Bairros

Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa Sexo edicao-2026-04-16 (23)

Vinte maneiras de ser quinado

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Rui Viana Pereira
Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa edicao-2026-04-09 (22)

Vinte maneiras de ser quinado

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em

Rui Viana Pereira
categoria-crónica Bairros Lisboa Sexo edicao-2026-04-16 (23)

Vinte maneiras de ser quinado

2.ª parte: Lola desce à cidade

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Havia também dois ou três pós-adolescentes de duvidosa maturidade que por vezes concediam a honra de uma visita à assembleia pubente, impantes de autoridade encartada por motivos óbvios (idade, cabedal e experiência). Um deles, ponto de referência notável, era o Spy. Nunca ninguém soube o seu nome de baptismo; era o Spy e pronto. Talvez a própria mãe (com quem ele ainda vivia, numa época em que continuar a viver com os pais após os 18 anos de idade constituía um comportamento estranho, para não dizer aberrante), talvez a própria mãe tivesse esquecido o nome oficial do filho único. Para ela, “o Meu Querido Menino”; para os demais, Spy.

Fosse Verão ou Inverno, o Spy envergava sempre uma gabardina comprada no guarda-roupa dos mais conceituados filmes policiais americanos e franceses. Subia a calçada, paulatinamente, com uma misteriosa pasta que nunca o largava debaixo do braço, e trazia sempre na algibeira uma colecção de falsos cartões adequados a todas as ocasiões: conforme as circunstâncias seria detective privado, agente da CIA, agente da PIDE, funcionário da Interpol … Tinha, além de tudo isso, um Morris Mini que raramente usava, a não ser quando ia à caça das garinas, mas do qual tinha muito orgulho. A raridade do seu uso dever-se-ia provavelmente ao preço da gasolina e à falta de garinas disponíveis.

O Spy era um sujeito atlético, de queixada quadrangular, que, à semelhança de vários outros jovens do bairro, trabalhava três meses por ano na estiva, indo depois estoirar as poupanças durante um ou dois meses de vilegiatura além-fronteiras.

As aventuras rocambolescas do Spy raramente chegavam ao conhecimento da tertúlia dos púberes, a quem ele não cedia muita confiança – até porque, convenhamos, andando sempre metido em demandas sigilosas, quando não segredos de Estado, não convinha alimentar confidências. O pouco que se sabia das suas andanças devia-se a um ajudante, um vizinho lingrinhas, mas esfuziante de imaginação e genica, que ele adoptou para muitas das suas peripécias: o Batatinha. Esta transigência do Spy devia-se ao facto de o Batatinha (mais um do qual jamais saberemos o verdadeiro nome…) ser capaz de alinhar espontaneamente em todas as loucuras do Spy, sem necessidade de explicações, acrescentando-lhes de bónus a sua imaginação desenfreada – por exemplo, subir a calçada, chegar à Rua da Escola Politécnica e, ao primeiro carro que passa (que por acaso, e que acaso!, até foi um Porsche 356B T5 Super 80), mandar parar um táxi que vinha logo atrás.

– Siga aquele carro! – gritou ele ao motorista em tom de grande urgência, atirando-se para dentro do Mercedes; e depois, para o Batatinha:

– Entra, rápido!

O motorista achou tudo aquilo normal – até porque no Porsche não cabiam três passageiros e, portanto, era natural que dois deles seguissem de táxi –, até ao momento em que se estabeleceu o seguinte expediente entre o Spy e o Batatinha:

– Batatinha, trouxeste a arma?

– Está aqui.

– Dá cá, não vá o diabo tecê-las.

Na verdade, “a arma” era uma pistola de pressão de ar com que o Spy, sabe-se lá porquê, poucas noites antes tinha andado aos tiros com o guarda-nocturno – ainda era visível a marca de um chumbinho na chapa do sinal de trânsito na esquina oposta ao Big Ben –com a diferença de que a arma do guarda-nocturno era uma Walter a sério, com balas a sério.

– Toma lá vinte paus. Quando eu sair do carro, paga a corrida. Mas pede uma factura para apresentar ao cliente. E mete a factura na pasta, não te esqueças, para eu entregar ao contabilista. – E passou-lhe a famosa pasta para a mão.

Nisto, o Porsche chega ao Saldanha e vai estacionar à porta do Galeto, um snack-bar muito na moda, acabadinho de estrear nesse ano. Pouco mais adiante pára o táxi e sai o Spy. Todas estas acções parecem passar num ápice, mas mais rápido ainda foi o porteiro do Galeto. Parece que o dono do Porsche, um jovem com ares de beto, tinha há dias armado uma caldeirada à porta do Galeto, como é corrente nos animais da sua espécie, e estava proibido de voltar a entrar. O porteiro barra-lhe entrada. O beto protesta. Formam-se rapidamente partidos, ameaça gerar-se uma grande baderna, entra o Spy em campo, saca de um cartão, “Interpol, afastem-se …”, a pancadaria generaliza-se e quando já está tudo a ferver, o Spy afasta-se de fininho, vai ter com o Batatinha e regressam os dois ao bairro, a pé e numa galhofa desatada sobre o trinta-e-um que ali tinham armado.

