas de petróleo do Irão. Talvez estejam de olho nas reservas de minérios iranianas e assim por diante. Mas quanto ao petróleo, o factor crucial é impedir o acesso da China ao petróleo do Irão a um preço muito barato. Bom, no meio disto tudo, há as tentativas de mudar o regime. Só que aqui há dois projectos diferentes. Os israelitas querem trazer de volta um certo grupo, a família do ex-xá. Os EUA têm uma visão mais sofisticada, diria eu. Não é bem como na Venezuela, mas andam a ver se, decapitando regimes, conseguem fazer mudanças suficientes para não terem de fazer mais nada. Os objectivos de Israel e dos EUA são contraditórios, mas convergem em ambos quererem enfraquecer o poder actual no Irão. As negociações: acho que é forçoso admitir que não foram conduzidas de boa-fé. Não sei se o Irão estava a negociar de boa-fé, mas pode dizer-se com certeza que os EUA não estavam a negociar de boa-fé, porque, enquanto isso, já estavam a discutir a operação militar conjunta com Israel. A operação militar conjunta tem aspectos algo estranhos: tem tentado atingir alvos muito específicos, como a casa do chefe supremo, que eles mataram, ou os comandantes da Guarda Revolucionária, mas também instalações militares. Para já, nem tentaram atacar as instalações nucleares, tanto quanto sei. É, portanto, uma situação muito complicada, pois não se pode dizer que isto seja um governo revolucionário que devamos apoiar por ele apoiar os trabalhadores. Do outro lado, temos um governo comprometido com o genocídio e um governo que apoia o genocídio, os EUA e Israel a fazer a guerra, e os países europeus a apoiarem essa empresa sem fazerem perguntas.
Raquel Varela: Deixa-me fazer esta súmula, e corrige-me, por favor, no que não esteja certa. Houve no Médio Oriente, nas décadas de 50, 60 e 70, alguns governos ditos “burgueses desenvolvimentistas”, especialmente no Irão, no Iraque e no Egipto; e os EUA apoiaram, contra esse desenvolvimento, governos religiosos altamente conservadores, com algum impacto. Por exemplo, Gordon Tearborn, no livro Sex and Power, observa que, com “estas mudanças políticas”, houve um retorno inesperado das religiões, que pensávamos estarem, estar o seu poder, a desaparecer. Vê-se o mesmo em Israel. Vê-se o mesmo com os católicos fundamentalistas que apoiam a extrema-direita. Ora, esse apoio está também muito ligado a uma viragem da economia para a extracção de petróleo. E a mudança do papel das mulheres, que era muito mais desenvolvido nos anos 70, tem algo que ver com este tipo de economia retrógrada, onde não há emprego real para as mulheres nem economia produtiva, desenvolvida. Gostava de entender a relação entre a organização política do regime e a economia baseada nesse, como é que havemos de chamar-lhe, talvez “extractivismo”.
O ataque israelo-americano desafia a própria existência do Irão como país; portanto, as facções do poder terão mais facilidade em unir-se
Yassamine Mather: Sim, isso é muitíssimo importante. A política dos anos 60 e 70 era dominada, de ambos os lados, pela guerra fria. Na guerra fria, os EUA tinham a estratégia de construir “cinturas verdes” [islâmicas] em redor dos tais países burgueses em desenvolvimento que, aliás, às vezes colaboravam com a antiga União Soviética. O interesse era comum. Isso permitia-lhes, por vezes, em matéria de programas de desenvolvimento, jogar os EUA contra a União Soviética e vice-versa. Há, portanto, estas cinturas islâmicas, das quais o Afeganistão fazia parte, é claro, com o crescimento do fundamentalismo religioso que lá se dá e a sua exportação para os países da região. Acho que, no caso da Palestina, foi muito deliberado, promoveu-se o Hamas em detrimento da OLP, mas também, e sobretudo, em detrimento dos grupos de esquerda na aliança palestiniana.
Há quem argumente que, em 1979, na revolução iraniana, a esquerda era muito poderosa, e foram os EUA que impulsionaram o movimento religioso. Eu aduzi argumentos contrários, pois, infelizmente, em 1979, o movimento religioso no Irão era forte, e era forte por causa do xá, porque o xá, talvez a CIA lho tenha ensinado, era muito agressivo contra a esquerda, contra os liberais. Os grupos religiosos sobreviviam nas suas mesquitas, nas suas madraças, nos seus seminários. Não eram reprimidos da mesma maneira que a esquerda. Não digo que estivessem em grande, mas convém lembrar que, por exemplo, o próprio xá se apresentava como um homem religioso islâmico, ao contrário de seus apoiantes atuais. Portanto, foi mais fácil ao movimento religioso manter um certo poder, e depois tornou-se no que hoje é.
Este retorno é mau para as mulheres. Sempre que vou à Turquia, fico chocada de ver cada vez mais mulheres a usar o véu. Não quero dizer com isto que o véu, em si mesmo, as oprima. Só que, na minha opinião, não ajuda, para o futuro das mulheres na região, haver um regresso à religião, visto que o véu é apenas um sinal de retorno ao movimento religioso. E, claro, aqueles pequenos emirados do Golfo Pérsico e alguns dos outros países agarraram-se à religião porque é assim que podem sobreviver — o emir passa a ser um governante de direito divino. Tens toda a razão em dizer que as economias, e a economia iraniana mais ainda, são o que eu chamaria de economias rentistas. Sobrevivem graças ao petróleo. Não têm mais nenhuma produção a sério. A industrialização parou ou estagnou. E isso abre caminho a mais corrupção. Outro elemento que contribuiu para a corrupção foram as sanções impostas ao Irão. Quando há sanções, há sempre maneiras de iludi-las. Quem está no poder consegue iludi-las facilmente. E fica com a possibilidade de comprar mercadoria a baixo preço e vendê-la muito mais caro. No Irão, pelo quíntuplo. Olhando para os protestos operários, não só em Janeiro de 2026 ou Dezembro de 2025, mas nos últimos 15 anos, eles são contra a corrupção e contra as políticas económicas que empobrecem continuamente os pobres e enriquecem os aliados do regime, mas também o capital privado, não apenas os aliados do regime. E às mulheres tiram direitos. Por exemplo, o Irão tem grande número de mulheres licenciadas, até mesmo nas ciências e engenharias. Tem mais mulheres licenciadas em ciências STEM [ciências, tecnologia, engenharias e matemáticas] do que o Reino Unido, não vou dar um número porque não sei, mas uma percentagem muito grande delas nunca chega a conseguir emprego. Trabalham a contrato ou em coisas que não têm nada que ver com as suas áreas de formação. São trabalhadoras precárias, fazem, sei lá, trabalho ao domicílio, costuram e vendem as suas peças em casa. Não fazem uso das suas especialidades. Na melhor das hipóteses, são professoras em escolas privadas, que é a maneira de conseguirem ganhar um mínimo. No fundo, empobrece-se ainda mais as mulheres. Entretanto, a economia está parada. Não se pode fazer grande coisa, não só por causa das sanções, mas também por causa da incompetência, da corrupção e da ausência de avanços, de desenvolvimento. Fica-se pela produção rentista de petróleo, pela venda de petróleo, agora restringida, etc.
Raquel Varela: Podes dizer-nos algo mais do regime? As diferentes facções do regime estão unidas?
Yassamine Mather: Eu explico. Fala-se da ditadura do Irão, e é, mas é uma ditadura complicada. Não é como Saddam Hussein, que era um homem só, percebes? Ou Khadafi, que era um homem só. O papel do chefe supremo é, se quiseres, unir as facções. As facções têm diferentes níveis de contradições internas, que variam no tempo. Portanto, quando há um ataque dos EUA ou está em causa a sobrevivência do regime, elas aproximam-se umas das outras. Neste momento, estão muito próximas, porque está em causa sobreviverem. No entanto, historicamente, há várias interpretações de como um governo islâmico há-de funcionar. Não são apenas duas facções, há muitas facções dentro das duas tendências. As duas tendências são a reformista e a conservadora, mas os reformistas só são reformistas para efeitos da política social. Não são reformistas para efeitos de economia política. O que quero dizer com isto? Os reformistas insistem menos no uso do véu, na imposição de regras sobre a não segregação de homens e mulheres na mesma reunião, esse tipo de coisa: são socialmente reformistas. Politicamente, porém, para efeitos de economia política, eles são bastante... são adeptos do livre mercado. Todo o regime é adepto do livre mercado. Mas a facção reformista é de alma e coração pela política económica neoliberal. Foi defensora da política económica neoliberal logo desde o início dos anos 2000 e continuou. Os conservadores também são defensores do mercado livre. Lembre-se, esta gente saiu do bazar, é gente do mercado. Nem é que sejam capitalistas de Estado. São capitalistas. Mas são socialmente conservadores. São eles que se opõem ao que as mulheres conseguiram na questão de tirar o véu. São conservadores em termos de regulamentação de reuniões mistas e assim por diante. São conservadores no forçarem toda a gente a acatar a lei religiosa. O papel do chefe supremo passa, em certos momentos, por garantir que nenhum dos lados se torne dominante. Um dos papéis de Khamenei era, por conseguinte, servir de negociador entre todas as facções e lidar com as divergências. Será esse o papel do novo chefe supremo, se ele sempre vier a aceder ao poder. Será um homem, as mulheres não podem ser chefe supremo. Isso já está definido. Visto assim, tem de se considerar a ditadura com mais complexidade do que se apresenta na imprensa ocidental. Parece-me que este papel de negociador não será, neste momento, muito difícil, porque o país está a ser ameaçado no seu todo. O ataque israelo-americano desafia a própria existência do Irão como país; portanto, as facções terão mais facilidade em unir-se. Uma vez passada a ameaça, e supondo que eles sobrevivam – não sabemos se sobreviverão, mas se sobreviverem –, as diferenças ainda sobressairão mais.
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Raquel Varela: A esquerda iraniana tem uma longa história política, embora parte dela tenha emigrado. Mas ainda ficaram dirigentes de esquerda no Irão? Há alguma alternativa política? É que estamos a falar de um país que tem um sector da classe trabalhadora altamente qualificado, com história política. Mas ainda lá ficou alguma esquerda?
Yassamine Mather: Bem, não podemos dizer que não haja esquerda organizada, no sentido de não haver partidos ou organizações. Se uma pessoa se declarar de um partido, é presa. Isso não foi possível nos últimos 45 anos, 47 anos. Mas há muita esquerda no Irão. Quem é? Bem, em primeiro lugar, parece-me que se deve mencionar as organizações operárias. Não são tão... parecem ser organizações operárias espontâneas, mas houve claramente trabalhadores com tradições de radicalismo a participar em pleno na criação dessas organizações. Talvez já tenhas ouvido falar do Sindicato dos Trabalhadores de Autocarros Wahed. Não é reconhecido como sindicato pelo governo. Os seus dirigentes são presos com frequência. No entanto, eu diria que, nos últimos vinte anos, talvez mais, eles têm organizado protestos quase todos os anos. Eles defendem outros trabalhadores e as suas próprias reivindicações. Exigem o reconhecimento das organizações de trabalhadores. Depois, há os trabalhadores da cana-de-açúcar da Haftap. Eles têm-se batido arduamente contra a privatização, não só da sua própria indústria, mas contra a privatização em geral. Uma vez mais, embora pareçam ser uma organização operária espontânea, eu conheço lá gente muito activa, que se mantém abaixo do radar para não ser presa. São sindicalistas e militantes de esquerda comprometidos. São duas grandes organizações activas, das quais tenho lido posições nos últimos meses. Convém não esquecer, se por acaso leste histórias da revolução iraniana, que os operários do petróleo foram muito importantes na revolução. Só que a República Islâmica dividiu a indústria petrolífera em muitas pequenas empresas privadas, um contrato aqui, um contrato ali. Há um número muito grande de empresas privadas, e as próprias empresas privadas têm subempreiteiros. O que acontece é que os trabalhadores se estão a tentar organizar transversalmente a estas dezenas de empresas, juntando-se na base de serem da mesma indústria. É muito significativo, muito promissor. Há uma série de páginas web de esquerda. De quando em quando bloqueiam-nas, e as pessoas que lá escrevem são presas. Mesmo assim, há uns meses, não agora, estava eu a ver uma dessas páginas, e ias-te surpreender com a quantidade de artigos de Michael Roberts traduzidos para o persa nessa página web.
Raquel Varela: Michael Roberts é um economista marxista. Ele também escreve regularmente para o Maio.
Yassamine Mather: É, pois é. Ias-te surpreender. Até lha mandei, porque queria que ele visse que os artigos dele estão publicados. Algumas destas páginas aceitaram o convite da Critique para falar em persa. Ou seja, eles não tiveram medo de aceitar um convite da Critique, mas obviamente que teriam medo se fosse organizado por uma organização de tipo marxista. Portanto, sim, há limitações ao que eles podem fazer. Nenhuma delas ocupa uma posição de direcção, mas o que eu quero dizer, em suma, é que a esquerda não está morta. Há movimento operário, há movimento intelectual. A página a que me referi é uma de três ou quatro. Tenho mais contacto com uma delas. Chama-se Critique of Political Economy. Não copiaram de nós. Já se chamavam assim antes. Portanto, há vida.
Raquel Varela: Há vida. E onde há vida, há esperança, evidentemente. Nós, na esquerda crítica, na tradição da oposição de esquerda, temos tido que haver-nos com o campismo, que é a ideia de que, especialmente depois da invasão russa da Ucrânia, é preciso escolher entre a Rússia e os EUA, e apoiar os EUA é estar a apoiar os maiores e mais perigosos imperialistas do mundo. Apoiar os EUA é apoiar o imperialismo. Portanto, há como que uma divisão, e seria preciso apoiar a Rússia, digamos assim, porque embora não sendo a Rússia socialista, não sendo o Estado dos trabalhadores para os trabalhadores, sendo um Estado capitalista, com uma ditadura, se não apoiarmos a Rússia, ficamos sem quem nos defenda do imperialismo americano. Tem sido sempre assim, também na Venezuela, e agora também com o Irão. Achas que esta maneira de dividir não tem alternativa, ou há uma alternativa socialista, dos trabalhadores?
Yassamine Mather: Bom, eu acho que, felizmente, aquela gente que eu referi antes não tem ilusões sobre a Rússia e a China. Sim, havia muita gente, antes da agressão, antes do ataque dos EUA, que dizia, bom, se houver guerra, a Rússia vem socorrer-nos, ou então o que temos é de nos despacharmos com o desenvolvimento do nuclear. Precisamos de melhor desenvolvimento nuclear. A Rússia ajuda, a China ajuda. Mas é claro, como se viu na guerra dos doze dias, em Junho de 2025, quando Israel e, depois, os EUA atacaram, claro que a China e a Rússia não quiseram nada com a guerra. A Rússia tem tão boas relações com Israel como com o Irão. Mais, a Rússia e Putin têm melhores relações com Israel do que com muitos outros países. Lembro-me de ele ter afirmado uma vez que Israel era o segundo maior país de língua russa do mundo, o que, aliás, não é verdade, a Ucrânia é maior, assim como muitos outros países. Até a Alemanha, na Europa, é maior. Mas isto era ele a tentar cair nas boas graças de Israel. A ideia é um disparate. No entanto, política e economicamente, a Rússia tem relações muito estreitas com Israel. Emite declarações em tempos de guerra, mas não é aliada do Irão e não fará nada pelo Irão. Mas, também, como é que se vai procurar apoio a um país cujos marxistas são presos, onde não se pode criticar Putin, onde Putin está no poder por causa dos oligarcas, do FSB e das forças de segurança? Portanto, se ter ilusões sobre a ex-União Soviética era terrível, ter ilusões em Putin é muito pior. Já a China, bem, a China está determinadíssima a ser uma potência ainda mais forte do que é. Nada disto a impede. Mesmo quando compra petróleo iraniano a baixo preço, não incorre em risco de sanções ou outro. Fá-lo às escondidas, para a economia não ser afectada. Sim, há um acordo económico entre a China e o Irão, mas não é melhor nem diferente do acordo que a China tem com a Arábia Saudita. A China não se vai pôr do lado do Irão só porque tem um acordo com o Irão. Mas também me parece que quem tem ilusões quanto à China se esquece, até certo ponto, por a China estar em ascensão, de que ela não anda longe de ser uma potência imperialista. Ao dizer isto, bem, tu e eu estamos na Critique, somos críticos, tenho de ter muito cuidado quanto aos nomes que dou às coisas, mas a China tem tendências imperialistas. A China, o governo chinês, a economia chinesa que lá quer chegar, tem-se portado com generosidade relativamente a empréstimos. As taxas de juro dos empréstimos chineses são melhores do que as do FMI, por exemplo. Mas as condições que impõe aos empréstimos são drásticas. 99 anos num porto que a China constrói? Exigir períodos de um século de compromisso com a economia de um dado país para lhe conceder um empréstimo! Não podemos, portanto, vê-la como uma espécie de benfeitora do Sul Global. Está a tentar lucrar com o Sul Global, mas podendo dar-se ao luxo de parecer mais simpática. Nem sequer estou a tentar fazer uma análise marxista da economia da China, porque não sei. Estou a dizer o que pressinto.
Raquel Varela: Só para os nossos leitores compreenderem: o nosso debate na Critique, que é um debate que decorre em várias organizações marxistas pelo mundo fora e na esquerda em geral, é para perceber se a China é um país imperialista ou não, se há uma diferença entre o seu Estado e a sua economia e a sua relação política com os trabalhadores e, ao mesmo tempo, se a China está ou não aberta ao comércio mundial no sentido em que outros Estados capitalistas estão. Infelizmente, não temos tempo para analisar que tipo de Estado é a China. O Michael Roberts tem um debate muito bom sobre isso.
Mencionaste o Irão. Não sabemos bem se o Irão sobreviverá com o regime actual, ou mesmo como país, mas estamos a falar de um país de 93 milhões de pessoas. Que sociologia é a deste país? Quanto desemprego há? É um país de jovens. Uma coisa é usar drones para matar, como os EUA e Israel agora fazem, outra coisa é derrotar 93 milhões de pessoas com uma ocupação; isso não faz parte do programa dos EUA.
No Irão, a percentagem de pessoas com formação universitária é muito alta. Mas a maioria está desempregada. Mais de 33%, diz-se
Yassamine Mather: Tens toda a razão, os EUA não podem fazer isso. Qual é então o plano de Israel, e talvez dos EUA? O Irão é composto por muitas nacionalidades. Não me vou pôr a dar números, mas os curdos, por exemplo, são uma parte grande da população. Há também azeris. As duas províncias do Norte do Irão chamam-se Azerbaijão Oriental e Azerbaijão Ocidental. Falam uma língua túrquica, diferente da de Teerão. Depois há os árabes do Sul do Irão. Têm parentes no Iraque ou no Qatar ou noutro sítio, mas são iranianos árabes. No Irão Oriental há os baluchis, junto à fronteira com o Afeganistão. Há turcomanos, mais próximos talvez da Geórgia, do Turquemenistão, no Norte do Irão. O plano de Israel é criar divisões para criar separações. Em vez dos actuais 93 milhões, ficava-se com um Curdistão iraniano independente, um Azerbaijão independente. Por falar nisso, Israel tem trabalhado muito de perto com a República do Azerbaijão para fomentar o separatismo. Até agora, não tem sido bem sucedido, a não ser com um segmento da oposição curda. E é assim porque toda a gente vê que as separações não têm servido para nada. É olhar para o Iraque, por exemplo: as autoridades curdas não se têm saído melhor do que o resto do Iraque. Tudo subdesenvolvido e em péssimas condições: Estados falidos, no fundo. Mas eles tentam, há dinheiro metido na separação. Sei que os EUA estão metidos no separatismo baluchi. A ideia está lá. Ao nível do desemprego: no Irão, a percentagem de pessoas com formação universitária é muito alta. Mas a maioria delas, uma percentagem muito grande, está desempregada. Mais de 33% desempregados, diz-se. E quem tem emprego não está empregado nos estudos que fez. É provável que trabalhe no sector informal. O Irão tem uma coisa parecida com a Uber, chamada Snap. Motoristas da Uber, motoristas do Uber Eats. A Snap Eats é como a Snap. Salários baixíssimos. A moeda desvaloriza-se, as pessoas empobrecem. Esta é a situação.
Raquel Varela: Uma última pergunta. O que hão-de fazer as organizações dos nossos países, dos países ocidentais? Sindicatos, organizações, partidos políticos, associações, o que havemos de fazer?
Yassamine Mather: Parece-me que somos precisos todos. Eu também vivo na Grã-Bretanha, é lá que tenho de lutar. Temos de ser derrotistas revolucionários. Temos de apelar à derrota dos Estados Unidos e do Reino Unido. Talvez Portugal não esteja directamente comprometido.
Raquel Varela: Não, não, está totalmente comprometido, a grande base militar dos Açores é essencial para a manutenção dos aviões militares americanos.
Yassamine Mather: Então pronto, temos de apelar à derrota dos nossos países imperialistas. Não há nem “ses” nem “mas”. Que havemos de fazer? Como sindicalistas, parece-me que podemos chamar ao boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel, porque é Israel que está a desempenhar este terrível papel no Médio Oriente. Gaza não é uma questão apenas da Palestina. É impedir que Israel e os Estados Unidos destruam toda a região do Médio Oriente com as suas políticas exploradoras. Os sindicalistas podem bater-se por isso. Tenho visto sindicalistas a impedir o carregamento de armas com destino a Israel. São coisas que podemos fazer, que são muito importantes. Enviar informação deste género aos povos do Irão, da Palestina, ajuda a levantar-lhes o moral, mas é também eficaz em si mesmo, porque é fazer algo com efeito prático.
Raquel Varela: Pois, vimos a coragem dos trabalhadores portuários de Génova e de Gotemburgo que impediram o envio de armas para Israel e boicotaram os países que apoiam estas guerras. Podes explicar essa ideia de derrotismo revolucionário?
Yassamine Mather: Acho que foi o nosso bom velho Lenine que se saiu com ela. Creio que no contexto da Primeira Guerra Mundial. Dizia ele que eles deviam querer a derrota do Império Russo, e os social-democratas e comunistas alemães deviam querer a derrota da Alemanha. Portanto, para os países imperialistas, é simples. Queremos que eles saiam derrotados. Querer a derrota do nosso próprio país. É revolucionário, porque o habitual é ser patriota e defendê-lo.
Raquel Varela: Pois, transformar o mundo imperialista numa guerra de classes, em que estaríamos ao lado dos trabalhadores de todo o mundo contra os nossos próprios Estados. E temos de começar pelo nosso próprio Estado. Yassamine, muito obrigada por esta entrevista. Em nome de todos nós, do Maio, por nos teres ajudado a compreender muito melhor estes acontecimentos.
Yassamine Mather: Muito obrigada por me convidares. As perguntas foram muito boas. Espero ter feito jus a algumas.
Tradução: Adriano Zilhão
Paulo Rangel fala de “cumprimento das nossas obrigações atlânticas”, esperando que tanto o povo como a oposição aceitem esta afirmação de covardia e cinismo como resignação “sensata” ao poderio dos norte-americanos.
À margem da reunião, em Bruxelas, dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos Estados-membros da União Europeia, Paulo Rangel foi questionado sobre a intensa atividade militar americana nas Lajes. Num contexto geopolítico de escalada de conflito, Rangel tentou escudar-se no Acordo de 1995: “Qualquer outra operação, essa não tem de ser nem autorizada, nem conhecida, nem comunicada por Portugal. Nunca foi e não era agora que ia ser.”
É irónica esta posição quando a invasão do Irão tem estado na ordem do dia. Tratando-se de uma operação conjunta entre os EUA e Israel, as primeiras declarações de Rangel demonstraram uma falha jurídica e institucional. O Acordo Técnico de 1995, no seu Artigo I, número 4, é esclarecedor: “qualquer utilização pelos Estados Unidos da América das instalações [...] que não decorra ou integre as situações previstas nos números anteriores deverá ser objecto de autorização prévia”.
Estaremos a repetir a façanha de 2003, quando um outro governo do PSD, liderado por Durão Barroso, acolheu a Cimeira dos Açores que serviu de prelúdio à guerra contra o Iraque, que se prolongaria até 2010 com efeitos devastadores sobre esse país?
