Jornal Maio

Nos 80 anos do Jornal do Fundão

O Jornal do Fundão, que agora perfaz 80 anos, não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução.

Antes do 25 de Abril, para além do República, comprava religiosamente numa tabacaria do Rossio, em Lisboa, três jornais: o Notícias da Amadora (aqui perto de Lisboa), o Comércio do Funchal, dirigido pelo Vicente Jorge Silva, e o Jornal do Fundão, de António Paulouro. Nenhuma relação tinha com a Amadora, o Funchal e o Fundão. Comprava-os porque eram jornais diferentes, via neles uma luz social diferente, via neles o que ainda hoje vejo no Jornal do Fundão: um jornal de causas, a luta e a defesa por uma ampla justiça social que a todos iguale.

Antes do 25 de Abril, a luta oposicionista pela democracia; depois do 25 de Abril, a luta pela valorização do interior a todos os níveis.

A minha preferência atual pela leitura do Jornal do Fundão reside na sua capacidade semanal de desafiar o centro (Lisboa) e as instituições centrais do Estado. 

 

O Jornal do Fundão é, todas as semanas, como voz popular, um jornal incómodo para a ordem instituída em Portugal, um combatente da liberdade, da igualdade e da justiça social.

 

A sua antiguidade (80 anos é muito ano) podia dar-lhe um lugar de conforto de burguesia provinciana satisfeita. Mas não, as suas páginas são escritas a partir do confronto com o centro em função do que devia ser o dever deste como pessoa de bem e de que se exime, ou o cumpre concedendo migalhas. 

O Jornal do Fundão é, todas as semanas, como voz popular, um jornal incómodo para a ordem instituída em Portugal, um combatente da liberdade, da igualdade e da justiça social. Traz consigo essa marca antiga do seu fundador, a palavra sempre suspeita de quem recusa a neutralidade.

O Jornal do Fundão não se faz para ornamentar o mundo, mas para o interpelar, ferir, revelar, a sua linguagem não coincide com a gramática do poder, nem se submete à sintaxe da dominação, pensa e escreve a partir de uma ética da insubmissão, para não dizer da revolução. É nutrido por uma fidelidade obstinada aos mais frágeis, aos que não cabem nos discursos dominantes nem nas narrativas oficiais. 

Assim espero que continue muitos anos.

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