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A poesia está guardada nas palavras
categoria-um poema edicao-2026-09-17 (41)

A poesia está guardada nas palavras

“A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias

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(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-09-10 (40)

(sem título)

Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas? E por que não te hei-de eu falar? Walt Whitman «A Ti», in Folhas de Erva Tradução de Maria de Lourdes Guimarães Relógio D’Água Editores, 2010

Jornal Maio
Não me Canso de Falar
categoria-um poema edicao-2026-09-03 (39)

Não me Canso de Falar

Não me canso de falar sobre a diferença ténue entre as mulheres e as árvores, sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo não encontrei em nenhum passaporte. Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a terra dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens? Onde

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PÁTRIA
categoria-um poema edicao-2026-07-02 (34)

PÁTRIA

Creio no arco-íris, na cal duma velha casa e na reconciliação das vozes dissonantes; creio na exaltação do ensejo do fogo dos amantes; creio na claridade da alma e espírito da chuva; creio na causa da lua sobre marés, na liberdade, nas palavras Creio nos peixes, nos segredos do

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Filhos da época
categoria-um poema edicao-2026-06-25 (33)

Filhos da época

Nós somos filhos da época, a época é política. Todas as tuas, nossas, vossas questões diárias, questões nocturnas são questões políticas. Queiras tu ou não os teus genes têm passado político, a pele matiz político, os olhos aspecto político. Os temas que abordas têm ressonância, o que calas tem expressão

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Meus irmãos
categoria-um poema edicao-2026-06-11 (31)

Meus irmãos

Meus irmãos É preciso atrelar os nossos poemas à charrua do boi magro É preciso que este se enterre até aos joelhos Na vaza dos arrozais É preciso que eles façam todas as perguntas É preciso que recolham toda a luz É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos

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MÃOS DADAS
categoria-um poema edicao-2026-06-04 (30)

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

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O Riso Precisa de Dentes
categoria-um poema edicao-2026-05-28 (29)

O Riso Precisa de Dentes

Boa noite. Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia, superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física. A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos.  Fontes hospitalares

Jornal Maio
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-05-21 (28)

(sem título)

Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes) Se o Estado prefere tanques, Senhora Directora da PIDE das Almas, eis a minha declaração sob tortura: confesso o verso escondido na sola do sapato, a metáfora que fugiu pela janela do quarto de interrogatório, e o estribilho que os porões

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(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-05-14 (27)

(sem título)

Nasceu para dar a volta a isto tudo. Eu, é mais para encher chouriços, dar horas à espera. E juro que há quem faça fila para ver. Enfim, hoje em dia, nada me espanta. A vizinha do lado, que costuma ler autores sefarditas do século XVIII, todos os dias, à

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OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)
categoria-um poema edicao-2026-05-07 (26)

OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony Artigo I. Fica decretado que agora vale a verdade. que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira. Artigo II. Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em

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Terceiro erro mundial
categoria-um poema edicao-2026-04-30 (25)

Terceiro erro mundial

os estados unidos bombardearam o irão penso que é assim que se escreve em linguagem hermética é que na televisão diz-se que começou a guerra e logo agora que tinha chegado a primavera fiz hoje a lista mais ridícula de todas as listas que já se fizeram e olhem

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categoria-um poema edicao-2026-09-17 (41)

A poesia está guardada nas palavras

“A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.”

Manoel de Barros
In:Tratado geral das grandezas do ínfimo
(2001)

categoria-um poema edicao-2026-09-03 (39)

Não me Canso de Falar

Não me canso de falar sobre a diferença ténue entre
as mulheres e as árvores,
sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo não
encontrei em nenhum passaporte.
Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a terra
dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens?
Onde está então o meu casebre? Onde estou eu?
A assembleia aplaudiu-me
durante três minutos, três minutos de liberdade
e de reconhecimento… A assembleia acaba de aprovar
o nosso direito ao regresso, como o de todas as galinhas e
todos os cavalos, a um sonho de pedra.
Aperto-lhes a mão, um a um, depois faço uma saudação, inclinando-me… e continuo a viagem
para outro país, onde falarei sobre a diferença entre
miragens e chuva.
E perguntarei: Senhoras e senhores de bom coração,
a terra dos homens é
de todos os homens?