Recordemos que em 16 de março de 2003 na Base Aérea das Lajes, na ilha Terceira, reuniram-se os chefes de governo dos EUA, Reino Unido, Espanha e Portugal, na altura, George W. Bush, Tony Blair, José María Aznar e também o anfitrião, ou porteiro, José Manuel Durão Barroso. Dessa cimeira saiu um ultimato ao regime de Saddam Hussein para entregar “armas de destruição maciça” que, afinal, como veio a confirmar-se, nunca tinham existido.
Qualquer utilização pelos EUA das instalações [das Lajes] que não decorra ou integre as situações previstas nos números anteriores deverá ser objeto de autorização prévia”, diz o Acordo entre Portugal e EUA.
No MNE fala-se de “cumprimento das nossas obrigações atlânticas”, esperando que tanto o povo como a oposição aceitem esta afirmação de covardia e cinismo como resignação “sensata” ao poderio dos norte-americanos. Não disse Trump a Espanha (que recusou o uso das suas bases para os ataques ao Irão), que “se quisesse” as usaria na mesma, ameaçando o país vizinho com o corte de todas as relações comerciais?
Não podemos pretender que temos uma espinha dorsal e uma política externa que não seja de submissão ao mais forte e continuar a ter as Lajes como ponte de passagem para um massacre de terror humano e para expansão dos seus interesses capitais. Relembremos que, num passado recente, estendeu-se o alcatrão das Lajes para receber três F-35 americanos com destino ao empreendimento israelita no genocídio palestiniano, logo após Espanha ter negado a sua receção, primeiramente.
O Governo português serve-se da conivência institucional para mascarar a sua cumplicidade com os massacres em curso. É esta a diplomacia humanista que os burocratas das Necessidades gostam de proclamar? Esta política serve os interesses nacionais ou os interesses de outrem?
Portugal tem sangue nas mãos. No meio desta incursão ocidental morreram 165 jovens. Mortes derivadas de brutais bombardeamentos em locais civis, escolas, zonas de habitação. Como colateral, pagam o preço da história as netas e filhas das mulheres que viram a sua liberdade ser retirada pelos mesmos que agora querem aclamar a sua libertação.
Narramos utopias de paz, pregamos o humanismo, mas no fim arrastamo-nos na cobardia. Como diria Eça de Queirós n’ As Farpas:
“O País perdeu a inteligência e a consciência moral. […] A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. [...] Já se não crê na honestidade dos homens públicos.”
A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército
Nesta página web tomam a palavra desertores ucranianos — que, segundo números do governo, se contam por uns duzentos mil. Um dos testemunhos: “A Ucrânia é Zelensky, como o Império Romano era César. O Ocidente deu-lhe dinheiro para fazer a guerra e Moscovo deu-lhe garantias de segurança. Nem a sua autoridade nem a sua integridade estão ameaçadas. A linha da frente, algures no Donbass, não mexe há quatro anos e continuará sem mexer mais três. O Exército ucraniano é um grupo de sem-abrigo (no sentido literal do termo) que combate contra outro grupo de sem-abrigo. Dão-te uma Kalachnikov, dois carregadores, duas granadas, e mandam-te combater. Dois exércitos de sem-abrigo que lutam sem a mínima perspectiva. Que moralidade se há-de esperar deles? (...) Vi um responsável de uma das nossas administrações militares a falar apaixonadamente. Sustentava, entusiasmado, que 50% dos soldados recrutados à força em rusgas de rua para serem mandados para a linha da frente se tornariam em soldados muito patriotas que tomariam de assalto as zonas ocupadas. Talvez fosse assim em 2023, até no primeiro semestre de 2024, mas tudo isso pertence ao passado. Mesmo entre os potencialmente motiváveis, o sistema abafa qualquer motivação logo à cabeça. Os soldados mobilizados ficam meses sem receber. (...) E por cada soldado ucraniano há dez chuis do alto comando e do SBU [serviços de segurança da Ucrânia, Ndr] a vigiá-lo.”
Rússia:“Sois cobardes?”
A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército. A directora Kirsanova reuniu então os 400 estudantes de dezoito anos de idade e lançou-se numa longa tirada de imprecações contra eles. A cena foi filmada por um estudante e vazada para as redes sociais. A directora acusou os jovens de só se terem inscrito no instituto para conseguirem adiar o serviço militar até “a guerra acabar”. Aos berros: “Gente, é a pátria que chama! Têm de aceitar! De que têm medo? Têm medo de regressar num caixão de zinco? De onde vos vem esse medo? Quem vo-lo inspirou? (...) Vocês são cobardolas, para aí sentados, aterrorizados?” A divulgação da cena nas redes sociais causou indignação. Houve alunos que se queixaram aos pais de os estarem a “manipular”. Não contente, a directora apresentou queixa ao FSB, a polícia política. Parece que nem a propaganda militarista do regime de Putin, nem a repressão nem a censura conseguem convencer a juventude a ir voluntariamente para o “matadouro”.
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Alemanha:“Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”
Realizou-se em Göttingen, na Alemanha, nos dias 14 e 15 de Fevereiro, a primeira conferência nacional do movimento de greve escolar contra o serviço militar obrigatório. Participaram mais de 250 jovens e estudantes de 70 cidades. Excertos da resolução aprovada:
“No dia 5 de Dezembro, na manifestação de 55 mil jovens e estudantes, manifestámos claramente que “Não queremos serviço militar! Queremos ter um futuro!” Nesse mesmo dia, o Bundestag [o Parlamento federal] adoptou a lei dita de modernização do serviço militar, dando um passo para a restauração do serviço militar obrigatório. Logo em Janeiro, todo os jovens nascidos em 2008 começaram a receber questionários de avaliação das suas competências e motivação para o serviço militar. A conscrição obrigatória é para começar em 2027. O governo diz que o serviço militar obrigatório e o rearmamento são necessários para nos defendermos. Nós perguntamos: como há-de o rearmamento garantir a paz e porque havemos nós de precisar de ter o Exército mais poderoso da Europa para vivermos em segurança? O chanceler Merz fala numa nova “era de política de grandes potências”, na qual a Alemanha teria que actuar com confiança em si. Mas nós sabemos que política de grandes potências quer dizer disputa, recorrendo à força, de mercados, recursos e esferas de influência à custa de meter ainda mais dinheiro no Exército e na economia, e menos na educação, na protecção social e no ambiente. Quer dizer ampliar ainda mais a NATO, mesmo que o preço seja provocar novas guerras. No mundo que o Governo federal quer para nós, não sobra nenhuma perspectiva para o nosso futuro a não ser crescer na pobreza e aprender em escolas arruinadas, enquanto a crise climática progride sem dar tréguas.
O ministro da Defesa Pistorius quer-nos convencer de que a conscrição de uma geração inteira serve para defender a democracia. Nós dizemos que o que interessa a este Estado não é a nossa liberdade e a nossa opinião. O destacamento de tropas para o estrangeiro, a militarização e o serviço militar obrigatório são contra os nossos interesses. (...) Põem-se milhares de milhões no rearmamento, preparando o terreno para a próxima grande guerra. Enquanto isso, as cotações das acções de empresas de armamento como a Rheinmetall, ThyssenKrupp, KNDS e companhia sobem vertiginosamente. (...) Por tudo isto, preparamos desde já a greve à escola de 5 de Março e levaremos a cabo acções nas nossas escolas.”
A concluir, a resolução apela à generalização de comités de organização da greve à escola e a entrar em contacto com as secções de juventude dos sindicatos, com os sindicatos, os pais e professores. Conclui com o título deste artigo: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”
Irão, Estados Unidos:Generalização da guerra contra os povos e a juventude de todo o mundo
No Irão, a aliança israelo-americana continua a matar e a destruir sem piedade. Trump diz agora que só parará quando o Irão se render incondicionalmente. Ninguém sabe sequer o que tal significa.
Como escrevíamos no editorial da semana passada, as descabeladas justificações dadas por Trump e pela sua mafia para o ataque ao Irão — da destruição dos projectos nucleares do Irão (que Trump há meses declarara ter “obliterado” com as suas fantásticas bombas de perfuração profunda) a uma ameaça iminente (!) de ataque iraniano e ao inexistente programa de construção de mísseis intercontinentais do Irão — têm como única lógica a destruição de tudo o que possa fazer frente ao polícia sionista designado para o Médio Oriente.
Submetam-se ou morrem, é a palavra de ordem que sai da Casa Branca.
Do genocídio de Gaza à virtual anexação da Cisjordânia, da entrega do poder ao regime talibã no Afeganistão à entrega da Síria desfeita a um comandante do Daesh e aos bombardeamentos do Irão, há um fio condutor, um só: e não, não é a “democracia” nem o fim da ditadura teocrática dos mulás. É que mergulhem os povos e países no caos absoluto, que sobrem Estados “falhados” — o que interessa, a segurança do petróleo e dos respectivos lucros, ficará garantido pelo Exército sionista, por milícias privadas e, em última análise, pelo Pentágono. No fundo, a situação que campeia há décadas na África Central, a zona mais rica do mundo em minérios, onde as multinacionais prosseguem calmamente os seus negócios no meio da guerra e do caos permanentes. Não há actualmente solução mais barata para os imperialistas, enquanto eles preparam as próximas guerras.
Têm toda a razão, pois, os liceais alemães, os desertores e refractários ucranianos e russos, tal como a tem a população do Minnesota, que fez greve geral para correr com os esbirros nazis do ICE. Contra esta marcha para a generalização do caos e da guerra, a única saída está em organizar a resistência e lutar contra os opressores e seus cúmplices nos nossos próprios países.
Estas guerras não são nossas. Elas vão contra os interesses dos jovens e dos trabalhadores na Rússia, na Ucrânia, na Alemanha, no Irão, nos Estados Unidos — e em Portugal, onde um governo servil deixou os agressores norte-americanos usarem à vontade a base das Lajes, sem sequer lhe darem cavaco a ele, nem ele o dar ao povo.
Em parte alguma do mundo os trabalhadores e os jovens, destinados a ser ou carne para canhão ou “danos colaterais”, têm interesse em matar ou morrer pelas conquistas e os super-lucros do grande capital, que só servirão para explorar ainda mais quem sobreviver à matança.
O sindicato condena veementemente toda a propaganda, justificação ou apoio a uma intervenção militar por parte de governos estrangeiros.
Sindicato dos Professores da Província de Buxer (ou Bushehr, Sul, no Golfo Pérsico):
“Há mais de cento e vinte anos que o povo iraniano reivindica a liberdade e a justiça. Tem-se batido contra todas as formas de tirania e exploração. Da Revolução Constitucional1 ao movimento pela nacionalização do petróleo, das lutas que redundaram na revolução de 1957 aos levantamentos de 2009, 2010 e 2011 e aos dias de hoje, o povo iraniano segue a mesma trajetória e persegue as mesmas reivindicações há mais de um século. De cada vez, a reação, a tirania e o colonialismo — agindo concertadamente — esmagaram os defensores da liberdade e da justiça e perpetuaram a exploração.
O Sindicato dos Professores da Província de Buxer analisa o recente levantamento, cuja palavra de ordem é a rejeição de toda a tirania e a reivindicação de liberdade e igualdade, expressa com particular veemência nas regiões oprimidas, como parte integrante da longa luta do povo iraniano. Condenando todas as formas de opressão, tirania e exploração, o sindicato manifesta a sua solidariedade e apoio ao povo iraniano.”
O Sindicato dos Trabalhadores da Companhia de Autocarros de Teerão e Subúrbios reitera a sua posição de princípio de 2021:
“Declaramos a nossa solidariedade com as lutas populares contra a pobreza, o desemprego, a discriminação e a opressão, mas opomo-nos categoricamente a qualquer regresso ao passado2 marcado pela desigualdade, corrupção e injustiça. É nossa convicção que a verdadeira libertação só poderá ser obra da mobilização consciente e organizada da classe trabalhadora e dos oprimidos, sem passar pela reprodução de formas antigas e autoritárias de poder. (…)
O sindicato condena veementemente toda a propaganda, justificação ou apoio a uma intervenção militar por parte de governos estrangeiros.
“Já o dissemos antes e repetimo-lo: o caminho para a libertação dos trabalhadores não passa por um chefe autoproclamado acima do povo, nem na dependência de potências estrangeiras, nem em lutas intestinas dentro do Estado, mas antes na unidade, na solidariedade e na criação de organizações independentes no local de trabalho e a nível nacional. Não nos devemos deixar manipular outra vez pelos jogos de poder e pelos interesses das classes dominantes. O sindicato condena firmemente qualquer propaganda, justificação ou apoio à intervenção militar de governos estrangeiros, particularmente os dos Estados Unidos e de Israel. Tais intervenções não só redundam na destruição da sociedade civil e em massacres, como fornecem um pretexto adicional para a repressão governamental. (…)
Viva a liberdade, a igualdade e a solidariedade de classe! A solução para os trabalhadores e trabalhadoras está na unidade e na organização.”
1 1905: Revolução popular que impõe uma Constituição. 1951: Nacionalização do petróleo pelo primeiro-ministro Mossadegh. 1957: Fim da lei marcial. 2009, 2010 e 2011: Movimentos de protesto contra o regime teocrático.
2 Referências às forças monárquicas que tentam manipular os protestos.
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta. Mas a tragédia da Venezuela e da América Latina é também que a desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente.
Poucas horas passadas do ataque militar dos EUA à Venezuela e da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o presidente Trump proclamou que “as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos vão lá entrar, investir milhares de milhões de dólares, consertar a infraestrutura muito danificada e começar a pôr o país a ganhar dinheiro”. Trump não escondeu que uma das principais razões para o ataque e rapto de Maduro era conseguir que os Estados Unidos passassem a controlar as vastas reservas petrolíferas da Venezuela, a que Trump se refere como “o nosso petróleo”.
A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo, cerca de 303 mil milhões de barris, ou 17% das reservas globais, segundo o Energy Institute, com sede em Londres — mais do que a Arábia Saudita, a primeira da OPEP+. Apesar destas vastas reservas, a produção de petróleo bruto da Venezuela continua muito abaixo da capacidade. A produção atingiu um pico de 3,5 milhões de barris/dia na década de 1970 (mais de 7% da produção global), mas caiu para menos de 2 milhões de barris/dia durante a década de 2010, caindo o valor médio para apenas 1,1 milhões de barris/dia no ano passado.
Os EUA passaram a ser o maior produtor mundial graças à chamada revolução do xisto, na década de 2000. Consequência disso foi, porém, o mundo ficar encharcado em petróleo, com a oferta a ultrapassar o aumento da procura global. Esta está em travagem, porque a expansão económica na maioria das grandes economias se faz à velocidade de uma lesma e devido à mudança gradual da produção de energia para as renováveis. Aliás, quando a Venezuela foi atacada, o preço do petróleo bruto Brent, referência do mercado, estava perto do mínimo dos últimos cinco anos, cerca de 60 dólares por barril.
Bem pode Trump dizer às grandes companhias petrolíferas do mundo que agora é ele quem manda na Venezuela e que elas se podem candidatar a investir para ganhar “uma data de massa” — as petrolíferas são capazes de não ter assim tanta certeza. Ali Moshiri, um antigo executivo da Chevron, está a tentar angariar 2 mil milhões de dólares para adquirir variados ativos venezuelanos. Porém, a aposta é arriscada. O entusiasmo de empresas como a própria Chevron, que até já detém uma licença dos EUA para perfurar e produzir petróleo venezuelano, é capaz de não ser por aí além.
O preço da restauração da produção de petróleo na Venezuela não vai ser baixo. A infraestrutura de perfuração está degradada, e o petróleo extraído é “pesado”, Extrair petróleo pesadíssimo implica fazer muitos furos e criar poços com vida útil relativamente curta — um processo bastante semelhante ao da produção de petróleo do xisto nos EUA — e, em seguida, misturar as vasas com petróleo mais leve ou nafta, de modo a poder correr por oleodutos antes de ser exportado e refinado. Produzir e comercializar petróleo “pesado” requer técnicas avançadas, como injeção de vapor e mistura com petróleos mais leves. Acresce que as reservas do país se concentram essencialmente na cintura do Orenoco, uma vasta e remota região na parte oriental do país, que se estende por cerca de 55 mil quilómetros quadrados.
O governo de Maduro passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais.
Além disso, a enchente do petróleo já começou a afetar os lucros esperados da nova exploração e extração. As perdas acumuladas da indústria americana do petróleo de xisto na década de 2010 atingiram quase quinhentos mil milhões de dólares. Tudo depende do “limiar de rentabilidade”, que, para o xisto americano, se tem estimado num preço médio de cerca de 60 dólares por barril. Tudo isto, enquanto a oferta global de petróleo cresce mais rapidamente do que a procura, projetando a Agência Internacional de Energia um aumento da oferta global na ordem de 3 milhões de barris/dia em 2025 e mais 2,4 milhões em 2026, contra aumentos da procura de apenas 830 mil barris em 2025 e 860 mil em 2026. Jorge León, da Rystad Energy, estima em 115 mil milhões de dólares o custo da duplicação da produção para 2 milhões de barris no início da década de 2030 — quase o triplo das despesas de capital combinadas da ExxonMobil e da Chevron no ano passado. Conseguirão a Exxon e a Chevron fazê-lo lucrativamente, considerando o atual equilíbrio mundial da oferta e da procura de petróleo e tanto mais que esse petróleo “pesado” teria de ser vendido abaixo do preço de referência?
No entanto, há outros fatores por trás da jogada de Trump contra a Venezuela. A nova Estratégia de Segurança Nacional deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta, e com “doping”. Naquela época, o presidente Monroe declarou que as nações europeias não se podiam ingerir na América Latina nem tentar controlá-la: passava a estar na “esfera de influência” dos Estados Unidos da América. Com Trump, a globalização cedeu o lugar ao‘”Making America Great Again" (“Voltar a Engrandecer a América”), o que situa firmemente a América Latina como quintal do imperialismo norte-americano. A implicação é que nenhum país pode resistir à política e aos interesses dos EUA. É necessário instaurar “regimes amigos” que permitam quer o acesso privilegiado dos norte-americanos aos respetivos recursos, quer capacidade para negá-los aos concorrentes: barrar, por conseguinte, a crescente influência e investimento chinês na região – apesar de o petróleo venezuelano representar meros 300 mil dos 11,3 milhões de barris que a China importou diariamente em 2025, segundo o Instituto de Estudos de Energia de Oxford —, tendo empresas da República Popular da China ganhado posições na indústria de perfuração de petróleo da Venezuela.
Em 2024, quando a contestada reeleição de Maduro ocorreu, salientei que o capitalismo venezuelano estava intimamente preso à rentabilidade do setor energético, que se encontrava numa espiral de morte após o colapso dos preços do petróleo a seguir a 2010 e as sanções americanas.
As conquistas que a classe trabalhadora alcançou no tempo de Chávez, na década de 2000, só foram possíveis porque os preços do petróleo atingiram o auge. A seguir, porém, os preços das matérias-primas, incluindo o petróleo, caíram, mais ou menos coincidindo com a morte de Chávez. O governo de Maduro perdeu o apoio da sua base operária à medida que a hiperinflação destruía o nível de vida. O governo passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais. Os militares podiam comprar em mercados exclusivos (por exemplo, em bases militares), tinham acesso privilegiado a empréstimos e aquisições de carros e apartamentos e recebiam aumentos salariais substanciais. Exploravam, ainda, o controle do câmbio e os subsídios, vendendo, por exemplo, com enorme lucro, gasolina barata comprada em países vizinhos.
A tragédia da Venezuela é que tudo dependia do preço do petróleo; pouco ou nenhum desenvolvimento houve dos sectores não petrolíferos, que, no mais, estavam nas mãos de empresas privadas. Não havia plano nacional de investimentos independente controlado pelo Estado. Com as sanções dos EUA e a contínua subversão contra o governo, os dias da revolução chavista estavam contados.
É uma lição para toda a América Latina. A desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente, dada a fraqueza dos capitalistas nacionais e a longa sombra do imperialismo americano.
Em Novembro de 2025, Trump anunciou a nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana. Modestamente, como é seu hábito proclamou: “Este documento é um roteiro para garantir que os Estados Unidos continuem a ser a nação mais grandiosa e bem-sucedida da história da humanidade e o berço da liberdade na Terra.”
O documento regista, com efeito, o “declínio económico da Europa”.
Mais notável, no entanto, é ele considerar que esse declínio económico é “eclipsado” pela “perspectiva de obliteração da civilização” europeia a que as políticas dos dirigentes do continente levam — tornando “mais do que plausível” que, daqui a vinte anos, a Europa deixe de ser “europeia”. Subentende-se sem dificuldade: a “raça branca” europeia irá ser superada por “raças” africanas, árabes e asiáticas, inimigas da América branca.
A NSS reflecte, assim, sem pudor, a propaganda nazi sobre a “substituição populacional” na Europa. E é tudo menos velado o apoio que promete aos partidos e dirigentes neofascistas (“patriotas”) europeus: Meloni, Orban, Chega, Vox, AfD, RN…
Não obstante, não podia ser mais absurda a conclusão de alguns assustados comentadores europeus — e portugueses1— de que a estratégia trumpiana designa a “Europa” como “inimigo principal” do império americano.
Em quase toda a extensão do documento, a administração Trump dedica-se a descrever como combater e atacar a China, apesar de a palavra ser pouco usada no documento2.
Assim, se a primeira prioridade da estratégia americana (O que queremos no e do mundo?) é o controle absoluto dos Estados Unidos sobre o “hemisfério ocidental”3, não se deixam dúvidas sobre o que está em disputa.
Essencialmente, trata-se de manter o hemisfério “livre das incursões hostis e da propriedade de activos essenciais” por “externos” (leia-se: pela China) e de manter o acesso dos EUA “a localizações estratégicas essenciais” (leia-se: expulsando, por exemplo, a empresa de Hong Kong proprietária dos portos do canal do Panamá e impedindo a entrada de capitais chineses no aço e nas “tecnológicas” americanas); “deter e reverter o mal que actores externos têm infligido à economia americana, mantendo, do mesmo passo, o Indo-Pacífico [não exactamente “hemisfério ocidental”!] livre e aberto, salvaguardando a liberdade de navegação em todas as rotas marítimas críticas e mantendo cadeias de abastecimento seguras e fiáveis, bem como o acesso a materiais críticos” (leia-se: manter o controle naval do canal do Suez, dos estreitos de Ormuz e de Malaca, do mar da China Meridional e das novas rotas do Ártico e o acesso às terras raras chinesas. Hemisfério ocidental?)
A maneira de assegurar tais desígnios é indicada sem subterfúgios diplomáticos: “queremos recrutar, treinar, equipar e pôr no terreno o exército mais poderoso, letal e tecnologicamente avançado do mundo para proteger os nossos interesses, deter guerras e — se necessário — ganhá-las rápida e decisivamente, com o mínimo de baixas das nossas forças”. Além, naturalmente, do “dissuasor nuclear mais robusto, credível e moderno do mundo, bem como defesas antimísseis de novíssima geração — incluindo uma Abóbada Dourada sobre a América — que protejam o povo americano, o património americano no estrangeiro e os aliados da América.”
Eis o que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário.
Falando directamente da China, a “estratégia de segurança nacional” refere que Trump reverteu mais de três décadas de suposições erradas a respeito daquele país, a saber, que a abertura de mercados à China, os incentivos ao investimento americano na China e à deslocalização industrial para a China conduziriam à integração daquele país na “chamada ordem internacional assente em regras” (a ordem mundial ao serviço dos interesses americanos) — coisa que “não aconteceu”.
Daí a necessidade de “reequilibrar a relação económica da América com a China”: acabando com “estratégias industriais e subsídios estatais predatórios; práticas comerciais injustas; a destruição de empregos e a desindustrialização; o roubo de propriedade industrial e a espionagem industrial em grande escala; ameaças às nossas cadeias de abastecimento que ponham em risco o acesso dos EUA a recursos críticos, designadamente minerais e terras raras; (...) propaganda, operações de influência e outras formas de subversão cultural”. Exige-se, para tal fim, o concurso da “Europa, do Japão, da Coreia, da Austrália, do Canadá, do México e de outras nações importantes”.
