“Teoria da grande substituição”:
Mito ou facto?
Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”. À classe trabalhadora compete, no seu próprio interesse, lutar contra essa desunião promovida pelo capital e seus agentes. Eis o que defende Pietro Basso nesta entrevista ao Maio.
Entrevista de Raquel Varela com Pietro Basso1
Pietro Basso é um sociólogo italiano, académico e militante. Lecionou Sociologia no Instituto Universitário Oriental de Nápoles e na Universidade Ca’Foscari de Veneza. Atualmente está aposentado e é editor do blogue “Il pungolo rosso”. É colaborador destacado do sindicato SI Cobas. Em português tem publicado o livro Tempos modernos, jornadas antigas: vidas de trabalho no início do século XXI (UNICAMP, Brasil, 2018). Dada a extensão da entrevista, publicamo-la em três partes. Esta é a primeira.
Raquel Varela: O que achas da “teoria da grande substituição”? Há alguma verdade na mentira? Por exemplo, os portugueses vão para longe, sem ver a família, emigram; para aqui, emigram do Nepal. Não há aqui uma visão liberal das pessoas como mão de obra e uma idealização de pessoas flexíveis, sem lugar, sem família, sem relações de confiança e tempo?
Pietro Basso: Não, a teoria da grande substituição (TGS) não tem um pingo de verdade, pelo menos no que diz respeito à sua tese fundamental, a da existência de uma conspiração, de um plano secreto das elites dominantes e capitalistas dos países de imigração para substituir a população nativa por populações imigrantes de cor. As migrações internacionais — é disso que se trata — têm causas objectivas e subjectivas, seculares ou mais recentes; conspirações e segredos não entram para o caso. Tenho sintetizado as causas em sete pontos: 1) desigualdades de desenvolvimento geradas pelas memoráveis empresas do colonialismo histórico, incluindo o português: a pilhagem das Américas, com o extermínio das populações nativas, o tráfico de escravos e escravas da África, a colonização do Golfo Pérsico e do mundo árabe, o assalto europeu à Ásia; 2) a dívida externa que estrangula a grande maioria dos países do Sul do mundo (ex-colónias ou semicolónias), em consequência do processo secular de desacumulação primitiva, fruto, precisamente, do colonialismo histórico e usado — contra esses países — pelo neocolonialismo financeiro e termonuclear dos últimos 80 anos; 3) a transformação capitalista da agricultura do Sul e do Leste do mundo sob o mando das empresas multinacionais do agronegócio, que está a apertar num torno de ferro, a montante e a jusante, a pequena propriedade camponesa, provocando o êxodo do campo, ano após ano, de dezenas de milhões de camponeses e trabalhadores rurais; 4) as guerras neocoloniais desencadeadas, em geral, pelas potências ocidentais, ou as guerras por procuração que devastam a vida de muitos países; 5) os desastres ecológicos, que se têm intensificado devido à dramática combinação entre mudanças no ecossistema global e mudanças nos ecossistemas locais; 6) a inesgotável carência de trabalhadores e trabalhadoras imigrantes sentida pelos países mais ricos (limitemo-nos neste ponto aos países da UE) por razões demográficas, para sustentar a competitividade das suas empresas, reduzindo o custo do trabalho, e para assegurar a prestação de cuidados a idosos e a limpeza doméstica, cada vez mais externalizadas a mão de obra imigrante; 7) as crescentes expectativas das populações e, especialmente, das mulheres oriundas do Sul mundial (hoje metade dos emigrantes, o que é uma novidade na história das migrações), que já não estão dispostas a aceitar com fatalismo condições de existência e de trabalho indignas de seres humanos, estando, portanto, dispostas a procurá-las em qualquer lugar, ainda que com risco de vida.
O único caroço de verdade contido na TGS — porém mistificado e muito deturpado — reside na necessidade que as empresas europeias sentem de dispor de mão de obra abundante a baixo custo e com direitos mínimos (ou nulos). Isso é verdade, verdadíssima. Tanto mais na presente conjuntura, em que as empresas europeias perdem quotas importantes do mercado mundial para as chinesas/asiáticas e norte-americanas. Contudo, este facto nunca é denunciado nestes termos pelos defensores da great replacement theory (teoria da grande substituição), que estão agora no governo nos Estados Unidos, na Itália, na Hungria, pelos pregoeiros intelectuais desta nefasta “teoria” (R. Camus, T. Sarrazin, E. Zemmour, M. Houellebecq ou os falecidos O. Fallaci e J. Raspail), nem pelos partidos e movimentos do tipo do RN de Marine Le Pen, da Lega de Salvini, do Chega, Vox, Pegida, Ibo, Finns Party, Afd, Fidesz, e por aí adiante, partidos e movimentos que são tudo menos anticapitalistas.
