Filipe II

Uma revolução popular em Angra no século XVI
categoria-história edicao-2026-11-05 (48) Ilha Terceira Filipe II Prior do Crato Revolução

Uma revolução popular em Angra no século XVI

Ao lado dos oficiais mecânicos, camadas populares, frades franciscanos, elementos da pequena burguesia e nobreza, enfrentaram o sector filipista sustentado pelos jesuítas e pelos burgueses e nobres mais poderosos.

Carlos Enes
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Uma revolução popular em Angra no século XVI

O apoio dado pelos terceirenses a D. António, prior do Crato, candidato ao trono de Portugal, iniciou-se de forma moderada até ao momento em que os oficiais mecânicos decidiram liderar o processo. Ao lado deles, camadas populares, frades franciscanos, elementos da pequena burguesia e nobreza, enfrentaram o sector filipista sustentado pelos jesuítas e pelos burgueses e nobres mais poderosos, imaginando que o vasto império espanhol lhes seria vantajoso.

As razões que levaram a ilha Terceira a tomar uma posição ímpar no contexto do arquipélago têm uma explicação histórica. A baía de Angra era um ponto de passagem das embarcações que circulavam pelas Índias Orientais e Ocidentais, fazendo que a cidade se tornasse numa Lisboa em miniatura, como escreveu o cronista Gaspar Frutuoso1. A população urbana (8400 habitantes) correspondia a cerca de 50% dos habitantes da Terceira, com um peso significativo de oficiais mecânicos, nas mais variadas profissões. Organizados em confrarias, cerca de 50, constituíam um grupo com poder de compra e uma liberdade de ação sem a dependência dos senhores da nobreza. Este estatuto permitiu-lhes ir acompanhando o processo e conquistando o seu lugar até se afirmarem como líderes da resistência.

Ciprião de Figueiredo, um capitão-general conciliador

O cargo de corregedor dos Açores, que Ciprião de Figueiredo detinha desde 1578, conduziu a que ocupasse a missão de capitão-general. Foi ele quem tratou de enviar emissários a D. António, a comunicar a fidelidade prestada, quem presidiu às cerimónias de juramento de militares e civis e procedeu à nomeação de homens da sua confiança para os diversos cargos. 

Tudo correu sem sobressaltos até que um influente membro da nobreza local decidiu montar a cavalo e percorrer as ruas a dar vivas a Filipe II, com apoio dos jesuítas. Estava dado o primeiro sinal de antagonismos internos que Ciprião de Figueiredo tentou controlar com diplomacia. Apesar de o insurreto ter sido preso, a população pretendia menos tolerância para com ele e outros traidores. 

As forças filipinas foram derrotadas pelos populares, a que não faltou a ajuda de bovinos, espicaçados com aguilhões, para desbaratar o exército inimigo.

As tentativas de Filipe II, solicitando a rendição da ilha, não resultaram, e esta teimosia conduziu à batalha da Salga, em 25 de julho de 1581. As forças de D. Pedro de Valdez foram derrotadas pelos populares, a que não faltou a ajuda de bovinos, espicaçados com aguilhões, para desbaratar o exército inimigo.

A força dos “menores” cada vez maior

Esta foi uma vitória do povo terceirense que, a partir de então, decidiu controlar paulatinamente a direção da resistência. 

Os populares marcaram posição entaipando os jesuítas no seu colégio, onde estiveram enclausurados até à expulsão da ilha, em 1582. A força dos “menores” tornou-se cada vez maior e a liderança de Ciprião foi posta em causa. Os oficiais mecânicos organizaram um motim com o intuito de o afastar e enviaram cartas a D. António pedindo que o substituísse. 

A visita de D. António à ilha, em meados de 1582, deu ânimo à população. No discurso oficial da receção, ficaram claras as intenções. Se na ilha, a arraia-miúda se impunha, nada impedia D. António de fazer o mesmo: que “seus povos fossem regidos e governados pelos menores”. A luta a favor do prior do Crato ultrapassava o mero patriotismo e desenvolvia-se com o objetivo de instaurar uma nova ordem política. 

A perseguição aos inimigos tornou-se mais intensa, acabando a fase de conciliação. Com a fuga do bispo para São Miguel, a Sé foi declarada vacante e o Cabido nomeou um novo provisor e vigário-geral, provocando um cisma religioso; por apoiarem Filipe II, os jesuítas foram desentaipados e enviados para Inglaterra, e o monarca levou consigo cerca de 80 nobres, bem como Ciprião de Figueiredo.

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Após a partida de D. António, o novo governador-geral, conde Manuel da Silva, quebrou todos os privilégios da Câmara e chegou a prender juízes com as varas na mão. A nobreza foi substituída nas companhias de ordenança por oficiais mecânicos, que passaram a sargentos de companhia e almotacés. Foram confiscados bens a partidários de Filipe II e foram estes quem contribuiu, em larga medida, para sustentar a revolução. A violência que se instalou foi corporizada pelo conde Manuel da Silva, que não tinha hipótese de seguir outro caminho: ou cumpria as ordens do núcleo mais revolucionário ou arriscava a própria vida. 

Filipe II não desistiu de tomar posse da ilha e, em julho de 1583, uma segunda armada dominou a luta dos terceirenses. A violência desencadeou-se, agora, em sentido contrário, sufocando o sonho de instaurar uma nova ordem política.

Nunca mais a Terceira viveu um período revolucionário com estas caraterísticas, muito mais radical do que o das lutas liberais, dirigidas por elementos da nobreza e da burguesia, sem que a voz do povo fosse ouvida.


1 Para uma leitura mais desenvolvida do tema, consultar o trabalho do autor A resistência popular a Filipe II, Temas de História Açoriana, Letras Lavadas edições, 2023, pp. 5-50.

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Ao lado dos oficiais mecânicos, camadas populares, frades franciscanos, elementos da pequena burguesia e nobreza, enfrentaram o sector filipista sustentado pelos jesuítas e pelos burgueses e nobres mais poderosos.

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