Desta e de muitas outras aventuras nunca chegou à tertúlia uma única prova material, com excepção do já mencionado chumbinho e da voz do Batatinha, cuja imaginação, mais fértil ainda que a do Spy, não podia deixar de suscitar alguma suspeição. Mas nada disso tinha importância, porque a actividade mais nobre da tertúlia consistia no cultivo de mitos imaginosos.

Na semana seguinte à baderna no Galeto, a tertúlia do Big Ben olha para o cimo da calçada e vê o Spy a descê-la mais lesto que nunca. Vinha enfunado, extasiado, exaltado:

– Vocês nem vão acreditar na gaja que eu conheci no Galeto. Eh pá, um espectáculo, espampanante, até pensei que me ia saltar o coração do peito. Paleio praqui, paleio pracoli, já sei que se chama Lola. Amanhã vou lá engatá-la de vez.

Lolita, vamos dar uma volta no meu carro.

No dia seguinte lá foi ele ao Galeto, desta vez no Mini. E lá estava a Lola, à espera de que ele lhe pagasse o jantar bem regado e rematado de conhaques. Correu bem o convívio, com cortesias e volteios adequados à decoração muito burilada do Galeto, e por fim o momento tão esperado: “Lolita, vamos dar uma volta no meu carro?” O assentimento precípite da Lola teria talvez acordado a desconfiança de qualquer outro mais avisado, mas não a do embevecido Spy. Meteram-se no Mini e arrancaram direitos a Monsanto, onde o espião enveredou por estradinhas escusas. Chegados a um lugar que lhe pareceu suficientemente discreto, o Spy não se fez rogado: deitou-lhe as mãos e as beiças, e tudo o mais que tinha à mão, e tudo corria às mil maravilhas até ao momento em que o temerário conquistador meteu a mão no entrepernas da moça. Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola. Mas aquele apetrecho ali pendurado entrepernas não batia certo com nada. Passado um longo momento de incredulidade, o Spy teve de se render às evidências: tinha engatado um homem, ou lá o que era aquilo. A surpresa do engatatão deu então lugar à fúria, explodiu em chapadas e murros, atirou a Lola fora do carro e arrancou a toda a velocidade, como quem foge de fera assassina, deixando-a ali no breu dos pinhais, dorida e ensanguentada, sem ninguém que lhe valesse.

Onde morava ao certo a fonte de tanta fúria, é difícil dizer. Teríamos de perguntar ao próprio Spy, mas isso infelizmente já não é possível. Fúria de sentir-se enganado pelo travesti, figura que, nesse inocente ano lusitano de 1968, o seu universo cognitivo desconhecia por completo? – talvez visse na Lola um burlão sem escrúpulos, e nesse caso, como bem sabemos, sentir-se burlado é manancial de indignação sem limites. Fúria de se ter enganado a si próprio? De confundir homens e mulheres por igual? Fúria de ver a ruína de toda a sua mundividência, como se até então tivesse vivido numa ilusão desgarrada do mundo? Mistério.

Durante vários dias o Spy não deu sinais de vida. Não compareceu à tertúlia, não subiu a calçada a reboque da sua pasta, e sobretudo, e era isso talvez o mais estranho, não veio gabar-se da sua conquista. Pura e simplesmente desapareceu. Até que um dos rapazes, passada quase uma semana, veio entregar a notícia ao bando do Big Ben:

– Já sei onde ele está: fechado à chave no quarto, aos gritos. “Não quero ver ninguém! Eu não quero ver ninguém!”, uma gritaria que se ouve em toda a rua, por isso fui perguntar à dona Adília o que se passava com o filho, e ela:

– Não sei, não sei o que se passa com o meu querido menino, está fechado à chave no quarto há uma semana, estou preocupadíssima, todos os dias lhe levo a comidinha à porta e ele nunca abre, só sabe gritar “Não quero nada, vá-se embora, eu não quero ver ninguém!”, estou moída de ralação, ele já não come há uma semana.

Esta greve da fome foi-se arrastando. Alguém na tertúlia aventou que se chamasse um médico, a polícia, enfim, um auxílio qualquer. Mas o senhor Salgueiro, homem mais velho, mais vivido e sobretudo mais viajado, veio atalhar à porta do café:

– Não bulam com ele. Eu sei quem é a Lola, é melhor deixar passar o tempo, que o Spy há-de recompor-se. Não se metam no assunto: isso seria pior, ainda o envergonhavam mais. Um dia destes ele volta a aparecer aí, vão ver.

