categoria-um poema

Os cães contra o futuro
categoria-um poema edicao-2026-11-05 (48)

Os cães contra o futuro

Soltaram os cães contra o futuro Abrem à bastonada os ossos jovens quebram os seus filhos esmagam o amanhã marcham contra a verdade cobrem na noite a coragem a esperança Erguem os muros que rompem da terra e tudo arrastam Se uma chuva de borboletas Uma estrela rasgada os abrisse

Jornal Maio
quando a harmonia chega
categoria-um poema edicao-2026-10-29 (47)

quando a harmonia chega

Escrevo na madrugada as últimas palavras deste livro: e tenho o coração tranquilo, sei que a alegria se reconstrói e continua. Acordam pouco a pouco os construtores terrenos, gente que desperta no rumor das casas, forças surgindo da terra inesgotável, crianças que passam ao ar livre gargalhando. Como um rio

Jornal Maio
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-10-22 (46)

(sem título)

O outono come da minha mão a sua folha: somos amigos. Tiramos às nozes a casca do tempo e ensinamo-lo a andar: o tempo regressa de novo à casca. No espelho é domingo, no sonho dorme-se, a boca fala verdade. O meu olhar desce até ao sexo dos

Jornal Maio
O hóspede
categoria-um poema edicao-2026-10-08 (44)

O hóspede

Perguntava-te tarde na outra noite de onde brotam as violências do mundo e tu abriste os teus olhos de farol em repouso e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio. Há tantas coisas, amor, que não compreendi, mas a tua hospitalidade não é uma delas. Juan Gabriel Vásquez

Jornal Maio
O meu avô era um terrorista
categoria-um poema edicao-2026-09-24 (42)

O meu avô era um terrorista

O meu avô era um terrorista — Cuidava do seu campo, regava as rosas no pátio, fumava cigarros com a avó na praia amarela, estendido como um tapete de orações. O meu avô era um terrorista — Colhia laranjas e limões, ia pescar com os irmãos até ao meio-dia. Cantava uma

Jornal Maio
A poesia está guardada nas palavras
categoria-um poema edicao-2026-09-17 (41)

A poesia está guardada nas palavras

“A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias

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(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-09-10 (40)

(sem título)

Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas? E por que não te hei-de eu falar? Walt Whitman «A Ti», in Folhas de Erva Tradução de Maria de Lourdes Guimarães Relógio D’Água Editores, 2010

Jornal Maio
Não me Canso de Falar
categoria-um poema edicao-2026-09-03 (39)

Não me Canso de Falar

Não me canso de falar sobre a diferença ténue entre as mulheres e as árvores, sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo não encontrei em nenhum passaporte. Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a terra dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens? Onde

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PÁTRIA
categoria-um poema edicao-2026-07-02 (34)

PÁTRIA

Creio no arco-íris, na cal duma velha casa e na reconciliação das vozes dissonantes; creio na exaltação do ensejo do fogo dos amantes; creio na claridade da alma e espírito da chuva; creio na causa da lua sobre marés, na liberdade, nas palavras Creio nos peixes, nos segredos do

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Filhos da época
categoria-um poema edicao-2026-06-25 (33)

Filhos da época

Nós somos filhos da época, a época é política. Todas as tuas, nossas, vossas questões diárias, questões nocturnas são questões políticas. Queiras tu ou não os teus genes têm passado político, a pele matiz político, os olhos aspecto político. Os temas que abordas têm ressonância, o que calas tem expressão

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Meus irmãos
categoria-um poema edicao-2026-06-11 (31)

Meus irmãos

Meus irmãos É preciso atrelar os nossos poemas à charrua do boi magro É preciso que este se enterre até aos joelhos Na vaza dos arrozais É preciso que eles façam todas as perguntas É preciso que recolham toda a luz É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos

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categoria-um poema edicao-2026-11-05 (48)

Os cães contra o futuro

Soltaram os cães contra o futuro
Abrem à bastonada
os ossos jovens

quebram os seus filhos
esmagam o amanhã

marcham contra a verdade
cobrem na noite
a coragem
a esperança

Erguem os muros
que rompem da terra
e tudo arrastam

Se uma chuva de borboletas
Uma estrela rasgada
os abrisse dos seus cárceres

Como acordar neste dia?
Como fingir que podemos viver?
Sextas negras
Faixas limitadas
Crianças mortas de inocência

E a injustiça que rasga
E a morte trocada pelo nada
os turistas pelas ruas
E as batalhas?
E a morte de um rio?

Os buracos negros
A dança dos astros
O imenso engano debaixo da pele
Como se o futuro fosse possível de morder

Ramos Mar outubro 2026

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quando a harmonia chega

Escrevo na madrugada as últimas palavras deste livro: e tenho o coração tranquilo, sei que a alegria se reconstrói e continua.

Acordam pouco a pouco os construtores terrenos, gente que desperta no rumor das casas, forças surgindo da terra inesgotável, crianças que passam ao ar livre gargalhando. Como um rio lento e irrevogável, a humanidade está na rua.

E a harmonia, que se desprende dos seus olhos densos ao encontro da luz, parece de repente uma ave de fogo.