Corresponda ou não à prática do Estado chinês esta descrição, ela corresponde sem sombra de dúvida à caracterização que dela têm feito as administrações americanas.
Trata-se, portanto, sem equívoco, de acabar com o Estado chinês na sua forma actual por meio de uma estratégia política, comercial e militar que lembra fatalmente o cerco à União Soviética e o avanço inexorável da NATO sobre as fronteiras da URSS (e, depois, da Rússia) que caracterizaram a política americana pelo menos desde Reagan.
Todo o capítulo sobre a “dissuasão de ameaças militares” é dedicado à preparação do confronto político-militar com a China: “uma relação de forças militar convencional favorável continua a ser uma componente essencial da competição estratégica. O foco está muito, e bem, em Taiwan, em parte por esse país dominar a produção de semicondutores, mas, sobretudo, porque Taiwan dá acesso directo à Segunda Cadeia Insular [as ilhas onde os EUA detêm colónias e bases militares importantes situadas a oriente do Japão e doutras ilhas mais próximas do continente chinês], dividindo a Ásia em dois teatros [militares] distintos, Nordeste e Sudeste. O facto de dois terços do transporte marítimo passarem pelo mar da China Meridional tem implicações de primeira ordem para a economia americana. Deter um conflito por Taiwan, de preferência mantendo a nossa superioridade militar, é, pois, uma prioridade. (...) Poremos de pé uma força militar capaz de impedir agressões em qualquer ponto da Primeira Cadeia Insular. Contudo, as forças armadas americanas não podem nem devem ter de fazê-lo sozinhas. Os nossos aliados [Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Nova Zelândia] têm de responder presente e gastar — e, ainda mais importante, fazer — muito mais pela defesa colectiva. (...) É imperioso desenvolver as medidas de força e dissuasão necessárias para manter essas rotas abertas, livres de “portagens” e não sujeitas a encerramento arbitrário por algum país.”
Pese aos comentadores que estranham a linguagem aparentemente menos hostil à China (e à Rússia) do que a usada na doutrina da primeira administração Trump, a NSS 2025 é transparente nas suas prioridades — e no número de páginas dedicado a cada “região”:
— acabar com a actual economia e Estado chinês, ainda predominantemente assente na propriedade estatal dos meios de produção;
— acabar com a guerra “lateral” da NATO com a Rússia pela Ucrânia, agora que a Rússia já está significativamente desgastada; ou então deixá-la supurar, mas exclusivamente à custa dos orçamentos e das economias dos imperialismos europeus e para lucro da indústria armamentista americana;
— promover um surto sem precedentes da economia do armamento e cavar a superioridade das forças armadas americanas, transferindo, de passagem, maciçamente lucros para o capital americano em prejuízo dos concorrentes menores, europeus e não só;
— no Médio Oriente, apoiar sem reservas os regimes feudais e Israel, acabando com quaisquer fantasias de “democratização”.
— explorar sem limites os recursos dos países do “terceiro mundo”, acabando com as fantasias da “ajuda ao desenvolvimento”.
Este é o mundo que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário. Um mundo de ditaduras e de destruição da democracia.
Todos os poderosos do mundo rastejam e capitulam, uns atrás dos outros.
A única oposição aos bárbaros desígnios do imperialismo é a que lhes montem as classes trabalhadoras: da América, da Europa, da Ásia e do mundo.
1 Por exemplo, no Expresso de 12 de Dezembro, Miguel Monjardino escreve que “o principal adversário dos EUA em todo o documento parece ser a União Europeia, vista agora em Washington como um projeto das elites liberais e internacionalistas que se opõe aos seus valores políticos e interesses tecnológicos e comerciais.”
2 A razão principal da aparência algo fantasmática do alvo chinês é dupla, como refere The Economist (26/12/25): a cimeira Trump-Xi Jinping de Abril de 2026, que os negociadores americanos estão a preparar intensamente, querendo evitar interferências diplomáticas até lá; e batalhas intestinas na administração americana, entre vários interesses que se cruzam.
3 Na definição da NSS, hemisfério ocidental parece referir-se principalmente às Américas, de Norte a Sul. No entanto, tradicionalmente, também inclui a Europa Ocidental. O documento deixa ambiguidade a este respeito, tratando a Europa à parte.
O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Se o objectivo de Mamdani é realmente executar o programa com que se apresentou, o melhor é romper rapidamente com o Partido Democrático e convocar os trabalhadores e os jovens, em Nova Iorque e em todo o país, para lançar as bases de um autêntico Labor Party, que não hesite em reclamar-se do socialismo”.
Zohran Mamdani ganhou há dias as eleições para a Câmara Municipal de Nova Iorque com mais de 1 milhão de votos — mais de 50% dos votos expressos.
Mamdani ganhou as eleições com uma campanha radical, de mobilização. Trouxe para a rua dezenas de milhares de trabalhadores e jovens, por reivindicações que os chefes do Partido Democrático classificaram como demasiado radicais e Trump como “comunistas”: congelamento das rendas, creches gratuitas para todas as crianças de menos de 5 anos, transportes públicos gratuitos, mercearias populares. Tudo reivindicações que iam ao encontro da população trabalhadora e pobre de Nova Iorque, para quem viver numa das cidades mais caras do mundo é um inferno.
Mamdani concorrera antes às “primárias” do Partido Democrático e ganhara. Foi, assim, o candidato oficial do partido. O seu principal oponente era Andrew Cuomo, o ex-governador do Estado de Nova Iorque, democrata também, mas concorrendo como “independente”, porque derrotado por Mamdani nas primárias.
A votação foi esmagadora: mais de 1 milhão de votos para Mamdani, maioria absoluta. Sem precedentes, há décadas.
A vitória de Mamdani tem, porém, muitas singularidades. Há um ano, era um perfeito desconhecido. Imigrante de origem indiana nascido em África, era e é militante dos Democratic Socialists of America (DSA), uma organização política interna ao Partido Democrático. Nas fileiras dos DSA contam-se, por exemplo, Alexandria Ocasio-Cortez e alguns outros deputados democratas.
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O Partido Democrático, saliente-se, é um dois partidos históricos do grande capital americano. É o partido dos grandes financeiros de Wall Street. De socialista, não tem nada. Foi o partido dos presidentes Kennedy e Johnson, da guerra do Vietname; de Clinton e Obama e Biden, das invasões e guerras sem fim no Médio Oriente…
Nós, no Maio, só nos podemos congratular por ver um candidato que se declara socialista ganhar a Câmara Municipal de Nova Iorque. Tanto mais que o suporte da sua candidatura foi a mobilização de dezenas de milhares de jovens e trabalhadores.
Se Zohran Mamdani conseguir executar o programa de congelamento de rendas e outras reivindicações dos mais pobres, que alívio será para estes!
O Partido Democrático, saliente-se, é um dois partidos históricos do grande capital americano. É o partido dos grandes financeiros de Wall Street. De socialista, não tem nada
Mas conseguirá ele levar a cabo esse programa, dentro de tal partido?
Trump manifestou ruidosamente a sua raiva com a eleição de Mamdani. A administração federal e os grandes grupos capitalistas tudo farão para sabotar os seus planos.
Que fará Mamdani? Defender-se-á, apelando para a mobilização das massas trabalhadoras e dos jovens que nele votaram? Ou, dependente, orgânica e financeiramente do Estado de Nova Iorque e da administração central, deixar-se-á emaranhar nas redes de interesses, dominar pelas “inevitabilidades”, volver-se, por fim, em mais um radical domesticado pelo sistema?
Uma coisa é certa. Não será o Partido Democrático que o vai defender. Zohran Mamdani faria bem em lembrar-se das lições da “vitória” de Mitterrand em 81 — e da sua viragem para a “austeridade” um ano depois; de Syriza e Tsipras, na Grécia, que desafiaram a austeridade imposta pela troika da Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu, apelaram para o apoio do povo grego, em referendo, para romper com o diktat dos banqueiros, ganharam estrondosamente o referendo… e dias depois capitularam miseravelmente ante a UE e a banca.
Pela nossa parte, só podemos incentivar Mamdani a romper com o Partido Democrático. Se o objectivo é executar o programa com que se apresentou, o melhor é que ele rompa rapidamente. Mais: que convoque, em Nova Iorque e em todo o país, os trabalhadores e os jovens para lançar as bases de uma autêntica política e de um autêntico Labor Party, que não hesite em reclamar-se do socialismo — como Zohran Mamdani faz, mas só pessoalmente, sem largar a filiação no Partido Democrático.
Entre reivindicar o socialismo e reivindicar o Partido Democrático, o que é costume é a filiação no Partido Democrático levar a melhor…
O Irão está a atravessar uma fase de excepcional violência e intensidade. Depois do genocídio na Palestina e da destruição em grande escala infligida ao Líbano, os Estados Unidos e Israel participam também na destruição de vidas, corpos, territórios e infra-estruturas vitais no Irão. Têm alvejado não só refinarias e depósitos de combustível, mas também instituições de saúde, recursos hídricos, sistemas energéticos, instalações petrolíferas, escolas e outros espaços civis. Em Minab, uma escola de raparigas foi totalmente destruída e mais de 168 pessoas foram mortas, entre elas crianças baloches. A guerra desfaz as condições da reprodução social, aprofundando ainda mais a vulnerabilidade das classes trabalhadoras. Mina a base material da autonomia social, fazendo recuar vários patamares as lutas dos de baixo e reforçando formas de etno-nacionalismo promovidas pelo Estado ou pela sociedade. A rápida passagem, no espaço de um mês, da promessa de Trump de “voltar a engrandecer o Irão” à ameaça de reduzir o país à “idade da pedra” — uma fórmula que lembra inevitavelmente a linguagem da Guerra do Golfo de 1991 contra o Iraque — dissipou a última réstia de ambiguidade quanto à lógica imperial do que se passa.
Não se pode, porém, entender esta violência imperialista “externa” separadamente da crise interna pela qual a República Islâmica tem tentado restaurar a sua autoridade. Desde a revolta de 2022 a seguir ao assassinato da jovem curda Jina Mahsa Amini pela polícia, a República Islâmica tem sempre procurado, em todas as guerras e crises geopolíticas, maneira de repor parte da autoridade e respeitabilidade perdidas.
O paradoxo do ataque imperialista e da legitimidade do regime
A guerra travada pelo poder colonial genocida israelita contra os palestinianos após 7 de Outubro de 2023, a que se seguiu o primeiro ataque israelo-americano ao Irão, em Junho de 2025, ofereceu à República Islâmica o primeiro quadro de reabilitação. No entanto, o massacre de Janeiro de 2026, em que milhares de manifestantes iranianos foram mortos pelas forças do Estado teocrático em apenas dois dias, simplesmente por protestarem contra a crise económica e a ditadura política, reabriu uma crise de legitimidade aguda para Teerão, a nível interno e internacional.
Estavam os Iranianos ainda de luto, e muitas famílias ainda nem tinham conseguido recuperar os corpos dos seus entes queridos mortos em Janeiro, quando os Estados Unidos e Israel lançaram uma nova invasão imperialista, em 28 de Fevereiro de 2026, ainda mais violenta do que os ataques anteriores. Paradoxalmente, estes ataques têm, para já, ajudado a República Islâmica a recuperar parte da credibilidade que tinha perdido com a repressão sangrenta do mês anterior.
Estes dois acontecimentos, o massacre e a guerra, não constituem sequências separadas nem duas formas opostas de violência — uma repressiva e a outra supostamente libertadora —, mas sim momentos sucessivos, assimétricos até, de um processo contra-revolucionário interligado. A guerra “externa” prolonga e aprofunda a contra-revolução interna, permitindo ao Estado iraniano reforçar a coesão interna e, mais uma vez, abafar a inconformidade popular.
Reconhecê-lo não minimiza de modo algum que o Irão tenha sido e continue a ser alvo de uma agressão imperialista e colonialista levada a cabo com impunidade. Obriga-nos, sim, a ver este ataque em termos da sua função política mais profunda: em primeiro lugar, como empreitada assassina de destruição que alveja vidas, corpos, infraestruturas e territórios civis, posta em andamento com falsos pretextos e extensão da empreitada genocida levada a cabo em Gaza, assim como na Cisjordânia e no Líbano; e, em segundo lugar, como oferta de novos recursos à República Islâmica para a sua própria reconstituição.
O que é o “campismo”?
A agressão israelo-americana reforça a militarização do Irão, a repressão e a esmagamento das revoltas vindas de baixo. Intensifica, também, uma letal polarização política. De um lado, parte da oposição, especialmente os monárquicos, aplaudiu os bombardeamentos imperialistas em nome da hostilidade ao Estado teocrático. Do outro lado, outras forças políticas voltaram a cair na órbita da República Islâmica em nome do anti-imperialismo e da oposição à guerra. Se a natureza reaccionária da primeira destas correntes — pró-Israel, pró-EUA e pró-genocídio — tem merecido pronta oposição, assente num relativo consenso entre as forças progressistas e de esquerda, a segunda tem infelizmente captado partes da esquerda — e é, em absoluto, igualmente significativa.
É neste impasse que a questão do “campismo” ressurge com particular premência. Por “campismo” refiro-me a um leque de posições e tendências que apoiam qualquer força ou Estado com base na respectiva oposição ao imperialismo ocidental, independentemente da sua própria natureza reaccionária ou progressista.
O “campismo” é um legado da Guerra Fria, articulado por auto-proclamados anti-imperialistas e apoiantes do chamado “campo da resistência”, costumando reduzir o mundo a uma lógica binária de dois “campos”: o imperialismo (os Estados Unidos, a NATO, Israel e os seus aliados) versus “a resistência” (o Irão, a Rússia, a China, a Síria de Assad, etc.). Levantamentos democráticos e subversivos contra estes últimos Estados, como o Rojava, vêem-se assim rejeitados, vistos como intrinsecamente suspeitos ou “cavalos de Tróia” do inimigo. Qualquer crítica aos ditadores é de imediato desqualificada como “cumplicidade com o imperialismo”.
Mobilizações populares são reduzidas a meras “correias de transmissão ocidentais”, ou então instrumentalizadas na medida em que possam servir a um dos campos. A lógica do “inimigo do meu inimigo” torna-se um álibi: passa a servir de desculpa para ignorar a repressão interna e os protestos que se seguem, reduzindo-os a meras parcelas de um conflito geopolítico mais vasto.
O resultado é a paralisação da solidariedade mútua internacionalista baseada nas experiências e destinos partilhados das classes oprimidas, agora porém incapaz de segurar anti-autoritarismo e anti-imperialismo na mesma mão. A pretexto de impedir a “exploração imperialista” das revoluções, os campistas tendem a privilegiar uma esquerda estruturalmente marginalizada, “prudente”, não raro condenada à derrota perpétua.
Este “anti-imperialismo assente na identidade” privilegia a lealdade a Estados “anti-ocidentais” em detrimento de uma análise do capitalismo global. E, ao fazê-lo, justifica a repressão, o patriarcado, a homofobia e o colonialismo interno em nome da “resistência”. Dá-se prioridade absoluta à luta contra o imperialismo ocidental, reduzindo-se as vítimas dos Estados “anti-imperialistas” a “danos colaterais”.
O ensaísta irlandês Fred Halliday descreveu este tipo de pensamento como “anti-imperialismo para tolos”. Em nome da hostilidade para com os Estados Unidos, esta postura reforça violentamente, na prática, um Estado teocrático que reprime a esquerda, as minorias nacionais, as feministas e os conselhos populares. O conceito foi posteriormente recuperado pela activista síria Leila Al-Shami no seu livro Burning Country para designar os apoiantes de Bashar al-Assad durante a revolução árabe da década de 2010. Da repressão soviética da revolta húngara de Budapeste em 1956 aos nossos dias, este anti-imperialismo para tolos tem servido de máscara à violência de Estado e ao esmagamento da revolta.
Observa-se tal tendência em certos segmentos da esquerda ocidental branca, mas também em modos de pensamento ligados aos processos de descolonização. Enquadra-se no que se poderia chamar de “branqueamento anti-imperialista”, o uso estratégico da retórica anti-imperialista para ocultar, justificar ou minimizar formas de autoritarismo e violência fascizante exercidas dentro das fronteiras nacionais, especialmente quando os Estados se apresentam como adversários do poder hegemónico ocidental. Embora estas figuras denunciem o colonialismo das potências ocidentais, mantêm muita cegueira, cumplicidade mesmo, para com formas de “colonialismo interno”, forma usada por povos minoritários como os curdos e os baloches para descrever a sua relação com o poder estatal iraniano.
Esta prática é também frequentemente acompanhada por uma forma de manipulação psicológica racial. A forma de manipulação psicológica clássica refere-se à que consiste em pôr sistematicamente em dúvida a palavra e estado mental das mulheres. Tendo o termo inglês “gaslighting” passado a termo de referência em psicologia e, mais tarde, ferramenta crítica do feminismo, ele abrange agora, mais amplamente, um tipo de linguagem política enganosa, violenta e até negacionista. Do estrado do relativo privilégio, “ensina-se” a comunidades historicamente sujeitas tanto à dominação imperial como à repressão interna como hão-de interpretar “como deve ser” o imperialismo e a resistência. Esta postura condescendente não se limita a restaurar hierarquias coloniais de conhecimento; tira legitimidade às ideias e experiências vividas — à própria agência — de quem está sujeito a uma trama complexa de sistemas de violência.
As consequências são bem visíveis. A República Islâmica do Irão instrumentaliza este discurso tributário da “descolonização” para rotular manifestantes de “terroristas” e endurecer o seu aparelho coercivo. É uma lógica que igualmente ajuda a justificar políticas discriminatórias dirigidas contra os migrantes afegãos no Irão: retratando-os como ameaça interna, o Estado alija para cima deles a responsabilidade por dificuldades que derivam realmente do seu próprio regime político, social e económico.
A lógica contra-revolucionária do “campismo”
Após o genocídio em Gaza e a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão em Junho de 2025, o “campismo” voltou a dominar parte da esquerda radical global no Ocidente, bem como na América Latina, em África e no mundo árabe. Ele reduz a política iraniana a um duelo entre o “Irão” e o “eixo EUA-Israel”. As revoltas populares, reprimidas no sangue desde 2017, são passadas em silêncio ou refeitas segundo os moldes do discurso oficial do Estado: “infiltração da Mossad”, “revolução colorida”, “conspiração ocidental” e assim por diante. Transforma-se os movimentos sociais em ameaças à segurança e legitima-se a repressão — da violência de rua às execuções — a pretexto do “estado de emergência” ou da “inoportunidade”. Fazendo do povo que se insurge o inimigo principal, o campismo é, na verdade, profundamente contra-revolucionário.
Sob o regime de guerra permanente que alastra, passa-se o tempo a dizer aos povos em luta que retrocedam, se aguentem aí em nome de uma urgência superior. Até os que reconhecem a natureza repressiva daquelas forças põem amiúde de lado as lutas emancipatórias em nome da estratégia. A isto chamaram Morteza Samanpour e Amir Kianpour “campismo estratégico”. Há muito que se anda a armadilhar as lutas feministas exactamente nesta mesma lógica: pede-se-lhes sempre que esperem, primeiro pela classe, agora pelo anti-imperialismo. Mas o feminismo político tem identificado claramente que a essência do adiar é que “mais tarde” tende para “nunca”. Não se relegue nenhuma luta para a “sala de espera da história” em nome de uma concepção linear de libertação, nem as sacrifiquemos a uma hierarquia de causas alegadamente mais urgentes.
Desenvolvimentos geopolíticos recentes ainda dão maior campo de manobra aos campistas. Durante a guerra de Israel contra o Irão, em Junho de 2025, a que se costuma agora chamar “Guerra dos Doze Dias”, a experiência concreta de destruição reforçou as tendências anti-guerra no interior do Irão. No entanto, após o massacre sangrento perpetrado pelo Estado, em Janeiro de 2026, parte da sociedade, exausta e confrontada com um beco sem saída, começou a ver a intervenção estrangeira, erroneamente, como meio para derrubar o governo, uma vez tentadas sem êxito outras vias internas, e mantendo-se o Estado imune à pressão. Um médico proeminente relatou que, a seguir aos protestos de Janeiro, se tinham apresentado num só hospital, em Teerão, “pelo menos mil” pacientes (manifestantes) com lesões oculares graves, todos a necessitarem de tratamento urgente para lhes tentar salvar a vista.
É precisamente aqui que o “campismo” cai por terra. Condenar a guerra externa ficando em silêncio quanto à violência estatal interna não é uma posição anti-guerra de princípio, mas uma forma de relativismo que apaga diferenças cruciais entre regimes e modalidades de violência. O caso não é uma alegação de excepcionalismo iraniano, invocado para legitimar um ataque militar, como algumas correntes trumpistas e monárquicas fizeram. A questão é, sim, a insistência em que não se possa pôr um sinal de igual entre uma ditadura teocrática em que um chefe não eleito exerce um poder extralegal sobre noventa milhões de pessoas pelo terror social, execuções, tortura, prisão política, isolamento digital, poder religioso misógino e políticas racistas-coloniais para com minorias nacionais e os migrantes afegãos; e Estados em que ainda existem liberdades civis e legais, por mais limitadas que sejam, e onde a violência opera a uma escala e em moldes estruturalmente diferentes.
Condenar, como fazem os campistas, a guerra externa ou a intervenção imperialista sem denunciar explicitamente esta violência interna e o massacre da própria população tanto é, politicamente, tresler completamente as dinâmicas no Irão, como equivale a aliar-se ao Estado contra o povo que ele mata. Os Estados governam dividindo a população e esmagando revoltas. Os campistas não resistem a esta lógica; seguem-na. Ao tomarem os Estados e os respectivos alinhamentos geopolíticos para seu ponto de referência primário, eles reproduzem e legitimam as divisões impostas de cima, substituindo as solidariedades forjadas entre os povos em luta a partir de baixo por lealdades a campos estatais.
(continua)
1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.
No passado dia 14 de setembro, a Jacobin, revista de esquerda norte-americana com grande projeção internacional, apresentou os resultados do relatório “The working-class vote is not lost” (“O voto da classe trabalhadora não está perdido”), realizado pelo Center for Working-Class Politics e pela professora de Direito norte-americana Joan C. Williams, com apoio da própria revista e da Fundação Rosa Luxemburgo.
Através das preferências de 40 000 entrevistados, o estudo procurou chegar às caraterísticas, posições e táticas que tornariam mais provável um maior apoio eleitoral dos trabalhadores dos EUA a uma hipotética candidatura do campo da esquerda (neste contexto, a alojada no Partido Democrata). Com grande sustentação estatística, o relatório apresenta conclusões que merecem um olhar interessado.
Os entrevistados valorizam, face a tópicos como “defesa da democracia” ou “questões climáticas e de guerras culturais”, a priorização da questão económica, inclusive de forma ambiciosa: investimentos públicos mais robustos em infraestruturas e criação de emprego foram considerados com maior importância do que medidas mais “contidas”, como incentivos fiscais. Foram privilegiados o acesso a boas condições laborais e a recompensa ao “trabalho árduo”, face a programas de distribuição de riqueza no abstrato, como a maior taxação a fortunas e grandes grupos económicos.
Investimentos públicos mais robustos em infraestruturas e criação de emprego foram considerados com maior importância do que medidas mais “contidas”, como incentivos fiscais.
A conexão com os “valores da classe trabalhadora” foi também enaltecida no relatório. Destes, foram destacados “a lealdade à comunidade e ao país, o orgulho no trabalho árduo, o respeito pelas instituições tradicionais e pelo cumprimento das regras, a segurança pessoal e o antielitismo”. Medidas mais progressistas (a nível de política climática, por exemplo) não necessariamente afastam os trabalhadores americanos, desde que exista uma tentativa de as conjugar com os valores identificados.
