Lisboa

A bola e o tricô - 1.ª parte
Liceu Lisboa Religião categoria-crónica edicao-2026-05-21 (28)

A bola e o tricô - 1.ª parte

O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória.

Rui Viana Pereira
Os rios da consciência
categoria-crónica Lisboa Tascas Tejo edicao-2026-04-30 (25)

Os rios da consciência

O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus.

Rui Viana Pereira
Os rios da consciência
categoria-crónica Lisboa Tejo edicao-2026-04-23 (24)

Os rios da consciência

1.ª parte: O “paraíso na Terra” Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial

Rui Viana Pereira
Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?
categoria-voz dos sindicatos Lisboa Porto Transportes edicao-2026-04-23 (24)

Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?

Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, a proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes.

Luís Bravo
Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa Sexo edicao-2026-04-16 (23)

Vinte maneiras de ser quinado

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Rui Viana Pereira
Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa edicao-2026-04-09 (22)

Vinte maneiras de ser quinado

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em

Rui Viana Pereira
Liceu Lisboa Religião categoria-crónica edicao-2026-05-21 (28)

A bola e o tricô - 1.ª parte

O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória.

Durante várias décadas, o Liceu Pedro Nunes foi a coqueluche dos liceus lisboetas. Apenas lá entravam os melhores alunos, por regra oriundos de “boas famílias”; de lá saíram incontáveis figuras que viriam a destacar-se na sociedade portuguesa: cientistas, artistas, políticos. Aí estudaram Simone de Oliveira, António Lopes Ribeiro, Francisco Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Sampaio, Álvaro Cunhal, Bento de Jesus Caraça, Rómulo de Carvalho (António Gedeão) e tantos mais.

Não era um liceu como os outros. Quase todos os professores eram metodólogos, isto é, professores universitários ali colocados para fazerem experiências pedagógicas inovadoras. Os programas de ensino das várias disciplinas não seguiam o currículo aprovado a nível nacional, eram mais avançados e experimentais. Mais tarde, a nação inteira haveria de adoptá-los, por serem mais adequados ao progresso da ciência e da sociedade. Uma das inovações do liceu consistia no facto de ser misto, com rapazes e raparigas juntos na mesma sala de aula.

As instalações do liceu situam-se no topo da Avenida Álvares Cabral, mesmo em frente ao Jardim da Estrela. Mais abaixo, a meio da avenida, ficava o defunto Jardim Cinema, conhecido por Palhinhas, devido ao material de que eram feitas as cadeiras da sala de cinema. Tinha, além da grande sala de cinema com plateia, balcão e piolho, salão de festas e um amplo salão de jogos com bilhares, jogos de tabuleiro, matrecos e um andar superior com mesas de pingue-pongue. Como não podia deixar de ser, depois das aulas era inundado pelos cábulas do Liceu Pedro Nunes, que ali fizeram grande parte do seu currículo.

A dada altura, a reitoria do Liceu Pedro Nunes ter-se-á apercebido de que ter alunos provenientes da elite social era muito bonito, mas excluía a hipótese de captar algum génio que por obra do acaso tivesse nascido da ralé. Para obviar este inconveniente, foi criada uma “secção” do liceu, onde seriam admitidos alunos com menos pergaminhos ou menor rendimento escolar. Passou a haver um reitor na sede e um vice-reitor na “secção”. Esta extensão do Pedro Nunes foi instalada no edifício de uma antiga escola primária, do outro lado do Jardim da Estrela, e dada a composição, origem e comportamento da sua população estudantil, foi unanimemente alcunhada O Texas.

O Texas leccionava apenas até ao quinto ano liceal (actual nono ano de escolaridade) e não tinha direito a metodólogos. A partir do quinto ano, os melhores alunos eram transferidos para a sede e os enjeitados tinham de procurar colocação noutro liceu. Em meados da década de 1960 chegou a albergar 777 alunos, dos quais dois, coisa rara nessa época, eram negros.

Um, o Pedro Pedro, na realidade tinha uma linhagem nitidamente lisboeta, denunciada pela pronúncia e pelo facto de ele ser, já na idade imberbe, um virtuoso do piano. Era um excelente aluno e viria a dar um excelente pianista.

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Outro, o Romba, viera da Guiné, muito provavelmente filho de soba enriquecido. Mal conseguia exprimir-se em português e era muito duvidoso que compreendesse as prelecções dos professores. Era um gigante corpulento, como sucede com alguns guineenses, que entrava com grande dificuldade nas carteiras monolíticas das salas de aula, herdadas da antiga escola primária, e por sistema chegava uns bons 20 minutos atrasado à primeira aula. Interpelado quanto aos seus atrasos, escusava-se com o trânsito, a lonjura, a imprevisibilidade dos transportes. À conta dos atrasos sistemáticos teria chumbado logo no primeiro trimestre, não fora beneficiário de uma certa indulgência antidiscriminatória, por assim dizer. Ao fim de seis meses deste regime, descobriu-se que afinal o Romba morava na pensão ao lado do liceu. Foi fácil deduzir que não tinha despertador – acordava com a campainha do primeiro toque de chamada às aulas, onde chegava depois de se preparar e desjejuar à pressa.

