Entre o colapso climático, a inação política própria de um sistema económico que o sustenta e a ascensão da extrema-direita, Quebrar em caso de emergência climática, escrito a várias mãos pelo coletivo Climáximo a convite da editora Tigre de Papel, desafia-nos a olhar de frente as catástrofes climáticas que têm acossado o planeta e a sonhar com o fim do capitalismo como a revolução que ainda pode devolver esperança ao futuro.
A emergência presente no título é um verdadeiro apelo à ação. A emergência em responder ao colapso é real: “A perspetiva de futuro sem uma revolução global resultará no fim do clima estável que permitiu o florescimento da atual civilização humana” (p. 23).
Numa das suas obras1, Slavoj Žižek cita Orwell a propósito da questão das diferenças de classe (todos nós denunciamos as distinções de classe, mas são muito poucos os que querem seriamente aboli-las) para ilustrar que a possibilidade da transformação é evocada para garantir que a ação transformadora não terá lugar. Nesta linha de pensamento, e muito resumidamente, “a verdadeira coragem não é imaginarmos uma alternativa, mas aceitarmos as consequências do facto de não haver qualquer alternativa claramente discernível, o sonho de uma alternativa é um sintoma de cobardia teórica, funcionando com um fetiche que nos impede de pensarmos até ao fim o beco sem saída da nossa situação”. Este livro, Quebrar em caso de emergência climática, transporta-nos claramente até aqui, dá-nos essa imagem. E fá-lo quer no plano geral – “Não há mais tempo para a ilusão de que governos, instituições e empresas estão a fazer algo que não seja levar-nos para o fundo” (p. 9) –, quer no plano concreto: “Os Estados Unidos, o maior produtor mundial de petróleo e gás, o segundo produtor mundial de carvão e o maior emissor de gases com efeito de estufa da história, abandonam o acordo, em 2025, pela segunda vez” (p. 10). “Depois de invadir a Venezuela, Trump anunciou “o império fóssil vinha para tomar as reservas petrolíferas e determinar o rumo da sociedade da Venezuela” (p. 10).
Com este cenário, a verdadeira declaração subversiva de independência parte do pressuposto de que “pensar é aprender de novo a ver e a dirigir a atenção, a renomear a realidade”2, uma condição suficiente mas também necessária para ler este livro, que nos transmite uma sinceridade comovente ao reconhecer a responsabilidade individual e que, com toda a clareza e sem eufemismos, renomeia a realidade através de três pontos: o sistema capitalista provocou a crise climática; as elites estão a executar uma guerra sem precedentes; qualquer pessoa viva tem o dever moral, material e histórico de agir para parar esta guerra. Ou seja, o caos climático e a guerra não surgem só do ponto de vista interseccional, mas da própria essência e o nosso dever moral deve impelir-nos à ação. É, pois, esse convite que não só preenche as páginas deste livro, mas nos faz levantar da cadeira e sair a correr. Não para fugir, mas para agir. Aliás, ao introduzirem-se, habilmente, relatos de ação direta, a visualização mental da possibilidade de ação é inequívoca.
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Este livro possui, também, uma importante dimensão educativa. Se existe um campo em que a promessa de transformação é mais reiterada, é precisamente na educação, apresentada como motor de mobilidade social, como condição de emancipação, como resposta às desigualdades. E, no entanto, o que se observa é adestramento do seu papel. A Educação Ambiental é atirada para o desenvolvimento de competências utilitárias, para a adaptabilidade, no fundo, para a autorresponsabilização. O coletivo Climáximo, com esta escrita de vertente pedagógica, alia rigor conceptual e inteligibilidade, binómio próprio de quem domina o tema. O livro fornece toda a lexicologia fundamental para pensarmos no sentido de renomear a realidade: gases com efeito de estufa (GEE) , aquecimento global, o que é o clima, orçamento de carbono, neutralidade carbónica, ou a importância do fim dos combustíveis fósseis até 2030, a emergência! Cimenta as definições em dados concretos e ilustrados: “A Terra já aqueceu e arrefeceu antes, assim como variaram também os níveis de GEE na atmosfera, mas é precisamente pelo facto de as alterações no clima terrestre nunca terem sofrido alterações tão grandes em tão pouco tempo que estamos perante um evento histórico dramático” (p. 28). Faz conexões com a nossa vida atual: “Há ainda importantes impactos sociais e económicos, com consequências diretas e indiretas nos meios de subsistência e condições de povos inteiros, e exprimindo‑se frequentemente através de um aumento do custo de vida diretamente relacionado com a escassez (a ‘mão invisível’ do mercado a funcionar: menos comida implica comida mais cara). Pois sim, a crise climática já está a ter impacto na tua vida, mesmo que ainda não tenhas parado um pouco para pensar nela” (p. 35). Dá-nos uma visão utilitarista3 da ação em termos de ativismo, visível na forma como comparam o ganho da ação individual com a luta ativista. Num dos momentos do livro sustentam que um “monge franciscano climático” (p. 113), mesmo adotando um estilo de vida extremamente sóbrio, reduziria cerca de duas toneladas de emissões relativamente à média portuguesa, enquanto uma pessoa envolvida na luta antipetróleo poderia contribuir para evitar emissões significativamente superiores.
Tudo isto pode parecer uma distopia – exemplo que dão no livro, com o filme Don’t look up (Não Olhem para Cima) –, mas não é. “Foi por isso mesmo que estas elites apostaram na extrema-direita como a camada violenta que garantirá a continuação da exploração, cada vez mais exacerbada, até chegarmos a pontos de colapso” (p. 41). Na mesma linha de Žižek, o Climáximo adverte para o aceleracionismo que convém à extrema-direita “Eles vieram para manter a exploração, para a acelerar até ao último momento” (p. 10). Esta leitura encontra eco nas reflexões de Naomi Klein, que alerta para a existência de um “sobrevivencialismo monstruoso e supremacista” por parte dos magnatas da tecnologia. Por sua vez, Leonor Canadas, do coletivo Climáximo, relembra, numa sessão de apresentação, que “estamos mais próximas de ser refugiadas climáticas do que ser bilionárias”. A célebre frase “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” introduz uma secção preciosa de desconstrução da inevitabilidade da vida no seio do sistema capitalista e deste éter invisível, bem como a responsabilidade sobre a perpetuação da crise climática, não esquecendo que “o modelo energético fóssil tornou‑se a espinha dorsal da dominação colonial” (p. 78).
A formulação da frase “a guerra mata e é por isso que o debate sobre a guerra é tão intenso”4 pode ajudar a compreender a força com que Quebrar em caso de emergência climática evoca as vítimas do inferno climático e descreve a crise atual em termos de guerra. Define-se urgência suprema como o momento em que os valores mais profundos de uma comunidade e a sua própria sobrevivência coletiva se encontram sob ameaça iminente, exigindo decisões extraordinárias. É precisamente nesse estado de exceção que o coletivo Climáximo situa a emergência climática, e a sua conexão com Gaza. Gaza interpela-nos porque ali se revela, em toda a sua nudez, uma forma de poder que ameaça reorganizar o mundo inteiro, uma política de desenraizamento5 da própria condição humana, ou seja, uma espécie de vida pós-humana. É esta dissociação de nós mesmos que surge no livro e da qual emerge a referência à crise dos cuidados, conceito de Nancy Fraser, “como uma crescente dificuldade de dar resposta às necessidades de cuidados e de reprodução das comunidades” (p. 90). Pensar a interrupção seria, então, perguntar-nos que laços, que memórias e que formas de enraizamento continuam a ser capazes de impor um limite à força. No documentário, Com a Alma na Mão, Caminha, Fatem diz-nos que “antes da guerra só tirava fotografias a coisas belas, agora é só destruição. Mas é uma forma de ainda procurar vida no meio da morte”.
Há esperança? Quebrar em caso de emergência climática responde sem hesitação: a revolução. “É impossível descrever o que acontecerá sem usar a palavra revolução. As petrolíferas sabem‑no, os governos sabem‑no, os ultrarricos sabem‑no, e já é mais que tempo de nós, classe trabalhadora, o sabermos” (p. 98). David Harvey afirma que o capital nunca cairá por si mesmo. Haverá que empurrá-lo. É nesta convicção que o coletivo Climáximo apresenta um Plano de Desarmamento e um Plano de Paz. De que precisamos mais?
1Žižek, A Coragem do Desespero, Relógio d’Água, 2017.
2Amador Fernández-Savater, La batalla del pensamiento, NED Ediciones, abril de 2026.
3Na perspetiva utilitarista de justiça a deliberação de uma ação a realizar tem em vista o maior alcance de resultados.
4Michael Walzer no livro A Guerra em Debate, Cotovia 2004.
5Amador Fernández-Savater.
Mas por um homem ferido/ num labirinto perdido/ entre uma morte e uma vida! Transforma-se o oprimido/ em instrumento opressor/ Nasce num peito uma guerra! / E, lá longe… Na sua terra/o abutre, o carrasco, /o nazi, / a peste./ enchendo o ventre de carne/escreve:/ “DITOSA PÁTRIA QUE TAIS FILHOS DESTE. António Calvinho
Bardamerda para tal gente e um hurra aos cadáveres de todos os soldados perdidos, afinal todos nós. João Viegas
Enquanto um só combatente estiver vivo, enquanto mulheres e filhos permanecerem vivos e com eles os traumas que a guerra colonial provocou nos corpos e nos espíritos, ela aí está: a guerra colonial.
Já muito se escreveu sobre aqueles treze anos que deixaram a marca mais dura e mais profunda no século XX português.
Os Soldados Perdidos, que tenho à minha frente, quarenta e oito anos depois de o seu autor, João Viegas, ter desembarcado no “paraíso de todos os medos”, como ele próprio qualificou aquela terra que atrai e repele a um tempo, será, talvez, a última obra literária sobre a guerra colonial escrita por um ex-combatente.
O stress provocado pela brutalidade e pela violência da guerra, pelo que viveram durante aqueles mais de dois anos, uma interrupção brutal na sua vida em construção, na continuidade das suas vidas profissionais, no amanho do campo, nos estudos despertou em muitos combatentes mobilizados como carne para canhão a necessidade e a vontade incontida de pôr no papel, tanta vez numa abordagem literária sem filtro, como quem respira, a realidade nua, brutal, sem contemplações, quase sem narrativa organizada; um grito, um berro tão violento quanto a própria guerra que o determinava.
Uma condenação sem apelo, saída do coração, da chaga aberta para sempre, do coto ainda mais provocador que inferiorizante como foi, aliás, o caso de um dos personagens reais, como são quase todos, senão todos, os que habitam esta obra tão singela e tão poderosa. Refiro-me ao Jorge Carneiro, militar e combatente de eleição e um revolucionário genuíno.
Assim foi a verdadeira aprendizagem daquela guerra para a geração que lhe sucedeu, pela pena de escritores que nunca o tinham sido ou que não constavam (ainda) do mainstream da literatura, a arte a brotar das profundas feridas que lhes marcaram a alma, quer pelo que viram fazer, quer pelo que fizeram e nunca pensaram ser capazes de fazer, quer pelo que sofreram na verdadeira solidão dos que enfrentam a morte iminente.
