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Liberdade​
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-02-12 (15)

Liberdade​

Consultemos o dicionário Larousse, de França, cuja revolução proclamou a trilogia liberdade, igualdade e fraternidade: nome feminino que significa: 1) O estado de alguém que não está sujeito a um amo. Antónimos: escravidão, servidão; 2) Condição de um povo que se autogoverna em plena soberania. Antónimos: colonização; ocupação; submissão; 3)

Jornal Maio
O regime de Isaltino
categoria-opinião Oeiras Ordenamento Territorial edicao-2026-02-12 (15)

O regime de Isaltino

Em Oeiras, nos anos de 1980 e 90 construíram-se parques empresariais isolados, totalmente dependentes do automóvel, à imagem do modelo suburbano americano, atraindo empresas e classes médias e altas para polos monofuncionais localizados sobre os melhores solos do país.

Duarte d'Araújo Mata
Fúria dos elementos, revolta da população
rcategoria-eportagem Clima Infraestruturas Kristin edicao-2026-02-12 (15)

Fúria dos elementos, revolta da população

Na última semana, Portugal foi atingido por uma sucessão de eventos climáticos extremos, com especial destaque para a tempestade Kristin. Na região de Leiria, os seus efeitos foram devastadores, comparáveis a um cenário de guerra

Jornal Maio
Canções de luta
categoria-cultura Canto Operários edicao-2026-02-12 (15)

Canções de luta

Em 1846, Pierre Dupont publica seu livro de Cantos e Canções, poemas alguns dos quais ele mesmo musicou. Naquele contexto, com o desenvolvimento da industrialização, despontava uma nova força social: a classe operária.

Rafael Rosa Hagemeyer
A catástrofe ambiental como “oportunidade de investimento”
categoria-ambiente Estado Tempestade edicao-2026-02-12 (15)

A catástrofe ambiental como “oportunidade de investimento”

Perante quase uma semana inteira de incompetência e incapacidade de intervenção do Governo face aos recentes desastres naturais — com destaque para a tempestade Kristin na região de Leiria —, tornou-se evidente não apenas a fragilidade do Estado na resposta à emergência...

Jonas van Vossole
As tempestades e algumas perguntas incómodas
categoria-ambiente Lucro Mercados Natureza edicao-2026-02-12 (15)

As tempestades e algumas perguntas incómodas

Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”?

Adriano Zilhão
7305 dias depois
categoria-opinião Emigração Imigração Suécia edicao-2026-02-12 (15)

7305 dias depois

Quando cheguei à Suécia, como qualquer emigrante que se preze, tinha como objectivo ficar apenas dois anos. Tudo era novidade. Jogging na neve? Por que não? Férias em sítios frios? Claro que sim. Salmão com batatas? Que iguaria.

Tiago Franco
Nos 80 anos do Jornal do Fundão
categoria-opinião Imprensa Liberdade edicao-2026-02-12 (15)

Nos 80 anos do Jornal do Fundão

O Jornal do Fundão, que agora perfaz 80 anos, não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução.

Miguel Real
Sorel e o direito à greve geral
categoria-história Greve Geral Sorel edicao-2026-02-12 (15)

Sorel e o direito à greve geral

Sorel rejeitava a concepção da revolução como mera conquista do poder estatal, entendendo que tal conduziria apenas à substituição de elites no comando político. Para ele, o socialismo implicava a abolição do Estado e a transformação radical da sociedade.

Maria João Cantinho
“Dar o Couro”, teatro sobre a comédia e a tragédia do trabalho
categoria-conversa com... Teatro edicao-2026-02-12 (15)

“Dar o Couro”, teatro sobre a comédia e a tragédia do trabalho

Raquel Varela entrevista Patrício Nusshold, psicólogo, dramaturgo e ator de “Dar o Couro / D’arrache corps”, peça que vai estar em palco em Lisboa e Porto.

Raquel Varela, Patrício Nusshold
Para onde vai a Venezuela?
categoria-internacional Petróleo Trump Venezuela edicao-2026-02-12 (15)

Para onde vai a Venezuela?

O que esclarece o momento e a forma do ataque norte-americano à Venezuela é que funciona como um meio de pôr fim ao regime de sanções, em vez de o perpetuar. As sanções tinham atingido o limite da sua utilidade

Sirantos Fotopoulos
O primeiro grande teste à nova “maioria presidencial”
categoria-editorial edicao-2026-02-12 (15)

O primeiro grande teste à nova “maioria presidencial”

António José Seguro venceu as eleições com perto de 67% dos votos. Ventura obteve 33%, ainda assim, mais de 1,7 milhão de votos. Dois terços dos que votaram rejeitaram o candidato fascista. Ventura só conseguiu acrescentar cerca de 400 mil votos ao seu resultado da primeira volta

Jornal Maio
Liberdade​
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-02-12 (15)

Liberdade​

Consultemos o dicionário Larousse, de França, cuja revolução proclamou a trilogia liberdade, igualdade e fraternidade: nome feminino que significa: 1) O estado de alguém que não está sujeito a um amo. Antónimos: escravidão, servidão; 2) Condição de um povo que se autogoverna em plena soberania. Antónimos: colonização; ocupação; submissão; 3)

Jornal Maio
O regime de Isaltino
categoria-opinião Oeiras Ordenamento Territorial edicao-2026-02-12 (15)

O regime de Isaltino

Em Oeiras, nos anos de 1980 e 90 construíram-se parques empresariais isolados, totalmente dependentes do automóvel, à imagem do modelo suburbano americano, atraindo empresas e classes médias e altas para polos monofuncionais localizados sobre os melhores solos do país.