Outro aluno que viria um dia a dar nas vistas chamava-se Ludgero do Ó. Durante muito tempo ninguém deu pela sua presença, sempre muito metido consigo; mas um dia deu-lhe um repente de impaciência na aula de Religião e Moral e interrompeu o professor para dizer que, mais do que a Deus, devíamos prestar homenagem aos macacos, nossos antepassados. Como se isso não bastasse para enervar o professor (um ex-seminarista sem sentido de humor nem génio), quando este lhe perguntou se ele ousava pôr em causa a existência de Deus, respondeu que tinha um princípio sagrado: nunca discutir os amigos imaginários das outras pessoas. A partir desse momento o ex-seminarista tomou-o de ponta e começou a intrigar contra ele junto dos outros professores. Diga-se em abono da verdade, estes não parecem ter-lhe dado grande troco.

Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?

Um dia, porém, a propósito de uma minudência administrativa qualquer, o Ó teve de ir ao gabinete do vice-reitor, onde estavam presentes mais dois docentes: uma professora de Ciências Naturais (alcunhada pelos alunos “a Boazona”) e o seminarista. Resolvida a minudência administrativa, preparava-se o Ó para virar costas e sair, quando o professor de Religião e Moral o interpelou:

– Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?

O simples facto de aquele beato ter conseguido descobrir que ele não era baptizado já dizia muito acerca da sua estranha obsessão contra o Ó. Mas isso, na circunstância, era um factor secundário. O pior de tudo era o Ó ser um miúdo muito sensível aos ambientes emocionais. Além de ter apenas 12 inseguros aninhos e sentir-se inferiorizado na presença de três autoridades, pressentiu naquela interpelação um ataque pessoal vindo de alguém com muito mais força física e retórica do que ele. A relação de forças era-lhe muito desfavorável e intimidatória. Sentiu sobretudo que queria fugir dali, evaporar-se, sumir-se chão abaixo e não responder à pergunta. O raciocínio embotou-se-lhe. Não havia, contudo, maneira de eximir-se ao combate. Levou por isso muito tempo a reflectir no rumo a dar à conversa.

– Então? – insistiu o beato. – Diga lá!

O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória. Por conseguinte, aquilo tinha de ser um ataque directo aos seus pais, e não a ele. E Ó não ignorava (ainda que apenas intuísse) que, numa sociedade tão repressiva como a portuguesa na década de 1960, pôr os pais em cheque numa matéria de política religiosa oficiosa podia significar a perda de ganha-pão, ou pior. Em desespero de causa, decidiu atirar com as culpas para cima da avó materna, com a qual não simpatizava grandemente, mas que, por ser protestante adventista do sétimo dia, lhe fornecia um argumento bastante racional. Ora ele tinha sido educado pelos pais num racionalismo humanista ferrenho, de modo que se agarrou a esse argumento como náufrago asfixiado a uma bóia.

– A minha avó acha que ninguém deve ser baptizado antes de atingir a idade da razão plena, ou seja, antes dos dezoito anos. E que deve fazê-lo por vontade própria e não por vontade alheia.

– E os seus pais, o que acham? – insistiu o professor de Religião e Moral.

– Os meus pais acataram a opinião da minha avó, por quem têm grande respeito – retorquiu habilidosamente o Ó. Na realidade, os pais estavam-se marimbando para o baptismo e as instituições religiosas, mas isso sentia ele intuitivamente que não convinha dizer.

Neste ponto, a professora de Ciências Naturais, visivelmente incomodada, veio em seu auxílio:

– Muito bem, Ludgero, está esclarecido. Vá-se lá embora, para não chegar atrasado à aula.

(continua)

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Os rios da consciência

2ª parte: Filho, queres vir comigo à pesca?

O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus.

Estava-se a meio do mês, era dia de descanso e em casa do Augusto não havia dinheiro nem comida. Às sete e meia da manhã foi acordar o Eduardinho:

– Filho, vou à pesca. Queres vir comigo?

O rapaz saltou da cama como uma mola. Tudo quanto cheirasse a aventuras com o pai, fosse lá o que fosse, era sempre divertido e oferecia a oportunidade rara de estar com ele, sempre desaparecido num dos seus dois empregos, de dia guarda-freio, de noite guarda nocturno. Pegaram na sacola da pesca, em três canas e num balde e abalaram colina abaixo, em direcção ao rio. Chegados ao Cais do Sodré, passaram pela tasca onde se serviam petiscos e iscos para a pesca. Depois foram sentar-se numa das muralhas que espartilham o rio, a dar banho à minhoca. Duas canas para pescar à boia, à cata de tainhas; uma linha para pescar ao fundo, na fé de que alguma enguia ou robalo caíssem na esparrela.

Não era a primeira vez que o Eduardo ia à pesca com o pai, por isso já sabia que tinha de fazer um esforço maduro para não bulir com ele, a não ser que o Augusto apelasse à conversa. A pesca era, para o pai, o equivalente da meditação budista – e muita coisa havia a meditar, naquele aperto financeiro em que se encontrava a família. Mas a meditação piscatória tem uma característica bem diversa da meditação oriental: em vez de exigir o máximo tempo possível de concentração num só ponto (a chama de uma vela, a cana do próprio nariz, uma unha do pé), apela à repartição do cérebro em quatro partes, cada uma delas totalmente concentrada num assunto, realizando aquilo que nós chamamos hoje em dia multitasking. E foi assim que, no meio de várias ondas paralelas de pensamento – uma das quais incidia na bóia –, uma vaga nostalgia começou a inundar a cabeça de Augusto.

