

















Viajo em contramão Reverto sempre o sentido Apanho tudo pela frente Sigo em contracorrente Os olhares que me reprovam Servem-me de alimento Deixei de deixar que me digam Qual o caminho certo Se os outros na sua viagem Seguem a medo, pela margem Quando a vida é um rio
Viajo em contramão
Reverto sempre o sentido
Apanho tudo pela frente
Sigo em contracorrente
Os olhares que me reprovam
Servem-me de alimento
Deixei de deixar que me digam
Qual o caminho certo
Se os outros na sua viagem
Seguem a medo, pela margem
Quando a vida é um rio
Que flui até ao mar
Quero deixar-me ficar
A contemplar os olhares
Daqueles também perdidos
Cheios de nada, vendidos
Fitam um novo horizonte
Que viram na televisão
Não me guio pela ilusão
De julgar os que me julgam
Seguir sem esforço, levado
Pela corrente, guiado
Aprecio o desconforto
De seguir em contramão
Aires Fumega

(Objectiva, setembro de 2025) Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e

Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência
O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência e recém agregado, trabalhando num terreno acidentado, coberto de mato e (ainda) livre de cercas. As ovelhas ficam alucinadas e difíceis de apascentar como se fossem um ror de gatos largados pelos montes!
Assim que, ao raiar do dia, abrimos o redil, as ovelhas saíram à disparada, todas correndo em direções opostas! E passaram o dia inteiro nisto: a cada árvore (azinheira ou sobreiro) alcançada, com a sofreguidão da cobiça (chegando a atropelar as próprias crias ainda pequenas, aparentemente sem se importarem), procuram por bolotas, ingerindo pouquíssimas das que encontram esparsas, pois guia-as a fé de que sob a próxima árvore é que estará depositado o sonhado tesouro. A cena repete-se vezes sem conta até ao ocaso.
Na hora dos exasperados arrebanhadores as trazerem de volta para o aprisco, estão exaustas, tendo consumido mais energia no afã de perseguir a sorte grande das bolotas, do que as que comeram, deixando a maioria intocada no chão.
Não sei quanto a vocês, mas isto parece-me uma boa metáfora para a nossa sociedade capitalista. A grande diferença é que não demora a cair uma tal abundância de bolotas que todas as ovelhas ficam satisfeitas, restaurando-se a paz pastoril. Ainda assim, é mais fácil encontrarmos pastores estelionatários nas igrejas, do que pastores filósofos nos campos.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Passaram esta semana cinquenta anos do golpe de 25 de Novembro de 1975, marco importante na história da revolução e da contra-revolução em Portugal.
O governo e a assembleia de maioria de direita e neofascista decidiu marcar o evento com uma parada militar e uma cerimónia na Assembleia da República “idêntica” à do 25 de Abril (mas com rosas brancas em vez de cravos vermelhos).
O deputado do PS Marcos Perestrello declarou do púlpito que, em 25 de Novembro de 1975, “os mencheviques venceram os bolcheviques”.
Evocava Perestrello um certo diálogo entre Mário Soares e o todo-poderoso ministro americano Kissinger no verão de 1975. Nesse diálogo, Kissinger “acusou” Soares de ser o Kerensky português, isto é, o homem (aliás não menchevique, mas do partido dos “socialistas revolucionários”), que chefiou o governo provisório russo que a revolução dos operários, camponeses e soldados, encabeçada pelos bolcheviques, derrubou em Outubro de 1917. Soares respondeu a Kissinger que não fazia tenções de ser o Kerensky português. E Kissinger respondeu a Soares que também Kerensky não fazia tenções de ser o Kerensky russo.
Nem Perestrello saberá como a sua escolha não foi casual. Ele comparou uma grande revolução operária e socialista com outra grande revolução operária e socialista. Uma vitoriosa, pelo menos inicialmente; a outra, derrotada, pelo menos para já.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
“Para já” é a parte importante.
A frase de Perestrello tem uma parte de verdade; tem, também, uma boa parte de mentira.
Ganharam os mencheviques em 1975? Ganharam — mas os mencheviques nunca “ganham” realmente; quando vencem, apenas abrem caminho aos Montenegros e aos Venturas.
Porém, os mencheviques não venceram os bolcheviques. Poucos bolcheviques havia; quando muito, em algumas organizações revolucionárias, que não ganharam a maioria no movimento operário.
A verdade é outra. Os “mencheviques de direita” de Mário Soares, coligados com a chefia do que restava do “exército do czar” (o Grupo dos Nove e a grande maioria da hierarquia militar) e com os embaixadores das grandes potências, sobretudo EUA e Alemanha (com os golpistas de “Kornilov” na sombra), venceram — porque tinham do seu lado os “mencheviques de esquerda”, chefiados por Álvaro Cunhal.
A direcção do PCP nunca fez tenções de pôr em causa a ordem do pós-guerra, a divisão de “esferas de influência” feita em Ialta e Potsdam entre Stalin e os potentados capitalistas vencedores da IIª Guerra — e reiterada em Helsínquia — que punha Portugal firmemente na esfera da NATO. Boa parte da base do PCP (e, de resto, do PS) tinha outras ideias.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
Os actores principais ainda vivos do golpe de Novembro, Eanes e Vasco Lourenço, repetem à saciedade: o golpe só visava repor a ordem nas forças armadas. Esta “ordem” estava em grave risco ante a auto-organização dos soldados, que convergia com a organização dos trabalhadores nas fábricas e nos bancos, nos campos do Alentejo e do Ribatejo, dos estudantes e professores nas escolas, dos enfermeiros, médicos e outro pessoal nos hospitais, dos moradores nos bairros. Formava-se o embrião de um novo poder.
Esmagado o Estado fascista de Salazar e Caetano pelo movimento popular e operário nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, o golpe de Novembro visou, assim, salvar o novo Estado do capital, que se reerguia a muito custo.
Tudo convergia num ponto: a hierarquia militar tinha de recuperar poder pleno sobre as armas. Sem isso, a salvação do capital ficava, literalmente, sem armas.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Tal foi o 25 de Novembro de 1975, pouco importando a polémica sobre a “saída dos páras” e o alegado “golpe de esquerda”. Como declarou em notável entrevista à TSF, em 2024, o falecido Carlos Matos Gomes, militar de Abril e homem arguto e bem informado, essa é “a chamada justificação para os pobres de espírito e crentes”.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras.
Aí está o pacote laboral, para começar.
A distopia pode ser uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. Porém, pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica de tudo aquilo que não queremos viver.
Apesar de sabermos que qualquer universo distópico se traduz num cenário imaginado de uma região, país ou sociedade, sabemos igualmente que ele representa o caos, a injustiça, a desigualdade, a opressão, o sofrimento, a tirania ou o totalitarismo. Nesse ambiente indesejável prevalecem o desamparo, a amargura, a angústia, o desespero, o autoritarismo, ou seja, é um sistema que restringe a liberdade, a autonomia e anula a subjetividade. A distopia pode funcionar como uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. As pessoas sentir-se-iam isoladas e sem capacidade para resistir, sem força para se opor. A distopia caracteriza-se, ainda, por possuir múltiplas formas de poder, dominação e controlo, as quais se manifestam, por vezes, de formas visíveis, outras vezes, por meios subtis. Em resumo, um universo distópico idealiza um mundo profundamente desigual, maléfico, doente, alienado e castrador. Porém, uma conjuntura distópica pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica para tudo aquilo que não queremos vivenciar ou experienciar.
Por oposição, a utopia representa o inverso, isto é, traduz-se naquilo que seria uma sociedade ideal, perfeita, harmoniosa, justa e desejável. É um lugar em que predomina o bem-estar, a igualdade, a ausência de pobreza ou de miséria social, e materializa-se num sistema de governo benevolente (ou até mesmo na ausência dele, embora mantendo o funcionamento da sociedade de forma organizada, equitativa e pacífica). As sociedades utópicas caracterizam-se por promover: 1) a cooperação e o coletivismo (entre todos os membros da sociedade); 2) a elevação de valores éticos e morais (em que o respeito, o bem-estar social e a liberdade de expressão são, efetivamente, valorizados); 3) a educação, a ciência, as técnicas e a tecnologia (as quais são totalmente direcionadas para o bem-comum, isto é, são unicamente utilizadas para benefício de toda a humanidade e representam um património que intrinsecamente lhe pertence, fruto do conhecimento passado de geração em geração); 4) a harmonia social e ambiental (é obrigatório manter uma relação equilibrada do Homem com a natureza). Resumidamente, uma sociedade utópica é uma sociedade progressista, emancipatória e humanista. O termo original foi criado por Thomas More, no seu livro Utopia (1516), cujo significado é, literalmente, "lugar nenhum" (originário do grego ou = não, e topos = lugar), que nos remete para um ideal inalcançável. Metaforicamente, é como se caminhássemos para tentar alcançar o lugar mais distante na linha do horizonte (mas, simultaneamente, quando mais caminhamos, novos lugares vão surgindo no nosso campo de visão).
Na realidade, os dois conceitos, distopia e utopia, tal como já referido, remetem-nos para sociedades imaginárias. Porém, atualmente, estamos submersos em sociedades que parecem mais próximas de poderem ser consideradas distópicas do que utópicas. Um elemento-chave que ajuda a compreender este fenómeno é o facto de vivermos em sociedades-do-lucro-omnipresente-e-omnipotente. Nesta conjuntura, o Homem deixou de ser um fim em si mesmo (Kant teria rejeitado essa visão utilitarista e instrumental do ser humano) e esse lugar passou a ser ocupado pelo “deus lucro”. Porém, isso representa uma extraordinária (e inaceitável) inversão de valores sociais e morais.
Os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza.
É verdade que os problemas sociais, económicos, políticos e ambientais do mundo hodierno são complexos e estão profundamente interligados. Não raras vezes, estes tópicos são exacerbados pelo processo de globalização, incluindo todas as suas contradições. Um dos paradoxos mais evidentes na atualidade é pautado pela relação (desestruturante) entre capital e trabalho, embora vá muito além dela. A título ilustrativo, enumeramos alguns exemplos de problemas marcantes vividos no mundo contemporâneo, nomeadamente ao nível das desigualdades económicas e sociais: os dados atuais demonstram que os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza. As três maiores fortunas do mundo possuem um montante superior ao PIB de quase 60 países mais pobres. Isto significa que vivemos num mundo em que reina a injustiça social e se reproduz uma atroz assimetria na distribuição dos recursos produzidos, por via do trabalho, através da classe trabalhadora. Paralelamente, as últimas estimativas revelam que mais de 200 milhões de trabalhadores vivem na condição de pobreza extrema, ganhando o equivalente a, aproximadamente, 2 euros por dia. Sublinho que estamos a falar de trabalhadores, ou seja, alguém que trabalha, mas, ainda assim, não consegue sair da pobreza extrema. Apresento, como exemplo, um episódio real relatado por Vincent Gaulejac, na obra La société malade de la gestion, o qual indica que um empresário de uma multinacional recebeu 16,2 milhões de euros por ter tomado a decisão de encerrar 38 lojas dessa empresa e, consequentemente, enviado para o desemprego centenas de trabalhadores. Este montante, auferido devido a um único ato de gestão, representa o equivalente a mil anos de salário médio dos trabalhadores que foram demitidos. Surpreendentemente, o mesmo empresário, referiu que não se sentia bem pago para exercer aquela “tão dura profissão”. Vale a pena interrogarmo-nos: qual o valor que atribuímos ao trabalho para sustentar uma tão grande discrepância de rendimentos? Como podemos explicar e justificar esta insanidade, sem a apelidar como algo profundamente distópico?
Segundo os dados de um relatório recente da OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho. Também dados recentes indicam que o desemprego global se cifra em cerca de 210 milhões de trabalhadores desempregados. Isto representa uma verdadeira hecatombe social, política e económica. É igualmente pertinente referir que, ao nível global, as disparidades no acesso à educação, aos serviços de saúde, à habitação, à quantidade e qualidade da alimentação (fome e/ou má nutrição) e a empregos decentes são gritantes e evidentes. Por vezes, muitos destes aspetos têm como pano de fundo as diferentes formas de violência, cujo expoente máximo está normalmente associado aos conflitos armados, ou ainda a situações oriundas de crises ambientais e alterações climáticas.
Em relação a este último ponto, vale a pena ler o relatório da Oxfam International, publicado em outubro de 2025, cujo título é expressivo: “Saque Climático: como poucos poderosos estão a levar o planeta ao colapso.” Neste documento, é afirmado que o grupo dos 0,1% mais ricos do planeta polui, em apenas um dia, mais do que uma pessoa dos 50% mais pobres durante um ano inteiro. É também defendido que a crise climática é uma crise de desigualdade. Estes são alguns traços que nos levam a sugerir que o mundo atual está mais próximo da distopia do que da utopia.
Segundo a OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho.
Agora, imaginem que num futuro próximo seria criado um parlamento global. Esse órgão político transnacional estava a discutir uma legislação que iria proibir todas as formas de exploração entre seres humanos. Anteriormente, já tinham sido dados passos significativos nesta direção, considerando que há uns anos os lucros das empresas (que maioritariamente iam para os bolsos dos acionistas ou proprietários) não poderiam agora ultrapassar a margem de 5% do lucro total. Uma parte dos restantes 95% dos lucros era distribuída, equitativamente, por todos os trabalhadores da empresa e, a outra parte, era alocada para o Estado Providência do respetivo país. Naturalmente que neste novo modelo não existia a possibilidade de rutura ou de falência da segurança social. O desemprego era igualmente proibido, visto que o trabalho que cada um executa representa aquilo que cada trabalhador pode oferecer ao bem comum. Ninguém é tido como “inútil”, porque a existência e a dignidade não estão associadas à capacidade de produzir. Uma sociedade de pleno emprego, deste ponto de vista, traduz-se no limite máximo da qualidade de vida dessa mesma sociedade. Porque a divisão social do trabalho é justa e equitativa. Claro que haveria pessoas que não trabalhavam (no sentido estrito do termo), não porque não quisessem, mas porque, efetivamente, não podiam! Imaginem também que o mesmo parlamento global fazia a promoção plena da paz mundial e proibia todo e qualquer tipo de guerra armada. A fome, a pobreza e a exclusão social eram igualmente proibidas.
Estes tópicos direcionam-nos para aquilo que hoje designaríamos como uma sociedade utópica. A eliminação das desigualdades tinha sido possível porque as populações tinham compreendido, verdadeiramente, o que tinha estado na base da sua génese (para isso evocamos as sábias palavras de Jean-Jaques Rousseau sobre a origem das desigualdades humanas): “O primeiro [Homem] que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer “Isto é meu”, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado o género humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!”
Para terminar, peço-lhe que recorra uma última vez à imaginação e faça a seguinte experiência mental: pense que está no cenário idealizado por John Rawls, desiganado por “véu da ignorância”, ou seja, não sabe antecipadamente qual será a posição social que lhe irá caber, quais serão as suas capacidades e aptidões naturais, qual será a sua identidade (em termos de género, etnia ou orientação sexual), nem quais serão as suas crenças religiosas, filosóficas ou até as metas de vida. Perante este contexto idealizado e ignorando totalmente as características em que seria colocado no mundo, caso tivesse de fazer uma escolha, escolheria viver numa sociedade distópica ou utópica?
O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?
O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?
Na semana passada, o governo direitista de Portugal, pressionado pelo partido de extrema-direita fascista Chega, conseguiu pôr termo à possibilidade de imigrantes dos países dependentes virem trabalhar para Portugal. Até agora, era possível a muitos estrangeiros entrarem com um visto de turista e depois “manifestarem interesse” em trabalhar, acabando por obter autorização de residência. Agora, os imigrantes potenciais passam a ter de candidatar-se, nos seus países de origem, a vistos para trabalhar. Mas vejam só: a regra não é aplicável a candidatos a empregos “altamente qualificados”. Profissionais estrangeiros com “qualificações avançadas” continuam a poder entrar em Portugal para procurar emprego e trabalho desde que sejam contratados antes de o visto expirar. Analogamente, os trabalhadores “remotos” continuam a ser elegíveis para viver e trabalhar em Portugal.
As novas leis são notoriamente discriminatórias contra os imigrantes pobres dos países dependentes do Sul. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso? As estatísticas da Comissão Europeia indicam que a mão de obra migrante não enfraqueceu a economia portuguesa; fortaleceu-a! “800 mil imigrantes contribuem com mais de mil milhões de euros para o sistema de segurança social, ao passo que só recebem aproximadamente 257 milhões de euros em benefícios sociais, deixando um saldo positivo de mil e seiscentos milhões de euros”.
Há várias décadas que magotes de jovens deixam Portugal em busca de melhores oportunidades económicas noutros países da UE. Nos últimos anos, indianos, nepaleses e bengalis colmataram a lacuna deixada na força de trabalho portuguesa. Vêm trabalhar para explorações de frutos vermelhos no Alentejo agrícola. “Nós deixámos o nosso país. Jovens portugueses têm deixado o seu. Há quem não goste que nós cá estejamos, mas somos nós que estamos a revitalizar esta região e a fazer entrar cá muito dinheiro”, diz um trabalhador nepalês sob anonimato. “A razão principal por que Portugal tem visto aumentar o número de imigrantes é porque precisa deles”, diz Luís Pinheiro, ex-diretor da Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA). O sector agrícola português continua em expansão rápida, particularmente devido à procura cada vez maior de frutos silvestres, que depende principalmente de trabalhadores da Ásia Meridional. Em 2023, as receitas de exportação de bagas atingiram quase 300 milhões de euros, sendo a maioria enviada para supermercados alemães e britânicos. “Portugal tem uma grande procura de mão de obra em certas áreas de atividade económica, e estes migrantes continuam a chegar porque há procura de mão de obra”. Longe de ser abuso, a imigração tem sido um trunfo essencial para a economia portuguesa, particularmente em sectores-chave da agricultura e da indústria do lazer, assente em salários baixos, que correspondem a empregos que os cidadãos portugueses resistem a procurar, por os salários serem muito baixos. O atual salário mínimo é de apenas 820 euros por mês, que mal deixa a quem trabalha o suficiente para sobreviver. Depois de custear o alojamento, as dívidas e o envio de dinheiro para a família, muitos trabalhadores imigrantes ficam com apenas 100-150 euros por mês. Muitas destas aldeias e vilas ficam longe das cidades, no Alentejo, o que torna mais difícil documentar violações de direitos humanos e laborais. Muitos suportam condições extraordinariamente difíceis. “É uma espécie de militarização do trabalho. Tens de obedecer a tudo, mesmo que seja a coisa mais estúpida que se possa imaginar. Se trabalhas 12 horas, devias receber pagamento de horas extraordinárias; mas eles pagam apenas 6,50 euros e ainda queriam mais horas. Isso era para os trabalhadores permanentes. Imagina agora para os temporários”, diz o ativista laboral do Alentejo Alberto Matos.
Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia.
Shollomian, de Sylhet, no Bangladeche, que veio para Portugal com um visto de turista, trabalha numa quinta de frutos vermelhos em São Teotónio. Diz que trabalha entre 8 e 12 horas por dia, começando às 5-6 h da manhã. Foi-lhe dito que receberia uma autorização de residência no prazo de 12 a 14 meses, mas, 24 meses passados, continua à espera. Apesar disso, envia 100 a 400 euros à família sempre que pode e está otimista. “Vim para Portugal há dois anos quando vi anúncios de trabalho em Portugal nas redes sociais. Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia, em condições difíceis. Ganho 50 euros por dia. Temos de colher oito quilos por cada quatro horas. É dificílimo, na quinta faz muito calor, não nos dão água, às vezes sangro do nariz. Não nos dão comida, temos de trazer a nossa. Envio por mês 230-450 euros para a família, no Nepal. Ao fim de dois anos, continuo sem autorização de residência.”
“Há, atualmente, pelo menos, 400 mil pessoas, na sua maioria migrantes indianos e nepaleses, que aguardam renovação das suas autorizações de residência. Encontram-se numa situação muito vulnerável, porque os empregadores aproveitam-se. Não podem perder o emprego, por isso têm de aceitar todas as exigências dos empregadores”, afirma a Dra. Alexandra Pereira, bolseira de pós-doutoramento na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, especializada em migração nepalesa, particularmente para Portugal e a Europa.
A situação dos sul-asiáticos é perigosa, pois estão mais à mercê dos traficantes e das máfias que os trazem para Portugal e da exploração dos empregadores. No Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, há muitas agências que continuam a burlar e a lucrar à grande com os recém-chegados e migrantes com documentação insuficiente, convencendo-os a comprar serviços de que não precisam e fazendo-lhes crer que ainda é possível legalizarem a sua situação.
Ao fechar a porta à legalização, o Governo abriu o mercado negro de mão de obra humana. Muitos trabalhadores chegam profundamente endividados, depois de pagarem quantias exorbitantes para virem a Portugal com vistos de turista, de trabalho ou vistos UE expirados. Alberto Matos diz que os migrantes lhe contam que “bem, eu paguei 15 a 20 mil euros, na Índia, para vir trabalhar para Portugal. Eles endividam-se, têm de pagar as dívidas anos a fio, ficam escravos da dívida. As próprias famílias, no país de origem, são obrigadas a pagar a dívida e são ameaçadas pelas máfias locais”.
De acordo com a direção da Migração e Assuntos Internos da Comissão Europeia, “observou-se que a maioria das vítimas confirmadas de tráfico se enquadravam no tráfico de seres humanos para exploração laboral (72,8%); desses, 73,2% no sector agrícola”. As estatísticas são especificamente piores no Alentejo, onde se contaram 51,7% das vítimas confirmadas de tráfico de seres humanos em Portugal entre 2008 e 2021; dessas, 74,5% traficadas para fins de exploração laboral. “Devido à enorme extensão geográfica dos locais onde são colocados para trabalhar, geralmente no interior da região do Alentejo ou no Oeste do país, com condições de acesso difíceis, a deteção pelas autoridades responsáveis pela supervisão das condições de trabalho e permanência em Portugal é difícil.”
As grandes empresas frutícolas estão no âmago da situação. Como afirma Matos, “a Driscoll's controla Odemira inteira. Vendem as patentes e, pelo meio, há uma grande exploração. No fim da linha, dizem: ‘façam o favor de nos darem os frutos vermelhos, nós é que sabemos comercializá-los nos mercados internacionais.’ Costumamos dizer que a região de Odemira é uma espécie de barriga de aluguer da Driscoll’s.” Se há “abuso de hospitalidade”, como clama o primeiro-ministro Montenegro, quem abusa não são os imigrantes, são os empregadores.
Não tarda nada que gente como o Chega venha exigir a deportação de milhares de trabalhadores para os seus “países de origem”. Só que a situação económica e política no Bangladeche e no Nepal é horrenda. O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, embora o estilo de vida luxuoso das famílias políticas — roupas de marca, viagens ao estrangeiro e carros de luxo — contraste com a dura realidade que os jovens enfrentam. “Toda a gente se quer ir embora [do Nepal]. Há poucas oportunidades de emprego, crises políticas e económicas constantes; os jovens querem encontrar uma vida melhor, salários mais altos: as pessoas ganham 200 euros por mês.” Acrescem agora perigos reais. No mês passado, o governo do Nepal caiu e houve um golpe militar. A polícia matou 22 pessoas num protesto contra a corrupção.
A situação não é melhor no Bangladeche, país muitíssimo povoado. Há cerca de 37,7 milhões de pessoas em insegurança alimentar no país. Mais de um quarto das famílias endividam-se para suprir necessidades diárias, incluindo comida. Um inquérito do think tank South Asia Network on Economic Modeling mostrou que 28% das famílias recorrem a empréstimos para sobreviver. Quase duplicou o número médio de empréstimos por família. No ano passado, o exército e a polícia mataram mais de trezentas pessoas envolvidas em protestos contra o governo, até que a então primeira-ministra Hasina fugiu do país, levando milhares de milhões na bagagem.
Assim, as 400 mil pessoas que aguardam a renovação dos vistos não têm maneira de voltar para casa, ao contrário dos muitos portugueses que deixaram o seu país em busca de uma vida melhor e empregos melhores, mas podem regressar. Portugal precisa destes imigrantes, geralmente jovens e industriosos, e da sua mão-de-obra (e das suas receitas fiscais) para contribuir para sustentar quem vive no país. O que é necessário não são controlos de imigração rigorosos, enviesados contra os asiáticos pobres, nem deportações, que muito debilitariam a economia portuguesa. Necessário é que trabalhadores portugueses e imigrantes façam campanha juntos, com os sindicatos, para acabar com a exploração dos trabalhadores migrantes, aumentar o salário mínimo e melhorar as condições de trabalho para todos. Enquanto forem obrigados a trabalhar por salários baixos e em condições precárias, os trabalhadores imigrantes prejudicam a capacidade negocial de todos os trabalhadores em Portugal. É com este “abuso de hospitalidade” que temos de acabar, não aumentá-lo.
Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são: permitir a “uberização” de todos os trabalhadores; e normalizar a semana de trabalho de 50 horas.
Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são: permitir a “uberização” de todos os trabalhadores; e normalizar a semana de trabalho de 50 horas.

Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são permitir a “uberização” de todos os trabalhadores e normalizar a semana de trabalho de 50 horas. Politicamente, o eixo principal é uma grande restrição dos direitos de greve e organização sindical. No conjunto, abre-se portas ao despedimento de funcionários públicos e a usar as nossas reformas para especular na bolsa.
É este conjunto de medidas que levou a que se faça uma parada militar para celebrar o 25 de Novembro, tentando apagar o período revolucionário de 1974-75, com a mudança de regime em Portugal e o fim da guerra colonial. E o fim do momento mais democrático da nossa história, quando, nos locais de trabalho, se elegeram comissões democráticas com mandatos revogáveis se não cumprissem o decidido pelos trabalhadores.
Quase 70% dos portugueses que trabalham ganham menos de 890€ por mês líquidos. O que propõem o Governo, a IL, o Chega… e o PS, que aprovou o Orçamento de Estado?
Uberizar, como tarefeiros, motoristas de carga, médicos ou enfermeiros, professores; legalizar, nas cantinas, empresas de segurança; falências fraudulentas; permitir, na TAP, abrir uma rota nova com trabalhadores externos; com o banco de horas, deixar de pagar até 15% do salário de todos os trabalhadores; o horário de trabalho oficial passar para 50 horas. E precariedade para sempre, impedindo ter um lar, uma família, segurança, uma casa para viver e receber os amigos. Permitir o despedimento sem justa causa. Nada disto foi sequer sufragado na campanha eleitoral, onde Montenegro e a sua AD esconderam dos eleitores as suas intenções.
Não era preciso uma greve geral, diz o líder do Chega, financiado pela Paulo Duarte, Barraqueiro, bancos, grandes empresas de agricultura intensiva. Há que flexibilizar e despedir na função pública, diz a IL – na apresentação da sua candidatura esteve a CEO da empresa Hospital da Luz, de propriedade chinesa. A ministra do Trabalho de Montenegro, Palma Ramalho, tem um património declarado de mais de 5 milhões de euros e, pasme-se, por coincidência é mulher de António Ramalho, que acabou de receber 7 milhões de euros pela venda do falido Banco Espírito Santo a um fundo financeiro abutre do Texas.
Se amanhã Ramalho adquirir 10 imóveis para especulação com 7 milhões, esse património é seu ou nosso? Como podemos tolerar que quem trabalha não tenha o direito inviolável à sua própria casa?
Mais de um milhão de pessoas faz turnos noturnos em Portugal, que implicam, como mostram estudos, um aumento da taxa de cancro e outras doenças da ordem dos 35% em média, só pela quebra dos ciclos de sono. Mais de 50% dos portugueses trabalha até 70 horas semanais, sem contar a deslocação para o trabalho.
Um casal, para viver com o mínimo de dignidade teria, segundo estudos sérios, de receber pelo menos 2500 euros por mês. Mesmo assim, só falamos de pagar o essencial. Como vivem os mais de 70% dos trabalhadores portugueses que recebem 800 euros? Hoje há mais de um milhão de trabalhadores sem direitos em Portugal. Se questionarem as condições de escravatura em que trabalham, podem ser expulsos, pois são imigrantes, criminalizados pela AD-Chega.
Uma greve não se decreta, organiza-se. Está em causa mais do que o pacote laboral, que já por si afeta mais de 8 milhões de trabalhadores e suas famílias. Se o Governo vencer e se mantiver em funções depois da greve e avançar com o pacote laboral, a sua classe social e o seu Estado já anunciaram o seu programa. Avançar com despedimentos na função pública (IL) e fazer as reformas e pensões entrarem na bolsa (AD, Chega e IL).
Não foi isso a revolução, que a direita odeia e quer enterrar, celebrando o 25 de Novembro numa parada militar, com um orçamento de 5% do PIB para a guerra, maternidades fechadas — enquanto as mães, na Ucrânia, na Rússia e em Gaza, visitam os filhos no cemitério?
Esta greve geral pode ser um extraordinário momento de transformação e esperança para a maioria dos portugueses. A chave do seu sucesso está na própria capacidade dos seus líderes de abrirem espaço também a novos dirigentes, em vez de se eternizarem no poder nos sindicatos ou se deixarem anestesiar na concertação social. Com plenários em cada sector, reuniões onde todos possam falar (e sejam protegidos para isso, fazendo-o às escondidas se necessário), piquetes à porta das fábricas e empresas onde se converse, ouvindo todos e se decida que outras formas de luta se devem organizar, deixando a imaginação, dedicação e ousadia dos trabalhadores em coletivo pensar em como vencer — e que tipo de sociedade querem construir.
O movimento social como um todo. É isso uma greve. Ela deve ser um espaço de equipas, cooperação, debate aberto e livre, decisões democráticas. E deve dialogar com todos – das lutas dos jovens contra as propinas às das populações do Fundão, Castelo Branco ou Montalegre, dos funcionários públicos contra o SIADAP às associações por vidas justas e habitação para todos. Juntar a esta luta o mais de um milhão de imigrantes, que não votam, mas trabalham e sustentam a segurança social. Temos de organizar em cada bairro, escola, hospital e fábrica espaços comuns de democracia real. Não é isso a democracia? Não foi isso a revolução, que a direita odeia e quer enterrar, celebrando o 25 de Novembro numa parada militar, com um orçamento de 5% do PIB para a guerra, maternidades fechadas, enquanto as mães, na Ucrânia, na Rússia e em Gaza, visitam os filhos no cemitério?
A greve é um acto de parar para reparar. Reparar o corpo exausto. Mas também reparar (olhar, pensar). Parar esta marcha delirante que nos arrasta para o precipício.
O estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa.
O estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa.

Lev S. Vigotski, Evald Vasilievich Ilyenkov e Vasili V. Davidov afirmavam que o papel da escola era criar condições propícias para que as crianças aprendessem os conhecimentos teóricos. Essa ideia baseava-se em dois pressupostos. Primeiro, que os conhecimentos empíricos – que constituíam o conteúdo principal do currículo da época – aprendem-se muito melhor fora da escola, pois são produzidos a partir do contacto direto com a realidade. Segundo, que o conhecimento teórico só pode ser aprendido na escola, por depender de uma forma de organização da aprendizagem coletiva que conduz ao desenvolvimento psíquico e subjetivo.
Os conhecimentos empíricos se manifestam na forma de conceitos espontâneos e habilidades específicas (por exemplo, um aluno que decora a tabuada cantando uma música ou que aprende a usar a vírgula copiando o padrão dos textos que lê, sem entender a regra gramatical). Já os conhecimentos teóricos se expressam por meio de conceitos científicos e modos generalizados de ação (habilidades gerais). Os primeiros conhecimentos resultam de abstrações formais, obtidas a partir de aspectos secundários dos objetos e fenômenos em estudo (exemplo: um estudante que resolve a equação de 2º grau apenas aplicando a fórmula de Bhaskara de maneira mecânica, sem compreender a relação da equação com uma parábola ou o significado de seus coeficientes). Os segundos são abstrações substantivas, que resultam da análise dos aspectos essenciais desses mesmos objetos e fenômenos (exemplo: o mesmo estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa).
A natureza de cada tipo de conhecimento é definida pelos métodos de apreensão da realidade e de aprendizagem coletiva que se adotam. Os conhecimentos empíricos apoiam-se no método indutivo (do particular para o geral, do concreto para o abstrato). Os conhecimentos teóricos sustentam-se no método dedutivo ou na ascensão do abstrato ao concreto (do geral para o particular). Na escola, o método adotado para o primeiro costuma ser o expositivo ou explicativo-ilustrativo. Para o segundo, são os métodos de quase-pesquisa e de diálogo de estudo.
Por esse motivo, é um engano perigoso acreditar que dominamos os conhecimentos teóricos quando somos capazes de repetir suas definições com precisão. Podemos recitar as leis de Newton, descrever o conceito de “mais-valia” ou explicar a teoria da relatividade com um vocabulário impecável e, ainda assim, não termos verdadeiramente compreendido a essência do que essas palavras representam.
Os conhecimentos teóricos genuínos constituem uma estrutura mental, uma rede de relações, implicações, contextos e aplicações que construímos internamente, integrada fundamentalmente por dois componentes: os conceitos científicos e os modos generalizados de ação.
Pense em aprender a andar de bicicleta. Você pode ler todos os manuais do mundo, decorar o princípio físico do equilíbrio, a função do guiador e a dinâmica das rodas. Pode verbalizar perfeitamente como se faz. Mas só saberá de verdade quando subir na bicicleta e, após tropeços e ajustes, seu corpo e sua mente internalizarem aquele “ponto de equilíbrio”. A teoria se tornou conhecimento na prática; tornou-se uma “sensação” assimilada. O mesmo ocorre com qualquer teoria complexa.
O conhecimento teórico real se manifesta quando:
Quando nos limitamos à verbalização vazia, caímos no que o educador Paulo Freire chamava de “educação bancária”, na qual o estudante é um mero depositário de frases e fórmulas. Ele pode “devolver” o conteúdo na prova, mas esse conteúdo não o transformou, não ampliou sua visão de mundo.
O verdadeiro conhecimento não habita nas páginas dos livros ou na fluência do discurso. Ele habita na mente que é capaz de manipular, criar, criticar e conectar ideias. A verbalização é a ferramenta poderosa para compartilhar esse conhecimento, mas não é o conhecimento em si. É a ponta visível de um vasto icebergue de compreensão que se esconde sob a superfície do mero falar.
Uma operação mortal a serviço de uma política de repressão e de destruição dos serviços públicos.
Uma operação mortal a serviço de uma política de repressão e de destruição dos serviços públicos.

Um verdadeiro massacre foi perpetrado em duas favelas na zona norte do Rio de Janeiro em 29 de outubro, por ordem do governador bolsonarista Cláudio Castro, do PL. A operação mobilizou 2500 soldados e policiais nas favelas do Alemão e da Penha. Custou a vida de quase 150 moradores e 4 policiais.
O "combate ao narcotráfico" invocado é apenas um pretexto para esta demonstração de força militar. Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas e pertencem à classe capitalista. Por exemplo, uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro (as fintechs) com sedes na luxuosa Avenida Faria Lima.
No Rio, cerca de 22,16% (aproximadamente 1,5 milhão) da classe trabalhadora vive nas favelas, em condições precárias, até mesmo miseráveis. Os programas sociais implementados pelo governo Lula aliviaram a fome de alguns milhões de brasileiros, no entanto, não erradicaram a pobreza.
Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas (…) uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro.
Essa ação criminosa de um governador do Partido Liberal, partido de Bolsonaro, ecoa a política de Trump de rotular traficantes de drogas como "narcoterroristas", portanto "em guerra" com o Estado (e, em consequência, com os Estados Unidos). Não é coincidência que o governador Cláudio Castro tenha viajado aos Estados Unidos há dois meses para discutir essa questão com o governo Trump.
Um projeto de lei para classificar esses grupos como "narcoterroristas" está sendo debatido no Congresso Nacional. O senador Flávio Bolsonaro declarou recentemente que os militares americanos deveriam bombardear barcos de contrabandistas na baía de Guanabara como estão fazendo no Mar do Caribe em ameaça à soberania venezuelana.
Essas operações policiais, como as de ontem, paralisam os serviços públicos nas áreas afetadas, interrompendo seu funcionamento, o que diz muito sobre o desprezo da classe dominante pela população das favelas.
O projeto de reforma administrativa atualmente em tramitação no Congresso Nacional, por pressão da política de "ajuste orçamentário" (Arcabouço Fiscal) do governo Lula para o pagamento de uma dívida pública ilegitima, visa destruir esses serviços públicos e abrir caminho para suas privatizações. Esse Congresso, inimigo do povo, que tentou emplacar a PEC da bandidagem, rejeitada pela ampla maioria da população, não tem qualquer legitimidade democrática para destruir uma conquista histórica da população.
Por ora, as lideranças dos sindicatos do setor público protestam timidamente sem exigir a retirada do projeto e sem colocar em preparação uma paralisação geral nacional do funcionalismo. Vale lembrar que fortalecimento dos serviços públicos nas favelas atenderia às necessidades básicas e criaria empregos para jovens, muitos dos quais atualmente sem outra perspectiva senão serem contratados por traficantes de drogas.
Após a intervenção policial, o governo Lula propôs a aprovação imediata da PEC da Segurança, que integra as forças de segurança de todas as esferas governamentais sob controle do governo central, reforçando seu poder bélico. Isso não impedirá novos massacres.
As organizações de trabalhadores devem condenar os massacres policiais e exigir a apuração dos fatos, o fim do governo Castro imediatamente e a dissolução da Polícia Militar, instituição herdada da ditadura. Elas devem lançar uma campanha para proteger os jovens nas favelas por meio da criação de serviços públicos e de erradicação da miséria. Dinheiro para isso existe, desde que o governo cesse suas isenções fiscais para grandes corporações e bancos, tribute os ricos e pare de pagar uma enorme dívida pública ilegítima. As organizações de trabalhadores e jovens devem também convocar uma luta unida dos servidores públicos e da população pela retirada do projeto de "reforma administrativa" que destruirá os serviços públicos agravando a miséria das populações pobres.
De maneira mais geral, devemos lutar para derrotar Trump e suas políticas belicistas para a Venezuela e a América Latina sob o falso pretexto de "combater o narcotráfico".
Diz-se por aí que entregar a CP aos privados é a solução para todos os males. Que com a concessão virão comboios sem atrasos, trabalhadores sem greves e passageiros sem problemas.
Diz-se por aí que entregar a CP aos privados é a solução para todos os males. Que com a concessão virão comboios sem atrasos, trabalhadores sem greves e passageiros sem problemas.

A promessa é tentadora, mas falsa. Quem conhece a ferrovia sabe que nenhum serviço público melhora quando se troca o interesse das pessoas pelas contas de resultados. A concessão não elimina conflitos, elimina direitos. Nos países onde o caminho-de-ferro foi privatizado, como o Reino Unido, as greves não desapareceram. Multiplicaram-se. Quando o lucro se impõe à dignidade, os trabalhadores são empurrados para o silêncio ou para a rutura. E quando não há voz dentro das empresas, a primeira vítima é a segurança. Fala-se muito de eficiência e pouco de responsabilidade. Veja-se o exemplo do Elevador da Glória, em Lisboa: entregue a privados, com manutenção subcontratada, acabou por falhar com gravidade. Feridos. Pânico. Um aviso claro: quando se corta na manutenção, o preço não é económico, é humano. Na CP, uma avaria não para um carril. Pode custar vidas. Quem trabalha na ferrovia não quer fazer greve. Quer trabalhar com dignidade. Os técnicos de manutenção que passam noites a garantir tudo o que diz respeito à segurança — travões, sistemas elétricos, sinalização —, os maquinistas que atravessam o país de madrugada, os revisores que asseguram cada partida, todos sabem que um comboio não é um negócio. É uma responsabilidade nacional. Leva estudantes, idosos, trabalhadores, famílias inteiras. Não se gere à boleia do lucro, gere-se com compromisso público. Portugal não precisa de menos ferrovia, precisa de mais. Mais linhas, mais ligações ao interior, mais mobilidade para fixar pessoas fora dos grandes centros. Sem investimento público no caminho-de-ferro, falar em descentralização é apenas retórica. Um país coeso viaja sobre carris, não sobre promessas privadas. Privatizar a operação ou a manutenção da CP é colocar um intermediário entre o cidadão e o Estado, um intermediário que só fica onde há dinheiro. Linhas do interior? Populações isoladas? Tarifas sociais? Não cabem nos relatórios de acionistas. O caminho-de-ferro português não nasceu para dar lucro. Nasceu para ligar pessoas. E quem o serve todos os dias não pede privilégios, pede apenas condições para garantir que todos chegam bem ao destino.









Viajo em contramão Reverto sempre o sentido Apanho tudo pela frente Sigo em contracorrente Os olhares que me reprovam Servem-me de alimento Deixei de deixar que me digam Qual o caminho certo Se os outros na sua viagem Seguem a medo, pela margem Quando a vida é um rio
Viajo em contramão
Reverto sempre o sentido
Apanho tudo pela frente
Sigo em contracorrente
Os olhares que me reprovam
Servem-me de alimento
Deixei de deixar que me digam
Qual o caminho certo
Se os outros na sua viagem
Seguem a medo, pela margem
Quando a vida é um rio
Que flui até ao mar
Quero deixar-me ficar
A contemplar os olhares
Daqueles também perdidos
Cheios de nada, vendidos
Fitam um novo horizonte
Que viram na televisão
Não me guio pela ilusão
De julgar os que me julgam
Seguir sem esforço, levado
Pela corrente, guiado
Aprecio o desconforto
De seguir em contramão
Aires Fumega

(Objectiva, setembro de 2025) Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e

Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência
O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência e recém agregado, trabalhando num terreno acidentado, coberto de mato e (ainda) livre de cercas. As ovelhas ficam alucinadas e difíceis de apascentar como se fossem um ror de gatos largados pelos montes!
Assim que, ao raiar do dia, abrimos o redil, as ovelhas saíram à disparada, todas correndo em direções opostas! E passaram o dia inteiro nisto: a cada árvore (azinheira ou sobreiro) alcançada, com a sofreguidão da cobiça (chegando a atropelar as próprias crias ainda pequenas, aparentemente sem se importarem), procuram por bolotas, ingerindo pouquíssimas das que encontram esparsas, pois guia-as a fé de que sob a próxima árvore é que estará depositado o sonhado tesouro. A cena repete-se vezes sem conta até ao ocaso.
Na hora dos exasperados arrebanhadores as trazerem de volta para o aprisco, estão exaustas, tendo consumido mais energia no afã de perseguir a sorte grande das bolotas, do que as que comeram, deixando a maioria intocada no chão.
Não sei quanto a vocês, mas isto parece-me uma boa metáfora para a nossa sociedade capitalista. A grande diferença é que não demora a cair uma tal abundância de bolotas que todas as ovelhas ficam satisfeitas, restaurando-se a paz pastoril. Ainda assim, é mais fácil encontrarmos pastores estelionatários nas igrejas, do que pastores filósofos nos campos.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Passaram esta semana cinquenta anos do golpe de 25 de Novembro de 1975, marco importante na história da revolução e da contra-revolução em Portugal.
O governo e a assembleia de maioria de direita e neofascista decidiu marcar o evento com uma parada militar e uma cerimónia na Assembleia da República “idêntica” à do 25 de Abril (mas com rosas brancas em vez de cravos vermelhos).
O deputado do PS Marcos Perestrello declarou do púlpito que, em 25 de Novembro de 1975, “os mencheviques venceram os bolcheviques”.
Evocava Perestrello um certo diálogo entre Mário Soares e o todo-poderoso ministro americano Kissinger no verão de 1975. Nesse diálogo, Kissinger “acusou” Soares de ser o Kerensky português, isto é, o homem (aliás não menchevique, mas do partido dos “socialistas revolucionários”), que chefiou o governo provisório russo que a revolução dos operários, camponeses e soldados, encabeçada pelos bolcheviques, derrubou em Outubro de 1917. Soares respondeu a Kissinger que não fazia tenções de ser o Kerensky português. E Kissinger respondeu a Soares que também Kerensky não fazia tenções de ser o Kerensky russo.
Nem Perestrello saberá como a sua escolha não foi casual. Ele comparou uma grande revolução operária e socialista com outra grande revolução operária e socialista. Uma vitoriosa, pelo menos inicialmente; a outra, derrotada, pelo menos para já.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
“Para já” é a parte importante.
A frase de Perestrello tem uma parte de verdade; tem, também, uma boa parte de mentira.
Ganharam os mencheviques em 1975? Ganharam — mas os mencheviques nunca “ganham” realmente; quando vencem, apenas abrem caminho aos Montenegros e aos Venturas.
Porém, os mencheviques não venceram os bolcheviques. Poucos bolcheviques havia; quando muito, em algumas organizações revolucionárias, que não ganharam a maioria no movimento operário.
A verdade é outra. Os “mencheviques de direita” de Mário Soares, coligados com a chefia do que restava do “exército do czar” (o Grupo dos Nove e a grande maioria da hierarquia militar) e com os embaixadores das grandes potências, sobretudo EUA e Alemanha (com os golpistas de “Kornilov” na sombra), venceram — porque tinham do seu lado os “mencheviques de esquerda”, chefiados por Álvaro Cunhal.
A direcção do PCP nunca fez tenções de pôr em causa a ordem do pós-guerra, a divisão de “esferas de influência” feita em Ialta e Potsdam entre Stalin e os potentados capitalistas vencedores da IIª Guerra — e reiterada em Helsínquia — que punha Portugal firmemente na esfera da NATO. Boa parte da base do PCP (e, de resto, do PS) tinha outras ideias.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
Os actores principais ainda vivos do golpe de Novembro, Eanes e Vasco Lourenço, repetem à saciedade: o golpe só visava repor a ordem nas forças armadas. Esta “ordem” estava em grave risco ante a auto-organização dos soldados, que convergia com a organização dos trabalhadores nas fábricas e nos bancos, nos campos do Alentejo e do Ribatejo, dos estudantes e professores nas escolas, dos enfermeiros, médicos e outro pessoal nos hospitais, dos moradores nos bairros. Formava-se o embrião de um novo poder.
Esmagado o Estado fascista de Salazar e Caetano pelo movimento popular e operário nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, o golpe de Novembro visou, assim, salvar o novo Estado do capital, que se reerguia a muito custo.
Tudo convergia num ponto: a hierarquia militar tinha de recuperar poder pleno sobre as armas. Sem isso, a salvação do capital ficava, literalmente, sem armas.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Tal foi o 25 de Novembro de 1975, pouco importando a polémica sobre a “saída dos páras” e o alegado “golpe de esquerda”. Como declarou em notável entrevista à TSF, em 2024, o falecido Carlos Matos Gomes, militar de Abril e homem arguto e bem informado, essa é “a chamada justificação para os pobres de espírito e crentes”.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras.
Aí está o pacote laboral, para começar.
A distopia pode ser uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. Porém, pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica de tudo aquilo que não queremos viver.
Apesar de sabermos que qualquer universo distópico se traduz num cenário imaginado de uma região, país ou sociedade, sabemos igualmente que ele representa o caos, a injustiça, a desigualdade, a opressão, o sofrimento, a tirania ou o totalitarismo. Nesse ambiente indesejável prevalecem o desamparo, a amargura, a angústia, o desespero, o autoritarismo, ou seja, é um sistema que restringe a liberdade, a autonomia e anula a subjetividade. A distopia pode funcionar como uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. As pessoas sentir-se-iam isoladas e sem capacidade para resistir, sem força para se opor. A distopia caracteriza-se, ainda, por possuir múltiplas formas de poder, dominação e controlo, as quais se manifestam, por vezes, de formas visíveis, outras vezes, por meios subtis. Em resumo, um universo distópico idealiza um mundo profundamente desigual, maléfico, doente, alienado e castrador. Porém, uma conjuntura distópica pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica para tudo aquilo que não queremos vivenciar ou experienciar.
Por oposição, a utopia representa o inverso, isto é, traduz-se naquilo que seria uma sociedade ideal, perfeita, harmoniosa, justa e desejável. É um lugar em que predomina o bem-estar, a igualdade, a ausência de pobreza ou de miséria social, e materializa-se num sistema de governo benevolente (ou até mesmo na ausência dele, embora mantendo o funcionamento da sociedade de forma organizada, equitativa e pacífica). As sociedades utópicas caracterizam-se por promover: 1) a cooperação e o coletivismo (entre todos os membros da sociedade); 2) a elevação de valores éticos e morais (em que o respeito, o bem-estar social e a liberdade de expressão são, efetivamente, valorizados); 3) a educação, a ciência, as técnicas e a tecnologia (as quais são totalmente direcionadas para o bem-comum, isto é, são unicamente utilizadas para benefício de toda a humanidade e representam um património que intrinsecamente lhe pertence, fruto do conhecimento passado de geração em geração); 4) a harmonia social e ambiental (é obrigatório manter uma relação equilibrada do Homem com a natureza). Resumidamente, uma sociedade utópica é uma sociedade progressista, emancipatória e humanista. O termo original foi criado por Thomas More, no seu livro Utopia (1516), cujo significado é, literalmente, "lugar nenhum" (originário do grego ou = não, e topos = lugar), que nos remete para um ideal inalcançável. Metaforicamente, é como se caminhássemos para tentar alcançar o lugar mais distante na linha do horizonte (mas, simultaneamente, quando mais caminhamos, novos lugares vão surgindo no nosso campo de visão).
Na realidade, os dois conceitos, distopia e utopia, tal como já referido, remetem-nos para sociedades imaginárias. Porém, atualmente, estamos submersos em sociedades que parecem mais próximas de poderem ser consideradas distópicas do que utópicas. Um elemento-chave que ajuda a compreender este fenómeno é o facto de vivermos em sociedades-do-lucro-omnipresente-e-omnipotente. Nesta conjuntura, o Homem deixou de ser um fim em si mesmo (Kant teria rejeitado essa visão utilitarista e instrumental do ser humano) e esse lugar passou a ser ocupado pelo “deus lucro”. Porém, isso representa uma extraordinária (e inaceitável) inversão de valores sociais e morais.
Os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza.
É verdade que os problemas sociais, económicos, políticos e ambientais do mundo hodierno são complexos e estão profundamente interligados. Não raras vezes, estes tópicos são exacerbados pelo processo de globalização, incluindo todas as suas contradições. Um dos paradoxos mais evidentes na atualidade é pautado pela relação (desestruturante) entre capital e trabalho, embora vá muito além dela. A título ilustrativo, enumeramos alguns exemplos de problemas marcantes vividos no mundo contemporâneo, nomeadamente ao nível das desigualdades económicas e sociais: os dados atuais demonstram que os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza. As três maiores fortunas do mundo possuem um montante superior ao PIB de quase 60 países mais pobres. Isto significa que vivemos num mundo em que reina a injustiça social e se reproduz uma atroz assimetria na distribuição dos recursos produzidos, por via do trabalho, através da classe trabalhadora. Paralelamente, as últimas estimativas revelam que mais de 200 milhões de trabalhadores vivem na condição de pobreza extrema, ganhando o equivalente a, aproximadamente, 2 euros por dia. Sublinho que estamos a falar de trabalhadores, ou seja, alguém que trabalha, mas, ainda assim, não consegue sair da pobreza extrema. Apresento, como exemplo, um episódio real relatado por Vincent Gaulejac, na obra La société malade de la gestion, o qual indica que um empresário de uma multinacional recebeu 16,2 milhões de euros por ter tomado a decisão de encerrar 38 lojas dessa empresa e, consequentemente, enviado para o desemprego centenas de trabalhadores. Este montante, auferido devido a um único ato de gestão, representa o equivalente a mil anos de salário médio dos trabalhadores que foram demitidos. Surpreendentemente, o mesmo empresário, referiu que não se sentia bem pago para exercer aquela “tão dura profissão”. Vale a pena interrogarmo-nos: qual o valor que atribuímos ao trabalho para sustentar uma tão grande discrepância de rendimentos? Como podemos explicar e justificar esta insanidade, sem a apelidar como algo profundamente distópico?
Segundo os dados de um relatório recente da OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho. Também dados recentes indicam que o desemprego global se cifra em cerca de 210 milhões de trabalhadores desempregados. Isto representa uma verdadeira hecatombe social, política e económica. É igualmente pertinente referir que, ao nível global, as disparidades no acesso à educação, aos serviços de saúde, à habitação, à quantidade e qualidade da alimentação (fome e/ou má nutrição) e a empregos decentes são gritantes e evidentes. Por vezes, muitos destes aspetos têm como pano de fundo as diferentes formas de violência, cujo expoente máximo está normalmente associado aos conflitos armados, ou ainda a situações oriundas de crises ambientais e alterações climáticas.
Em relação a este último ponto, vale a pena ler o relatório da Oxfam International, publicado em outubro de 2025, cujo título é expressivo: “Saque Climático: como poucos poderosos estão a levar o planeta ao colapso.” Neste documento, é afirmado que o grupo dos 0,1% mais ricos do planeta polui, em apenas um dia, mais do que uma pessoa dos 50% mais pobres durante um ano inteiro. É também defendido que a crise climática é uma crise de desigualdade. Estes são alguns traços que nos levam a sugerir que o mundo atual está mais próximo da distopia do que da utopia.
Segundo a OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho.
Agora, imaginem que num futuro próximo seria criado um parlamento global. Esse órgão político transnacional estava a discutir uma legislação que iria proibir todas as formas de exploração entre seres humanos. Anteriormente, já tinham sido dados passos significativos nesta direção, considerando que há uns anos os lucros das empresas (que maioritariamente iam para os bolsos dos acionistas ou proprietários) não poderiam agora ultrapassar a margem de 5% do lucro total. Uma parte dos restantes 95% dos lucros era distribuída, equitativamente, por todos os trabalhadores da empresa e, a outra parte, era alocada para o Estado Providência do respetivo país. Naturalmente que neste novo modelo não existia a possibilidade de rutura ou de falência da segurança social. O desemprego era igualmente proibido, visto que o trabalho que cada um executa representa aquilo que cada trabalhador pode oferecer ao bem comum. Ninguém é tido como “inútil”, porque a existência e a dignidade não estão associadas à capacidade de produzir. Uma sociedade de pleno emprego, deste ponto de vista, traduz-se no limite máximo da qualidade de vida dessa mesma sociedade. Porque a divisão social do trabalho é justa e equitativa. Claro que haveria pessoas que não trabalhavam (no sentido estrito do termo), não porque não quisessem, mas porque, efetivamente, não podiam! Imaginem também que o mesmo parlamento global fazia a promoção plena da paz mundial e proibia todo e qualquer tipo de guerra armada. A fome, a pobreza e a exclusão social eram igualmente proibidas.
Estes tópicos direcionam-nos para aquilo que hoje designaríamos como uma sociedade utópica. A eliminação das desigualdades tinha sido possível porque as populações tinham compreendido, verdadeiramente, o que tinha estado na base da sua génese (para isso evocamos as sábias palavras de Jean-Jaques Rousseau sobre a origem das desigualdades humanas): “O primeiro [Homem] que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer “Isto é meu”, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado o género humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!”
Para terminar, peço-lhe que recorra uma última vez à imaginação e faça a seguinte experiência mental: pense que está no cenário idealizado por John Rawls, desiganado por “véu da ignorância”, ou seja, não sabe antecipadamente qual será a posição social que lhe irá caber, quais serão as suas capacidades e aptidões naturais, qual será a sua identidade (em termos de género, etnia ou orientação sexual), nem quais serão as suas crenças religiosas, filosóficas ou até as metas de vida. Perante este contexto idealizado e ignorando totalmente as características em que seria colocado no mundo, caso tivesse de fazer uma escolha, escolheria viver numa sociedade distópica ou utópica?
O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?
O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?
Na semana passada, o governo direitista de Portugal, pressionado pelo partido de extrema-direita fascista Chega, conseguiu pôr termo à possibilidade de imigrantes dos países dependentes virem trabalhar para Portugal. Até agora, era possível a muitos estrangeiros entrarem com um visto de turista e depois “manifestarem interesse” em trabalhar, acabando por obter autorização de residência. Agora, os imigrantes potenciais passam a ter de candidatar-se, nos seus países de origem, a vistos para trabalhar. Mas vejam só: a regra não é aplicável a candidatos a empregos “altamente qualificados”. Profissionais estrangeiros com “qualificações avançadas” continuam a poder entrar em Portugal para procurar emprego e trabalho desde que sejam contratados antes de o visto expirar. Analogamente, os trabalhadores “remotos” continuam a ser elegíveis para viver e trabalhar em Portugal.
As novas leis são notoriamente discriminatórias contra os imigrantes pobres dos países dependentes do Sul. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso? As estatísticas da Comissão Europeia indicam que a mão de obra migrante não enfraqueceu a economia portuguesa; fortaleceu-a! “800 mil imigrantes contribuem com mais de mil milhões de euros para o sistema de segurança social, ao passo que só recebem aproximadamente 257 milhões de euros em benefícios sociais, deixando um saldo positivo de mil e seiscentos milhões de euros”.
Há várias décadas que magotes de jovens deixam Portugal em busca de melhores oportunidades económicas noutros países da UE. Nos últimos anos, indianos, nepaleses e bengalis colmataram a lacuna deixada na força de trabalho portuguesa. Vêm trabalhar para explorações de frutos vermelhos no Alentejo agrícola. “Nós deixámos o nosso país. Jovens portugueses têm deixado o seu. Há quem não goste que nós cá estejamos, mas somos nós que estamos a revitalizar esta região e a fazer entrar cá muito dinheiro”, diz um trabalhador nepalês sob anonimato. “A razão principal por que Portugal tem visto aumentar o número de imigrantes é porque precisa deles”, diz Luís Pinheiro, ex-diretor da Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA). O sector agrícola português continua em expansão rápida, particularmente devido à procura cada vez maior de frutos silvestres, que depende principalmente de trabalhadores da Ásia Meridional. Em 2023, as receitas de exportação de bagas atingiram quase 300 milhões de euros, sendo a maioria enviada para supermercados alemães e britânicos. “Portugal tem uma grande procura de mão de obra em certas áreas de atividade económica, e estes migrantes continuam a chegar porque há procura de mão de obra”. Longe de ser abuso, a imigração tem sido um trunfo essencial para a economia portuguesa, particularmente em sectores-chave da agricultura e da indústria do lazer, assente em salários baixos, que correspondem a empregos que os cidadãos portugueses resistem a procurar, por os salários serem muito baixos. O atual salário mínimo é de apenas 820 euros por mês, que mal deixa a quem trabalha o suficiente para sobreviver. Depois de custear o alojamento, as dívidas e o envio de dinheiro para a família, muitos trabalhadores imigrantes ficam com apenas 100-150 euros por mês. Muitas destas aldeias e vilas ficam longe das cidades, no Alentejo, o que torna mais difícil documentar violações de direitos humanos e laborais. Muitos suportam condições extraordinariamente difíceis. “É uma espécie de militarização do trabalho. Tens de obedecer a tudo, mesmo que seja a coisa mais estúpida que se possa imaginar. Se trabalhas 12 horas, devias receber pagamento de horas extraordinárias; mas eles pagam apenas 6,50 euros e ainda queriam mais horas. Isso era para os trabalhadores permanentes. Imagina agora para os temporários”, diz o ativista laboral do Alentejo Alberto Matos.
Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia.
Shollomian, de Sylhet, no Bangladeche, que veio para Portugal com um visto de turista, trabalha numa quinta de frutos vermelhos em São Teotónio. Diz que trabalha entre 8 e 12 horas por dia, começando às 5-6 h da manhã. Foi-lhe dito que receberia uma autorização de residência no prazo de 12 a 14 meses, mas, 24 meses passados, continua à espera. Apesar disso, envia 100 a 400 euros à família sempre que pode e está otimista. “Vim para Portugal há dois anos quando vi anúncios de trabalho em Portugal nas redes sociais. Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia, em condições difíceis. Ganho 50 euros por dia. Temos de colher oito quilos por cada quatro horas. É dificílimo, na quinta faz muito calor, não nos dão água, às vezes sangro do nariz. Não nos dão comida, temos de trazer a nossa. Envio por mês 230-450 euros para a família, no Nepal. Ao fim de dois anos, continuo sem autorização de residência.”
“Há, atualmente, pelo menos, 400 mil pessoas, na sua maioria migrantes indianos e nepaleses, que aguardam renovação das suas autorizações de residência. Encontram-se numa situação muito vulnerável, porque os empregadores aproveitam-se. Não podem perder o emprego, por isso têm de aceitar todas as exigências dos empregadores”, afirma a Dra. Alexandra Pereira, bolseira de pós-doutoramento na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, especializada em migração nepalesa, particularmente para Portugal e a Europa.
A situação dos sul-asiáticos é perigosa, pois estão mais à mercê dos traficantes e das máfias que os trazem para Portugal e da exploração dos empregadores. No Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, há muitas agências que continuam a burlar e a lucrar à grande com os recém-chegados e migrantes com documentação insuficiente, convencendo-os a comprar serviços de que não precisam e fazendo-lhes crer que ainda é possível legalizarem a sua situação.
Ao fechar a porta à legalização, o Governo abriu o mercado negro de mão de obra humana. Muitos trabalhadores chegam profundamente endividados, depois de pagarem quantias exorbitantes para virem a Portugal com vistos de turista, de trabalho ou vistos UE expirados. Alberto Matos diz que os migrantes lhe contam que “bem, eu paguei 15 a 20 mil euros, na Índia, para vir trabalhar para Portugal. Eles endividam-se, têm de pagar as dívidas anos a fio, ficam escravos da dívida. As próprias famílias, no país de origem, são obrigadas a pagar a dívida e são ameaçadas pelas máfias locais”.
De acordo com a direção da Migração e Assuntos Internos da Comissão Europeia, “observou-se que a maioria das vítimas confirmadas de tráfico se enquadravam no tráfico de seres humanos para exploração laboral (72,8%); desses, 73,2% no sector agrícola”. As estatísticas são especificamente piores no Alentejo, onde se contaram 51,7% das vítimas confirmadas de tráfico de seres humanos em Portugal entre 2008 e 2021; dessas, 74,5% traficadas para fins de exploração laboral. “Devido à enorme extensão geográfica dos locais onde são colocados para trabalhar, geralmente no interior da região do Alentejo ou no Oeste do país, com condições de acesso difíceis, a deteção pelas autoridades responsáveis pela supervisão das condições de trabalho e permanência em Portugal é difícil.”
As grandes empresas frutícolas estão no âmago da situação. Como afirma Matos, “a Driscoll's controla Odemira inteira. Vendem as patentes e, pelo meio, há uma grande exploração. No fim da linha, dizem: ‘façam o favor de nos darem os frutos vermelhos, nós é que sabemos comercializá-los nos mercados internacionais.’ Costumamos dizer que a região de Odemira é uma espécie de barriga de aluguer da Driscoll’s.” Se há “abuso de hospitalidade”, como clama o primeiro-ministro Montenegro, quem abusa não são os imigrantes, são os empregadores.
Não tarda nada que gente como o Chega venha exigir a deportação de milhares de trabalhadores para os seus “países de origem”. Só que a situação económica e política no Bangladeche e no Nepal é horrenda. O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, embora o estilo de vida luxuoso das famílias políticas — roupas de marca, viagens ao estrangeiro e carros de luxo — contraste com a dura realidade que os jovens enfrentam. “Toda a gente se quer ir embora [do Nepal]. Há poucas oportunidades de emprego, crises políticas e económicas constantes; os jovens querem encontrar uma vida melhor, salários mais altos: as pessoas ganham 200 euros por mês.” Acrescem agora perigos reais. No mês passado, o governo do Nepal caiu e houve um golpe militar. A polícia matou 22 pessoas num protesto contra a corrupção.
A situação não é melhor no Bangladeche, país muitíssimo povoado. Há cerca de 37,7 milhões de pessoas em insegurança alimentar no país. Mais de um quarto das famílias endividam-se para suprir necessidades diárias, incluindo comida. Um inquérito do think tank South Asia Network on Economic Modeling mostrou que 28% das famílias recorrem a empréstimos para sobreviver. Quase duplicou o número médio de empréstimos por família. No ano passado, o exército e a polícia mataram mais de trezentas pessoas envolvidas em protestos contra o governo, até que a então primeira-ministra Hasina fugiu do país, levando milhares de milhões na bagagem.
Assim, as 400 mil pessoas que aguardam a renovação dos vistos não têm maneira de voltar para casa, ao contrário dos muitos portugueses que deixaram o seu país em busca de uma vida melhor e empregos melhores, mas podem regressar. Portugal precisa destes imigrantes, geralmente jovens e industriosos, e da sua mão-de-obra (e das suas receitas fiscais) para contribuir para sustentar quem vive no país. O que é necessário não são controlos de imigração rigorosos, enviesados contra os asiáticos pobres, nem deportações, que muito debilitariam a economia portuguesa. Necessário é que trabalhadores portugueses e imigrantes façam campanha juntos, com os sindicatos, para acabar com a exploração dos trabalhadores migrantes, aumentar o salário mínimo e melhorar as condições de trabalho para todos. Enquanto forem obrigados a trabalhar por salários baixos e em condições precárias, os trabalhadores imigrantes prejudicam a capacidade negocial de todos os trabalhadores em Portugal. É com este “abuso de hospitalidade” que temos de acabar, não aumentá-lo.
Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são: permitir a “uberização” de todos os trabalhadores; e normalizar a semana de trabalho de 50 horas.
Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são: permitir a “uberização” de todos os trabalhadores; e normalizar a semana de trabalho de 50 horas.

Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são permitir a “uberização” de todos os trabalhadores e normalizar a semana de trabalho de 50 horas. Politicamente, o eixo principal é uma grande restrição dos direitos de greve e organização sindical. No conjunto, abre-se portas ao despedimento de funcionários públicos e a usar as nossas reformas para especular na bolsa.
É este conjunto de medidas que levou a que se faça uma parada militar para celebrar o 25 de Novembro, tentando apagar o período revolucionário de 1974-75, com a mudança de regime em Portugal e o fim da guerra colonial. E o fim do momento mais democrático da nossa história, quando, nos locais de trabalho, se elegeram comissões democráticas com mandatos revogáveis se não cumprissem o decidido pelos trabalhadores.
Quase 70% dos portugueses que trabalham ganham menos de 890€ por mês líquidos. O que propõem o Governo, a IL, o Chega… e o PS, que aprovou o Orçamento de Estado?
Uberizar, como tarefeiros, motoristas de carga, médicos ou enfermeiros, professores; legalizar, nas cantinas, empresas de segurança; falências fraudulentas; permitir, na TAP, abrir uma rota nova com trabalhadores externos; com o banco de horas, deixar de pagar até 15% do salário de todos os trabalhadores; o horário de trabalho oficial passar para 50 horas. E precariedade para sempre, impedindo ter um lar, uma família, segurança, uma casa para viver e receber os amigos. Permitir o despedimento sem justa causa. Nada disto foi sequer sufragado na campanha eleitoral, onde Montenegro e a sua AD esconderam dos eleitores as suas intenções.
Não era preciso uma greve geral, diz o líder do Chega, financiado pela Paulo Duarte, Barraqueiro, bancos, grandes empresas de agricultura intensiva. Há que flexibilizar e despedir na função pública, diz a IL – na apresentação da sua candidatura esteve a CEO da empresa Hospital da Luz, de propriedade chinesa. A ministra do Trabalho de Montenegro, Palma Ramalho, tem um património declarado de mais de 5 milhões de euros e, pasme-se, por coincidência é mulher de António Ramalho, que acabou de receber 7 milhões de euros pela venda do falido Banco Espírito Santo a um fundo financeiro abutre do Texas.
Se amanhã Ramalho adquirir 10 imóveis para especulação com 7 milhões, esse património é seu ou nosso? Como podemos tolerar que quem trabalha não tenha o direito inviolável à sua própria casa?
Mais de um milhão de pessoas faz turnos noturnos em Portugal, que implicam, como mostram estudos, um aumento da taxa de cancro e outras doenças da ordem dos 35% em média, só pela quebra dos ciclos de sono. Mais de 50% dos portugueses trabalha até 70 horas semanais, sem contar a deslocação para o trabalho.
Um casal, para viver com o mínimo de dignidade teria, segundo estudos sérios, de receber pelo menos 2500 euros por mês. Mesmo assim, só falamos de pagar o essencial. Como vivem os mais de 70% dos trabalhadores portugueses que recebem 800 euros? Hoje há mais de um milhão de trabalhadores sem direitos em Portugal. Se questionarem as condições de escravatura em que trabalham, podem ser expulsos, pois são imigrantes, criminalizados pela AD-Chega.
Uma greve não se decreta, organiza-se. Está em causa mais do que o pacote laboral, que já por si afeta mais de 8 milhões de trabalhadores e suas famílias. Se o Governo vencer e se mantiver em funções depois da greve e avançar com o pacote laboral, a sua classe social e o seu Estado já anunciaram o seu programa. Avançar com despedimentos na função pública (IL) e fazer as reformas e pensões entrarem na bolsa (AD, Chega e IL).
Não foi isso a revolução, que a direita odeia e quer enterrar, celebrando o 25 de Novembro numa parada militar, com um orçamento de 5% do PIB para a guerra, maternidades fechadas — enquanto as mães, na Ucrânia, na Rússia e em Gaza, visitam os filhos no cemitério?
Esta greve geral pode ser um extraordinário momento de transformação e esperança para a maioria dos portugueses. A chave do seu sucesso está na própria capacidade dos seus líderes de abrirem espaço também a novos dirigentes, em vez de se eternizarem no poder nos sindicatos ou se deixarem anestesiar na concertação social. Com plenários em cada sector, reuniões onde todos possam falar (e sejam protegidos para isso, fazendo-o às escondidas se necessário), piquetes à porta das fábricas e empresas onde se converse, ouvindo todos e se decida que outras formas de luta se devem organizar, deixando a imaginação, dedicação e ousadia dos trabalhadores em coletivo pensar em como vencer — e que tipo de sociedade querem construir.
O movimento social como um todo. É isso uma greve. Ela deve ser um espaço de equipas, cooperação, debate aberto e livre, decisões democráticas. E deve dialogar com todos – das lutas dos jovens contra as propinas às das populações do Fundão, Castelo Branco ou Montalegre, dos funcionários públicos contra o SIADAP às associações por vidas justas e habitação para todos. Juntar a esta luta o mais de um milhão de imigrantes, que não votam, mas trabalham e sustentam a segurança social. Temos de organizar em cada bairro, escola, hospital e fábrica espaços comuns de democracia real. Não é isso a democracia? Não foi isso a revolução, que a direita odeia e quer enterrar, celebrando o 25 de Novembro numa parada militar, com um orçamento de 5% do PIB para a guerra, maternidades fechadas, enquanto as mães, na Ucrânia, na Rússia e em Gaza, visitam os filhos no cemitério?
A greve é um acto de parar para reparar. Reparar o corpo exausto. Mas também reparar (olhar, pensar). Parar esta marcha delirante que nos arrasta para o precipício.
O estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa.
O estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa.

Lev S. Vigotski, Evald Vasilievich Ilyenkov e Vasili V. Davidov afirmavam que o papel da escola era criar condições propícias para que as crianças aprendessem os conhecimentos teóricos. Essa ideia baseava-se em dois pressupostos. Primeiro, que os conhecimentos empíricos – que constituíam o conteúdo principal do currículo da época – aprendem-se muito melhor fora da escola, pois são produzidos a partir do contacto direto com a realidade. Segundo, que o conhecimento teórico só pode ser aprendido na escola, por depender de uma forma de organização da aprendizagem coletiva que conduz ao desenvolvimento psíquico e subjetivo.
Os conhecimentos empíricos se manifestam na forma de conceitos espontâneos e habilidades específicas (por exemplo, um aluno que decora a tabuada cantando uma música ou que aprende a usar a vírgula copiando o padrão dos textos que lê, sem entender a regra gramatical). Já os conhecimentos teóricos se expressam por meio de conceitos científicos e modos generalizados de ação (habilidades gerais). Os primeiros conhecimentos resultam de abstrações formais, obtidas a partir de aspectos secundários dos objetos e fenômenos em estudo (exemplo: um estudante que resolve a equação de 2º grau apenas aplicando a fórmula de Bhaskara de maneira mecânica, sem compreender a relação da equação com uma parábola ou o significado de seus coeficientes). Os segundos são abstrações substantivas, que resultam da análise dos aspectos essenciais desses mesmos objetos e fenômenos (exemplo: o mesmo estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa).
A natureza de cada tipo de conhecimento é definida pelos métodos de apreensão da realidade e de aprendizagem coletiva que se adotam. Os conhecimentos empíricos apoiam-se no método indutivo (do particular para o geral, do concreto para o abstrato). Os conhecimentos teóricos sustentam-se no método dedutivo ou na ascensão do abstrato ao concreto (do geral para o particular). Na escola, o método adotado para o primeiro costuma ser o expositivo ou explicativo-ilustrativo. Para o segundo, são os métodos de quase-pesquisa e de diálogo de estudo.
Por esse motivo, é um engano perigoso acreditar que dominamos os conhecimentos teóricos quando somos capazes de repetir suas definições com precisão. Podemos recitar as leis de Newton, descrever o conceito de “mais-valia” ou explicar a teoria da relatividade com um vocabulário impecável e, ainda assim, não termos verdadeiramente compreendido a essência do que essas palavras representam.
Os conhecimentos teóricos genuínos constituem uma estrutura mental, uma rede de relações, implicações, contextos e aplicações que construímos internamente, integrada fundamentalmente por dois componentes: os conceitos científicos e os modos generalizados de ação.
Pense em aprender a andar de bicicleta. Você pode ler todos os manuais do mundo, decorar o princípio físico do equilíbrio, a função do guiador e a dinâmica das rodas. Pode verbalizar perfeitamente como se faz. Mas só saberá de verdade quando subir na bicicleta e, após tropeços e ajustes, seu corpo e sua mente internalizarem aquele “ponto de equilíbrio”. A teoria se tornou conhecimento na prática; tornou-se uma “sensação” assimilada. O mesmo ocorre com qualquer teoria complexa.
O conhecimento teórico real se manifesta quando:
Quando nos limitamos à verbalização vazia, caímos no que o educador Paulo Freire chamava de “educação bancária”, na qual o estudante é um mero depositário de frases e fórmulas. Ele pode “devolver” o conteúdo na prova, mas esse conteúdo não o transformou, não ampliou sua visão de mundo.
O verdadeiro conhecimento não habita nas páginas dos livros ou na fluência do discurso. Ele habita na mente que é capaz de manipular, criar, criticar e conectar ideias. A verbalização é a ferramenta poderosa para compartilhar esse conhecimento, mas não é o conhecimento em si. É a ponta visível de um vasto icebergue de compreensão que se esconde sob a superfície do mero falar.
Uma operação mortal a serviço de uma política de repressão e de destruição dos serviços públicos.
Uma operação mortal a serviço de uma política de repressão e de destruição dos serviços públicos.