Foram bem considerados o discurso político centrado na auscultação das classes trabalhadoras (ao invés do foco nas classes intermédias) e a retórica populista visando a elite (sobretudo política). Quanto à proveniência dos candidatos, os entrevistados rejeitam aqueles surgidos de estratos mais altos, mas não necessariamente cingem a sua preferência a perfis de trabalhadores manuais. Segundo a Jacobin, “pequenos empresários, profissionais de áreas como enfermagem e ensino (frequentemente associadas ao trabalho de prestação de serviços e cuidados) e trabalhadores do setor de serviços, como empregados de mesa e balconistas, têm um desempenho junto aos eleitores da classe trabalhadora tão bom como o dos candidatos oriundos do trabalho manual”. A origem étnico-racial e o género dos candidatos foram, em regra, irrelevantes.
Estas foram algumas conclusões deste estudo alargado. Que merece, não obstante, algumas cautelas.
Mais do que conceber um projeto político de emancipação da classe trabalhadora norte-americana, o relatório pretende auxiliar, de um ponto de vista meramente eleitoral, o Partido Democrata a ligar-se às massas. Sabemos, no entanto, como a cúpula dirigente deste partido, tão comprometida com os interesses oligárquicos da classe dominante como a do Partido Republicano, tentará barrar qualquer aproximação ao ideário socialista ou mesmo social-democrata. Nesse aspeto, sem uma força político-partidária autónoma da classe trabalhadora norte-americana, o estudo arrisca-se a cair “em saco roto”. E o relatório, sendo útil para compreender os interesses eleitorais dos trabalhadores dos EUA, não os ausculta para a construção de uma real alternativa política.
Ainda assim, não se pode negar a sua importância no contexto presente. Esta assenta, simplificadamente, em três pontos.
O primeiro é, obviamente, o auxílio interno que este estudo pode oferecer à organização, preparação e (re)orientação tática de candidaturas do campo socialista (ainda que dentro dos limites do Partido Democrata) e o sucesso destas em embates futuros com o Partido Republicano, que, em 2024, granjeou amplamente o apoio das massas trabalhadoras americanas. Auxílio que “pode” oferecer, não necessariamente “vai” oferecer: falta compreender a vontade dos dirigentes políticos da esquerda norte-americana para considerar e assimilar estes dados, mesmo que eles desdigam a estratégia previamente adotada.
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Em segundo lugar, este estudo recentra a reflexão do campo socialista sobre a sua própria crise não apenas nas teorizações e sugestões de especialistas, académicos e militantes já completamente entrosados com a esquerda, mas nos genuínos anseios das massas. Curiosamente, apesar de se constituir como uma proposta política em benefício da emancipação destas últimas, são estas as menos consideradas na sua construção. As cúpulas partidárias não raras vezes fecham-se a esta auscultação. Estudos como este demonstram que a necessidade de recentrar o discurso nos problemas económicos de quem trabalha, sem deixar de considerar o trabalho como o centro da nossa vida comunitária, não é só um palpite que um punhado de intelectuais de esquerda apregoa, mas uma honesta vontade de quem dá razão de ser a esta mesma esquerda. Este recentramento não implica abdicar de determinadas linhas vermelhas, erigidas pela própria tradição intelectual em que a esquerda se insere, mas ajustar a proposta e a estratégia política para voltar a ganhar a confiança das massas.
Em terceiro lugar, o relatório pode ter o condão de inspirar experiências semelhantes noutras realidades nacionais. “Pode”, porque mais uma vez deve aliar-se à possibilidade a motivação de a concretizar. Foi sempre ressalvado que o estudo incluiu entrevistas a trabalhadores norte-americanos sobre a sua apetência por votar à esquerda em eleições nos EUA. Se consideramos a sua importância para a estratégia da esquerda, como campo político, é porque é muito o que une os anseios da classe trabalhadora norte-americana à de outras realidades nacionais, quanto mais não seja a própria condição… de classe. Ainda assim, as condicionantes nacionais importam e podem impactar alguns destes resultados. Os trabalhadores, existindo como categoria sem conhecer fronteiras geográficas, sentem-se, em grande medida, parte da sua unidade nacional, na qual estão organizados, como este mesmo relatório aponta. Olhar, em Portugal, a título de exemplo, para estes resultados e aplicá-los sem ter em conta as especificidades das massas trabalhadoras portuguesas incorre nos mesmos erros que o estudo aponta.
Por isso mesmo é necessário que se multipliquem as iniciativas deste tipo, só possíveis com uma esfera pública própria, independente do Estado e do mercado. Estas iniciativas devem ajudar a (re)pensar os caminhos da esquerda, numa altura em que surgem novos projetos políticos e em que os antigos repensam (ou deveriam) as suas orientações estratégicas. Para que antigos e novos não insistam na tendência de prezar mais uma almejada pureza ideológica do que a confiança daqueles para quem falamos.
Em 18 de junho de 2026, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou, em sessão extraordinária, o maior pacote de reformas económicas da história de Cuba depois da Revolução: 176 medidas que abrem espaço à banca privada, convertem empresas estatais em sociedades por ações, eliminam o teto de trabalhadores das pequenas e médias empresas, autorizam o investimento de cubanos residentes no exterior — com usufruto de terras por até 99 anos — e suprimem o cabaz alimentar universal vigente desde 1962. Anunciado como Programa Económico y Social 2026 e justificado pelo próprio Governo como resposta à asfixia provocada pelo bloqueio, o pacote inscreve em lei a viragem pró-mercado mais profunda desde 1959. A entrevista que aqui publicamos, realizada em Havana e Cienfuegos com Aldo Cordeiro Sauda e originalmente publicada no site brasileiro Quilombo Invisível em maio de 2026, antecedeu em poucas semanas a institucionalização desse programa.
Em 18 de junho de 2026, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou, em sessão extraordinária, o maior pacote de reformas económicas da história da Revolução: 176 medidas, organizadas em vinte e três eixos, que abrem espaço para a banca privada, convertem empresas estatais em sociedades por ações, eliminam o teto de trabalhadores das pequenas e médias empresas, autorizam o investimento de cubanos residentes no exterior — com usufruto de terras por até noventa e nove anos — e suprimem a cesta básica universal vigente desde 1962. Anunciado como Programa Económico y Social 2026 e justificado pelo próprio governo como resposta à asfixia provocada pelo bloqueio, o pacote inscreve em lei o giro pró-mercado mais profundo desde 1959.
A proposta do Partido Comunista Cubano invoca explicitamente os modelos chinês e vietnamita de abertura controlada. Os números expõem a distância que separa Havana desses paradigmas de “socialismo de mercado”. Segundo os dados compilados pelo economista Carmelo Mesa-Lago, o Estado responde ainda por 90,8% do PIB cubano, contra 40% na China e 37,3% no Vietname, e apenas 21,9% das empresas cubanas são não estatais, ante 89,7% na China e 96,7% no Vietname. Entre 2009 e 2020, enquanto a China crescia 7,4% ao ano e o Vietname 5,9%, Cuba avançava 0,9%. Já o coeficiente de Gini cubano, estimado pela socióloga Mayra Espina Prieto em 0,407, é hoje superior ao vietnamita (0,357) e ao chinês (0,385). A entrevista que se segue, realizada em Havana e Cienfuegos, originalmente publicada no site Quilombo Invisível em maio de 2026, antecedeu em poucas semanas a institucionalização desse programa. Cabe ao leitor avaliar em que medida as tendências discutidas na conversa e os limites estruturais da integração de Cuba no mercado mundial encontram confirmação nos acontecimentos anteriores.
Mesmo que as reformas económicas sejam introduzidas sem qualquer alteração no sistema político de partido único da ilha, elas seriam bem-vindas se ajudassem a aliviar a situação económica do povo cubano. Convém lembrar que nem a China nem o Vietname reformaram sob um intenso bloqueio energético e um regime de restituição patrimonial como os que pesam sobre Cuba: a ilha abre-se sob o cerco do Helms-Burton Act — a legislação extraterritorial que permite aos antigos proprietários radicados em Miami reivindicar, na justiça norte-americana, os bens nacionalizados após 1959 —, o que ameaça tornar a reintrodução do capital estadunidense incomparavelmente mais violenta do que nas experiências do Leste Asiático. A via cubana, portanto, parece aproximar-se muito mais do desastre económico dos países que sucederam à União Soviética nos anos 1990 do que o modelo apresentado pelo PC Cubano.
Longe de corrigir a crise social, a abertura ao capital estrangeiro, vindo em particular dos exilados pró-Trump de Miami, tende a aprofundá-lo. A dolarização de facto da economia diária — agora formalizada pela reforma — beneficia quem dispõe de dólares, remessas e passaporte estrangeiro, e penaliza quem depende dos salários em pesos e da caderneta esvaziada. Esse recorte é também racial: como regista a entrevista, cubanos de ascendência africana recebem menos remessas que os brancos, de modo que a economia dolarizada amplia a desigualdade racial herdada do Período Especial. O pacote de junho acentua essa lógica ao converter a diáspora em investidora interna e ao desmontar os mecanismos universais de proteção social.
O texto procura reconstruir algumas das contradições estruturais da sociedade cubana contemporânea a partir de conversas com investigadores, ativistas e organizadores associados ao livro CUBA 11J, obra produzida por militantes marxistas que participaram nas massivas mobilizações anti-austeridade dos dias 11 e 12 de julho de 2021. As questões abordadas incluem a crise energética e os seus efeitos territoriais, a recomposição das formas de mercado, o papel estrutural das remessas e da emigração, as desigualdades racializadas, areconfiguração do trabalho e da reprodução social, a repressão política e as dificuldades enfrentadas por correntes críticas de esquerda no contexto atual.
Aldo Cordeiro Sauda
Quilombo Invisível: No ano passado, o Congresso cubano aprovou uma série de reformas económicas. Entre elas, destacam-se a dolarização parcial da economia e a expansão das situações em que cubanos poderiam ser detentores de mais de uma propriedade. Como essas mudanças foram recebidas pela população? Quem mais tende a beneficiar com elas?
Aldo Cordeiro Sauda: A grande maioria das relações económicas de Havana com o resto do mundo é influenciada pelo chamado Helms-Burton Act, uma legislação aprovada no Congresso norte-americano em 1996, durante o Governo Clinton. Essa lei radicalizou, intensificou e institucionalizou a agressão norte-americana a Cuba. Ela deu a Washington os chamados mecanismos de aplicação extraterritorial do direito estadunidense, ou, se você quiser, uma forma de jurisdição imperial, na qual a lei americana é imposta a Cuba para reverter as expropriações de refinarias, fábricas, hotéis e latifúndios rurais ou urbanos nacionalizados após a Revolução de 1959.
Isso significa que, se você mora em Miami e seu avô teve lá atrás uma empresa, um prédio ou outra propriedade expropriada na Revolução de 1959, você pode entrar com um processo nos Estados Unidos para reclamar essa propriedade em Cuba. Isso criou um nó nas relações de propriedade em Cuba e o sistema jurídico norte-americano, difícil de superar e que, na prática, trava as relações económicas cubanas com o resto do mundo.
Um bom exemplo de litígio é o caso da rede de hotéis Meliá, em particular seu empreendimento na Praia Esmeralda, em Holguín. Os cubanos atraíram a rede hoteleira, de capital espanhol, para investir na indústria do turismo cubano. Os EUA responderam processando o grupo Meliá porque o hotel foi construído em um terreno baldio que era de suposta propriedade da familia Sánchez Hill, expropriada em 1959. Como existe um processo nos Estados Unidos de reintegração dessa propriedade, a estrutura financeira do grupo Meliá, dentro ou fora de Cuba, passa a ter suas transações em dólares dificultadas, travando o acesso a capital norte-americano. Essa questão da jurisdição internacional dificulta qualquer tipo de processo de abertura da economia cubana.
Esses mecanismos de jurisdição extraterritorial, na verdade, representam o elemento mais extremo de um amplo complexo jurídico imperial norte-americano. Esse extremismo em relação a Cuba está presente quando Trump diz que vai assumir o controle absoluto da ilha. Isso em parte se explica por motivos temporais: durante o colapso da União Soviética, não existia uma legislação norte-americana que delimitasse a questão da propriedade naqueles países equivalente ao Helms-Burton Act, com jurisdição extraterritorial. Inclusive, se você pega o caso chinês, os Estados Unidos, em 1979, basicamente resolvem esse problema com as relações de propriedade na China com um acordo rápido e pragmático. Portanto, há um excepcionalismo no caso cubano, talvez ligado à necessidade de combater a esquerda na América Latina independente da Guerra Fria.
Quando você pega o caso das propriedades na União Soviética, houve todo um processo de privatização, mas ninguém falou em restaurar as propriedades anteriores à Revolução de 1917. Se houve, foi algo mais concentrado na questão da Igreja Ortodoxa, mas não existia uma mobilização para trazer os proprietários anteriores, inclusive porque eles não estavam geograficamente concentrados como estão os proprietários do período pré-revolução cubana em Miami, com relações com os políticos na Florida, com relações aprofundadas com o governo norte-americano.
Então, essas relações fazem que qualquer projeto maior de abertura por parte dos cubanos acabe caindo nessa barreira. De novo, é algo que não se teve, por exemplo, nos países do Leste Europeu como Polónia ou Checoslováquia, onde, mesmo tendo havido alguns casos de restauração de propriedades anteriores ou compensação, foram processos com uma certa maleabilidade. Em muitos desses lugares, a propriedade continuou estatal ou foi privatizada, mas não se retornou aos proprietários do período anterior.
Essa é a grande barreira, porque basicamente os americanos querem retomar a propriedade das usinas de açúcar, das refinarias de petróleo, dos bancos e, principalmente, as propriedades urbanas e rurais. No caso de propriedades urbanas, isso se relaciona diretamente com os interesses da família Trump. Você pega Havana, uma das cidades mais bonitas da América Latina, se não a cidade mais bonita, exatamente porque não existe especulação imobiliária. Havana Vieja tem aqueles prédios lindos, antigos, que a despeito da degradação dão todo um charme à cidade e que, provavelmente, quando houver de facto uma invasão do capital norte-americano, vão virar edifícios gentrificados, mercadoria ao serviço da especulação imobiliária, fenómeno que, na prática, é dissuadido através da restrição ao grande capital pelo Estado.
Dito isso, a abertura que se tem, que é de novo uma abertura lenta, travada e pautada pelo Helms-Burton Act, em geral beneficia a burocracia, seus filhos e seus netos, os chamados ‘nepo babies’. A abertura do mercado é, em geral, isso: quem beneficia são aqueles vinculados ao Partido Comunista. Uma figura muito mencionada aqui em Havana é o “Cangrejo”, neto de Raúl Castro, descrito como um playboy que virou dono dos empreendimentos de turismo e de uma série de empresas privadas. Ele é odiado aqui em Havana; todos falam dele. São críticas baseadas certamente em relatos jornalísticos, sem claro lastro documental, mas me parece inevitável que essas figuras acabem surgindo. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia acaba empurrando para isso, porque a dolarização foi acompanhada de uma enorme crise: as cadernetas – aquilo que garantia a alimentação pelo Estado – vão tendo cada vez menos alimentos à disposição, e passa a haver cada vez mais alimentos à disposição de quem tem acesso a esses mercados privados em dólares, o que aumenta brutalmente a desigualdade no próprio acesso à comida.
Isso também está ligado ao facto de que, desde os anos 90, mas muito mais agora, principalmente desde a Covid, milhões de cubanos saíram do país e mandam dinheiro de volta às suas famílias. O envio de remessas, junto com o turismo e, em alguns sentidos, a exportação de missões médicas, são as três grandes fontes de capital estrangeiro aqui em Cuba. Elas acabam sempre beneficiando alguns em detrimento de outros, em geral os brancos em detrimento dos negros, porque quem é imigrante, quem está fora do país, consegue melhores empregos e depois consegue mandar esse dinheiro com facilidade, são na maioria das vezes as pessoas brancas. Isso acaba tendo um recorte racializado, a centralidade que ocupa a economia dolarizada. Portanto, a dolarização da economia aumenta a desigualdade racial.
Vale mencionar também que a questão da restauração dos direitos de propriedade no caso de Cuba é, em alguns sentidos, mais complexa do que na Venezuela. As grandes estatizações que ocorreram durante o governo Chávez foram de duas grandes empresas norte-americanas, a Exxon Mobil e a ConocoPhillips, que tinham participado nas privatizações neoliberais dos anos 90, do setor petroleiro venezuelano e que foram expropriadas depois por Caracas. É relativamente fácil restaurar os direitos de propriedade anteriores, primeiro porque eles ocorreram nos anos 90. Existe toda uma estrutura legal internacional vinculada ao Banco Mundial e a tribunais internacionais que garantem esses direitos de propriedade ao grande capital estrangeiro principalmente a partir dos anos 90. Essa questão se resolve com os americanos retomando para si o petróleo venezuelano da PDVSA, algo que na prática já está acontecendo.
Em Cuba, não. Em Cuba, você tem particulares individuais que não são grandes empresas petroleiras norte-americanas, com quem você resolve por meio de um acordo imposto pela agressão imperial norte-americana ocorrida esse ano. No caso de Cuba, você tem milhares e milhares de processos que correm na justiça norte-americana para restaurar a propriedade em todos os níveis. Portanto, a violência do que será a reintrodução do capital norte-americano e dos interesses norte-americanos em Cuba vai perpassar centralmente a restauração desses direitos individuais.
Por isso, a restauração aqui em Cuba vai ser provavelmente mais violenta do que qualquer outra, mais violenta no sentido da expropriação dos direitos à habitação e dos direitos sociais do que talvez na Rússia ou Leste Europeu. Provavelmente, alguma fração da burocracia do Partido Comunista vai continuar com o domínio sobre alguns setores da propriedade hoje estatal, mas isso vai ter que se dar em por meio de um acordo com essas frações burguesas cubanas que estão na Florida querendo reclamar sua propriedade como um todo, o que, de novo, não ocorreu na União Soviética. No caso cubano, é isso o que eles querem, e é isso o que cria essa situação em que o Trump fala com algum grau de verdade que vai voltar a ser “dono” de Cuba se seu plano der certo.
Quilombo Invisível: Diante da inflação severa, dos apagões exaustivos e do sistema de lojas em Moeda Livremente Conversível (MLC), como as pessoas nas ruas interpretam a raiz da crise? A quem a população costuma atribuir a culpa pela escassez diária?
Aldo Cordeiro Sauda: A questão das reformas na política monetária de 2021 é algo que todos os cubanos criticam. A primeira questão é o fim daquela moeda chamada CUC, que era uma espécie de dólar oficial, um câmbio oficial controlado pelo Estado que controlava o dinheiro vindo do exterior. Com a reforma do governo Díaz-Canel, o dólar oficial foi abandonado e a CUP, o peso cubano, passou a oscilar de forma livre em relação à moeda norte-americana. Essa política liberou a utilização do dólar, na prática, dolarizando a economia local. De novo, isso remete àquela questão das remessas financeiras enviadas pelos imigrantes a quem ainda está dentro do país. A questão das remessas é uma parte estrutural da economia, não só de Cuba, mas de diversos países do Caribe e da América Central: Guatemala, o próprio El Salvador, o Haiti.
Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.
Na prática, a política de sanções energéticas do Governo Trump entrou para quebrar as pernas da economia do turismo, dando às remessas em dólar um papel ainda maior. Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.
Eu vim através do Panamá, por exemplo, que ainda mantém os voos para Havana, mas voos diretos que vinham de lugares como Canadá, Rússia, com turistas que vinham aqui com moeda estrangeira, consumiam e injetavam dólares na economia, isso quase secou por conta da falta de combustível.
Mas ao mesmo tempo existe uma crise aqui em Cuba que vem basicamente desde a Covid, quando a indústria do turismo toma o seu primeiro golpe, e agora, digamos, com a crise venezuelana, tomou o segundo golpe, e o golpe agora é ainda mais forte. Mas desde o período da Covid, há uma crise na qual se estima que mais de um milhão de cubanos saíram, deixaram o país. A consequência disso é que cerca de 10% da população foi embora. Tem lugares que estão esvaziados de gente, principalmente de gente jovem, porque quem é jovem e tem algum recurso saiu do país.
A questão dos apagões e da escassez, ao mesmo tempo, não é nova: obviamente, são intensificadas pela situação atual, mas houve também uma redução na vinda de petróleo venezuelano para cá desde o período da Covid. Desde 2020 os venezuelanos aumentaram a exportação de petróleo para países como a China, e em grau menor para os Estados Unidos, reduzindo o envio de petróleo para cá. Então, a crise energética é anterior ao sequestro de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, porém foi acelerada por ela.
É nesse cenário que vai se abolir o CUC, um processo acompanhado por aumentos nos preços de quase todos os serviços públicos e pela redução no acesso a alimentos disponíveis pelas cadernetas. A caderneta é basicamente um instrumento para se ter acesso à comida distribuída pelo Governo. Os salários são muito baixos comparados ao dólar. Isso era compensado pela caderneta e por um acesso a uma certa quantidade de alimentos, como farinha, óleo, feijão e carne de porco, que agora vem sumindo das prateleiras. Por conta da situação atual, a comida que se conseguia acessar antes ficou escassa. E isso é uma coisa que é comentada o tempo inteiro nas ruas.
Por conta dos problemas de planificação, também causados pela falta de gasolina para os carros, de diesel para os caminhões, a distribuição dos alimentos subsidiados, em particular no interior, antes acessíveis pelas cadernetas, secou. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia, mesmo que tenha em parte expandido o acesso a bens de consumo e uma pluralidade maior de alimentos industrializados, não é democratizadora. Ela barra, ela impede: os preços de alimentos se tornam proibitivos para quem não tem acesso a dólares. Na verdade, o que se tem é uma desigualdade acelerada e intensificada no acesso a alimentos, porque quem tem acesso a dólares consegue superar a falta de alimentos que se teria antes no acesso pela caderneta. E para quem não tem dólares? São pessoas que muitas vezes estão no interior. É aí que entra a questão da fome.
Nós viemos aqui em Havana com uma mala de medicamentos para distribuir para as famílias, enviados por alguns companheiros no Brasil. O que mais nos impressionou foi que, conversando com as pessoas, elas faziam questão de sempre dizer: “Olha, agora existe fome em Cuba.” Porque existe essa ilusão na esquerda brasileira de que não existe fome em Cuba, e principalmente desde essa crise, há uma situação realmente de insegurança alimentar.
Acompanhada da dolarização, houve uma enorme alta inflacionária e também uma série de políticas antipopulares, de introdução de princípios da economia de mercado, incluindo aumento exponencial no custo da eletricidade, da água e do transporte.
Muitos ganhos da revolução vêm sendo mais ou menos perdidos pela expansão do mercado, pela expansão de relações capitalistas de propriedade. Só que, ao mesmo tempo, ainda são processos mercadológicos muito limitados porque ocorrem por fora do acesso ao grande capital estrangeiro por conta das medidas do Helms-Burton Act.
Qualquer integração no mercado acaba sendo limitada por isso. Ao mesmo tempo, desde 2021 você tem as chamadas Pymes (PME, Pequenas e Médias Empresas), que são as empresas particulares em processo de expansão. Isso retorna àquilo que eu tinha colocado: quem tem acesso às PME são muitas vezes os filhos e os netos da burocracia, e também vem com um recorte racial: são frequentemente brancos.
Quem tem capacidade de empreender através das PME, quem tem acesso a atravessar as limitações burocráticas, são os filhos e netos daqueles que encabeçaram a Revolução de 59. As PME são em geral celebradas pela população. A abertura económica, por motivos pragmáticos, parece ser quase consensual, o que é algo em muitos sentidos perverso, porque parece, principalmente entre os jovens, existir uma ideia de que o capitalismo e a entrada do capital norte-americano vão resolver todos os problemas da ilha. Mas a restauração de direitos de propriedade anteriores a 1959 tende a intensificar a desigualdade social, e não a reverter aos padrões anteriores aos anos 1990.
Só que isso é um pouco ignorado. As pessoas querem mudança, elas não aguentam mais o estado das coisas. Quando as pessoas te explicam a situação económica e você responde dizendo “Ah, mas o bloqueio”, elas dizem: “Bom, bloqueio já tem 60 anos, quase 70 anos. Não deu tempo de resolver essas questões?” Basicamente, a abertura económica é vista com bons olhos, é celebrada e vista como uma necessidade cubana. Há uma leitura de que desde os anos 1990, do período especial, a vida só piora. De facto, é compreensível o desespero, porém ignora que países como Haiti, a Guatemala e El Salvador estão plenamente integrados no capitalismo mundial, e ao mesmo tempo em uma condição de vida muito pior que Cuba.