Duarte d'Araújo Mata
Fúria dos elementos, revolta da população
rcategoria-eportagem Clima Infraestruturas Kristin edicao-2026-02-12 (15)

Fúria dos elementos, revolta da população

Na última semana, Portugal foi atingido por uma sucessão de eventos climáticos extremos, com especial destaque para a tempestade Kristin. Na região de Leiria, os seus efeitos foram devastadores, comparáveis a um cenário de guerra

Jornal Maio
Canções de luta
categoria-cultura Canto Operários edicao-2026-02-12 (15)

Canções de luta

Em 1846, Pierre Dupont publica seu livro de Cantos e Canções, poemas alguns dos quais ele mesmo musicou. Naquele contexto, com o desenvolvimento da industrialização, despontava uma nova força social: a classe operária.

Rafael Rosa Hagemeyer
A catástrofe presente e os meios de a conjurar
categoria-ambiente edicao-2026-02-12 (15)

A catástrofe presente e os meios de a conjurar

Mais de uma semana de incompetência e incapacidade de intervenção do Governo face aos recentes desastres naturais

Jornal Maio
A catástrofe ambiental como “oportunidade de investimento”
categoria-ambiente Estado Tempestade edicao-2026-02-12 (15)

A catástrofe ambiental como “oportunidade de investimento”

Perante quase uma semana inteira de incompetência e incapacidade de intervenção do Governo face aos recentes desastres naturais — com destaque para a tempestade Kristin na região de Leiria —, tornou-se evidente não apenas a fragilidade do Estado na resposta à emergência...

Jonas van Vossole
As tempestades e algumas perguntas incómodas
categoria-ambiente Lucro Mercados Natureza edicao-2026-02-12 (15)

As tempestades e algumas perguntas incómodas

Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”?

Adriano Zilhão
7305 dias depois
categoria-opinião Emigração Imigração Suécia edicao-2026-02-12 (15)

7305 dias depois

Quando cheguei à Suécia, como qualquer emigrante que se preze, tinha como objectivo ficar apenas dois anos. Tudo era novidade. Jogging na neve? Por que não? Férias em sítios frios? Claro que sim. Salmão com batatas? Que iguaria.

Tiago Franco
Nos 80 anos do Jornal do Fundão
categoria-opinião Imprensa Liberdade edicao-2026-02-12 (15)

Nos 80 anos do Jornal do Fundão

O Jornal do Fundão, que agora perfaz 80 anos, não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução.

Miguel Real
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-02-12 (15)

Liberdade​

Consultemos o dicionário Larousse, de França, cuja revolução proclamou a trilogia liberdade, igualdade e fraternidade: nome feminino que significa: 1) O estado de alguém que não está sujeito a um amo. Antónimos: escravidão, servidão; 2) Condição de um povo que se autogoverna em plena soberania. Antónimos: colonização; ocupação; submissão; 3) Direito reconhecido por lei em determinadas áreas, estado de não estar sujeito ao poder político, não estar sujeito a pressões, por exemplo, liberdade de imprensa e de pensamento. Antónimos: sujeição, subordinação.

EM NOVILÍNGUA:

Gente como os líderes das associações patronais, Montenegro, Cotrim de Figueiredo e até Ventura redefine a liberdade centrando-a na escolha individual, na livre concorrência e na autonomia dos mercados. Segundo uma tese de doutoramento da Universidade de São Paulo, o conceito central é a liberdade de empresa, o comércio livre e a propriedade privada, com mínima interferência estatal. O Estado para estes “neoliberais” serve para proteger o mercado (privatizações, desregulamentação), por vezes aumentando o aparelho repressivo, enquanto diminui o Estado social. A liberdade é reduzida à escolha como consumidores. Esta estranha “liberdade” pode mesmo coincidir com agendas autoritárias, sacrificando liberdades democráticas e políticas em prol da “economia”. ASP

categoria-opinião Oeiras Ordenamento Territorial edicao-2026-02-12 (15)

O regime de Isaltino

Em Oeiras, nos anos de 1980 e 90 construíram-se parques empresariais isolados, totalmente dependentes do automóvel, à imagem do modelo suburbano americano, atraindo empresas e classes médias e altas para polos monofuncionais localizados sobre os melhores solos do país.

A atração de investimento em Oeiras e a cada vez maior visibilidade mediática destacam um estilo de liderança. Simultaneamente, movimentos de cidadãos entre os quais se destaca o Movimento Evoluir Oeiras têm salientado desafios estruturais como o ordenamento do território sustentável, a adaptação às alterações climáticas ou a mobilidade, que a ânsia da dispersão urbana não contempla.

A gestão autárquica de Isaltino Morais não é por isso conhecida pela forma como silencia a oposição em reuniões de câmara, a desconsideração da participação pública e a falta de compromisso pela transparência, pelo congestionamento automóvel, pelas cheias urbanas crescentes e toda a gama larga de despesismos e obras de fachada, suportado nos estratosféricos gastos em propaganda: 1,3 milhões de euros só em diferentes aquisições para comunicação, redes sociais e marketing no último mandato 2021-2025. É obra.

O sucesso, esse, reside na especulação de solos, que é aliás uma das nossas melhores indústrias nacionais. Há décadas que Isaltino Morais a promove, agora embrulhada em fortes campanhas de marketing e numa estratégia de marca “Oeiras Valley”.