Em Os Soldados Perdidos encontramos a revelação profunda do humano pela exposição visceral dos soldados na sua permanente procura da sobrevivência física e anímica numa realidade cuja essência lhes escapa mas que vão aprendendo a dominar, a cada dia que passa no confronto com o inesperado, por vezes com o indizível.
Uma inteligência prática e uma capacidade inata de resistência constroem o seu mundo possível servindo-se da própria hierarquia que os sujeita.
O cotejo, que me atrai, de duas obras tão diferentes mas tão próximas como são Nó Cego, a obra-prima que se impõe como o requiem da guerra colonial e Os Soldados Perdidos, de João Viegas, decorre de, nesta última, termos um invulgar e poderoso enlace entre a veemente e sistemática condenação da guerra, e desta guerra em particular, a condenação frontal dos assassinos de voz meiga que a impõem por métodos brutais, totalitários e terroristas e a explícita e por vezes entusiástica celebração, mesmo exaltação, das qualidades militares daqueles que são forçados ao combate que está presente em Nó Cego.
Será uma característica de todas as guerras esta contradição, eventualmente percorrerá todas as obras, mas aqui encontramo-la no centro da narrativa. Aqui não se trata de uma constatação amarga. É uma forma muito bela, quase ingénua, de como se celebra a vida e a sua precariedade.
Falo-vos de um belo livro. Um belo livro caracterizado pela simplicidade narrativa que nos põe no centro da acção, por vezes quase frenética, mobilizados também nós “ao serviço da pátria” como ainda hoje sem qualquer pejo se diz daqueles que foram vítimas do fascismo e enviados para matar os seus irmãos de sofrimento ainda mais brutal, e depois, calhando, morrer.
Um estilo lesto e vivíssimo, sem rodriguinhos nem apaziguadores nem moralismos, sem complicações ficcionais, com a limpidez e a força da realidade crua, acompanha a acção do alferes miliciano Viegas, como tantos outros arrancado aos seus filhos – sem direito a beneficiar da figura de “amparo”, vá-se lá saber porquê, todos sabemos, ele fazia política e propaganda subversiva insidiosa contra a guerra colonial transformada na linha principal de ataque ao fascismo.
Feita a travessia do sofrimento, da contradição angustiante entre a consciência anti-fascista e anti-colonial e a consciência mobilizadora, tornada necessidade, de que tinha de levar os seus homens de volta para casa, fosse onde fosse e de que para isso tinha de saber estar à altura, ele, saído de uma instrução precária, feita à pressa, carne para canhão, eis o nosso alferes miliciano Viegas que escapou por entre os pingos da chuva, de volta ao seu CITAC, entretanto assaltado, roubado, encerrado e destruído pela PIDE, de volta ao encontro dos colegas e camaradas para o fazer renascer e com ele repercutir na arte a paz e a liberdade conquistadas.
A beleza dos jogos de amor desprendido, simples e divertido com Bela, a jovem informadora do PAIGC como todos sabiam, mas que oferecia momentos de prazer único naquelas paragens, fê-lo sofrer genuinamente quando foi presa pela PIDE e desterrada para um campo de concentração, o ilhéu das Galinhas, no arquipélago dos Bijagós.
Mas teve o prazer de ser o primeiro a receber o seu abraço emocionado e sentir correndo pela sua face as lágrimas de alegria e de emoção e de amor com que Bela se encolheu, feliz de novo, nos seus braços numa festa à liberdade de ambos e de ambas as pátrias.
A narrativa da experiência do alferes miliciano Viegas, desde o embarque no DC-6 para a Guiné, “o paraíso de todos os medos” até ao regresso a casa, dois anos depois de ser encharcado, sem aviso, pelo seu próprio suor, pegajoso e mórbido, com que Bissau na “época das chuvas” saúda os que mal assomam à porta do avião no aeroporto da Bissalanca, até dois meses depois do 25 de Abril, quando regressa à “metrópole”, é um palpitante hino à alegria de viver através das picadas da morte.
João Viegas fá-lo com uma entusiástica e quase absurda delicadeza, que se esconde por detrás da adopção sistemática da linguagem vulgar e rude dos homens na fronteira do suportável. Somos tocados profundamente pela sensibilidade esclarecida de um sentido crítico irredutível decorrente da sua inteligência de artista.
A sempre presente condenação do fascismo e da guerra colonial não prejudica a naturalidade com que, nela metido até aos cabelos, fosse simplesmente um soldado camarada dos homens que comandava desenvolvendo uma relação de grande fraternidade e compreensão com cada um, assumindo naturalmente com grande espontaneidade a capacidade de comando entre camaradas, estabelecendo uma hierarquia muito própria alicerçada nos humanos valores e interesses comuns: enfrentar as condições adversas, enfrentar aqueles que os obrigaram a designar por inimigos e que, na elementaridade radical da luta pela sobrevivência, foram forçados a agir como se assim fosse.
O alferes Viegas e os seus homens construíram um núcleo invencível, e não me refiro às vicissitudes do combate, porque simplesmente foram levados ao entendimento de que a sua vida e a sua humanidade essencial se enraizavam não tanto na eficácia do combate ao inimigo, que, reconheçamos, não era muita, mas na fraternidade e solidariedade que souberam construir.
E uma das coordenadas determinantes foi a compreensão de que a tragédia se combate com a alegria da camaradagem e que a coragem para a viver também pode nascer da própria acção.
Em Os Soldados Perdidos, o autor, ele mesmo o alferes miliciano Viegas, subverte pela forma como age e se relaciona com os seus homens, os cânones da hierarquia contrapondo-lhe, em pleno teatro de operações, a solidariedade e a fraternidade que constituem a verdadeira camaradagem. E mesmo a base da eficácia operacional possível.
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João Viegas consegue, na pessoa do alferes Viegas, pôr em prática os ensinamentos de A Arte de Ser Chefe, de Gaston Courtois, curiosamente um sacerdote francês ligado ao movimento dos trabalhadores católicos, estudada na Academia Militar, mas tão só, para tantas vezes serem postos de parte pelo carreirismo, pela opção do mando em vez do comando, pela pusilanimidade da carácter que fornece à burocracia todo o seu poder e pelo cretinismo militar, para parafrasear Lenine quando classifica o cretinismo parlamentar.
Na sua hostilidade radical à guerra e à hierarquia, o alferes Viegas, por amor dos seus homens e não à pátria dos fascistas, capitalistas e latifundiários que, inda hoje, roubam ao povo a sua pátria para lhe imporem a deles, revela-se um verdadeiro comandante, encostando às tábuas a hierarquia que sempre tentou submetê-lo às suas regras estritas sem realmente o conseguir.
Um verdadeiro comandante sempre na primeira linha a enfrentar os perigos que a todos ameaçavam. Ele próprio, ferido em combate e evacuado para de novo voltar por exigência sua para junto dos seus homens, os camaradas a quem pertencia e que comandou nas mais diversas situações, ora abrigando-se do tiro dos guerrilheiros, ora correndo de peito aberto sobre eles como o exemplo dos soldados africanos sob o seu comando o obrigava.
Mas bom, bom eram, quando a sorte o proporcionava e surgia a oportunidade, aquelas bebedeiras catárticas conjuntamente com a ida às meninas nas povoações já organizadas de acordo com o cânone colonizador. E para esses momentos de absoluta entrega ao prazer não importava arriscar de novo a vida numa emboscada ou no rebentamento de uma mina. A vida é nossa, vale mais arriscá-la porque nos sabe bem do que sob o látego infernal da hierarquia.
Viegas irá, já na última fase da comissão, ser colocado no Estado-Maior do comando-chefe por decisão directa do general Spínola, que antes de ser chefe dos bombistas do MDLP, no intento abstruso de fazer ajoelhar a democracia, esquecido de que há formas mais eficazes como ficou provado, foi um comandante militar de prestígio, apesar de condenado a perder a guerra já perdida logo que começou.
Aí, as capacidades de Viegas para analisar as diversas componentes do movimento das tropas baseado nos serviços de informações tornaram-no indispensável.
Sublinhe-se que os serviços de informações militares estavam organizados de acordo com a estrutura NATO a que o governo fascista de Salazar aderiu orgulhosamente para a defesa comum das nações democráticas da Europa, decerto com a garantia de que tais democracias não apoiariam, como sucedeu, o movimento democrático que timidamente eclodiu em Portugal na sequência da derrota do nazi-fascismo em 1945.
Isto quer dizer que a capacidade de obter informações sobre os movimentos do inimigo estava praticamente a cargo das unidades militares no terreno e, essencialmente, dependente da PIDE e sua vasta rede de bufos. Tal colocava a PIDE numa situação relativamente privilegiada, que sustentava uma certa arrogância quando em contacto com as unidades combatentes.
O alferes Viegas, quando ainda no comando operacional do seu pelotão, teve ocasião de confrontar uma dessas ratazanas da PIDE dando a fuga a um guerrilheiro de que o pide, o inspector Palma, se arrogara o direito de se apoderar para o torturar e extorquir informações, mostrando serviço.
As relações entre os militares e as polícias políticas foram sempre conflituais, o que se pode atribuir à frequente actividade política e golpista desenvolvida pelos militares, aliás na tradição revolucionária desde o afrontamento a Beresford que custou a vida ao general Gomes Freire de Andrade. O próprio 28 de Maio de Gomes da Costa teve, no seu desencadear, uma percepção dos interesses populares à flor da pele naturalmente esmagados logo de seguida pelas forças do capital e dos senhores da terra organizadas em torno de Salazar. Outras tentativas, várias, de derrubar os fascistas, envolveram civis e, sempre, militares até ao assalto ao quartel de Beja, em 1961, para proclamar o legítimo presidente da República, o general Humberto Delgado.
Nesta sua nova actividade acompanha de perto o Movimento dos Capitães, a aproximação ao PAIGC e as dificuldades inerentes ao encontro de forças beligerantes durante treze anos e que agora se confrontavam ainda, mas para encontrarem a melhor forma de se darem as mãos.
O Movimento dos Capitães, a caminho de se tornar Movimento das Forças Armadas, para atenuar a radicalidade do golpe, enquanto iam morrendo soldados e guerrilheiros esforçava-se por se libertar da estratégia spinolista de manter o império esgotado e apodrecido.
De regresso à vida de cidadão finalmente livre face ao poder, porque livre foi sempre perante si próprio, de cidadão politicamente comprometido e empenhado e não apenas cidadão sobrevivente de uma guerra que lhe não dizia respeito mas o confrontou nas suas mais profundas convicções, de regresso à sua actividade profissional num Portugal liberto do fascismo mas ainda e sempre sob ameaça dos “irredentistas”, o professor não descurou a defesa material da liberdade conquistada.
Agora já na sua escola, em Figueiró dos Vinhos, participou entusiasmado na preparação da resistência à possibilidade de uma incursão de um forte grupo terrorista que se constituía do lado de lá da fronteira, na Espanha franquista. A experiência humana e operacional ganha na luta contra a liberdade a que fora obrigado, estava agora pronta para a defender até às últimas consequências.