Augusto tinha tido uma juventude aventurosa. Entre a espampanante peixeira algarvia com quem se amancebou durante alguns anos, a vela desportiva, os passeios de férias pelas serranias de norte a sul do país – onde, enrolado numa manta, se revezava de noite com os pastores que encontrava pelo caminho, de atalaia contra contrabandistas e assaltantes de gado –, tinha muitas aventuras rocambolescas para contar aos amigos na esplanada de Algés (o Palácio de Cristal, como lhe chamavam). Mas o casamento com a Leogarda e o nascimento do Eduardinho tinham posto ponto final às aventuras. Tinha agora a responsabilidade de cuidar daquele pimpolho, de lhe prover educação e saúde, de lhe mostrar o mundo e de o ensinar a caminhar de espinha erecta.

Pôs-se a cogitar naqueles 16 anos de duplo emprego, do qual apenas lhe sobravam quatro horas diárias de sono. A parcimónia do descanso começava a minar-lhe a saúde. Por outro lado, como o Eduardo estava perto de se tornar independente, aproximava-se aquela altura da vida em que ele e a Leogarda, empregada na função pública, mereciam voltar a namorar, a gozar uma vida de casal folgazão que lhes fora vedada durante 16 anos. Olhando para a boia agitada de ondinhas, vieram-lhe à memória os tempos felizes de velejador, quando vogava abstraído de tudo e de todos, concentrado na harmonização do barco e do seu próprio corpo com os elementos todo-poderosos da natureza – o vento, o mar, as correntes, os baixios, os sinais do horizonte e das aves marinhas … Esta vaga bruta de pensamentos derramou-se-lhe do cérebro ao coração, onde sentiu uma espécie de aperto. Não seria já tempo de recuperar alguns gozos da juventude, enquanto o corpo ainda lhe dispensava forças para tanto?

Em pouco tempo a generosidade do rio encheu-lhes o balde com duas enguias, três fataças e uns quantos peixes miúdos, entre bogas e outros. Já bastava para alimentar a família durante o fim de semana. Por mais que tardassem a chegar a casa, dentro da água do balde os peixes não perderiam peso.

– Eduardo, estou a pensar em ir a Pedrouços, falar com uns amigos. Queres ir pôr os peixes em casa, ou vens comigo?

Mais uma vez o rapaz optou com entusiasmo pela companhia do pai. Procuraram uma cabina telefónica, avisaram a mãe do atraso e que não contasse com eles para o almoço, meteram-se no eléctrico para Algés (como guarda-freio, ele e o filho não tinham de pagar bilhete) e apearam-se em Pedrouços. Augusto tinha, contudo, de arranjar maneira de alimentar o filho, com apenas algumas moedas no bolso. Procurou uma tasca sua velha conhecida, perto da Rua da Praia de Pedrouços, onde negociou com o tasqueiro a utilização das brasas para assarem dois dos peixes que tinham pescado, a troco da compra de uma sopa, que dividiram entre os dois, e quatro batatas cozidas. O tasqueiro, que já o conhecia há muitos anos e estava habituado a servir a miséria ribeirinha, não pôs entraves.

Entraram na cantina e Augusto olhou derredor. Na verdade, vinha no fito de encontrar alguns conhecidos que por ali costumavam almoçar. Encontrou dois deles instalados numa das longas mesas com bancos corridos. Saudou, apresentou o filho e juntou-se a eles. O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus: Mestre Matias, experimentado arrais, e Mestre Torvo, um dos calafates mais requisitados das docas de Belém e Pedrouços.

Mestre Matias pôs-se a lastimar a perseguição de que se sentia alvo desde há tempos: queriam que ele trabalhasse para uma empresa náutica, fazendo-lhe um cerco psicológico e económico – era obrigado a comprar o gasóleo mais caro do que a tal empresa, que o comprava por grosso e a preço de favor; o mesmo se passava com os aparelhos de pesca, o velame, o poleame, enfim tudo lhe saía mais caro do que à tal empresa, o que o impedia de competir com eles e o empurrava para a sua grilhoa. Cada vez lhe era mais difícil obter as licenças necessárias ao exercício da sua profissão autónoma, porque empresários, burocratas e legisladores todos estavam “de conluio contra ele”.

– Em suma, querem proletarizar-me a toda a força – sentenciou Mestre Matias. Mestre Torvo secundou-o. Estava a acontecer o mesmo a toda a gente na zona ribeirinha. Proletarização à bomba, por assim dizer.

Augusto percebeu que rumo levava a conversa e levou discretamente o dedo aos lábios, por causa da presença do Eduardinho, mas os convivas não perceberam o sinal.

(continua)

categoria-crónica Lisboa Tejo edicao-2026-04-23 (24)

Os rios da consciência

1.ª parte: O “paraíso na Terra”

Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial e geoestratégico. Mas o seu argumento mais interessante foi, durante bastante tempo, a cultura local. O magnetismo deste argumento transparece nas palavras dos poetas árabes, que elegeram Lisboa como o “paraíso na Terra”.