Vamos recordar: nos anos de 1980 e 90 construíram-se parques empresariais isolados, totalmente dependentes do automóvel, à imagem do modelo suburbano americano, atraindo empresas e classes médias e altas para polos monofuncionais localizados sobre os melhores solos do país, tendo como resultado geral mais tráfego automóvel e o afastamento de um modelo metropolitano compacto, sustentável e estruturado no transporte público pesado existente.

O sucesso reside na especulação de solos, que é aliás uma das nossas melhores indústrias nacionais.

Isto aconteceu. Mais grave é que, ignorando todos os impactos e externalidades, 40 anos depois a receita continua a mesma, quando o paradigma deveria ter mudado com a alteração do Regime dos Instrumentos de Gestão Territorial (RJIGT) em 2014, desenvolvido pelo então ministro do PSD, Jorge Moreira da Silva, apontando precisamente para a contenção dos perímetros urbanos. Em 2015, António Costa chegou a defender, e estava no seu programa eleitoral, áreas metropolitanas com verdadeiros poderes de decisão. Contudo, em 2019, essa ideia misteriosamente desapareceu do seu programa, deixando decisões estratégicas de claro impacto regional alicerçadas na esfera municipal.

Convém aqui também recordar o regresso de Isaltino Morais a Oeiras em 2017: regressa depois de cumprir pena de prisão por fraude fiscal e branqueamento de capitais, na sequência de um processo judicial iniciado com a investigação de contas bancárias não declaradas na Suíça onde depositou mais de 1,3 milhões de euros e onde, na sentença, os juízes sublinham que o arguido nunca demonstrou arrependimento.

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Refinado na sua receita de sempre quanto aos solos, juntou-lhe a ideia falaciosa de que é preciso construir mais para resolver o acesso à habitação, contra a lógica do RJIGT, e com isso fez aprovar em 2022 o seu Plano Diretor Municipal de Oeiras (PDMO), em claro desacordo com o espírito da lei. Isaltino trata a proteção de solos de elevado valor como radicalismo ambiental e desvaloriza a importância da produção local no novo contexto de circuitos curtos. É mais fácil a via verde extraordinária das mais-valias privadas, um verdadeiro “tanque de combustível”. O rosto do “construir-se mais e mais investe, porém, em apoios sociais, faz mais habitação pública do que a generalidade dos municípios portugueses e toma posição contra o líder da extrema-direita, aproveitando a popularidade crescente nas redes sociais e nas televisões. E é aqui que a esquerda cai na armadilha: Com o aparecimento da extrema-direita, um discurso moderado, a imagem de proximidade e a atenção às questões sociais deslumbram os mais incautos, trazendo a balança para o centro, apesar do modelo de ordenamento territorial liberal que poderia ter sido pensado pela Iniciativa Liberal.

Quando vemos Daniel Oliveira ou Mafalda Anjos a elogiarem sucessivamente o autarca de Oeiras, percebemos a dimensão do equívoco, que já não é local.

Foi a pensar para além de Oeiras que surgiu o seu empenhado investimento na figura do almirante Gouveia e Melo para Presidente da República. Não correu bem desta vez, mas não deixa de ter o sistema na mão.

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Fúria dos elementos, revolta da população

Mais uma semana de chuva, vento, inundações, estradas cortadas, derrocadas, entre elas a da ministra da Administração Interna, símbolo da incapacidade do Governo Montenegro, e as populações afetadas continuam em boa parte entregues a si próprias e aos grupos de entreajuda que se têm constituído, aos esforços de bombeiros, proteção civil, aqui e ali da GNR e de militares. Mantemos a reportagem feita pelo Maio no concelho da Marinha Grande e acrescentamos o testemunho atual do leiriense Micael Sousa sobre a situação no seu concelho.

categoria-cultura Canto Operários edicao-2026-02-12 (15)

Canções de luta

Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

Em 1846, Pierre Dupont publica seu livro de Cantos e Canções, poemas alguns dos quais ele mesmo musicou. Naquele contexto, com o desenvolvimento da industrialização, despontava uma nova força social: a classe operária. Cada vez mais numerosa nas grandes cidades, a classe trabalhadora vinha sofrendo com as duras condições de vida e trabalho, ao mesmo tempo que se organizava e demandava participação política, agitada pelas ideias socialistas que vinham ganhando força na França e na Inglaterra.

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A canção de Pierre Dupont antecipava esse sentimento de revolta e sobre ela o célebre poeta Charles Baudelaire declarou: “Chegará o tempo em que os sons dessa Marselhesa do trabalho circularão como palavra de ordem onde o exilado, abandonado, viajante perdido, seja sob o céu escaldante dos trópicos, seja nos desertos de neve, quando escutar essa forte melodia perfumar o ar com seu aroma original, poderá dizer: Eu não tenho mais nada a temer! Eu estou na França!”

Chegará o tempo em que os sons dessa Marselhesa do trabalho circularão como palavra de ordem” (Baudelaire)

Certamente, mais do que se sentir na França, os trabalhadores se sentiriam parte da humanidade, compartilhando dos mesmos ideais que inspiraram sessenta anos antes a Revolução Francesa e que agora agitavam toda Europa e outras partes do mundo como a Revolução Praieira, em Pernambuco. Naquele ano, os jovens Karl Marx e Friedrich Engels publicariam seu Manifesto Comunista, exortando: “Trabalhadores de todo mundo, uni-vos!”

No videoclipe, foram usadas imagens do filme musical Os Miseráveis (Tom Hooper, 2012), adaptação do romance de Victor Hugo, originalmente escrito em 1962, mas que representa a classe trabalhadora da primeira metade do século XIX, agitando as primeiras bandeiras vermelhas entre as bandeiras republicanas tricolores e montando barricadas naquelas estreitas ruas da velha Paris antes das grandes reformas urbanas que serviriam de referência para o mundo, com saneamento, grandes avenidas, edifícios padronizados.