Isso não quer dizer que seja racional ou humanamente belo que milhões de homens e mulheres das classes trabalhadoras tenham de desarraigar-se do Nepal, da Ucrânia ou das ex-colónias portuguesas em África para procurar “uma vida melhor” em Portugal, enquanto dezenas de milhares de jovens portugueses, metade deles com elevados níveis de escolaridade, são por sua vez obrigados a procurar “uma vida melhor” fora da sua terra natal, na França, na Suíça ou no Brasil. Eu não exalto as migrações, tento analisar as suas causas e efeitos, atendo-me à realidade, a realidade implacável do capitalismo global e das suas leis de funcionamento.
Se realmente se quer mudar profundamente, revolucionar esta realidade implacável que obriga milhões (actualmente, mais de 250 milhões) de mulheres e homens a emigrar, se se quer acabar com a coacção à emigração como forma de violência, então é necessário mobilizar-se contra as grandes forças do capitalismo financeiro, industrial e agrícola e os governos que as servem, não contra as vítimas dessa violência sistémica, que tentam escapar de qualquer maneira à sua ditadura, mudando-se, se for preciso, para o outro lado do mundo para evitar sucumbir à fome, à pobreza, às guerras, aos desastres ecológicos, etc. Em contrapartida, os plumitivos da great replacement theory e do white holocaust (holocausto branco), como covardes que são, atacam, demonizam (o termo mais adequado) as populações emigrantes e imigrantes, exigindo a “grande repatriação”, a “remigração”, portanto a deportação forçada do maior número possível de imigrantes.
Nada de particularmente novo. Tal como na grande crise da década de 1930, os movimentos reaccionários de cariz racista nascem dentro das camadas pequeno-burguesas desclassificadas, tomadas pelo medo, pelo terror de um futuro proletário, atirando-se, movidos por essa angústia, ao mais fácil dos bodes expiatórios, que ontem, em muitos casos, era a massa judaica e hoje são os imigrantes. O grande capital vai fazendo festinhas a estes movimentos e aos seus porta-vozes, e ajuda-os a crescer, porque eles servem optimamente um seu duplo interesse: desviam a atenção das causas estruturais da crise social e das perspectivas, todas sistémicas, apontando a um falso alvo “externo” como responsável por todos os males sociais e dividindo de cima abaixo o proletariado, a única classe cuja força a burguesia teme.
Queremos combater a concorrência que os trabalhadores imigrantes objectivamente (não por escolha própria) fazem no mercado de trabalho? Muito bem. Então, lutemos pela sua regularização.
Queremos evitar que muita gente tenha de abandonar as altas montanhas e as vilas do Nepal para “tentar a sua sorte” em Lisboa ou no Alentejo (indo chocar com o racismo made in Portugal)? Queremos evitar que muita gente tenha de abandonar as margens límpidas e as colinas suaves de Portugal para “tentar a sua sorte” (e encontrar racismo anti-português) em Paris ou Zurique? Muito bem, de acordo. Só que então é contra as grandes forças que dominam o mercado e a política mundial (e nacional) que é preciso lutar – ao lado das populações imigrantes, ombro a ombro com elas. Lutar, só para dar um exemplo, contra a destruição do Estado-providência, que destruiu uma quantidade de empregos qualificados (na saúde, na educação, etc.) e produz desemprego e emigração internos à União Europeia, dos países menos ricos para os mais ricos do Centro-Norte da Europa, além de todo o tipo de problemas sociais. Ou lutar, por exemplo, contra o flagelo das guerras do capital, que ontem devastaram a Jugoslávia e hoje a Ucrânia, gerando milhões de emigrantes forçados a dispersar-se pelos quatro cantos do mundo.
Mas, para nos ficarmos pelo tema das políticas migratórias: queremos combater a concorrência que os trabalhadores imigrantes objectivamente (não por escolha própria) fazem no mercado de trabalho? Muito bem. Então, lutemos pela sua regularização, com autorização de residência permanente válida em todo o território europeu. Muitas pesquisas comprovam que quanto mais os trabalhadores imigrantes estão regulares, mais eles participam nas lutas, porque se livraram da pesada chantagem da irregularidade. Quanto mais as leis, os regulamentos e as práticas policiais os mantêm durante anos na “irregularidade”, mais eles tentam manter-se invisíveis, para evitar chatices. A função das leis de imigração de carácter repressivo e restritivo é exactamente ampliar a área da “ilegalidade” coerciva.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
O mesmo critério vale, em minha opinião, para o envolvimento de circuitos de imigrantes e de imigrantes individuais no crime organizado e no comércio de droga. Indo contra a corrente de uma certa mentalidade liberal aparentemente “de esquerda”, lutemos contra estes fenómenos que são geralmente controlados pela criminalidade organizada autóctone — e façamo-lo juntos, autóctones e populações imigrantes, cuja massa sofre terrivelmente com a estigmatização e as consequências. Lutemos contra a degradação dos bairros periféricos, etc.