Duas personagens fundamentais, para além, naturalmente, do alferes Viegas, lui même, balizam todo o conceito estético, humanista e ético de Os Soldados Perdidos. São elas o furriel Trindade, formado na escola dos Rangers, formando combatentes com elevado grau de eficácia. Ele será o verdadeiro instrutor, o protector durante os combates, o companheiro seguro de tropelias, o amigo e companheiro de todos os momentos. E o comandante do destacamento de fuzileiros, o explosivo ruivo Labaredas, pronto para acorrer em auxílio sempre que necessário no combate ou na festa com que os combatentes celebram estarem vivos.
Estas duas personagens, na vivíssima simplicidade com que são descritas, expressam afinal, e de forma tão real, a complexidade radical da vida das tropas especiais, neste caso os “rangers” e os “fuzos”. Eles assumem como sua própria natureza, como justificação do próprio acto de combater numa guerra odiosa, uma superioridade moral, não em relação ao inimigo, que desse são próximos, talvez mesmo irmãos, numa ética própria, mesmo quando não percebida, que tantas vezes sublima a violência, até quando extrema, no combate que apenas fisicamente os opõe. Trata-se, pelo contrário, de uma superioridade que os faz permanecer, vivos ou mortos, uma acusação eterna às bestas engomadas que lhes impuseram a maior das violências: tirar a vida aos seus próprios irmãos.
A burocracia virtuosamente assassinada, a hierarquia metamorfoseada no desfrute da fraternidade, da solidariedade, da camaradagem. A humanidade manifestando-se em toda a sua beleza no “paraíso de todos os medos”. A abnegação e o medo, eis o ser humano na sua totalidade.
Ao longo da leitura destas páginas senti-me contigo, meu caro João Viegas. A acompanhar-te nas picadas, nas bebedeiras, nos combates, no estremecimento angustiado perante a tua luta pela vida quando ficaste gravemente ferido, a construir contigo, com o Trindade, com o Labaredas e a malta toda, pretos e brancos, a caminhada que me ia pôr do lado daqueles com que afinal iria identificar-me e unir forças para liquidar, ainda que só daquela vez, o inimigo comum.
Hoje, 3 de Maio, de Patrícia Portela, é um romance sobre os modos como foi pintado o quadro de Goya “Os fuzilamentos de 3 de Maio” (não técnicas, mas mentalidades), como foi vivido, as circunstâncias, inclusive da narração e da narradora, os lugares geográficos, os que constituíram o pelotão de fuzilamento, os que foram assassinados, os testemunhos do lado do povo e da aristocracia. O leitor deverá cruzar na sua mente todas estas perspetivas, perfazendo uma unidade estética, que se constituirá como o bilhete de identidade do romance.
A originalidade de Patrícia Portela atinge o seu máximo expoente aqui, em Hoje, 3 de Maio, versando sobre o quadro “Os fuzilamentos de 3 de Maio” ocorridos nesse dia de 1808, pintado por Goya.
Depois de Hífen, parecia-nos ser impossível que a autora criasse uma estrutura romanesca tão original, mas não só a criou como, com ela, abre uma nova vertente nas correntes da literatura portuguesa contemporânea, o hipermodernismo (pedimos o conceito emprestado a Gilles Lipovetsky), no qual o tempo perde o seu caráter contínuo e cronológico, expresso no romance pelo quadro “Saturno Devorando o seu Filho”, evidenciando-se como simultaneidade, aquilo que Saramago tentava mostrar no final da sua vida: um processo pelo qual se evidenciaria literariamente a simultaneidade. A autora define no romance a modernidade: “É isto a modernidade. Uma abordagem desligada do presente em permanente revisão do passado” (p. 48). O hipermodernismo, como extrema intensificação da modernidade, significa que os processos literários passados e o trabalho sobre a categoria de tempo encontram-se esgotados. Assim, ao lado do pós-modernismo, que reflete, critica e denuncia o passado (a maioria dos escritores portugueses atuais), é preciso inventar processos do hipermodernismo, como Patrícia Portela nos dá o exemplo com este livro. Não é impossível que a novela gráfica seja um desses processos que substituirá o romance só com letras e palavras.
É neste sentido que Hoje, 3 de Maio se expõe por estruturas (oito), desde a Necrose até Germinação, cada uma repetindo as restantes (a simultaneidade) e em algumas discutindo a questão do tempo vista por Einstein e por Bergson, intercalando-se com a vida da narradora em Madrid. Porque tentativa de passar para o papel a simultaneidade, a autora dá sugestões de leitura que aproximem a escrita do romance da realidade. E a realidade e só uma: os fuzilamentos do dia 3 de maio de 1808 tal como vistos por Goya. Por isso, o quadro ou fragmentos deste repetem-se continuamente, dando a sensação (verdadeira) de que não se está a falar de outra coisa senão do quadro de Goya. O quadro é omnipotente neste romance face às múltiplas personagens, inclusive da narradora.
O hipermodernismo, como extrema intensificação da modernidade, significa que os processos literários passados e o trabalho sobre a categoria de tempo encontram-se esgotados.
É um romance sobre os modos como foi pintado (não técnicas, mas mentalidades), como foi vivido, as circunstâncias, inclusive da narração e da narradora, os lugares geográficos, os que constituíram o pelotão de fuzilamento, os que foram assassinados, os testemunhos do lado do povo e da aristocracia. O leitor deverá cruzar na sua mente todas estas perspetivas, perfazendo uma unidade estética, que se constituirá como o bilhete de identidade do romance. É evidente que cada leitor será atraído por um aspeto singular do romance e, assim, teremos o mesmo romance multiplicado diferentemente por um número infinito de leitores. É isto o hipermodernismo: ainda que mesmidade, oferece-se sempre como alteridade. Lemos por três vezes o romance e tivemos três sensações e sentimentos de leitura diferentes, consoante líamos de seguida todos os “Preâmbulos”, todos os capítulos relacionados com o espaço ou os capítulos relacionados com o tempo.
Repito, não há romance igual em Portugal. Leitor: bem-vindo a um mundo novo em Portugal.
Fahrenheit 451 é a temperatura de combustão do papel na escala de Fahrenheit, escala de temperatura proposta por Daniel Gabriel Fahrenheit em 1724. A sua unidade é o grau Fahrenheit (símbolo: °F). Nesta escala o ponto de fusão da água é de 32°F e o ponto de ebulição é de 212°F. Os 451ºF corresponderão a 232,8ºC.
É também o título de um livro de Ray Bradbury, autor norte-americano normalmente referenciado como escritor de ficção científica, ainda que este livro em particular seja essencialmente uma distopia.
Recentemente (março de 2026) reeditado pela Cavalo de Ferro, casa que tem vindo a reeditar a obra do autor, ou mesmo a apresentar algumas até aqui inéditas, Fahrenheit 451 constava da coleção Argonauta, da Livros do Brasil, com tradução de Mário Henrique Leiria, e capa desenhada por Lima de Freitas.
A Utopia, escrita em 1516 por Thomas More, retrata a ilha do mesmo nome, onde estaria vigente um regime sociopolítico perfeito. Por curiosidade, o narrador toma conhecimento de todos aqueles factos através de uma conversa que mantém numa taberna de um qualquer porto, com um marinheiro português. A Cidade do Sol, de Campanella, ou a Nova Atlântida, de Francis Bacon, são outros exemplos deste tipo de exercício literário, mais tarde designado como literatura utópica.
Já no século XX, com o advento dos totalitarismos, esse exercício foi posto em prática de uma forma invertida. Já não era descrito o sistema perfeito. Passámos a estar confrontados com sistemas disfuncionais, quando não já perto do colapso, sendo evidente que os autores pretendiam antever aquilo a que poderia levar a ambição do homem.
A novela 1984, de George Orwell, atingiu, talvez, maior notoriedade do que qualquer outra do género, mas isso deveu-se essencialmente ao ambiente político existente à época do seu lançamento, tratando-se de uma crítica direta ao regime estalinista.
Mas Nós, do russo Evgueni Zamiatine, vista como inspiração para Orwell, ou o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, são obras igualmente poderosas, quer na análise que é feita dos mecanismos da nossa sociedade, quer no apuro artístico conseguido.
Fahrenheit 451 é muitas vezes citado quando falamos de censura e de proibição de livros. Na sociedade retratada, determinados livros são proibidos, sendo que estava previsto que, sempre que fosse encontrada uma biblioteca clandestina (qualquer número de livros, na verdade), era chamado o corpo de bombeiros, que já não funcionava para extinguir fogos, mas sim para incinerar livros proibidos.
É fácil perceber que a sua notoriedade passa em grande parte pela ideia poderosa de vermos o corpo de bombeiros votado à queima de obras literárias. Contribuiu, em muito, para a sua fama, o filme de François Truffaut, realizado em 1966. O grande mestre da Nouvelle Vague não poderia passar despercebido ao fazer um filme em língua inglesa, colocando no ecrã uma das maiores estrelas daquele lado do canal da Mancha: Julie Christie.
Só que Fahrenheit 451 tem muito mais para nos contar do que bombeiros com mangueiras donde jorra gasolina. Mais do que envelhecer bem, esta obra tem vindo a ficar mais atual.
Comecemos por uma pequena curiosidade. Na história, o passado menos recente, tal como era apresentado, tinha sido alterado em função das conveniências do regime. O corpo de bombeiros tinha como narrativa oficial que a sua fundação datava dos anos da revolução americana, e que tinha como propósito queimar os livros de influência inglesa. O seu primeiro líder teria sido Benjamin Franklin, sendo de assinalar o sentido de ironia.
Neste regime em particular, que é, obviamente, totalitário, não sabemos exatamente quem é o adversário. Mesmo que durante parte da ação se esteja na iminência de uma guerra, que acaba por deflagrar já no final, como se de uma espécie de cair do pano se tratasse. Mas sabemos que são os livros em geral que são proibidos, mais concretamente a literatura, e não os livros que defendam algum modelo específico de distribuição de riqueza, ou de regras de convívio entre raças e/ou géneros. Não se trata de atacar os que rezam a Deus vestidos de branco, por parte daqueles que rezam vestidos de negro.
O que está verdadeiramente em causa é a literatura, como veículo de transmissão de ideias. Naquele regime, era a reflexão, fosse em que sentido fosse, que era combatida. E ninguém estranhava a extraordinária taxa de suicídios, toxicodependência ou divórcio registada.
Em determinado momento, o protagonista, Guy Montag, bombeiro de profissão, é confrontado pelo seu superior hierárquico, que aproveita para lhe explicar alguns detalhes sobre a realidade que os rodeava. É dito em determinado momento: “Quanto maior é a população, mais numerosas são as minorias.” E depois é explicado que as tensões decorrentes de uma sobrepopulação do planeta levaram o homem a simplificar tudo, do sistema político ao entretenimento. A literatura começou por ser resumida, chegando a não passar de resumos de resumos, acabando, por fim, por ser banida. Tudo o que pudesse constituir razão para divergências de opinião passou a ser banido – ainda que as pessoas não fossem necessariamente mais felizes por isso.