Mahmoud Darwish
Tradução de Albano Martins
in O Jardim Adormecido e Outros Poemas,
Campo das Letras, Porto

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PÁTRIA

Creio no arco-íris, na cal duma velha casa e na reconciliação
das vozes dissonantes; creio na exaltação do ensejo do fogo
dos amantes; creio na claridade da alma e espírito da chuva;
creio na causa da lua sobre marés, na liberdade, nas palavras
Creio nos peixes, nos segredos do mar; creio nos sortilégios
duma árvore, na virtude da paz; creio no fecundo da poesia
e nos quatro elementos; creio na essência de vulcões e rios;
creio na eternidade das bibliotecas, na ressurreição do Poeta
Creio nos pássaros, nas dádivas da terra, na bondade do sol;
creio na agitação dos girassóis ao amanhecer; creio nos dias
que virão, na música, nas rosas, na fecundidade dos ventos.
Eis a Pátria que admito; creio nela sem medo de envelhecer.

Machado, Ivo.
Pátria. In: Verbo Possível.
Lisboa, 2006.

categoria-um poema edicao-2026-06-25 (33)

Filhos da época

Nós somos filhos da época,
a época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas
questões diárias, questões nocturnas
são questões políticas.

Queiras tu ou não
os teus genes têm passado político,
a pele matiz político,
os olhos aspecto político.

Os temas que abordas têm ressonância,
o que calas tem expressão
de um modo ou outro na política.

Passeias pela floresta
e dás passos políticos
num chão político.

Também são políticos os versos apolíticos,
e lá no alto a lua resplandece,
a lua já objecto não lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Mas que questão, responde lá, então.
Questão política.

Não tens sequer que ser um ser humano
para adquirires significado político.
Basta-te seres petróleo bruto,
matéria-prima, forragem substancial.

Ou mesa então de reuniões em cuja forma
se apoiaram longos meses:
na qual se negociou a vida ou morte,
quadrada ou redonda.

Pessoas entretanto faleceram,
morreram animais,
casas arderam
e campos tornaram-se bravios
como nos tempos de outrora
muito menos políticos.

Wisława Szymborska,
(1923–2012)
Filhos da Época
Tradução de Júlio Sousa Gomes.
In: Paisagem com Grão de Areia.
Lisboa: Relógio d’Água, 1998.

categoria-um poema edicao-2026-06-11 (31)

Meus irmãos

Meus irmãos
É preciso atrelar os nossos poemas
à charrua do boi magro
É preciso que este se enterre até aos joelhos
Na vaza dos arrozais
É preciso que eles façam todas as perguntas
É preciso que recolham toda a luz
É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos
Balizem as estradas
É preciso que sejam o sinal a anunciar a aproximação do adversário
É preciso que batam tambor na selva
E enquanto na terra houver um único país ou um único homem escravo
E enquanto no céu restar nem que seja uma única nuvem atómica
É preciso que os nossos poemas dêem tudo por tudo, corpo e alma para a grande liberdade.

HIKMET, Nâzim
Poemas da Prisão e do Exílio.
Tradução de Rui Caeiro.
Lisboa: &etc, 2000.

categoria-um poema edicao-2026-06-04 (30)

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

DRUMMOND DE ANDRADE,
Carlos. In: Sentimento do Mundo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940.

categoria-um poema edicao-2026-05-28 (29)

O Riso Precisa de Dentes

Boa noite.

Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia,
superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física.
A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo
a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos. 

Fontes hospitalares confirmam que alguns clínicos já aprenderam a operar enquanto sonham,
a consultar pacientes em simultâneo através de doze dimensões,
e a prescrever ansiolíticos a si próprios por telepatia. 

Em Coimbra, um cardiologista foi avistado a ressuscitar o seu próprio relógio de pulso.
Em Lisboa, uma cirurgiã realizou um transplante de consciência para poder descansar sem interromper a cirurgia. 

