Internacionalismo

Esta corrida para o abismo só pode ser travada pelo poder organizado das grandes massas proletárias e oprimidas de todo o mundo
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Esta corrida para o abismo só pode ser travada pelo poder organizado das grandes massas proletárias e oprimidas de todo o mundo

Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

Raquel Varela, Pietro Basso
A década de 2015 a 2025 foi marcada por um massacre ininterrupto de emigrantes
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A década de 2015 a 2025 foi marcada por um massacre ininterrupto de emigrantes

Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

Raquel Varela, Pietro Basso
“Teoria da grande substituição”: Mito ou facto?
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“Teoria da grande substituição”: Mito ou facto?

Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

Raquel Varela, Pietro Basso
Sob cada uniforme de soldado há um operário
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Sob cada uniforme de soldado há um operário

Durante a II Guerra Mundial, na França ocupada pelos nazis, militantes trotskistas no arsenal da Marinha alemã em Brest criaram uma célula comunista dentro do Exército Alemão para publicar um jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado).

Anísio G. Homem
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Esta corrida para o abismo só pode ser travada pelo poder organizado das grandes massas proletárias e oprimidas de todo o mundo

Entrevista de Raquel Varela com Pietro Basso. Parte 3

Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”. À classe trabalhadora compete, no seu próprio interesse, lutar contra essa desunião promovida pelo capital e seus agentes. Eis o que defende Pietro Basso nesta entrevista ao Maio.

Pietro Basso é um sociólogo italiano, académico e militante. Lecionou Sociologia no Instituto Universitário Oriental de Nápoles e na Universidade Ca’Foscari de Veneza. Atualmente está aposentado e é editor do blogue “Il pungolo rosso”. É colaborador destacado do sindicato SI Cobas. Em português tem publicado o livro Tempos modernos, jornadas antigas: vidas de trabalho no início do século XXI (UNICAMP, Brasil, 2018). Esta é a terceira e última parte da entrevista.

Raquel Varela: Muitos estão contra o internacionalismo porque dizem que o nacionalismo defende a cultura popular, que a nação é o último reduto da sua própria cultura, opondo-se à globalização. Faz-me pensar na discussão de Gramsci: cosmopolitismo versus internacionalismo.

Pietro Basso: Gramsci só chegou à oposição entre cosmopolitismo burguês e internacionalismo proletário na maturidade. Na sua juventude, ele via, erroneamente, o cosmopolitismo burguês na economia e na política (o projecto wilsoniano de uma nova ordem mundial baseada no princípio da liberdade e independência dos povos e das nações) como uma forma de “internacionalismo” que, superando as divisões nacionais e as oposições políticas e militares entre os vários Estados, preparava o terreno para o advento, de forma quase natural, do internacionalismo operário. Essa fase do seu pensamento é marcada pela evidente subestimação do antagonismo entre a Rússia soviética e o movimento comunista internacional, por um lado, e o imperialismo “liberal” anglo-americano e as suas instituições internacionais, por outro. No entanto, a partir de 1919, ele começou progressivamente a focar a contradição radical entre os enunciados abstractos da ideologia liberal-democrática, universalistas-igualitários em princípio, e a realidade material do imperialismo, posta a nu pela guerra e pelo “monopólio do globo exercido e explorado pelos anglo-saxões”, daí deduzindo que o “internacionalismo” cosmopolita do capitalismo, o cosmopolitismo capitalista, mesmo nas suas formas mais “modernas”, não vai “além” das nações, mas amplia e reforça, por um lado, as funções do Estado nacional, criando, por outro, uma hierarquia entre as nações, com novas formas de opressão nacional que se somam às antigas. Assim, alimenta duplamente o nacionalismo, nos países hegemónicos dominantes na economia mundial e nos países oprimidos – precisamente aquele nacionalismo que, em palavras, propõe superar e, na prática, só supera pela constituição de uma economia verdadeiramente mundial, na qual, porém, os Estados nacionais continuam a lutar uns contra os outros.

Face a este emaranhado inextricável de contradições entre “cosmopolitismo da economia” e “nacionalismo da política”, a perspectiva internacionalista revolucionária do proletariado apresenta-se como algo de completamente diferente. Numa das passagens mais felizes (e claras) dos Cadernos do Cárcere, Gramsci escreve:

Certamente que o desenvolvimento caminha para o internacionalismo, mas o ponto de partida é “nacional”, e é a partir deste ponto que devemos prosseguir. A perspectiva, porém, é internacional e não pode ser outra. É, portanto, necessário estudar cuidadosamente a combinação de forças nacionais que a classe internacional terá de dirigir e desenvolver de acordo com a perspectiva e as directrizes internacionais.

Ao “cosmopolitismo da economia”, à globalização das relações sociais capitalistas ocorrida nas últimas décadas sob a hegemonia dos Estados Unidos, correspondeu um processo de homologação cultural de valores, modelos de consumo e de vida, de estruturação de personalidades e desejos (Marcuse), uma americanização do mundo (e não apenas do ocidental), uma espectacularização da vida social, que passou a cobrir toda a superfície do globo, “o sol que nunca se põe sobre o império da passividade moderna” (nas palavras de Guy Debord). É mais do que natural que este processo seja vivido como perda de qualidade, sufocamento das diversidades e das tradições culturais e populares por obra da “liberdade ditatorial do mercado” (mundial). Mas não podemos dar de barato que a “cultura popular” seja uma referência clara e a contrapor por si só, sempre e de qualquer forma positiva, por se contrapor, pela sua própria existência, à mercantilização totalizadora que valida a cultura dominante.

Voltando a Gramsci, nele os dialectos, as histórias, as lendas, o canto, o teatro, os saberes locais e outros aspectos da cultura popular são sujeitos a avaliação quase sempre positiva, por serem expressão da criatividade popular, separada, se não mesmo em contradição, com a cultura “oficial”, amiúde com um conteúdo progressista, consciente ou não. Do mesmo passo, porém, o folclore é visto, de forma negativa, como um amontoado indistinto e “indigesto” de fragmentos de “todas as concepções do mundo e da vida que se sucederam ao longo da história, da maioria das quais, aliás, só no folclore se encontra a documentação sobrevivente, mutilada e contaminada”, algo, portanto, de residual, proveniente das culturas dominantes e, não raro, fossilizado, morto com aparência de vivo. Também nesta matéria, o critério de discriminação continua, portanto, a ser — embora evitando aplicações mecânicas — o de classe. O que, para o movimento proletário, se salva da cultura correspondente à missão colonial portuguesa civilizadora, do integralismo lusitano católico, fundamentalista, patriarcal e monárquico, que teve papel tão importante, também a nível popular (através das festas, celebrações dos santos, feiras, costumes), na história de Portugal e dos seus domínios? Coisa bem diferente é a ideologia popular (se assim podemos chamá-la) e a cultura popular-proletária que nasce em Portugal em meados do século XIX a partir das grandes lutas dos arsenalistas, dos tipógrafos, dos camponeses (Maria da Fonte), e se renova, por vagas, até à grande canção popular de protesto dos anos 70. Não posso internar-me com a necessária competência pelo grande património artístico, musical e literário próprio de Portugal, nem pela análise da sua cultura material (camponesa e artesanal), mas creio que, evitando simplificações grosseiras, a bússola do critério de classe nos ajuda a orientar-nos bem.

Que se salva da cultura correspondente à missão colonial portuguesa civilizadora, do integralismo lusitano católico, fundamentalista, patriarcal e monárquico, que teve papel tão importante, também a nível popular (através das festas, celebrações dos santos, feiras, costumes), na história de Portugal e dos seus domínios?

Raquel Varela: Qual é a relação entre os fascistas e as milícias e forças armadas do Estado?