Numa época em que a comunicação de massas se faz em grande parte pelas redes sociais, são-nos fornecidos ideias e valores que já temos e defendemos, sem qualquer contraditório e, portanto, sem necessidade de reflexão.
O nosso herói acaba por se rebelar contra os poderes instituídos e, já em fuga, quando se julgava irremediavelmente sozinho, encontra um grupo de marginais que sobrevive nas margens daquela sociedade. Entre outras coisas, asseguram que a memória coletiva não se perca, na medida em que memorizam os livros que leem.
Significativamente, respondem à pergunta “O que é que vocês fazem?” com: “Nós lembramos.”
A história termina com o deflagrar de uma guerra, como já referido, e com alguém a refletir que seria bom que o homem não agisse como uma fénix, porque, ainda que possa renascer das cinzas, poderia não mergulhar tão facilmente em piras funerárias.
Estamos numa época em que a comunicação de massas se faz em grande parte pelas redes sociais, que operam de forma a fornecer-nos essencialmente aquilo que nos interessa. Ou seja, são-nos fornecidos ideias e valores que já temos e defendemos, sem qualquer contraditório e, portanto, sem necessidade de reflexão. Pelo que, inevitavelmente, quando finalmente entramos em confronto com alguma coisa, a nossa posição surge já extremada. Caminhamos para um tipo de sociedade mais confrontacional.
Uma vez lida esta obra, que era originalmente um mero meio de entretenimento típico de uma época em que o átomo e a corrida espacial dominavam o nosso imaginário, e que tem vindo a revelar um carácter ominoso, o leitor atento perceberá que importa que saibamos manter viva a chama da reflexão, mantendo presente que os caminhos mais curtos e planos não são necessariamente os que nos conduzem ao nosso destino.
Pouco depois do 25 de Abril, diz o texto de contracapa deste romance de Carlos Campaniço, “os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas”. Em Aldeia Velha, que poderia ser a Safara natal do autor, no concelho de Moura, ou alguma outra aldeia do Alentejo, onde decorre a ação deste romance, “a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da guerra colonial e as novas liberdades trazidas pela revolução”.
“Primeiro a Revolução; meses depois, uma autorização ministerial para ocuparem as terras de quem não as trabalhava. Houve euforia, era a força do povo, a justiça do povo, finalmente, tantos braços levantados; mas também houve medo, porque os que tinham terras e bens de repente se perguntavam porque lhes tiravam o que sempre fora seu. Muitas daquelas terras sempre estiveram nas famílias, e, além disso, eram obrigados a fugir levando as próprias vidas, carregando-as como malas de roupas incompletas (p. 23).”
Ao longo de 270 páginas vemos desfilar uma galeria de personagens: Zeferino Guedelha, antigo lavrador, expropriado com a reforma agrária. Tonico e Aurora, crianças criadas ao deus-dará, filhos do moleiro Adrião Lampreia e de Ana Maria, que o troca pela vida confortável ao lado de José Maria Falcão, latifundiário expropriado e ressentido. João Cotovio, que veio da guerra com stress pós-traumático – tinha “crises de nervos” e partia tudo o que tivesse à mão. A irmã deste, Marianita Cotovio, que regressa à terra vinda da capital, “prenha por todos os lados de onde se olhasse” e sem marido. O médico, doutor Francisco Geraldes, e a sua amante Tomásia Bicho. José Catarino, o presidente da junta, o padre Manuel Francisco, rapaz da terra, filho do “Carvoero”, de uma das famílias mais pobres da aldeia. E sobretudo Boca-Viúva – o carteiro, “negro como uma sombra dentro do seu casaco grosso, carregando a correspondência com um sofrimento que lhe mirrava os gestos. Parecia que todas as más notícias contidas nas cartas entravam nele e lhe faziam dano” – que estará no centro do enredo.
O tempo do romance vai muito além do período pós-revolucionário, acompanhando o fim da reforma agrária e dos sonhos que acalentou.
Carlos Campaniço nasceu na aldeia de Safara, no concelho de Moura, e aí viveu até ingressar na universidade, onde cursou Línguas e Literaturas Modernas. É mestre em Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo. Profissionalmente, é programador artístico. Publicou vários romances, entre eles Os Demónios de Álvaro Cobra (2013, vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada), Mal Nascer (2014, finalista do Prémio LeYa e vencedor do Prémio Mais Literatura promovido pela revista Mais Alentejo), As Viúvas de Dom Rufia (2016) e Velhos Lobos (2022).
Carlos Campaniço, A Cinco Palmos dos Olhos 1.ª edição: Outubro de 2025 Casa das Letras | Grupo Leya
A ciência, a poesia e o futuro: o voo ambicioso de Butterfly Chronicles.
A editora Escorpião Azul acaba de lançar Butterfly Chronicles, a mais recente obra de João Mascarenhas, autor veterano e presença reconhecida da banda desenhada portuguesa. A obra, que nasceu como webcomic há mais de uma década, chega finalmente ao formato de álbum físico, agora com a história concluída — um desfecho aguardado pelos leitores que acompanharam o projeto desde os seus primeiros passos digitais.
A premissa que sustenta Butterfly Chronicles é de imediato intrigante: poderá a memória individual ser acedida através do ADN? A questão, simultaneamente científica e filosófica, serve de porta de entrada para uma narrativa que começa de forma contemplativa, quase meditativa, antes de mergulhar no ambiente dinâmico da Investigação em Bio-Robótica da Universidade de Kymera, em Tóquio. É ali que uma equipa de investigadores trabalha na leitura da chamada “memória da espécie”, procurando extrair dos genes de determinados animais informações para melhorar o desempenho de robôs desportivos no competitivo universo do Droidball, um desporto mecanizado longe de ser apenas “futebol com robôs”, que Mascarenhas explora de forma conceptual.
O enredo adensa-se quando a equipa descobre que este método permite ir mais longe: não só a memória genética coletiva, mas também a memória individual se revela acessível. O salto científico abre, então, caminho a questões éticas, psicológicas e sociais que conduzem a narrativa para territórios mais profundos: a privacidade biológica, a identidade e os limites da ciência são temas que ecoam ao longo do álbum e que têm eco no tempo presente em que vivemos quando a evolução tecnológica parece mais rápida do que nunca.
João Mascarenhas constrói aqui uma ficção científica que não se afasta do plausível; antes, apoia-se em bases reais da genética e da robótica para projetar um futuro que se apresenta credível e inquietante. Essa ponte entre rigor científico e imaginação, por vezes com contornos poéticos, torna Butterfly Chronicles num livro estimulante, daqueles que, uma vez abertos, custam a pousar.
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A amplitude temática impressiona: ciência, cultura japonesa, humor, crime organizado, música, reflexão ética. À primeira instância, poder-se-ia pensar que são temas a mais, mas Mascarenhas consegue entrelaçá-los com habilidade, garantindo que o enredo nunca se dispersa em excesso. É verdade que algumas personagens poderiam beneficiar de maior desenvolvimento, mas o equilíbrio entre entretenimento e profundidade mantém-se sólido.
Graficamente, Mascarenhas apresenta um traço preto e branco enriquecido com tramas densas, num estilo que bebe do mangá sem nunca perder identidade própria. Os grandes planos das personagens são particularmente eficazes, transmitindo subtileza emocional e profundidade psicológica. Nota-se, porém, alguma irregularidade entre páginas de grande impacto visual e outras onde a proporção ou a fluidez do desenho não atingem o mesmo nível de excelência.
No conjunto, Butterfly Chronicles afirma-se como uma das obras mais completas de João Mascarenhas desde O Menino Triste. Embora diferente em temática e estética, partilha com essa obra maior a sensibilidade rara e a capacidade de provocar reflexão profunda no leitor. É uma narrativa intelectualmente desafiadora, movida pela ciência, emoção e uma inesperada metáfora poética da borboleta, símbolo de identidade, mudança e fragilidade humana. Uma contribuição relevante para a banda desenhada portuguesa contemporânea, sobretudo na sua vertente de ficção científica especulativa.
Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
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O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
Letra do single “Danúbio” que integra o álbum “Um gelado antes do fim do mundo” (2025).
Engenheiro, professor de Matemática, fundador da Juventude Socialista em Seia, posteriormente militante do PSD, incendiário das redes sociais e agora deputado eleito na AR pelo Chega.
Ficamos a saber que O fim do Estado Novo e as origens do 25 de Abril (1995) é um dos livros de cabeceira de André Ventura.
Processo retratado em obras literárias como Regresso a Reims de Didier Eribon, Os Anos de Annie Ernaux ou Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule de Édouard Louis.
5.Trata-se de Patrícia Sousa Uva, “mandatária nacional da candidatura presidencial de Ventura quando se demitiu” (p. 400).
Ver, por exemplo, o dossiê "Outros nomes, histórias cruzadas: os nomes de pessoa em português", publicado sob direção de João de Pina-Cabral, na revista Etnográfica, n.º 12(1), disponível em: https://journals.openedition.org/etnografica/1583 ou a obra seminal O que Falar Quer Dizer (Bourdieu, 1988).
Teoria da conspiração de extrema-direita, surgida em 2017, nos Estados Unidos, segundo a qual existiu uma cabala de esquerda, constituída por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais, que dirigiu uma rede global de tráfico sexual de menores, e conspirou contra Donald Trump durante o seu primeiro mandato presidencial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/QAnon.
Ver Rodríguez-Pose, Terrero-Dávila e Lee (2023) Left-behind versus unequal places: interpersonal inequality, economic decline and the rise of populism in the USA and Europe. Journal of Economic Geography, 23, 951-977.
Ver Madeira, Silva e Malheiros (2021) A geografia da direita nacionalista em Portugal: contornos de um processo emergente. Cad. Metrop., São Paulo, 23(51), 469-498.
Conceito central para a reflexão pós-colonial, o “outro” é objeto de discussão aprofundada em obras Postcolonialism (Jazeel, 2019) ou Geographies of Postcolonialism: Spaces of Power and Representation (Sharp, 2009).
Ver Magalhães e Cancela (2025) Political neglect and support for the radical right: The case of rural Portugal. Political Geography, 116, 103224.
Em A Era do Vazio: Ensaios sobre o Individualismo Contemporâneo (2013), Gilles Lipovetsky aborda o processo de individualização das sociedades ocidentais contemporâneas, nas quais o narcisismo e formas quási-niilistas de hedonismo emergem como atributos definidores dos sujeitos.
Ver As Novas Faces do Fascismo: Populismo e a Extrema Direita (Traverso, 2024).
“Só tenho uma palavra, só tenho uma linguagem, a do revolucionário; é a língua que falo nas reuniões populares, é a língua que usarei com os aliados e os Alemães.”