Isto queria dizer que não era preciso ser hashshashin e desatar a matar infiéis para ascender ao paraíso. Bastava vir viver para a cidade de Lisboa. Aí, sem correrem o risco de censura e punição, os imigrantes podiam amantizar-se com quem queriam, sem olhar a sexos, etnias, pigmentos e proveniências, vendo no outro apenas a sensualidade das curvas, dos pacotes e dos sorrisos; podiam vestir-se como entendessem, sem cumprirem farpelas corporativas e sem por isso serem amarrados ao poste para exibição pública; podiam regular os termos do seu próprio comércio, mais baseado no valor da honra e do bom nome do que no valor da moeda.

Lisboa foi desabrochando como uma flor, em volta da qual zumbiam centenas de embarcações de todos os tamanhos e feitios, umas construídas por armadores enriquecidos, outras a mando da nobreza, a maioria pela mão das artes náuticas populares, apurada ao longo de séculos e extremamente especializadas: construíam-se barcos específicos para carregar tonéis de vinho, outros lenha, outros cereais, outros passageiros … enfim, a lista completa das embarcações de raiz popular ocupar-nos-ia dezenas de páginas.

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Para o caminhante do século XXI é difícil crer na profusão de ribeiras, riachos, arroios, minas de água, boqueirões, bicas, regueirões, fontes e outros murmúrios que atravessavam a cidade. Todas elas foram encanadas muitos palmos abaixo da terra, tornando-se invisíveis. Sobraram, escavados pela teimosia das águas, os vales ladeados de colinas. Onde os barcos varinos subiam ribeiras como a de Alcântara, carregados de produtos, correm agora filas intermináveis de carros. A cidade refrescada de água transformou-se em espaço tórrido no Verão onde, para bebermos um copo de água, temos de andar centenas de metros e por fim abrir os cordões à bolsa. Pelo caminho encontraremos inúmeras vestígios arqueológicos de fontes, bicas e bebedouros – todos selados, secos, especados como postais turísticos amarelecidos; o próprio Aqueduto das Águas Livres teve de despedir-se da liberdade com que corria e apenas subsiste como monumental emplastro ressequido, atravessado na paisagem citadina. E é de crer que, se as autoridades locais dispusessem da tecnologia adequada, já há muito teriam encanado o próprio rio Tejo. A vastidão do Mar da Palha, com os seus 23 km de diâmetro, seria hoje uma ampla zona terraplanada, abarrotada de arranha-céus, esplanadas privadas e centros comerciais. Só por milagre este mar continua a reflectir a sua luz nas paredes da cidade e as suas águas continuam a pulsar, subindo e descendo ao sabor das marés. Mas o facto é que, do rio Trancão até ao rio Jamor, medeiam 22 km (em linha recta), ao longo dos quais, das mais de 20 linhas de água que lá corriam, nem uma só sobreviveu à fúria de encanação.

Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho.

A imensa bolsa interior da foz do Tejo, o Mar da Palha, é uma auto-estrada traiçoeira de baixios e correntes contrárias entre si, de ventos entrecruzados soprados pelas diversas colinas de Lisboa. Quem se aventure num batel sem conhecer as manhas do rio corre o risco de ser levado pela força da maré cheia até Vila Franca de Xira ou, pior ainda, ser descarregado em alto mar pelo poder da vazante. Para navegar no Mar da Palha é preciso conhecer cada palmo das suas águas, correntes e contracorrentes com a meticulosidade de quem conhece cada centímetro do corpo amado.

Tal era o caso do Augusto da Paiva Justo, velejador de extracção proletária. Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho. Sem posses para adquirir o seu próprio barco, era frequentemente requisitado pelos ricaços que possuíam iates na doca de Belém ou na baía de Cascais, mandantes que não sabiam navegar, nem queriam saber, e que em muitos casos jamais poriam os butes a bordo, sob pena de desatarem a gritar pelo Gregório; mas gostavam de ostentar nas estantes umas quantas taças de regata. O Augusto era o patrão de bordo que os ajudava a ilustrar as prateleiras.

À zona ribeirinha nem só as ribeiras vinham desaguar. Havia também as praias, onde a nobreza e a burguesia gostavam de ir a banhos de indolência e a criançada erguia castelinhos de areia que seriam arrasados pela maré seis horas depois, em justa metáfora da obliteração de todas as vaidades imperiais pela maré do tempo. Uma dessas praias, a mais famosa durante algum tempo, era a de Pedrouços. Escusa o meu leitor de ir lá procurá-la, já não existe. Lisboa, que tanto gosta de entoar fados e loas ao rio que lhe banha a pança, é madrasta para o Tejo, ao qual não pára nunca de roubar terreno. Em Pedrouços, como em toda a zona ribeirinha, roubou-lhe centenas de metros, terraplanando a torto e a direito. O único vestígio do rio que o leitor ainda pode aí encontrar será, nalgumas velhas casas (se elas ainda lá estiverem), umas misteriosas argolas nas paredes – em tempos serviam para prender a amarração dos botes dos pescadores. Hoje, daí até ao rio, distam mais de 500 metros. Tal é a medida da espoliação imposta ao rio e aos artesãos.

(continua)

categoria-voz dos sindicatos Lisboa Porto Transportes edicao-2026-04-23 (24)

Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?

Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, a proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes.

ilustração: Ricardo Ferreira

A proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto tem vindo a ganhar força no debate político e social. Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes quanto à sua viabilidade económica, à qualidade do serviço e aos impactos territoriais no país.