Pietro Basso: Até agora, a “teoria da grande substituição” e, de forma mais geral, a forte ascensão do racismo estatal, tem produzido grandes massacres perpetrados individualmente por adeptos seus particularmente determinados: Anders Breivik, que, em 22 de Julho de 2011, massacrou 77 jovens numa reunião social-democrata em Oslo; Robert Bowers, que, em 27 de Outubro de 2018, matou 11 judeus numa sinagoga de Pittsburgh por considerá-los parte de uma conspiração para importar imigrantes de cor para os Estados Unidos; Brenton Tarrant, que, inspirado pelo gesto altamente humanitário de Breivik, assassinou, em 15 de Março de 2019, 51 muçulmanos, atacando duas mesquitas em Christchurch, na Nova Zelândia; Patrick Crusius, que só se pode orgulhar de um desempenho muito mais modesto (apenas... 23 mortos e 24 feridos num supermercado Walmart em El Paso, nos EUA), mas com não menos fanática contumácia contra os imigrantes hispânicos. Contudo, não haja dúvida de que nesta tendência geral está implícito, como observaram N. Bancel2 e P. Blanchard3, “o anúncio de uma guerra civil”. Nos Estados Unidos, a condução desta guerra foi confiada por Trump ao ICE, o corpo de polícia especial anti-imigrantes, embora já há muito tempo operem também, ao longo da fronteira sul com o México, além das Border Patrols, bandos de Minutemen com licença para matar, como documentado por J. Ackers Chacon e M. Davis4.

Por mais que, com hipocrisia sem limites, Renaud Camus e outros pregoeiros da TGS se professem não violentos, toda essa agitação fanática contra as populações imigrantes traz na sua esteira derramamento de sangue. Ao saudar a grande manifestação organizada em Londres em Setembro passado pelo fundador da English Defence League, Tommy Robinson (pseudónimo de Stephen Yaxley-Lennon), Elon Musk foi explícito: “Quer se escolha a violência quer não, a violência virá por si. Ou se reage ou se morre”. Este é o terreno fértil que prepara o nascimento de verdadeiros bandos armados, um processo que, precisamente no Reino Unido pós-Brexit, parece mais avançado do que noutros países. No Verão de 2024, a Patriotic Alternative e o British Movement, dois grupos neonazis, incitaram revoltas anti-imigrantes com palavras de ordem como “Queremos o nosso país de volta!” e “Inglaterra até à morte!”, tendo-se tornado necessário ao movimento anti-racista criar, pelo menos em algumas cidades e bairros, uma organização militante de autodefesa.

Não se pode escapar a essa necessidade. Seria incrivelmente ingénuo esperar que fossem os Estados democráticos a pôr fim às agressões violentas contra os imigrantes, sendo certo que a islamofobia e a arabofobia são, hoje em dia, religião oficial em toda a União Europeia, uma união de democracias. Mais do que nunca após o genocídio de Gaza, em que os Estados europeus se revelaram cúmplices sem reservas do massacre, justificado como reacção (talvez em algum detalhe “excessiva”, mas, de qualquer forma, justificadíssima e legitimíssima para os governos europeus de todas as cores) ao “terrorismo” do Hamas, descaradamente se apagando mais de um século de colonialismo sionista e uma série de crimes hediondos por ele praticado, denunciados com veemência até pelos judeus anti-sionistas. Quanto mais cedo abandonarmos a ideia de que há oposição antagónica entre democracia e fascismo que faz que a primeira esteja disposta a lutar contra o segundo, melhor. Mais uma vez, o movimento proletário deve contar essencialmente consigo mesmo, com a imensa força potencial que pode organizar e destacar. E ser, no mínimo, vigilante e activo contra as manobras em curso tendentes a apoiar as milícias estatais regulares com forças “irregulares” de matriz nazi-fascista.

Seria incrivelmente ingénuo esperar que fossem os Estados democráticos a pôr fim às agressões violentas contra os imigrantes

Raquel Varela: És um professor com obra de referência mundial, militante de uma corrente política e fundador de uma central sindical. Que corrente? Que central sindical? Porque sentes a necessidade de te organizar politicamente?

Pietro Basso: Não, não fundei nenhum sindicato. Fui e sou, isso sim, apoiante do Sicobas, activamente solidário com ele há mais de uma década, com as suas lutas, com a sua resistência à ofensiva dos patrões e do Estado. Escrevi, sim, o prefácio do livro Carne da Macello5, que resume a história das suas lutas até 2017. Organizei campanhas internacionais de solidariedade com os trabalhadores, militantes e dirigentes do Sicobas atingidos repetidamente pela repressão estatal, e fi-lo sentindo-me em plena solidariedade com este combativo sindicato de base, composto a 80-90% por proletários e proletárias imigrantes de mais de trinta nacionalidades. Apoiei-o nas difíceis circunstâncias da luta contra o uso capitalista autoritário da Covid, envolvendo nesta luta estudiosos e activistas de vários países do mundo. No Outono de 2022 e já antes, incentivei-o a participar activamente na denúncia da guerra entre a NATO e a Rússia na Ucrânia como “ponto de não retorno” na passagem das contradições inter-imperialistas à escala mundial das medidas de guerra económica para os meios militares. E continuo e continuarei a apoiá-lo enquanto ele mantiver o seu carácter combativo e classista. Isto sim, e talvez a minha longa e intensa actividade solidária com o SI Cobas possa ter suscitado em vocês (e noutros) um equívoco, mas não fui eu que o fundei.

Ele nasceu há mais de uma década do encontro fecundo entre um forte impulso à auto-organização de alguns milhares de imigrantes sobre-explorados nos armazéns de logística do Centro-Norte da Itália e de um núcleo de militantes internacionalistas. E alargou-se e enriqueceu-se muito em qualidade ao longo dos anos, com a contribuição, por um lado, de outros milhares de proletários imigrantes e italianos, já não empregados apenas na logística, e, por outro, de militantes políticos de Turim, Génova, Nápoles, Bolonha e Roma, também eles de matriz internacionalista revolucionária.

O que, sim, é totalmente verdade é que pertenço a uma organização política internacionalista, a TIR (Tendência Internacionalista Revolucionária), e sou redactor de uma página web (Il Pungolo rosso6) que a tem como referência. Talvez me possa definir, se não for muito pomposo, como um estudioso militante, e sou-o desde a juventude. Sempre achei muito, muito estreita a vida na academia universitária (leccionei Sociologia nas universidades de Nápoles e Veneza), e não foi por acaso que fui um dos pouquíssimos professores de universidades italianas para quem foi proposta a suspensão do meu cargo por “ensinar contra as instituições do Estado”. Nunca fiz mistério das minhas convicções, que amadureci ainda jovem, nascido numa família burguesa, escolhendo ficar do lado do proletariado e, mais geralmente, das massas exploradas de todo o mundo: escolha que nunca pus em questão nem por um minuto. Considero o internacionalismo a dimensão fundamental, fundadora do anticapitalismo (já desde 1848, ainda mais hoje), tal como a convicção de que não é possível alterar as leis de funcionamento do capitalismo. Tanto mais na fase da sua senescência e decadência histórica.

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Estamos, de facto, metidos numa crise histórica do sistema social capitalista, que não é tanto nem apenas uma crise da acumulação capitalista (que, apesar de ter abrandado muito, continua a avançar aos solavancos), mas sim uma crise global, que mostra a acrescida incapacidade do sistema mundial do capital para manter sob controlo as múltiplas contradições que gerou. Uma crise que, pela primeira vez na história das crises capitalistas, atinge em cheio o ambiente natural do qual a produção capitalista tira a sua força vital e se apresenta igualmente como crise da reprodução social e da socialidade. Nada de capitalismo finalmente multipolar, equilibrado, pacífico, despachado como possível, e até mesmo possível a curto prazo, graças ao surgimento de uma frente de novas potências “alternativas” ao Ocidente! É precisamente, pelo contrário, a tumultuosa deslocação do epicentro da acumulação mundial de valor para a China e a Ásia, que já é irreversível, que funciona como factor desequilibrador da ordem mundial, acelerando a transição do confronto comercial para um confronto militar entre as grandes potências – a “operação militar especial” da Rússia na Ucrânia e o choque NATO-Rússia pela Ucrânia marcaram o arranque desta fase que, em quatro anos, já viu o genocídio sionista na Palestina e a pretensão de Israel e dos seus protectores norte-americanos e europeus de ditarem a lei em toda a região do Médio Oriente, a agressão golpista do bando de Trump à Venezuela, o terrível massacre que estalou no Sudão com a participação (encoberta) de todas as grandes potências, que sufocou no sangue a revolta popular de 2018, estando em preparação outros capítulos não menos trágicos.