Lev Trotsky
A I Guerra Mundial ceifava milhões de vidas de soldados e civis nos campos de batalha europeus e africanos quando uma revolução socialista se deu no país no qual durante décadas a ortodoxia marxista afirmou ser impossível: a Rússia. A Revolução de Outubro de 1917, a primeira revolução socialista, abalou os alicerces nos quais a classe dominante assentava o seu então sacrossanto poder político e económico. Uma nova esperança nasceu para milhões de trabalhadores pelo mundo fora. Um dos grandes responsáveis por esse abalo que mudou para sempre a História do século XX foi, a par de Vladimir Ilitch Lenine, Lev Trotsky.
Os meses de interregno entre a Revolução de Fevereiro, que depôs o czar Nicolau II, dando origem a uma explosão de alegria e esperança no país, e a de Outubro foram palco de um verdadeiro surto de democracia popular nas ruas de Petrogrado, hoje São Petersburgo. “Como em toda a revolução, a massa, a maré humana, está no centro dos eventos e invade o espaço”, assim descreveu Michel Löwy esses meses revolucionários no livro Revoluções. “As fotos das assembleias de massa em Petrogrado […] são um testemunho da efervescência da sociedade civil ao longo desse ano extraordinário. Revelam a aprendizagem da democracia, no fogo da ação, por operários e camponeses que, livres de um só golpe de um jogo social e político esmagador, se descobrem sujeitos da história.”
O revolucionário Lev Trotsky, conhecido pela sua eloquente e acutilante oratória, despertando os mais profundos sentimentos entre quem o escutava, fossem de apoio ou de repúdio, foi um dos principais atores históricos desse período, sendo uma das presenças mais assíduas nas tribunas populares. Usava os seus talentos para criticar duramente os adversários, para explicar as suas posições políticas e, também, para justificar as decisões do Conselho dos Comissários do Povo, no qual assumiu desde logo as funções de Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros. E uma das suas primeiras decisões diplomáticas, três semanas depois de os bolcheviques conquistarem o poder e enquanto delineavam a estratégia para alcançar finalmente a paz, foi a divulgação de todos os tratados e documentos secretos dos governos czarista e provisórios com os aliados da Entente. Trotsky só tinha uma palavra, a do revolucionário.
O responsável pela diplomacia do novo poder socialista argumentou, no decreto que autorizou a divulgação, que “o imperialismo, com os seus planos mundiais de anexação, as suas alianças e maquinações vorazes, desenvolveu o sistema de diplomacia secreta ao mais alto grau” e que a sua abolição é “elemento essencial de uma política externa honrada, popular e verdadeiramente democrática”. O socialismo de Trotsky e de Lenine era obrigatoriamente internacionalista, e a Revolução tinha de se expandir para o resto do mundo, principalmente para a Europa Central, pois o socialismo não poderia existir num só país, iria gangrenar.
Vinte e dois anos depois da revelação desses tratados secretos, em 1939, o regime socialista fundado por Lenine estava irreconhecível sob a mão termidoriana de Josef Estaline, cuja argúcia Trotsky desvalorizou, um dos grandes erros da sua vida. A democracia socialista tinha então sido esmagada, os bolcheviques que lideraram a Revolução de Outubro e o Exército Vermelho contra os brancos e os exércitos estrangeiros estavam mortos, presos ou no exílio, a mão totalitária do ditador tudo decidia e ordenava, apoiada por uma burocracia que, sustentada pela polícia política, sufocava toda a vida política, social e cultural. A burocracia, uma excrescência parasitária dentro de um Estado operário, tinha ascendido ao poder com a contrarrevolução do Termidor soviético: a propriedade dos meios de produção era estatal, mas a classe trabalhadora não controlava o Estado.
Sob Estaline, a política externa soviética deixou de ter a revolução mundial socialista como objetivo, passando a defender e a justificar a doutrina do socialismo num só país, ou seja, a manutenção dos privilégios da burocracia, por si representada, como se fosse um novo Napoleão Bonaparte, entrando no jogo imperialista com as potências capitalistas. Se Trotsky revelou tratados secretos com potências capitalistas que dividiam territórios entre si, Estaline assinou, depois de ter dizimado em julgamentos fantoche as altas chefias militares soviéticas, um tratado com a Alemanha Nacional-Socialista, dividindo a Polónia entre si, com o Pacto Germano-Soviético. Um pequeno exemplo do abismo que separa o estalinismo do marxismo revolucionário.
Os marxistas revolucionários, os descendentes do pensamento de Trotsky, ainda hoje se confrontam com a amálgama, propalada por quem vê no socialismo a mais séria e verdadeira ameaça aos seus privilégios, entre estalinismo (ou o “socialismo realmente existente”) e a ideia de comunismo, sendo necessário, como defendeu Daniel Bensaïd em Trotskismos, “libertar os vivos do peso dos mortos, e virar a página das desilusões”. Foi precisamente esse combate que norteou a segunda parte da vida de Trotsky, já depois da morte de Lenine e da ascensão ao poder de Estaline e do centralismo burocrático que deformou o primeiro Estado operário e a internacional comunista: continuar a batalhar por um socialismo internacionalista.
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A vida de Trotsky está marcada por um sucedâneo de contribuições essenciais para o desenvolvimento do pensamento e práticas marxistas (teoria do desenvolvimento desigual e combinado, revolução permanente, teoria do fascismo e da estratégia da frente única, programa de transição, só para elencar as mais importantes), de escrita constante (com a sua clássica pena aguçada, onde as palavras trespassam a paixão que acompanha o combate político) e de batalhas pelo socialismo em que acreditava, sem nunca capitular perante a paralisia, o comodismo ou o oportunismo. Esta sua grande batalha contra o estalinismo está bem espelhada na sua autobiografia A Minha Vida, escrita entre 1929 e 1930, aquando do seu terceiro exílio forçado, desta vez por ordem de Estaline, na ilha de Büyükada (Prinkipo), perto de Istambul. Trotsky foi um dos mais importantes revolucionários e intelectuais marxistas do século XX e foi perseguido e assassinado por Estaline por ser uma séria ameaça ao seu poder na União Soviética com o início do cataclismo da II Guerra Mundial.
“Nos últimos anos, a GPU [a secreta soviética] destruiu muitas centenas de amigos meus, incluindo membros da minha família na União Soviética. Em Espanha, mataram o meu antigo secretário Erwin Wolf e vários dos meus companheiros de reflexão política; em Paris, mataram o meu filho Lev Sedov, que os assassinos profissionais de Estaline perseguiram durante dois anos. Em Lausanne, a GPU matou Ignace Reiss, que tinha deixado a GPU e aderido à IV Internacional. Em Paris, os agentes de Estaline assassinaram outro dos meus antigos secretários, Rudolf Klement, cujo corpo foi encontrado no Sena com a cabeça, as mãos e as pernas cortadas”, escreveu Trotsky duas semanas depois de uma primeira tentativa de assassinato no México, em maio de 1940. “Esta lista poderia continuar interminavelmente”, continuou, vaticinando linhas abaixo: “A repetição da tentativa é inevitável”. Estaline tentou, durante anos, destruir política e moralmente Trotsky, mas falhou. Era, então, na lógica estalinista, necessário eliminar fisicamente o seu maior adversário, precisamente quando encetava a empreitada de escrever a biografia do principal coveiro da revolução.
As perseguições tinham começado anos antes, a par e passo com a concentração de poder de Estaline, e a resposta de Trotsky não se fez esperar. Derrotada a Oposição de Esquerda, em 1927, nos três anos seguintes viveu-se o aprofundar do terror termidoriano: a campanha contra o fundador do Exército Vermelho atingia um novo auge na União Soviética e a polícia secreta perseguia os bolcheviques aliados de Trotsky, aprisionando, torturando e assassinando-os nos seus calabouços. Trotsky, que continuava a ter grande influência no movimento comunista internacional, sentiu então que era necessário contra-atacar, destruindo os argumentos e acusações estalinistas que, receava, pudessem contagiar a História da Revolução e os consequentes embates políticos: as deturpações do marxismo e do socialismo não poderiam vingar.
Daí que esta obra seja mais que uma autobiografia, é um ajuste de contas do mais puro combate político em que a principal arma do revolucionário é a verdade, alicerçada num sólido arquivo (excertos de notícias, decretos, correspondência pessoal). É a afirmação do pensamento e da prática marxistas como Trotsky as encara, de como se juntou às fileiras marxistas, como liderou o soviete de Petrogrado de 1905, como participou nos debates teóricos marxistas mais importantes, como lidou com os sucessivos exílios e sacrifícios pessoais que a luta pela revolução lhe exigia. É, também, uma análise autocrítica dos principais momentos que culminaram na Revolução de Outubro, na vitória na Guerra Civil Russa e na ascensão do Termidor Soviético.
Mas é também uma obra incompleta. Foi escrita dez anos antes de o revolucionário ser assassinado a mando de Estaline no México, a 21 de agosto de 1940. A autobiografia não aborda o seu restante exílio (Noruega e México), a sua análise sobre o nazismo, os erros políticos do Partido Comunista Alemão em impedir a sua ascensão, a degenerescência e os ziguezagues oportunistas da Internacional Comunista e a formulação da estratégia de frente única, em oposição à frente popular estalinista. Nem se debruça sobre a guerra civil espanhola e, mais uma vez, sobre os erros do estalinismo para impedir a vitória do franquismo. Fenómenos que culminaram na II Guerra Mundial e, para Trotsky, impunha-se, logo em 1938, a questão: o que fazer no contexto de mais uma guerra mundial imperialista? A sua resposta foi a fundação da IV Internacional com a elaboração do Programa de Transição, que também não são abordados nesta obra.
Esta autobiografia é uma pequena grande janela para a vida e pensamento de Trotsky contados pelo próprio, é um documento histórico que vale por si só, mas é também apenas isso mesmo, uma pequena grande janela, um vislumbre para a sua personalidade, falhas (e erros cometidos) e pensamento. A obra de Trotsky é extensíssima, começando desde logo pelas suas principais obras teóricas (Balanço e Perspectivas, Revolução Permanente, Programa de Transição) e pela sua gigante (em tamanho, pormenor e qualidade) História da Revolução Russa, sem esquecer os seus inúmeros compêndios de escritos políticos. O historiador polaco Isaac Deutscher escreveu a biografia mais completa e fidedigna de Trotsky, indo mesmo além da sua vida para contar pormenorizadamente a história do movimento revolucionário russo e da Revolução Russa, composta por três volumes – O Profeta Armado (1879-1921), O Profeta Desarmado (1921-1929) e O Profeta Banido (1929-1940) – e arrisco-me a dizer que, se hoje fosse acrescentado um quarto volume, teria como título O Profeta Esquecido.