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Quilombo Invisível: O apagão recente afetou a ilha inteira. No Brasil, quando apagões acontecem, bairros mais pobres, e com maior presença de populações negras, costumam ser mais afetados e demorar mais para ter a energia restaurada. Em Cuba, há algum paralelo com a situação no Brasil?
Aldo Cordeiro Sauda: O que dita o apagão, além de atingir mais as populações negras, é o recorte Havana versus interior. Quando estive no interior, quase sempre a única fonte de eletricidade eram os painéis solares. Existe mais acesso à eletricidade na capital, inclusive em Havana Vieja e Centro Habana, partes da cidade com uma grande população negra. Aqui a energia é mais preservada até porque os cabos são subterrâneos. Onde há cabo subterrâneo, eles evitam cortar a luz por conta da dificuldade de fazer o reparo que pode ser causado pelas sobrecargas nas variações de tensão. Onde o cabo é aéreo, há mais crise de energia.
Enquanto o principal responsável pela crise de energia é o bloqueio norte-americano, não se pode ignorar as consequências destrutivas da planificação burocrática. Segundo pesquisa da Universidade de Columbia, em Nova York, a reestruturação do sistema elétrico cubano está estimada em 10 bilhões de dólares1, porém o Governo cubano gastou uma quantidade de dinheiro ainda mais elevada em novos hotéis nos últimos 15 anos, negligenciando a importância do sistema elétrico. Os mega investimentos em grandes hotéis de 5 estrelas são destacados pela população como um símbolo de desperdício, em particular porque a política se acentuou durante a crise da Covid, enquanto a taxa de turismo no país despencou. A taxa de ocupação nos hotéis hoje está estimada em 20%. Conheci o caso de um casal de brasileiros que foram transferidos de seu hotel para um com maior ocupação por uma questão de excesso de vagas, porém, as construções de novos edifícios hoteleiros continuam. A isso se soma a questão da força de trabalho, que segundo relatos de moradores vem em grande parte trazida de países como Índia e Paquistão, substituindo a mão de obra local.
Agora, a questão da luz é importante lembrar que ela vem de antes do sequestro de Maduro, porque já desde a Covid os venezuelanos reduziram o envio de combustível para cá, e as crises energéticas têm ocorrido desde a Covid, sendo um dos elementos que motivaram o 11J, o movimento de massas que tomou as ruas em julho de 2021, cuja palavra de ordem era “Pátria y Vida”, uma ideia de se opor ao slogan do regime, “Pátria o Muerte”. E aí, sim, essa mobilização tem uma grande participação negra, e os rappers associados aos protestos, ligados ao Movimiento San Isidro (MSI), também são rappers negros. Existe esse recorte de que as pessoas que foram às ruas em rejeição ao regime tiveram uma forte presença da comunidade negra cubana.
O melhor balanço que conheço sobre as mobilizações do 11 de julho, é um livro chamado Cuba 11J, perspectivas contrahegemónicas de las protestas sociales. Ele mostra sob diferentes ângulos os protestos de uma perspectiva crítica marxista, organizado por um jovem militante socialista do movimento negro.
Quilombo Invisível: Alguns relatos elogiosos sobre Cuba destacam o cultivo de alimentos em cidades (agricultura urbana) como estratégia de superação da escassez de alimentos. Pelo seu contacto, como a população cubana se relaciona com a produção de alimentos? E como isso se relaciona com a burocracia estatal do país?
Aldo Cordeiro Sauda: Me parece que a questão do acesso a verduras, legumes e frutas não cítricas em Cuba não é o problema principal. O que falta é a comida industrializada, assim como a carne. Óbvio, o problema da carne também é o problema da falta de eletricidade. Se cai a energia, se você tem quatro, cinco, seis dias de apagão, você perde a carne nas geladeiras e nas arcas frigoríficas.
Sobre essa questão da agricultura urbana, existe o livro publicado pela editora Elefante, Entre a Utopia e o Cansaço, que tem um conjunto de textos muito interessantes, em particular o que trata da militarização da economia. A própria Joana Salem, especialista em Cuba, tem uma pesquisa muito rica sobre a questão agrária que merece ser lida. O trabalho dela sobre Cuba e a América Latina em geral é bastante sério. Fabio Luís Barbosa dos Santos, professor de RI da Unifesp, um dos editores do livro junto com Aline Miglioli e Vanessa Oliveira, também é um pesquisador muito qualificado, com longa trajetória no tema. O trabalho organizado por ele tem textos muito interessantes, inclusive sobre o papel dos militares na economia, que hoje é preponderante.
A militarização da economia cubana, através do GAESA (Grupo de Administración Empresarial) segundo o sociólogo cubano-americano Samuel Faber, atinge pelo menos 40% dos empreendimentos. Então, você tem esse recorte, similar a países como Egito e Paquistão. A GAESA é em boa parte responsável pelos problemas burocráticos da planificação económica.
Quilombo Invisível: Assim como no Brasil, em Cuba também há um discurso oficial de superação das discriminações raciais (a tal da “democracia racial”), usado como forma de impor uma unidade popular. No entanto, a quase totalidade dos comércios em Cuba seguem comandados por pessoas brancas. Na sua visão, o racismo em Cuba foi superado? De que forma o racismo se relaciona com as ações do Estado?
Aldo Cordeiro Sauda: A questão do racismo, atenuada pelos ganhos sociais da revolução, é intensificada principalmente após o Período Especial iniciadlo depois dos anos 90. É importante dizer, quando se fala da questão racial em Cuba, o papel central que Cuba teve na libertação no Sul da África, em Angola, Moçambique, e também na Guiné-Bissau. Cuba teve um papel muito importante no combate ao apartheid na África do Sul. Isso é um marco e algo que não pode ser esquecido quando a gente fala de Cuba, em particular o envio de tropas em apoio ao MPLA na guerra anticolonial em Angola e o apoio ao ANC de Nelson Mandela na África do Sul. Essa é uma marca do regime que faz parte da história cubana.
O problema é que a abertura aos mercados e o surgimento da desigualdade económica atingem principalmente a população negra, em parte porque a direção inicial da revolução, à exceção de Juan Almeida Bosque, foi majoritariamente formada por intelectuais brancos de origem hispânica. Quando se inicia a restauração nos anos 90, serão os filhos e os netos da direção revolucionária que vão sair na frente, e isso significa que os negros tendem a ser mais afetados.
Com isso se combina o papel da imigração: quem tem mais acesso à imigração na Europa e América do Norte, por redes familiares, são em geral os brancos. Portanto, as famílias de pessoas brancas vão ter mais acesso a passaportes e cidadanias europeias (espanhola e italiana), a dólares vindos do exterior, e a dolarização da economia afeta de forma muito desigual os brancos e os negros por isso. Segundo ativistas do movimento negro com quem conversei, há um aumento, pós-anos 90 na desigualdade racial. Desde o Período Especial, essa questão vem ganhando relevância.
Quilombo Invisível: É um bordão irónico e famoso, em apoio a Cuba, dizer que na ilha apenas três coisas funcionam: saúde, educação e segurança. Mas como a segurança é mantida na prática na ilha? A ação policial possui contornos raciais? Algum grupo tende a ser mais perseguido pela polícia?
Aldo Cordeiro Sauda: Cuba, segundo a Amnistia Internacional, há hoje centenas de presos políticos e, junto com isso, um alto índice de presos per capita. Existe uma análise do Instituto de Pesquisa em Política Criminal, do Birkbeck College, de Londres, que aponta Cuba entre os países com altos índices de encarceramento, porém muito abaixo de EUA, Brasil e El Salvador. Tudo isso, possivelmente, acaba tendo um recorte racial.
Um dos grandes problemas, me parece, é que Cuba colocou nas negociações com os americanos a libertação de presos políticos. Isso é terrível, porque acaba entregando aos Estados Unidos a bandeira das liberdades civis, da liberdade de associação e expressão. Produz ilusões sobre os Estados Unidos como defensores da democracia. Isso apenas contribui para o problema que existe aqui, isto é: a geração que nasceu nos anos 80 e atravessou o Período Especial dos anos 90 na juventude só vê a piora da economia cubana, só vê Cuba piorar.
Isso faz surgir, principalmente entre os jovens, todo um setor que podemos dizer ser “pró-intervenção imperialista”, pró-Estados Unidos, na juventude, que vê a intervenção norte-americana como aquilo que vai resolver o problema de Cuba e a única alternativa para a atual conjuntura. Então, surge a possibilidade de setores pró-restauração capitalista entre a juventude trabalhadora.
O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que os jovens culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano.
Essa é a maior derrota que a política da burocracia impõe, principalmente entre os jovens. O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Ernesto Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano, e que acaba sendo gerida por uma camada de profissionais técnicos e gestores cubanos cuja função acaba sendo gerir as consequências do bloqueio.
O facto de a revolução não se ter expandido para além da própria ilha – assim como não se pode ter socialismo em um só país, como, em última instância, foi na derrota da revolução russa nos anos 20 e 30 – torna ainda mais difícil manter uma revolução em uma só ilha. É isso que acaba alimentando as próprias divergências entre Fidel Castro e Che Guevara, porque o Che é muito crítico do que ele chama de “manuais soviéticos”, a adoção de políticas burocráticas e um modelo baseado na experiência soviética em Cuba, mas que acaba sendo a consequência inevitável de uma revolução que não consegue expandir.
Quilombo Invisível: Como sabemos, a América Latina enfrenta, em particular nos últimos meses, uma escalada do imperialismo estadunidense. Muitos na esquerda ficam em silêncio sobre os abusos do regime cubano por receio de que poderiam alimentar um imperialismo que, em última instância, poderia levar a uma piora nas condições na ilha. Na sua visão, como a esquerda latinoamericana pode contribuir para a superação da ditadura na ilha?
Aldo Cordeiro Sauda: Toda a ajuda, todo o apoio humanitário a Cuba é bem-vindo. Toda a esquerda que se esforça para combater o bloqueio cumpre um papel progressivo. Isso é algo que nós precisamos ter em mente. Ao mesmo tempo, é preciso diferenciar o que é solidariedade com o povo cubano do que é a solidariedade com o regime. Muitas vezes, vemos em muitas iniciativas, sejam elas de socialistas, maoistas, trotskistas ou autonomistas, uma confusão nesse sentido.
A iniciativa da flotilha para Cuba, para ajudar o país é muito positiva, mas uma questão que não podemos esquecer é a forma como ela é canalizada e inclusive interpretada pelos próprios cubanos. Sem os devidos cuidados, os cubanos podem acabar criando desconfiança da esquerda mundial, que pode acabar sendo interpretada como legitimando o Governo Díaz-Canel, sem esquecer que o Governo usa isso como instrumento para legitimar suas reformas económicas e sociais.
Essa solidariedade, que é necessária, precisa ser acompanhada – e infelizmente não se vê isso entre as diferentes correntes da esquerda – de apoio aos presos políticos que foram detidos no 11 de julho. Um apoio às correntes marxistas dissidentes aqui em Cuba, uma oposição à repressão que existe contra a própria esquerda, aquilo que a gente pode chamar dos dissidentes entre os dissidentes. É preciso separar o que é a oposição “gusana” de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão.
É preciso separar o que é a oposição ‘gusana’ de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão
Sem que haja essa diferenciação, colocar tudo o que se opõe ao regime cubano como parte das iniciativas norte-americanas enfraquece alternativas anticapitalistas no longo prazo. As pessoas podem achar que o que está colocado é dual, com apenas dois lados: ou você está com os Estados Unidos ou você está com o regime. O problema é que isso ignora o amplo desejo de mudança que vem dos trabalhadores cubanos. Ser cego a isso não ajuda ninguém.
O 11 de julho é um movimento de massas baseado num sentimento geral de necessidade de mudança, e que, por conta dos próprios problemas do regime – por conta da criminalização dos dissidentes, de empurrar para fora da ilha a esquerda crítica –, os movimentos sociais da juventude acabam muito facilmente sendo manipulados e capturados pelas forças pró-americanas. A partir do momento em que a esquerda mundial rechaça a oposição cubana de esquerda, a partir do momento em que a esquerda internacional se associa de forma acrítica ao regime, e a partir do momento em que não existem dissidentes cubanos que possam cumprir um papel organizacional progressivo em relação às mobilizações sociais, elas tendem a ir para a direita. E essa é a realidade. À medida que os movimentos sociais vão se radicalizando, elas tendem a ir mais e mais para a direita, o que é um desastre, um desastre político para Cuba e para toda a América Latina.
As manifestações são legítimas, assim como a exigência de substituição do Governo. As pessoas estão cansadas, querem mudanças na política económica que dolarizou o consumo, encarecendo a vida. A partir do momento que você não cria mecanismos para isso e quando você taxa toda a oposição de mercenários e agentes pró-americanos, a consequência disso é que você acaba fortalecendo exatamente esses setores. É óbvio que existem setores distintos dentro do movimento – como qualquer movimento de massas, o 11J é plural. Vai ter gente que é pró-americana, antiamericana, gente que só quer melhorar a sua própria vida. Mas o problema é que, na medida que os poucos socialistas críticos são presos e empurrados para fora da ilha, o que sobra é a direita.
Portanto, é muito difícil ser otimista em relação à realidade política cubana por conta do isolamento da esquerda cubana dissidente em escala nacional e internacional. Há muita gente de esquerda que foi presa em julho e que agora quer sair do país. É um sentimento natural.
Existe um problema demográfico grave em Cuba. Os jovens que têm capacidade financeira pegam um avião até à Nicarágua e muitas vezes de lá, pela rota sul, vão para o Chile ou para o Brasil, quando não tentam, a partir da América Central, chegar de forma arriscada e clandestina aos Estados Unidos pela rota norte, um caminho perigoso agora dificultado ainda mais pelo Governo Trump. Desde a crise da Covid, o número de jovens na ilha tem encolhido.
Há o problema demográfico também de as pessoas terem poucos filhos. A população da ilha não para de cair, há poucas crianças, a população está envelhecendo, e os jovens estão saindo. Isso é um desastre de longo prazo.
Quilombo Invisível: A repressão do Estado aos manifestantes do 11J foi severa, chegando a 25 anos de prisão, e com órgãos internacionais denunciando a morte de vários dos detidos. Como esses presos são vistos pela população com que o senhor teve contacto? A população estaria disposta a se arriscar em outras ondas de protesto?
Aldo Cordeiro Sauda: Vale dizer que existe muito medo em relação aos protestos em massa, porque uma parte relevante da liderança de rua foi presa. O que eu vejo aqui em Cuba, conversando com as pessoas e com as próprias lideranças da ala esquerda dos protestos, é que existe muito medo, muito medo de sair para a rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba. Você ouve as pessoas, elas são muito críticas do regime, atacam o Governo, atacam o Presidente o tempo inteiro quando você conversa com elas na rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba, a questão é como criticar o Governo em Cuba. A mesma coisa com as redes sociais. Não é que você não possa falar mal do Governo nas redes sociais, é o que você fala. Há forte repressão a protestos nas ruas. Aí, sim, é que vem o problema. Não que você não possa falar mal do Governo, é por onde e como você fala mal do Governo.
Você fala com as pessoas, em geral elas dizem “apoio os protestos do dia 11”, mas, obviamente, a grande maioria não foi aos protestos do dia 11. Você pergunta e a resposta é: “Não, não quero pegar 8, 10 anos de cana. Ninguém quer ir preso.” O regime é muito efetivo pelo facto de ser uma ilha, o controle político-social é mais fácil. Isso não significa que os protestos, de forma localizada, não sigam ocorrendo. Ontem, por exemplo, teve um panelaço na rua por onde havia passado algumas horas antes por conta da falta de energia. Também teve o caso, noticiado mundo afora, do ataque à sede do PC no interior do país. Então os protestos seguem, porém sem clara coordenação política.
Quilombo Invisível: Como a população comum reage às campanhas de propaganda da imprensa oficial? Elas ainda têm eficácia em jogar a população contra seus pares, ou o descrédito da mídia estatal já é generalizado?
Aldo Cordeiro Sauda: Eu acho que o regime tem apoio cada vez menor na população. Existe uma ideia de que os anos 80 foi o período de auge, e de lá para cá a situação só piora. Existe um sentimento geral por inovação, de que é preciso mudar.
Acho que a nossa solidariedade com Cuba exige duas tarefas. A primeira é combater e ser solidário no combate ao bloqueio, e todas as iniciativas de combate ao bloqueio têm que ter nosso apoio. Nós temos que defender que a Petrobras envie petróleo para Cuba, apoio energético brasileiro a Cuba. Mais que ajuda humanitária, Cuba precisa de gasolina, diesel, petróleo. Se você olha as ruas, as ruas estão quase vazias, não tem carros nas ruas, as estradas estão vazias, praticamente não tem caminhões nas estradas. O grande problema é a falta de combustível.
Portanto, o papel da esquerda internacional é se solidarizar, exigir de seus governos, exigir do Governo Lula, exigir da esquerda, exigir também do Governo mexicano – onde existe menos oposição interna a uma política pro-Cuba – exigir dos governos internacionais o apoio contra o bloqueio e principalmente o envio de petróleo para Havana. Essa é a primeira tarefa. A segunda tarefa é se opor à repressão da esquerda, de artistas críticos independentemente de suas posições ideológicas, se opor à repressão do movimento de massas e defender uma alternativa que seja ao mesmo tempo socialista e democrática.
Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes, que não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada no balanço da greve geral.
ilustração: ricardo Ferreira
Algo mexeu nos Estados Unidos. A tentativa do Governo Trump de impor deportações em massa ao serviço da sua agenda etnonacionalista encontrou resistência massiva e determinada nas maiores cidades democratas do país — de Los Angeles a Chicago e Minneapolis. Tropas federais, a Guarda Nacional, agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — até os fuzileiros navais, em Los Angeles — viram-se obrigados a recuar diante da oposição nada comum da gente comum. Nos bairros, locais de trabalho, hospitais, escolas e paragens de transportes públicos, os moradores enfrentaram a máquina deportadora federal sem se deixarem intimidar. A indignação moral transformou-se em insurreição colectiva a uma escala que há décadas se não via nos Estados Unidos e que, em várias cidades, forçou um dos governos mais autoritários e agressivos da história americana a recuar, pelo menos temporariamente.
Esta é a história de como esse movimento tomou forma e do sinal para que poderá apontar quanto aos limites de um regime autoritário na América. É também um aviso: o poder autoritário, mesmo em plena expansão do Estado securitário, não é ilimitado se e quando comunidades organizadas, o movimento operário e instituições democráticas o enfrentarem.
Uma ocupação, mais do que uma política
Para entender o que se passou em Minneapolis e Los Angeles, é preciso começar pelo que Trump tem andado a fazer: não a fiscalizar a imigração, seja qual for o sentido tradicional que se queira dar à palavra. Ele declarou antes uma guerra política às cidades e comunidades que são bastiões democratas, muitas delas dirigidas por pessoas de cor, e aos laços de solidariedade que lhes mantêm a coesão.
As fileiras do ICE e da Guarda de Fronteiras dispararam, alimentadas por prémios à contratação de 50 mil dólares, feitos para atrair recrutas que são depois rapidamente treinados e colocados. Os agentes da Guarda de Fronteiras enviados para Minneapolis — que não é uma cidade fronteiriça — não estão habituados a lidar com pessoas que gozam dos direitos garantidos pela Primeira Emenda Constitucional. Ambas as forças servem-se de armas e tácticas militares, tratando a população civil como alvos inimigos.
Não é policiamento de rotina, nem sequer é o modelo já conhecido de rusgas aos imigrantes. Assistimos à militarização da fiscalização da imigração e à transformação de agências federais numa força de segurança interna.
Há quem descreva a enorme expansão do aparelho de segurança federal — exactamente quando Trump e Musk despedem centenas de milhares de outros funcionários públicos federais — como forma de keynesianismo policial: um programa de criação de emprego construído para a repressão. Dito com menos cerimónia, é um canal de recrutamento para as milícias dos Proud Boys e de outras formações de extrema-direita.
É, contudo, um fracasso, mesmo como programa de criação de emprego. Ao contrário do rearmamento militar dos nazis, que vinculou sectores significativos da população alemã ao projecto de Hitler, criando empregos a sério e expectativas económicas crescentes, a expansão do Estado de segurança nacional por intermédio do ICE não é capaz de oferecer estabilidade ou poder de compra aos trabalhadores. Não cria uma base de beneficiários alargada. O que gera é medo, raiva e repulsa. Minneapolis tanto pôs a nu os limites do poder repressivo do ICE como os limites políticos do projecto de deportação de Trump.
A administração Trump destacou para Minneapolis mais de três mil agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — mais do dobro da força policial combinada das cidades gémeas de Minneapolis e St. Paul —, no que o governo denominou de Operação Metro Surge. Os agentes do ICE espancaram e gasearam manifestantes, perseguiram autocarros escolares, lançaram bombas de gás lacrimogéneo à frente de hospitais e fizeram rusgas a pequenas empresas. Em 7 de Janeiro de 2026, o agente do ICE Jonathan Ross atirou a matar contra Renée Nicole Good, uma poeta e mãe de três filhos, enquanto ela e a mulher observavam uma rusga no seu bairro, sem violar nenhuma lei. “Nós tínhamos apitos”, disse depois Rebecca, a mulher de Good, “e eles tinham armas.” Três semanas depois, agentes federais executaram o manifestante Alex Pretti numa esquina. Dezenas de milhões de espectadores horrorizados assistiram à cena do assassinato, captada de vários ângulos.
Mesmo sem contar os montes de neve encharcados de sangue, os aspectos mais correntes da vida debaixo de ocupação são tão drásticos como os mais chocantes crimes. O jornalista sindical Luis Feliz León estava em Minneapolis, no terreno, nos dias que antecederam e se seguiram ao Dia da Verdade e da Liberdade de 23 de Janeiro. Descreveu assim o que viu:
“Varandas com montes de casacos a arejar do gás lacrimogéneo ao ar do Inverno; gatos a vaguear pelas ruas, farejando o que resta do cheiro de donos raptados; crianças de cor à boleia de vizinhos brancos por os pais terem medo de a polícia os parar; professores a recolherem sacos de roupa suja à chegada à escola por os pais não poderem sair para pôr roupa a lavar.”
Ir à escola passou a ser um risco. Aniversários e quinceañeras (festas dos quinze anos) foram cancelados. Uma comunidade inteira, sitiada.
O procurador-geral adjunto da República, Todd Blanche, queixou-se à Fox News: “Temos estes abusos e este barril de pólvora numa cidade — em mais lado nenhum.” Disse-o como insulto. Minneapolis ouviu-o com orgulho.
Raízes fundas, fogo súbito
A revolta que se seguiu não surgiu do nada. É um dos argumentos centrais apresentados pelos analistas do movimento operário que estudaram o que aconteceu — e é o argumento que mais há-de interessar leitores em Portugal e noutros países que desejem tirar ilações, mais do que meramente admirar a coragem.
Minneapolis tem uma história de luta sedimentada, nas palavras de um militante, incrustada “bem fundo no solo gelado do Minnesota”. A greve dos Teamsters (camionistas) de 1934, dirigida por militantes trotskistas, foi um dos momentos fundacionais do sindicalismo americano, conjugando entreajuda, acção de massas disciplinada e uma política que extravasou da simples contratação para o desafio ao carácter da própria cidade. A revolta de 2020 em reacção ao assassinato de George Floyd pela polícia — a poucos quarteirões de onde Renée Good foi depois morta — ergueu redes inteiramente novas de solidariedade e confiança entre moradores que superaram barreiras raciais. Em 2022, a Federação dos Professores de Minneapolis fez greve não apenas pelos salários, mas por justiça racial. As enfermeiras fizeram greve. Os trabalhadores da saúde sindicalizaram-se. Ao longo de mais de uma década, uma aliança de organizações de direitos dos imigrantes, sindicatos, comunidades religiosas e centros operários foi construindo o que os militantes chamavam, deliberadamente, não aliança, mas “alinhamento” — algo mais profundo, em que as organizações se conhecem intimamente e estão profundamente empenhadas em fortalecer as bases organizativas umas das outras.
