categoria-um poema

MÃOS DADAS
categoria-um poema edicao-2026-06-04 (30)

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

.
O Riso Precisa de Dentes
categoria-um poema edicao-2026-05-28 (29)

O Riso Precisa de Dentes

Boa noite. Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia, superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física. A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos.  Fontes hospitalares

Jornal Maio
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-05-21 (28)

(sem título)

Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes) Se o Estado prefere tanques, Senhora Directora da PIDE das Almas, eis a minha declaração sob tortura: confesso o verso escondido na sola do sapato, a metáfora que fugiu pela janela do quarto de interrogatório, e o estribilho que os porões

.
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-05-14 (27)

(sem título)

Nasceu para dar a volta a isto tudo. Eu, é mais para encher chouriços, dar horas à espera. E juro que há quem faça fila para ver. Enfim, hoje em dia, nada me espanta. A vizinha do lado, que costuma ler autores sefarditas do século XVIII, todos os dias, à

.
OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)
categoria-um poema edicao-2026-05-07 (26)

OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony Artigo I. Fica decretado que agora vale a verdade. que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira. Artigo II. Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em

.
Terceiro erro mundial
categoria-um poema edicao-2026-04-30 (25)

Terceiro erro mundial

os estados unidos bombardearam o irão penso que é assim que se escreve em linguagem hermética é que na televisão diz-se que começou a guerra e logo agora que tinha chegado a primavera fiz hoje a lista mais ridícula de todas as listas que já se fizeram e olhem

.
CARTA REVOLUCIONÁRIA #2
categoria-um poema edicao-2026-04-23 (24)

CARTA REVOLUCIONÁRIA #2

O valor da vida individual um lema ensinado pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez” névoa em nossos olhos, nós somos infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos um milhão de vezes ao dia, nascemos um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro: levante-se,

.
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-04-16 (23)

(sem título)

– Não quero trabalhar nem estudar, o que eu quero é namorar. –  disse a princesa e cruzou os braços. Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar de comer porque a princesa só podia abrir os braços para abraçar o namorado e não havia nenhum namorado para ela. Quando se

.
Melopeias (trecho)
categoria-um poema edicao-2026-04-09 (22)

Melopeias (trecho)

Poderemos, então, para além da poeira e da ondulação dos dias, litigar no vazio o mais singelo dos gestos? Somos os Ginetes galgando a correnteza, viemos para acentuar as sílabas ao vento, o fio aprumo na equidade do Homem. Somos plurais e simultâneos! No traço que circunscreve a duração perfeita,

.
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-03-26 (21)

(sem título)

Ainda não é o fim Nem o princípio do mundo                       Calma É apenas um pouco tarde Manuel António Pina, Todas as palavras – poesia reunida (1974-2011). Porto: Assírio & Alvim, 2012, p. 7

.
Gansos selvagens
categoria-um poema edicao-2026-03-19 (20)

Gansos selvagens

Não tens que ser bom. Não tens que caminhar ajoelhado durante quilómetros através do deserto, em sinal de arrependimento. Só tens que deixar o afável animal do teu corpo amar aquilo que ama. Fala-me do teu desespero e eu falar-te-ei do meu. Entretanto o mundo não pára.

.
(sem Título)
categoria-um poema edicao-2026-03-12 (19)

(sem Título)

Um coração de sangue Um coração de xisto e aço Um coração angular e redondo Como a pedra que te abre Do interior do chão Um coração solar De granito De carne Curado da noite de nascença Um coração de homem Um coração de homem vivo Um coração de criança

.
categoria-um poema edicao-2026-06-04 (30)

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

DRUMMOND DE ANDRADE,
Carlos. In: Sentimento do Mundo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940.

categoria-um poema edicao-2026-05-28 (29)

O Riso Precisa de Dentes

Boa noite.

Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia,
superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física.
A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo
a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos. 

Fontes hospitalares confirmam que alguns clínicos já aprenderam a operar enquanto sonham,
a consultar pacientes em simultâneo através de doze dimensões,
e a prescrever ansiolíticos a si próprios por telepatia. 

Em Coimbra, um cardiologista foi avistado a ressuscitar o seu próprio relógio de pulso.
Em Lisboa, uma cirurgiã realizou um transplante de consciência para poder descansar sem interromper a cirurgia. 