A versão em português procura ser o mais possível fiel ao sentido da letra original, que denuncia as causas daquela revolta – as péssimas condições de habitação, transporte, vida familiar e trabalho que motivavam a classe trabalhadora a se insurgir. “Mas não perdem por esperar que logo sopram novos ventos...” é o aviso dado à burguesia gananciosa que, sendo derrotada, daria lugar a um grande banquete no qual trabalhadores, livres da guerra e da exploração, poderiam finalmente se congratular.

Nesse dia, em que o mundo tenha sido libertado, finalmente poderemos beber e brindar fraternalmente pela emancipação da humanidade.

Que assim seja.

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Le Chant des ouvriers

Autor: Pierre Dupont

Nous dont la lampe le matin,

Au clairon du coq se rallume,

Nous tous qu’un salaire incertain

Ramène avant l’aube à l’enclume

Nous qui des bras, des pieds, des mains,

De tout le corps luttons sans cesse,

Sans abriter nos lendemains

Contre le froid de la vieillesse.

Refrão

Aimons-nous, et quand nous pouvons nous unir

pour boire à la ronde,

Que le canon se taise ou gronde,

Buvons, buvons, buvons!

À l’indépendance du monde!

Buvons, buvons, buvons!

Nos bras sans relâche tendus,

Aux flots jaloux, au sol avare,

Ravissent leurs trésors perdus,

Ce qui nourrit et ce qui pare :

Perles, diamants et métaux,

Fruits du coteau, grains de la plaine ;

Pauvres moutons, quels bons manteaux

Il se tisse avec notre laine !

Aimons-nous...

Quels fruits tirons-nous des labeurs

Qui courbent nos maigres échines?

Où vont les flots de nos sueurs?

Nous ne sommes que des machines.

Nos Babels montent jusqu’au ciel,

La terre nous doit ses merveilles

Dés qu’elles ont fini le miel,

Le maître chasse les abeilles.

Aimons-nous...

Au fils chétif d'un étranger

Nos femmes tendent leurs mamelles,

Et lui plus tard croit déroger

En daignant s'asseoir auprès d'elles.

De nos jours, le droit du seigneur

Pèse sur nous plus despotique :

Nos filles vendent leur honneur

Aux derniers courtauds de boutique.

Aimons-nous...

Mal vêtus, logés dans des trous,

Sous les combles, dans les décombres

Nous vivons avec les hiboux

Et les larrons amis des ombres;

Cependant notre sang vermeil

Coule impétueux dans nos veines

Nous nous plairions au grand soleil

Et sous les rameaux verts des chênes.

Aimons-nous...

À chaque fois que par torrents

Notre sang coule sur le monde,

C’est toujours pour quelques tyrans

Que cette rosée est féconde;

Ménageons-le dorénavant

L’amour est plus fort que la guerre;

En attendant qu’un meilleur vent

Souffle du ciel ou de la terre.

categoria-ambiente edicao-2026-02-12 (15)

A catástrofe presente e os meios de a conjurar

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Mais de uma semana de incompetência e incapacidade de intervenção do Governo face aos recentes desastres naturais — com destaque para a tempestade Kristin na região de Leiria — e tornou-se evidente não apenas a fragilidade do Estado na resposta à emergência, mas sobretudo a lógica político-económica que orienta essa resposta. Surgem também muitas perguntas incómodas: porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”? Porque se plantam espécies florestais quase sempre em monocultura, de maneira que, quando acontece alguma coisa, a devastação é total, seja incêndio ou vendaval?

Junto com a reportagem feita pelo Maio na Marinha Grande devastada, publicamos dois artigos que procuram responder a estas “incapacidades” do Estado e questionam se não estamos, tal como no casos dos incêndios, perante um outro tipo de catástrofe: a intenção de transformar os “excessos” da Natureza em outras tantas oportunidades de negócio.

A catástrofe ambiental como “oportunidade de investimento”
Perante quase uma semana inteira de incompetência e incapacidade de intervenção do Governo face aos recentes desastres naturais — com destaque para a tempestade Kristin na região de Leiria —, tornou-se evidente não apenas a fragilidade do Estado na resposta à emergência…
As tempestades e algumas perguntas incómodas
Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”?
categoria-ambiente Estado Tempestade edicao-2026-02-12 (15)

A catástrofe ambiental como “oportunidade de investimento”

Perante quase uma semana inteira de incompetência e incapacidade de intervenção do Governo face aos recentes desastres naturais — com destaque para a tempestade Kristin na região de Leiria —, tornou-se evidente não apenas a fragilidade do Estado na resposta à emergência, mas sobretudo a lógica político-económica que orienta essa resposta.

Num primeiro momento, o ministro da Economia chegou mesmo a afirmar que as vítimas não necessitavam de apoio imediato, uma vez que já tinham recebido o salário no final do mês. No final do processo, a principal forma de “intervenção” do Governo resumiu-se à disponibilização de linhas de crédito para famílias e empresas, destinadas a reparar os estragos causados pelo vento e a garantir liquidez às empresas cujas atividades foram afetadas.

O Governo poderia ter optado por ajudas diretas a fundo perdido, financiadas pelo Orçamento do Estado, por impostos extraordinários, por fundos europeus ou mesmo por dívida pública assumida de forma direta. Poderia ainda ter mobilizado meios públicos ou recorrido à requisição civil. Não o fez.