Quem, pelo contrário, demoniza os emigrantes-imigrantes e favorece a sua perseguição faz o jogo das elites do capital, que acusa verbalmente de conspirar contra os “nativos” – “nativos”, outro conceito-farsa, totalmente adulterado. Quem é “nativo” nos Estados Unidos, país de colonos e imigrantes surgido do extermínio dos verdadeiros nativos? Quem é nativo num país como a Alemanha, onde 25% (pelo menos) da população tem antecedentes migratórios e que deve à massa de trabalhadores imigrantes grande parte do seu poderio como nação industrial? Com a sua insistência na colonização dos “nativos”, a teoria da grande substituição nega um dado elementar da realidade: a força de trabalho imigrante foi sempre, e continua a ser, um maná para os países de imigração. Mas atenção: é-o não só por, em geral, representar força de trabalho a baixo custo; também o é nos níveis de qualificação mais altos: 75% dos prémios Nobel das ciências exactas com cidadania americana nasceram no estrangeiro ou são filhos de imigrantes. E é consabido que todos os países europeus andam há muito tempo a adoptar medidas para atrair “cérebros” dos países do Sul do mundo, assim deles expropriados. Até o Japão, caracterizado por uma aversão histórica à imigração, para combater o seu declínio demográfico e económico já há algum tempo abriu portas à imigração, e também de gente de cor negra e parda, não só asiática. Em Portugal, não foram os imigrantes, supostos “colonizadores”, quem, em 2024, garantiu um saldo positivo recorde de 3400 milhões de euros ao orçamento da segurança social? E não continuarão a ser eles a garanti-lo nas próximas décadas, dado terem uma idade média de 37 anos, menos sete anos do que a população portuguesa?
Não, não há nem um pingo de verdade nessa TGS, é apenas uma Great Fib Theory (grande teoria da treta).
75% dos prémios Nobel das ciências exactas com cidadania americana nasceram no estrangeiro ou são filhos de imigrantes.
Também, aliás, por outra razão, que me limito a aflorar. Está implícito-explícito em tal visão da história humana e do mundo que o encontro e o cruzamento de povos, culturas e civilizações se há-de considerar negativo e, portanto, de temer e combater por todos os meios. A experiência histórica demonstra o contrário: desde a longínqua noite dos tempos, o alargamento do raio de socialidade da espécie humana, que começou na horda primitiva para chegar ao mundo actual composto por nações cada vez mais multinacionais e multiculturais, tem sido um factor de progresso humano, de crescimento e amadurecimento das necessidades humanas, embora não raro ocorresse em moldes violentos e predatórios. Geneticamente pura e culturalmente pura é apenas a horda primitiva, na qual os seres humanos estão à mercê da natureza “externa”. A grande custo e, admita-se, por entre dilacerantes contradições, a espécie humana superou a horda, a tribo, a etnia, a cidade-estado, a marca, o feudo, conquistando a dimensão económica, institucional e cultural mais ampla e rica da nação. A evolução futura da espécie humana passa necessariamente pela superação da dimensão nacional, que se atrasou em relação à evolução material – em cada mercadoria produzida condensa-se hoje trabalho mundial, prestado por trabalhadores rurais, camponeses, mineiros, operários, técnicos de todas as “raças” e todas as cores. Procurar e promover hoje “pureza” étnica ou cultural, abraçando um conceito restrito, paralisante e, em última análise, impraticável de identidade, como faz a “teoria da grande substituição”, é um mito regressivo, que implica, inevitavelmente, confrontos violentos. Estou com Aimé Césaire2: “A obra do homem está apenas no seu início… E [nesta obra e na sua continuação] nenhuma raça detém o monopólio da beleza, da inteligência, da força; há lugar para todos no encontro com a vitória.” Estou com Edouard Glissant3, para quem a “plenitude ideal” da vida humana, da humanidade, requer não a rigidificação das “identidades” e das culturas, mas “uma diversidade mais complexa que não se pode exprimir nos arcaicos marcadores que são a cor da pele, a língua que se fala, o deus que se honra ou teme, o solo em que se nasceu. A identidade feita nas relações inaugura uma diversidade que é um fogo de artifício, uma ovação dos imaginários”, que “assenta na presença vivificante e consciente daquilo que todas as culturas, todos os povos, todas as línguas elaboraram, em sombras e maravilhas, e que constitui a substância infinita da humanidade”. Todas as metrópoles modernas dos países europeus (e não só), incluindo decerto Lisboa, são outros tantos cadinhos desta nova “identidade feita nas relações”. Por mais que hoje na Europa e no Ocidente o racismo institucional e o chauvinismo da “raça branca” estejam em alta; por mais que o capitalismo global em crise pareça orientar-se de maneira quase automática para uma devastadora guerra inter-imperialista global e a correspondente agudização do nacionalismo; a trajectória da espécie humana — se a sua existência não for interrompida e obrigada a retroceder milénios por um holocausto global — caminha para a superação das barreiras obsoletas da nacionalidade e da “raça”, para uma comunhão geral e inextricável de nações e “raças”, que é o contrário da homologação estrelada e listrada do mundo sonhada pelo pensamento neoliberal em colapso, e nada tem que ver com a colonização do “mundo branco” pelos povos de cor que é a obsessão dos adeptos da religião da TGS e do “holocausto branco”.