Estou radicalmente convencido de que esta corrida para o abismo, para a qual a União Europeia de Von der Leyen e a Itália de Meloni estão a dar um contributo determinante, com a corrida a um rearmamento ilimitado (800 mil milhões de investimentos em armas!), com a decisão de prolongar a guerra na Ucrânia o mais possível, com a mais insana russofobia, com o apoio incondicional ao Estado sionista; estou radicalmente convencido, dizia eu, de que esta corrida para o abismo só pode ser travada, única e exclusivamente, pelo poder organizado das grandes massas proletárias e oprimidas de todo o mundo. Não estou menos convencido de que o movimento proletário renascerá das suas cinzas, enriquecido pelo balanço das vitórias e derrotas passadas, com energia multiplicada em relação ao ciclo revolucionário dos anos 1917-1927, porque, neste século, a classe dos trabalhadores assalariados se expandiu enormemente, se globalizou efectivamente. Pode parecer um sonho, uma utopia, mas se pensarmos na dimensão do abalo, do movimento de solidariedade e apoio internacional ao povo e à resistência palestiniana, surgido quase do nada, ficamos com uma primeira ideia, limitada, do poderio de que estou a falar. Se bem que seja forçoso admitir que não conseguimos impedir que o genocídio prosseguisse, tal como não somos agora capazes de dar cabo do plano colonialista de Trump-Netanyahu, que não devamos esconder as fraquezas de uma resposta internacional que foi, não obstante, notável, é precisamente nesta discrepância entre desmesuradas potencialidades e expressão efectiva dessas mesmas potencialidades do movimento proletário internacional que reside a razão de um compromisso político organizado hoje – organizado, por necessidade – a partir de pequenos núcleos em diferentes países, mas fugindo das práticas e do espírito sectário, porque não temos de ser réplicas do passado, escravos das divisões do século passado.

A necessidade de trabalhar colectivamente na elaboração de uma estratégia, de uma táctica e de um programa adequados para capitalizar esta crise histórica do sistema social do capital contra a classe dominante, reabrindo o caminho para a superação revolucionária do capitalismo, é com essa necessidade que temos de lidar, porque à nossa frente está uma classe dominante consciente, pelo menos no Ocidente, da crise, se não mesmo da decomposição, da sua própria “civilização”, da civilização do dinheiro, das mercadorias e das guerras, mas nem por isso disposta a renunciar ao poder. Sinto-me parte, um pequeno átomo, deste esforço colectivo internacional necessário para sair de uma situação de dispersão e irrelevância das forças que se reconhecem no marxismo revolucionário e no seu internacionalismo.

Raquel Varela: Qual é a tua posição face à guerra hoje, face ao serviço militar obrigatório. Deve haver exércitos? Para defender o interesse nacional?

Pietro Basso: Como referia antes, vejo desenrolar-se uma corrida a uma nova e devastadora guerra global, que muito provavelmente verá, de um lado – atrás dos Estados Unidos –, as velhas potências imperialistas ocidentais e, do outro – atrás da China –, outros países que, sendo integralmente capitalistas (independentemente das vestes políticas que enverguem), fazem tenções de disputar o domínio do mundo aos velhos predadores e agiotas ocidentais. Esta tendência de fundo da política mundial dominará os próximos anos. Rejeito categoricamente a ideia, que se vê muito, de ter de escolher entre os dois pólos, os dois campos, porque os considero a ambos animados dos mesmos objectivos de exploração e opressão. É preciso formar o nosso próprio campo, um campo internacional e internacionalista dos proletários contra as guerras do capital, dos Estados capitalistas e imperialistas, quaisquer que sejam as respectivas motivações.

Na Europa, não nos devemos deixar enganar pelo apelo ao “interesse nacional”, porque o que se esconde por trás dele são os velhos interesses de domínio e pilhagem, para cuja realização os países europeus sangraram e atormentaram os continentes de cor durante séculos. Basta deste engano! Hoje, motiva-o a suposta intenção da Rússia de marchar à conquista da Europa. Mas a história mostra que, por três vezes, foram os países europeus, a França napoleónica, a Alemanha nazi e, desde 2014, a NATO, que marcharam sobre a Rússia no sonho louco e criminoso de despedaçá-la e “pô-la de joelhos” (palavras de Kaja Kallas). A Rússia não tem meios para atacar e subjugar a Europa, basta ver o que lhe está a custar a mera anexação do Donbass.

Por isso, sou contra a reintrodução do serviço militar obrigatório. Não como oposição de princípio – pelo contrário: sou, na tradição marxista, a favor do “povo em armas” e contra os exércitos profissionais. Neste caso, porém, a restauração da conscrição, para começar voluntária, mas para depois passar a obrigatória, é uma etapa essencial da corrida para a guerra. Por isso cabe denunciá-la e combatê-la, como começaram a fazê-lo dezenas de milhares de jovens na Alemanha no dia de luta de 5 de Dezembro passado. Mas é apenas um começo. Será preciso muito mais para parar a corrida ao rearmamento, à economia de guerra e à guerra. Irá, em particular, ser necessário um grande esforço para mostrar à massa dos assalariados o seu monstruoso custo e os seus ainda mais monstruosos efeitos. Será inevitável que cada organização sindical, cada militante, tenha de tomar partido em toda uma série de circunstâncias, aparentemente até de pouca importância: de um lado ou do outro. Ou a favor da guerra, ou contra a guerra: terceira opção não há.


1 Tradução de Adriano Zilhão. O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

2 Nicolas Bancel, historiador francês, especialista em história colonial e pós-colonial (NR)

3 Pascal Blanchard, historiador, documentarista e ensaísta francês (NR).

4 Justin Akers Chacón e Mike Davis, autores do livro No One Is Illegal: Fighting Racism and State Violence on the U.S.-Mexico Border (NR).

5 Pietro Basso, Carne da macello. Le lotte degli operai della logistica e il teorema repressivo contro il SI Cobas (Carne para canhão. As lutas dos trabalhadores da logística e o teorema repressivo contra o SI Cobas), Red Star Press, 2017 (NR).

6 O aguilhão vermelho (NR).

LER AS OUTRAS PARTES
DA ENTREVISTA:

“Teoria da grande substituição”: Mito ou facto?
Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

PARTE 1

A década de 2015 a 2025 foi marcada por um massacre ininterrupto de emigrantes
Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

PARTE2

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A década de 2015 a 2025 foi marcada por um massacre ininterrupto de emigrantes

Entrevista de Raquel Varela com Pietro Basso. Parte 2

Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”. À classe trabalhadora compete, no seu próprio interesse, lutar contra essa desunião promovida pelo capital e seus agentes. Eis o que defende Pietro Basso nesta entrevista ao Maio.

Pietro Basso é um sociólogo italiano, académico e militante. Lecionou Sociologia no Instituto Universitário Oriental de Nápoles e na Universidade Ca’Foscari de Veneza. Atualmente está aposentado e é editor do blogue “Il pungolo rosso”. É colaborador destacado do sindicato SI Cobas. Em português tem publicado o livro Tempos modernos, jornadas antigas: vidas de trabalho no início do século XXI (UNICAMP, Brasil, 2018). Esta é a segunda parte da entrevista.

Raquel Varela: Argumentas que a guerra contra o terror é a justificação para militarizar a força de trabalho migrante. Que os acordos de Schengen dão “o aparelho ideológico e operacional da Europa-fortaleza”, ou seja, que a UE gere esta força de trabalho imigrante e sem direitos. O que quer isto dizer? Como sustentas esta tese?