Em vez disso, os apoios surgem sob a forma de cortes indiretos na Segurança Social e de linhas de crédito financiadas por bancos privados. A isto soma-se a suspensão do licenciamento da construção, abrindo caminho a uma espécie de faroeste regulatório: reconstrução sem regras, sem planeamento e sem critérios técnicos adequados. O resultado previsível será uma edificação ainda mais precária, mais vulnerável a fenómenos semelhantes no futuro, sem sequer questionar o facto de muitas dessas habitações continuarem a ser reconstruídas em leitos naturais de cheia, onde nunca deveriam ter sido construídas.

Roubar os fundos da Segurança Social é aumentar a exploração

A Segurança Social existe para cobrir riscos inerentes às condições de trabalho e de vida: velhice, doença, desemprego, invalidez. Trata-se, na prática, de uma parcela indireta do salário social: um sistema de seguro coletivo e mutualizado que resulta da luta histórica da classe trabalhadora.

Utilizar esses fundos para responder a riscos que não decorrem do trabalho, mas sim de opções estruturais de gestão político-económica — como as alterações climáticas, a ausência de planeamento urbano ou políticas permissivas de licenciamento — constitui uma distorção profunda da sua função. Na realidade, trata-se de uma forma de expropriação coletiva dos salários da classe trabalhadora e de um aumento da taxa de exploração, ao transferir para os trabalhadores os custos de crises que eles não provocaram.

A opção do governo de recorrer a esses fundos enfraquece a sustentabilidade financeira da Segurança Social, reduz a sua capacidade de garantir prestações regulares e contribui para a erosão da sua legitimidade social. Mais cedo ou mais tarde, essa fragilização será mobilizada como argumento para novos cortes. Não é por acaso: o desmantelamento da Segurança Social integra a agenda ideológica neoliberal da direita, e o desastre natural surge aqui como uma oportunidade para acelerar esse processo sob a aparência de gestão responsável da crise.

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Linhas de crédito: o desastre como oportunidade de lucro

As linhas de crédito oferecem, por sua vez, ao sistema financeiro a possibilidade de investir cerca de 2500 milhões de euros na economia portuguesa, com retornos garantidos a longo prazo e com o Estado como fiador último. Funcionam de forma muito semelhante aos mecanismos associados a fundos europeus.

Esta forma de expansão financeira assente no desastre não é excecional: é uma prática recorrente do capitalismo contemporâneo. O capitalismo financeiro, intimamente ligado ao imperialismo, caracteriza-se pela deslocação crescente do capital para produtos financeiros e dívida, à procura de rendas garantidas e ganhos especulativos, em detrimento do investimento direto em instrumentos produtivos.

O papel do Estado é aqui central: garantir a estabilidade destes investimentos, proteger os direitos de propriedade especulativa e assegurar o retorno do capital “garantido”, seja através do sistema judicial e das forças de segurança no plano interno, seja através da diplomacia, do mercantilismo e da intervenção militar no plano internacional.

O desastre deixa de ser apenas um problema social e transforma-se numa oportunidade de governação e de acumulação de capital.

Capitalismo “verde”, catástrofe e novas cercas

O atual sistema financeiro dito “verde” encontrou nos desastres naturais uma nova e vasta oportunidade de expansão e acumulação. Estamos perante uma nova área de acumulação que pode ser descrita como uma forma renovada de colonialismo ou imperialismo: um processo de acumulação primitiva em contextos onde previamente não existiam mercados.

Aqui, a captura de valor não assenta diretamente na exploração do trabalho, mas nos enclosures — nos cercamentos dos bens comuns —, através da imposição violenta de soberania e de propriedade privada, mediada pelo Estado. Sem o Estado a garantir essa estabilidade e a criar novos “direitos de propriedade”, esta forma de acumulação financeira — por vezes aparentemente abstrata ou virtual — simplesmente não existiria.

A regulação das alterações climáticas por mecanismos de mercado ilustra bem este processo. O problema, material e profundamente político, das secas e cheias cada vez mais severas, das mortes, da pobreza, das migrações forçadas, da perda de biodiversidade e das epidemias é traduzido e reduzido a padrões mensuráveis, despolitizados e desumanizados, definidos por critérios técnico-científicos: graus de temperatura, centímetros de subida do nível do mar, partículas de CO₂ no ar. É a partir dessa abstração que a catástrofe se converte em direitos de emissão — isto é, em direitos de poluição — tratados como propriedade privada e transacionados no mercado. Não apenas como direitos presentes, mas também sob a forma de futures, garantidos por regulamentação estatal e por acordos entre bancos de desenvolvimento e organismos internacionais, como o Banco Mundial ou a União Europeia.

Deste modo, os riscos associados às alterações climáticas — produzidas pelo próprio capitalismo — transformam-se num novo e gigantesco mercado financeiro, avaliado em dezenas de milhares de milhões de euros. Primeiro, através do setor das alterações climáticas; depois, pela financeirização da reconstrução, da adaptação e do risco.

A catástrofe deixa assim de ser uma exceção e passa a integrar o próprio modelo de crescimento. O desastre deixa de ser apenas um problema social e transforma-se numa oportunidade de governação e de acumulação de capital.

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As tempestades e algumas perguntas incómodas

Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”? Porque se plantam espécies florestais quase sempre em monocultura, de maneira que, quando acontece alguma coisa, a devastação é total, seja incêndio ou vendaval?

Além do ímpeto solidário de acudir às populações que mais sofreram, as violentas tempestades que assolaram o país suscitam muita reflexão, muitos porquês.