Um verdadeiro massacre foi perpetrado em duas favelas na zona norte do Rio de Janeiro em 29 de outubro, por ordem do governador bolsonarista Cláudio Castro, do PL. A operação mobilizou 2500 soldados e policiais nas favelas do Alemão e da Penha. Custou a vida de quase 150 moradores e 4 policiais.
O "combate ao narcotráfico" invocado é apenas um pretexto para esta demonstração de força militar. Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas e pertencem à classe capitalista. Por exemplo, uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro (as fintechs) com sedes na luxuosa Avenida Faria Lima.
No Rio, cerca de 22,16% (aproximadamente 1,5 milhão) da classe trabalhadora vive nas favelas, em condições precárias, até mesmo miseráveis. Os programas sociais implementados pelo governo Lula aliviaram a fome de alguns milhões de brasileiros, no entanto, não erradicaram a pobreza.
Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas (…) uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro.
Essa ação criminosa de um governador do Partido Liberal, partido de Bolsonaro, ecoa a política de Trump de rotular traficantes de drogas como "narcoterroristas", portanto "em guerra" com o Estado (e, em consequência, com os Estados Unidos). Não é coincidência que o governador Cláudio Castro tenha viajado aos Estados Unidos há dois meses para discutir essa questão com o governo Trump.
Um projeto de lei para classificar esses grupos como "narcoterroristas" está sendo debatido no Congresso Nacional. O senador Flávio Bolsonaro declarou recentemente que os militares americanos deveriam bombardear barcos de contrabandistas na baía de Guanabara como estão fazendo no Mar do Caribe em ameaça à soberania venezuelana.
Essas operações policiais, como as de ontem, paralisam os serviços públicos nas áreas afetadas, interrompendo seu funcionamento, o que diz muito sobre o desprezo da classe dominante pela população das favelas.
O projeto de reforma administrativa atualmente em tramitação no Congresso Nacional, por pressão da política de "ajuste orçamentário" (Arcabouço Fiscal) do governo Lula para o pagamento de uma dívida pública ilegitima, visa destruir esses serviços públicos e abrir caminho para suas privatizações. Esse Congresso, inimigo do povo, que tentou emplacar a PEC da bandidagem, rejeitada pela ampla maioria da população, não tem qualquer legitimidade democrática para destruir uma conquista histórica da população.
Por ora, as lideranças dos sindicatos do setor público protestam timidamente sem exigir a retirada do projeto e sem colocar em preparação uma paralisação geral nacional do funcionalismo. Vale lembrar que fortalecimento dos serviços públicos nas favelas atenderia às necessidades básicas e criaria empregos para jovens, muitos dos quais atualmente sem outra perspectiva senão serem contratados por traficantes de drogas.
Após a intervenção policial, o governo Lula propôs a aprovação imediata da PEC da Segurança, que integra as forças de segurança de todas as esferas governamentais sob controle do governo central, reforçando seu poder bélico. Isso não impedirá novos massacres.
As organizações de trabalhadores devem condenar os massacres policiais e exigir a apuração dos fatos, o fim do governo Castro imediatamente e a dissolução da Polícia Militar, instituição herdada da ditadura. Elas devem lançar uma campanha para proteger os jovens nas favelas por meio da criação de serviços públicos e de erradicação da miséria. Dinheiro para isso existe, desde que o governo cesse suas isenções fiscais para grandes corporações e bancos, tribute os ricos e pare de pagar uma enorme dívida pública ilegítima. As organizações de trabalhadores e jovens devem também convocar uma luta unida dos servidores públicos e da população pela retirada do projeto de "reforma administrativa" que destruirá os serviços públicos agravando a miséria das populações pobres.
De maneira mais geral, devemos lutar para derrotar Trump e suas políticas belicistas para a Venezuela e a América Latina sob o falso pretexto de "combater o narcotráfico".
Diz-se por aí que entregar a CP aos privados é a solução para todos os males. Que com a concessão virão comboios sem atrasos, trabalhadores sem greves e passageiros sem problemas.
Diz-se por aí que entregar a CP aos privados é a solução para todos os males. Que com a concessão virão comboios sem atrasos, trabalhadores sem greves e passageiros sem problemas.

A promessa é tentadora, mas falsa. Quem conhece a ferrovia sabe que nenhum serviço público melhora quando se troca o interesse das pessoas pelas contas de resultados. A concessão não elimina conflitos, elimina direitos. Nos países onde o caminho-de-ferro foi privatizado, como o Reino Unido, as greves não desapareceram. Multiplicaram-se. Quando o lucro se impõe à dignidade, os trabalhadores são empurrados para o silêncio ou para a rutura. E quando não há voz dentro das empresas, a primeira vítima é a segurança. Fala-se muito de eficiência e pouco de responsabilidade. Veja-se o exemplo do Elevador da Glória, em Lisboa: entregue a privados, com manutenção subcontratada, acabou por falhar com gravidade. Feridos. Pânico. Um aviso claro: quando se corta na manutenção, o preço não é económico, é humano. Na CP, uma avaria não para um carril. Pode custar vidas. Quem trabalha na ferrovia não quer fazer greve. Quer trabalhar com dignidade. Os técnicos de manutenção que passam noites a garantir tudo o que diz respeito à segurança — travões, sistemas elétricos, sinalização —, os maquinistas que atravessam o país de madrugada, os revisores que asseguram cada partida, todos sabem que um comboio não é um negócio. É uma responsabilidade nacional. Leva estudantes, idosos, trabalhadores, famílias inteiras. Não se gere à boleia do lucro, gere-se com compromisso público. Portugal não precisa de menos ferrovia, precisa de mais. Mais linhas, mais ligações ao interior, mais mobilidade para fixar pessoas fora dos grandes centros. Sem investimento público no caminho-de-ferro, falar em descentralização é apenas retórica. Um país coeso viaja sobre carris, não sobre promessas privadas. Privatizar a operação ou a manutenção da CP é colocar um intermediário entre o cidadão e o Estado, um intermediário que só fica onde há dinheiro. Linhas do interior? Populações isoladas? Tarifas sociais? Não cabem nos relatórios de acionistas. O caminho-de-ferro português não nasceu para dar lucro. Nasceu para ligar pessoas. E quem o serve todos os dias não pede privilégios, pede apenas condições para garantir que todos chegam bem ao destino.









Viajo em contramão
Reverto sempre o sentido
Apanho tudo pela frente
Sigo em contracorrente
Os olhares que me reprovam
Servem-me de alimento
Deixei de deixar que me digam
Qual o caminho certo
Se os outros na sua viagem
Seguem a medo, pela margem
Quando a vida é um rio
Que flui até ao mar
Quero deixar-me ficar
A contemplar os olhares
Daqueles também perdidos
Cheios de nada, vendidos
Fitam um novo horizonte
Que viram na televisão
Não me guio pela ilusão
De julgar os que me julgam
Seguir sem esforço, levado
Pela corrente, guiado
Aprecio o desconforto
De seguir em contramão
Aires Fumega


Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência e recém agregado, trabalhando num terreno acidentado, coberto de mato e (ainda) livre de cercas. As ovelhas ficam alucinadas e difíceis de apascentar como se fossem um ror de gatos largados pelos montes!
Assim que, ao raiar do dia, abrimos o redil, as ovelhas saíram à disparada, todas correndo em direções opostas! E passaram o dia inteiro nisto: a cada árvore (azinheira ou sobreiro) alcançada, com a sofreguidão da cobiça (chegando a atropelar as próprias crias ainda pequenas, aparentemente sem se importarem), procuram por bolotas, ingerindo pouquíssimas das que encontram esparsas, pois guia-as a fé de que sob a próxima árvore é que estará depositado o sonhado tesouro. A cena repete-se vezes sem conta até ao ocaso.
Na hora dos exasperados arrebanhadores as trazerem de volta para o aprisco, estão exaustas, tendo consumido mais energia no afã de perseguir a sorte grande das bolotas, do que as que comeram, deixando a maioria intocada no chão.
Não sei quanto a vocês, mas isto parece-me uma boa metáfora para a nossa sociedade capitalista. A grande diferença é que não demora a cair uma tal abundância de bolotas que todas as ovelhas ficam satisfeitas, restaurando-se a paz pastoril. Ainda assim, é mais fácil encontrarmos pastores estelionatários nas igrejas, do que pastores filósofos nos campos.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Passaram esta semana cinquenta anos do golpe de 25 de Novembro de 1975, marco importante na história da revolução e da contra-revolução em Portugal.
O governo e a assembleia de maioria de direita e neofascista decidiu marcar o evento com uma parada militar e uma cerimónia na Assembleia da República “idêntica” à do 25 de Abril (mas com rosas brancas em vez de cravos vermelhos).
O deputado do PS Marcos Perestrello declarou do púlpito que, em 25 de Novembro de 1975, “os mencheviques venceram os bolcheviques”.
Evocava Perestrello um certo diálogo entre Mário Soares e o todo-poderoso ministro americano Kissinger no verão de 1975. Nesse diálogo, Kissinger “acusou” Soares de ser o Kerensky português, isto é, o homem (aliás não menchevique, mas do partido dos “socialistas revolucionários”), que chefiou o governo provisório russo que a revolução dos operários, camponeses e soldados, encabeçada pelos bolcheviques, derrubou em Outubro de 1917. Soares respondeu a Kissinger que não fazia tenções de ser o Kerensky português. E Kissinger respondeu a Soares que também Kerensky não fazia tenções de ser o Kerensky russo.
Nem Perestrello saberá como a sua escolha não foi casual. Ele comparou uma grande revolução operária e socialista com outra grande revolução operária e socialista. Uma vitoriosa, pelo menos inicialmente; a outra, derrotada, pelo menos para já.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
“Para já” é a parte importante.
A frase de Perestrello tem uma parte de verdade; tem, também, uma boa parte de mentira.
Ganharam os mencheviques em 1975? Ganharam — mas os mencheviques nunca “ganham” realmente; quando vencem, apenas abrem caminho aos Montenegros e aos Venturas.
Porém, os mencheviques não venceram os bolcheviques. Poucos bolcheviques havia; quando muito, em algumas organizações revolucionárias, que não ganharam a maioria no movimento operário.
A verdade é outra. Os “mencheviques de direita” de Mário Soares, coligados com a chefia do que restava do “exército do czar” (o Grupo dos Nove e a grande maioria da hierarquia militar) e com os embaixadores das grandes potências, sobretudo EUA e Alemanha (com os golpistas de “Kornilov” na sombra), venceram — porque tinham do seu lado os “mencheviques de esquerda”, chefiados por Álvaro Cunhal.
A direcção do PCP nunca fez tenções de pôr em causa a ordem do pós-guerra, a divisão de “esferas de influência” feita em Ialta e Potsdam entre Stalin e os potentados capitalistas vencedores da IIª Guerra — e reiterada em Helsínquia — que punha Portugal firmemente na esfera da NATO. Boa parte da base do PCP (e, de resto, do PS) tinha outras ideias.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
Os actores principais ainda vivos do golpe de Novembro, Eanes e Vasco Lourenço, repetem à saciedade: o golpe só visava repor a ordem nas forças armadas. Esta “ordem” estava em grave risco ante a auto-organização dos soldados, que convergia com a organização dos trabalhadores nas fábricas e nos bancos, nos campos do Alentejo e do Ribatejo, dos estudantes e professores nas escolas, dos enfermeiros, médicos e outro pessoal nos hospitais, dos moradores nos bairros. Formava-se o embrião de um novo poder.
Esmagado o Estado fascista de Salazar e Caetano pelo movimento popular e operário nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, o golpe de Novembro visou, assim, salvar o novo Estado do capital, que se reerguia a muito custo.
Tudo convergia num ponto: a hierarquia militar tinha de recuperar poder pleno sobre as armas. Sem isso, a salvação do capital ficava, literalmente, sem armas.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Tal foi o 25 de Novembro de 1975, pouco importando a polémica sobre a “saída dos páras” e o alegado “golpe de esquerda”. Como declarou em notável entrevista à TSF, em 2024, o falecido Carlos Matos Gomes, militar de Abril e homem arguto e bem informado, essa é “a chamada justificação para os pobres de espírito e crentes”.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras.
Aí está o pacote laboral, para começar.
Apesar de sabermos que qualquer universo distópico se traduz num cenário imaginado de uma região, país ou sociedade, sabemos igualmente que ele representa o caos, a injustiça, a desigualdade, a opressão, o sofrimento, a tirania ou o totalitarismo. Nesse ambiente indesejável prevalecem o desamparo, a amargura, a angústia, o desespero, o autoritarismo, ou seja, é um sistema que restringe a liberdade, a autonomia e anula a subjetividade. A distopia pode funcionar como uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. As pessoas sentir-se-iam isoladas e sem capacidade para resistir, sem força para se opor. A distopia caracteriza-se, ainda, por possuir múltiplas formas de poder, dominação e controlo, as quais se manifestam, por vezes, de formas visíveis, outras vezes, por meios subtis. Em resumo, um universo distópico idealiza um mundo profundamente desigual, maléfico, doente, alienado e castrador. Porém, uma conjuntura distópica pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica para tudo aquilo que não queremos vivenciar ou experienciar.
Por oposição, a utopia representa o inverso, isto é, traduz-se naquilo que seria uma sociedade ideal, perfeita, harmoniosa, justa e desejável. É um lugar em que predomina o bem-estar, a igualdade, a ausência de pobreza ou de miséria social, e materializa-se num sistema de governo benevolente (ou até mesmo na ausência dele, embora mantendo o funcionamento da sociedade de forma organizada, equitativa e pacífica). As sociedades utópicas caracterizam-se por promover: 1) a cooperação e o coletivismo (entre todos os membros da sociedade); 2) a elevação de valores éticos e morais (em que o respeito, o bem-estar social e a liberdade de expressão são, efetivamente, valorizados); 3) a educação, a ciência, as técnicas e a tecnologia (as quais são totalmente direcionadas para o bem-comum, isto é, são unicamente utilizadas para benefício de toda a humanidade e representam um património que intrinsecamente lhe pertence, fruto do conhecimento passado de geração em geração); 4) a harmonia social e ambiental (é obrigatório manter uma relação equilibrada do Homem com a natureza). Resumidamente, uma sociedade utópica é uma sociedade progressista, emancipatória e humanista. O termo original foi criado por Thomas More, no seu livro Utopia (1516), cujo significado é, literalmente, "lugar nenhum" (originário do grego ou = não, e topos = lugar), que nos remete para um ideal inalcançável. Metaforicamente, é como se caminhássemos para tentar alcançar o lugar mais distante na linha do horizonte (mas, simultaneamente, quando mais caminhamos, novos lugares vão surgindo no nosso campo de visão).
Na realidade, os dois conceitos, distopia e utopia, tal como já referido, remetem-nos para sociedades imaginárias. Porém, atualmente, estamos submersos em sociedades que parecem mais próximas de poderem ser consideradas distópicas do que utópicas. Um elemento-chave que ajuda a compreender este fenómeno é o facto de vivermos em sociedades-do-lucro-omnipresente-e-omnipotente. Nesta conjuntura, o Homem deixou de ser um fim em si mesmo (Kant teria rejeitado essa visão utilitarista e instrumental do ser humano) e esse lugar passou a ser ocupado pelo “deus lucro”. Porém, isso representa uma extraordinária (e inaceitável) inversão de valores sociais e morais.
Os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza.
É verdade que os problemas sociais, económicos, políticos e ambientais do mundo hodierno são complexos e estão profundamente interligados. Não raras vezes, estes tópicos são exacerbados pelo processo de globalização, incluindo todas as suas contradições. Um dos paradoxos mais evidentes na atualidade é pautado pela relação (desestruturante) entre capital e trabalho, embora vá muito além dela. A título ilustrativo, enumeramos alguns exemplos de problemas marcantes vividos no mundo contemporâneo, nomeadamente ao nível das desigualdades económicas e sociais: os dados atuais demonstram que os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza. As três maiores fortunas do mundo possuem um montante superior ao PIB de quase 60 países mais pobres. Isto significa que vivemos num mundo em que reina a injustiça social e se reproduz uma atroz assimetria na distribuição dos recursos produzidos, por via do trabalho, através da classe trabalhadora. Paralelamente, as últimas estimativas revelam que mais de 200 milhões de trabalhadores vivem na condição de pobreza extrema, ganhando o equivalente a, aproximadamente, 2 euros por dia. Sublinho que estamos a falar de trabalhadores, ou seja, alguém que trabalha, mas, ainda assim, não consegue sair da pobreza extrema. Apresento, como exemplo, um episódio real relatado por Vincent Gaulejac, na obra La société malade de la gestion, o qual indica que um empresário de uma multinacional recebeu 16,2 milhões de euros por ter tomado a decisão de encerrar 38 lojas dessa empresa e, consequentemente, enviado para o desemprego centenas de trabalhadores. Este montante, auferido devido a um único ato de gestão, representa o equivalente a mil anos de salário médio dos trabalhadores que foram demitidos. Surpreendentemente, o mesmo empresário, referiu que não se sentia bem pago para exercer aquela “tão dura profissão”. Vale a pena interrogarmo-nos: qual o valor que atribuímos ao trabalho para sustentar uma tão grande discrepância de rendimentos? Como podemos explicar e justificar esta insanidade, sem a apelidar como algo profundamente distópico?
Segundo os dados de um relatório recente da OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho. Também dados recentes indicam que o desemprego global se cifra em cerca de 210 milhões de trabalhadores desempregados. Isto representa uma verdadeira hecatombe social, política e económica. É igualmente pertinente referir que, ao nível global, as disparidades no acesso à educação, aos serviços de saúde, à habitação, à quantidade e qualidade da alimentação (fome e/ou má nutrição) e a empregos decentes são gritantes e evidentes. Por vezes, muitos destes aspetos têm como pano de fundo as diferentes formas de violência, cujo expoente máximo está normalmente associado aos conflitos armados, ou ainda a situações oriundas de crises ambientais e alterações climáticas.
Em relação a este último ponto, vale a pena ler o relatório da Oxfam International, publicado em outubro de 2025, cujo título é expressivo: “Saque Climático: como poucos poderosos estão a levar o planeta ao colapso.” Neste documento, é afirmado que o grupo dos 0,1% mais ricos do planeta polui, em apenas um dia, mais do que uma pessoa dos 50% mais pobres durante um ano inteiro. É também defendido que a crise climática é uma crise de desigualdade. Estes são alguns traços que nos levam a sugerir que o mundo atual está mais próximo da distopia do que da utopia.
Segundo a OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho.
Agora, imaginem que num futuro próximo seria criado um parlamento global. Esse órgão político transnacional estava a discutir uma legislação que iria proibir todas as formas de exploração entre seres humanos. Anteriormente, já tinham sido dados passos significativos nesta direção, considerando que há uns anos os lucros das empresas (que maioritariamente iam para os bolsos dos acionistas ou proprietários) não poderiam agora ultrapassar a margem de 5% do lucro total. Uma parte dos restantes 95% dos lucros era distribuída, equitativamente, por todos os trabalhadores da empresa e, a outra parte, era alocada para o Estado Providência do respetivo país. Naturalmente que neste novo modelo não existia a possibilidade de rutura ou de falência da segurança social. O desemprego era igualmente proibido, visto que o trabalho que cada um executa representa aquilo que cada trabalhador pode oferecer ao bem comum. Ninguém é tido como “inútil”, porque a existência e a dignidade não estão associadas à capacidade de produzir. Uma sociedade de pleno emprego, deste ponto de vista, traduz-se no limite máximo da qualidade de vida dessa mesma sociedade. Porque a divisão social do trabalho é justa e equitativa. Claro que haveria pessoas que não trabalhavam (no sentido estrito do termo), não porque não quisessem, mas porque, efetivamente, não podiam! Imaginem também que o mesmo parlamento global fazia a promoção plena da paz mundial e proibia todo e qualquer tipo de guerra armada. A fome, a pobreza e a exclusão social eram igualmente proibidas.
Estes tópicos direcionam-nos para aquilo que hoje designaríamos como uma sociedade utópica. A eliminação das desigualdades tinha sido possível porque as populações tinham compreendido, verdadeiramente, o que tinha estado na base da sua génese (para isso evocamos as sábias palavras de Jean-Jaques Rousseau sobre a origem das desigualdades humanas): “O primeiro [Homem] que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer “Isto é meu”, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado o género humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!”
Para terminar, peço-lhe que recorra uma última vez à imaginação e faça a seguinte experiência mental: pense que está no cenário idealizado por John Rawls, desiganado por “véu da ignorância”, ou seja, não sabe antecipadamente qual será a posição social que lhe irá caber, quais serão as suas capacidades e aptidões naturais, qual será a sua identidade (em termos de género, etnia ou orientação sexual), nem quais serão as suas crenças religiosas, filosóficas ou até as metas de vida. Perante este contexto idealizado e ignorando totalmente as características em que seria colocado no mundo, caso tivesse de fazer uma escolha, escolheria viver numa sociedade distópica ou utópica?
O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?
Na semana passada, o governo direitista de Portugal, pressionado pelo partido de extrema-direita fascista Chega, conseguiu pôr termo à possibilidade de imigrantes dos países dependentes virem trabalhar para Portugal. Até agora, era possível a muitos estrangeiros entrarem com um visto de turista e depois “manifestarem interesse” em trabalhar, acabando por obter autorização de residência. Agora, os imigrantes potenciais passam a ter de candidatar-se, nos seus países de origem, a vistos para trabalhar. Mas vejam só: a regra não é aplicável a candidatos a empregos “altamente qualificados”. Profissionais estrangeiros com “qualificações avançadas” continuam a poder entrar em Portugal para procurar emprego e trabalho desde que sejam contratados antes de o visto expirar. Analogamente, os trabalhadores “remotos” continuam a ser elegíveis para viver e trabalhar em Portugal.
As novas leis são notoriamente discriminatórias contra os imigrantes pobres dos países dependentes do Sul. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso? As estatísticas da Comissão Europeia indicam que a mão de obra migrante não enfraqueceu a economia portuguesa; fortaleceu-a! “800 mil imigrantes contribuem com mais de mil milhões de euros para o sistema de segurança social, ao passo que só recebem aproximadamente 257 milhões de euros em benefícios sociais, deixando um saldo positivo de mil e seiscentos milhões de euros”.
Há várias décadas que magotes de jovens deixam Portugal em busca de melhores oportunidades económicas noutros países da UE. Nos últimos anos, indianos, nepaleses e bengalis colmataram a lacuna deixada na força de trabalho portuguesa. Vêm trabalhar para explorações de frutos vermelhos no Alentejo agrícola. “Nós deixámos o nosso país. Jovens portugueses têm deixado o seu. Há quem não goste que nós cá estejamos, mas somos nós que estamos a revitalizar esta região e a fazer entrar cá muito dinheiro”, diz um trabalhador nepalês sob anonimato. “A razão principal por que Portugal tem visto aumentar o número de imigrantes é porque precisa deles”, diz Luís Pinheiro, ex-diretor da Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA). O sector agrícola português continua em expansão rápida, particularmente devido à procura cada vez maior de frutos silvestres, que depende principalmente de trabalhadores da Ásia Meridional. Em 2023, as receitas de exportação de bagas atingiram quase 300 milhões de euros, sendo a maioria enviada para supermercados alemães e britânicos. “Portugal tem uma grande procura de mão de obra em certas áreas de atividade económica, e estes migrantes continuam a chegar porque há procura de mão de obra”. Longe de ser abuso, a imigração tem sido um trunfo essencial para a economia portuguesa, particularmente em sectores-chave da agricultura e da indústria do lazer, assente em salários baixos, que correspondem a empregos que os cidadãos portugueses resistem a procurar, por os salários serem muito baixos. O atual salário mínimo é de apenas 820 euros por mês, que mal deixa a quem trabalha o suficiente para sobreviver. Depois de custear o alojamento, as dívidas e o envio de dinheiro para a família, muitos trabalhadores imigrantes ficam com apenas 100-150 euros por mês. Muitas destas aldeias e vilas ficam longe das cidades, no Alentejo, o que torna mais difícil documentar violações de direitos humanos e laborais. Muitos suportam condições extraordinariamente difíceis. “É uma espécie de militarização do trabalho. Tens de obedecer a tudo, mesmo que seja a coisa mais estúpida que se possa imaginar. Se trabalhas 12 horas, devias receber pagamento de horas extraordinárias; mas eles pagam apenas 6,50 euros e ainda queriam mais horas. Isso era para os trabalhadores permanentes. Imagina agora para os temporários”, diz o ativista laboral do Alentejo Alberto Matos.
Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia.
Shollomian, de Sylhet, no Bangladeche, que veio para Portugal com um visto de turista, trabalha numa quinta de frutos vermelhos em São Teotónio. Diz que trabalha entre 8 e 12 horas por dia, começando às 5-6 h da manhã. Foi-lhe dito que receberia uma autorização de residência no prazo de 12 a 14 meses, mas, 24 meses passados, continua à espera. Apesar disso, envia 100 a 400 euros à família sempre que pode e está otimista. “Vim para Portugal há dois anos quando vi anúncios de trabalho em Portugal nas redes sociais. Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia, em condições difíceis. Ganho 50 euros por dia. Temos de colher oito quilos por cada quatro horas. É dificílimo, na quinta faz muito calor, não nos dão água, às vezes sangro do nariz. Não nos dão comida, temos de trazer a nossa. Envio por mês 230-450 euros para a família, no Nepal. Ao fim de dois anos, continuo sem autorização de residência.”
“Há, atualmente, pelo menos, 400 mil pessoas, na sua maioria migrantes indianos e nepaleses, que aguardam renovação das suas autorizações de residência. Encontram-se numa situação muito vulnerável, porque os empregadores aproveitam-se. Não podem perder o emprego, por isso têm de aceitar todas as exigências dos empregadores”, afirma a Dra. Alexandra Pereira, bolseira de pós-doutoramento na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, especializada em migração nepalesa, particularmente para Portugal e a Europa.
A situação dos sul-asiáticos é perigosa, pois estão mais à mercê dos traficantes e das máfias que os trazem para Portugal e da exploração dos empregadores. No Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, há muitas agências que continuam a burlar e a lucrar à grande com os recém-chegados e migrantes com documentação insuficiente, convencendo-os a comprar serviços de que não precisam e fazendo-lhes crer que ainda é possível legalizarem a sua situação.
Ao fechar a porta à legalização, o Governo abriu o mercado negro de mão de obra humana. Muitos trabalhadores chegam profundamente endividados, depois de pagarem quantias exorbitantes para virem a Portugal com vistos de turista, de trabalho ou vistos UE expirados. Alberto Matos diz que os migrantes lhe contam que “bem, eu paguei 15 a 20 mil euros, na Índia, para vir trabalhar para Portugal. Eles endividam-se, têm de pagar as dívidas anos a fio, ficam escravos da dívida. As próprias famílias, no país de origem, são obrigadas a pagar a dívida e são ameaçadas pelas máfias locais”.
De acordo com a direção da Migração e Assuntos Internos da Comissão Europeia, “observou-se que a maioria das vítimas confirmadas de tráfico se enquadravam no tráfico de seres humanos para exploração laboral (72,8%); desses, 73,2% no sector agrícola”. As estatísticas são especificamente piores no Alentejo, onde se contaram 51,7% das vítimas confirmadas de tráfico de seres humanos em Portugal entre 2008 e 2021; dessas, 74,5% traficadas para fins de exploração laboral. “Devido à enorme extensão geográfica dos locais onde são colocados para trabalhar, geralmente no interior da região do Alentejo ou no Oeste do país, com condições de acesso difíceis, a deteção pelas autoridades responsáveis pela supervisão das condições de trabalho e permanência em Portugal é difícil.”
As grandes empresas frutícolas estão no âmago da situação. Como afirma Matos, “a Driscoll's controla Odemira inteira. Vendem as patentes e, pelo meio, há uma grande exploração. No fim da linha, dizem: ‘façam o favor de nos darem os frutos vermelhos, nós é que sabemos comercializá-los nos mercados internacionais.’ Costumamos dizer que a região de Odemira é uma espécie de barriga de aluguer da Driscoll’s.” Se há “abuso de hospitalidade”, como clama o primeiro-ministro Montenegro, quem abusa não são os imigrantes, são os empregadores.
Não tarda nada que gente como o Chega venha exigir a deportação de milhares de trabalhadores para os seus “países de origem”. Só que a situação económica e política no Bangladeche e no Nepal é horrenda. O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, embora o estilo de vida luxuoso das famílias políticas — roupas de marca, viagens ao estrangeiro e carros de luxo — contraste com a dura realidade que os jovens enfrentam. “Toda a gente se quer ir embora [do Nepal]. Há poucas oportunidades de emprego, crises políticas e económicas constantes; os jovens querem encontrar uma vida melhor, salários mais altos: as pessoas ganham 200 euros por mês.” Acrescem agora perigos reais. No mês passado, o governo do Nepal caiu e houve um golpe militar. A polícia matou 22 pessoas num protesto contra a corrupção.
A situação não é melhor no Bangladeche, país muitíssimo povoado. Há cerca de 37,7 milhões de pessoas em insegurança alimentar no país. Mais de um quarto das famílias endividam-se para suprir necessidades diárias, incluindo comida. Um inquérito do think tank South Asia Network on Economic Modeling mostrou que 28% das famílias recorrem a empréstimos para sobreviver. Quase duplicou o número médio de empréstimos por família. No ano passado, o exército e a polícia mataram mais de trezentas pessoas envolvidas em protestos contra o governo, até que a então primeira-ministra Hasina fugiu do país, levando milhares de milhões na bagagem.
Assim, as 400 mil pessoas que aguardam a renovação dos vistos não têm maneira de voltar para casa, ao contrário dos muitos portugueses que deixaram o seu país em busca de uma vida melhor e empregos melhores, mas podem regressar. Portugal precisa destes imigrantes, geralmente jovens e industriosos, e da sua mão-de-obra (e das suas receitas fiscais) para contribuir para sustentar quem vive no país. O que é necessário não são controlos de imigração rigorosos, enviesados contra os asiáticos pobres, nem deportações, que muito debilitariam a economia portuguesa. Necessário é que trabalhadores portugueses e imigrantes façam campanha juntos, com os sindicatos, para acabar com a exploração dos trabalhadores migrantes, aumentar o salário mínimo e melhorar as condições de trabalho para todos. Enquanto forem obrigados a trabalhar por salários baixos e em condições precárias, os trabalhadores imigrantes prejudicam a capacidade negocial de todos os trabalhadores em Portugal. É com este “abuso de hospitalidade” que temos de acabar, não aumentá-lo.
Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são: permitir a “uberização” de todos os trabalhadores; e normalizar a semana de trabalho de 50 horas.

Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são permitir a “uberização” de todos os trabalhadores e normalizar a semana de trabalho de 50 horas. Politicamente, o eixo principal é uma grande restrição dos direitos de greve e organização sindical. No conjunto, abre-se portas ao despedimento de funcionários públicos e a usar as nossas reformas para especular na bolsa.
É este conjunto de medidas que levou a que se faça uma parada militar para celebrar o 25 de Novembro, tentando apagar o período revolucionário de 1974-75, com a mudança de regime em Portugal e o fim da guerra colonial. E o fim do momento mais democrático da nossa história, quando, nos locais de trabalho, se elegeram comissões democráticas com mandatos revogáveis se não cumprissem o decidido pelos trabalhadores.
Quase 70% dos portugueses que trabalham ganham menos de 890€ por mês líquidos. O que propõem o Governo, a IL, o Chega… e o PS, que aprovou o Orçamento de Estado?
Uberizar, como tarefeiros, motoristas de carga, médicos ou enfermeiros, professores; legalizar, nas cantinas, empresas de segurança; falências fraudulentas; permitir, na TAP, abrir uma rota nova com trabalhadores externos; com o banco de horas, deixar de pagar até 15% do salário de todos os trabalhadores; o horário de trabalho oficial passar para 50 horas. E precariedade para sempre, impedindo ter um lar, uma família, segurança, uma casa para viver e receber os amigos. Permitir o despedimento sem justa causa. Nada disto foi sequer sufragado na campanha eleitoral, onde Montenegro e a sua AD esconderam dos eleitores as suas intenções.
Não era preciso uma greve geral, diz o líder do Chega, financiado pela Paulo Duarte, Barraqueiro, bancos, grandes empresas de agricultura intensiva. Há que flexibilizar e despedir na função pública, diz a IL – na apresentação da sua candidatura esteve a CEO da empresa Hospital da Luz, de propriedade chinesa. A ministra do Trabalho de Montenegro, Palma Ramalho, tem um património declarado de mais de 5 milhões de euros e, pasme-se, por coincidência é mulher de António Ramalho, que acabou de receber 7 milhões de euros pela venda do falido Banco Espírito Santo a um fundo financeiro abutre do Texas.
Se amanhã Ramalho adquirir 10 imóveis para especulação com 7 milhões, esse património é seu ou nosso? Como podemos tolerar que quem trabalha não tenha o direito inviolável à sua própria casa?
Mais de um milhão de pessoas faz turnos noturnos em Portugal, que implicam, como mostram estudos, um aumento da taxa de cancro e outras doenças da ordem dos 35% em média, só pela quebra dos ciclos de sono. Mais de 50% dos portugueses trabalha até 70 horas semanais, sem contar a deslocação para o trabalho.
Um casal, para viver com o mínimo de dignidade teria, segundo estudos sérios, de receber pelo menos 2500 euros por mês. Mesmo assim, só falamos de pagar o essencial. Como vivem os mais de 70% dos trabalhadores portugueses que recebem 800 euros? Hoje há mais de um milhão de trabalhadores sem direitos em Portugal. Se questionarem as condições de escravatura em que trabalham, podem ser expulsos, pois são imigrantes, criminalizados pela AD-Chega.
Uma greve não se decreta, organiza-se. Está em causa mais do que o pacote laboral, que já por si afeta mais de 8 milhões de trabalhadores e suas famílias. Se o Governo vencer e se mantiver em funções depois da greve e avançar com o pacote laboral, a sua classe social e o seu Estado já anunciaram o seu programa. Avançar com despedimentos na função pública (IL) e fazer as reformas e pensões entrarem na bolsa (AD, Chega e IL).
Não foi isso a revolução, que a direita odeia e quer enterrar, celebrando o 25 de Novembro numa parada militar, com um orçamento de 5% do PIB para a guerra, maternidades fechadas — enquanto as mães, na Ucrânia, na Rússia e em Gaza, visitam os filhos no cemitério?
Esta greve geral pode ser um extraordinário momento de transformação e esperança para a maioria dos portugueses. A chave do seu sucesso está na própria capacidade dos seus líderes de abrirem espaço também a novos dirigentes, em vez de se eternizarem no poder nos sindicatos ou se deixarem anestesiar na concertação social. Com plenários em cada sector, reuniões onde todos possam falar (e sejam protegidos para isso, fazendo-o às escondidas se necessário), piquetes à porta das fábricas e empresas onde se converse, ouvindo todos e se decida que outras formas de luta se devem organizar, deixando a imaginação, dedicação e ousadia dos trabalhadores em coletivo pensar em como vencer — e que tipo de sociedade querem construir.
O movimento social como um todo. É isso uma greve. Ela deve ser um espaço de equipas, cooperação, debate aberto e livre, decisões democráticas. E deve dialogar com todos – das lutas dos jovens contra as propinas às das populações do Fundão, Castelo Branco ou Montalegre, dos funcionários públicos contra o SIADAP às associações por vidas justas e habitação para todos. Juntar a esta luta o mais de um milhão de imigrantes, que não votam, mas trabalham e sustentam a segurança social. Temos de organizar em cada bairro, escola, hospital e fábrica espaços comuns de democracia real. Não é isso a democracia? Não foi isso a revolução, que a direita odeia e quer enterrar, celebrando o 25 de Novembro numa parada militar, com um orçamento de 5% do PIB para a guerra, maternidades fechadas, enquanto as mães, na Ucrânia, na Rússia e em Gaza, visitam os filhos no cemitério?
A greve é um acto de parar para reparar. Reparar o corpo exausto. Mas também reparar (olhar, pensar). Parar esta marcha delirante que nos arrasta para o precipício.
O estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa.

Lev S. Vigotski, Evald Vasilievich Ilyenkov e Vasili V. Davidov afirmavam que o papel da escola era criar condições propícias para que as crianças aprendessem os conhecimentos teóricos. Essa ideia baseava-se em dois pressupostos. Primeiro, que os conhecimentos empíricos – que constituíam o conteúdo principal do currículo da época – aprendem-se muito melhor fora da escola, pois são produzidos a partir do contacto direto com a realidade. Segundo, que o conhecimento teórico só pode ser aprendido na escola, por depender de uma forma de organização da aprendizagem coletiva que conduz ao desenvolvimento psíquico e subjetivo.
Os conhecimentos empíricos se manifestam na forma de conceitos espontâneos e habilidades específicas (por exemplo, um aluno que decora a tabuada cantando uma música ou que aprende a usar a vírgula copiando o padrão dos textos que lê, sem entender a regra gramatical). Já os conhecimentos teóricos se expressam por meio de conceitos científicos e modos generalizados de ação (habilidades gerais). Os primeiros conhecimentos resultam de abstrações formais, obtidas a partir de aspectos secundários dos objetos e fenômenos em estudo (exemplo: um estudante que resolve a equação de 2º grau apenas aplicando a fórmula de Bhaskara de maneira mecânica, sem compreender a relação da equação com uma parábola ou o significado de seus coeficientes). Os segundos são abstrações substantivas, que resultam da análise dos aspectos essenciais desses mesmos objetos e fenômenos (exemplo: o mesmo estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa).
A natureza de cada tipo de conhecimento é definida pelos métodos de apreensão da realidade e de aprendizagem coletiva que se adotam. Os conhecimentos empíricos apoiam-se no método indutivo (do particular para o geral, do concreto para o abstrato). Os conhecimentos teóricos sustentam-se no método dedutivo ou na ascensão do abstrato ao concreto (do geral para o particular). Na escola, o método adotado para o primeiro costuma ser o expositivo ou explicativo-ilustrativo. Para o segundo, são os métodos de quase-pesquisa e de diálogo de estudo.
Por esse motivo, é um engano perigoso acreditar que dominamos os conhecimentos teóricos quando somos capazes de repetir suas definições com precisão. Podemos recitar as leis de Newton, descrever o conceito de “mais-valia” ou explicar a teoria da relatividade com um vocabulário impecável e, ainda assim, não termos verdadeiramente compreendido a essência do que essas palavras representam.
Os conhecimentos teóricos genuínos constituem uma estrutura mental, uma rede de relações, implicações, contextos e aplicações que construímos internamente, integrada fundamentalmente por dois componentes: os conceitos científicos e os modos generalizados de ação.
Pense em aprender a andar de bicicleta. Você pode ler todos os manuais do mundo, decorar o princípio físico do equilíbrio, a função do guiador e a dinâmica das rodas. Pode verbalizar perfeitamente como se faz. Mas só saberá de verdade quando subir na bicicleta e, após tropeços e ajustes, seu corpo e sua mente internalizarem aquele “ponto de equilíbrio”. A teoria se tornou conhecimento na prática; tornou-se uma “sensação” assimilada. O mesmo ocorre com qualquer teoria complexa.
O conhecimento teórico real se manifesta quando:
Quando nos limitamos à verbalização vazia, caímos no que o educador Paulo Freire chamava de “educação bancária”, na qual o estudante é um mero depositário de frases e fórmulas. Ele pode “devolver” o conteúdo na prova, mas esse conteúdo não o transformou, não ampliou sua visão de mundo.
O verdadeiro conhecimento não habita nas páginas dos livros ou na fluência do discurso. Ele habita na mente que é capaz de manipular, criar, criticar e conectar ideias. A verbalização é a ferramenta poderosa para compartilhar esse conhecimento, mas não é o conhecimento em si. É a ponta visível de um vasto icebergue de compreensão que se esconde sob a superfície do mero falar.
Uma operação mortal a serviço de uma política de repressão e de destruição dos serviços públicos.

Um verdadeiro massacre foi perpetrado em duas favelas na zona norte do Rio de Janeiro em 29 de outubro, por ordem do governador bolsonarista Cláudio Castro, do PL. A operação mobilizou 2500 soldados e policiais nas favelas do Alemão e da Penha. Custou a vida de quase 150 moradores e 4 policiais.
O "combate ao narcotráfico" invocado é apenas um pretexto para esta demonstração de força militar. Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas e pertencem à classe capitalista. Por exemplo, uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro (as fintechs) com sedes na luxuosa Avenida Faria Lima.
No Rio, cerca de 22,16% (aproximadamente 1,5 milhão) da classe trabalhadora vive nas favelas, em condições precárias, até mesmo miseráveis. Os programas sociais implementados pelo governo Lula aliviaram a fome de alguns milhões de brasileiros, no entanto, não erradicaram a pobreza.
Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas (…) uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro.
Essa ação criminosa de um governador do Partido Liberal, partido de Bolsonaro, ecoa a política de Trump de rotular traficantes de drogas como "narcoterroristas", portanto "em guerra" com o Estado (e, em consequência, com os Estados Unidos). Não é coincidência que o governador Cláudio Castro tenha viajado aos Estados Unidos há dois meses para discutir essa questão com o governo Trump.
Um projeto de lei para classificar esses grupos como "narcoterroristas" está sendo debatido no Congresso Nacional. O senador Flávio Bolsonaro declarou recentemente que os militares americanos deveriam bombardear barcos de contrabandistas na baía de Guanabara como estão fazendo no Mar do Caribe em ameaça à soberania venezuelana.
Essas operações policiais, como as de ontem, paralisam os serviços públicos nas áreas afetadas, interrompendo seu funcionamento, o que diz muito sobre o desprezo da classe dominante pela população das favelas.
O projeto de reforma administrativa atualmente em tramitação no Congresso Nacional, por pressão da política de "ajuste orçamentário" (Arcabouço Fiscal) do governo Lula para o pagamento de uma dívida pública ilegitima, visa destruir esses serviços públicos e abrir caminho para suas privatizações. Esse Congresso, inimigo do povo, que tentou emplacar a PEC da bandidagem, rejeitada pela ampla maioria da população, não tem qualquer legitimidade democrática para destruir uma conquista histórica da população.
Por ora, as lideranças dos sindicatos do setor público protestam timidamente sem exigir a retirada do projeto e sem colocar em preparação uma paralisação geral nacional do funcionalismo. Vale lembrar que fortalecimento dos serviços públicos nas favelas atenderia às necessidades básicas e criaria empregos para jovens, muitos dos quais atualmente sem outra perspectiva senão serem contratados por traficantes de drogas.
Após a intervenção policial, o governo Lula propôs a aprovação imediata da PEC da Segurança, que integra as forças de segurança de todas as esferas governamentais sob controle do governo central, reforçando seu poder bélico. Isso não impedirá novos massacres.
As organizações de trabalhadores devem condenar os massacres policiais e exigir a apuração dos fatos, o fim do governo Castro imediatamente e a dissolução da Polícia Militar, instituição herdada da ditadura. Elas devem lançar uma campanha para proteger os jovens nas favelas por meio da criação de serviços públicos e de erradicação da miséria. Dinheiro para isso existe, desde que o governo cesse suas isenções fiscais para grandes corporações e bancos, tribute os ricos e pare de pagar uma enorme dívida pública ilegítima. As organizações de trabalhadores e jovens devem também convocar uma luta unida dos servidores públicos e da população pela retirada do projeto de "reforma administrativa" que destruirá os serviços públicos agravando a miséria das populações pobres.
De maneira mais geral, devemos lutar para derrotar Trump e suas políticas belicistas para a Venezuela e a América Latina sob o falso pretexto de "combater o narcotráfico".
Diz-se por aí que entregar a CP aos privados é a solução para todos os males. Que com a concessão virão comboios sem atrasos, trabalhadores sem greves e passageiros sem problemas.

A promessa é tentadora, mas falsa. Quem conhece a ferrovia sabe que nenhum serviço público melhora quando se troca o interesse das pessoas pelas contas de resultados. A concessão não elimina conflitos, elimina direitos. Nos países onde o caminho-de-ferro foi privatizado, como o Reino Unido, as greves não desapareceram. Multiplicaram-se. Quando o lucro se impõe à dignidade, os trabalhadores são empurrados para o silêncio ou para a rutura. E quando não há voz dentro das empresas, a primeira vítima é a segurança. Fala-se muito de eficiência e pouco de responsabilidade. Veja-se o exemplo do Elevador da Glória, em Lisboa: entregue a privados, com manutenção subcontratada, acabou por falhar com gravidade. Feridos. Pânico. Um aviso claro: quando se corta na manutenção, o preço não é económico, é humano. Na CP, uma avaria não para um carril. Pode custar vidas. Quem trabalha na ferrovia não quer fazer greve. Quer trabalhar com dignidade. Os técnicos de manutenção que passam noites a garantir tudo o que diz respeito à segurança — travões, sistemas elétricos, sinalização —, os maquinistas que atravessam o país de madrugada, os revisores que asseguram cada partida, todos sabem que um comboio não é um negócio. É uma responsabilidade nacional. Leva estudantes, idosos, trabalhadores, famílias inteiras. Não se gere à boleia do lucro, gere-se com compromisso público. Portugal não precisa de menos ferrovia, precisa de mais. Mais linhas, mais ligações ao interior, mais mobilidade para fixar pessoas fora dos grandes centros. Sem investimento público no caminho-de-ferro, falar em descentralização é apenas retórica. Um país coeso viaja sobre carris, não sobre promessas privadas. Privatizar a operação ou a manutenção da CP é colocar um intermediário entre o cidadão e o Estado, um intermediário que só fica onde há dinheiro. Linhas do interior? Populações isoladas? Tarifas sociais? Não cabem nos relatórios de acionistas. O caminho-de-ferro português não nasceu para dar lucro. Nasceu para ligar pessoas. E quem o serve todos os dias não pede privilégios, pede apenas condições para garantir que todos chegam bem ao destino.









Viajo em contramão
Reverto sempre o sentido
Apanho tudo pela frente
Sigo em contracorrente
Os olhares que me reprovam
Servem-me de alimento
Deixei de deixar que me digam
Qual o caminho certo
Se os outros na sua viagem
Seguem a medo, pela margem
Quando a vida é um rio
Que flui até ao mar
Quero deixar-me ficar
A contemplar os olhares
Daqueles também perdidos
Cheios de nada, vendidos
Fitam um novo horizonte
Que viram na televisão
Não me guio pela ilusão
De julgar os que me julgam
Seguir sem esforço, levado
Pela corrente, guiado
Aprecio o desconforto
De seguir em contramão
Aires Fumega


Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência e recém agregado, trabalhando num terreno acidentado, coberto de mato e (ainda) livre de cercas. As ovelhas ficam alucinadas e difíceis de apascentar como se fossem um ror de gatos largados pelos montes!
Assim que, ao raiar do dia, abrimos o redil, as ovelhas saíram à disparada, todas correndo em direções opostas! E passaram o dia inteiro nisto: a cada árvore (azinheira ou sobreiro) alcançada, com a sofreguidão da cobiça (chegando a atropelar as próprias crias ainda pequenas, aparentemente sem se importarem), procuram por bolotas, ingerindo pouquíssimas das que encontram esparsas, pois guia-as a fé de que sob a próxima árvore é que estará depositado o sonhado tesouro. A cena repete-se vezes sem conta até ao ocaso.
Na hora dos exasperados arrebanhadores as trazerem de volta para o aprisco, estão exaustas, tendo consumido mais energia no afã de perseguir a sorte grande das bolotas, do que as que comeram, deixando a maioria intocada no chão.
Não sei quanto a vocês, mas isto parece-me uma boa metáfora para a nossa sociedade capitalista. A grande diferença é que não demora a cair uma tal abundância de bolotas que todas as ovelhas ficam satisfeitas, restaurando-se a paz pastoril. Ainda assim, é mais fácil encontrarmos pastores estelionatários nas igrejas, do que pastores filósofos nos campos.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Passaram esta semana cinquenta anos do golpe de 25 de Novembro de 1975, marco importante na história da revolução e da contra-revolução em Portugal.
O governo e a assembleia de maioria de direita e neofascista decidiu marcar o evento com uma parada militar e uma cerimónia na Assembleia da República “idêntica” à do 25 de Abril (mas com rosas brancas em vez de cravos vermelhos).
O deputado do PS Marcos Perestrello declarou do púlpito que, em 25 de Novembro de 1975, “os mencheviques venceram os bolcheviques”.
Evocava Perestrello um certo diálogo entre Mário Soares e o todo-poderoso ministro americano Kissinger no verão de 1975. Nesse diálogo, Kissinger “acusou” Soares de ser o Kerensky português, isto é, o homem (aliás não menchevique, mas do partido dos “socialistas revolucionários”), que chefiou o governo provisório russo que a revolução dos operários, camponeses e soldados, encabeçada pelos bolcheviques, derrubou em Outubro de 1917. Soares respondeu a Kissinger que não fazia tenções de ser o Kerensky português. E Kissinger respondeu a Soares que também Kerensky não fazia tenções de ser o Kerensky russo.
Nem Perestrello saberá como a sua escolha não foi casual. Ele comparou uma grande revolução operária e socialista com outra grande revolução operária e socialista. Uma vitoriosa, pelo menos inicialmente; a outra, derrotada, pelo menos para já.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
“Para já” é a parte importante.
A frase de Perestrello tem uma parte de verdade; tem, também, uma boa parte de mentira.
Ganharam os mencheviques em 1975? Ganharam — mas os mencheviques nunca “ganham” realmente; quando vencem, apenas abrem caminho aos Montenegros e aos Venturas.
Porém, os mencheviques não venceram os bolcheviques. Poucos bolcheviques havia; quando muito, em algumas organizações revolucionárias, que não ganharam a maioria no movimento operário.
A verdade é outra. Os “mencheviques de direita” de Mário Soares, coligados com a chefia do que restava do “exército do czar” (o Grupo dos Nove e a grande maioria da hierarquia militar) e com os embaixadores das grandes potências, sobretudo EUA e Alemanha (com os golpistas de “Kornilov” na sombra), venceram — porque tinham do seu lado os “mencheviques de esquerda”, chefiados por Álvaro Cunhal.
A direcção do PCP nunca fez tenções de pôr em causa a ordem do pós-guerra, a divisão de “esferas de influência” feita em Ialta e Potsdam entre Stalin e os potentados capitalistas vencedores da IIª Guerra — e reiterada em Helsínquia — que punha Portugal firmemente na esfera da NATO. Boa parte da base do PCP (e, de resto, do PS) tinha outras ideias.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
Os actores principais ainda vivos do golpe de Novembro, Eanes e Vasco Lourenço, repetem à saciedade: o golpe só visava repor a ordem nas forças armadas. Esta “ordem” estava em grave risco ante a auto-organização dos soldados, que convergia com a organização dos trabalhadores nas fábricas e nos bancos, nos campos do Alentejo e do Ribatejo, dos estudantes e professores nas escolas, dos enfermeiros, médicos e outro pessoal nos hospitais, dos moradores nos bairros. Formava-se o embrião de um novo poder.
Esmagado o Estado fascista de Salazar e Caetano pelo movimento popular e operário nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, o golpe de Novembro visou, assim, salvar o novo Estado do capital, que se reerguia a muito custo.
Tudo convergia num ponto: a hierarquia militar tinha de recuperar poder pleno sobre as armas. Sem isso, a salvação do capital ficava, literalmente, sem armas.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Tal foi o 25 de Novembro de 1975, pouco importando a polémica sobre a “saída dos páras” e o alegado “golpe de esquerda”. Como declarou em notável entrevista à TSF, em 2024, o falecido Carlos Matos Gomes, militar de Abril e homem arguto e bem informado, essa é “a chamada justificação para os pobres de espírito e crentes”.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras.
Aí está o pacote laboral, para começar.
Apesar de sabermos que qualquer universo distópico se traduz num cenário imaginado de uma região, país ou sociedade, sabemos igualmente que ele representa o caos, a injustiça, a desigualdade, a opressão, o sofrimento, a tirania ou o totalitarismo. Nesse ambiente indesejável prevalecem o desamparo, a amargura, a angústia, o desespero, o autoritarismo, ou seja, é um sistema que restringe a liberdade, a autonomia e anula a subjetividade. A distopia pode funcionar como uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. As pessoas sentir-se-iam isoladas e sem capacidade para resistir, sem força para se opor. A distopia caracteriza-se, ainda, por possuir múltiplas formas de poder, dominação e controlo, as quais se manifestam, por vezes, de formas visíveis, outras vezes, por meios subtis. Em resumo, um universo distópico idealiza um mundo profundamente desigual, maléfico, doente, alienado e castrador. Porém, uma conjuntura distópica pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica para tudo aquilo que não queremos vivenciar ou experienciar.
Por oposição, a utopia representa o inverso, isto é, traduz-se naquilo que seria uma sociedade ideal, perfeita, harmoniosa, justa e desejável. É um lugar em que predomina o bem-estar, a igualdade, a ausência de pobreza ou de miséria social, e materializa-se num sistema de governo benevolente (ou até mesmo na ausência dele, embora mantendo o funcionamento da sociedade de forma organizada, equitativa e pacífica). As sociedades utópicas caracterizam-se por promover: 1) a cooperação e o coletivismo (entre todos os membros da sociedade); 2) a elevação de valores éticos e morais (em que o respeito, o bem-estar social e a liberdade de expressão são, efetivamente, valorizados); 3) a educação, a ciência, as técnicas e a tecnologia (as quais são totalmente direcionadas para o bem-comum, isto é, são unicamente utilizadas para benefício de toda a humanidade e representam um património que intrinsecamente lhe pertence, fruto do conhecimento passado de geração em geração); 4) a harmonia social e ambiental (é obrigatório manter uma relação equilibrada do Homem com a natureza). Resumidamente, uma sociedade utópica é uma sociedade progressista, emancipatória e humanista. O termo original foi criado por Thomas More, no seu livro Utopia (1516), cujo significado é, literalmente, "lugar nenhum" (originário do grego ou = não, e topos = lugar), que nos remete para um ideal inalcançável. Metaforicamente, é como se caminhássemos para tentar alcançar o lugar mais distante na linha do horizonte (mas, simultaneamente, quando mais caminhamos, novos lugares vão surgindo no nosso campo de visão).
Na realidade, os dois conceitos, distopia e utopia, tal como já referido, remetem-nos para sociedades imaginárias. Porém, atualmente, estamos submersos em sociedades que parecem mais próximas de poderem ser consideradas distópicas do que utópicas. Um elemento-chave que ajuda a compreender este fenómeno é o facto de vivermos em sociedades-do-lucro-omnipresente-e-omnipotente. Nesta conjuntura, o Homem deixou de ser um fim em si mesmo (Kant teria rejeitado essa visão utilitarista e instrumental do ser humano) e esse lugar passou a ser ocupado pelo “deus lucro”. Porém, isso representa uma extraordinária (e inaceitável) inversão de valores sociais e morais.
Os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza.
É verdade que os problemas sociais, económicos, políticos e ambientais do mundo hodierno são complexos e estão profundamente interligados. Não raras vezes, estes tópicos são exacerbados pelo processo de globalização, incluindo todas as suas contradições. Um dos paradoxos mais evidentes na atualidade é pautado pela relação (desestruturante) entre capital e trabalho, embora vá muito além dela. A título ilustrativo, enumeramos alguns exemplos de problemas marcantes vividos no mundo contemporâneo, nomeadamente ao nível das desigualdades económicas e sociais: os dados atuais demonstram que os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza. As três maiores fortunas do mundo possuem um montante superior ao PIB de quase 60 países mais pobres. Isto significa que vivemos num mundo em que reina a injustiça social e se reproduz uma atroz assimetria na distribuição dos recursos produzidos, por via do trabalho, através da classe trabalhadora. Paralelamente, as últimas estimativas revelam que mais de 200 milhões de trabalhadores vivem na condição de pobreza extrema, ganhando o equivalente a, aproximadamente, 2 euros por dia. Sublinho que estamos a falar de trabalhadores, ou seja, alguém que trabalha, mas, ainda assim, não consegue sair da pobreza extrema. Apresento, como exemplo, um episódio real relatado por Vincent Gaulejac, na obra La société malade de la gestion, o qual indica que um empresário de uma multinacional recebeu 16,2 milhões de euros por ter tomado a decisão de encerrar 38 lojas dessa empresa e, consequentemente, enviado para o desemprego centenas de trabalhadores. Este montante, auferido devido a um único ato de gestão, representa o equivalente a mil anos de salário médio dos trabalhadores que foram demitidos. Surpreendentemente, o mesmo empresário, referiu que não se sentia bem pago para exercer aquela “tão dura profissão”. Vale a pena interrogarmo-nos: qual o valor que atribuímos ao trabalho para sustentar uma tão grande discrepância de rendimentos? Como podemos explicar e justificar esta insanidade, sem a apelidar como algo profundamente distópico?
Segundo os dados de um relatório recente da OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho. Também dados recentes indicam que o desemprego global se cifra em cerca de 210 milhões de trabalhadores desempregados. Isto representa uma verdadeira hecatombe social, política e económica. É igualmente pertinente referir que, ao nível global, as disparidades no acesso à educação, aos serviços de saúde, à habitação, à quantidade e qualidade da alimentação (fome e/ou má nutrição) e a empregos decentes são gritantes e evidentes. Por vezes, muitos destes aspetos têm como pano de fundo as diferentes formas de violência, cujo expoente máximo está normalmente associado aos conflitos armados, ou ainda a situações oriundas de crises ambientais e alterações climáticas.
Em relação a este último ponto, vale a pena ler o relatório da Oxfam International, publicado em outubro de 2025, cujo título é expressivo: “Saque Climático: como poucos poderosos estão a levar o planeta ao colapso.” Neste documento, é afirmado que o grupo dos 0,1% mais ricos do planeta polui, em apenas um dia, mais do que uma pessoa dos 50% mais pobres durante um ano inteiro. É também defendido que a crise climática é uma crise de desigualdade. Estes são alguns traços que nos levam a sugerir que o mundo atual está mais próximo da distopia do que da utopia.
Segundo a OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho.
Agora, imaginem que num futuro próximo seria criado um parlamento global. Esse órgão político transnacional estava a discutir uma legislação que iria proibir todas as formas de exploração entre seres humanos. Anteriormente, já tinham sido dados passos significativos nesta direção, considerando que há uns anos os lucros das empresas (que maioritariamente iam para os bolsos dos acionistas ou proprietários) não poderiam agora ultrapassar a margem de 5% do lucro total. Uma parte dos restantes 95% dos lucros era distribuída, equitativamente, por todos os trabalhadores da empresa e, a outra parte, era alocada para o Estado Providência do respetivo país. Naturalmente que neste novo modelo não existia a possibilidade de rutura ou de falência da segurança social. O desemprego era igualmente proibido, visto que o trabalho que cada um executa representa aquilo que cada trabalhador pode oferecer ao bem comum. Ninguém é tido como “inútil”, porque a existência e a dignidade não estão associadas à capacidade de produzir. Uma sociedade de pleno emprego, deste ponto de vista, traduz-se no limite máximo da qualidade de vida dessa mesma sociedade. Porque a divisão social do trabalho é justa e equitativa. Claro que haveria pessoas que não trabalhavam (no sentido estrito do termo), não porque não quisessem, mas porque, efetivamente, não podiam! Imaginem também que o mesmo parlamento global fazia a promoção plena da paz mundial e proibia todo e qualquer tipo de guerra armada. A fome, a pobreza e a exclusão social eram igualmente proibidas.
Estes tópicos direcionam-nos para aquilo que hoje designaríamos como uma sociedade utópica. A eliminação das desigualdades tinha sido possível porque as populações tinham compreendido, verdadeiramente, o que tinha estado na base da sua génese (para isso evocamos as sábias palavras de Jean-Jaques Rousseau sobre a origem das desigualdades humanas): “O primeiro [Homem] que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer “Isto é meu”, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado o género humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!”
Para terminar, peço-lhe que recorra uma última vez à imaginação e faça a seguinte experiência mental: pense que está no cenário idealizado por John Rawls, desiganado por “véu da ignorância”, ou seja, não sabe antecipadamente qual será a posição social que lhe irá caber, quais serão as suas capacidades e aptidões naturais, qual será a sua identidade (em termos de género, etnia ou orientação sexual), nem quais serão as suas crenças religiosas, filosóficas ou até as metas de vida. Perante este contexto idealizado e ignorando totalmente as características em que seria colocado no mundo, caso tivesse de fazer uma escolha, escolheria viver numa sociedade distópica ou utópica?
O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?
Na semana passada, o governo direitista de Portugal, pressionado pelo partido de extrema-direita fascista Chega, conseguiu pôr termo à possibilidade de imigrantes dos países dependentes virem trabalhar para Portugal. Até agora, era possível a muitos estrangeiros entrarem com um visto de turista e depois “manifestarem interesse” em trabalhar, acabando por obter autorização de residência. Agora, os imigrantes potenciais passam a ter de candidatar-se, nos seus países de origem, a vistos para trabalhar. Mas vejam só: a regra não é aplicável a candidatos a empregos “altamente qualificados”. Profissionais estrangeiros com “qualificações avançadas” continuam a poder entrar em Portugal para procurar emprego e trabalho desde que sejam contratados antes de o visto expirar. Analogamente, os trabalhadores “remotos” continuam a ser elegíveis para viver e trabalhar em Portugal.
As novas leis são notoriamente discriminatórias contra os imigrantes pobres dos países dependentes do Sul. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso? As estatísticas da Comissão Europeia indicam que a mão de obra migrante não enfraqueceu a economia portuguesa; fortaleceu-a! “800 mil imigrantes contribuem com mais de mil milhões de euros para o sistema de segurança social, ao passo que só recebem aproximadamente 257 milhões de euros em benefícios sociais, deixando um saldo positivo de mil e seiscentos milhões de euros”.
Há várias décadas que magotes de jovens deixam Portugal em busca de melhores oportunidades económicas noutros países da UE. Nos últimos anos, indianos, nepaleses e bengalis colmataram a lacuna deixada na força de trabalho portuguesa. Vêm trabalhar para explorações de frutos vermelhos no Alentejo agrícola. “Nós deixámos o nosso país. Jovens portugueses têm deixado o seu. Há quem não goste que nós cá estejamos, mas somos nós que estamos a revitalizar esta região e a fazer entrar cá muito dinheiro”, diz um trabalhador nepalês sob anonimato. “A razão principal por que Portugal tem visto aumentar o número de imigrantes é porque precisa deles”, diz Luís Pinheiro, ex-diretor da Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA). O sector agrícola português continua em expansão rápida, particularmente devido à procura cada vez maior de frutos silvestres, que depende principalmente de trabalhadores da Ásia Meridional. Em 2023, as receitas de exportação de bagas atingiram quase 300 milhões de euros, sendo a maioria enviada para supermercados alemães e britânicos. “Portugal tem uma grande procura de mão de obra em certas áreas de atividade económica, e estes migrantes continuam a chegar porque há procura de mão de obra”. Longe de ser abuso, a imigração tem sido um trunfo essencial para a economia portuguesa, particularmente em sectores-chave da agricultura e da indústria do lazer, assente em salários baixos, que correspondem a empregos que os cidadãos portugueses resistem a procurar, por os salários serem muito baixos. O atual salário mínimo é de apenas 820 euros por mês, que mal deixa a quem trabalha o suficiente para sobreviver. Depois de custear o alojamento, as dívidas e o envio de dinheiro para a família, muitos trabalhadores imigrantes ficam com apenas 100-150 euros por mês. Muitas destas aldeias e vilas ficam longe das cidades, no Alentejo, o que torna mais difícil documentar violações de direitos humanos e laborais. Muitos suportam condições extraordinariamente difíceis. “É uma espécie de militarização do trabalho. Tens de obedecer a tudo, mesmo que seja a coisa mais estúpida que se possa imaginar. Se trabalhas 12 horas, devias receber pagamento de horas extraordinárias; mas eles pagam apenas 6,50 euros e ainda queriam mais horas. Isso era para os trabalhadores permanentes. Imagina agora para os temporários”, diz o ativista laboral do Alentejo Alberto Matos.
Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia.
Shollomian, de Sylhet, no Bangladeche, que veio para Portugal com um visto de turista, trabalha numa quinta de frutos vermelhos em São Teotónio. Diz que trabalha entre 8 e 12 horas por dia, começando às 5-6 h da manhã. Foi-lhe dito que receberia uma autorização de residência no prazo de 12 a 14 meses, mas, 24 meses passados, continua à espera. Apesar disso, envia 100 a 400 euros à família sempre que pode e está otimista. “Vim para Portugal há dois anos quando vi anúncios de trabalho em Portugal nas redes sociais. Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia, em condições difíceis. Ganho 50 euros por dia. Temos de colher oito quilos por cada quatro horas. É dificílimo, na quinta faz muito calor, não nos dão água, às vezes sangro do nariz. Não nos dão comida, temos de trazer a nossa. Envio por mês 230-450 euros para a família, no Nepal. Ao fim de dois anos, continuo sem autorização de residência.”
“Há, atualmente, pelo menos, 400 mil pessoas, na sua maioria migrantes indianos e nepaleses, que aguardam renovação das suas autorizações de residência. Encontram-se numa situação muito vulnerável, porque os empregadores aproveitam-se. Não podem perder o emprego, por isso têm de aceitar todas as exigências dos empregadores”, afirma a Dra. Alexandra Pereira, bolseira de pós-doutoramento na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, especializada em migração nepalesa, particularmente para Portugal e a Europa.
A situação dos sul-asiáticos é perigosa, pois estão mais à mercê dos traficantes e das máfias que os trazem para Portugal e da exploração dos empregadores. No Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, há muitas agências que continuam a burlar e a lucrar à grande com os recém-chegados e migrantes com documentação insuficiente, convencendo-os a comprar serviços de que não precisam e fazendo-lhes crer que ainda é possível legalizarem a sua situação.
Ao fechar a porta à legalização, o Governo abriu o mercado negro de mão de obra humana. Muitos trabalhadores chegam profundamente endividados, depois de pagarem quantias exorbitantes para virem a Portugal com vistos de turista, de trabalho ou vistos UE expirados. Alberto Matos diz que os migrantes lhe contam que “bem, eu paguei 15 a 20 mil euros, na Índia, para vir trabalhar para Portugal. Eles endividam-se, têm de pagar as dívidas anos a fio, ficam escravos da dívida. As próprias famílias, no país de origem, são obrigadas a pagar a dívida e são ameaçadas pelas máfias locais”.
De acordo com a direção da Migração e Assuntos Internos da Comissão Europeia, “observou-se que a maioria das vítimas confirmadas de tráfico se enquadravam no tráfico de seres humanos para exploração laboral (72,8%); desses, 73,2% no sector agrícola”. As estatísticas são especificamente piores no Alentejo, onde se contaram 51,7% das vítimas confirmadas de tráfico de seres humanos em Portugal entre 2008 e 2021; dessas, 74,5% traficadas para fins de exploração laboral. “Devido à enorme extensão geográfica dos locais onde são colocados para trabalhar, geralmente no interior da região do Alentejo ou no Oeste do país, com condições de acesso difíceis, a deteção pelas autoridades responsáveis pela supervisão das condições de trabalho e permanência em Portugal é difícil.”
As grandes empresas frutícolas estão no âmago da situação. Como afirma Matos, “a Driscoll's controla Odemira inteira. Vendem as patentes e, pelo meio, há uma grande exploração. No fim da linha, dizem: ‘façam o favor de nos darem os frutos vermelhos, nós é que sabemos comercializá-los nos mercados internacionais.’ Costumamos dizer que a região de Odemira é uma espécie de barriga de aluguer da Driscoll’s.” Se há “abuso de hospitalidade”, como clama o primeiro-ministro Montenegro, quem abusa não são os imigrantes, são os empregadores.
Não tarda nada que gente como o Chega venha exigir a deportação de milhares de trabalhadores para os seus “países de origem”. Só que a situação económica e política no Bangladeche e no Nepal é horrenda. O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, embora o estilo de vida luxuoso das famílias políticas — roupas de marca, viagens ao estrangeiro e carros de luxo — contraste com a dura realidade que os jovens enfrentam. “Toda a gente se quer ir embora [do Nepal]. Há poucas oportunidades de emprego, crises políticas e económicas constantes; os jovens querem encontrar uma vida melhor, salários mais altos: as pessoas ganham 200 euros por mês.” Acrescem agora perigos reais. No mês passado, o governo do Nepal caiu e houve um golpe militar. A polícia matou 22 pessoas num protesto contra a corrupção.
A situação não é melhor no Bangladeche, país muitíssimo povoado. Há cerca de 37,7 milhões de pessoas em insegurança alimentar no país. Mais de um quarto das famílias endividam-se para suprir necessidades diárias, incluindo comida. Um inquérito do think tank South Asia Network on Economic Modeling mostrou que 28% das famílias recorrem a empréstimos para sobreviver. Quase duplicou o número médio de empréstimos por família. No ano passado, o exército e a polícia mataram mais de trezentas pessoas envolvidas em protestos contra o governo, até que a então primeira-ministra Hasina fugiu do país, levando milhares de milhões na bagagem.
Assim, as 400 mil pessoas que aguardam a renovação dos vistos não têm maneira de voltar para casa, ao contrário dos muitos portugueses que deixaram o seu país em busca de uma vida melhor e empregos melhores, mas podem regressar. Portugal precisa destes imigrantes, geralmente jovens e industriosos, e da sua mão-de-obra (e das suas receitas fiscais) para contribuir para sustentar quem vive no país. O que é necessário não são controlos de imigração rigorosos, enviesados contra os asiáticos pobres, nem deportações, que muito debilitariam a economia portuguesa. Necessário é que trabalhadores portugueses e imigrantes façam campanha juntos, com os sindicatos, para acabar com a exploração dos trabalhadores migrantes, aumentar o salário mínimo e melhorar as condições de trabalho para todos. Enquanto forem obrigados a trabalhar por salários baixos e em condições precárias, os trabalhadores imigrantes prejudicam a capacidade negocial de todos os trabalhadores em Portugal. É com este “abuso de hospitalidade” que temos de acabar, não aumentá-lo.
Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são: permitir a “uberização” de todos os trabalhadores; e normalizar a semana de trabalho de 50 horas.

Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são permitir a “uberização” de todos os trabalhadores e normalizar a semana de trabalho de 50 horas. Politicamente, o eixo principal é uma grande restrição dos direitos de greve e organização sindical. No conjunto, abre-se portas ao despedimento de funcionários públicos e a usar as nossas reformas para especular na bolsa.
É este conjunto de medidas que levou a que se faça uma parada militar para celebrar o 25 de Novembro, tentando apagar o período revolucionário de 1974-75, com a mudança de regime em Portugal e o fim da guerra colonial. E o fim do momento mais democrático da nossa história, quando, nos locais de trabalho, se elegeram comissões democráticas com mandatos revogáveis se não cumprissem o decidido pelos trabalhadores.
Quase 70% dos portugueses que trabalham ganham menos de 890€ por mês líquidos. O que propõem o Governo, a IL, o Chega… e o PS, que aprovou o Orçamento de Estado?
Uberizar, como tarefeiros, motoristas de carga, médicos ou enfermeiros, professores; legalizar, nas cantinas, empresas de segurança; falências fraudulentas; permitir, na TAP, abrir uma rota nova com trabalhadores externos; com o banco de horas, deixar de pagar até 15% do salário de todos os trabalhadores; o horário de trabalho oficial passar para 50 horas. E precariedade para sempre, impedindo ter um lar, uma família, segurança, uma casa para viver e receber os amigos. Permitir o despedimento sem justa causa. Nada disto foi sequer sufragado na campanha eleitoral, onde Montenegro e a sua AD esconderam dos eleitores as suas intenções.
Não era preciso uma greve geral, diz o líder do Chega, financiado pela Paulo Duarte, Barraqueiro, bancos, grandes empresas de agricultura intensiva. Há que flexibilizar e despedir na função pública, diz a IL – na apresentação da sua candidatura esteve a CEO da empresa Hospital da Luz, de propriedade chinesa. A ministra do Trabalho de Montenegro, Palma Ramalho, tem um património declarado de mais de 5 milhões de euros e, pasme-se, por coincidência é mulher de António Ramalho, que acabou de receber 7 milhões de euros pela venda do falido Banco Espírito Santo a um fundo financeiro abutre do Texas.
Se amanhã Ramalho adquirir 10 imóveis para especulação com 7 milhões, esse património é seu ou nosso? Como podemos tolerar que quem trabalha não tenha o direito inviolável à sua própria casa?
Mais de um milhão de pessoas faz turnos noturnos em Portugal, que implicam, como mostram estudos, um aumento da taxa de cancro e outras doenças da ordem dos 35% em média, só pela quebra dos ciclos de sono. Mais de 50% dos portugueses trabalha até 70 horas semanais, sem contar a deslocação para o trabalho.
Um casal, para viver com o mínimo de dignidade teria, segundo estudos sérios, de receber pelo menos 2500 euros por mês. Mesmo assim, só falamos de pagar o essencial. Como vivem os mais de 70% dos trabalhadores portugueses que recebem 800 euros? Hoje há mais de um milhão de trabalhadores sem direitos em Portugal. Se questionarem as condições de escravatura em que trabalham, podem ser expulsos, pois são imigrantes, criminalizados pela AD-Chega.
Uma greve não se decreta, organiza-se. Está em causa mais do que o pacote laboral, que já por si afeta mais de 8 milhões de trabalhadores e suas famílias. Se o Governo vencer e se mantiver em funções depois da greve e avançar com o pacote laboral, a sua classe social e o seu Estado já anunciaram o seu programa. Avançar com despedimentos na função pública (IL) e fazer as reformas e pensões entrarem na bolsa (AD, Chega e IL).
Não foi isso a revolução, que a direita odeia e quer enterrar, celebrando o 25 de Novembro numa parada militar, com um orçamento de 5% do PIB para a guerra, maternidades fechadas — enquanto as mães, na Ucrânia, na Rússia e em Gaza, visitam os filhos no cemitério?
Esta greve geral pode ser um extraordinário momento de transformação e esperança para a maioria dos portugueses. A chave do seu sucesso está na própria capacidade dos seus líderes de abrirem espaço também a novos dirigentes, em vez de se eternizarem no poder nos sindicatos ou se deixarem anestesiar na concertação social. Com plenários em cada sector, reuniões onde todos possam falar (e sejam protegidos para isso, fazendo-o às escondidas se necessário), piquetes à porta das fábricas e empresas onde se converse, ouvindo todos e se decida que outras formas de luta se devem organizar, deixando a imaginação, dedicação e ousadia dos trabalhadores em coletivo pensar em como vencer — e que tipo de sociedade querem construir.
O movimento social como um todo. É isso uma greve. Ela deve ser um espaço de equipas, cooperação, debate aberto e livre, decisões democráticas. E deve dialogar com todos – das lutas dos jovens contra as propinas às das populações do Fundão, Castelo Branco ou Montalegre, dos funcionários públicos contra o SIADAP às associações por vidas justas e habitação para todos. Juntar a esta luta o mais de um milhão de imigrantes, que não votam, mas trabalham e sustentam a segurança social. Temos de organizar em cada bairro, escola, hospital e fábrica espaços comuns de democracia real. Não é isso a democracia? Não foi isso a revolução, que a direita odeia e quer enterrar, celebrando o 25 de Novembro numa parada militar, com um orçamento de 5% do PIB para a guerra, maternidades fechadas, enquanto as mães, na Ucrânia, na Rússia e em Gaza, visitam os filhos no cemitério?
A greve é um acto de parar para reparar. Reparar o corpo exausto. Mas também reparar (olhar, pensar). Parar esta marcha delirante que nos arrasta para o precipício.
O estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa.