Pietro Basso: Na história das migrações internacionais, houve períodos em que elas se basearam em acordos entre Estados: foi o que aconteceu, por exemplo, na década de 1950, com uma série de acordos internacionais entre a Itália e a Alemanha e entre a Itália e a Bélgica. Em geral, pelo menos até ao final da década de 60, houve fortes movimentos migratórios relativamente livres na Europa. Foi a partir da primeira grande crise económica do pós-guerra, no início da década de 70, que se começaram a ouvir apelos como o de Le Pen pai, “Alt à l'immigration sauvage” (Fim à imigração selvagem). Embora a União Europeia tenha nascido oficialmente com o Tratado de Maastricht (Fevereiro de 1992), o seu nascimento efectivo foi, em muitos aspectos, antecipado pelo Acordo de Schengen (14 de Junho de 1985), celebrado entre os países do Benelux, a Alemanha Federal e a França. Este acordo deu início à livre circulação de mercadorias e cidadãos pertencentes aos cinco países, mas introduzindo, ao mesmo tempo (nos seus artigos 6.º, 7.º e 9.º), o princípio da suspeição estatal e institucional em relação aos imigrantes. Estes eram, de facto, identificados com a figura dos imigrantes “clandestinos”: a ameaça que vem de fora e se torna o inimigo interno, a manter sob controlo permanente e especial, por ser fonte de insegurança e criminalidade.

Esta categoria-chave do discurso público, do racismo de Estado – os “clandestinos” – é uma criação astuta das burocracias e das polícias. Na realidade, são as legislações de tipo restritivo, entretanto dominantes em toda a Europa, que produzem a irregularidade, tornando cada vez mais difícil obter autorizações de residência de longa duração. Quem ataca a “clandestinidade” é quem, na realidade, a cria. Seja, no caso de Portugal, a transição do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) para a AIMA (Agência para a Integração, Migração e Asilo) ocorrida com o Governo Montenegro, que teve como efeito o aumento dos imigrantes “irregulares”. E parece-me altamente provável que os obstáculos que a lei sobre a imigração aprovada em Julho de 2025 levanta ao reagrupamento familiar, as restrições aos vistos para imigrantes que tenham sido irregulares durante um certo período, a supressão do procedimento de urgência nos processos judiciais contra a AIMA, o enorme aumento das expulsões aceleradas (mas nem por isso realmente efectuadas) não farão senão aumentar o número de irregulares. No mais, as modificações legislativas e das práticas administrativas (que são muito importantes nesta matéria) nos outros países europeus vão na mesma direcção. É por isso que, juntamente com alguns estudiosos alemães, prefiro falar, em vez de em imigrantes “clandestinos” ou “ilegais”, em imigrantes ilegalizados e clandestinizados.

Pois bem, a partir de Schengen-1985, o tratamento das migrações como questão de polícia afirmou-se a tal ponto, que agora se pode falar de uma verdadeira guerra contra os emigrantes e os imigrantes. A externalização das fronteiras, a criação de verdadeiros campos de concentração e tortura para imigrantes em África (a Itália criou campos medonhos na Líbia e agora tenta fazê-lo na Albânia, outros surgiram por iniciativa da UE na Grécia e na Turquia), o reforço contínuo da Frontex, a multiplicação dos controlos estatais e para-estatais nas fronteiras internas da Europa, mais o crescimento paralelo das organizações criminosas que se dedicam a violá-los (mediante pagamento), são outras tantas etapas desta construção da Europa fortaleza. Para selar totalmente as fronteiras? Não. Isso é impossível e não é desejado pelos governos, muito menos pelas empresas. Como afirmam os redactores do relatório Expanding the Fortress, “fechar uma rota migratória não equivale a deter os fugitivos. Na maioria dos casos, acaba por empurrar os emigrantes para outras rotas — rotas frequentemente mais perigosas, com o resultado de aumentar o número de mortes”. Entre 2015 e 2017, o número de mortes no Mediterrâneo quintuplicou porque, com o acordo UE-Turquia, se fechou a rota terrestre dos Balcãs, menos arriscada. Também aumentou o número de mortes na travessia do Saara, necessária para aceder às costas da Líbia e da Tunísia (algumas estimativas consideram que não terão sido inferiores a 60 mil nos últimos 20 anos, o dobro das mortes no Mediterrâneo).

A década de 2015 a 2025 foi marcada por um massacre ininterrupto de emigrantes e, pelo paradoxo da hipocrisia de Estado, deu-se como justificação para as políticas policiais e terroristas dos governos europeus serem políticas para acabar com o tráfico de seres humanos. Além da Turquia, a UE assinou acordos com uma série de outros países para bloquear as partidas e pressionou individualmente os países da UE a restringir as políticas de asilo, aumentar as expulsões e detenções, criminalizando tanto as organizações que fazem tráfico de migrantes (criminalizando-as, muitas vezes, apenas em palavras, sendo coniventes com elas – foi espectacular, na Itália, o caso de al-Masri, um grande traficante e torcionário líbio, preso em Turim e imediatamente levado de volta para a Líbia num avião estatal) como as organizações que praticam alguma forma de solidariedade com os migrantes.

Pode-se, portanto, falar de militarização crescente das políticas migratórias e das fronteiras, em particular no Mediterrâneo. Militarização que, com o desenvolvimento do movimento pela Palestina, foi nomeadamente justificada como “guerra contra o terrorismo”. Aqui em Itália, por exemplo, está em curso uma caça às bruxas contra imigrantes palestinianos e árabes activos na solidariedade com a Palestina, encarcerados sob a acusação de terem “relações com os terroristas do Hamas”. E algo semelhante, em escala até maior, se passa no Reino Unido.

Esta criminalização generalizada das populações imigrantes tem o efeito de comprimir os seus direitos, reforçar os controlos das suas associações e organizações (também por parte dos Estados de origem), a queda do valor da sua força de trabalho e, algo muitas vezes subestimado, a criação de um clima social favorável à aceitação de processos de militarização de toda a sociedade, nas escolas, nas universidades, nos locais de trabalho.

Raquel Varela: Em Portugal, os imigrantes foram ilegalizados pela AD e o Chega, grupo de direita alinhado com os neofascistas, logo se vendo centenas de migrantes de Timor e Nepal serem espancados pela GNR e PSP, forças militares e policiais do Estado. Estes imigrantes são os alentejanos que migravam das Beiras para trabalhar na agricultura no Estado Novo, são os imigrantes que foram para os EUA no século XIX, mas muitos deles lutavam. Hoje, ninguém imagina homens do Bangladesh ou de Timor a organizar greves no Alentejo. O que falta para vermos estes jovens abraçarem as lutas? O que devíamos nós, trabalhadores nativos, fazer quando há homens a ser espancados pelo Estado? Chamamos a polícia que os espanca?

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Pietro Basso: Oh, não, isso nunca! A polícia não nos ajudará, como trabalhadores, em nenhuma circunstância. É verdade que, em Portugal, na época da Revolução dos Cravos, vimos unidades militares alinhadas com o movimento proletário. Mas essa é a típica excepção dos períodos e situações revolucionárias, ou, pelo menos, de poderosa rebelião social. Não vivemos, neste momento, numa situação desse tipo, nem em Portugal nem em qualquer outro país europeu. Por isso, temos de enfrentar entre proletários os problemas e as contradições existentes dentro do campo do proletariado.