Há mais de cinco décadas, os livros de Trotsky começaram a entrar, clandestinamente, em Portugal nas malas de carro de um reduzido grupo de jovens de Coimbra, Porto e Lisboa que viajavam até França para saberem mais sobre a situação política internacional. Politizados pela resistência à Guerra Colonial, pelo Maio de 1968 e pela invasão da Checoslováquia em 1968 pela União Soviética, estes jovens estabeleceram contactos políticos com trotskistas franceses, espanhóis, entre outras nacionalidades, e, depois, formaram-se os Grupos de Ação Comunista (GAC), de discussão e agitação, em Lisboa, Porto e Coimbra. Começaram-se a editar, devagarinho, livros de Trótski. Em 1973, nasceu o primeiro partido trotskista português, a Liga Comunista Internacionalista (LCI), que em 1978 se fundiu com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) dando origem ao Partido Socialista Revolucionário (PSR). Uma editora foi fundada, a Antídoto (o seu nome foi inspirado num dos pseudónimos de Trotsky: Antid Oto), afeta ao partido e dedicada a difundir o pensamento do revolucionário russo. O fundador e editor da Antídoto, João Cabral Fernandes, abandonou a política ativa em 1982 e a editora encerrou portas, deixando muito por publicar. Procurar, hoje, livros de Trotsky (e de outros trotskistas, como Ernest Mandel) é sinónimo de percorrer, minuciosamente, lombadas em estantes cheias de velhos e amarelados livros em alfarrabistas, sabendo que cada nova descoberta é uma relíquia a agarrar de imediato.
Noventa e cinco anos depois da primeira edição de A Minha Vida, a sua edição portuguesa chega pela primeira vez às livrarias em Portugal. É editada quando nos é mais fácil imaginarmos o fim do mundo do que uma alternativa socialista ao capitalismo neoliberal mais selvagem, quando a necropolítica canibaliza todas as vertentes do nosso dia-a-dia – o trabalho, as relações pessoais e comunitárias e o pensamento crítico – sem que o sistema consiga aumentar a taxa de acumulação capitalista, entrando em crise. A austeridade permanente (e a reconfiguração securitária do Estado) que sofremos há mais de uma década, a reemergência da extrema-direita, os sucessivos ataques aos direitos mais elementares dos trabalhadores, o aprofundamento dos choques inter-imperialistas entre as principais potências mundiais e, agora, o acelerar do rearmamento da Europa são sintomas de mais uma crise histórica do sistema capitalista.
Esta crise histórica evoca alguns dos dilemas enfrentados pelos revolucionários marxistas na primeira metade do século XX. Como enfrentar a extrema-direita? Como nos poderemos opor às guerras imperialistas lutando pela autodeterminação dos povos e pela paz? Como podemos construir uma alternativa e uma coligação popular alargada contra o capitalismo mais selvagem? São tantas as perguntas e tão poucas as respostas. Daí a necessidade de se procurarem pistas nas experiências de outros revolucionários. Porque a herança das resistências é vasta, mesmo que as tentem apagar da nossa memória coletiva. A vida de Trotsky é uma dessas resistências. É um testemunho de coragem, lucidez e sacrifício por uma causa maior: o socialismo.
O livro Semeador de Palavras – entrevistas a José Afonso, edição da AJA – Associação José Afonso, organizado por Ana Ribeiro, Guadalupe Portelinha e José Rodrigues é um libelo contra o esquecimento, uma luta pela memória, e tem como propósito informar e esclarecer sobre o pensamento de José Afonso, através das suas palavras, que tocam os mais variados temas, enriquecendo o seu legado e a nossa herança cultural.
José Afonso tem-nos seduzido e emocionado com a sua arte maior, legando-nos uma obra de enorme valor artístico e humano. Mas sabemos que por detrás da obra está o homem com uma biografia e um pensamento, independente das histórias que narra nas canções, mas seguramente com muitos pontos em comum. Nestas entrevistas (cerca de 100) revela-se em toda a sua grandeza e simplicidade e ficamos com uma melhor compreensão da obra criada, que necessariamente o envolveu e da qual não podia dissociar-se, mas também um melhor entendimento desse tempo em que foi um protagonista activo.
José Afonso foi um semeador de palavras com causas e luta dentro e tentou sempre espalhar as sementes para que criassem raízes. Como alguém disse, “sementes de raiva e amor”. Canta numa das suas canções: “semear a palavra, para romper e crescer como baleia/ Plantei a semente da palavra/ Antes da cheia matar o meu gado/ Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita num terreno ao lado/ A palavra rompeu/ Cresceu como a baleia/(…)”. E as suas palavras têm sido ouvidas, colhidas, guardadas como tesouros ou cantadas como hinos e voltadas a semear não só em Portugal como em várias partes do mundo.
Com esta pesquisa, recolha e publicação de entrevistas e declarações à Imprensa, nacional e estrangeira, que José Afonso foi dando ao longo da vida, consideramos que estamos a prestar um serviço público, dando a conhecer melhor o homem por detrás das canções. E assim partimos ao encontro desse homem excepcional que marcou e contribuiu para a cultura deste país com a sua arte, baseada num profundo humanismo e enorme talento poético e musical. Pretendemos desvendar e confirmar o seu percurso, apresentar este ser humano na primeira pessoa e, de viva voz, sem interpretações ou suposições, revelar o seu pensamento, opções, concepção e visão do país e do mundo – que ele foi transmitindo pelas canções e poemas que eram o palco primordial onde exibia o seu teatro de vida, mas agora colocados de outra forma, falados directamente para os entrevistadores – para nós! Na verdade, não encontramos aqui as palavras transformadas em poemas e canções que tanto nos encantam e emocionam, mas, e não menos emocionante, confrontamo-nos com o ser em toda a sua humanidade, na simplicidade do dia-a-dia, com o seu sentido de humor, alguma alegria e muito da sua mágoa, revolta, desilusão. Esta obra reforça esse olhar de homem comprometido com o seu tempo, envolvido em lutas com causas e ideais dentro, que tem de confrontar-se com aspectos práticos de sobrevivência. É chocante, por exemplo, ler que houve um tempo em que passou fome. É muito confrangedor, pungente mesmo, porque sabemos o desfecho, ouvir a sua voz falar da esperança de recuperação da doença fatal, e por momentos quase vibramos com o seu entusiasmo pela cura. É com muita incredulidade que o ouvimos dizer que o desporto lhe deu mais alegrias do que as canções alguma vez lhe proporcionaram ou que teve experiências muito mais bonitas como professor do que como cantor. E mais surpreendente ainda, quando afirma que não gosta de cantar. Neste livro/documento há, pois, situações, afirmações inusitadas que nos criam perplexidade, apreensão e emoção. Engane-se, por exemplo, quem afirme que José Afonso gostava mais deste ou daquele disco. Ele vai mudando de opinião conforme o tempo em que foi interrogado, pressinto que conforme as mensagens que quer que os discos transmitam naquele momento. Muitas vezes nas suas falas sentimos o arauto, o aviso, a consciência quanto ao que pode acontecer em sentido contrário ao seu pensamento, neste país que viveu uma esperança e um júbilo sem paralelo. Soam-nos premonitórias certas palavras, neste tempo ácido, onde focos infecciosos de neofascismos estão a impor-se no mundo. Há vários exemplos que nos desafiam, pelo que a leitura deste Semeador de Palavras nunca se torna monótona, antes carrega constantes novidades. A certa altura sentimo-nos dentro do texto, também nós com a cabeça cheia de perguntas, perante a sua voz viva, mensageira de utopia.
Nesta obra lê-se a história de um homem grande, dada a conhecer graças às pessoas que o entrevistaram. Para elas o nosso agradecimento.
Teoria da conspiração de extrema-direita, surgida em 2017, nos Estados Unidos, segundo a qual existiu uma cabala de esquerda, constituída por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais, que dirigiu uma rede global de tráfico sexual de menores, e conspirou contra Donald Trump durante o seu primeiro mandato presidencial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/QAnon.
Ver Rodríguez-Pose, Terrero-Dávila e Lee (2023) Left-behind versus unequal places: interpersonal inequality, economic decline and the rise of populism in the USA and Europe. Journal of Economic Geography, 23, 951-977.
Ver Madeira, Silva e Malheiros (2021) A geografia da direita nacionalista em Portugal: contornos de um processo emergente. Cad. Metrop., São Paulo, 23(51), 469-498.
Conceito central para a reflexão pós-colonial, o “outro” é objeto de discussão aprofundada em obras Postcolonialism (Jazeel, 2019) ou Geographies of Postcolonialism: Spaces of Power and Representation (Sharp, 2009).
Ver Magalhães e Cancela (2025) Political neglect and support for the radical right: The case of rural Portugal. Political Geography, 116, 103224.
Em A Era do Vazio: Ensaios sobre o Individualismo Contemporâneo (2013), Gilles Lipovetsky aborda o processo de individualização das sociedades ocidentais contemporâneas, nas quais o narcisismo e formas quási-niilistas de hedonismo emergem como atributos definidores dos sujeitos.
Ver As Novas Faces do Fascismo: Populismo e a Extrema Direita (Traverso, 2024).
Entre o colapso climático, a inação política própria de um sistema económico que o sustenta e a ascensão da extrema-direita, Quebrar em caso de emergência climática, escrito a várias mãos pelo coletivo Climáximo a convite da editora Tigre de Papel, desafia-nos a olhar de frente as catástrofes climáticas que têm acossado o planeta e a sonhar com o fim do capitalismo como a revolução que ainda pode devolver esperança ao futuro.
A emergência presente no título é um verdadeiro apelo à ação. A emergência em responder ao colapso é real: “A perspetiva de futuro sem uma revolução global resultará no fim do clima estável que permitiu o florescimento da atual civilização humana” (p. 23).
Numa das suas obras1, Slavoj Žižek cita Orwell a propósito da questão das diferenças de classe (todos nós denunciamos as distinções de classe, mas são muito poucos os que querem seriamente aboli-las) para ilustrar que a possibilidade da transformação é evocada para garantir que a ação transformadora não terá lugar. Nesta linha de pensamento, e muito resumidamente, “a verdadeira coragem não é imaginarmos uma alternativa, mas aceitarmos as consequências do facto de não haver qualquer alternativa claramente discernível, o sonho de uma alternativa é um sintoma de cobardia teórica, funcionando com um fetiche que nos impede de pensarmos até ao fim o beco sem saída da nossa situação”. Este livro, Quebrar em caso de emergência climática, transporta-nos claramente até aqui, dá-nos essa imagem. E fá-lo quer no plano geral – “Não há mais tempo para a ilusão de que governos, instituições e empresas estão a fazer algo que não seja levar-nos para o fundo” (p. 9) –, quer no plano concreto: “Os Estados Unidos, o maior produtor mundial de petróleo e gás, o segundo produtor mundial de carvão e o maior emissor de gases com efeito de estufa da história, abandonam o acordo, em 2025, pela segunda vez” (p. 10). “Depois de invadir a Venezuela, Trump anunciou “o império fóssil vinha para tomar as reservas petrolíferas e determinar o rumo da sociedade da Venezuela” (p. 10).
Com este cenário, a verdadeira declaração subversiva de independência parte do pressuposto de que “pensar é aprender de novo a ver e a dirigir a atenção, a renomear a realidade”2, uma condição suficiente mas também necessária para ler este livro, que nos transmite uma sinceridade comovente ao reconhecer a responsabilidade individual e que, com toda a clareza e sem eufemismos, renomeia a realidade através de três pontos: o sistema capitalista provocou a crise climática; as elites estão a executar uma guerra sem precedentes; qualquer pessoa viva tem o dever moral, material e histórico de agir para parar esta guerra. Ou seja, o caos climático e a guerra não surgem só do ponto de vista interseccional, mas da própria essência e o nosso dever moral deve impelir-nos à ação. É, pois, esse convite que não só preenche as páginas deste livro, mas nos faz levantar da cadeira e sair a correr. Não para fugir, mas para agir. Aliás, ao introduzirem-se, habilmente, relatos de ação direta, a visualização mental da possibilidade de ação é inequívoca.