Porque foram as populações forçadas a abandonar quase todo o país e a concentrar-se numas poucas zonas urbanas no litoral?

Porque se faz, nestas zonas, a construção cada vez mais longe dos centros (mesmo quando há espaço nestes), com materiais inadequados para as condições climáticas e para o conforto dos habitantes, sem planeamento urbano, transportes acessíveis, equipamentos adequados de saúde e ensino, zonas verdes e espaços seguros para crianças?

Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”?

Porque se plantam espécies florestais quase sempre em monocultura, de maneira que, quando acontece alguma coisa, a devastação é total, seja incêndio ou vendaval?

Os economistas costumam usar uma palavra muito “técnica”, novilinguística, para se referirem a estas consequências nefastas do desenvolvimento capitalista: externalidades.

O princípio básico da “economia de mercado” capitalista é simples: todas as relações económicas e sociais ocorrem em mercados. Nada do que se produz se faz para satisfazer as necessidades do produtor ou da comunidade a que pertence. Tudo se produz a pensar em encontrar compradores num mercado, próximo ou longínquo, onde se possa vender o produto com lucro.

Tanto a produção de bens e serviços como o seu consumo pelos indivíduos e famílias não têm, portanto, nada que ver com as deliberações de cada comunidade sobre o que se há-de produzir, como, quando, para quê e para quem.

Em vez disso, “investidores” que dispõem de capitais estimam quanto custarão nos mercados as fábricas que terão de construir, as máquinas e matérias-primas que terão de comprar e os salários que terão de pagar aos trabalhadores que precisarem de empregar; se virem que há ou haverá mercado lucrativo para o que se propõem produzir, avançam.

A doutrina liberal ensina que nenhum método de organização social é superior a este: a miríade de decisões independentes de investimento com fim lucrativo terá o efeito miraculoso de os recursos sociais disponíveis serem usados da maneira mais eficiente possível para a sociedade como um todo. Uma espécie de mão invisível guiaria as decisões egoístas de cada capitalista para um resultado global que, nas condições dadas, é, no fundo, “altruísta”, uma vez que socialmente melhor não será possível.

O observador céptico pode achar: “Bem, se eu fosse um desses capitalistas que quer fazer dinheiro, acharia esta teoria utilíssima — apesar de parecer um bocado estapafúrdia…” Estapafúrdia, realmente: vendo bem, o único resultado evidente de organizar assim os recursos da sociedade é que o capitalista, pelo menos o capitalista bem-sucedido, atinge o seu fim, que é multiplicar o seu capital. Quanto ao mais…

Voltemos às “externalidades”.

Os produtos ou serviços em cuja produção o capitalista decidiu investir não são a única consequência do seu investimento.

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Por exemplo, a exploração mineira, depois de o respectivo capitalista ter comprado ou concessionado o terreno, comprado ou alugado maquinaria e combustíveis, contratado pessoal e pagado impostos, não produz apenas matérias-primas prontas para vender a compradores industriais. Também produz uma transformação profunda do território em que se faz; pode obrigar populações a deslocarem-se; polui cursos de água e a atmosfera; causa doenças graves aos operários e aos habitantes; altera ou destrói ecossistemas.

O mesmo no caso da indústria transformadora; e da agricultura intensiva; e da exploração florestal.

No entanto, na sua esmagadora maioria, estes “efeitos colaterais" da produção capitalista não têm preço em nenhum mercado. O capitalista não tem de pagar por eles nem de incluí-los nos seus cálculos de rentabilidade.

Os efeitos colaterais não são “privados”. São custos sociais futuros. Terão, aliás, mais tarde ou mais cedo, de ser pagos: no custo de brigadas de bombeiros, de tratamentos hospitalares, de evacuações de populações, de despoluição de territórios.

Para o capitalista investidor, porém, não são custo algum.

Melhor: o preço da eventual reparação futura desses efeitos será pago por quem sofre os danos ou pelo Estado; neste caso, com o dinheiro cobrado em impostos à população em geral. Que é usado para comprar produtos e serviços em mercados — lucrativos — de construção civil, manutenção de infra-estruturas, etc.

Mas porque não têm esses capitalistas, que investem para ganhar dinheiro e, nisso, transformam “colateralmente” a natureza e a organização social e territorial, que pagar por esses efeitos colaterais?

As catástrofes total ou parcialmente resultantes de efeitos colaterais de investimentos capitalistas geram, assim, novos mercados para os mesmos capitalistas, ou outros, poderem fazer negócios lucrativos.

Pergunta-se: mas porque não têm esses capitalistas, que investem para ganhar dinheiro e, nisso, transformam “colateralmente” a natureza e a organização social e territorial, que pagar por esses efeitos colaterais?

Há uma resposta simples, que eles próprios poderiam dar: se todos esses efeitos colaterais previsíveis fossem carregados a custo do investimento privado, nenhum investimento privado se faria, porque não seria lucrativo. Ora, os tais efeitos ocorrem; e ocorrendo, têm um custo.

Esse custo representa, consequentemente, uma gigantesca subvenção dada ao capital pelo Estado — essencialmente, aliás, pelos trabalhadores em geral, que, além de arcarem quase sempre com os efeitos directos das catástrofes na saúde, nas condições de vida e de trabalho, são quem paga os impostos de onde o Estado paga as subvenções virtuais ao capital.