Não podemos esperar que trabalhadores recém-chegados de terras tão distantes como Timor ou o Bangladesh, e ainda por cima “acolhidos” por um clima sociopolítico tão hostil, se mobilizem imediatamente, desafiando tudo e todos. Demos tempo ao tempo. A história do movimento operário põe os proletários imigrantes na vanguarda das lutas, já desde a épica luta pelas oito horas nos Estados Unidos, em 1886. Os trabalhadores imigrantes foram parte activa e determinante do ciclo de lutas de 1968 em França e na Bélgica, depois em 1973 e 1984 na Alemanha. Como recordam R. Varela e B. della Santa na sua A People’s History of Portugal, na revolta operária na Renault houve também operários portugueses na primeira linha. Isto vale tanto para imigrantes estrangeiros como para imigrantes internos, como em Itália, onde, nas lutas do outono quente de 1969, tiveram grande participação os operários de origem camponesa que chegavam do Sul a Turim, Milão e Génova. Não se deu, afinal, a última grande onda de greves operárias em Itália na logística, onde carregadores e motoristas marroquinos, egípcios, senegaleses, paquistaneses, bengaleses, etc. foram protagonistas de primeira linha? E na China, não estiveram à frente das lutas operárias da primeira década deste século as jovens e muito jovens proletárias imigrantes internas (mingong)?

A história é esta, não se esqueça, nem se aceite a representação dos imigrantes como fura-greves, vítimas impotentes da arrogância dos patrões e das intimidações dos governos. Aos militantes autóctones do movimento proletário cabe reagir com todas as suas forças à sobre-exploração e às discriminações institucionais que aqueles sofrem, lutando em todas as circunstâncias para afirmar, na prática, a igualdade de direitos e a plena “integração” nas fileiras do movimento dos trabalhadores. Não é tarefa fácil, eu sei, porque em tempos de incerteza, de crise, de nacionalismos larvares, de corrida ao rearmamento e à guerra, em tempos de racismo institucional virulento, mesmo entre os proletários circula o veneno da inferiorização e criminalização das populações imigrantes. Mas, fácil ou não, é o que há a fazer. Faça chuva ou faça sol.

Raquel Varela: Os fascistas elegeram a imigração como inimigo porquê? Falam de nação, mas estão ligados aos grandes capitalistas mundiais. O Chega, em Portugal, defende os fundos de pensões americanos, e o filho de Bolsonaro pediu uma intervenção militar dos EUA no Brasil.

Pietro Basso: Os partidos fascistas ou parafascistas destacam-se por serem ferozes promotores dos interesses do capitalismo nacional. Atacam frontalmente os imigrantes em todos os países porque sabem (ou sentem – não importa se estudaram ou não o assunto) que a única possibilidade de o respectivo capitalismo “voltar a ser grande” depende da impotência do movimento proletário. Quanto mais dividido o movimento proletário estiver por motivos “raciais” ou nacionais, mais impotente ficará. Não é por acaso que esses mesmos partidos são vectores e difusores de um sexismo e de um patriarcado igualmente agressivos, visando tornar o movimento proletário impotente também por via da divisão entre os sexos. Caracterizem-se estes cães de guarda do grande capital nacional e internacional como aquilo que são: não soberanistas, como eles se apresentam para embelezar a imagem, ostentando uma espécie de coragem que não têm por desafiarem os poderes fortes do capital global, mas sim servos do capital: o nacional e, não menos, o internacional. E, como tal, propagandistas de todos os artifícios anti-operários do capital de todas as nacionalidades. Com a sua demagogia branca e supremacista, os Trumps, Mileis e Bannons são quem melhor os representa. Cada nação ocidental tem os seus ou as suas, isto porque, com Le Pen, Meloni e Weidel2, também o campo das forças fascistas e fascizantes se “feminizou” em comparação com o século passado.

Querem fazer crer que em cada nação existe apenas uma nação, quando o que existe são dois mundos obrigados a coexistir e a entrar em conflito sob uma única estrutura estatal. Se cada burguesia nacional tece as suas redes de alianças internacionais (como também a ralé fascista ou fascizante), também o movimento proletário deve tecer as suas, para os seus próprios fins, sem se deixar enquadrar e arregimentar na “comunidade ilusória” da “nação” como escravos assalariados despojados de uma personalidade de classe separada.

Em comparação com o fascismo histórico, tão bem descrito, entre outros, por Daniel Guérin, encontramos hoje nele um “anticapitalismo” mais aguado; importa demonstrar o seu mal dissimulado servilismo às instituições do grande capital.

(continua)


1 Tradução de Adriano Zilhão. O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
2 Alice Weidel, principal candidata do partido alemão de extrema-direita AfD (NR).

LER AS OUTRAS PARTES
DA ENTREVISTA:

“Teoria da grande substituição”: Mito ou facto?
Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

PARTE 1

Esta corrida para o abismo só pode ser travada pelo poder organizado das grandes massas proletárias e oprimidas de todo o mundo
Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

PARTE3

categoria-conversa com... Emigração Guerra Imigração Internacionalismo edicao-2026-03-05 (18)

“Teoria da grande substituição”: Mito ou facto?

Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”. À classe trabalhadora compete, no seu próprio interesse, lutar contra essa desunião promovida pelo capital e seus agentes. Eis o que defende Pietro Basso nesta entrevista ao Maio.

Entrevista de Raquel Varela com Pietro Basso. Parte 1

Pietro Basso1 é um sociólogo italiano, académico e militante. Lecionou Sociologia no Instituto Universitário Oriental de Nápoles e na Universidade Ca’Foscari de Veneza. Atualmente está aposentado e é editor do blogue “Il pungolo rosso”. É colaborador destacado do sindicato SI Cobas. Em português tem publicado o livro Tempos modernos, jornadas antigas: vidas de trabalho no início do século XXI (UNICAMP, Brasil, 2018). Dada a extensão da entrevista, publicamo-la em três partes. Esta é a primeira.

Raquel Varela: O que achas da “teoria da grande substituição”? Há alguma verdade na mentira? Por exemplo, os portugueses vão para longe, sem ver a família, emigram; para aqui, emigram do Nepal. Não há aqui uma visão liberal das pessoas como mão de obra e uma idealização de pessoas flexíveis, sem lugar, sem família, sem relações de confiança e tempo?

Pietro Basso: Não, a teoria da grande substituição (TGS) não tem um pingo de verdade, pelo menos no que diz respeito à sua tese fundamental, a da existência de uma conspiração, de um plano secreto das elites dominantes e capitalistas dos países de imigração para substituir a população nativa por populações imigrantes de cor. As migrações internacionais — é disso que se trata — têm causas objectivas e subjectivas, seculares ou mais recentes; conspirações e segredos não entram para o caso. Tenho sintetizado as causas em sete pontos: 1) desigualdades de desenvolvimento geradas pelas memoráveis empresas do colonialismo histórico, incluindo o português: a pilhagem das Américas, com o extermínio das populações nativas, o tráfico de escravos e escravas da África, a colonização do Golfo Pérsico e do mundo árabe, o assalto europeu à Ásia; 2) a dívida externa que estrangula a grande maioria dos países do Sul do mundo (ex-colónias ou semicolónias), em consequência do processo secular de desacumulação primitiva, fruto, precisamente, do colonialismo histórico e usado — contra esses países — pelo neocolonialismo financeiro e termonuclear dos últimos 80 anos; 3) a transformação capitalista da agricultura do Sul e do Leste do mundo sob o mando das empresas multinacionais do agronegócio, que está a apertar num torno de ferro, a montante e a jusante, a pequena propriedade camponesa, provocando o êxodo do campo, ano após ano, de dezenas de milhões de camponeses e trabalhadores rurais; 4) as guerras neocoloniais desencadeadas, em geral, pelas potências ocidentais, ou as guerras por procuração que devastam a vida de muitos países; 5) os desastres ecológicos, que se têm intensificado devido à dramática combinação entre mudanças no ecossistema global e mudanças nos ecossistemas locais; 6) a inesgotável carência de trabalhadores e trabalhadoras imigrantes sentida pelos países mais ricos (limitemo-nos neste ponto aos países da UE) por razões demográficas, para sustentar a competitividade das suas empresas, reduzindo o custo do trabalho, e para assegurar a prestação de cuidados a idosos e a limpeza doméstica, cada vez mais externalizadas a mão de obra imigrante; 7) as crescentes expectativas das populações e, especialmente, das mulheres oriundas do Sul mundial (hoje metade dos emigrantes, o que é uma novidade na história das migrações), que já não estão dispostas a aceitar com fatalismo condições de existência e de trabalho indignas de seres humanos, estando, portanto, dispostas a procurá-las em qualquer lugar, ainda que com risco de vida.