O Governo garante que o novo Plano de Saúde Interplanetário
vai incluir camas com gravidade variável,
salas de espera com loops temporais,
e um subsídio de café directamente injetado na veia jugular. 

Entretanto, os médicos que continuam a trabalhar cinquenta horas por dia,
dormem três minutos por século,
e diagnosticam a realidade como estando em estado terminal.

Fátima Vale
(Oshakati, Namíbia, 1975)
“O RISO PRECISA DE DENTES” integra P.E.L.E.
— Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026).

categoria-um poema edicao-2026-05-21 (28)

(sem título)

Requisição de Silêncio
(Com Interrogatório e sangue nos dentes)

Se o Estado prefere tanques,
Senhora Directora da PIDE das Almas,
eis a minha declaração sob tortura:
confesso o verso escondido na sola do sapato,
a metáfora que fugiu pela janela do quarto de
interrogatório,
e o estribilho que os porões não calaram
UM PAÍS É UMA GAIOLA COM HINO

A contabilidade do horror!
Até os gemidos têm recibos em triplicado,
e os poemas, esses subversivos,
são revistados à porta do peito,
enquanto a pátria, de farda, cataloga
até o peso das lágrimas nos relatórios de segurança
nacional.

Devolva-me o papel que o lápis engoliu de medo,
o grito que o muro-de-berlim-do-avesso regurgitou em
Lisboa,
o instante em que o poeta, nu de palavras,
cuspia sonhos no colo do verdugo.

Nota de rodapé do sistema:
A arte é crime sem corpo de delito,
mas a alma tem impressões digitais.
Senhora Directora, cuidado com os arquivos da noite:
há sílabas que disparam como balas perdidas.

E se o orçamento for uma balança,
pesem isto:

o dinheiro para a guerra vem em sacos de ráfia,
enquanto a cultura — migalhas em envelopes de veneno
é servida com o sorriso do funcionário do terceiro inferno.

Mas ouça o segredo que os muros sopram:
até a tinta invisível sangra,
até um poema torturado
guarda, sob as unhas,
sementes de um alfabeto
futuro.

Fátima Vale
(Oshakati, Namíbia, 1975) é poeta e criadora cénica.
“Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)”
integra P.E.L.E. — Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026)

categoria-um poema edicao-2026-05-14 (27)

(sem título)

Nasceu para dar a volta a isto tudo.
Eu, é mais para encher chouriços, dar horas à espera.
E juro que há quem faça fila para ver.
Enfim, hoje em dia, nada me espanta.
A vizinha do lado, que costuma
ler autores sefarditas do século XVIII,
todos os dias, à hora do chá,
faz uma tarte Tatin maravilhosa.
Diz que é fácil,
que é só dar a volta,
que com tanta prática
até é capaz de escrever Os Lusíadas ao contrário.
Nunca chegou a explicar como.
Uma pena.

ANGHEL, Golgona
“Nasceu para dar a volta a isto tudo”.
In: Nadar na piscina dos pequenos.
Lisboa: Assírio & Alvim, 2017

categoria-um poema edicao-2026-05-07 (26)

OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.



Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.



Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.



Artigo IV.

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.


Parágrafo Único:

O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.



Artigo V.

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.



Artigo VI.

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.



Artigo VII.

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.



Artigo VIII.

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.



Artigo IX.

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.



Artigo X.

Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.



Artigo XI.

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.



Artigo XII.

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.


Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.



Artigo XIII.

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.



Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Diane di Prima
“Poemas Mais ou Menos de Amor e Outros Poemas”, Editora Jabuticaba, 2022.