Por um lado, os defensores da medida argumentam que eliminar o custo direto para o utilizador promove a equidade no acesso à mobilidade, reduz a dependência do automóvel e contribui para a diminuição das emissões de dióxido de carbono. Num contexto de transição climática e de aumento do custo de vida, a gratuitidade pode representar um alívio significativo para as famílias, sobretudo nas áreas urbanas onde o transporte público é amplamente utilizado.

Contudo, importa analisar de forma crítica os potenciais efeitos colaterais desta política. Um dos principais riscos prende-se com a sustentabilidade financeira das empresas de transporte. A eliminação das receitas provenientes dos bilhetes implica uma maior dependência de financiamento público, ou seja, dos contribuintes. Isto levanta a questão do princípio do utilizador-pagador: será justo que toda a população, incluindo quem não beneficia diretamente destes serviços — nomeadamente os residentes em zonas rurais — suporte o custo total da operação?

Além disso, a pressão acrescida sobre a procura pode ter consequências na qualidade do serviço. Sem um reforço proporcional da oferta — mais veículos, maior frequência e investimento em manutenção —, existe o risco de sobrelotação, atrasos e degradação geral da experiência do utilizador. A gratuitidade, por si só, não resolve problemas estruturais como a falta de capacidade ou a insuficiência de investimento.

Ao concentrar benefícios significativos nas áreas metropolitanas, esta política pode acentuar desigualdades regionais.

Outro ponto crítico diz respeito à coesão territorial. Ao concentrar benefícios significativos nas áreas metropolitanas, esta política pode acentuar desigualdades regionais. A atratividade acrescida de Lisboa e Porto poderá intensificar a deslocação de população do interior para o litoral, agravando fenómenos já existentes de desertificação. Neste sentido, a medida, ainda que bem-intencionada, pode ter efeitos contrários aos objetivos de equilíbrio territorial e desenvolvimento regional.

Uma alternativa poderá passar por soluções intermédias, como a redução tarifária progressiva, a gratuitidade para grupos específicos (jovens, idosos ou famílias de baixos rendimentos) ou a implementação de passes mais acessíveis. Estas opções permitem mitigar custos e testar impactos, sem comprometer de imediato a sustentabilidade do sistema.

Em suma, a gratuitidade dos transportes públicos em Lisboa e Porto é uma proposta com mérito social e ambiental, mas que exige uma análise cuidadosa e integrada. A sua implementação deverá ser acompanhada de garantias de financiamento estável, reforço da oferta e políticas complementares que assegurem a coesão territorial. Caso contrário, o que se apresenta como uma solução poderá transformar-se num problema estrutural de difícil reversão.

categoria-crónica Bairros Lisboa Sexo edicao-2026-04-16 (23)

Vinte maneiras de ser quinado

2.ª parte: Lola desce à cidade

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Havia também dois ou três pós-adolescentes de duvidosa maturidade que por vezes concediam a honra de uma visita à assembleia pubente, impantes de autoridade encartada por motivos óbvios (idade, cabedal e experiência). Um deles, ponto de referência notável, era o Spy. Nunca ninguém soube o seu nome de baptismo; era o Spy e pronto. Talvez a própria mãe (com quem ele ainda vivia, numa época em que continuar a viver com os pais após os 18 anos de idade constituía um comportamento estranho, para não dizer aberrante), talvez a própria mãe tivesse esquecido o nome oficial do filho único. Para ela, “o Meu Querido Menino”; para os demais, Spy.

Fosse Verão ou Inverno, o Spy envergava sempre uma gabardina comprada no guarda-roupa dos mais conceituados filmes policiais americanos e franceses. Subia a calçada, paulatinamente, com uma misteriosa pasta que nunca o largava debaixo do braço, e trazia sempre na algibeira uma colecção de falsos cartões adequados a todas as ocasiões: conforme as circunstâncias seria detective privado, agente da CIA, agente da PIDE, funcionário da Interpol … Tinha, além de tudo isso, um Morris Mini que raramente usava, a não ser quando ia à caça das garinas, mas do qual tinha muito orgulho. A raridade do seu uso dever-se-ia provavelmente ao preço da gasolina e à falta de garinas disponíveis.

O Spy era um sujeito atlético, de queixada quadrangular, que, à semelhança de vários outros jovens do bairro, trabalhava três meses por ano na estiva, indo depois estoirar as poupanças durante um ou dois meses de vilegiatura além-fronteiras.

As aventuras rocambolescas do Spy raramente chegavam ao conhecimento da tertúlia dos púberes, a quem ele não cedia muita confiança – até porque, convenhamos, andando sempre metido em demandas sigilosas, quando não segredos de Estado, não convinha alimentar confidências. O pouco que se sabia das suas andanças devia-se a um ajudante, um vizinho lingrinhas, mas esfuziante de imaginação e genica, que ele adoptou para muitas das suas peripécias: o Batatinha. Esta transigência do Spy devia-se ao facto de o Batatinha (mais um do qual jamais saberemos o verdadeiro nome…) ser capaz de alinhar espontaneamente em todas as loucuras do Spy, sem necessidade de explicações, acrescentando-lhes de bónus a sua imaginação desenfreada – por exemplo, subir a calçada, chegar à Rua da Escola Politécnica e, ao primeiro carro que passa (que por acaso, e que acaso!, até foi um Porsche 356B T5 Super 80), mandar parar um táxi que vinha logo atrás.