O Governo garante que o novo Plano de Saúde Interplanetário
vai incluir camas com gravidade variável,
salas de espera com loops temporais,
e um subsídio de café directamente injetado na veia jugular. 

Entretanto, os médicos que continuam a trabalhar cinquenta horas por dia,
dormem três minutos por século,
e diagnosticam a realidade como estando em estado terminal.

Fátima Vale
(Oshakati, Namíbia, 1975)
“O RISO PRECISA DE DENTES” integra P.E.L.E.
— Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026).

categoria-um poema edicao-2026-05-21 (28)

(sem título)

Requisição de Silêncio
(Com Interrogatório e sangue nos dentes)

Se o Estado prefere tanques,
Senhora Directora da PIDE das Almas,
eis a minha declaração sob tortura:
confesso o verso escondido na sola do sapato,
a metáfora que fugiu pela janela do quarto de
interrogatório,
e o estribilho que os porões não calaram
UM PAÍS É UMA GAIOLA COM HINO

A contabilidade do horror!
Até os gemidos têm recibos em triplicado,
e os poemas, esses subversivos,
são revistados à porta do peito,
enquanto a pátria, de farda, cataloga
até o peso das lágrimas nos relatórios de segurança
nacional.

Devolva-me o papel que o lápis engoliu de medo,
o grito que o muro-de-berlim-do-avesso regurgitou em
Lisboa,
o instante em que o poeta, nu de palavras,
cuspia sonhos no colo do verdugo.

Nota de rodapé do sistema:
A arte é crime sem corpo de delito,
mas a alma tem impressões digitais.
Senhora Directora, cuidado com os arquivos da noite:
há sílabas que disparam como balas perdidas.

E se o orçamento for uma balança,
pesem isto:

o dinheiro para a guerra vem em sacos de ráfia,
enquanto a cultura — migalhas em envelopes de veneno
é servida com o sorriso do funcionário do terceiro inferno.

Mas ouça o segredo que os muros sopram:
até a tinta invisível sangra,
até um poema torturado
guarda, sob as unhas,
sementes de um alfabeto
futuro.

Fátima Vale
(Oshakati, Namíbia, 1975) é poeta e criadora cénica.
“Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)”
integra P.E.L.E. — Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026)

categoria-um poema edicao-2026-05-14 (27)

(sem título)

Nasceu para dar a volta a isto tudo.
Eu, é mais para encher chouriços, dar horas à espera.
E juro que há quem faça fila para ver.
Enfim, hoje em dia, nada me espanta.
A vizinha do lado, que costuma
ler autores sefarditas do século XVIII,
todos os dias, à hora do chá,
faz uma tarte Tatin maravilhosa.
Diz que é fácil,
que é só dar a volta,
que com tanta prática
até é capaz de escrever Os Lusíadas ao contrário.
Nunca chegou a explicar como.
Uma pena.

ANGHEL, Golgona
“Nasceu para dar a volta a isto tudo”.
In: Nadar na piscina dos pequenos.
Lisboa: Assírio & Alvim, 2017

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OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.



Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.



Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.



Artigo IV.

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.


Parágrafo Único:

O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.



Artigo V.

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.



Artigo VI.

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.



Artigo VII.

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.



Artigo VIII.

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.



Artigo IX.

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.



Artigo X.

Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.



Artigo XI.

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.



Artigo XII.

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.


Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.



Artigo XIII.

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.



Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Diane di Prima
“Poemas Mais ou Menos de Amor e Outros Poemas”, Editora Jabuticaba, 2022.