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Este livro possui, também, uma importante dimensão educativa. Se existe um campo em que a promessa de transformação é mais reiterada, é precisamente na educação, apresentada como motor de mobilidade social, como condição de emancipação, como resposta às desigualdades. E, no entanto, o que se observa é adestramento do seu papel. A Educação Ambiental é atirada para o desenvolvimento de competências utilitárias, para a adaptabilidade, no fundo, para a autorresponsabilização. O coletivo Climáximo, com esta escrita de vertente pedagógica, alia rigor conceptual e inteligibilidade, binómio próprio de quem domina o tema. O livro fornece toda a lexicologia fundamental para pensarmos no sentido de renomear a realidade: gases com efeito de estufa (GEE) , aquecimento global, o que é o clima, orçamento de carbono, neutralidade carbónica, ou a importância do fim dos combustíveis fósseis até 2030, a emergência! Cimenta as definições em dados concretos e ilustrados: “A Terra já aqueceu e arrefeceu antes, assim como variaram também os níveis de GEE na atmosfera, mas é precisamente pelo facto de as alterações no clima terrestre nunca terem sofrido alterações tão grandes em tão pouco tempo que estamos perante um evento histórico dramático” (p. 28). Faz conexões com a nossa vida atual: “Há ainda importantes impactos sociais e económicos, com consequências diretas e indiretas nos meios de subsistência e condições de povos inteiros, e exprimindo‑se frequentemente através de um aumento do custo de vida diretamente relacionado com a escassez (a ‘mão invisível’ do mercado a funcionar: menos comida implica comida mais cara). Pois sim, a crise climática já está a ter impacto na tua vida, mesmo que ainda não tenhas parado um pouco para pensar nela” (p. 35). Dá-nos uma visão utilitarista3 da ação em termos de ativismo, visível na forma como comparam o ganho da ação individual com a luta ativista. Num dos momentos do livro sustentam que um “monge franciscano climático” (p. 113), mesmo adotando um estilo de vida extremamente sóbrio, reduziria cerca de duas toneladas de emissões relativamente à média portuguesa, enquanto uma pessoa envolvida na luta antipetróleo poderia contribuir para evitar emissões significativamente superiores.
Tudo isto pode parecer uma distopia – exemplo que dão no livro, com o filme Don’t look up (Não Olhem para Cima) –, mas não é. “Foi por isso mesmo que estas elites apostaram na extrema-direita como a camada violenta que garantirá a continuação da exploração, cada vez mais exacerbada, até chegarmos a pontos de colapso” (p. 41). Na mesma linha de Žižek, o Climáximo adverte para o aceleracionismo que convém à extrema-direita “Eles vieram para manter a exploração, para a acelerar até ao último momento” (p. 10). Esta leitura encontra eco nas reflexões de Naomi Klein, que alerta para a existência de um “sobrevivencialismo monstruoso e supremacista” por parte dos magnatas da tecnologia. Por sua vez, Leonor Canadas, do coletivo Climáximo, relembra, numa sessão de apresentação, que “estamos mais próximas de ser refugiadas climáticas do que ser bilionárias”. A célebre frase “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” introduz uma secção preciosa de desconstrução da inevitabilidade da vida no seio do sistema capitalista e deste éter invisível, bem como a responsabilidade sobre a perpetuação da crise climática, não esquecendo que “o modelo energético fóssil tornou‑se a espinha dorsal da dominação colonial” (p. 78).
A formulação da frase “a guerra mata e é por isso que o debate sobre a guerra é tão intenso”4 pode ajudar a compreender a força com que Quebrar em caso de emergência climática evoca as vítimas do inferno climático e descreve a crise atual em termos de guerra. Define-se urgência suprema como o momento em que os valores mais profundos de uma comunidade e a sua própria sobrevivência coletiva se encontram sob ameaça iminente, exigindo decisões extraordinárias. É precisamente nesse estado de exceção que o coletivo Climáximo situa a emergência climática, e a sua conexão com Gaza. Gaza interpela-nos porque ali se revela, em toda a sua nudez, uma forma de poder que ameaça reorganizar o mundo inteiro, uma política de desenraizamento5 da própria condição humana, ou seja, uma espécie de vida pós-humana. É esta dissociação de nós mesmos que surge no livro e da qual emerge a referência à crise dos cuidados, conceito de Nancy Fraser, “como uma crescente dificuldade de dar resposta às necessidades de cuidados e de reprodução das comunidades” (p. 90). Pensar a interrupção seria, então, perguntar-nos que laços, que memórias e que formas de enraizamento continuam a ser capazes de impor um limite à força. No documentário, Com a Alma na Mão, Caminha, Fatem diz-nos que “antes da guerra só tirava fotografias a coisas belas, agora é só destruição. Mas é uma forma de ainda procurar vida no meio da morte”.
Há esperança? Quebrar em caso de emergência climática responde sem hesitação: a revolução. “É impossível descrever o que acontecerá sem usar a palavra revolução. As petrolíferas sabem‑no, os governos sabem‑no, os ultrarricos sabem‑no, e já é mais que tempo de nós, classe trabalhadora, o sabermos” (p. 98). David Harvey afirma que o capital nunca cairá por si mesmo. Haverá que empurrá-lo. É nesta convicção que o coletivo Climáximo apresenta um Plano de Desarmamento e um Plano de Paz. De que precisamos mais?
1Žižek, A Coragem do Desespero, Relógio d’Água, 2017.
2Amador Fernández-Savater, La batalla del pensamiento, NED Ediciones, abril de 2026.
3Na perspetiva utilitarista de justiça a deliberação de uma ação a realizar tem em vista o maior alcance de resultados.
4Michael Walzer no livro A Guerra em Debate, Cotovia 2004.
5Amador Fernández-Savater.
Mas por um homem ferido/ num labirinto perdido/ entre uma morte e uma vida! Transforma-se o oprimido/ em instrumento opressor/ Nasce num peito uma guerra! / E, lá longe… Na sua terra/o abutre, o carrasco, /o nazi, / a peste./ enchendo o ventre de carne/escreve:/ “DITOSA PÁTRIA QUE TAIS FILHOS DESTE. António Calvinho
Bardamerda para tal gente e um hurra aos cadáveres de todos os soldados perdidos, afinal todos nós. João Viegas
Enquanto um só combatente estiver vivo, enquanto mulheres e filhos permanecerem vivos e com eles os traumas que a guerra colonial provocou nos corpos e nos espíritos, ela aí está: a guerra colonial.
Já muito se escreveu sobre aqueles treze anos que deixaram a marca mais dura e mais profunda no século XX português.
Os Soldados Perdidos, que tenho à minha frente, quarenta e oito anos depois de o seu autor, João Viegas, ter desembarcado no “paraíso de todos os medos”, como ele próprio qualificou aquela terra que atrai e repele a um tempo, será, talvez, a última obra literária sobre a guerra colonial escrita por um ex-combatente.
O stress provocado pela brutalidade e pela violência da guerra, pelo que viveram durante aqueles mais de dois anos, uma interrupção brutal na sua vida em construção, na continuidade das suas vidas profissionais, no amanho do campo, nos estudos despertou em muitos combatentes mobilizados como carne para canhão a necessidade e a vontade incontida de pôr no papel, tanta vez numa abordagem literária sem filtro, como quem respira, a realidade nua, brutal, sem contemplações, quase sem narrativa organizada; um grito, um berro tão violento quanto a própria guerra que o determinava.
Uma condenação sem apelo, saída do coração, da chaga aberta para sempre, do coto ainda mais provocador que inferiorizante como foi, aliás, o caso de um dos personagens reais, como são quase todos, senão todos, os que habitam esta obra tão singela e tão poderosa. Refiro-me ao Jorge Carneiro, militar e combatente de eleição e um revolucionário genuíno.
Assim foi a verdadeira aprendizagem daquela guerra para a geração que lhe sucedeu, pela pena de escritores que nunca o tinham sido ou que não constavam (ainda) do mainstream da literatura, a arte a brotar das profundas feridas que lhes marcaram a alma, quer pelo que viram fazer, quer pelo que fizeram e nunca pensaram ser capazes de fazer, quer pelo que sofreram na verdadeira solidão dos que enfrentam a morte iminente.
Em Os Soldados Perdidos encontramos a revelação profunda do humano pela exposição visceral dos soldados na sua permanente procura da sobrevivência física e anímica numa realidade cuja essência lhes escapa mas que vão aprendendo a dominar, a cada dia que passa no confronto com o inesperado, por vezes com o indizível.
Uma inteligência prática e uma capacidade inata de resistência constroem o seu mundo possível servindo-se da própria hierarquia que os sujeita.
O cotejo, que me atrai, de duas obras tão diferentes mas tão próximas como são Nó Cego, a obra-prima que se impõe como o requiem da guerra colonial e Os Soldados Perdidos, de João Viegas, decorre de, nesta última, termos um invulgar e poderoso enlace entre a veemente e sistemática condenação da guerra, e desta guerra em particular, a condenação frontal dos assassinos de voz meiga que a impõem por métodos brutais, totalitários e terroristas e a explícita e por vezes entusiástica celebração, mesmo exaltação, das qualidades militares daqueles que são forçados ao combate que está presente em Nó Cego.
Será uma característica de todas as guerras esta contradição, eventualmente percorrerá todas as obras, mas aqui encontramo-la no centro da narrativa. Aqui não se trata de uma constatação amarga. É uma forma muito bela, quase ingénua, de como se celebra a vida e a sua precariedade.
Falo-vos de um belo livro. Um belo livro caracterizado pela simplicidade narrativa que nos põe no centro da acção, por vezes quase frenética, mobilizados também nós “ao serviço da pátria” como ainda hoje sem qualquer pejo se diz daqueles que foram vítimas do fascismo e enviados para matar os seus irmãos de sofrimento ainda mais brutal, e depois, calhando, morrer.
Um estilo lesto e vivíssimo, sem rodriguinhos nem apaziguadores nem moralismos, sem complicações ficcionais, com a limpidez e a força da realidade crua, acompanha a acção do alferes miliciano Viegas, como tantos outros arrancado aos seus filhos – sem direito a beneficiar da figura de “amparo”, vá-se lá saber porquê, todos sabemos, ele fazia política e propaganda subversiva insidiosa contra a guerra colonial transformada na linha principal de ataque ao fascismo.
Feita a travessia do sofrimento, da contradição angustiante entre a consciência anti-fascista e anti-colonial e a consciência mobilizadora, tornada necessidade, de que tinha de levar os seus homens de volta para casa, fosse onde fosse e de que para isso tinha de saber estar à altura, ele, saído de uma instrução precária, feita à pressa, carne para canhão, eis o nosso alferes miliciano Viegas que escapou por entre os pingos da chuva, de volta ao seu CITAC, entretanto assaltado, roubado, encerrado e destruído pela PIDE, de volta ao encontro dos colegas e camaradas para o fazer renascer e com ele repercutir na arte a paz e a liberdade conquistadas.