– Siga aquele carro! – gritou ele ao motorista em tom de grande urgência, atirando-se para dentro do Mercedes; e depois, para o Batatinha:

– Entra, rápido!

O motorista achou tudo aquilo normal – até porque no Porsche não cabiam três passageiros e, portanto, era natural que dois deles seguissem de táxi –, até ao momento em que se estabeleceu o seguinte expediente entre o Spy e o Batatinha:

– Batatinha, trouxeste a arma?

– Está aqui.

– Dá cá, não vá o diabo tecê-las.

Na verdade, “a arma” era uma pistola de pressão de ar com que o Spy, sabe-se lá porquê, poucas noites antes tinha andado aos tiros com o guarda-nocturno – ainda era visível a marca de um chumbinho na chapa do sinal de trânsito na esquina oposta ao Big Ben –com a diferença de que a arma do guarda-nocturno era uma Walter a sério, com balas a sério.

– Toma lá vinte paus. Quando eu sair do carro, paga a corrida. Mas pede uma factura para apresentar ao cliente. E mete a factura na pasta, não te esqueças, para eu entregar ao contabilista. – E passou-lhe a famosa pasta para a mão.

Nisto, o Porsche chega ao Saldanha e vai estacionar à porta do Galeto, um snack-bar muito na moda, acabadinho de estrear nesse ano. Pouco mais adiante pára o táxi e sai o Spy. Todas estas acções parecem passar num ápice, mas mais rápido ainda foi o porteiro do Galeto. Parece que o dono do Porsche, um jovem com ares de beto, tinha há dias armado uma caldeirada à porta do Galeto, como é corrente nos animais da sua espécie, e estava proibido de voltar a entrar. O porteiro barra-lhe entrada. O beto protesta. Formam-se rapidamente partidos, ameaça gerar-se uma grande baderna, entra o Spy em campo, saca de um cartão, “Interpol, afastem-se …”, a pancadaria generaliza-se e quando já está tudo a ferver, o Spy afasta-se de fininho, vai ter com o Batatinha e regressam os dois ao bairro, a pé e numa galhofa desatada sobre o trinta-e-um que ali tinham armado.

Desta e de muitas outras aventuras nunca chegou à tertúlia uma única prova material, com excepção do já mencionado chumbinho e da voz do Batatinha, cuja imaginação, mais fértil ainda que a do Spy, não podia deixar de suscitar alguma suspeição. Mas nada disso tinha importância, porque a actividade mais nobre da tertúlia consistia no cultivo de mitos imaginosos.

Na semana seguinte à baderna no Galeto, a tertúlia do Big Ben olha para o cimo da calçada e vê o Spy a descê-la mais lesto que nunca. Vinha enfunado, extasiado, exaltado:

– Vocês nem vão acreditar na gaja que eu conheci no Galeto. Eh pá, um espectáculo, espampanante, até pensei que me ia saltar o coração do peito. Paleio praqui, paleio pracoli, já sei que se chama Lola. Amanhã vou lá engatá-la de vez.

Lolita, vamos dar uma volta no meu carro.

No dia seguinte lá foi ele ao Galeto, desta vez no Mini. E lá estava a Lola, à espera de que ele lhe pagasse o jantar bem regado e rematado de conhaques. Correu bem o convívio, com cortesias e volteios adequados à decoração muito burilada do Galeto, e por fim o momento tão esperado: “Lolita, vamos dar uma volta no meu carro?” O assentimento precípite da Lola teria talvez acordado a desconfiança de qualquer outro mais avisado, mas não a do embevecido Spy. Meteram-se no Mini e arrancaram direitos a Monsanto, onde o espião enveredou por estradinhas escusas. Chegados a um lugar que lhe pareceu suficientemente discreto, o Spy não se fez rogado: deitou-lhe as mãos e as beiças, e tudo o mais que tinha à mão, e tudo corria às mil maravilhas até ao momento em que o temerário conquistador meteu a mão no entrepernas da moça. Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola. Mas aquele apetrecho ali pendurado entrepernas não batia certo com nada. Passado um longo momento de incredulidade, o Spy teve de se render às evidências: tinha engatado um homem, ou lá o que era aquilo. A surpresa do engatatão deu então lugar à fúria, explodiu em chapadas e murros, atirou a Lola fora do carro e arrancou a toda a velocidade, como quem foge de fera assassina, deixando-a ali no breu dos pinhais, dorida e ensanguentada, sem ninguém que lhe valesse.

Onde morava ao certo a fonte de tanta fúria, é difícil dizer. Teríamos de perguntar ao próprio Spy, mas isso infelizmente já não é possível. Fúria de sentir-se enganado pelo travesti, figura que, nesse inocente ano lusitano de 1968, o seu universo cognitivo desconhecia por completo? – talvez visse na Lola um burlão sem escrúpulos, e nesse caso, como bem sabemos, sentir-se burlado é manancial de indignação sem limites. Fúria de se ter enganado a si próprio? De confundir homens e mulheres por igual? Fúria de ver a ruína de toda a sua mundividência, como se até então tivesse vivido numa ilusão desgarrada do mundo? Mistério.