Lev S. Vigotski, Evald Vasilievich Ilyenkov e Vasili V. Davidov afirmavam que o papel da escola era criar condições propícias para que as crianças aprendessem os conhecimentos teóricos. Essa ideia baseava-se em dois pressupostos. Primeiro, que os conhecimentos empíricos – que constituíam o conteúdo principal do currículo da época – aprendem-se muito melhor fora da escola, pois são produzidos a partir do contacto direto com a realidade. Segundo, que o conhecimento teórico só pode ser aprendido na escola, por depender de uma forma de organização da aprendizagem coletiva que conduz ao desenvolvimento psíquico e subjetivo.
Os conhecimentos empíricos se manifestam na forma de conceitos espontâneos e habilidades específicas (por exemplo, um aluno que decora a tabuada cantando uma música ou que aprende a usar a vírgula copiando o padrão dos textos que lê, sem entender a regra gramatical). Já os conhecimentos teóricos se expressam por meio de conceitos científicos e modos generalizados de ação (habilidades gerais). Os primeiros conhecimentos resultam de abstrações formais, obtidas a partir de aspectos secundários dos objetos e fenômenos em estudo (exemplo: um estudante que resolve a equação de 2º grau apenas aplicando a fórmula de Bhaskara de maneira mecânica, sem compreender a relação da equação com uma parábola ou o significado de seus coeficientes). Os segundos são abstrações substantivas, que resultam da análise dos aspectos essenciais desses mesmos objetos e fenômenos (exemplo: o mesmo estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa).
A natureza de cada tipo de conhecimento é definida pelos métodos de apreensão da realidade e de aprendizagem coletiva que se adotam. Os conhecimentos empíricos apoiam-se no método indutivo (do particular para o geral, do concreto para o abstrato). Os conhecimentos teóricos sustentam-se no método dedutivo ou na ascensão do abstrato ao concreto (do geral para o particular). Na escola, o método adotado para o primeiro costuma ser o expositivo ou explicativo-ilustrativo. Para o segundo, são os métodos de quase-pesquisa e de diálogo de estudo.
Por esse motivo, é um engano perigoso acreditar que dominamos os conhecimentos teóricos quando somos capazes de repetir suas definições com precisão. Podemos recitar as leis de Newton, descrever o conceito de “mais-valia” ou explicar a teoria da relatividade com um vocabulário impecável e, ainda assim, não termos verdadeiramente compreendido a essência do que essas palavras representam.
Os conhecimentos teóricos genuínos constituem uma estrutura mental, uma rede de relações, implicações, contextos e aplicações que construímos internamente, integrada fundamentalmente por dois componentes: os conceitos científicos e os modos generalizados de ação.
Pense em aprender a andar de bicicleta. Você pode ler todos os manuais do mundo, decorar o princípio físico do equilíbrio, a função do guiador e a dinâmica das rodas. Pode verbalizar perfeitamente como se faz. Mas só saberá de verdade quando subir na bicicleta e, após tropeços e ajustes, seu corpo e sua mente internalizarem aquele “ponto de equilíbrio”. A teoria se tornou conhecimento na prática; tornou-se uma “sensação” assimilada. O mesmo ocorre com qualquer teoria complexa.
O conhecimento teórico real se manifesta quando:
Quando nos limitamos à verbalização vazia, caímos no que o educador Paulo Freire chamava de “educação bancária”, na qual o estudante é um mero depositário de frases e fórmulas. Ele pode “devolver” o conteúdo na prova, mas esse conteúdo não o transformou, não ampliou sua visão de mundo.
O verdadeiro conhecimento não habita nas páginas dos livros ou na fluência do discurso. Ele habita na mente que é capaz de manipular, criar, criticar e conectar ideias. A verbalização é a ferramenta poderosa para compartilhar esse conhecimento, mas não é o conhecimento em si. É a ponta visível de um vasto icebergue de compreensão que se esconde sob a superfície do mero falar.
Uma operação mortal a serviço de uma política de repressão e de destruição dos serviços públicos.

Um verdadeiro massacre foi perpetrado em duas favelas na zona norte do Rio de Janeiro em 29 de outubro, por ordem do governador bolsonarista Cláudio Castro, do PL. A operação mobilizou 2500 soldados e policiais nas favelas do Alemão e da Penha. Custou a vida de quase 150 moradores e 4 policiais.
O "combate ao narcotráfico" invocado é apenas um pretexto para esta demonstração de força militar. Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas e pertencem à classe capitalista. Por exemplo, uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro (as fintechs) com sedes na luxuosa Avenida Faria Lima.
No Rio, cerca de 22,16% (aproximadamente 1,5 milhão) da classe trabalhadora vive nas favelas, em condições precárias, até mesmo miseráveis. Os programas sociais implementados pelo governo Lula aliviaram a fome de alguns milhões de brasileiros, no entanto, não erradicaram a pobreza.
Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas (…) uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro.
Essa ação criminosa de um governador do Partido Liberal, partido de Bolsonaro, ecoa a política de Trump de rotular traficantes de drogas como "narcoterroristas", portanto "em guerra" com o Estado (e, em consequência, com os Estados Unidos). Não é coincidência que o governador Cláudio Castro tenha viajado aos Estados Unidos há dois meses para discutir essa questão com o governo Trump.
Um projeto de lei para classificar esses grupos como "narcoterroristas" está sendo debatido no Congresso Nacional. O senador Flávio Bolsonaro declarou recentemente que os militares americanos deveriam bombardear barcos de contrabandistas na baía de Guanabara como estão fazendo no Mar do Caribe em ameaça à soberania venezuelana.
Essas operações policiais, como as de ontem, paralisam os serviços públicos nas áreas afetadas, interrompendo seu funcionamento, o que diz muito sobre o desprezo da classe dominante pela população das favelas.
O projeto de reforma administrativa atualmente em tramitação no Congresso Nacional, por pressão da política de "ajuste orçamentário" (Arcabouço Fiscal) do governo Lula para o pagamento de uma dívida pública ilegitima, visa destruir esses serviços públicos e abrir caminho para suas privatizações. Esse Congresso, inimigo do povo, que tentou emplacar a PEC da bandidagem, rejeitada pela ampla maioria da população, não tem qualquer legitimidade democrática para destruir uma conquista histórica da população.
Por ora, as lideranças dos sindicatos do setor público protestam timidamente sem exigir a retirada do projeto e sem colocar em preparação uma paralisação geral nacional do funcionalismo. Vale lembrar que fortalecimento dos serviços públicos nas favelas atenderia às necessidades básicas e criaria empregos para jovens, muitos dos quais atualmente sem outra perspectiva senão serem contratados por traficantes de drogas.
Após a intervenção policial, o governo Lula propôs a aprovação imediata da PEC da Segurança, que integra as forças de segurança de todas as esferas governamentais sob controle do governo central, reforçando seu poder bélico. Isso não impedirá novos massacres.
As organizações de trabalhadores devem condenar os massacres policiais e exigir a apuração dos fatos, o fim do governo Castro imediatamente e a dissolução da Polícia Militar, instituição herdada da ditadura. Elas devem lançar uma campanha para proteger os jovens nas favelas por meio da criação de serviços públicos e de erradicação da miséria. Dinheiro para isso existe, desde que o governo cesse suas isenções fiscais para grandes corporações e bancos, tribute os ricos e pare de pagar uma enorme dívida pública ilegítima. As organizações de trabalhadores e jovens devem também convocar uma luta unida dos servidores públicos e da população pela retirada do projeto de "reforma administrativa" que destruirá os serviços públicos agravando a miséria das populações pobres.
De maneira mais geral, devemos lutar para derrotar Trump e suas políticas belicistas para a Venezuela e a América Latina sob o falso pretexto de "combater o narcotráfico".
Diz-se por aí que entregar a CP aos privados é a solução para todos os males. Que com a concessão virão comboios sem atrasos, trabalhadores sem greves e passageiros sem problemas.

A promessa é tentadora, mas falsa. Quem conhece a ferrovia sabe que nenhum serviço público melhora quando se troca o interesse das pessoas pelas contas de resultados. A concessão não elimina conflitos, elimina direitos. Nos países onde o caminho-de-ferro foi privatizado, como o Reino Unido, as greves não desapareceram. Multiplicaram-se. Quando o lucro se impõe à dignidade, os trabalhadores são empurrados para o silêncio ou para a rutura. E quando não há voz dentro das empresas, a primeira vítima é a segurança. Fala-se muito de eficiência e pouco de responsabilidade. Veja-se o exemplo do Elevador da Glória, em Lisboa: entregue a privados, com manutenção subcontratada, acabou por falhar com gravidade. Feridos. Pânico. Um aviso claro: quando se corta na manutenção, o preço não é económico, é humano. Na CP, uma avaria não para um carril. Pode custar vidas. Quem trabalha na ferrovia não quer fazer greve. Quer trabalhar com dignidade. Os técnicos de manutenção que passam noites a garantir tudo o que diz respeito à segurança — travões, sistemas elétricos, sinalização —, os maquinistas que atravessam o país de madrugada, os revisores que asseguram cada partida, todos sabem que um comboio não é um negócio. É uma responsabilidade nacional. Leva estudantes, idosos, trabalhadores, famílias inteiras. Não se gere à boleia do lucro, gere-se com compromisso público. Portugal não precisa de menos ferrovia, precisa de mais. Mais linhas, mais ligações ao interior, mais mobilidade para fixar pessoas fora dos grandes centros. Sem investimento público no caminho-de-ferro, falar em descentralização é apenas retórica. Um país coeso viaja sobre carris, não sobre promessas privadas. Privatizar a operação ou a manutenção da CP é colocar um intermediário entre o cidadão e o Estado, um intermediário que só fica onde há dinheiro. Linhas do interior? Populações isoladas? Tarifas sociais? Não cabem nos relatórios de acionistas. O caminho-de-ferro português não nasceu para dar lucro. Nasceu para ligar pessoas. E quem o serve todos os dias não pede privilégios, pede apenas condições para garantir que todos chegam bem ao destino.









Viajo em contramão Reverto sempre o sentido Apanho tudo pela frente Sigo em contracorrente Os olhares que me reprovam Servem-me de alimento Deixei de deixar que me digam Qual o caminho certo Se os outros na sua viagem Seguem a medo, pela margem Quando a vida é um rio
Viajo em contramão
Reverto sempre o sentido
Apanho tudo pela frente
Sigo em contracorrente
Os olhares que me reprovam
Servem-me de alimento
Deixei de deixar que me digam
Qual o caminho certo
Se os outros na sua viagem
Seguem a medo, pela margem
Quando a vida é um rio
Que flui até ao mar
Quero deixar-me ficar
A contemplar os olhares
Daqueles também perdidos
Cheios de nada, vendidos
Fitam um novo horizonte
Que viram na televisão
Não me guio pela ilusão
De julgar os que me julgam
Seguir sem esforço, levado
Pela corrente, guiado
Aprecio o desconforto
De seguir em contramão
Aires Fumega

(Objectiva, setembro de 2025) Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e

Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência
O curto período em que fui pastor de ovelhas coincidiu com a queda da bolota. O início deste fenómeno (muito aguardado, por sinal) pode ser um pesadelo para os pastores, sobretudo para quem, como me aconteceu, tem a seus cuidados um rebanho composto por uns 200 animais de variada proveniência e recém agregado, trabalhando num terreno acidentado, coberto de mato e (ainda) livre de cercas. As ovelhas ficam alucinadas e difíceis de apascentar como se fossem um ror de gatos largados pelos montes!
Assim que, ao raiar do dia, abrimos o redil, as ovelhas saíram à disparada, todas correndo em direções opostas! E passaram o dia inteiro nisto: a cada árvore (azinheira ou sobreiro) alcançada, com a sofreguidão da cobiça (chegando a atropelar as próprias crias ainda pequenas, aparentemente sem se importarem), procuram por bolotas, ingerindo pouquíssimas das que encontram esparsas, pois guia-as a fé de que sob a próxima árvore é que estará depositado o sonhado tesouro. A cena repete-se vezes sem conta até ao ocaso.
Na hora dos exasperados arrebanhadores as trazerem de volta para o aprisco, estão exaustas, tendo consumido mais energia no afã de perseguir a sorte grande das bolotas, do que as que comeram, deixando a maioria intocada no chão.
Não sei quanto a vocês, mas isto parece-me uma boa metáfora para a nossa sociedade capitalista. A grande diferença é que não demora a cair uma tal abundância de bolotas que todas as ovelhas ficam satisfeitas, restaurando-se a paz pastoril. Ainda assim, é mais fácil encontrarmos pastores estelionatários nas igrejas, do que pastores filósofos nos campos.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Passaram esta semana cinquenta anos do golpe de 25 de Novembro de 1975, marco importante na história da revolução e da contra-revolução em Portugal.
O governo e a assembleia de maioria de direita e neofascista decidiu marcar o evento com uma parada militar e uma cerimónia na Assembleia da República “idêntica” à do 25 de Abril (mas com rosas brancas em vez de cravos vermelhos).
O deputado do PS Marcos Perestrello declarou do púlpito que, em 25 de Novembro de 1975, “os mencheviques venceram os bolcheviques”.
Evocava Perestrello um certo diálogo entre Mário Soares e o todo-poderoso ministro americano Kissinger no verão de 1975. Nesse diálogo, Kissinger “acusou” Soares de ser o Kerensky português, isto é, o homem (aliás não menchevique, mas do partido dos “socialistas revolucionários”), que chefiou o governo provisório russo que a revolução dos operários, camponeses e soldados, encabeçada pelos bolcheviques, derrubou em Outubro de 1917. Soares respondeu a Kissinger que não fazia tenções de ser o Kerensky português. E Kissinger respondeu a Soares que também Kerensky não fazia tenções de ser o Kerensky russo.
Nem Perestrello saberá como a sua escolha não foi casual. Ele comparou uma grande revolução operária e socialista com outra grande revolução operária e socialista. Uma vitoriosa, pelo menos inicialmente; a outra, derrotada, pelo menos para já.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
“Para já” é a parte importante.
A frase de Perestrello tem uma parte de verdade; tem, também, uma boa parte de mentira.
Ganharam os mencheviques em 1975? Ganharam — mas os mencheviques nunca “ganham” realmente; quando vencem, apenas abrem caminho aos Montenegros e aos Venturas.
Porém, os mencheviques não venceram os bolcheviques. Poucos bolcheviques havia; quando muito, em algumas organizações revolucionárias, que não ganharam a maioria no movimento operário.
A verdade é outra. Os “mencheviques de direita” de Mário Soares, coligados com a chefia do que restava do “exército do czar” (o Grupo dos Nove e a grande maioria da hierarquia militar) e com os embaixadores das grandes potências, sobretudo EUA e Alemanha (com os golpistas de “Kornilov” na sombra), venceram — porque tinham do seu lado os “mencheviques de esquerda”, chefiados por Álvaro Cunhal.
A direcção do PCP nunca fez tenções de pôr em causa a ordem do pós-guerra, a divisão de “esferas de influência” feita em Ialta e Potsdam entre Stalin e os potentados capitalistas vencedores da IIª Guerra — e reiterada em Helsínquia — que punha Portugal firmemente na esfera da NATO. Boa parte da base do PCP (e, de resto, do PS) tinha outras ideias.
Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.
Os actores principais ainda vivos do golpe de Novembro, Eanes e Vasco Lourenço, repetem à saciedade: o golpe só visava repor a ordem nas forças armadas. Esta “ordem” estava em grave risco ante a auto-organização dos soldados, que convergia com a organização dos trabalhadores nas fábricas e nos bancos, nos campos do Alentejo e do Ribatejo, dos estudantes e professores nas escolas, dos enfermeiros, médicos e outro pessoal nos hospitais, dos moradores nos bairros. Formava-se o embrião de um novo poder.
Esmagado o Estado fascista de Salazar e Caetano pelo movimento popular e operário nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, o golpe de Novembro visou, assim, salvar o novo Estado do capital, que se reerguia a muito custo.
Tudo convergia num ponto: a hierarquia militar tinha de recuperar poder pleno sobre as armas. Sem isso, a salvação do capital ficava, literalmente, sem armas.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.
Tal foi o 25 de Novembro de 1975, pouco importando a polémica sobre a “saída dos páras” e o alegado “golpe de esquerda”. Como declarou em notável entrevista à TSF, em 2024, o falecido Carlos Matos Gomes, militar de Abril e homem arguto e bem informado, essa é “a chamada justificação para os pobres de espírito e crentes”.
Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras.
Aí está o pacote laboral, para começar.
A distopia pode ser uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. Porém, pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica de tudo aquilo que não queremos viver.
Apesar de sabermos que qualquer universo distópico se traduz num cenário imaginado de uma região, país ou sociedade, sabemos igualmente que ele representa o caos, a injustiça, a desigualdade, a opressão, o sofrimento, a tirania ou o totalitarismo. Nesse ambiente indesejável prevalecem o desamparo, a amargura, a angústia, o desespero, o autoritarismo, ou seja, é um sistema que restringe a liberdade, a autonomia e anula a subjetividade. A distopia pode funcionar como uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. As pessoas sentir-se-iam isoladas e sem capacidade para resistir, sem força para se opor. A distopia caracteriza-se, ainda, por possuir múltiplas formas de poder, dominação e controlo, as quais se manifestam, por vezes, de formas visíveis, outras vezes, por meios subtis. Em resumo, um universo distópico idealiza um mundo profundamente desigual, maléfico, doente, alienado e castrador. Porém, uma conjuntura distópica pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica para tudo aquilo que não queremos vivenciar ou experienciar.
Por oposição, a utopia representa o inverso, isto é, traduz-se naquilo que seria uma sociedade ideal, perfeita, harmoniosa, justa e desejável. É um lugar em que predomina o bem-estar, a igualdade, a ausência de pobreza ou de miséria social, e materializa-se num sistema de governo benevolente (ou até mesmo na ausência dele, embora mantendo o funcionamento da sociedade de forma organizada, equitativa e pacífica). As sociedades utópicas caracterizam-se por promover: 1) a cooperação e o coletivismo (entre todos os membros da sociedade); 2) a elevação de valores éticos e morais (em que o respeito, o bem-estar social e a liberdade de expressão são, efetivamente, valorizados); 3) a educação, a ciência, as técnicas e a tecnologia (as quais são totalmente direcionadas para o bem-comum, isto é, são unicamente utilizadas para benefício de toda a humanidade e representam um património que intrinsecamente lhe pertence, fruto do conhecimento passado de geração em geração); 4) a harmonia social e ambiental (é obrigatório manter uma relação equilibrada do Homem com a natureza). Resumidamente, uma sociedade utópica é uma sociedade progressista, emancipatória e humanista. O termo original foi criado por Thomas More, no seu livro Utopia (1516), cujo significado é, literalmente, "lugar nenhum" (originário do grego ou = não, e topos = lugar), que nos remete para um ideal inalcançável. Metaforicamente, é como se caminhássemos para tentar alcançar o lugar mais distante na linha do horizonte (mas, simultaneamente, quando mais caminhamos, novos lugares vão surgindo no nosso campo de visão).
Na realidade, os dois conceitos, distopia e utopia, tal como já referido, remetem-nos para sociedades imaginárias. Porém, atualmente, estamos submersos em sociedades que parecem mais próximas de poderem ser consideradas distópicas do que utópicas. Um elemento-chave que ajuda a compreender este fenómeno é o facto de vivermos em sociedades-do-lucro-omnipresente-e-omnipotente. Nesta conjuntura, o Homem deixou de ser um fim em si mesmo (Kant teria rejeitado essa visão utilitarista e instrumental do ser humano) e esse lugar passou a ser ocupado pelo “deus lucro”. Porém, isso representa uma extraordinária (e inaceitável) inversão de valores sociais e morais.
Os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza.
É verdade que os problemas sociais, económicos, políticos e ambientais do mundo hodierno são complexos e estão profundamente interligados. Não raras vezes, estes tópicos são exacerbados pelo processo de globalização, incluindo todas as suas contradições. Um dos paradoxos mais evidentes na atualidade é pautado pela relação (desestruturante) entre capital e trabalho, embora vá muito além dela. A título ilustrativo, enumeramos alguns exemplos de problemas marcantes vividos no mundo contemporâneo, nomeadamente ao nível das desigualdades económicas e sociais: os dados atuais demonstram que os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza. As três maiores fortunas do mundo possuem um montante superior ao PIB de quase 60 países mais pobres. Isto significa que vivemos num mundo em que reina a injustiça social e se reproduz uma atroz assimetria na distribuição dos recursos produzidos, por via do trabalho, através da classe trabalhadora. Paralelamente, as últimas estimativas revelam que mais de 200 milhões de trabalhadores vivem na condição de pobreza extrema, ganhando o equivalente a, aproximadamente, 2 euros por dia. Sublinho que estamos a falar de trabalhadores, ou seja, alguém que trabalha, mas, ainda assim, não consegue sair da pobreza extrema. Apresento, como exemplo, um episódio real relatado por Vincent Gaulejac, na obra La société malade de la gestion, o qual indica que um empresário de uma multinacional recebeu 16,2 milhões de euros por ter tomado a decisão de encerrar 38 lojas dessa empresa e, consequentemente, enviado para o desemprego centenas de trabalhadores. Este montante, auferido devido a um único ato de gestão, representa o equivalente a mil anos de salário médio dos trabalhadores que foram demitidos. Surpreendentemente, o mesmo empresário, referiu que não se sentia bem pago para exercer aquela “tão dura profissão”. Vale a pena interrogarmo-nos: qual o valor que atribuímos ao trabalho para sustentar uma tão grande discrepância de rendimentos? Como podemos explicar e justificar esta insanidade, sem a apelidar como algo profundamente distópico?
Segundo os dados de um relatório recente da OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho. Também dados recentes indicam que o desemprego global se cifra em cerca de 210 milhões de trabalhadores desempregados. Isto representa uma verdadeira hecatombe social, política e económica. É igualmente pertinente referir que, ao nível global, as disparidades no acesso à educação, aos serviços de saúde, à habitação, à quantidade e qualidade da alimentação (fome e/ou má nutrição) e a empregos decentes são gritantes e evidentes. Por vezes, muitos destes aspetos têm como pano de fundo as diferentes formas de violência, cujo expoente máximo está normalmente associado aos conflitos armados, ou ainda a situações oriundas de crises ambientais e alterações climáticas.
Em relação a este último ponto, vale a pena ler o relatório da Oxfam International, publicado em outubro de 2025, cujo título é expressivo: “Saque Climático: como poucos poderosos estão a levar o planeta ao colapso.” Neste documento, é afirmado que o grupo dos 0,1% mais ricos do planeta polui, em apenas um dia, mais do que uma pessoa dos 50% mais pobres durante um ano inteiro. É também defendido que a crise climática é uma crise de desigualdade. Estes são alguns traços que nos levam a sugerir que o mundo atual está mais próximo da distopia do que da utopia.
Segundo a OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho.
Agora, imaginem que num futuro próximo seria criado um parlamento global. Esse órgão político transnacional estava a discutir uma legislação que iria proibir todas as formas de exploração entre seres humanos. Anteriormente, já tinham sido dados passos significativos nesta direção, considerando que há uns anos os lucros das empresas (que maioritariamente iam para os bolsos dos acionistas ou proprietários) não poderiam agora ultrapassar a margem de 5% do lucro total. Uma parte dos restantes 95% dos lucros era distribuída, equitativamente, por todos os trabalhadores da empresa e, a outra parte, era alocada para o Estado Providência do respetivo país. Naturalmente que neste novo modelo não existia a possibilidade de rutura ou de falência da segurança social. O desemprego era igualmente proibido, visto que o trabalho que cada um executa representa aquilo que cada trabalhador pode oferecer ao bem comum. Ninguém é tido como “inútil”, porque a existência e a dignidade não estão associadas à capacidade de produzir. Uma sociedade de pleno emprego, deste ponto de vista, traduz-se no limite máximo da qualidade de vida dessa mesma sociedade. Porque a divisão social do trabalho é justa e equitativa. Claro que haveria pessoas que não trabalhavam (no sentido estrito do termo), não porque não quisessem, mas porque, efetivamente, não podiam! Imaginem também que o mesmo parlamento global fazia a promoção plena da paz mundial e proibia todo e qualquer tipo de guerra armada. A fome, a pobreza e a exclusão social eram igualmente proibidas.
Estes tópicos direcionam-nos para aquilo que hoje designaríamos como uma sociedade utópica. A eliminação das desigualdades tinha sido possível porque as populações tinham compreendido, verdadeiramente, o que tinha estado na base da sua génese (para isso evocamos as sábias palavras de Jean-Jaques Rousseau sobre a origem das desigualdades humanas): “O primeiro [Homem] que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer “Isto é meu”, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado o género humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!”
Para terminar, peço-lhe que recorra uma última vez à imaginação e faça a seguinte experiência mental: pense que está no cenário idealizado por John Rawls, desiganado por “véu da ignorância”, ou seja, não sabe antecipadamente qual será a posição social que lhe irá caber, quais serão as suas capacidades e aptidões naturais, qual será a sua identidade (em termos de género, etnia ou orientação sexual), nem quais serão as suas crenças religiosas, filosóficas ou até as metas de vida. Perante este contexto idealizado e ignorando totalmente as características em que seria colocado no mundo, caso tivesse de fazer uma escolha, escolheria viver numa sociedade distópica ou utópica?
O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?
O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso?
Na semana passada, o governo direitista de Portugal, pressionado pelo partido de extrema-direita fascista Chega, conseguiu pôr termo à possibilidade de imigrantes dos países dependentes virem trabalhar para Portugal. Até agora, era possível a muitos estrangeiros entrarem com um visto de turista e depois “manifestarem interesse” em trabalhar, acabando por obter autorização de residência. Agora, os imigrantes potenciais passam a ter de candidatar-se, nos seus países de origem, a vistos para trabalhar. Mas vejam só: a regra não é aplicável a candidatos a empregos “altamente qualificados”. Profissionais estrangeiros com “qualificações avançadas” continuam a poder entrar em Portugal para procurar emprego e trabalho desde que sejam contratados antes de o visto expirar. Analogamente, os trabalhadores “remotos” continuam a ser elegíveis para viver e trabalhar em Portugal.
As novas leis são notoriamente discriminatórias contra os imigrantes pobres dos países dependentes do Sul. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou ser seu propósito “acabar com (...) o excesso de abuso da hospitalidade por migrantes”. Abuso de hospitalidade? O que é isso? As estatísticas da Comissão Europeia indicam que a mão de obra migrante não enfraqueceu a economia portuguesa; fortaleceu-a! “800 mil imigrantes contribuem com mais de mil milhões de euros para o sistema de segurança social, ao passo que só recebem aproximadamente 257 milhões de euros em benefícios sociais, deixando um saldo positivo de mil e seiscentos milhões de euros”.
Há várias décadas que magotes de jovens deixam Portugal em busca de melhores oportunidades económicas noutros países da UE. Nos últimos anos, indianos, nepaleses e bengalis colmataram a lacuna deixada na força de trabalho portuguesa. Vêm trabalhar para explorações de frutos vermelhos no Alentejo agrícola. “Nós deixámos o nosso país. Jovens portugueses têm deixado o seu. Há quem não goste que nós cá estejamos, mas somos nós que estamos a revitalizar esta região e a fazer entrar cá muito dinheiro”, diz um trabalhador nepalês sob anonimato. “A razão principal por que Portugal tem visto aumentar o número de imigrantes é porque precisa deles”, diz Luís Pinheiro, ex-diretor da Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA). O sector agrícola português continua em expansão rápida, particularmente devido à procura cada vez maior de frutos silvestres, que depende principalmente de trabalhadores da Ásia Meridional. Em 2023, as receitas de exportação de bagas atingiram quase 300 milhões de euros, sendo a maioria enviada para supermercados alemães e britânicos. “Portugal tem uma grande procura de mão de obra em certas áreas de atividade económica, e estes migrantes continuam a chegar porque há procura de mão de obra”. Longe de ser abuso, a imigração tem sido um trunfo essencial para a economia portuguesa, particularmente em sectores-chave da agricultura e da indústria do lazer, assente em salários baixos, que correspondem a empregos que os cidadãos portugueses resistem a procurar, por os salários serem muito baixos. O atual salário mínimo é de apenas 820 euros por mês, que mal deixa a quem trabalha o suficiente para sobreviver. Depois de custear o alojamento, as dívidas e o envio de dinheiro para a família, muitos trabalhadores imigrantes ficam com apenas 100-150 euros por mês. Muitas destas aldeias e vilas ficam longe das cidades, no Alentejo, o que torna mais difícil documentar violações de direitos humanos e laborais. Muitos suportam condições extraordinariamente difíceis. “É uma espécie de militarização do trabalho. Tens de obedecer a tudo, mesmo que seja a coisa mais estúpida que se possa imaginar. Se trabalhas 12 horas, devias receber pagamento de horas extraordinárias; mas eles pagam apenas 6,50 euros e ainda queriam mais horas. Isso era para os trabalhadores permanentes. Imagina agora para os temporários”, diz o ativista laboral do Alentejo Alberto Matos.
Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia.
Shollomian, de Sylhet, no Bangladeche, que veio para Portugal com um visto de turista, trabalha numa quinta de frutos vermelhos em São Teotónio. Diz que trabalha entre 8 e 12 horas por dia, começando às 5-6 h da manhã. Foi-lhe dito que receberia uma autorização de residência no prazo de 12 a 14 meses, mas, 24 meses passados, continua à espera. Apesar disso, envia 100 a 400 euros à família sempre que pode e está otimista. “Vim para Portugal há dois anos quando vi anúncios de trabalho em Portugal nas redes sociais. Paguei 3 mil euros por um visto através de uma agência em Deli, mais a passagem aérea. Trabalho a colher frutos vermelhos entre 8 e 12 horas por dia, em condições difíceis. Ganho 50 euros por dia. Temos de colher oito quilos por cada quatro horas. É dificílimo, na quinta faz muito calor, não nos dão água, às vezes sangro do nariz. Não nos dão comida, temos de trazer a nossa. Envio por mês 230-450 euros para a família, no Nepal. Ao fim de dois anos, continuo sem autorização de residência.”
“Há, atualmente, pelo menos, 400 mil pessoas, na sua maioria migrantes indianos e nepaleses, que aguardam renovação das suas autorizações de residência. Encontram-se numa situação muito vulnerável, porque os empregadores aproveitam-se. Não podem perder o emprego, por isso têm de aceitar todas as exigências dos empregadores”, afirma a Dra. Alexandra Pereira, bolseira de pós-doutoramento na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, especializada em migração nepalesa, particularmente para Portugal e a Europa.
A situação dos sul-asiáticos é perigosa, pois estão mais à mercê dos traficantes e das máfias que os trazem para Portugal e da exploração dos empregadores. No Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, há muitas agências que continuam a burlar e a lucrar à grande com os recém-chegados e migrantes com documentação insuficiente, convencendo-os a comprar serviços de que não precisam e fazendo-lhes crer que ainda é possível legalizarem a sua situação.
Ao fechar a porta à legalização, o Governo abriu o mercado negro de mão de obra humana. Muitos trabalhadores chegam profundamente endividados, depois de pagarem quantias exorbitantes para virem a Portugal com vistos de turista, de trabalho ou vistos UE expirados. Alberto Matos diz que os migrantes lhe contam que “bem, eu paguei 15 a 20 mil euros, na Índia, para vir trabalhar para Portugal. Eles endividam-se, têm de pagar as dívidas anos a fio, ficam escravos da dívida. As próprias famílias, no país de origem, são obrigadas a pagar a dívida e são ameaçadas pelas máfias locais”.
De acordo com a direção da Migração e Assuntos Internos da Comissão Europeia, “observou-se que a maioria das vítimas confirmadas de tráfico se enquadravam no tráfico de seres humanos para exploração laboral (72,8%); desses, 73,2% no sector agrícola”. As estatísticas são especificamente piores no Alentejo, onde se contaram 51,7% das vítimas confirmadas de tráfico de seres humanos em Portugal entre 2008 e 2021; dessas, 74,5% traficadas para fins de exploração laboral. “Devido à enorme extensão geográfica dos locais onde são colocados para trabalhar, geralmente no interior da região do Alentejo ou no Oeste do país, com condições de acesso difíceis, a deteção pelas autoridades responsáveis pela supervisão das condições de trabalho e permanência em Portugal é difícil.”
As grandes empresas frutícolas estão no âmago da situação. Como afirma Matos, “a Driscoll's controla Odemira inteira. Vendem as patentes e, pelo meio, há uma grande exploração. No fim da linha, dizem: ‘façam o favor de nos darem os frutos vermelhos, nós é que sabemos comercializá-los nos mercados internacionais.’ Costumamos dizer que a região de Odemira é uma espécie de barriga de aluguer da Driscoll’s.” Se há “abuso de hospitalidade”, como clama o primeiro-ministro Montenegro, quem abusa não são os imigrantes, são os empregadores.
Não tarda nada que gente como o Chega venha exigir a deportação de milhares de trabalhadores para os seus “países de origem”. Só que a situação económica e política no Bangladeche e no Nepal é horrenda. O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, embora o estilo de vida luxuoso das famílias políticas — roupas de marca, viagens ao estrangeiro e carros de luxo — contraste com a dura realidade que os jovens enfrentam. “Toda a gente se quer ir embora [do Nepal]. Há poucas oportunidades de emprego, crises políticas e económicas constantes; os jovens querem encontrar uma vida melhor, salários mais altos: as pessoas ganham 200 euros por mês.” Acrescem agora perigos reais. No mês passado, o governo do Nepal caiu e houve um golpe militar. A polícia matou 22 pessoas num protesto contra a corrupção.
A situação não é melhor no Bangladeche, país muitíssimo povoado. Há cerca de 37,7 milhões de pessoas em insegurança alimentar no país. Mais de um quarto das famílias endividam-se para suprir necessidades diárias, incluindo comida. Um inquérito do think tank South Asia Network on Economic Modeling mostrou que 28% das famílias recorrem a empréstimos para sobreviver. Quase duplicou o número médio de empréstimos por família. No ano passado, o exército e a polícia mataram mais de trezentas pessoas envolvidas em protestos contra o governo, até que a então primeira-ministra Hasina fugiu do país, levando milhares de milhões na bagagem.
Assim, as 400 mil pessoas que aguardam a renovação dos vistos não têm maneira de voltar para casa, ao contrário dos muitos portugueses que deixaram o seu país em busca de uma vida melhor e empregos melhores, mas podem regressar. Portugal precisa destes imigrantes, geralmente jovens e industriosos, e da sua mão-de-obra (e das suas receitas fiscais) para contribuir para sustentar quem vive no país. O que é necessário não são controlos de imigração rigorosos, enviesados contra os asiáticos pobres, nem deportações, que muito debilitariam a economia portuguesa. Necessário é que trabalhadores portugueses e imigrantes façam campanha juntos, com os sindicatos, para acabar com a exploração dos trabalhadores migrantes, aumentar o salário mínimo e melhorar as condições de trabalho para todos. Enquanto forem obrigados a trabalhar por salários baixos e em condições precárias, os trabalhadores imigrantes prejudicam a capacidade negocial de todos os trabalhadores em Portugal. É com este “abuso de hospitalidade” que temos de acabar, não aumentá-lo.
Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são: permitir a “uberização” de todos os trabalhadores; e normalizar a semana de trabalho de 50 horas.
Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são: permitir a “uberização” de todos os trabalhadores; e normalizar a semana de trabalho de 50 horas.