Emilia González Avalos, a directora executiva da Unidos, descreve assim a trajectória desta organização: começando por ser considerada um “grupo especializado”, periférico na aliança progressista, a sua organização passou anos a juntar poder através da infra-estrutura eleitoral, de trabalho junto do eleitorado e da aprovação do programa legislativo do “Milagre do Minnesota”, em 2023: cartas de condução para residentes indocumentados, remuneração das faltas por doença, maior cobertura de assistência médica e muito mais. Quando o ICE apareceu em força, já estavam criados os alicerces de algo muito mais vasto do que qualquer organização tivesse podido conseguir isoladamente. A invasão do ICE foi a faísca. Décadas de organização, o combustível.
Cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra.
O Dia da Verdade e da Liberdade
Em 23 de Janeiro de 2026, com temperaturas de -30°C e vento a produzir sensações térmicas de -45°C, entre 75 mil e 100 mil pessoas acorreram ao centro da cidade de Minneapolis, a meio de um dia útil. Escolas, instituições culturais e mais de mil pequenas empresas fecharam. Mais de 80% dos membros da secção 7250 do Sindicato dos Trabalhadores em Comunicação da América (CWA) faltaram ao trabalho. Os motoristas da Uber e da Lyft — quase todos eles trabalhadores imigrantes de cor — choraram ao saber que cem religiosos haviam sido presos no Aeroporto de Minneapolis por exigirem que a Delta, a Target, a 3M e a General Mills tomassem publicamente posição contra a ocupação federal da cidade. Segundo uma sondagem realizada posteriormente, cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra, apesar de a acção ter sido convocada com apenas duas semanas de antecedência. Aderiram à acção cidades e vilas de todo o país.
Terá sido uma greve geral? Interessa menos a resposta do que o que o dia representou. Na sua análise da greve de massas na Rússia de 1905, Rosa Luxemburgo argumentou que a greve geral não era um evento específico, mas um processo — um vaivém entre luta económica e política, erupção espontânea e resposta organizada, coragem individual e consciência colectiva. O que Minneapolis demonstrou foi exactamente isso: o momento em que uma comunidade deixa de ser um agregado de indivíduos isolados e se torna, ainda que brevemente, num actor colectivo consciente de si.
Kieran Knutson, presidente da secção 7250 do CWA e um dos principais arquitectos da resposta sindical, é franco tanto a respeito do que se conseguiu como dos seus limites. As grandes empresas continuaram a funcionar. A acção de 23 de Janeiro foi uma greve política de massas, não uma greve geral no sentido clássico. Mas houve algo de qualitativamente novo. Os trabalhadores que marcharam até ao escritório do patrão antes do dia da acção para exigir o encerramento da empresa voltaram no dia seguinte com mais reivindicações: que o ICE fosse definitivamente proibido de entrar na empresa. “Tal é o nível de confiança a que estamos a assistir”, disse León. Pela primeira vez há muito tempo, uma classe trabalhadora que acabava de ganhar confiança em sim mesma tomava conta de uma grande cidade americana.
Eric Blanc, cuja avaliação rigorosa do momento de Minneapolis está entre as melhores que apareceram, identifica três ingredientes necessários para uma verdadeira greve geral: a energia, a organização e uma direcção militante e disposta a correr riscos. Minneapolis teve-os aos três em grau pouco habitual. Ainda assim, onde Blanc vê o reverso da medalha e o calcanhar de Aquiles do movimento é no sector privado, onde a densidade sindical é de apenas 6% ao nível nacional e onde os trabalhadores de empresas como Target, Amazon e Home Depot — cujos empregadores são cúmplices directos do ICE — têm o maior potencial estrutural, mas a menor protecção organizacional.
Uma das inovações tácticas mais importantes, em Minneapolis, foi o que González Avalos chama a “rampa de observação constitucional”. A Unidos treinou 30 mil habitantes do Minnesota para observar e documentar as rusgas do ICE nos termos da lei. Parecia coisa modesta, passiva, até: pessoas a filmar, a serem testemunhas. Contudo, ver-se cara a cara com sete agentes federais armados a prender um pai que levava os filhos à escola mudou as pessoas. “Muda as pessoas”, disse simplesmente González Avalos. Esses 30 mil observadores passaram a ser a base da qual podia crescer uma organização mais profunda — recrutados não ideologicamente, mas pela experiência de testemunharem actos de crueldade e decidirem não olhar para o lado.
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Los Angeles: o modelo
Antes de Minneapolis, houvera Los Angeles. E a história de Los Angeles tem significado especial para mim, que lá vivo e trabalho.
Trump odeia Los Angeles, cidade de maioria negra e parda que vota esmagadoramente nos democratas, com quase 35% de imigrantes, cidade com sindicatos fortes, orgulhosa cidade-refúgio. Entre Junho e Julho de 2025, Trump mandou para a cidade 4800 soldados da Guarda Nacional e 700 fuzileiros navais, expressamente para esmagar a resistência, abrir um precedente e fomentar a violência. Apanhou, em vez disso, com o escantilhão da sua derrota.
A resistência intensificou-se quando as tropas entraram. O governador, o presidente da câmara, os dois senadores federais, a maioria absoluta na legislatura da Califórnia e os superintendentes dos condados uniram-se em oposição, dando à resistência cobertura política e legitimidade institucional. Mas a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, declarou que iria “libertar Los Angeles do presidente da câmara e do governador socialistas” — aparentemente ignorante da sua falta de autoridade para destituir funcionários eleitos.
O ponto de viragem deu-se em 6 de Junho, quando o presidente do sindicato dos empregados de serviços, SEIU California, David Huerta, foi espancado e preso enquanto documentava uma operação do ICE no centro da cidade. Da cama de hospital, Huerta definiu o que se passara não como um incidente, mas como um movimento: “O que temos de saber é como nós, a comunidade que somos, nos unimos e resistimos à injustiça que está a acontecer”. A Federação Sindical do Condado de Los Angeles, uma das maiores do país, mobilizou-se imediatamente. Os sindicatos organizaram comícios e acções de defesa dos imigrantes por toda a cidade.
Ganhou forma uma ampla frente antifascista: sindicatos e centros de trabalhadores, incluindo o Centro de Trabalhadores Filipinos, a Aliança de Trabalhadores Imigrantes Coreanos e a CHIRLA, a Aliança pelos Direitos Humanos dos Imigrantes de Los Angeles; comunidades religiosas, incluindo a Diocese Católica e a Holman United Methodist, a maior igreja negra da cidade; organizações jurídicas, incluindo a ACLU e a MALDEF; artistas e músicos; e, elemento crucial, a comunidade empresarial. Tanto a Câmara de Comércio como o Conselho Empresarial de Los Angeles tomaram posição, não por solidariedade, mas porque as rusgas estavam a dar cabo da economia da cidade. Empresas de construção, restaurantes, hotéis, lavagens automáticas e fábricas de vestuário sofriam perdas de receitas com os trabalhadores imigrantes a ficarem em casa e os clientes imigrantes a não aparecerem.
Um juiz federal sentenciou que o envio de tropas violava a Lei Posse Comitatus, que proíbe o uso das forças armadas como forças da ordem interna.
Trump acabou por mandar retirar as suas forças com o argumento forçado de ter “salvo a cidade de ficar reduzida a cinzas”. Como comentou o militante Bill Gallegos, Los Angeles reagiu ao som de milhões de habitantes a rirem-se do dislate. A retirada fora resultado de uma frente ampla, disciplinada, multi-sectorial.
A lição de Los Angeles não é a mesma de Minneapolis — eram diferentes a infra-estrutura organizativa, a cultura política e o rastilho. Mas a lógica de fundo é a mesma: construir a partir da base de organização; unir quem é susceptível de união; manter uma reivindicação clara e coerente; e não lhes oferecer a violência por que eles anseiam.
Onde estamos e onde podemos chegar
Entre Los Angeles e Minneapolis houve Chicago, onde o ICE foi brutal, mas a resistência, igualmente feroz. A contribuição de Chicago para o arsenal da luta popular foi prática e elegante: a distribuição em massa de apitos, permitindo às comunidades alertar os vizinhos assim que o ICE aparecesse nas suas ruas. As brigadas do apito alastraram a Minneapolis e outros pontos, tornando-se uma ferramenta quase universal da resistência, uma ilustração pequena, mas perfeita, de como as pessoas se apropriaram de formas de auto-organização e defesa, transmitindo a experiência das cidades de uma para a outra.
Luis Feliz León invoca o conceito de greve de massas de Rosa Luxemburgo para descrever o que estava a acontecer: não um único evento programado, mas um processo de radicalização mútua entre a indignação e a organização, entre a acção espontânea da gente comum e a armadura institucional que lhe empresta direcção e solidez. A greve geral, escreveu Luxemburgo, é o “pulso vivo da revolução” — não pode ser decretada, apenas preparada e aproveitada.
Este processo está em andamento nos Estados Unidos em moldes que seriam quase inimagináveis há cinco anos. A infra-estrutura de organização — anos de construção de alianças, desenvolvimento de direcções, de plenários de trabalhadores, de redes de entreajuda, de formação de observadores constitucionais — já existia. A faísca da violência do ICE acendeu-a. E dessa combustão algo de novo se criou: uma confiança da classe trabalhadora em si mesma e um novo sentido das possibilidades colectivas, que não desaparece quando a crise imediata recua.
A história não parou. Trump recuou em algumas das tácticas mais agressivas — que foram extremamente impopulares, prejudicaram os seus índices de aprovação e enfureceram até republicanos, furiosos por o método Trump-Miller ter prejudicado o emblema da sua política, a demonização dos imigrantes. Há décadas que a “imigração ilegal” tem sido usada como cacete para mobilizar o medo, enquanto a sua verdadeira função económica — criar uma força de trabalho imigrante super-explorada e sem direitos, para fazer baixar os salários — passava despercebida. Agora a violência é visível, as vítimas merecem simpatia, e a política é corrosiva.
O ICE recuou, mas continua a sua missão de deportação, agora com pontaria mais afinada. A resistência respondeu com nova energia. Os comícios No Kings (“não queremos reis!”) passaram a ser comícios de massas; em Los Angeles, moradores patrulham os parques de estacionamento da Home Depot, protegendo os seus vizinhos, que trabalham no duro, porque “silêncio é violência”.
Um designer gráfico de um bairro de Los Angeles descreveu o que muitos manifestantes de primeira viagem estão a viver: “Acho que é como uma primeira droga — até pessoas que nunca fizeram nada de militante na vida acabam por ir parar a protestos, animadas pelo espírito de comunidade, pelo propósito e pelo amor à democracia”. Outro activista disse-o de forma simples:
“Minneapolis é o modelo. Quando duas pessoas inocentes foram mortas a protestar contra as rusgas do ICE, a comunidade uniu-se e levantou-se em protesto, forçando as forças de Trump a retirar. Minneapolis reagiu com humanidade — esse é o futuro que queremos construir.”
Kieran Knutson tem estado a convocar assembleias de trabalhadores em Minneapolis — novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes. Não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada pela greve geral em vez de a devolver a quem tem interesses e programas diferentes, onde se incluem os funcionários democratas que condenaram publicamente o ICE enquanto cooperavam com ele em privado.
O horizonte imediato é o Dia do Trabalhador de 2026, um Dia Nacional Sem Trabalho, Sem Escola e Sem Compras. O horizonte mais distante é uma temporada de greves a organizar para 2028, com os sindicatos a alinharem a caducidade dos seus contratos para maximizar o impacto nos sectores manufactureiro, da logística, da educação e do retalho alimentar.
Nenhuma dessas datas está garantida. No entanto, o que é já certo é que dezenas de milhares de americanos comuns olharam agentes federais olhos nos olhos, denunciaram-nos com apitos, mantiveram-se firmes e recusaram-se a abandonar o local.
Como escreveu Boris Kagarlitsky de uma colónia penal russa, num contexto muito diferente, mas num espírito que afina pelo mesmo diapasão: “Não somos vítimas. Somos lutadores.”
O movimento em Minneapolis, Chicago e Los Angeles diz-nos uma coisa que os movimentos de esquerda de toda a parte têm de escutar. Só por si, a resistência não basta, mas é com ela que tudo o mais começa. Quando as pessoas se organizam, se mantêm a pé firme e se recusam a cair na violência que o Estado provoca, pode-se resistir até a um presidente determinado em reprimir.
Quando isso acontece, as pessoas mudam. Surgem novos dirigentes. Novas formas de organização ganham raízes. Novos horizontes tornam-se imagináveis.
É isso que uma greve de massas faz. Não conquista apenas reivindicações. Refaz as pessoas que a fazem.
Yassamine Mather é uma académica iraniana, editora da revista Critique, Journal of Socialist Theory e investigadora na Universidade de Oxford. Ela tem analisado a situação no Médio Oriente e no Irão e é também uma intelectual pública no Reino Unido, militante empenhada na luta contra o genocídio e na reflexão sobre os regimes no Médio Oriente no contexto do sistema capitalista actual. Raquel Varela entrevistou-a para o Maio sobre a situação da guerra contra o Irão e no Médio Oriente.
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ilustração e animação: Pedro Páscoa
Raquel Varela: Qual o significado político dos bombardeamentos israelitas e dos EUA no Irão? As notícias dão-nos uma ideia muito rudimentar. Há uma ditadura no Irão. Há Trump, que não respeita o direito internacional, mas no Irão há, ainda assim, uma ditadura. E tudo gira à volta do petróleo. Isto não é uma explicação demasiado simples?
Yassamine Mather: Sim. A revolução iraniana de 1975 (onde os trabalhadores do petróleo foram centrais) fez-se contra um governo pró-ocidental. Contudo, apesar de o governo que subiu ao poder não ser anticapitalista nem mesmo, na minha opinião, anti-imperialista, o Ocidente não se esqueceu da perda do seu fantoche Mohammad Reza Pahlavi. A derrota da revolução levou ao poder não um sector socialista, mas uma República Islâmica. Acontece, porém, que, nas últimas quatro décadas, a República Islâmica não conseguiu dar resposta a nenhuma das reivindicações da revolução. As palavras de ordem que as pessoas gritavam durante a revolução de 1975 eram pela igualdade, pelo socialismo não diria, porque não era nessa forma que o exprimiriam, mas o que as pessoas queriam era liberdade, igualdade, uma república em que fossem elas a tomar as decisões. Em vez disso, apanharam com uma ditadura religiosa que se mete na vida privada, não é democrática. E não há igualdade. No Irão, há um grande fosso entre ricos e pobres: uma das razões dos protestos de Janeiro deste ano. Os protestos de Janeiro também eram contra a corrupção, porque as pessoas se dão conta de que grande parte da riqueza está nas mãos de uma minoria muito pequena, também ligada à corrupção. Bom, há, portanto, muita insatisfação com o regime. E há também intervenção estrangeira. A intervenção estrangeira fazem-na ou a Mossad ou os EUA, que andam a ver se encontram a sua própria alternativa para mudar o regime.
É, portanto, uma situação muito complicada, pois não se pode dizer que isto seja um governo revolucionário que devamos apoiar por ele apoiar os trabalhadores. Do outro lado, temos um governo comprometido com o genocídio e um governo que apoia o genocídio, os EUA e Israel a fazer a guerra, e os países europeus a apoiarem essa empresa sem fazerem perguntas.
A questão do petróleo é, de certa forma, mais complicada para os EUA. A questão é impedir que a China obtenha petróleo barato do Irão. É um problema sério para os EUA. Não é que, actualmente, os EUA estejam necessariamente de olho nas reservas de petróleo do Irão. Talvez estejam de olho nas reservas de minérios iranianas e assim por diante. Mas quanto ao petróleo, o factor crucial é impedir o acesso da China ao petróleo do Irão a um preço muito barato. Bom, no meio disto tudo, há as tentativas de mudar o regime. Só que aqui há dois projectos diferentes. Os israelitas querem trazer de volta um certo grupo, a família do ex-xá. Os EUA têm uma visão mais sofisticada, diria eu. Não é bem como na Venezuela, mas andam a ver se, decapitando regimes, conseguem fazer mudanças suficientes para não terem de fazer mais nada. Os objectivos de Israel e dos EUA são contraditórios, mas convergem em ambos quererem enfraquecer o poder actual no Irão. As negociações: acho que é forçoso admitir que não foram conduzidas de boa-fé. Não sei se o Irão estava a negociar de boa-fé, mas pode dizer-se com certeza que os EUA não estavam a negociar de boa-fé, porque, enquanto isso, já estavam a discutir a operação militar conjunta com Israel. A operação militar conjunta tem aspectos algo estranhos: tem tentado atingir alvos muito específicos, como a casa do chefe supremo, que eles mataram, ou os comandantes da Guarda Revolucionária, mas também instalações militares. Para já, nem tentaram atacar as instalações nucleares, tanto quanto sei. É, portanto, uma situação muito complicada, pois não se pode dizer que isto seja um governo revolucionário que devamos apoiar por ele apoiar os trabalhadores. Do outro lado, temos um governo comprometido com o genocídio e um governo que apoia o genocídio, os EUA e Israel a fazer a guerra, e os países europeus a apoiarem essa empresa sem fazerem perguntas.
Raquel Varela: Deixa-me fazer esta súmula, e corrige-me, por favor, no que não esteja certa. Houve no Médio Oriente, nas décadas de 50, 60 e 70, alguns governos ditos “burgueses desenvolvimentistas”, especialmente no Irão, no Iraque e no Egipto; e os EUA apoiaram, contra esse desenvolvimento, governos religiosos altamente conservadores, com algum impacto. Por exemplo, Gordon Tearborn, no livro Sex and Power, observa que, com “estas mudanças políticas”, houve um retorno inesperado das religiões, que pensávamos estarem, estar o seu poder, a desaparecer. Vê-se o mesmo em Israel. Vê-se o mesmo com os católicos fundamentalistas que apoiam a extrema-direita. Ora, esse apoio está também muito ligado a uma viragem da economia para a extracção de petróleo. E a mudança do papel das mulheres, que era muito mais desenvolvido nos anos 70, tem algo que ver com este tipo de economia retrógrada, onde não há emprego real para as mulheres nem economia produtiva, desenvolvida. Gostava de entender a relação entre a organização política do regime e a economia baseada nesse, como é que havemos de chamar-lhe, talvez “extractivismo”.
O ataque israelo-americano desafia a própria existência do Irão como país; portanto, as facções do poder terão mais facilidade em unir-se
Yassamine Mather: Sim, isso é muitíssimo importante. A política dos anos 60 e 70 era dominada, de ambos os lados, pela guerra fria. Na guerra fria, os EUA tinham a estratégia de construir “cinturas verdes” [islâmicas] em redor dos tais países burgueses em desenvolvimento que, aliás, às vezes colaboravam com a antiga União Soviética. O interesse era comum. Isso permitia-lhes, por vezes, em matéria de programas de desenvolvimento, jogar os EUA contra a União Soviética e vice-versa. Há, portanto, estas cinturas islâmicas, das quais o Afeganistão fazia parte, é claro, com o crescimento do fundamentalismo religioso que lá se dá e a sua exportação para os países da região. Acho que, no caso da Palestina, foi muito deliberado, promoveu-se o Hamas em detrimento da OLP, mas também, e sobretudo, em detrimento dos grupos de esquerda na aliança palestiniana.
Há quem argumente que, em 1979, na revolução iraniana, a esquerda era muito poderosa, e foram os EUA que impulsionaram o movimento religioso. Eu aduzi argumentos contrários, pois, infelizmente, em 1979, o movimento religioso no Irão era forte, e era forte por causa do xá, porque o xá, talvez a CIA lho tenha ensinado, era muito agressivo contra a esquerda, contra os liberais. Os grupos religiosos sobreviviam nas suas mesquitas, nas suas madraças, nos seus seminários. Não eram reprimidos da mesma maneira que a esquerda. Não digo que estivessem em grande, mas convém lembrar que, por exemplo, o próprio xá se apresentava como um homem religioso islâmico, ao contrário de seus apoiantes atuais. Portanto, foi mais fácil ao movimento religioso manter um certo poder, e depois tornou-se no que hoje é.
Este retorno é mau para as mulheres. Sempre que vou à Turquia, fico chocada de ver cada vez mais mulheres a usar o véu. Não quero dizer com isto que o véu, em si mesmo, as oprima. Só que, na minha opinião, não ajuda, para o futuro das mulheres na região, haver um regresso à religião, visto que o véu é apenas um sinal de retorno ao movimento religioso. E, claro, aqueles pequenos emirados do Golfo Pérsico e alguns dos outros países agarraram-se à religião porque é assim que podem sobreviver — o emir passa a ser um governante de direito divino. Tens toda a razão em dizer que as economias, e a economia iraniana mais ainda, são o que eu chamaria de economias rentistas. Sobrevivem graças ao petróleo. Não têm mais nenhuma produção a sério. A industrialização parou ou estagnou. E isso abre caminho a mais corrupção. Outro elemento que contribuiu para a corrupção foram as sanções impostas ao Irão. Quando há sanções, há sempre maneiras de iludi-las. Quem está no poder consegue iludi-las facilmente. E fica com a possibilidade de comprar mercadoria a baixo preço e vendê-la muito mais caro. No Irão, pelo quíntuplo. Olhando para os protestos operários, não só em Janeiro de 2026 ou Dezembro de 2025, mas nos últimos 15 anos, eles são contra a corrupção e contra as políticas económicas que empobrecem continuamente os pobres e enriquecem os aliados do regime, mas também o capital privado, não apenas os aliados do regime. E às mulheres tiram direitos. Por exemplo, o Irão tem grande número de mulheres licenciadas, até mesmo nas ciências e engenharias. Tem mais mulheres licenciadas em ciências STEM [ciências, tecnologia, engenharias e matemáticas] do que o Reino Unido, não vou dar um número porque não sei, mas uma percentagem muito grande delas nunca chega a conseguir emprego. Trabalham a contrato ou em coisas que não têm nada que ver com as suas áreas de formação. São trabalhadoras precárias, fazem, sei lá, trabalho ao domicílio, costuram e vendem as suas peças em casa. Não fazem uso das suas especialidades. Na melhor das hipóteses, são professoras em escolas privadas, que é a maneira de conseguirem ganhar um mínimo. No fundo, empobrece-se ainda mais as mulheres. Entretanto, a economia está parada. Não se pode fazer grande coisa, não só por causa das sanções, mas também por causa da incompetência, da corrupção e da ausência de avanços, de desenvolvimento. Fica-se pela produção rentista de petróleo, pela venda de petróleo, agora restringida, etc.
Raquel Varela: Podes dizer-nos algo mais do regime? As diferentes facções do regime estão unidas?
Yassamine Mather: Eu explico. Fala-se da ditadura do Irão, e é, mas é uma ditadura complicada. Não é como Saddam Hussein, que era um homem só, percebes? Ou Khadafi, que era um homem só. O papel do chefe supremo é, se quiseres, unir as facções. As facções têm diferentes níveis de contradições internas, que variam no tempo. Portanto, quando há um ataque dos EUA ou está em causa a sobrevivência do regime, elas aproximam-se umas das outras. Neste momento, estão muito próximas, porque está em causa sobreviverem. No entanto, historicamente, há várias interpretações de como um governo islâmico há-de funcionar. Não são apenas duas facções, há muitas facções dentro das duas tendências. As duas tendências são a reformista e a conservadora, mas os reformistas só são reformistas para efeitos da política social. Não são reformistas para efeitos de economia política. O que quero dizer com isto? Os reformistas insistem menos no uso do véu, na imposição de regras sobre a não segregação de homens e mulheres na mesma reunião, esse tipo de coisa: são socialmente reformistas. Politicamente, porém, para efeitos de economia política, eles são bastante... são adeptos do livre mercado. Todo o regime é adepto do livre mercado. Mas a facção reformista é de alma e coração pela política económica neoliberal. Foi defensora da política económica neoliberal logo desde o início dos anos 2000 e continuou. Os conservadores também são defensores do mercado livre. Lembre-se, esta gente saiu do bazar, é gente do mercado. Nem é que sejam capitalistas de Estado. São capitalistas. Mas são socialmente conservadores. São eles que se opõem ao que as mulheres conseguiram na questão de tirar o véu. São conservadores em termos de regulamentação de reuniões mistas e assim por diante. São conservadores no forçarem toda a gente a acatar a lei religiosa. O papel do chefe supremo passa, em certos momentos, por garantir que nenhum dos lados se torne dominante. Um dos papéis de Khamenei era, por conseguinte, servir de negociador entre todas as facções e lidar com as divergências. Será esse o papel do novo chefe supremo, se ele sempre vier a aceder ao poder. Será um homem, as mulheres não podem ser chefe supremo. Isso já está definido. Visto assim, tem de se considerar a ditadura com mais complexidade do que se apresenta na imprensa ocidental. Parece-me que este papel de negociador não será, neste momento, muito difícil, porque o país está a ser ameaçado no seu todo. O ataque israelo-americano desafia a própria existência do Irão como país; portanto, as facções terão mais facilidade em unir-se. Uma vez passada a ameaça, e supondo que eles sobrevivam – não sabemos se sobreviverão, mas se sobreviverem –, as diferenças ainda sobressairão mais.