O único caroço de verdade contido na TGS — porém mistificado e muito deturpado — reside na necessidade que as empresas europeias sentem de dispor de mão de obra abundante a baixo custo e com direitos mínimos (ou nulos). Isso é verdade, verdadíssima. Tanto mais na presente conjuntura, em que as empresas europeias perdem quotas importantes do mercado mundial para as chinesas/asiáticas e norte-americanas. Contudo, este facto nunca é denunciado nestes termos pelos defensores da great replacement theory (teoria da grande substituição), que estão agora no governo nos Estados Unidos, na Itália, na Hungria, pelos pregoeiros intelectuais desta nefasta “teoria” (R. Camus, T. Sarrazin, E. Zemmour, M. Houellebecq ou os falecidos O. Fallaci e J. Raspail), nem pelos partidos e movimentos do tipo do RN de Marine Le Pen, da Lega de Salvini, do Chega, Vox, Pegida, Ibo, Finns Party, Afd, Fidesz, e por aí adiante, partidos e movimentos que são tudo menos anticapitalistas.

Isso não quer dizer que seja racional ou humanamente belo que milhões de homens e mulheres das classes trabalhadoras tenham de desarraigar-se do Nepal, da Ucrânia ou das ex-colónias portuguesas em África para procurar “uma vida melhor” em Portugal, enquanto dezenas de milhares de jovens portugueses, metade deles com elevados níveis de escolaridade, são por sua vez obrigados a procurar “uma vida melhor” fora da sua terra natal, na França, na Suíça ou no Brasil. Eu não exalto as migrações, tento analisar as suas causas e efeitos, atendo-me à realidade, a realidade implacável do capitalismo global e das suas leis de funcionamento.

Se realmente se quer mudar profundamente, revolucionar esta realidade implacável que obriga milhões (actualmente, mais de 250 milhões) de mulheres e homens a emigrar, se se quer acabar com a coacção à emigração como forma de violência, então é necessário mobilizar-se contra as grandes forças do capitalismo financeiro, industrial e agrícola e os governos que as servem, não contra as vítimas dessa violência sistémica, que tentam escapar de qualquer maneira à sua ditadura, mudando-se, se for preciso, para o outro lado do mundo para evitar sucumbir à fome, à pobreza, às guerras, aos desastres ecológicos, etc. Em contrapartida, os plumitivos da great replacement theory e do white holocaust (holocausto branco), como covardes que são, atacam, demonizam (o termo mais adequado) as populações emigrantes e imigrantes, exigindo a “grande repatriação”, a “remigração”, portanto a deportação forçada do maior número possível de imigrantes.

Nada de particularmente novo. Tal como na grande crise da década de 1930, os movimentos reaccionários de cariz racista nascem dentro das camadas pequeno-burguesas desclassificadas, tomadas pelo medo, pelo terror de um futuro proletário, atirando-se, movidos por essa angústia, ao mais fácil dos bodes expiatórios, que ontem, em muitos casos, era a massa judaica e hoje são os imigrantes. O grande capital vai fazendo festinhas a estes movimentos e aos seus porta-vozes, e ajuda-os a crescer, porque eles servem optimamente um seu duplo interesse: desviam a atenção das causas estruturais da crise social e das perspectivas, todas sistémicas, apontando a um falso alvo “externo” como responsável por todos os males sociais e dividindo de cima abaixo o proletariado, a única classe cuja força a burguesia teme.

Queremos combater a concorrência que os trabalhadores imigrantes objectivamente (não por escolha própria) fazem no mercado de trabalho? Muito bem. Então, lutemos pela sua regularização.

Queremos evitar que muita gente tenha de abandonar as altas montanhas e as vilas do Nepal para “tentar a sua sorte” em Lisboa ou no Alentejo (indo chocar com o racismo made in Portugal)? Queremos evitar que muita gente tenha de abandonar as margens límpidas e as colinas suaves de Portugal para “tentar a sua sorte” (e encontrar racismo anti-português) em Paris ou Zurique? Muito bem, de acordo. Só que então é contra as grandes forças que dominam o mercado e a política mundial (e nacional) que é preciso lutar – ao lado das populações imigrantes, ombro a ombro com elas. Lutar, só para dar um exemplo, contra a destruição do Estado-providência, que destruiu uma quantidade de empregos qualificados (na saúde, na educação, etc.) e produz desemprego e emigração internos à União Europeia, dos países menos ricos para os mais ricos do Centro-Norte da Europa, além de todo o tipo de problemas sociais. Ou lutar, por exemplo, contra o flagelo das guerras do capital, que ontem devastaram a Jugoslávia e hoje a Ucrânia, gerando milhões de emigrantes forçados a dispersar-se pelos quatro cantos do mundo.

Mas, para nos ficarmos pelo tema das políticas migratórias: queremos combater a concorrência que os trabalhadores imigrantes objectivamente (não por escolha própria) fazem no mercado de trabalho? Muito bem. Então, lutemos pela sua regularização, com autorização de residência permanente válida em todo o território europeu. Muitas pesquisas comprovam que quanto mais os trabalhadores imigrantes estão regulares, mais eles participam nas lutas, porque se livraram da pesada chantagem da irregularidade. Quanto mais as leis, os regulamentos e as práticas policiais os mantêm durante anos na “irregularidade”, mais eles tentam manter-se invisíveis, para evitar chatices. A função das leis de imigração de carácter repressivo e restritivo é exactamente ampliar a área da “ilegalidade” coerciva.

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O mesmo critério vale, em minha opinião, para o envolvimento de circuitos de imigrantes e de imigrantes individuais no crime organizado e no comércio de droga. Indo contra a corrente de uma certa mentalidade liberal aparentemente “de esquerda”, lutemos contra estes fenómenos que são geralmente controlados pela criminalidade organizada autóctone — e façamo-lo juntos, autóctones e populações imigrantes, cuja massa sofre terrivelmente com a estigmatização e as consequências. Lutemos contra a degradação dos bairros periféricos, etc.

Quem, pelo contrário, demoniza os emigrantes-imigrantes e favorece a sua perseguição faz o jogo das elites do capital, que acusa verbalmente de conspirar contra os “nativos” – “nativos”, outro conceito-farsa, totalmente adulterado. Quem é “nativo” nos Estados Unidos, país de colonos e imigrantes surgido do extermínio dos verdadeiros nativos? Quem é nativo num país como a Alemanha, onde 25% (pelo menos) da população tem antecedentes migratórios e que deve à massa de trabalhadores imigrantes grande parte do seu poderio como nação industrial? Com a sua insistência na colonização dos “nativos”, a teoria da grande substituição nega um dado elementar da realidade: a força de trabalho imigrante foi sempre, e continua a ser, um maná para os países de imigração. Mas atenção: é-o não só por, em geral, representar força de trabalho a baixo custo; também o é nos níveis de qualificação mais altos: 75% dos prémios Nobel das ciências exactas com cidadania americana nasceram no estrangeiro ou são filhos de imigrantes. E é consabido que todos os países europeus andam há muito tempo a adoptar medidas para atrair “cérebros” dos países do Sul do mundo, assim deles expropriados. Até o Japão, caracterizado por uma aversão histórica à imigração, para combater o seu declínio demográfico e económico já há algum tempo abriu portas à imigração, e também de gente de cor negra e parda, não só asiática. Em Portugal, não foram os imigrantes, supostos “colonizadores”, quem, em 2024, garantiu um saldo positivo recorde de 3400 milhões de euros ao orçamento da segurança social? E não continuarão a ser eles a garanti-lo nas próximas décadas, dado terem uma idade média de 37 anos, menos sete anos do que a população portuguesa?

Não, não há nem um pingo de verdade nessa TGS, é apenas uma Great Fib Theory (grande teoria da treta).