Os dois eixos jurídicos desta lei laboral que levou à greve geral são permitir a “uberização” de todos os trabalhadores e normalizar a semana de trabalho de 50 horas. Politicamente, o eixo principal é uma grande restrição dos direitos de greve e organização sindical. No conjunto, abre-se portas ao despedimento de funcionários públicos e a usar as nossas reformas para especular na bolsa.
É este conjunto de medidas que levou a que se faça uma parada militar para celebrar o 25 de Novembro, tentando apagar o período revolucionário de 1974-75, com a mudança de regime em Portugal e o fim da guerra colonial. E o fim do momento mais democrático da nossa história, quando, nos locais de trabalho, se elegeram comissões democráticas com mandatos revogáveis se não cumprissem o decidido pelos trabalhadores.
Quase 70% dos portugueses que trabalham ganham menos de 890€ por mês líquidos. O que propõem o Governo, a IL, o Chega… e o PS, que aprovou o Orçamento de Estado?
Uberizar, como tarefeiros, motoristas de carga, médicos ou enfermeiros, professores; legalizar, nas cantinas, empresas de segurança; falências fraudulentas; permitir, na TAP, abrir uma rota nova com trabalhadores externos; com o banco de horas, deixar de pagar até 15% do salário de todos os trabalhadores; o horário de trabalho oficial passar para 50 horas. E precariedade para sempre, impedindo ter um lar, uma família, segurança, uma casa para viver e receber os amigos. Permitir o despedimento sem justa causa. Nada disto foi sequer sufragado na campanha eleitoral, onde Montenegro e a sua AD esconderam dos eleitores as suas intenções.
Não era preciso uma greve geral, diz o líder do Chega, financiado pela Paulo Duarte, Barraqueiro, bancos, grandes empresas de agricultura intensiva. Há que flexibilizar e despedir na função pública, diz a IL – na apresentação da sua candidatura esteve a CEO da empresa Hospital da Luz, de propriedade chinesa. A ministra do Trabalho de Montenegro, Palma Ramalho, tem um património declarado de mais de 5 milhões de euros e, pasme-se, por coincidência é mulher de António Ramalho, que acabou de receber 7 milhões de euros pela venda do falido Banco Espírito Santo a um fundo financeiro abutre do Texas.
Se amanhã Ramalho adquirir 10 imóveis para especulação com 7 milhões, esse património é seu ou nosso? Como podemos tolerar que quem trabalha não tenha o direito inviolável à sua própria casa?
Mais de um milhão de pessoas faz turnos noturnos em Portugal, que implicam, como mostram estudos, um aumento da taxa de cancro e outras doenças da ordem dos 35% em média, só pela quebra dos ciclos de sono. Mais de 50% dos portugueses trabalha até 70 horas semanais, sem contar a deslocação para o trabalho.
Um casal, para viver com o mínimo de dignidade teria, segundo estudos sérios, de receber pelo menos 2500 euros por mês. Mesmo assim, só falamos de pagar o essencial. Como vivem os mais de 70% dos trabalhadores portugueses que recebem 800 euros? Hoje há mais de um milhão de trabalhadores sem direitos em Portugal. Se questionarem as condições de escravatura em que trabalham, podem ser expulsos, pois são imigrantes, criminalizados pela AD-Chega.
Uma greve não se decreta, organiza-se. Está em causa mais do que o pacote laboral, que já por si afeta mais de 8 milhões de trabalhadores e suas famílias. Se o Governo vencer e se mantiver em funções depois da greve e avançar com o pacote laboral, a sua classe social e o seu Estado já anunciaram o seu programa. Avançar com despedimentos na função pública (IL) e fazer as reformas e pensões entrarem na bolsa (AD, Chega e IL).
Não foi isso a revolução, que a direita odeia e quer enterrar, celebrando o 25 de Novembro numa parada militar, com um orçamento de 5% do PIB para a guerra, maternidades fechadas — enquanto as mães, na Ucrânia, na Rússia e em Gaza, visitam os filhos no cemitério?
Esta greve geral pode ser um extraordinário momento de transformação e esperança para a maioria dos portugueses. A chave do seu sucesso está na própria capacidade dos seus líderes de abrirem espaço também a novos dirigentes, em vez de se eternizarem no poder nos sindicatos ou se deixarem anestesiar na concertação social. Com plenários em cada sector, reuniões onde todos possam falar (e sejam protegidos para isso, fazendo-o às escondidas se necessário), piquetes à porta das fábricas e empresas onde se converse, ouvindo todos e se decida que outras formas de luta se devem organizar, deixando a imaginação, dedicação e ousadia dos trabalhadores em coletivo pensar em como vencer — e que tipo de sociedade querem construir.
O movimento social como um todo. É isso uma greve. Ela deve ser um espaço de equipas, cooperação, debate aberto e livre, decisões democráticas. E deve dialogar com todos – das lutas dos jovens contra as propinas às das populações do Fundão, Castelo Branco ou Montalegre, dos funcionários públicos contra o SIADAP às associações por vidas justas e habitação para todos. Juntar a esta luta o mais de um milhão de imigrantes, que não votam, mas trabalham e sustentam a segurança social. Temos de organizar em cada bairro, escola, hospital e fábrica espaços comuns de democracia real. Não é isso a democracia? Não foi isso a revolução, que a direita odeia e quer enterrar, celebrando o 25 de Novembro numa parada militar, com um orçamento de 5% do PIB para a guerra, maternidades fechadas, enquanto as mães, na Ucrânia, na Rússia e em Gaza, visitam os filhos no cemitério?
A greve é um acto de parar para reparar. Reparar o corpo exausto. Mas também reparar (olhar, pensar). Parar esta marcha delirante que nos arrasta para o precipício.
O estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa.
O estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa.

Lev S. Vigotski, Evald Vasilievich Ilyenkov e Vasili V. Davidov afirmavam que o papel da escola era criar condições propícias para que as crianças aprendessem os conhecimentos teóricos. Essa ideia baseava-se em dois pressupostos. Primeiro, que os conhecimentos empíricos – que constituíam o conteúdo principal do currículo da época – aprendem-se muito melhor fora da escola, pois são produzidos a partir do contacto direto com a realidade. Segundo, que o conhecimento teórico só pode ser aprendido na escola, por depender de uma forma de organização da aprendizagem coletiva que conduz ao desenvolvimento psíquico e subjetivo.
Os conhecimentos empíricos se manifestam na forma de conceitos espontâneos e habilidades específicas (por exemplo, um aluno que decora a tabuada cantando uma música ou que aprende a usar a vírgula copiando o padrão dos textos que lê, sem entender a regra gramatical). Já os conhecimentos teóricos se expressam por meio de conceitos científicos e modos generalizados de ação (habilidades gerais). Os primeiros conhecimentos resultam de abstrações formais, obtidas a partir de aspectos secundários dos objetos e fenômenos em estudo (exemplo: um estudante que resolve a equação de 2º grau apenas aplicando a fórmula de Bhaskara de maneira mecânica, sem compreender a relação da equação com uma parábola ou o significado de seus coeficientes). Os segundos são abstrações substantivas, que resultam da análise dos aspectos essenciais desses mesmos objetos e fenômenos (exemplo: o mesmo estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa).
A natureza de cada tipo de conhecimento é definida pelos métodos de apreensão da realidade e de aprendizagem coletiva que se adotam. Os conhecimentos empíricos apoiam-se no método indutivo (do particular para o geral, do concreto para o abstrato). Os conhecimentos teóricos sustentam-se no método dedutivo ou na ascensão do abstrato ao concreto (do geral para o particular). Na escola, o método adotado para o primeiro costuma ser o expositivo ou explicativo-ilustrativo. Para o segundo, são os métodos de quase-pesquisa e de diálogo de estudo.
Por esse motivo, é um engano perigoso acreditar que dominamos os conhecimentos teóricos quando somos capazes de repetir suas definições com precisão. Podemos recitar as leis de Newton, descrever o conceito de “mais-valia” ou explicar a teoria da relatividade com um vocabulário impecável e, ainda assim, não termos verdadeiramente compreendido a essência do que essas palavras representam.
Os conhecimentos teóricos genuínos constituem uma estrutura mental, uma rede de relações, implicações, contextos e aplicações que construímos internamente, integrada fundamentalmente por dois componentes: os conceitos científicos e os modos generalizados de ação.
Pense em aprender a andar de bicicleta. Você pode ler todos os manuais do mundo, decorar o princípio físico do equilíbrio, a função do guiador e a dinâmica das rodas. Pode verbalizar perfeitamente como se faz. Mas só saberá de verdade quando subir na bicicleta e, após tropeços e ajustes, seu corpo e sua mente internalizarem aquele “ponto de equilíbrio”. A teoria se tornou conhecimento na prática; tornou-se uma “sensação” assimilada. O mesmo ocorre com qualquer teoria complexa.
O conhecimento teórico real se manifesta quando:
Quando nos limitamos à verbalização vazia, caímos no que o educador Paulo Freire chamava de “educação bancária”, na qual o estudante é um mero depositário de frases e fórmulas. Ele pode “devolver” o conteúdo na prova, mas esse conteúdo não o transformou, não ampliou sua visão de mundo.
O verdadeiro conhecimento não habita nas páginas dos livros ou na fluência do discurso. Ele habita na mente que é capaz de manipular, criar, criticar e conectar ideias. A verbalização é a ferramenta poderosa para compartilhar esse conhecimento, mas não é o conhecimento em si. É a ponta visível de um vasto icebergue de compreensão que se esconde sob a superfície do mero falar.
Uma operação mortal a serviço de uma política de repressão e de destruição dos serviços públicos.
Uma operação mortal a serviço de uma política de repressão e de destruição dos serviços públicos.

Um verdadeiro massacre foi perpetrado em duas favelas na zona norte do Rio de Janeiro em 29 de outubro, por ordem do governador bolsonarista Cláudio Castro, do PL. A operação mobilizou 2500 soldados e policiais nas favelas do Alemão e da Penha. Custou a vida de quase 150 moradores e 4 policiais.
O "combate ao narcotráfico" invocado é apenas um pretexto para esta demonstração de força militar. Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas e pertencem à classe capitalista. Por exemplo, uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro (as fintechs) com sedes na luxuosa Avenida Faria Lima.
No Rio, cerca de 22,16% (aproximadamente 1,5 milhão) da classe trabalhadora vive nas favelas, em condições precárias, até mesmo miseráveis. Os programas sociais implementados pelo governo Lula aliviaram a fome de alguns milhões de brasileiros, no entanto, não erradicaram a pobreza.
Aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas (…) uma recente operação da Polícia Federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do setor financeiro.
Essa ação criminosa de um governador do Partido Liberal, partido de Bolsonaro, ecoa a política de Trump de rotular traficantes de drogas como "narcoterroristas", portanto "em guerra" com o Estado (e, em consequência, com os Estados Unidos). Não é coincidência que o governador Cláudio Castro tenha viajado aos Estados Unidos há dois meses para discutir essa questão com o governo Trump.
Um projeto de lei para classificar esses grupos como "narcoterroristas" está sendo debatido no Congresso Nacional. O senador Flávio Bolsonaro declarou recentemente que os militares americanos deveriam bombardear barcos de contrabandistas na baía de Guanabara como estão fazendo no Mar do Caribe em ameaça à soberania venezuelana.
Essas operações policiais, como as de ontem, paralisam os serviços públicos nas áreas afetadas, interrompendo seu funcionamento, o que diz muito sobre o desprezo da classe dominante pela população das favelas.
O projeto de reforma administrativa atualmente em tramitação no Congresso Nacional, por pressão da política de "ajuste orçamentário" (Arcabouço Fiscal) do governo Lula para o pagamento de uma dívida pública ilegitima, visa destruir esses serviços públicos e abrir caminho para suas privatizações. Esse Congresso, inimigo do povo, que tentou emplacar a PEC da bandidagem, rejeitada pela ampla maioria da população, não tem qualquer legitimidade democrática para destruir uma conquista histórica da população.
Por ora, as lideranças dos sindicatos do setor público protestam timidamente sem exigir a retirada do projeto e sem colocar em preparação uma paralisação geral nacional do funcionalismo. Vale lembrar que fortalecimento dos serviços públicos nas favelas atenderia às necessidades básicas e criaria empregos para jovens, muitos dos quais atualmente sem outra perspectiva senão serem contratados por traficantes de drogas.
Após a intervenção policial, o governo Lula propôs a aprovação imediata da PEC da Segurança, que integra as forças de segurança de todas as esferas governamentais sob controle do governo central, reforçando seu poder bélico. Isso não impedirá novos massacres.
As organizações de trabalhadores devem condenar os massacres policiais e exigir a apuração dos fatos, o fim do governo Castro imediatamente e a dissolução da Polícia Militar, instituição herdada da ditadura. Elas devem lançar uma campanha para proteger os jovens nas favelas por meio da criação de serviços públicos e de erradicação da miséria. Dinheiro para isso existe, desde que o governo cesse suas isenções fiscais para grandes corporações e bancos, tribute os ricos e pare de pagar uma enorme dívida pública ilegítima. As organizações de trabalhadores e jovens devem também convocar uma luta unida dos servidores públicos e da população pela retirada do projeto de "reforma administrativa" que destruirá os serviços públicos agravando a miséria das populações pobres.
De maneira mais geral, devemos lutar para derrotar Trump e suas políticas belicistas para a Venezuela e a América Latina sob o falso pretexto de "combater o narcotráfico".
Diz-se por aí que entregar a CP aos privados é a solução para todos os males. Que com a concessão virão comboios sem atrasos, trabalhadores sem greves e passageiros sem problemas.
Diz-se por aí que entregar a CP aos privados é a solução para todos os males. Que com a concessão virão comboios sem atrasos, trabalhadores sem greves e passageiros sem problemas.

A promessa é tentadora, mas falsa. Quem conhece a ferrovia sabe que nenhum serviço público melhora quando se troca o interesse das pessoas pelas contas de resultados. A concessão não elimina conflitos, elimina direitos. Nos países onde o caminho-de-ferro foi privatizado, como o Reino Unido, as greves não desapareceram. Multiplicaram-se. Quando o lucro se impõe à dignidade, os trabalhadores são empurrados para o silêncio ou para a rutura. E quando não há voz dentro das empresas, a primeira vítima é a segurança. Fala-se muito de eficiência e pouco de responsabilidade. Veja-se o exemplo do Elevador da Glória, em Lisboa: entregue a privados, com manutenção subcontratada, acabou por falhar com gravidade. Feridos. Pânico. Um aviso claro: quando se corta na manutenção, o preço não é económico, é humano. Na CP, uma avaria não para um carril. Pode custar vidas. Quem trabalha na ferrovia não quer fazer greve. Quer trabalhar com dignidade. Os técnicos de manutenção que passam noites a garantir tudo o que diz respeito à segurança — travões, sistemas elétricos, sinalização —, os maquinistas que atravessam o país de madrugada, os revisores que asseguram cada partida, todos sabem que um comboio não é um negócio. É uma responsabilidade nacional. Leva estudantes, idosos, trabalhadores, famílias inteiras. Não se gere à boleia do lucro, gere-se com compromisso público. Portugal não precisa de menos ferrovia, precisa de mais. Mais linhas, mais ligações ao interior, mais mobilidade para fixar pessoas fora dos grandes centros. Sem investimento público no caminho-de-ferro, falar em descentralização é apenas retórica. Um país coeso viaja sobre carris, não sobre promessas privadas. Privatizar a operação ou a manutenção da CP é colocar um intermediário entre o cidadão e o Estado, um intermediário que só fica onde há dinheiro. Linhas do interior? Populações isoladas? Tarifas sociais? Não cabem nos relatórios de acionistas. O caminho-de-ferro português não nasceu para dar lucro. Nasceu para ligar pessoas. E quem o serve todos os dias não pede privilégios, pede apenas condições para garantir que todos chegam bem ao destino.
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