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Raquel Varela: A esquerda iraniana tem uma longa história política, embora parte dela tenha emigrado. Mas ainda ficaram dirigentes de esquerda no Irão? Há alguma alternativa política? É que estamos a falar de um país que tem um sector da classe trabalhadora altamente qualificado, com história política. Mas ainda lá ficou alguma esquerda?
Yassamine Mather: Bem, não podemos dizer que não haja esquerda organizada, no sentido de não haver partidos ou organizações. Se uma pessoa se declarar de um partido, é presa. Isso não foi possível nos últimos 45 anos, 47 anos. Mas há muita esquerda no Irão. Quem é? Bem, em primeiro lugar, parece-me que se deve mencionar as organizações operárias. Não são tão... parecem ser organizações operárias espontâneas, mas houve claramente trabalhadores com tradições de radicalismo a participar em pleno na criação dessas organizações. Talvez já tenhas ouvido falar do Sindicato dos Trabalhadores de Autocarros Wahed. Não é reconhecido como sindicato pelo governo. Os seus dirigentes são presos com frequência. No entanto, eu diria que, nos últimos vinte anos, talvez mais, eles têm organizado protestos quase todos os anos. Eles defendem outros trabalhadores e as suas próprias reivindicações. Exigem o reconhecimento das organizações de trabalhadores. Depois, há os trabalhadores da cana-de-açúcar da Haftap. Eles têm-se batido arduamente contra a privatização, não só da sua própria indústria, mas contra a privatização em geral. Uma vez mais, embora pareçam ser uma organização operária espontânea, eu conheço lá gente muito activa, que se mantém abaixo do radar para não ser presa. São sindicalistas e militantes de esquerda comprometidos. São duas grandes organizações activas, das quais tenho lido posições nos últimos meses. Convém não esquecer, se por acaso leste histórias da revolução iraniana, que os operários do petróleo foram muito importantes na revolução. Só que a República Islâmica dividiu a indústria petrolífera em muitas pequenas empresas privadas, um contrato aqui, um contrato ali. Há um número muito grande de empresas privadas, e as próprias empresas privadas têm subempreiteiros. O que acontece é que os trabalhadores se estão a tentar organizar transversalmente a estas dezenas de empresas, juntando-se na base de serem da mesma indústria. É muito significativo, muito promissor. Há uma série de páginas web de esquerda. De quando em quando bloqueiam-nas, e as pessoas que lá escrevem são presas. Mesmo assim, há uns meses, não agora, estava eu a ver uma dessas páginas, e ias-te surpreender com a quantidade de artigos de Michael Roberts traduzidos para o persa nessa página web.
Raquel Varela: Michael Roberts é um economista marxista. Ele também escreve regularmente para o Maio.
Yassamine Mather: É, pois é. Ias-te surpreender. Até lha mandei, porque queria que ele visse que os artigos dele estão publicados. Algumas destas páginas aceitaram o convite da Critique para falar em persa. Ou seja, eles não tiveram medo de aceitar um convite da Critique, mas obviamente que teriam medo se fosse organizado por uma organização de tipo marxista. Portanto, sim, há limitações ao que eles podem fazer. Nenhuma delas ocupa uma posição de direcção, mas o que eu quero dizer, em suma, é que a esquerda não está morta. Há movimento operário, há movimento intelectual. A página a que me referi é uma de três ou quatro. Tenho mais contacto com uma delas. Chama-se Critique of Political Economy. Não copiaram de nós. Já se chamavam assim antes. Portanto, há vida.
Raquel Varela: Há vida. E onde há vida, há esperança, evidentemente. Nós, na esquerda crítica, na tradição da oposição de esquerda, temos tido que haver-nos com o campismo, que é a ideia de que, especialmente depois da invasão russa da Ucrânia, é preciso escolher entre a Rússia e os EUA, e apoiar os EUA é estar a apoiar os maiores e mais perigosos imperialistas do mundo. Apoiar os EUA é apoiar o imperialismo. Portanto, há como que uma divisão, e seria preciso apoiar a Rússia, digamos assim, porque embora não sendo a Rússia socialista, não sendo o Estado dos trabalhadores para os trabalhadores, sendo um Estado capitalista, com uma ditadura, se não apoiarmos a Rússia, ficamos sem quem nos defenda do imperialismo americano. Tem sido sempre assim, também na Venezuela, e agora também com o Irão. Achas que esta maneira de dividir não tem alternativa, ou há uma alternativa socialista, dos trabalhadores?
Yassamine Mather: Bom, eu acho que, felizmente, aquela gente que eu referi antes não tem ilusões sobre a Rússia e a China. Sim, havia muita gente, antes da agressão, antes do ataque dos EUA, que dizia, bom, se houver guerra, a Rússia vem socorrer-nos, ou então o que temos é de nos despacharmos com o desenvolvimento do nuclear. Precisamos de melhor desenvolvimento nuclear. A Rússia ajuda, a China ajuda. Mas é claro, como se viu na guerra dos doze dias, em Junho de 2025, quando Israel e, depois, os EUA atacaram, claro que a China e a Rússia não quiseram nada com a guerra. A Rússia tem tão boas relações com Israel como com o Irão. Mais, a Rússia e Putin têm melhores relações com Israel do que com muitos outros países. Lembro-me de ele ter afirmado uma vez que Israel era o segundo maior país de língua russa do mundo, o que, aliás, não é verdade, a Ucrânia é maior, assim como muitos outros países. Até a Alemanha, na Europa, é maior. Mas isto era ele a tentar cair nas boas graças de Israel. A ideia é um disparate. No entanto, política e economicamente, a Rússia tem relações muito estreitas com Israel. Emite declarações em tempos de guerra, mas não é aliada do Irão e não fará nada pelo Irão. Mas, também, como é que se vai procurar apoio a um país cujos marxistas são presos, onde não se pode criticar Putin, onde Putin está no poder por causa dos oligarcas, do FSB e das forças de segurança? Portanto, se ter ilusões sobre a ex-União Soviética era terrível, ter ilusões em Putin é muito pior. Já a China, bem, a China está determinadíssima a ser uma potência ainda mais forte do que é. Nada disto a impede. Mesmo quando compra petróleo iraniano a baixo preço, não incorre em risco de sanções ou outro. Fá-lo às escondidas, para a economia não ser afectada. Sim, há um acordo económico entre a China e o Irão, mas não é melhor nem diferente do acordo que a China tem com a Arábia Saudita. A China não se vai pôr do lado do Irão só porque tem um acordo com o Irão. Mas também me parece que quem tem ilusões quanto à China se esquece, até certo ponto, por a China estar em ascensão, de que ela não anda longe de ser uma potência imperialista. Ao dizer isto, bem, tu e eu estamos na Critique, somos críticos, tenho de ter muito cuidado quanto aos nomes que dou às coisas, mas a China tem tendências imperialistas. A China, o governo chinês, a economia chinesa que lá quer chegar, tem-se portado com generosidade relativamente a empréstimos. As taxas de juro dos empréstimos chineses são melhores do que as do FMI, por exemplo. Mas as condições que impõe aos empréstimos são drásticas. 99 anos num porto que a China constrói? Exigir períodos de um século de compromisso com a economia de um dado país para lhe conceder um empréstimo! Não podemos, portanto, vê-la como uma espécie de benfeitora do Sul Global. Está a tentar lucrar com o Sul Global, mas podendo dar-se ao luxo de parecer mais simpática. Nem sequer estou a tentar fazer uma análise marxista da economia da China, porque não sei. Estou a dizer o que pressinto.
Raquel Varela: Só para os nossos leitores compreenderem: o nosso debate na Critique, que é um debate que decorre em várias organizações marxistas pelo mundo fora e na esquerda em geral, é para perceber se a China é um país imperialista ou não, se há uma diferença entre o seu Estado e a sua economia e a sua relação política com os trabalhadores e, ao mesmo tempo, se a China está ou não aberta ao comércio mundial no sentido em que outros Estados capitalistas estão. Infelizmente, não temos tempo para analisar que tipo de Estado é a China. O Michael Roberts tem um debate muito bom sobre isso.
Mencionaste o Irão. Não sabemos bem se o Irão sobreviverá com o regime actual, ou mesmo como país, mas estamos a falar de um país de 93 milhões de pessoas. Que sociologia é a deste país? Quanto desemprego há? É um país de jovens. Uma coisa é usar drones para matar, como os EUA e Israel agora fazem, outra coisa é derrotar 93 milhões de pessoas com uma ocupação; isso não faz parte do programa dos EUA.
No Irão, a percentagem de pessoas com formação universitária é muito alta. Mas a maioria está desempregada. Mais de 33%, diz-se
Yassamine Mather: Tens toda a razão, os EUA não podem fazer isso. Qual é então o plano de Israel, e talvez dos EUA? O Irão é composto por muitas nacionalidades. Não me vou pôr a dar números, mas os curdos, por exemplo, são uma parte grande da população. Há também azeris. As duas províncias do Norte do Irão chamam-se Azerbaijão Oriental e Azerbaijão Ocidental. Falam uma língua túrquica, diferente da de Teerão. Depois há os árabes do Sul do Irão. Têm parentes no Iraque ou no Qatar ou noutro sítio, mas são iranianos árabes. No Irão Oriental há os baluchis, junto à fronteira com o Afeganistão. Há turcomanos, mais próximos talvez da Geórgia, do Turquemenistão, no Norte do Irão. O plano de Israel é criar divisões para criar separações. Em vez dos actuais 93 milhões, ficava-se com um Curdistão iraniano independente, um Azerbaijão independente. Por falar nisso, Israel tem trabalhado muito de perto com a República do Azerbaijão para fomentar o separatismo. Até agora, não tem sido bem sucedido, a não ser com um segmento da oposição curda. E é assim porque toda a gente vê que as separações não têm servido para nada. É olhar para o Iraque, por exemplo: as autoridades curdas não se têm saído melhor do que o resto do Iraque. Tudo subdesenvolvido e em péssimas condições: Estados falidos, no fundo. Mas eles tentam, há dinheiro metido na separação. Sei que os EUA estão metidos no separatismo baluchi. A ideia está lá. Ao nível do desemprego: no Irão, a percentagem de pessoas com formação universitária é muito alta. Mas a maioria delas, uma percentagem muito grande, está desempregada. Mais de 33% desempregados, diz-se. E quem tem emprego não está empregado nos estudos que fez. É provável que trabalhe no sector informal. O Irão tem uma coisa parecida com a Uber, chamada Snap. Motoristas da Uber, motoristas do Uber Eats. A Snap Eats é como a Snap. Salários baixíssimos. A moeda desvaloriza-se, as pessoas empobrecem. Esta é a situação.
Raquel Varela: Uma última pergunta. O que hão-de fazer as organizações dos nossos países, dos países ocidentais? Sindicatos, organizações, partidos políticos, associações, o que havemos de fazer?
Yassamine Mather: Parece-me que somos precisos todos. Eu também vivo na Grã-Bretanha, é lá que tenho de lutar. Temos de ser derrotistas revolucionários. Temos de apelar à derrota dos Estados Unidos e do Reino Unido. Talvez Portugal não esteja directamente comprometido.
Raquel Varela: Não, não, está totalmente comprometido, a grande base militar dos Açores é essencial para a manutenção dos aviões militares americanos.
Yassamine Mather: Então pronto, temos de apelar à derrota dos nossos países imperialistas. Não há nem “ses” nem “mas”. Que havemos de fazer? Como sindicalistas, parece-me que podemos chamar ao boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel, porque é Israel que está a desempenhar este terrível papel no Médio Oriente. Gaza não é uma questão apenas da Palestina. É impedir que Israel e os Estados Unidos destruam toda a região do Médio Oriente com as suas políticas exploradoras. Os sindicalistas podem bater-se por isso. Tenho visto sindicalistas a impedir o carregamento de armas com destino a Israel. São coisas que podemos fazer, que são muito importantes. Enviar informação deste género aos povos do Irão, da Palestina, ajuda a levantar-lhes o moral, mas é também eficaz em si mesmo, porque é fazer algo com efeito prático.
Raquel Varela: Pois, vimos a coragem dos trabalhadores portuários de Génova e de Gotemburgo que impediram o envio de armas para Israel e boicotaram os países que apoiam estas guerras. Podes explicar essa ideia de derrotismo revolucionário?
Yassamine Mather: Acho que foi o nosso bom velho Lenine que se saiu com ela. Creio que no contexto da Primeira Guerra Mundial. Dizia ele que eles deviam querer a derrota do Império Russo, e os social-democratas e comunistas alemães deviam querer a derrota da Alemanha. Portanto, para os países imperialistas, é simples. Queremos que eles saiam derrotados. Querer a derrota do nosso próprio país. É revolucionário, porque o habitual é ser patriota e defendê-lo.
Raquel Varela: Pois, transformar o mundo imperialista numa guerra de classes, em que estaríamos ao lado dos trabalhadores de todo o mundo contra os nossos próprios Estados. E temos de começar pelo nosso próprio Estado. Yassamine, muito obrigada por esta entrevista. Em nome de todos nós, do Maio, por nos teres ajudado a compreender muito melhor estes acontecimentos.
Yassamine Mather: Muito obrigada por me convidares. As perguntas foram muito boas. Espero ter feito jus a algumas.
Paulo Rangel fala de “cumprimento das nossas obrigações atlânticas”, esperando que tanto o povo como a oposição aceitem esta afirmação de covardia e cinismo como resignação “sensata” ao poderio dos norte-americanos.
À margem da reunião, em Bruxelas, dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos Estados-membros da União Europeia, Paulo Rangel foi questionado sobre a intensa atividade militar americana nas Lajes. Num contexto geopolítico de escalada de conflito, Rangel tentou escudar-se no Acordo de 1995: “Qualquer outra operação, essa não tem de ser nem autorizada, nem conhecida, nem comunicada por Portugal. Nunca foi e não era agora que ia ser.”
É irónica esta posição quando a invasão do Irão tem estado na ordem do dia. Tratando-se de uma operação conjunta entre os EUA e Israel, as primeiras declarações de Rangel demonstraram uma falha jurídica e institucional. O Acordo Técnico de 1995, no seu Artigo I, número 4, é esclarecedor: “qualquer utilização pelos Estados Unidos da América das instalações [...] que não decorra ou integre as situações previstas nos números anteriores deverá ser objecto de autorização prévia”.
Estaremos a repetir a façanha de 2003, quando um outro governo do PSD, liderado por Durão Barroso, acolheu a Cimeira dos Açores que serviu de prelúdio à guerra contra o Iraque, que se prolongaria até 2010 com efeitos devastadores sobre esse país?
Recordemos que em 16 de março de 2003 na Base Aérea das Lajes, na ilha Terceira, reuniram-se os chefes de governo dos EUA, Reino Unido, Espanha e Portugal, na altura, George W. Bush, Tony Blair, José María Aznar e também o anfitrião, ou porteiro, José Manuel Durão Barroso. Dessa cimeira saiu um ultimato ao regime de Saddam Hussein para entregar “armas de destruição maciça” que, afinal, como veio a confirmar-se, nunca tinham existido.
Qualquer utilização pelos EUA das instalações [das Lajes] que não decorra ou integre as situações previstas nos números anteriores deverá ser objeto de autorização prévia”, diz o Acordo entre Portugal e EUA.
No MNE fala-se de “cumprimento das nossas obrigações atlânticas”, esperando que tanto o povo como a oposição aceitem esta afirmação de covardia e cinismo como resignação “sensata” ao poderio dos norte-americanos. Não disse Trump a Espanha (que recusou o uso das suas bases para os ataques ao Irão), que “se quisesse” as usaria na mesma, ameaçando o país vizinho com o corte de todas as relações comerciais?
Não podemos pretender que temos uma espinha dorsal e uma política externa que não seja de submissão ao mais forte e continuar a ter as Lajes como ponte de passagem para um massacre de terror humano e para expansão dos seus interesses capitais. Relembremos que, num passado recente, estendeu-se o alcatrão das Lajes para receber três F-35 americanos com destino ao empreendimento israelita no genocídio palestiniano, logo após Espanha ter negado a sua receção, primeiramente.
O Governo português serve-se da conivência institucional para mascarar a sua cumplicidade com os massacres em curso. É esta a diplomacia humanista que os burocratas das Necessidades gostam de proclamar? Esta política serve os interesses nacionais ou os interesses de outrem?
Portugal tem sangue nas mãos. No meio desta incursão ocidental morreram 165 jovens. Mortes derivadas de brutais bombardeamentos em locais civis, escolas, zonas de habitação. Como colateral, pagam o preço da história as netas e filhas das mulheres que viram a sua liberdade ser retirada pelos mesmos que agora querem aclamar a sua libertação.
Narramos utopias de paz, pregamos o humanismo, mas no fim arrastamo-nos na cobardia. Como diria Eça de Queirós n’ As Farpas:
“O País perdeu a inteligência e a consciência moral. […] A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. [...] Já se não crê na honestidade dos homens públicos.”
A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército
Nesta página web tomam a palavra desertores ucranianos — que, segundo números do governo, se contam por uns duzentos mil. Um dos testemunhos: “A Ucrânia é Zelensky, como o Império Romano era César. O Ocidente deu-lhe dinheiro para fazer a guerra e Moscovo deu-lhe garantias de segurança. Nem a sua autoridade nem a sua integridade estão ameaçadas. A linha da frente, algures no Donbass, não mexe há quatro anos e continuará sem mexer mais três. O Exército ucraniano é um grupo de sem-abrigo (no sentido literal do termo) que combate contra outro grupo de sem-abrigo. Dão-te uma Kalachnikov, dois carregadores, duas granadas, e mandam-te combater. Dois exércitos de sem-abrigo que lutam sem a mínima perspectiva. Que moralidade se há-de esperar deles? (...) Vi um responsável de uma das nossas administrações militares a falar apaixonadamente. Sustentava, entusiasmado, que 50% dos soldados recrutados à força em rusgas de rua para serem mandados para a linha da frente se tornariam em soldados muito patriotas que tomariam de assalto as zonas ocupadas. Talvez fosse assim em 2023, até no primeiro semestre de 2024, mas tudo isso pertence ao passado. Mesmo entre os potencialmente motiváveis, o sistema abafa qualquer motivação logo à cabeça. Os soldados mobilizados ficam meses sem receber. (...) E por cada soldado ucraniano há dez chuis do alto comando e do SBU [serviços de segurança da Ucrânia, Ndr] a vigiá-lo.”
Rússia:“Sois cobardes?”
A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército. A directora Kirsanova reuniu então os 400 estudantes de dezoito anos de idade e lançou-se numa longa tirada de imprecações contra eles. A cena foi filmada por um estudante e vazada para as redes sociais. A directora acusou os jovens de só se terem inscrito no instituto para conseguirem adiar o serviço militar até “a guerra acabar”. Aos berros: “Gente, é a pátria que chama! Têm de aceitar! De que têm medo? Têm medo de regressar num caixão de zinco? De onde vos vem esse medo? Quem vo-lo inspirou? (...) Vocês são cobardolas, para aí sentados, aterrorizados?” A divulgação da cena nas redes sociais causou indignação. Houve alunos que se queixaram aos pais de os estarem a “manipular”. Não contente, a directora apresentou queixa ao FSB, a polícia política. Parece que nem a propaganda militarista do regime de Putin, nem a repressão nem a censura conseguem convencer a juventude a ir voluntariamente para o “matadouro”.
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Alemanha:“Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”
Realizou-se em Göttingen, na Alemanha, nos dias 14 e 15 de Fevereiro, a primeira conferência nacional do movimento de greve escolar contra o serviço militar obrigatório. Participaram mais de 250 jovens e estudantes de 70 cidades. Excertos da resolução aprovada:
“No dia 5 de Dezembro, na manifestação de 55 mil jovens e estudantes, manifestámos claramente que “Não queremos serviço militar! Queremos ter um futuro!” Nesse mesmo dia, o Bundestag [o Parlamento federal] adoptou a lei dita de modernização do serviço militar, dando um passo para a restauração do serviço militar obrigatório. Logo em Janeiro, todo os jovens nascidos em 2008 começaram a receber questionários de avaliação das suas competências e motivação para o serviço militar. A conscrição obrigatória é para começar em 2027. O governo diz que o serviço militar obrigatório e o rearmamento são necessários para nos defendermos. Nós perguntamos: como há-de o rearmamento garantir a paz e porque havemos nós de precisar de ter o Exército mais poderoso da Europa para vivermos em segurança? O chanceler Merz fala numa nova “era de política de grandes potências”, na qual a Alemanha teria que actuar com confiança em si. Mas nós sabemos que política de grandes potências quer dizer disputa, recorrendo à força, de mercados, recursos e esferas de influência à custa de meter ainda mais dinheiro no Exército e na economia, e menos na educação, na protecção social e no ambiente. Quer dizer ampliar ainda mais a NATO, mesmo que o preço seja provocar novas guerras. No mundo que o Governo federal quer para nós, não sobra nenhuma perspectiva para o nosso futuro a não ser crescer na pobreza e aprender em escolas arruinadas, enquanto a crise climática progride sem dar tréguas.
O ministro da Defesa Pistorius quer-nos convencer de que a conscrição de uma geração inteira serve para defender a democracia. Nós dizemos que o que interessa a este Estado não é a nossa liberdade e a nossa opinião. O destacamento de tropas para o estrangeiro, a militarização e o serviço militar obrigatório são contra os nossos interesses. (...) Põem-se milhares de milhões no rearmamento, preparando o terreno para a próxima grande guerra. Enquanto isso, as cotações das acções de empresas de armamento como a Rheinmetall, ThyssenKrupp, KNDS e companhia sobem vertiginosamente. (...) Por tudo isto, preparamos desde já a greve à escola de 5 de Março e levaremos a cabo acções nas nossas escolas.”
A concluir, a resolução apela à generalização de comités de organização da greve à escola e a entrar em contacto com as secções de juventude dos sindicatos, com os sindicatos, os pais e professores. Conclui com o título deste artigo: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”
Irão, Estados Unidos:Generalização da guerra contra os povos e a juventude de todo o mundo
No Irão, a aliança israelo-americana continua a matar e a destruir sem piedade. Trump diz agora que só parará quando o Irão se render incondicionalmente. Ninguém sabe sequer o que tal significa.
Como escrevíamos no editorial da semana passada, as descabeladas justificações dadas por Trump e pela sua mafia para o ataque ao Irão — da destruição dos projectos nucleares do Irão (que Trump há meses declarara ter “obliterado” com as suas fantásticas bombas de perfuração profunda) a uma ameaça iminente (!) de ataque iraniano e ao inexistente programa de construção de mísseis intercontinentais do Irão — têm como única lógica a destruição de tudo o que possa fazer frente ao polícia sionista designado para o Médio Oriente.
Submetam-se ou morrem, é a palavra de ordem que sai da Casa Branca.