75% dos prémios Nobel das ciências exactas com cidadania americana nasceram no estrangeiro ou são filhos de imigrantes.

Também, aliás, por outra razão, que me limito a aflorar. Está implícito-explícito em tal visão da história humana e do mundo que o encontro e o cruzamento de povos, culturas e civilizações se há-de considerar negativo e, portanto, de temer e combater por todos os meios. A experiência histórica demonstra o contrário: desde a longínqua noite dos tempos, o alargamento do raio de socialidade da espécie humana, que começou na horda primitiva para chegar ao mundo actual composto por nações cada vez mais multinacionais e multiculturais, tem sido um factor de progresso humano, de crescimento e amadurecimento das necessidades humanas, embora não raro ocorresse em moldes violentos e predatórios. Geneticamente pura e culturalmente pura é apenas a horda primitiva, na qual os seres humanos estão à mercê da natureza “externa”. A grande custo e, admita-se, por entre dilacerantes contradições, a espécie humana superou a horda, a tribo, a etnia, a cidade-estado, a marca, o feudo, conquistando a dimensão económica, institucional e cultural mais ampla e rica da nação. A evolução futura da espécie humana passa necessariamente pela superação da dimensão nacional, que se atrasou em relação à evolução material – em cada mercadoria produzida condensa-se hoje trabalho mundial, prestado por trabalhadores rurais, camponeses, mineiros, operários, técnicos de todas as “raças” e todas as cores. Procurar e promover hoje “pureza” étnica ou cultural, abraçando um conceito restrito, paralisante e, em última análise, impraticável de identidade, como faz a “teoria da grande substituição”, é um mito regressivo, que implica, inevitavelmente, confrontos violentos. Estou com Aimé Césaire2: “A obra do homem está apenas no seu início... E [nesta obra e na sua continuação] nenhuma raça detém o monopólio da beleza, da inteligência, da força; há lugar para todos no encontro com a vitória.” Estou com Edouard Glissant3, para quem a “plenitude ideal” da vida humana, da humanidade, requer não a rigidificação das “identidades” e das culturas, mas “uma diversidade mais complexa que não se pode exprimir nos arcaicos marcadores que são a cor da pele, a língua que se fala, o deus que se honra ou teme, o solo em que se nasceu. A identidade feita nas relações inaugura uma diversidade que é um fogo de artifício, uma ovação dos imaginários”, que “assenta na presença vivificante e consciente daquilo que todas as culturas, todos os povos, todas as línguas elaboraram, em sombras e maravilhas, e que constitui a substância infinita da humanidade”. Todas as metrópoles modernas dos países europeus (e não só), incluindo decerto Lisboa, são outros tantos cadinhos desta nova “identidade feita nas relações”. Por mais que hoje na Europa e no Ocidente o racismo institucional e o chauvinismo da “raça branca” estejam em alta; por mais que o capitalismo global em crise pareça orientar-se de maneira quase automática para uma devastadora guerra inter-imperialista global e a correspondente agudização do nacionalismo; a trajectória da espécie humana — se a sua existência não for interrompida e obrigada a retroceder milénios por um holocausto global — caminha para a superação das barreiras obsoletas da nacionalidade e da “raça”, para uma comunhão geral e inextricável de nações e “raças”, que é o contrário da homologação estrelada e listrada do mundo sonhada pelo pensamento neoliberal em colapso, e nada tem que ver com a colonização do “mundo branco” pelos povos de cor que é a obsessão dos adeptos da religião da TGS e do “holocausto branco”.

No fundo, os trabalhadores e trabalhadoras imigrantes (de todas as cores de pele), se pudessem falar pela própria voz e em plena consciência de si mesmos — e quando o fazem —, representar-se-iam a si próprios, ou, por outra, representam-se a si próprios, como os precursores da sociedade do futuro (hoje sujeitos a coacção e discriminação). E não veriam, nem vêem, naqueles que os retratam com todo o tipo de traços negativos senão homens do passado, gente retrógrada, obtusa, que não conhece o ambiente social em que vive, que não compreende que ele é já muito, e irreversivelmente, diferente do que era há apenas algumas décadas. Numa das suas fulgurantes intuições (em A Ideologia Alemã), Marx colheu no processo de desenvolvimento das forças produtivas modernas a capacidade de substituir “os indivíduos locais por indivíduos inseridos na história universal, indivíduos empiricamente universais”. Os emigrantes de todas as nacionalidades são-no objectivamente — não estou a falar, obviamente, de cada indivíduo, porque se nos perdemos nas infinitas particularidades dos casos individuais, nenhum conhecimento racional é possível; falo do fenómeno social, deles no seu conjunto e, portanto, da “média social”. Não defendo, portanto, a existência de diversidade “ontológica”, de essência humana, entre trabalhadores imigrantes e trabalhadores autóctones, “nativos”; a diferença é de condição social, material, legal, psicológica, que, gostem eles ou não, os faz pertencer a dois (ou mais) mundos diferentes, ou mesmo muito diferentes, um do outro. São gente empreendedora e corajosa que, em geral, e especialmente nestes tempos marcados por políticas migratórias de carácter restritivo e repressivo, ousou desafiar barreiras, dificuldades e grandes perigos para realizar o seu “projecto migratório”, que é, para elas, um caminho de emancipação pessoal, familiar, social e — às vezes até explicitamente — nacional, portanto carregada de expectativas. O contraste entre tais expectativas e a realidade, normalmente feita de sobre-exploração, discriminação, inferiorização, racismo e formas variadas formas de violência, inclusive física, impele-as, quase diria, obriga-as, a lutar para não sucumbir ao mesmo magro “destino” que, ao emigrar, rejeitaram.

Proponho, pois, olhar para as trabalhadoras e os trabalhadores imigrantes não como se fossem bestas de carga, apesar de tantas vezes serem tratados como tal; não como seres sub-humanos, ou, em todo o caso, inferiores, a quem devamos, membros que somos da super-raça superior, a nossa compaixão; e muito menos como vectores da peste do século XXI, capazes de arruinar o mais maravilhoso dos ecossistemas sociais possíveis; menos ainda como bonecos folclóricos para nos divertirmos num ou noutro sábado à noite à base de cozinha étnica apimentada; e sim como seres humanos portadores de necessidades de emancipação social, como em séculos passados muitos emigrantes da Europa foram, e ainda hoje são. Trabalhadores/trabalhadoras a “integrar” plenamente em pé de igualdade na vida social, sindical e política dos países europeus e com os quais “integrarmo-nos”, sem receios, numa autêntica troca de experiências e culturas, nos sentimentos internacionalistas que no passado fizeram grande o movimento proletário: a experiência, aliás, que vocês viveram em Portugal nos anos quentes da Revolução dos Cravos, quando a luta de libertação dos povos da África negra foi premissa para a libertação das classes trabalhadoras de Portugal do salazarismo e dos seus resquícios.

(continua na próxima semana)


1 Tradução de Adriano Zilhão. O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
2 Aimé Césaire (1913-2008), escritor e político francês nascido na Martinica (Caraíbas). (NR: nota da Redação)
3 Édouard Glissant (1928-2011), intelectual francês nascido na Martinica (NR).

LER AS OUTRAS PARTES
DA ENTREVISTA:

A década de 2015 a 2025 foi marcada por um massacre ininterrupto de emigrantes
Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

PARTE 2

Esta corrida para o abismo só pode ser travada pelo poder organizado das grandes massas proletárias e oprimidas de todo o mundo
Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

PARTE3

categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Internacionalismo

Sob cada uniforme de soldado há um operário

Durante a II Guerra Mundial, na França ocupada pelos nazis, militantes trotskistas no arsenal da Marinha alemã em Brest criaram uma célula comunista dentro do Exército Alemão para publicar um jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado). Muitos pagaram com a vida o arrojo internacionalista.