Tradução de Fernanda Morse.

categoria-um poema edicao-2026-04-30 (25)

Terceiro erro mundial

os estados unidos bombardearam o irão
penso que é assim que se escreve
em linguagem hermética
é que na televisão diz-se
que começou a guerra
e logo agora que tinha chegado a primavera

fiz hoje a lista mais ridícula
de todas as listas que já se fizeram
e olhem que outrora compus
uma lista do ranking emocional das cadeiras cá de casa
uma lista dos eletrodomésticos segundo a confiança que tenho neles
uma lista de coisas que parecem maldições mas são só consequências
uma lista dos eventos mínimos que alteraram o rumo da minha vida

e mesmo assim
fiz hoje a lista mais ridícula de todas as listas

quando tudo passar
e vierem os americanos anexar os escombros
(eles ganham no fim, certo?)
vão encontrar
ensopada de sangue
dióxido de urânio UO2 (pólvora nuclear)
e esperança morta
a minha lista:
– ir buscar pão para congelar
– fazer um PPR
– comprar um berço (talvez dois)

Maria Miguel Oliveira da Silva
1.º prémio do Concurso «Poesia na Corda»,
realizado no âmbito do XXIV Festival Literário
Poesia à Mesa, em São João da Madeira

categoria-um poema edicao-2026-04-23 (24)

CARTA REVOLUCIONÁRIA #2

O valor da vida individual um lema ensinado
pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez”
névoa em nossos olhos, nós somos
infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos
um milhão de vezes ao dia, nascemos
um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro:
levante-se, calce os seus sapatos,
comece, alguém vai terminar.

Tribo

um organismo, uma carne, soprando alegria como as estrelas
sopram em nós o destino
continue, dê as mãos, se encarregue do negócio, milhares de filhos
cuidarão disso quando você cair, você crescerá
milhares de vezes no ventre de suas irmãs.

Diane di Prima
“Poemas Mais ou Menos de Amor e Outros Poemas”, Editora Jabuticaba, 2022.

Tradução de Fernanda Morse.

categoria-um poema edicao-2026-04-16 (23)

(sem título)

– Não quero trabalhar nem estudar, o que eu quero é namorar. –  disse a princesa e cruzou os braços.
Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar de comer porque a princesa só podia abrir os braços para abraçar o namorado e não havia nenhum namorado para ela.
Quando se acabou o dinheiro, acabaram-se as criadas e acabou a comida. A princesa morreu de fome, muito suja, mas sempre de braços cruzados.
E nem os cangalheiros nem os médicos legistas lhe conseguiram descruzar os braços porque nem os cangalheiros nem os médicos legistas eram o namorado da princesa de braços cruzados porque não havia namorado para ela.
Foi conservada em formol dentro de um frasco de vidro transparente para ser mostrada aos visitantes do Museu de História Natural. Na placa que dá informações sobre o conteúdo do frasco está escrito em latim: “só descruzará os braços quando lhe aparecer um namorado”. Todos no museu têm a esperança de que um dia um visitante saiba latim e seja o namorado da princesa de braços cruzados.
Mas a empregada do balcão do bar do Museu, menos positiva do que o resto do pessoal, resolveu fazer o mesmo que a princesa de braços cruzados. Por isso não há bicas para ninguém.

Adília Lopes,
«A princesa de braços cruzados»,
in A bela acordada, Black Sun, 1997.

categoria-um poema edicao-2026-04-09 (22)

Melopeias (trecho)

Poderemos, então, para além da poeira e da ondulação dos dias, litigar no vazio o mais singelo dos gestos?
Somos os Ginetes galgando a correnteza, viemos para acentuar as sílabas ao vento, o fio aprumo na equidade do Homem. Somos plurais e simultâneos!
No traço que circunscreve a duração perfeita, o corpo demuda-se na álgebra que se manifesta na própria finitude, e a nossa jornada é apenas um brevíssimo lapso de tempo, e a cada palavra proferida, ou antes inaudita, o asseverar de que renasceremos com as flores na próxima primavera.

António de Névada

categoria-um poema edicao-2026-03-19 (20)

Gansos selvagens

Não tens que ser bom.
Não tens que caminhar ajoelhado
durante quilómetros através do deserto, em sinal de arrependimento.
Só tens que deixar o afável animal do teu corpo amar aquilo que ama.
Fala-me do teu desespero e eu falar-te-ei do meu.
Entretanto o mundo não pára.
Entretanto o sol e os seixos transparentes da chuva
movem-se através da paisagem
sobre as pradarias e as árvores mais altas,
as montanhas e os rios.
Entretanto os gansos selvagens, lá no alto do céu de um límpido azul,
dirigem-se para casa de novo.
Quem quer que tu sejas, por mais solitário que estejas,
o mundo oferece-se à tua imaginação,
chama-te como os gansos selvagens, duma forma áspera e emocionante –
repetidamente anunciando o teu lugar
na família das coisas.