A conclusão, para quem não tenha antolhos: numa sociedade complexa, em que todo o país é afectado por tudo o que se faz social e economicamente em qualquer parte do território (o mesmo se aplica ao mundo), só é possível controlar o destino social, económico e ambiental do país e do mundo se todas as decisões importantes, nos domínios social, económico e ambiental, forem tomadas não por investidores empenhados em tirar as castanhas do lume (sem se importarem que o lume pegue fogo a tudo o resto), apoiados para o efeito na propriedade privada dos meios de produção, mas por toda a população trabalhadora, democraticamente.

categoria-opinião Emigração Imigração Suécia edicao-2026-02-12 (15)

7305 dias depois

Quando cheguei à Suécia, como qualquer emigrante que se preze, tinha como objectivo ficar apenas dois anos. Tudo era novidade. Jogging na neve? Por que não? Férias em sítios frios? Claro que sim. Salmão com batatas? Que iguaria.

Há exactamente 7305 dias saí de Portugal. Apanhei um voo para Dublin e daí para Gotemburgo. Queria fazer qualquer coisa diferente e, se possível, ver um bocado do mundo.

Trabalhava há cinco anos na Autoeuropa, a “empresa modelo”, e não raras vezes, no fim do dia, chegava ao carro, naquele enorme parque de estacionamento, e deixava cair umas lágrimas. Para quem nunca quis ser engenheiro, o trabalho que ali fazia apenas acumulava frustração à que já trazia de casa. Tinha colegas fantásticos, mas um conjunto de tarefas que não me diziam nada.

Quando cheguei à Suécia, como qualquer emigrante que se preze, tinha como objectivo ficar apenas dois anos. A minha vida mudou antes de Passos Coelho nos aconselhar a procurar oportunidades longe de Portugal ou de a troika voltar a meter a emigração com números dos tempos da guerra colonial.

Os primeiros anos foram fáceis. Tudo era novidade. Jogging na neve? Por que não? Férias em sítios frios? Claro que sim. Salmão com batatas? Que iguaria. Mar sem ondas? Que confortável.

Entrei sem dificuldades numa sociedade organizada onde tudo parecia acontecer por magia. Lembro-me de ligar para casa a contar que o IRS se entregava com um SMS e a palavra “sim”. Quando o meu filho nasceu, comecei a ter acesso ao famoso estado social, que tudo cobre na educação e na saúde. Os impostos, altíssimos, eram vistos como uma medida de progresso e organização social justa. Se o socialismo se aplicava algures como eu o imaginava, aquilo seria, provavelmente, o mais próximo que veria.

Os contratos de trabalho feitos de acordo com a concertação social e o movimento sindical presente em todas as áreas profissionais. Mais emprego do que trabalhadores, uma economia pujante que, mesmo em períodos de crise, recuperava rapidamente nas costas do seu enorme tecido industrial e produtivo.

Ao fim de alguns anos, os regressos, especialmente os regressos no fim de cada verão, começaram a ficar mais difíceis. Algumas pessoas saíram da minha vida, outras foram envelhecendo, outras cresceram para perfis que perdi. O tempo começou a ser contado e a vista da janela do avião, deixando Lisboa para trás, passou a ser cada vez mais dolorosa. Na Suécia, o relativo sucesso profissional nunca ofuscou a falta de proximidade nas relações pessoais. Há momentos na vida em que uma sociedade desorganizada se aceita em troca de um abraço.

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Foi por essa altura que, a cada Setembro, concorri a vagas de emprego na esperança de poder voltar. Em cada uma dessas vezes interrompia as entrevistas no mesmo sítio. Os anos iam passando e os salários praticados eram, sem tirar nem pôr, os que tinha deixado na Autoeuropa. Com a pequena diferença de que o custo de vida em Portugal não parava de crescer. Em resumo, íamo-nos tornando mais pobres com o passar do tempo.

Fui assistindo a tudo, enquanto as facções do ódio cresciam com o aparecimento da extrema-direita. Primeiro na Suécia e depois em Portugal. Hoje representam essencialmente o mesmo eleitorado nos dois países. Um em cada cinco vota no Chega ou no SD. Portugal crescia na pobreza e nos conflitos sociais. A Suécia ia-se tornando mais avessa a imigrantes. Nenhum me parecia, ou parece, particularmente apelativo. Nada disto estava no plano inicial da emigração.

Não sou, nem nunca fui, ingrato para com o meu país de acolhimento. Tudo o que profissionalmente atingi e aprendi devo-o, em exclusivo, às oportunidades que ali tive. Cumpro hoje 20 anos de emigração e tentei, sempre, contribuir para aquela sociedade, com trabalho e responsabilidade social.

Tenho, por razões óbvias, uma imensa dificuldade em compreender o ódio aos imigrantes e toda a narrativa usada para nos dividir.

Chegado ao dia de hoje e quando penso no assunto, fá-lo-ia novamente? Provavelmente, sim. Mas a estrada teria sido outra e o destino final também. Passei na Suécia os momentos mais tristes da minha vida, mas também os mais felizes. Guardo pessoas que ficarão na minha memória para sempre e outras, como é normal, cuja passagem e nomes já esqueci.

Em 2006 imaginava que, no regresso, teria no meu país um porto seguro de acolhimento. Cresceram as auto-estradas, aumentou o turismo, multiplicaram-se os casos de corrupção. No essencial, parece-me, encontro um país pior do que aquele que deixei. Mas admito que possa ser apenas a desilusão de perceber que já não terei tempo de ver o país imaginado.

Tenho, por razões óbvias, uma imensa dificuldade em compreender o ódio aos imigrantes e toda a narrativa usada para nos dividir, usando apenas quem, como eu e outros, um dia quis fazer algo diferente para melhorar as condições de vida.

7305 dias depois já não tenho a certeza de querer envelhecer em Portugal. Esta era, curiosamente, a única certeza que tinha quando parti.