Durante vários dias o Spy não deu sinais de vida. Não compareceu à tertúlia, não subiu a calçada a reboque da sua pasta, e sobretudo, e era isso talvez o mais estranho, não veio gabar-se da sua conquista. Pura e simplesmente desapareceu. Até que um dos rapazes, passada quase uma semana, veio entregar a notícia ao bando do Big Ben:

– Já sei onde ele está: fechado à chave no quarto, aos gritos. “Não quero ver ninguém! Eu não quero ver ninguém!”, uma gritaria que se ouve em toda a rua, por isso fui perguntar à dona Adília o que se passava com o filho, e ela:

– Não sei, não sei o que se passa com o meu querido menino, está fechado à chave no quarto há uma semana, estou preocupadíssima, todos os dias lhe levo a comidinha à porta e ele nunca abre, só sabe gritar “Não quero nada, vá-se embora, eu não quero ver ninguém!”, estou moída de ralação, ele já não come há uma semana.

Esta greve da fome foi-se arrastando. Alguém na tertúlia aventou que se chamasse um médico, a polícia, enfim, um auxílio qualquer. Mas o senhor Salgueiro, homem mais velho, mais vivido e sobretudo mais viajado, veio atalhar à porta do café:

– Não bulam com ele. Eu sei quem é a Lola, é melhor deixar passar o tempo, que o Spy há-de recompor-se. Não se metam no assunto: isso seria pior, ainda o envergonhavam mais. Um dia destes ele volta a aparecer aí, vão ver.

Mas não. Nunca mais apareceu. Ou melhor, não apareceu vivo. Tiveram por fim de arrombar a porta do quarto, que já fedia, e foram dar com ele morto, não se sabe porquê nem por que artes. Teria morrido de fome e de sede? De tristeza e vergonha? De comprimidos fatais? Sobre o sudário que o envolveu caiu ainda outro véu, o do mistério silencioso, entretecido de um tabu intransponível.

O luto do Spy durou algum tempo – as ondas de choque que o próprio Spy tinha sofrido rolaram pelas calçadas fora, até atingirem a comunidade adolescente do bairro.

Pouco tempo depois, ainda nos idos da mesma década de 1960, abriria noutra esquina do bairro, por sinal igualmente romba, o Gato Verde, o primeiro bar gay (como se diz hoje em dia, porque naquela data não havia designação para ele, fazia parte de um baldio cognitivo que habitava nas cabeças da rapaziada). E com a lenta expulsão de operários, adelas, peixeiras, artesãos e estivadores sazonais, outros bares da mesma laia se lhe seguiram, fazendo do bairro aquilo que ele é hoje. Os putos deixaram de brincar na rua; a tertúlia dos adolescentes morreu; o Big Ben foi vendido a uma rede de negócio vegan; os estudantes encontraram outras paragens onde estudar e marmelar. Do Spy, porém, nunca mais se ouviu falar.

categoria-crónica Bairros Lisboa edicao-2026-04-09 (22)

Vinte maneiras de ser quinado

1.ª parte: O Big Ben em Lisboa

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.

No morro que desce da Escola Politécnica até São Bento, a Calçada do João do Rio marca fronteira entre duas zonas distintas. De um lado São Mamede, freguesia de tom mais aristocrático; do outro, as Mercês e São Bento, com seus pátios proletários, alguns deles montados à volta da casa senhorial que serviam.

Na década de 1950, porém, os poderes instituídos começaram a favorecer nessa fronteira a construção de novos edifícios, forçando o casamento de casas modestas – como aquela onde nasceu e viveu a actriz Maria Matos – com as novas habitações, mais propícias à classe média e funcionários públicos, assim preparando a progressiva expulsão de operários, peixeiras e lúmpens nas décadas seguintes.

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.

As peixeiras do bairro, fossem elas de canastra ou de triciclo, passavam a vida a fugir à guarda, por não terem como pagar licenças; de modo que muitas optavam por casar com um polícia, assim pondo termo a fugas e desatinos e resolvendo a vida de uma vez por todas.

Ao topo da calçada, mal se virava a esquina, apitavam logo as narinas – aqui há galego! E de facto, poucos metros andados, lá estava a tasca. Como boa tasca galega, ali se vendiam “copos de três” (tostões) de um horroroso vinho (razão tiveram as narinas, “aí não entres!”) e pazadas de carvão, tudo servido sem transição pelas mesmas mãos. Quase em frente ficava a mercearia, donde saíam marçanos impúberes a entregar recados calçada abaixo. Chegavam à porta da rua da cliente em questão, tocavam à campainha nos casos raros em que tal havia, senão berravam como bezerros, até que a cliente – e com ela toda a vizinhança – viesse à janela. E então, da janela do segundo ou terceiro andar, lá baixava a cestinha na ponta da guita, a recolher os ovos, a couve, o nabo … Ficávamos todas sabendo o que seria a janta nesse dia.

Por toda a parte alguém semeara mercearias, drogarias, padarias, latoeiros, funileiros, ferros-velhos, pasteleiros, caldeireiros com sua orquestra de maços tinindo o bronze, cerzideiras, enfim, uma miríade de negócios e lojinhas que viviam do comércio local. Eram todos da família, ou pouco menos que isso: “bom dia, Dona Augusta”, “como vão essas cruzes?”, “então que se conta de novo?”, “entre lá vizinho, sente-se aí um instante”.

Na época própria passava o burro da mulher dos figos e todos os dias, com pontualidade de torre sineira, a cesta do pão e o pote do leite batiam à porta. Uma vez por semana passava a flauta de pã do amolador, uma vez por mês a corneta da recolha do papel a peso, alternada com a do ferro-velho. Quem se lixava eram os muares, que aquelas calçadas não são brincadeira.