Carlos de Oliveira
«Quando a harmonia chega»
Terra de Harmonia, in Trabalho Poético
Livraria Sá da Costa Editora, 1998.

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(sem título)

O outono come da minha mão a sua folha: somos amigos.
Tiramos às nozes a casca do tempo e ensinamo-lo a andar:
o tempo regressa de novo à casca.

No espelho é domingo,
no sonho dorme-se,
a boca fala verdade.
O meu olhar desce até ao sexo dos amantes:
olhamo-nos,
dizemos algo de escuro,
amamo-nos como papoila e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
ou o mar no brilho-sangue da lua.
Ficamos abraçados à janela, olham para nós da rua:
é tempo que se saiba!
É tempo que a pedra se decida a florir,
que ao desassossego palpite um coração.
É tempo que seja tempo.
É tempo.

Paul Celan
«Corona»
Sete Rosas Mais Tarde — Antologia Poética
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno
Lisboa: Cotovia, 1993.

categoria-um poema edicao-2026-09-24 (42)

O meu avô era um terrorista

O meu avô era um terrorista —
Cuidava do seu campo,
regava as rosas no pátio,
fumava cigarros com a avó
na praia amarela, estendido
como um tapete de orações.

O meu avô era um terrorista —
Colhia laranjas e limões,
ia pescar com os irmãos até ao meio-dia.
Cantava uma canção reconfortante a caminho
do ferrador no seu cavalo pigarço.

O meu avô era um terrorista —
Fazia chá com leite,
sentava-se na sua terra verdejante, suave como seda.

O meu avô era um terrorista —
Partiu da sua casa, deixando-a para os convidados vindouros,
deixou alguma água na mesa, a sua melhor,
para que os convidados não morressem à sede depois da sua
conquista.

O meu avô era um terrorista —
Caminhou até à cidade segura mais próxima,
vazia como o céu taciturno,
desocupada como uma tenda deserta,
escura como a noite sem estrelas.

O meu avô era um terrorista —
O meu avô era um homem,
um ganha-pão para dez,
cujo luxo era ter uma tenda,
com uma bandeira azul da ONU na haste enferrujada,
na praia junto a um cemitério.

MOSAB ABU TOHA
O meu avô era um terrorista
In Coisas que poderás encontrar escondidas no meu ouvido: poemas de Gaza
Tradução portuguesa:Traça Editora, 2026

categoria-um poema edicao-2026-09-17 (41)

A poesia está guardada nas palavras

“A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.”

Manoel de Barros
In:Tratado geral das grandezas do ínfimo
(2001)

categoria-um poema edicao-2026-09-03 (39)

Não me Canso de Falar

Não me canso de falar sobre a diferença ténue entre
as mulheres e as árvores,
sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo não
encontrei em nenhum passaporte.
Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a terra
dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens?
Onde está então o meu casebre? Onde estou eu?
A assembleia aplaudiu-me
durante três minutos, três minutos de liberdade
e de reconhecimento… A assembleia acaba de aprovar
o nosso direito ao regresso, como o de todas as galinhas e
todos os cavalos, a um sonho de pedra.
Aperto-lhes a mão, um a um, depois faço uma saudação, inclinando-me… e continuo a viagem
para outro país, onde falarei sobre a diferença entre
miragens e chuva.
E perguntarei: Senhoras e senhores de bom coração,
a terra dos homens é
de todos os homens?

Mahmoud Darwish
Tradução de Albano Martins
in O Jardim Adormecido e Outros Poemas,
Campo das Letras, Porto

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PÁTRIA

Creio no arco-íris, na cal duma velha casa e na reconciliação
das vozes dissonantes; creio na exaltação do ensejo do fogo
dos amantes; creio na claridade da alma e espírito da chuva;
creio na causa da lua sobre marés, na liberdade, nas palavras
Creio nos peixes, nos segredos do mar; creio nos sortilégios
duma árvore, na virtude da paz; creio no fecundo da poesia
e nos quatro elementos; creio na essência de vulcões e rios;
creio na eternidade das bibliotecas, na ressurreição do Poeta
Creio nos pássaros, nas dádivas da terra, na bondade do sol;
creio na agitação dos girassóis ao amanhecer; creio nos dias
que virão, na música, nas rosas, na fecundidade dos ventos.
Eis a Pátria que admito; creio nela sem medo de envelhecer.

Machado, Ivo.
Pátria. In: Verbo Possível.
Lisboa, 2006.

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Filhos da época

Nós somos filhos da época,
a época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas
questões diárias, questões nocturnas
são questões políticas.

Queiras tu ou não
os teus genes têm passado político,
a pele matiz político,
os olhos aspecto político.

Os temas que abordas têm ressonância,
o que calas tem expressão
de um modo ou outro na política.

Passeias pela floresta
e dás passos políticos
num chão político.

Também são políticos os versos apolíticos,
e lá no alto a lua resplandece,
a lua já objecto não lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Mas que questão, responde lá, então.
Questão política.

Não tens sequer que ser um ser humano
para adquirires significado político.
Basta-te seres petróleo bruto,
matéria-prima, forragem substancial.