Do genocídio de Gaza à virtual anexação da Cisjordânia, da entrega do poder ao regime talibã no Afeganistão à entrega da Síria desfeita a um comandante do Daesh e aos bombardeamentos do Irão, há um fio condutor, um só: e não, não é a “democracia” nem o fim da ditadura teocrática dos mulás. É que mergulhem os povos e países no caos absoluto, que sobrem Estados “falhados” — o que interessa, a segurança do petróleo e dos respectivos lucros, ficará garantido pelo Exército sionista, por milícias privadas e, em última análise, pelo Pentágono. No fundo, a situação que campeia há décadas na África Central, a zona mais rica do mundo em minérios, onde as multinacionais prosseguem calmamente os seus negócios no meio da guerra e do caos permanentes. Não há actualmente solução mais barata para os imperialistas, enquanto eles preparam as próximas guerras.
Têm toda a razão, pois, os liceais alemães, os desertores e refractários ucranianos e russos, tal como a tem a população do Minnesota, que fez greve geral para correr com os esbirros nazis do ICE. Contra esta marcha para a generalização do caos e da guerra, a única saída está em organizar a resistência e lutar contra os opressores e seus cúmplices nos nossos próprios países.
Estas guerras não são nossas. Elas vão contra os interesses dos jovens e dos trabalhadores na Rússia, na Ucrânia, na Alemanha, no Irão, nos Estados Unidos — e em Portugal, onde um governo servil deixou os agressores norte-americanos usarem à vontade a base das Lajes, sem sequer lhe darem cavaco a ele, nem ele o dar ao povo.
Em parte alguma do mundo os trabalhadores e os jovens, destinados a ser ou carne para canhão ou “danos colaterais”, têm interesse em matar ou morrer pelas conquistas e os super-lucros do grande capital, que só servirão para explorar ainda mais quem sobreviver à matança.
O sindicato condena veementemente toda a propaganda, justificação ou apoio a uma intervenção militar por parte de governos estrangeiros.
Sindicato dos Professores da Província de Buxer (ou Bushehr, Sul, no Golfo Pérsico):
“Há mais de cento e vinte anos que o povo iraniano reivindica a liberdade e a justiça. Tem-se batido contra todas as formas de tirania e exploração. Da Revolução Constitucional1 ao movimento pela nacionalização do petróleo, das lutas que redundaram na revolução de 1957 aos levantamentos de 2009, 2010 e 2011 e aos dias de hoje, o povo iraniano segue a mesma trajetória e persegue as mesmas reivindicações há mais de um século. De cada vez, a reação, a tirania e o colonialismo — agindo concertadamente — esmagaram os defensores da liberdade e da justiça e perpetuaram a exploração.
O Sindicato dos Professores da Província de Buxer analisa o recente levantamento, cuja palavra de ordem é a rejeição de toda a tirania e a reivindicação de liberdade e igualdade, expressa com particular veemência nas regiões oprimidas, como parte integrante da longa luta do povo iraniano. Condenando todas as formas de opressão, tirania e exploração, o sindicato manifesta a sua solidariedade e apoio ao povo iraniano.”
O Sindicato dos Trabalhadores da Companhia de Autocarros de Teerão e Subúrbios reitera a sua posição de princípio de 2021:
“Declaramos a nossa solidariedade com as lutas populares contra a pobreza, o desemprego, a discriminação e a opressão, mas opomo-nos categoricamente a qualquer regresso ao passado2 marcado pela desigualdade, corrupção e injustiça. É nossa convicção que a verdadeira libertação só poderá ser obra da mobilização consciente e organizada da classe trabalhadora e dos oprimidos, sem passar pela reprodução de formas antigas e autoritárias de poder. (…)
O sindicato condena veementemente toda a propaganda, justificação ou apoio a uma intervenção militar por parte de governos estrangeiros.
“Já o dissemos antes e repetimo-lo: o caminho para a libertação dos trabalhadores não passa por um chefe autoproclamado acima do povo, nem na dependência de potências estrangeiras, nem em lutas intestinas dentro do Estado, mas antes na unidade, na solidariedade e na criação de organizações independentes no local de trabalho e a nível nacional. Não nos devemos deixar manipular outra vez pelos jogos de poder e pelos interesses das classes dominantes. O sindicato condena firmemente qualquer propaganda, justificação ou apoio à intervenção militar de governos estrangeiros, particularmente os dos Estados Unidos e de Israel. Tais intervenções não só redundam na destruição da sociedade civil e em massacres, como fornecem um pretexto adicional para a repressão governamental. (…)
Viva a liberdade, a igualdade e a solidariedade de classe! A solução para os trabalhadores e trabalhadoras está na unidade e na organização.”
1 1905: Revolução popular que impõe uma Constituição. 1951: Nacionalização do petróleo pelo primeiro-ministro Mossadegh. 1957: Fim da lei marcial. 2009, 2010 e 2011: Movimentos de protesto contra o regime teocrático.
2 Referências às forças monárquicas que tentam manipular os protestos.
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta. Mas a tragédia da Venezuela e da América Latina é também que a desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente.
Poucas horas passadas do ataque militar dos EUA à Venezuela e da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o presidente Trump proclamou que “as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos vão lá entrar, investir milhares de milhões de dólares, consertar a infraestrutura muito danificada e começar a pôr o país a ganhar dinheiro”. Trump não escondeu que uma das principais razões para o ataque e rapto de Maduro era conseguir que os Estados Unidos passassem a controlar as vastas reservas petrolíferas da Venezuela, a que Trump se refere como “o nosso petróleo”.
A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo, cerca de 303 mil milhões de barris, ou 17% das reservas globais, segundo o Energy Institute, com sede em Londres — mais do que a Arábia Saudita, a primeira da OPEP+. Apesar destas vastas reservas, a produção de petróleo bruto da Venezuela continua muito abaixo da capacidade. A produção atingiu um pico de 3,5 milhões de barris/dia na década de 1970 (mais de 7% da produção global), mas caiu para menos de 2 milhões de barris/dia durante a década de 2010, caindo o valor médio para apenas 1,1 milhões de barris/dia no ano passado.
Os EUA passaram a ser o maior produtor mundial graças à chamada revolução do xisto, na década de 2000. Consequência disso foi, porém, o mundo ficar encharcado em petróleo, com a oferta a ultrapassar o aumento da procura global. Esta está em travagem, porque a expansão económica na maioria das grandes economias se faz à velocidade de uma lesma e devido à mudança gradual da produção de energia para as renováveis. Aliás, quando a Venezuela foi atacada, o preço do petróleo bruto Brent, referência do mercado, estava perto do mínimo dos últimos cinco anos, cerca de 60 dólares por barril.
Bem pode Trump dizer às grandes companhias petrolíferas do mundo que agora é ele quem manda na Venezuela e que elas se podem candidatar a investir para ganhar “uma data de massa” — as petrolíferas são capazes de não ter assim tanta certeza. Ali Moshiri, um antigo executivo da Chevron, está a tentar angariar 2 mil milhões de dólares para adquirir variados ativos venezuelanos. Porém, a aposta é arriscada. O entusiasmo de empresas como a própria Chevron, que até já detém uma licença dos EUA para perfurar e produzir petróleo venezuelano, é capaz de não ser por aí além.
O preço da restauração da produção de petróleo na Venezuela não vai ser baixo. A infraestrutura de perfuração está degradada, e o petróleo extraído é “pesado”, Extrair petróleo pesadíssimo implica fazer muitos furos e criar poços com vida útil relativamente curta — um processo bastante semelhante ao da produção de petróleo do xisto nos EUA — e, em seguida, misturar as vasas com petróleo mais leve ou nafta, de modo a poder correr por oleodutos antes de ser exportado e refinado. Produzir e comercializar petróleo “pesado” requer técnicas avançadas, como injeção de vapor e mistura com petróleos mais leves. Acresce que as reservas do país se concentram essencialmente na cintura do Orenoco, uma vasta e remota região na parte oriental do país, que se estende por cerca de 55 mil quilómetros quadrados.
O governo de Maduro passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais.
Além disso, a enchente do petróleo já começou a afetar os lucros esperados da nova exploração e extração. As perdas acumuladas da indústria americana do petróleo de xisto na década de 2010 atingiram quase quinhentos mil milhões de dólares. Tudo depende do “limiar de rentabilidade”, que, para o xisto americano, se tem estimado num preço médio de cerca de 60 dólares por barril. Tudo isto, enquanto a oferta global de petróleo cresce mais rapidamente do que a procura, projetando a Agência Internacional de Energia um aumento da oferta global na ordem de 3 milhões de barris/dia em 2025 e mais 2,4 milhões em 2026, contra aumentos da procura de apenas 830 mil barris em 2025 e 860 mil em 2026. Jorge León, da Rystad Energy, estima em 115 mil milhões de dólares o custo da duplicação da produção para 2 milhões de barris no início da década de 2030 — quase o triplo das despesas de capital combinadas da ExxonMobil e da Chevron no ano passado. Conseguirão a Exxon e a Chevron fazê-lo lucrativamente, considerando o atual equilíbrio mundial da oferta e da procura de petróleo e tanto mais que esse petróleo “pesado” teria de ser vendido abaixo do preço de referência?
No entanto, há outros fatores por trás da jogada de Trump contra a Venezuela. A nova Estratégia de Segurança Nacional deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta, e com “doping”. Naquela época, o presidente Monroe declarou que as nações europeias não se podiam ingerir na América Latina nem tentar controlá-la: passava a estar na “esfera de influência” dos Estados Unidos da América. Com Trump, a globalização cedeu o lugar ao‘”Making America Great Again" (“Voltar a Engrandecer a América”), o que situa firmemente a América Latina como quintal do imperialismo norte-americano. A implicação é que nenhum país pode resistir à política e aos interesses dos EUA. É necessário instaurar “regimes amigos” que permitam quer o acesso privilegiado dos norte-americanos aos respetivos recursos, quer capacidade para negá-los aos concorrentes: barrar, por conseguinte, a crescente influência e investimento chinês na região – apesar de o petróleo venezuelano representar meros 300 mil dos 11,3 milhões de barris que a China importou diariamente em 2025, segundo o Instituto de Estudos de Energia de Oxford —, tendo empresas da República Popular da China ganhado posições na indústria de perfuração de petróleo da Venezuela.
Em 2024, quando a contestada reeleição de Maduro ocorreu, salientei que o capitalismo venezuelano estava intimamente preso à rentabilidade do setor energético, que se encontrava numa espiral de morte após o colapso dos preços do petróleo a seguir a 2010 e as sanções americanas.
As conquistas que a classe trabalhadora alcançou no tempo de Chávez, na década de 2000, só foram possíveis porque os preços do petróleo atingiram o auge. A seguir, porém, os preços das matérias-primas, incluindo o petróleo, caíram, mais ou menos coincidindo com a morte de Chávez. O governo de Maduro perdeu o apoio da sua base operária à medida que a hiperinflação destruía o nível de vida. O governo passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais. Os militares podiam comprar em mercados exclusivos (por exemplo, em bases militares), tinham acesso privilegiado a empréstimos e aquisições de carros e apartamentos e recebiam aumentos salariais substanciais. Exploravam, ainda, o controle do câmbio e os subsídios, vendendo, por exemplo, com enorme lucro, gasolina barata comprada em países vizinhos.
A tragédia da Venezuela é que tudo dependia do preço do petróleo; pouco ou nenhum desenvolvimento houve dos sectores não petrolíferos, que, no mais, estavam nas mãos de empresas privadas. Não havia plano nacional de investimentos independente controlado pelo Estado. Com as sanções dos EUA e a contínua subversão contra o governo, os dias da revolução chavista estavam contados.
É uma lição para toda a América Latina. A desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente, dada a fraqueza dos capitalistas nacionais e a longa sombra do imperialismo americano.
Em Novembro de 2025, Trump anunciou a nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana. Modestamente, como é seu hábito proclamou: “Este documento é um roteiro para garantir que os Estados Unidos continuem a ser a nação mais grandiosa e bem-sucedida da história da humanidade e o berço da liberdade na Terra.”
O documento regista, com efeito, o “declínio económico da Europa”.
Mais notável, no entanto, é ele considerar que esse declínio económico é “eclipsado” pela “perspectiva de obliteração da civilização” europeia a que as políticas dos dirigentes do continente levam — tornando “mais do que plausível” que, daqui a vinte anos, a Europa deixe de ser “europeia”. Subentende-se sem dificuldade: a “raça branca” europeia irá ser superada por “raças” africanas, árabes e asiáticas, inimigas da América branca.
A NSS reflecte, assim, sem pudor, a propaganda nazi sobre a “substituição populacional” na Europa. E é tudo menos velado o apoio que promete aos partidos e dirigentes neofascistas (“patriotas”) europeus: Meloni, Orban, Chega, Vox, AfD, RN…
Não obstante, não podia ser mais absurda a conclusão de alguns assustados comentadores europeus — e portugueses1— de que a estratégia trumpiana designa a “Europa” como “inimigo principal” do império americano.
Em quase toda a extensão do documento, a administração Trump dedica-se a descrever como combater e atacar a China, apesar de a palavra ser pouco usada no documento2.
Assim, se a primeira prioridade da estratégia americana (O que queremos no e do mundo?) é o controle absoluto dos Estados Unidos sobre o “hemisfério ocidental”3, não se deixam dúvidas sobre o que está em disputa.
Essencialmente, trata-se de manter o hemisfério “livre das incursões hostis e da propriedade de activos essenciais” por “externos” (leia-se: pela China) e de manter o acesso dos EUA “a localizações estratégicas essenciais” (leia-se: expulsando, por exemplo, a empresa de Hong Kong proprietária dos portos do canal do Panamá e impedindo a entrada de capitais chineses no aço e nas “tecnológicas” americanas); “deter e reverter o mal que actores externos têm infligido à economia americana, mantendo, do mesmo passo, o Indo-Pacífico [não exactamente “hemisfério ocidental”!] livre e aberto, salvaguardando a liberdade de navegação em todas as rotas marítimas críticas e mantendo cadeias de abastecimento seguras e fiáveis, bem como o acesso a materiais críticos” (leia-se: manter o controle naval do canal do Suez, dos estreitos de Ormuz e de Malaca, do mar da China Meridional e das novas rotas do Ártico e o acesso às terras raras chinesas. Hemisfério ocidental?)
A maneira de assegurar tais desígnios é indicada sem subterfúgios diplomáticos: “queremos recrutar, treinar, equipar e pôr no terreno o exército mais poderoso, letal e tecnologicamente avançado do mundo para proteger os nossos interesses, deter guerras e — se necessário — ganhá-las rápida e decisivamente, com o mínimo de baixas das nossas forças”. Além, naturalmente, do “dissuasor nuclear mais robusto, credível e moderno do mundo, bem como defesas antimísseis de novíssima geração — incluindo uma Abóbada Dourada sobre a América — que protejam o povo americano, o património americano no estrangeiro e os aliados da América.”
Eis o que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário.
Falando directamente da China, a “estratégia de segurança nacional” refere que Trump reverteu mais de três décadas de suposições erradas a respeito daquele país, a saber, que a abertura de mercados à China, os incentivos ao investimento americano na China e à deslocalização industrial para a China conduziriam à integração daquele país na “chamada ordem internacional assente em regras” (a ordem mundial ao serviço dos interesses americanos) — coisa que “não aconteceu”.
Daí a necessidade de “reequilibrar a relação económica da América com a China”: acabando com “estratégias industriais e subsídios estatais predatórios; práticas comerciais injustas; a destruição de empregos e a desindustrialização; o roubo de propriedade industrial e a espionagem industrial em grande escala; ameaças às nossas cadeias de abastecimento que ponham em risco o acesso dos EUA a recursos críticos, designadamente minerais e terras raras; (...) propaganda, operações de influência e outras formas de subversão cultural”. Exige-se, para tal fim, o concurso da “Europa, do Japão, da Coreia, da Austrália, do Canadá, do México e de outras nações importantes”.
Corresponda ou não à prática do Estado chinês esta descrição, ela corresponde sem sombra de dúvida à caracterização que dela têm feito as administrações americanas.
Trata-se, portanto, sem equívoco, de acabar com o Estado chinês na sua forma actual por meio de uma estratégia política, comercial e militar que lembra fatalmente o cerco à União Soviética e o avanço inexorável da NATO sobre as fronteiras da URSS (e, depois, da Rússia) que caracterizaram a política americana pelo menos desde Reagan.
Todo o capítulo sobre a “dissuasão de ameaças militares” é dedicado à preparação do confronto político-militar com a China: “uma relação de forças militar convencional favorável continua a ser uma componente essencial da competição estratégica. O foco está muito, e bem, em Taiwan, em parte por esse país dominar a produção de semicondutores, mas, sobretudo, porque Taiwan dá acesso directo à Segunda Cadeia Insular [as ilhas onde os EUA detêm colónias e bases militares importantes situadas a oriente do Japão e doutras ilhas mais próximas do continente chinês], dividindo a Ásia em dois teatros [militares] distintos, Nordeste e Sudeste. O facto de dois terços do transporte marítimo passarem pelo mar da China Meridional tem implicações de primeira ordem para a economia americana. Deter um conflito por Taiwan, de preferência mantendo a nossa superioridade militar, é, pois, uma prioridade. (...) Poremos de pé uma força militar capaz de impedir agressões em qualquer ponto da Primeira Cadeia Insular. Contudo, as forças armadas americanas não podem nem devem ter de fazê-lo sozinhas. Os nossos aliados [Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Nova Zelândia] têm de responder presente e gastar — e, ainda mais importante, fazer — muito mais pela defesa colectiva. (...) É imperioso desenvolver as medidas de força e dissuasão necessárias para manter essas rotas abertas, livres de “portagens” e não sujeitas a encerramento arbitrário por algum país.”
Pese aos comentadores que estranham a linguagem aparentemente menos hostil à China (e à Rússia) do que a usada na doutrina da primeira administração Trump, a NSS 2025 é transparente nas suas prioridades — e no número de páginas dedicado a cada “região”:
— acabar com a actual economia e Estado chinês, ainda predominantemente assente na propriedade estatal dos meios de produção;
— acabar com a guerra “lateral” da NATO com a Rússia pela Ucrânia, agora que a Rússia já está significativamente desgastada; ou então deixá-la supurar, mas exclusivamente à custa dos orçamentos e das economias dos imperialismos europeus e para lucro da indústria armamentista americana;
— promover um surto sem precedentes da economia do armamento e cavar a superioridade das forças armadas americanas, transferindo, de passagem, maciçamente lucros para o capital americano em prejuízo dos concorrentes menores, europeus e não só;
— no Médio Oriente, apoiar sem reservas os regimes feudais e Israel, acabando com quaisquer fantasias de “democratização”.
— explorar sem limites os recursos dos países do “terceiro mundo”, acabando com as fantasias da “ajuda ao desenvolvimento”.
Este é o mundo que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário. Um mundo de ditaduras e de destruição da democracia.
Todos os poderosos do mundo rastejam e capitulam, uns atrás dos outros.
A única oposição aos bárbaros desígnios do imperialismo é a que lhes montem as classes trabalhadoras: da América, da Europa, da Ásia e do mundo.
1 Por exemplo, no Expresso de 12 de Dezembro, Miguel Monjardino escreve que “o principal adversário dos EUA em todo o documento parece ser a União Europeia, vista agora em Washington como um projeto das elites liberais e internacionalistas que se opõe aos seus valores políticos e interesses tecnológicos e comerciais.”
2 A razão principal da aparência algo fantasmática do alvo chinês é dupla, como refere The Economist (26/12/25): a cimeira Trump-Xi Jinping de Abril de 2026, que os negociadores americanos estão a preparar intensamente, querendo evitar interferências diplomáticas até lá; e batalhas intestinas na administração americana, entre vários interesses que se cruzam.
3 Na definição da NSS, hemisfério ocidental parece referir-se principalmente às Américas, de Norte a Sul. No entanto, tradicionalmente, também inclui a Europa Ocidental. O documento deixa ambiguidade a este respeito, tratando a Europa à parte.
O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
Se o objectivo de Mamdani é realmente executar o programa com que se apresentou, o melhor é romper rapidamente com o Partido Democrático e convocar os trabalhadores e os jovens, em Nova Iorque e em todo o país, para lançar as bases de um autêntico Labor Party, que não hesite em reclamar-se do socialismo”.
Zohran Mamdani ganhou há dias as eleições para a Câmara Municipal de Nova Iorque com mais de 1 milhão de votos — mais de 50% dos votos expressos.
Mamdani ganhou as eleições com uma campanha radical, de mobilização. Trouxe para a rua dezenas de milhares de trabalhadores e jovens, por reivindicações que os chefes do Partido Democrático classificaram como demasiado radicais e Trump como “comunistas”: congelamento das rendas, creches gratuitas para todas as crianças de menos de 5 anos, transportes públicos gratuitos, mercearias populares. Tudo reivindicações que iam ao encontro da população trabalhadora e pobre de Nova Iorque, para quem viver numa das cidades mais caras do mundo é um inferno.
Mamdani concorrera antes às “primárias” do Partido Democrático e ganhara. Foi, assim, o candidato oficial do partido. O seu principal oponente era Andrew Cuomo, o ex-governador do Estado de Nova Iorque, democrata também, mas concorrendo como “independente”, porque derrotado por Mamdani nas primárias.
A votação foi esmagadora: mais de 1 milhão de votos para Mamdani, maioria absoluta. Sem precedentes, há décadas.
A vitória de Mamdani tem, porém, muitas singularidades. Há um ano, era um perfeito desconhecido. Imigrante de origem indiana nascido em África, era e é militante dos Democratic Socialists of America (DSA), uma organização política interna ao Partido Democrático. Nas fileiras dos DSA contam-se, por exemplo, Alexandria Ocasio-Cortez e alguns outros deputados democratas.
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O Partido Democrático, saliente-se, é um dois partidos históricos do grande capital americano. É o partido dos grandes financeiros de Wall Street. De socialista, não tem nada. Foi o partido dos presidentes Kennedy e Johnson, da guerra do Vietname; de Clinton e Obama e Biden, das invasões e guerras sem fim no Médio Oriente…
Nós, no Maio, só nos podemos congratular por ver um candidato que se declara socialista ganhar a Câmara Municipal de Nova Iorque. Tanto mais que o suporte da sua candidatura foi a mobilização de dezenas de milhares de jovens e trabalhadores.
Se Zohran Mamdani conseguir executar o programa de congelamento de rendas e outras reivindicações dos mais pobres, que alívio será para estes!
O Partido Democrático, saliente-se, é um dois partidos históricos do grande capital americano. É o partido dos grandes financeiros de Wall Street. De socialista, não tem nada
Mas conseguirá ele levar a cabo esse programa, dentro de tal partido?
Trump manifestou ruidosamente a sua raiva com a eleição de Mamdani. A administração federal e os grandes grupos capitalistas tudo farão para sabotar os seus planos.
Que fará Mamdani? Defender-se-á, apelando para a mobilização das massas trabalhadoras e dos jovens que nele votaram? Ou, dependente, orgânica e financeiramente do Estado de Nova Iorque e da administração central, deixar-se-á emaranhar nas redes de interesses, dominar pelas “inevitabilidades”, volver-se, por fim, em mais um radical domesticado pelo sistema?
Uma coisa é certa. Não será o Partido Democrático que o vai defender. Zohran Mamdani faria bem em lembrar-se das lições da “vitória” de Mitterrand em 81 — e da sua viragem para a “austeridade” um ano depois; de Syriza e Tsipras, na Grécia, que desafiaram a austeridade imposta pela troika da Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu, apelaram para o apoio do povo grego, em referendo, para romper com o diktat dos banqueiros, ganharam estrondosamente o referendo… e dias depois capitularam miseravelmente ante a UE e a banca.
Pela nossa parte, só podemos incentivar Mamdani a romper com o Partido Democrático. Se o objectivo é executar o programa com que se apresentou, o melhor é que ele rompa rapidamente. Mais: que convoque, em Nova Iorque e em todo o país, os trabalhadores e os jovens para lançar as bases de uma autêntica política e de um autêntico Labor Party, que não hesite em reclamar-se do socialismo — como Zohran Mamdani faz, mas só pessoalmente, sem largar a filiação no Partido Democrático.
Entre reivindicar o socialismo e reivindicar o Partido Democrático, o que é costume é a filiação no Partido Democrático levar a melhor…
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