Mary Oliver
“Wild Geese” Dream Work,
Boston: Atlantic Monthly Press, 1986
Tradução de Jorge Sousa Braga

categoria-um poema edicao-2026-03-12 (19)

(sem Título)

Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão
Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença

Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
-Mais interior do que o sangue no coração que me darás-
Peço um coração
Nuclear

Daniel Faria
Explicação das Árvores e de Outros Animais.
Lisboa: Assírio & Alvim, 1998

MÃOS DADAS
categoria-um poema edicao-2026-06-04 (30)

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

.
O Riso Precisa de Dentes
categoria-um poema edicao-2026-05-28 (29)

O Riso Precisa de Dentes

Boa noite. Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia, superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física. A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos.  Fontes hospitalares

Jornal Maio
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-05-21 (28)

(sem título)

Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes) Se o Estado prefere tanques, Senhora Directora da PIDE das Almas, eis a minha declaração sob tortura: confesso o verso escondido na sola do sapato, a metáfora que fugiu pela janela do quarto de interrogatório, e o estribilho que os porões

.
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-05-14 (27)

(sem título)

Nasceu para dar a volta a isto tudo. Eu, é mais para encher chouriços, dar horas à espera. E juro que há quem faça fila para ver. Enfim, hoje em dia, nada me espanta. A vizinha do lado, que costuma ler autores sefarditas do século XVIII, todos os dias, à

.
OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)
categoria-um poema edicao-2026-05-07 (26)

OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony Artigo I. Fica decretado que agora vale a verdade. que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira. Artigo II. Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em

.
Terceiro erro mundial
categoria-um poema edicao-2026-04-30 (25)

Terceiro erro mundial

os estados unidos bombardearam o irão penso que é assim que se escreve em linguagem hermética é que na televisão diz-se que começou a guerra e logo agora que tinha chegado a primavera fiz hoje a lista mais ridícula de todas as listas que já se fizeram e olhem

.
CARTA REVOLUCIONÁRIA #2
categoria-um poema edicao-2026-04-23 (24)

CARTA REVOLUCIONÁRIA #2

O valor da vida individual um lema ensinado pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez” névoa em nossos olhos, nós somos infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos um milhão de vezes ao dia, nascemos um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro: levante-se,

.
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-04-16 (23)

(sem título)

– Não quero trabalhar nem estudar, o que eu quero é namorar. –  disse a princesa e cruzou os braços. Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar de comer porque a princesa só podia abrir os braços para abraçar o namorado e não havia nenhum namorado para ela. Quando se

.
Melopeias (trecho)
categoria-um poema edicao-2026-04-09 (22)

Melopeias (trecho)

Poderemos, então, para além da poeira e da ondulação dos dias, litigar no vazio o mais singelo dos gestos? Somos os Ginetes galgando a correnteza, viemos para acentuar as sílabas ao vento, o fio aprumo na equidade do Homem. Somos plurais e simultâneos! No traço que circunscreve a duração perfeita,

.
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-03-26 (21)

(sem título)

Ainda não é o fim Nem o princípio do mundo                       Calma É apenas um pouco tarde Manuel António Pina, Todas as palavras – poesia reunida (1974-2011). Porto: Assírio & Alvim, 2012, p. 7

.
Gansos selvagens
categoria-um poema edicao-2026-03-19 (20)

Gansos selvagens

Não tens que ser bom. Não tens que caminhar ajoelhado durante quilómetros através do deserto, em sinal de arrependimento. Só tens que deixar o afável animal do teu corpo amar aquilo que ama. Fala-me do teu desespero e eu falar-te-ei do meu. Entretanto o mundo não pára.

.
(sem Título)
categoria-um poema edicao-2026-03-12 (19)

(sem Título)

Um coração de sangue Um coração de xisto e aço Um coração angular e redondo Como a pedra que te abre Do interior do chão Um coração solar De granito De carne Curado da noite de nascença Um coração de homem Um coração de homem vivo Um coração de criança

.

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.