Ou mesa então de reuniões em cuja forma
se apoiaram longos meses:
na qual se negociou a vida ou morte,
quadrada ou redonda.

Pessoas entretanto faleceram,
morreram animais,
casas arderam
e campos tornaram-se bravios
como nos tempos de outrora
muito menos políticos.

Wisława Szymborska,
(1923–2012)
Filhos da Época
Tradução de Júlio Sousa Gomes.
In: Paisagem com Grão de Areia.
Lisboa: Relógio d’Água, 1998.

categoria-um poema edicao-2026-06-11 (31)

Meus irmãos

Meus irmãos
É preciso atrelar os nossos poemas
à charrua do boi magro
É preciso que este se enterre até aos joelhos
Na vaza dos arrozais
É preciso que eles façam todas as perguntas
É preciso que recolham toda a luz
É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos
Balizem as estradas
É preciso que sejam o sinal a anunciar a aproximação do adversário
É preciso que batam tambor na selva
E enquanto na terra houver um único país ou um único homem escravo
E enquanto no céu restar nem que seja uma única nuvem atómica
É preciso que os nossos poemas dêem tudo por tudo, corpo e alma para a grande liberdade.

HIKMET, Nâzim
Poemas da Prisão e do Exílio.
Tradução de Rui Caeiro.
Lisboa: &etc, 2000.

Os cães contra o futuro
categoria-um poema edicao-2026-11-05 (48)

Os cães contra o futuro

Soltaram os cães contra o futuro Abrem à bastonada os ossos jovens quebram os seus filhos esmagam o amanhã marcham contra a verdade cobrem na noite a coragem a esperança Erguem os muros que rompem da terra e tudo arrastam Se uma chuva de borboletas Uma estrela rasgada os abrisse

Jornal Maio
quando a harmonia chega
categoria-um poema edicao-2026-10-29 (47)

quando a harmonia chega

Escrevo na madrugada as últimas palavras deste livro: e tenho o coração tranquilo, sei que a alegria se reconstrói e continua. Acordam pouco a pouco os construtores terrenos, gente que desperta no rumor das casas, forças surgindo da terra inesgotável, crianças que passam ao ar livre gargalhando. Como um rio

Jornal Maio
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-10-22 (46)

(sem título)

O outono come da minha mão a sua folha: somos amigos. Tiramos às nozes a casca do tempo e ensinamo-lo a andar: o tempo regressa de novo à casca. No espelho é domingo, no sonho dorme-se, a boca fala verdade. O meu olhar desce até ao sexo dos

Jornal Maio
O hóspede
categoria-um poema edicao-2026-10-08 (44)

O hóspede

Perguntava-te tarde na outra noite de onde brotam as violências do mundo e tu abriste os teus olhos de farol em repouso e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio. Há tantas coisas, amor, que não compreendi, mas a tua hospitalidade não é uma delas. Juan Gabriel Vásquez

Jornal Maio
O meu avô era um terrorista
categoria-um poema edicao-2026-09-24 (42)

O meu avô era um terrorista

O meu avô era um terrorista — Cuidava do seu campo, regava as rosas no pátio, fumava cigarros com a avó na praia amarela, estendido como um tapete de orações. O meu avô era um terrorista — Colhia laranjas e limões, ia pescar com os irmãos até ao meio-dia. Cantava uma

Jornal Maio
A poesia está guardada nas palavras
categoria-um poema edicao-2026-09-17 (41)

A poesia está guardada nas palavras

“A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias

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(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-09-10 (40)

(sem título)

Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas? E por que não te hei-de eu falar? Walt Whitman «A Ti», in Folhas de Erva Tradução de Maria de Lourdes Guimarães Relógio D’Água Editores, 2010

Jornal Maio
Não me Canso de Falar
categoria-um poema edicao-2026-09-03 (39)

Não me Canso de Falar

Não me canso de falar sobre a diferença ténue entre as mulheres e as árvores, sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo não encontrei em nenhum passaporte. Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a terra dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens? Onde

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PÁTRIA
categoria-um poema edicao-2026-07-02 (34)

PÁTRIA

Creio no arco-íris, na cal duma velha casa e na reconciliação das vozes dissonantes; creio na exaltação do ensejo do fogo dos amantes; creio na claridade da alma e espírito da chuva; creio na causa da lua sobre marés, na liberdade, nas palavras Creio nos peixes, nos segredos do

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Filhos da época
categoria-um poema edicao-2026-06-25 (33)

Filhos da época

Nós somos filhos da época, a época é política. Todas as tuas, nossas, vossas questões diárias, questões nocturnas são questões políticas. Queiras tu ou não os teus genes têm passado político, a pele matiz político, os olhos aspecto político. Os temas que abordas têm ressonância, o que calas tem expressão

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Meus irmãos
categoria-um poema edicao-2026-06-11 (31)

Meus irmãos

Meus irmãos É preciso atrelar os nossos poemas à charrua do boi magro É preciso que este se enterre até aos joelhos Na vaza dos arrozais É preciso que eles façam todas as perguntas É preciso que recolham toda a luz É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos

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