categoria-um poema

Verdade
categoria-um poema edicao-2026-01-08 (10)

Verdade

A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os dois meios perfis

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O longo silêncio do anjo
categoria-um poema edicao-2025-12-18 (09)

O longo silêncio do anjo

Há um anjo que não fala é o anjo do silêncio observa os homens e sabe como a sua memória se aloja na devastação no pulsar do sangue nas pedras da cidade agora destruída. O anjo do silêncio espera talvez um sinal mas o céu permanece fechado e os homens

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TECENDO A MANHÃ
categoria-um poema edicao-2025-12-12 (08)

TECENDO A MANHÃ

Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos

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A contracorrente
categoria-um poema edicao-2025-11-27 (06)

A contracorrente

Viajo em contramão Reverto sempre o sentido Apanho tudo pela frente Sigo em contracorrente Os olhares que me reprovam Servem-me de alimento Deixei de deixar que me digam Qual o caminho certo Se os outros na sua viagem Seguem a medo, pela margem Quando a vida é um rio

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NOSSO TEMPO
categoria-um poema edicao-2025-11-13 (04)

NOSSO TEMPO

Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na

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Pornografia
categoria-um poema edicao-2025-11-06 (03)

Pornografia

Onde se esconde o pornográfico?  No púbis rapado de uma mulher de coxas expostas no pénis erecto de um amante excitado  no ousado perfil de um corpo chamando desejo  ou no ventre cheio de uma criança subnutrida? Onde se esconde o atentado à moral?  No custo sem preço de uma

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Antes dos Cravos
categoria-um poema edicao-2025-10-23 (02)

Antes dos Cravos

Antes da luta, pétalas de silêncio.  Antes do mergulho, um mar. Antes da revolução, uma ideia. Antes do poema, uma palavra.  Antes do som da gravilha,  uma Grândola Antes da possibilidade, um grito. Antes de tossir, um ramo no corpo.  Antes da asa, uma gaiola. Antes de Salazar, uma espátula.

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À maneira do poeta Darwich
categoria-um poema edicao-2025-10-16 (01)

À maneira do poeta Darwich

No confinamento do teu nome Darwich            a prisão do teu povo: a quem querem seja uma sombra sem sol Mas o velho alfabeto              ecoa e pulsa um enorme grito Quem escreve nos ossos            a própria história herda              a terra de seus ancentrais herda seus risos herda seus ais soletra o

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categoria-um poema edicao-2026-01-08 (10)

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os dois meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram a um lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em duas metades,
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
As duas eram totalmente belas.
Mas carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade
Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002

categoria-um poema edicao-2025-12-12 (08)

TECENDO A MANHÃ

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto
In: MELO NETO, João Cabral de.
Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 345.

categoria-um poema edicao-2025-11-27 (06)

A contracorrente

Viajo em contramão
Reverto sempre o sentido
Apanho tudo pela frente
Sigo em contracorrente
Os olhares que me reprovam
Servem-me de alimento
Deixei de deixar que me digam
Qual o caminho certo
Se os outros na sua viagem
Seguem a medo, pela margem
Quando a vida é um rio
Que flui até ao mar
Quero deixar-me ficar
A contemplar os olhares
Daqueles também perdidos
Cheios de nada, vendidos
Fitam um novo horizonte
Que viram na televisão
Não me guio pela ilusão
De julgar os que me julgam
Seguir sem esforço, levado
Pela corrente, guiado
Aprecio o desconforto
De seguir em contramão

Aires Fumega

categoria-um poema edicao-2025-11-13 (04)

NOSSO TEMPO

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir

*Carlos Drummond de Andrade
“Nosso Tempo”, de A Rosa do Povo (1945),
in Poesia Completa, Nova Aguilar,
Rio de Janeiro, 2003.

categoria-um poema edicao-2025-11-06 (03)

Pornografia

Onde se esconde o pornográfico? 
No púbis rapado de uma mulher de coxas expostas
no pénis erecto de um amante excitado 
no ousado perfil de um corpo chamando desejo 
ou no ventre cheio de uma criança subnutrida?