Mas não. Nunca mais apareceu. Ou melhor, não apareceu vivo. Tiveram por fim de arrombar a porta do quarto, que já fedia, e foram dar com ele morto, não se sabe porquê nem por que artes. Teria morrido de fome e de sede? De tristeza e vergonha? De comprimidos fatais? Sobre o sudário que o envolveu caiu ainda outro véu, o do mistério silencioso, entretecido de um tabu intransponível.

O luto do Spy durou algum tempo – as ondas de choque que o próprio Spy tinha sofrido rolaram pelas calçadas fora, até atingirem a comunidade adolescente do bairro.

Pouco tempo depois, ainda nos idos da mesma década de 1960, abriria noutra esquina do bairro, por sinal igualmente romba, o Gato Verde, o primeiro bar gay (como se diz hoje em dia, porque naquela data não havia designação para ele, fazia parte de um baldio cognitivo que habitava nas cabeças da rapaziada). E com a lenta expulsão de operários, adelas, peixeiras, artesãos e estivadores sazonais, outros bares da mesma laia se lhe seguiram, fazendo do bairro aquilo que ele é hoje. Os putos deixaram de brincar na rua; a tertúlia dos adolescentes morreu; o Big Ben foi vendido a uma rede de negócio vegan; os estudantes encontraram outras paragens onde estudar e marmelar. Do Spy, porém, nunca mais se ouviu falar.

categoria-crónica Bairros Lisboa edicao-2026-04-09 (22)

Vinte maneiras de ser quinado

1.ª parte: O Big Ben em Lisboa

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.

No morro que desce da Escola Politécnica até São Bento, a Calçada do João do Rio marca fronteira entre duas zonas distintas. De um lado São Mamede, freguesia de tom mais aristocrático; do outro, as Mercês e São Bento, com seus pátios proletários, alguns deles montados à volta da casa senhorial que serviam.

Na década de 1950, porém, os poderes instituídos começaram a favorecer nessa fronteira a construção de novos edifícios, forçando o casamento de casas modestas – como aquela onde nasceu e viveu a actriz Maria Matos – com as novas habitações, mais propícias à classe média e funcionários públicos, assim preparando a progressiva expulsão de operários, peixeiras e lúmpens nas décadas seguintes.

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.

As peixeiras do bairro, fossem elas de canastra ou de triciclo, passavam a vida a fugir à guarda, por não terem como pagar licenças; de modo que muitas optavam por casar com um polícia, assim pondo termo a fugas e desatinos e resolvendo a vida de uma vez por todas.

Ao topo da calçada, mal se virava a esquina, apitavam logo as narinas – aqui há galego! E de facto, poucos metros andados, lá estava a tasca. Como boa tasca galega, ali se vendiam “copos de três” (tostões) de um horroroso vinho (razão tiveram as narinas, “aí não entres!”) e pazadas de carvão, tudo servido sem transição pelas mesmas mãos. Quase em frente ficava a mercearia, donde saíam marçanos impúberes a entregar recados calçada abaixo. Chegavam à porta da rua da cliente em questão, tocavam à campainha nos casos raros em que tal havia, senão berravam como bezerros, até que a cliente – e com ela toda a vizinhança – viesse à janela. E então, da janela do segundo ou terceiro andar, lá baixava a cestinha na ponta da guita, a recolher os ovos, a couve, o nabo … Ficávamos todas sabendo o que seria a janta nesse dia.

Por toda a parte alguém semeara mercearias, drogarias, padarias, latoeiros, funileiros, ferros-velhos, pasteleiros, caldeireiros com sua orquestra de maços tinindo o bronze, cerzideiras, enfim, uma miríade de negócios e lojinhas que viviam do comércio local. Eram todos da família, ou pouco menos que isso: “bom dia, Dona Augusta”, “como vão essas cruzes?”, “então que se conta de novo?”, “entre lá vizinho, sente-se aí um instante”.

Na época própria passava o burro da mulher dos figos e todos os dias, com pontualidade de torre sineira, a cesta do pão e o pote do leite batiam à porta. Uma vez por semana passava a flauta de pã do amolador, uma vez por mês a corneta da recolha do papel a peso, alternada com a do ferro-velho. Quem se lixava eram os muares, que aquelas calçadas não são brincadeira.

Poucos carros havia nessa época, de modo que as ruas eram ocupadas pela miudagem a jogar à bola, a saltar ao eixo ou a fazer corridas de caricas nos lancis de passeio, com turnos de mães assomando de vez em quando à vigia. Tudo por junto, entre flautas de pã, gritinhos gaiatos, metalúrgicos, latoeiros, caldeireiros e pregoeiros, formava-se uma sinfonia concreta da qual infelizmente não temos grandes registos sonoros. Se os tivéssemos, só por si contariam eles todo um romance urbano, sem necessidade de mais explicações. A essa banda sonora concreta vinham juntar-se as melodias dos pianos das casas endinheiradas e as cançonetas constantes das criadas e das donas-de-casa.