Poucos carros havia nessa época, de modo que as ruas eram ocupadas pela miudagem a jogar à bola, a saltar ao eixo ou a fazer corridas de caricas nos lancis de passeio, com turnos de mães assomando de vez em quando à vigia. Tudo por junto, entre flautas de pã, gritinhos gaiatos, metalúrgicos, latoeiros, caldeireiros e pregoeiros, formava-se uma sinfonia concreta da qual infelizmente não temos grandes registos sonoros. Se os tivéssemos, só por si contariam eles todo um romance urbano, sem necessidade de mais explicações. A essa banda sonora concreta vinham juntar-se as melodias dos pianos das casas endinheiradas e as cançonetas constantes das criadas e das donas-de-casa.

Nas casas mais humildes nem divisões de tijolo havia -- separavam-se as filhas dos adultos por finos tabiques de madeira, quando não simples cortinas. No meio de toda esta humildade, como já vos disse foram-se erguendo a partir da década de 1950 uns edifícios de cimento armado, sempre muito respeitadores da cota tradicional, é certo, mas ainda assim conspícuos. Dois havia frente a frente, em esquinas opostas a meio da João do Rio, que embora distintos pareciam traçados no mesmo estirador, pois ambos se revoltavam contra quinas: tinham a fachada redonda, de um convexo largo, achatado como arco abatido, só que deitado; nada que se parecesse com uma esquina simplesmente burilada, como se encontra noutros lugares. A quem por ali passasse sem nunca ter entrado num desses edifícios abaulados, não podia a imaginação deixar de cogitar como fariam os inquilinos para adaptar a tais curvas a quadratura do mobiliário.

Num desses prédios desquinados aventurou-se o senhor Salgueiro a afundar as suas poupanças, abrindo um serviço que naquela rua não havia ainda: o Big Ben, um pequeno café onde não cabiam mais que uma mesinha, duas cadeiras minorcas e três ou quatro clientes de pé, se não fossem esquisitos e se apertassem bem. À primeira vista não viria dali grande negócio, a não ser que os três ou quatro clientes que lá cabiam dessem todos por gorjeta uma nota de cem. O truque do negócio, porém, estava na cave. Nitidamente pensada pelo arquitecto para ser armazém, trocou-lhe as voltas o senhor Salgueiro: montou um salão com grande cópia de mesas e uns murais figurando Londres e o Big Ben que a população de estudantes da Faculdade de Ciências, do British Institute e de outras escolas circunvizinhas imediatamente adoptou como local de marmelada e estudo. O estudo era mais difícil, porque a cave não tinha janelas nem abundância de lâmpadas. Mas outra utilização do espaço associado ao café era ainda possível que nem à cabeça do Salgueiro assomara: o passeio.

Os passeios da calçada eram estreitos como os meus ombros, ou pouco mais, como é de regra nas calçadas lisboetas. Outra regra ainda, absolutamente sagrada, é a de bordejar a esquina do passeio com uma pedra de lancil levemente arredondada – todas as esquinas de Lisboa são buriladas, sem excepção. Mas naquele cruzamento a fachada abaulada do edifício não acompanhava a quina do passeio. Esta violação dos paralelismos abria assim, entre a fachada e a esquina, um espaço largo, uma espécie de esplanada que desde a inauguração do Big Ben a rapaziada do bairro elegeu como sede de tertúlia adolescente. Ali ficava o bando à galhofa até ao soar das doze badaladas nocturnas, ou quando os gritos de protesto dos honestos trabalhadores das redondezas, mortos de sono, vinham à janela pôr ordem na algazarra. Anos mais tarde correria a boca de que o edifício perdera a quina e se tornara convexo devido à fricção constante dos tertulianos contra a fachada – “vou ali polir a esquina”, diziam os rapazes aos pais quando queriam ir ter com os amigos.

Esta tertúlia tinha uma função formativa obrigatória e imperativa. Quem não a frequentasse tornava-se pária. Era aí que os mais velhos industriavam os mais novos na filosofia do macho ibérico e do bairrismo.

Tudo rapazes, porque as raparigas, ou por instinto ou por cautela das mães, tinham o cuidado de atravessar a rua e passar ao largo. Ainda assim, as jovens moradoras do bairro eram razoavelmente respeitadas, ou simplesmente ignoradas, por vezes saudadas com um aceno cortês de cabeça, certamente em nome da boa vizinhança; pelo menos até serem apanhadas na escuridão de uma escada deserta. As outras, as que não eram vizinhas nem conhecidas, sofriam de passagem a mordacidade dos dichotes, alguns hilariantes, ainda que bárbaros. À parte os assobios e a laboriosa prática da arte de mandar bocas às gajas (era um concurso de imaginação, umas vezes obscena, outras vezes non-sense), a tertúlia dos púberes podia ficar horas a lucubrar sobre os mais disparatados mitos urbanos, sobre o significado de as mulheres caminharem com os pés paralelos ou, pelo contrário, circunflexos, e outras meditações de carácter pouco menos que religioso-ó-esotérico. Outro tema que podia alimentar horas das mais abstrusas perorações, eram os carros e as motas – embora ninguém no núcleo duro da tertúlia tivesse nem uns nem outras.

(continua)

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