Durante a primeira grande guerra imperialista mundial, iniciada em 1914, a direção da II Internacional, capitaneada pelos social-democratas alemães, aderiu em cada país ao patriotismo bélico inoculado pelas grandes burguesias das suas nações, atrelando-se assim de corpo e alma às disputas militares pelo controle do mercado mundial.

Esses dirigentes, alguns deles notáveis figuras que se reivindicavam do marxismo, mesmo depois de conferências mundiais, como a de Basileia em 1912, onde juraram enfrentar a ameaça da iminente guerra capitalista com greves gerais e revoluções, passaram a defender que a Internacional era “essencialmente um instrumento para a paz” e “não uma ferramenta eficiente para tempos de guerra”, decretando a “suspensão” da validade do grande lema do Manifesto Comunista: “Proletários do mundo, uní-vos.”

Essa capitulação desavergonhada denunciada por Lenine, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Karl Liebknecht e outros, facilitou aos capitalistas usarem a classe trabalhadora de cada país como mão de obra armada e carne para canhão ao serviço de grandes grupos económicos que disputavam territórios para as suas mercadorias e capitais. Os trabalhadores matavam-se uns aos outros, aos milhões, pela ampliação dos lucros da sua burguesia nacional imperialista. Era o que Lenine apelidou de política social-chauvinista.

A Revolução Russa, dirigida pelo Partido Bolchevique, reacendeu as chamas e fez renascer o internacionalismo proletário, resultando na fundação da Internacional Comunista, ou III Internacional, em 1919. A Revolução Russa e a reanimação de um sentimento de solidariedade internacional do proletariado fez soar o alerta dos riscos para as burguesias beligerantes, o que precipitou o fim da guerra, antes que a situação derivasse para uma sublevação revolucionária generalizada da classe trabalhadora.

O advento da segunda guerra mundial imperialista, em 1939, pôs à prova, mais uma vez, aqueles que se declaravam a direção mundial do proletariado. Desta feita coube à Internacional Comunista, agora sob o controle de Estaline e da burocracia que se apropriou do poder político na União Soviética, sucumbir diante de um novo conflito necessário para o capitalismo. Para os capitalistas, era incontornável responder com uma nova redivisão económica do planeta diante do aumento da capacidade crescente das forças produtivas e a contradição com a camisa de forças de um mercado mundial incapaz de absorver esse possível crescimento da produção se mantida a lógica do lucro e constrangimento das fronteiras nacionais. Lenine já tinha alertado no seu livro O imperialismo, fase superior do capitalismo, para a tendência de expansão dos monopólios e para o facto de que esse período seria marcado por crise permanente do capital em declínio, gerando uma sucessão de “guerras e revoluções”.

Hoje, há uma associação que preserva a memória destes combatentes socialistas, incluindo militantes e historiadores franceses e alemães.

Depois de acordos com Hitler, Estaline, traído pelo “Führer”, que invadiu a União Soviética em 1941, adotou como orientação para os partidos comunistas do mundo todo a aliança com as suas burguesias democráticas contra o nazismo. Mais uma vez estava suspensa a fórmula do Manifesto Comunista de Marx e Engels de unidade mundial da classe trabalhadora, alistando o proletariado nos exércitos dos seus opressores para se matarem uns aos outros em nome da pátria. O social-chauvinismo da Primeira Guerra tinha sucessores.

Sempre ressabiada com os perigos de qualquer traço, por mínimo que fosse, de internacionalismo proletário nas circunstâncias de instabilidades sociais de uma guerra, a burguesia imperialista “democrática” viu com bons olhos Estaline decretar unilateralmente, em 1943, o fim da Internacional Comunista.

O trabalho de confraternização internacionalista dentro do exército alemão

É neste contexto que a decisão dos trotskistas de criarem, em 1943, na França ocupada pelos nazis, no arsenal da Marinha alemã, em Brest, uma célula comunista dentro do Exército Alemão e publicar um pequeno e precário jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado) para distribuir mensalmente (quando possível) entre esses soldados, é um ato de lealdade de consciência ao internacionalismo proletário, de luta contra a guerra e a exploração capitalista.

Num artigo publicado no n.º 2 do Arbeiter und Soldat, de agosto de 1943, quando o regime nazi já cambaleava perante a derrota em Estalinegrado, um trecho demonstra bem o tipo de mensagem de classe que o jornal procurava passar àqueles trabalhadores enfiados em uniformes:

“Já passou da hora de os capitalistas anglo-americanos se prepararem para salvar o capital alemão e europeu. Por mais fervorosamente que os membros da alta finança guerreiem entre si com o sangue dos trabalhadores, eles ajudar-se-ão mútua e fraternalmente quando o sagrado direito à propriedade e à exploração capitalista for questionado. Esses senhores sabem como as revoluções operárias podem ser contagiosas, hoje mais do que nunca.”

E o que se passou depois do fim da segunda guerra imperialista senão os acordos de Ialta e Potsdam, onde os chefes imperialistas vitoriosos – junto com Estaline – tudo fizeram para preservar o predomínio do capitalismo, inclusive salvaguardando interesses económicos dos grandes grupos industriais da Alemanha?

A célula trotskista que organizava a publicação e distribuição do Arbeiter und Soldat foi desbaratada em 1944, com membros fuzilados e enviados para campos de concentração.

Hoje, há uma associação que preserva a memória destes combatentes socialistas, incluindo militantes e historiadores franceses e alemães. Eles publicam materiais de valor inestimável para a preservação da luta pelo internacionalismo proletário que podem ser acedidos pelo link https://arbeiter-und-soldat.org/de/publikationen.

Neste momento da conjuntura mundial, onde os gastos militares, o incremento sem amarras da indústria bélica, as guerras em curso e as que estão a ser anunciadas são apresentados como soluções para a expansão dos lucros capitalistas à custa de maior empobrecimento e exploração dos trabalhadores e da juventude, a pergunta que devemos fazer, espelhando-nos em exemplos como os de Brest, é: como construir a unidade mundial dos trabalhadores contra a guerra e a exploração? Como forjar a internacional operária necessária para revolucionariamente acabar com a propriedade privada dos grandes meios de produção e derrotar os inimigos de classe?

Esta corrida para o abismo só pode ser travada pelo poder organizado das grandes massas proletárias e oprimidas de todo o mundo
A década de 2015 a 2025 foi marcada por um massacre ininterrupto de emigrantes
“Teoria da grande substituição”: Mito ou facto?
Sob cada uniforme de soldado há um operário
Esta corrida para o abismo só pode ser travada pelo poder organizado das grandes massas proletárias e oprimidas de todo o mundo
categoria-conversa com... Emigração Guerra Imigração Internacionalismo edicao-2026-03-19 (20)

Esta corrida para o abismo só pode ser travada pelo poder organizado das grandes massas proletárias e oprimidas de todo o mundo

Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

Raquel Varela, Pietro Basso
A década de 2015 a 2025 foi marcada por um massacre ininterrupto de emigrantes
categoria-conversa com... Emigração Guerra Imigração Internacionalismo edicao-2026-03-12 (19)

A década de 2015 a 2025 foi marcada por um massacre ininterrupto de emigrantes

Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

Raquel Varela, Pietro Basso
“Teoria da grande substituição”: Mito ou facto?
categoria-conversa com... Emigração Guerra Imigração Internacionalismo edicao-2026-03-05 (18)

“Teoria da grande substituição”: Mito ou facto?

Se a união faz a força, o que faz a desunião? Enfraquece-nos. Emigrantes e imigrantes são hoje uma parte substancial da classe trabalhadora, em Portugal como na Europa ou nos Estados Unidos. A direita, extrema ou “democrática”, promove a desunião entre trabalhadores “nacionais” e “estrangeiros”.

Raquel Varela, Pietro Basso
Sob cada uniforme de soldado há um operário
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Internacionalismo

Sob cada uniforme de soldado há um operário

Durante a II Guerra Mundial, na França ocupada pelos nazis, militantes trotskistas no arsenal da Marinha alemã em Brest criaram uma célula comunista dentro do Exército Alemão para publicar um jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado).

Anísio G. Homem

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