Nas casas mais humildes nem divisões de tijolo havia -- separavam-se as filhas dos adultos por finos tabiques de madeira, quando não simples cortinas. No meio de toda esta humildade, como já vos disse foram-se erguendo a partir da década de 1950 uns edifícios de cimento armado, sempre muito respeitadores da cota tradicional, é certo, mas ainda assim conspícuos. Dois havia frente a frente, em esquinas opostas a meio da João do Rio, que embora distintos pareciam traçados no mesmo estirador, pois ambos se revoltavam contra quinas: tinham a fachada redonda, de um convexo largo, achatado como arco abatido, só que deitado; nada que se parecesse com uma esquina simplesmente burilada, como se encontra noutros lugares. A quem por ali passasse sem nunca ter entrado num desses edifícios abaulados, não podia a imaginação deixar de cogitar como fariam os inquilinos para adaptar a tais curvas a quadratura do mobiliário.

Num desses prédios desquinados aventurou-se o senhor Salgueiro a afundar as suas poupanças, abrindo um serviço que naquela rua não havia ainda: o Big Ben, um pequeno café onde não cabiam mais que uma mesinha, duas cadeiras minorcas e três ou quatro clientes de pé, se não fossem esquisitos e se apertassem bem. À primeira vista não viria dali grande negócio, a não ser que os três ou quatro clientes que lá cabiam dessem todos por gorjeta uma nota de cem. O truque do negócio, porém, estava na cave. Nitidamente pensada pelo arquitecto para ser armazém, trocou-lhe as voltas o senhor Salgueiro: montou um salão com grande cópia de mesas e uns murais figurando Londres e o Big Ben que a população de estudantes da Faculdade de Ciências, do British Institute e de outras escolas circunvizinhas imediatamente adoptou como local de marmelada e estudo. O estudo era mais difícil, porque a cave não tinha janelas nem abundância de lâmpadas. Mas outra utilização do espaço associado ao café era ainda possível que nem à cabeça do Salgueiro assomara: o passeio.

Os passeios da calçada eram estreitos como os meus ombros, ou pouco mais, como é de regra nas calçadas lisboetas. Outra regra ainda, absolutamente sagrada, é a de bordejar a esquina do passeio com uma pedra de lancil levemente arredondada – todas as esquinas de Lisboa são buriladas, sem excepção. Mas naquele cruzamento a fachada abaulada do edifício não acompanhava a quina do passeio. Esta violação dos paralelismos abria assim, entre a fachada e a esquina, um espaço largo, uma espécie de esplanada que desde a inauguração do Big Ben a rapaziada do bairro elegeu como sede de tertúlia adolescente. Ali ficava o bando à galhofa até ao soar das doze badaladas nocturnas, ou quando os gritos de protesto dos honestos trabalhadores das redondezas, mortos de sono, vinham à janela pôr ordem na algazarra. Anos mais tarde correria a boca de que o edifício perdera a quina e se tornara convexo devido à fricção constante dos tertulianos contra a fachada – “vou ali polir a esquina”, diziam os rapazes aos pais quando queriam ir ter com os amigos.

Esta tertúlia tinha uma função formativa obrigatória e imperativa. Quem não a frequentasse tornava-se pária. Era aí que os mais velhos industriavam os mais novos na filosofia do macho ibérico e do bairrismo.

Tudo rapazes, porque as raparigas, ou por instinto ou por cautela das mães, tinham o cuidado de atravessar a rua e passar ao largo. Ainda assim, as jovens moradoras do bairro eram razoavelmente respeitadas, ou simplesmente ignoradas, por vezes saudadas com um aceno cortês de cabeça, certamente em nome da boa vizinhança; pelo menos até serem apanhadas na escuridão de uma escada deserta. As outras, as que não eram vizinhas nem conhecidas, sofriam de passagem a mordacidade dos dichotes, alguns hilariantes, ainda que bárbaros. À parte os assobios e a laboriosa prática da arte de mandar bocas às gajas (era um concurso de imaginação, umas vezes obscena, outras vezes non-sense), a tertúlia dos púberes podia ficar horas a lucubrar sobre os mais disparatados mitos urbanos, sobre o significado de as mulheres caminharem com os pés paralelos ou, pelo contrário, circunflexos, e outras meditações de carácter pouco menos que religioso-ó-esotérico. Outro tema que podia alimentar horas das mais abstrusas perorações, eram os carros e as motas – embora ninguém no núcleo duro da tertúlia tivesse nem uns nem outras.

(continua)

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Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

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Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em

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