Onde se esconde o atentado à moral? 
No custo sem preço de uma bala perdida 
no peito de balas violado de uma camponesa 
no sexo à baioneta trespassado de uma mãe indefesa 
ou na sofreguidão com que bebo da tua boca querida?

Onde se esconde a pouca-vergonha? 
Na sorte sem nome de um refugiado 
no destino sem sorte de um raptado 
ou nos teus seios nus de moça atrevida? 

Onde se escondem as moscas e a porcaria? 
No brinco inútil de uma orelha cortada 
na cirurgia de um nariz de plástico 
ou na carícia das nossas mãos trocando alegrias? 

Pornográfico será o lençol de sémen manchado 
ou antes e sempre o vermelho do sangue na terra semeado?

Adriano Alcântara
Publicado originalmente em Xiphefo, nº 4, Fevereiro-Março de 1988 (Inhambane, Moçambique)

categoria-um poema edicao-2025-10-16 (01)

À maneira do poeta Darwich

No confinamento
do teu nome Darwich
           a prisão do teu povo:
a quem querem
seja uma sombra sem sol

Mas o velho alfabeto
             ecoa e pulsa um enorme grito

Quem escreve nos ossos
           a própria história
herda              a terra de seus ancentrais
herda seus risos
herda seus ais

soletra o esperançoso nome do trigo
mesmo quando os pães da escassez
       fermentam em dias/noites
de genocídio
                             e destruição


Anísio Homem
26/08/25, inspirado pela admiração ao poeta
e combatente palestino Mahmoud Darwich

Verdade
categoria-um poema edicao-2026-01-08 (10)

Verdade

A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os dois meios perfis

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O longo silêncio do anjo
categoria-um poema edicao-2025-12-18 (09)

O longo silêncio do anjo

Há um anjo que não fala é o anjo do silêncio observa os homens e sabe como a sua memória se aloja na devastação no pulsar do sangue nas pedras da cidade agora destruída. O anjo do silêncio espera talvez um sinal mas o céu permanece fechado e os homens

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TECENDO A MANHÃ
categoria-um poema edicao-2025-12-12 (08)

TECENDO A MANHÃ

Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos

.
A contracorrente
categoria-um poema edicao-2025-11-27 (06)

A contracorrente

Viajo em contramão Reverto sempre o sentido Apanho tudo pela frente Sigo em contracorrente Os olhares que me reprovam Servem-me de alimento Deixei de deixar que me digam Qual o caminho certo Se os outros na sua viagem Seguem a medo, pela margem Quando a vida é um rio

.
NOSSO TEMPO
categoria-um poema edicao-2025-11-13 (04)

NOSSO TEMPO

Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na

.
Pornografia
categoria-um poema edicao-2025-11-06 (03)

Pornografia

Onde se esconde o pornográfico?  No púbis rapado de uma mulher de coxas expostas no pénis erecto de um amante excitado  no ousado perfil de um corpo chamando desejo  ou no ventre cheio de uma criança subnutrida? Onde se esconde o atentado à moral?  No custo sem preço de uma

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Antes dos Cravos
categoria-um poema edicao-2025-10-23 (02)

Antes dos Cravos

Antes da luta, pétalas de silêncio.  Antes do mergulho, um mar. Antes da revolução, uma ideia. Antes do poema, uma palavra.  Antes do som da gravilha,  uma Grândola Antes da possibilidade, um grito. Antes de tossir, um ramo no corpo.  Antes da asa, uma gaiola. Antes de Salazar, uma espátula.

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À maneira do poeta Darwich
categoria-um poema edicao-2025-10-16 (01)

À maneira do poeta Darwich

No confinamento do teu nome Darwich            a prisão do teu povo: a quem querem seja uma sombra sem sol Mas o velho alfabeto              ecoa e pulsa um enorme grito Quem escreve nos ossos            a própria história herda              a terra de seus ancentrais herda seus risos herda seus ais soletra o

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