O tempo passou, para mim e para todos. Só para Portugal é que parece ter parado. Quiçá regredido, até aos loucos anos 30 do século passado.

categoria-opinião Imprensa Liberdade edicao-2026-02-12 (15)

Nos 80 anos do Jornal do Fundão

O Jornal do Fundão, que agora perfaz 80 anos, não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução.

Antes do 25 de Abril, para além do República, comprava religiosamente numa tabacaria do Rossio, em Lisboa, três jornais: o Notícias da Amadora (aqui perto de Lisboa), o Comércio do Funchal, dirigido pelo Vicente Jorge Silva, e o Jornal do Fundão, de António Paulouro. Nenhuma relação tinha com a Amadora, o Funchal e o Fundão. Comprava-os porque eram jornais diferentes, via neles uma luz social diferente, via neles o que ainda hoje vejo no Jornal do Fundão: um jornal de causas, a luta e a defesa por uma ampla justiça social que a todos iguale.

Antes do 25 de Abril, a luta oposicionista pela democracia; depois do 25 de Abril, a luta pela valorização do interior a todos os níveis.

A minha preferência atual pela leitura do Jornal do Fundão reside na sua capacidade semanal de desafiar o centro (Lisboa) e as instituições centrais do Estado.

O Jornal do Fundão é, todas as semanas, como voz popular, um jornal incómodo para a ordem instituída em Portugal, um combatente da liberdade, da igualdade e da justiça social.

A sua antiguidade (80 anos é muito ano) podia dar-lhe um lugar de conforto de burguesia provinciana satisfeita. Mas não, as suas páginas são escritas a partir do confronto com o centro em função do que devia ser o dever deste como pessoa de bem e de que se exime, ou o cumpre concedendo migalhas.

O Jornal do Fundão é, todas as semanas, como voz popular, um jornal incómodo para a ordem instituída em Portugal, um combatente da liberdade, da igualdade e da justiça social. Traz consigo essa marca antiga do seu fundador, a palavra sempre suspeita de quem recusa a neutralidade.

O Jornal do Fundão não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução. É nutrido por uma fidelidade obstinada aos mais frágeis, aos que não cabem nos discursos dominantes nem nas narrativas oficiais.

Assim espero que continue muitos anos.

Zeca Afonso, Coração Inteligente
#39 Há uma efectiva privatização dos profissionais de educação
O Formigueiro #5
O regime de Isaltino
Fúria dos elementos, revolta da população
CAPA14
Canções de luta
A catástrofe presente e os meios de a conjurar
A catástrofe ambiental como “oportunidade de investimento”
As tempestades e algumas perguntas incómodas
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Nos 80 anos do Jornal do Fundão
Liberdade​
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-02-12 (15)

Liberdade​

Consultemos o dicionário Larousse, de França, cuja revolução proclamou a trilogia liberdade, igualdade e fraternidade: nome feminino que significa: 1) O estado de alguém que não está sujeito a um amo. Antónimos: escravidão, servidão; 2) Condição de um povo que se autogoverna em plena soberania. Antónimos: colonização; ocupação; submissão; 3)

Jornal Maio
O regime de Isaltino
categoria-opinião Oeiras Ordenamento Territorial edicao-2026-02-12 (15)

O regime de Isaltino

Em Oeiras, nos anos de 1980 e 90 construíram-se parques empresariais isolados, totalmente dependentes do automóvel, à imagem do modelo suburbano americano, atraindo empresas e classes médias e altas para polos monofuncionais localizados sobre os melhores solos do país.

Duarte d'Araújo Mata
Fúria dos elementos, revolta da população
rcategoria-eportagem Clima Infraestruturas Kristin edicao-2026-02-12 (15)

Fúria dos elementos, revolta da população

Na última semana, Portugal foi atingido por uma sucessão de eventos climáticos extremos, com especial destaque para a tempestade Kristin. Na região de Leiria, os seus efeitos foram devastadores, comparáveis a um cenário de guerra

Jornal Maio
Canções de luta
categoria-cultura Canto Operários edicao-2026-02-12 (15)

Canções de luta

Em 1846, Pierre Dupont publica seu livro de Cantos e Canções, poemas alguns dos quais ele mesmo musicou. Naquele contexto, com o desenvolvimento da industrialização, despontava uma nova força social: a classe operária.

Rafael Rosa Hagemeyer
A catástrofe presente e os meios de a conjurar
categoria-ambiente edicao-2026-02-12 (15)

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Mais de uma semana de incompetência e incapacidade de intervenção do Governo face aos recentes desastres naturais

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A catástrofe ambiental como “oportunidade de investimento”
categoria-ambiente Estado Tempestade edicao-2026-02-12 (15)

A catástrofe ambiental como “oportunidade de investimento”

Perante quase uma semana inteira de incompetência e incapacidade de intervenção do Governo face aos recentes desastres naturais — com destaque para a tempestade Kristin na região de Leiria —, tornou-se evidente não apenas a fragilidade do Estado na resposta à emergência...

Jonas van Vossole
As tempestades e algumas perguntas incómodas
categoria-ambiente Lucro Mercados Natureza edicao-2026-02-12 (15)

As tempestades e algumas perguntas incómodas

Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”?

Adriano Zilhão
7305 dias depois
categoria-opinião Emigração Imigração Suécia edicao-2026-02-12 (15)

7305 dias depois

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Tiago Franco
Nos 80 anos do Jornal do Fundão
categoria-opinião Imprensa Liberdade edicao-2026-02-12 (15)

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Miguel Real

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