Tradução de Fernanda Morse.

categoria-um poema edicao-2026-04-30 (25)

Terceiro erro mundial

os estados unidos bombardearam o irão
penso que é assim que se escreve
em linguagem hermética
é que na televisão diz-se
que começou a guerra
e logo agora que tinha chegado a primavera

fiz hoje a lista mais ridícula
de todas as listas que já se fizeram
e olhem que outrora compus
uma lista do ranking emocional das cadeiras cá de casa
uma lista dos eletrodomésticos segundo a confiança que tenho neles
uma lista de coisas que parecem maldições mas são só consequências
uma lista dos eventos mínimos que alteraram o rumo da minha vida

e mesmo assim
fiz hoje a lista mais ridícula de todas as listas

quando tudo passar
e vierem os americanos anexar os escombros
(eles ganham no fim, certo?)
vão encontrar
ensopada de sangue
dióxido de urânio UO2 (pólvora nuclear)
e esperança morta
a minha lista:
– ir buscar pão para congelar
– fazer um PPR
– comprar um berço (talvez dois)

Maria Miguel Oliveira da Silva
1.º prémio do Concurso «Poesia na Corda»,
realizado no âmbito do XXIV Festival Literário
Poesia à Mesa, em São João da Madeira

A poesia está guardada nas palavras
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A poesia está guardada nas palavras

“A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias

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(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-09-10 (40)

(sem título)

Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas? E por que não te hei-de eu falar? Walt Whitman «A Ti», in Folhas de Erva Tradução de Maria de Lourdes Guimarães Relógio D’Água Editores, 2010

Jornal Maio
Não me Canso de Falar
categoria-um poema edicao-2026-09-03 (39)

Não me Canso de Falar

Não me canso de falar sobre a diferença ténue entre as mulheres e as árvores, sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo não encontrei em nenhum passaporte. Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a terra dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens? Onde

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PÁTRIA
categoria-um poema edicao-2026-07-02 (34)

PÁTRIA

Creio no arco-íris, na cal duma velha casa e na reconciliação das vozes dissonantes; creio na exaltação do ensejo do fogo dos amantes; creio na claridade da alma e espírito da chuva; creio na causa da lua sobre marés, na liberdade, nas palavras Creio nos peixes, nos segredos do

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Filhos da época
categoria-um poema edicao-2026-06-25 (33)

Filhos da época

Nós somos filhos da época, a época é política. Todas as tuas, nossas, vossas questões diárias, questões nocturnas são questões políticas. Queiras tu ou não os teus genes têm passado político, a pele matiz político, os olhos aspecto político. Os temas que abordas têm ressonância, o que calas tem expressão

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Meus irmãos
categoria-um poema edicao-2026-06-11 (31)

Meus irmãos

Meus irmãos É preciso atrelar os nossos poemas à charrua do boi magro É preciso que este se enterre até aos joelhos Na vaza dos arrozais É preciso que eles façam todas as perguntas É preciso que recolham toda a luz É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos

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MÃOS DADAS
categoria-um poema edicao-2026-06-04 (30)

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

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O Riso Precisa de Dentes
categoria-um poema edicao-2026-05-28 (29)

O Riso Precisa de Dentes

Boa noite. Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia, superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física. A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos.  Fontes hospitalares

Jornal Maio
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-05-21 (28)

(sem título)

Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes) Se o Estado prefere tanques, Senhora Directora da PIDE das Almas, eis a minha declaração sob tortura: confesso o verso escondido na sola do sapato, a metáfora que fugiu pela janela do quarto de interrogatório, e o estribilho que os porões

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(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-05-14 (27)

(sem título)

Nasceu para dar a volta a isto tudo. Eu, é mais para encher chouriços, dar horas à espera. E juro que há quem faça fila para ver. Enfim, hoje em dia, nada me espanta. A vizinha do lado, que costuma ler autores sefarditas do século XVIII, todos os dias, à

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OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)
categoria-um poema edicao-2026-05-07 (26)

OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony Artigo I. Fica decretado que agora vale a verdade. que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira. Artigo II. Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em

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Terceiro erro mundial
categoria-um poema edicao-2026-04-30 (25)

Terceiro erro mundial

os estados unidos bombardearam o irão penso que é assim que se escreve em linguagem hermética é que na televisão diz-se que começou a guerra e logo agora que tinha chegado a primavera fiz hoje a lista mais ridícula de todas as listas que já se fizeram e olhem

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