No fundo, os trabalhadores e trabalhadoras imigrantes (de todas as cores de pele), se pudessem falar pela própria voz e em plena consciência de si mesmos — e quando o fazem —, representar-se-iam a si próprios, ou, por outra, representam-se a si próprios, como os precursores da sociedade do futuro (hoje sujeitos a coacção e discriminação). E não veriam, nem vêem, naqueles que os retratam com todo o tipo de traços negativos senão homens do passado, gente retrógrada, obtusa, que não conhece o ambiente social em que vive, que não compreende que ele é já muito, e irreversivelmente, diferente do que era há apenas algumas décadas. Numa das suas fulgurantes intuições (em A Ideologia Alemã), Marx colheu no processo de desenvolvimento das forças produtivas modernas a capacidade de substituir “os indivíduos locais por indivíduos inseridos na história universal, indivíduos empiricamente universais”. Os emigrantes de todas as nacionalidades são-no objectivamente — não estou a falar, obviamente, de cada indivíduo, porque se nos perdemos nas infinitas particularidades dos casos individuais, nenhum conhecimento racional é possível; falo do fenómeno social, deles no seu conjunto e, portanto, da “média social”. Não defendo, portanto, a existência de diversidade “ontológica”, de essência humana, entre trabalhadores imigrantes e trabalhadores autóctones, “nativos”; a diferença é de condição social, material, legal, psicológica, que, gostem eles ou não, os faz pertencer a dois (ou mais) mundos diferentes, ou mesmo muito diferentes, um do outro. São gente empreendedora e corajosa que, em geral, e especialmente nestes tempos marcados por políticas migratórias de carácter restritivo e repressivo, ousou desafiar barreiras, dificuldades e grandes perigos para realizar o seu “projecto migratório”, que é, para elas, um caminho de emancipação pessoal, familiar, social e — às vezes até explicitamente — nacional, portanto carregada de expectativas. O contraste entre tais expectativas e a realidade, normalmente feita de sobre-exploração, discriminação, inferiorização, racismo e formas variadas formas de violência, inclusive física, impele-as, quase diria, obriga-as, a lutar para não sucumbir ao mesmo magro “destino” que, ao emigrar, rejeitaram.
Proponho, pois, olhar para as trabalhadoras e os trabalhadores imigrantes não como se fossem bestas de carga, apesar de tantas vezes serem tratados como tal; não como seres sub-humanos, ou, em todo o caso, inferiores, a quem devamos, membros que somos da super-raça superior, a nossa compaixão; e muito menos como vectores da peste do século XXI, capazes de arruinar o mais maravilhoso dos ecossistemas sociais possíveis; menos ainda como bonecos folclóricos para nos divertirmos num ou noutro sábado à noite à base de cozinha étnica apimentada; e sim como seres humanos portadores de necessidades de emancipação social, como em séculos passados muitos emigrantes da Europa foram, e ainda hoje são. Trabalhadores/trabalhadoras a “integrar” plenamente em pé de igualdade na vida social, sindical e política dos países europeus e com os quais “integrarmo-nos”, sem receios, numa autêntica troca de experiências e culturas, nos sentimentos internacionalistas que no passado fizeram grande o movimento proletário: a experiência, aliás, que vocês viveram em Portugal nos anos quentes da Revolução dos Cravos, quando a luta de libertação dos povos da África negra foi premissa para a libertação das classes trabalhadoras de Portugal do salazarismo e dos seus resquícios.
(continua na próxima semana)
1 Tradução de Adriano Zilhão. O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
2 Aimé Césaire (1913-2008), escritor e político francês nascido na Martinica (Caraíbas). (NR: nota da Redação)
3 Édouard Glissant (1928-2011), intelectual francês nascido na Martinica (NR).
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