A beleza dos jogos de amor desprendido, simples e divertido com Bela, a jovem informadora do PAIGC como todos sabiam, mas que oferecia momentos de prazer único naquelas paragens, fê-lo sofrer genuinamente quando foi presa pela PIDE e desterrada para um campo de concentração, o ilhéu das Galinhas, no arquipélago dos Bijagós.
Mas teve o prazer de ser o primeiro a receber o seu abraço emocionado e sentir correndo pela sua face as lágrimas de alegria e de emoção e de amor com que Bela se encolheu, feliz de novo, nos seus braços numa festa à liberdade de ambos e de ambas as pátrias.
A narrativa da experiência do alferes miliciano Viegas, desde o embarque no DC-6 para a Guiné, “o paraíso de todos os medos” até ao regresso a casa, dois anos depois de ser encharcado, sem aviso, pelo seu próprio suor, pegajoso e mórbido, com que Bissau na “época das chuvas” saúda os que mal assomam à porta do avião no aeroporto da Bissalanca, até dois meses depois do 25 de Abril, quando regressa à “metrópole”, é um palpitante hino à alegria de viver através das picadas da morte.
João Viegas fá-lo com uma entusiástica e quase absurda delicadeza, que se esconde por detrás da adopção sistemática da linguagem vulgar e rude dos homens na fronteira do suportável. Somos tocados profundamente pela sensibilidade esclarecida de um sentido crítico irredutível decorrente da sua inteligência de artista.
A sempre presente condenação do fascismo e da guerra colonial não prejudica a naturalidade com que, nela metido até aos cabelos, fosse simplesmente um soldado camarada dos homens que comandava desenvolvendo uma relação de grande fraternidade e compreensão com cada um, assumindo naturalmente com grande espontaneidade a capacidade de comando entre camaradas, estabelecendo uma hierarquia muito própria alicerçada nos humanos valores e interesses comuns: enfrentar as condições adversas, enfrentar aqueles que os obrigaram a designar por inimigos e que, na elementaridade radical da luta pela sobrevivência, foram forçados a agir como se assim fosse.
O alferes Viegas e os seus homens construíram um núcleo invencível, e não me refiro às vicissitudes do combate, porque simplesmente foram levados ao entendimento de que a sua vida e a sua humanidade essencial se enraizavam não tanto na eficácia do combate ao inimigo, que, reconheçamos, não era muita, mas na fraternidade e solidariedade que souberam construir.
E uma das coordenadas determinantes foi a compreensão de que a tragédia se combate com a alegria da camaradagem e que a coragem para a viver também pode nascer da própria acção.
Em Os Soldados Perdidos, o autor, ele mesmo o alferes miliciano Viegas, subverte pela forma como age e se relaciona com os seus homens, os cânones da hierarquia contrapondo-lhe, em pleno teatro de operações, a solidariedade e a fraternidade que constituem a verdadeira camaradagem. E mesmo a base da eficácia operacional possível.
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João Viegas consegue, na pessoa do alferes Viegas, pôr em prática os ensinamentos de A Arte de Ser Chefe, de Gaston Courtois, curiosamente um sacerdote francês ligado ao movimento dos trabalhadores católicos, estudada na Academia Militar, mas tão só, para tantas vezes serem postos de parte pelo carreirismo, pela opção do mando em vez do comando, pela pusilanimidade da carácter que fornece à burocracia todo o seu poder e pelo cretinismo militar, para parafrasear Lenine quando classifica o cretinismo parlamentar.
Na sua hostilidade radical à guerra e à hierarquia, o alferes Viegas, por amor dos seus homens e não à pátria dos fascistas, capitalistas e latifundiários que, inda hoje, roubam ao povo a sua pátria para lhe imporem a deles, revela-se um verdadeiro comandante, encostando às tábuas a hierarquia que sempre tentou submetê-lo às suas regras estritas sem realmente o conseguir.
Um verdadeiro comandante sempre na primeira linha a enfrentar os perigos que a todos ameaçavam. Ele próprio, ferido em combate e evacuado para de novo voltar por exigência sua para junto dos seus homens, os camaradas a quem pertencia e que comandou nas mais diversas situações, ora abrigando-se do tiro dos guerrilheiros, ora correndo de peito aberto sobre eles como o exemplo dos soldados africanos sob o seu comando o obrigava.
Mas bom, bom eram, quando a sorte o proporcionava e surgia a oportunidade, aquelas bebedeiras catárticas conjuntamente com a ida às meninas nas povoações já organizadas de acordo com o cânone colonizador. E para esses momentos de absoluta entrega ao prazer não importava arriscar de novo a vida numa emboscada ou no rebentamento de uma mina. A vida é nossa, vale mais arriscá-la porque nos sabe bem do que sob o látego infernal da hierarquia.
Viegas irá, já na última fase da comissão, ser colocado no Estado-Maior do comando-chefe por decisão directa do general Spínola, que antes de ser chefe dos bombistas do MDLP, no intento abstruso de fazer ajoelhar a democracia, esquecido de que há formas mais eficazes como ficou provado, foi um comandante militar de prestígio, apesar de condenado a perder a guerra já perdida logo que começou.
Aí, as capacidades de Viegas para analisar as diversas componentes do movimento das tropas baseado nos serviços de informações tornaram-no indispensável.
Sublinhe-se que os serviços de informações militares estavam organizados de acordo com a estrutura NATO a que o governo fascista de Salazar aderiu orgulhosamente para a defesa comum das nações democráticas da Europa, decerto com a garantia de que tais democracias não apoiariam, como sucedeu, o movimento democrático que timidamente eclodiu em Portugal na sequência da derrota do nazi-fascismo em 1945.
Isto quer dizer que a capacidade de obter informações sobre os movimentos do inimigo estava praticamente a cargo das unidades militares no terreno e, essencialmente, dependente da PIDE e sua vasta rede de bufos. Tal colocava a PIDE numa situação relativamente privilegiada, que sustentava uma certa arrogância quando em contacto com as unidades combatentes.
O alferes Viegas, quando ainda no comando operacional do seu pelotão, teve ocasião de confrontar uma dessas ratazanas da PIDE dando a fuga a um guerrilheiro de que o pide, o inspector Palma, se arrogara o direito de se apoderar para o torturar e extorquir informações, mostrando serviço.
As relações entre os militares e as polícias políticas foram sempre conflituais, o que se pode atribuir à frequente actividade política e golpista desenvolvida pelos militares, aliás na tradição revolucionária desde o afrontamento a Beresford que custou a vida ao general Gomes Freire de Andrade. O próprio 28 de Maio de Gomes da Costa teve, no seu desencadear, uma percepção dos interesses populares à flor da pele naturalmente esmagados logo de seguida pelas forças do capital e dos senhores da terra organizadas em torno de Salazar. Outras tentativas, várias, de derrubar os fascistas, envolveram civis e, sempre, militares até ao assalto ao quartel de Beja, em 1961, para proclamar o legítimo presidente da República, o general Humberto Delgado.
Nesta sua nova actividade acompanha de perto o Movimento dos Capitães, a aproximação ao PAIGC e as dificuldades inerentes ao encontro de forças beligerantes durante treze anos e que agora se confrontavam ainda, mas para encontrarem a melhor forma de se darem as mãos.
O Movimento dos Capitães, a caminho de se tornar Movimento das Forças Armadas, para atenuar a radicalidade do golpe, enquanto iam morrendo soldados e guerrilheiros esforçava-se por se libertar da estratégia spinolista de manter o império esgotado e apodrecido.
De regresso à vida de cidadão finalmente livre face ao poder, porque livre foi sempre perante si próprio, de cidadão politicamente comprometido e empenhado e não apenas cidadão sobrevivente de uma guerra que lhe não dizia respeito mas o confrontou nas suas mais profundas convicções, de regresso à sua actividade profissional num Portugal liberto do fascismo mas ainda e sempre sob ameaça dos “irredentistas”, o professor não descurou a defesa material da liberdade conquistada.
Agora já na sua escola, em Figueiró dos Vinhos, participou entusiasmado na preparação da resistência à possibilidade de uma incursão de um forte grupo terrorista que se constituía do lado de lá da fronteira, na Espanha franquista. A experiência humana e operacional ganha na luta contra a liberdade a que fora obrigado, estava agora pronta para a defender até às últimas consequências.
Duas personagens fundamentais, para além, naturalmente, do alferes Viegas, lui même, balizam todo o conceito estético, humanista e ético de Os Soldados Perdidos. São elas o furriel Trindade, formado na escola dos Rangers, formando combatentes com elevado grau de eficácia. Ele será o verdadeiro instrutor, o protector durante os combates, o companheiro seguro de tropelias, o amigo e companheiro de todos os momentos. E o comandante do destacamento de fuzileiros, o explosivo ruivo Labaredas, pronto para acorrer em auxílio sempre que necessário no combate ou na festa com que os combatentes celebram estarem vivos.
Estas duas personagens, na vivíssima simplicidade com que são descritas, expressam afinal, e de forma tão real, a complexidade radical da vida das tropas especiais, neste caso os “rangers” e os “fuzos”. Eles assumem como sua própria natureza, como justificação do próprio acto de combater numa guerra odiosa, uma superioridade moral, não em relação ao inimigo, que desse são próximos, talvez mesmo irmãos, numa ética própria, mesmo quando não percebida, que tantas vezes sublima a violência, até quando extrema, no combate que apenas fisicamente os opõe. Trata-se, pelo contrário, de uma superioridade que os faz permanecer, vivos ou mortos, uma acusação eterna às bestas engomadas que lhes impuseram a maior das violências: tirar a vida aos seus próprios irmãos.
A burocracia virtuosamente assassinada, a hierarquia metamorfoseada no desfrute da fraternidade, da solidariedade, da camaradagem. A humanidade manifestando-se em toda a sua beleza no “paraíso de todos os medos”. A abnegação e o medo, eis o ser humano na sua totalidade.
Ao longo da leitura destas páginas senti-me contigo, meu caro João Viegas. A acompanhar-te nas picadas, nas bebedeiras, nos combates, no estremecimento angustiado perante a tua luta pela vida quando ficaste gravemente ferido, a construir contigo, com o Trindade, com o Labaredas e a malta toda, pretos e brancos, a caminhada que me ia pôr do lado daqueles com que afinal iria identificar-me e unir forças para liquidar, ainda que só daquela vez, o inimigo comum.
Hoje, 3 de Maio, de Patrícia Portela, é um romance sobre os modos como foi pintado o quadro de Goya “Os fuzilamentos de 3 de Maio” (não técnicas, mas mentalidades), como foi vivido, as circunstâncias, inclusive da narração e da narradora, os lugares geográficos, os que constituíram o pelotão de fuzilamento, os que foram assassinados, os testemunhos do lado do povo e da aristocracia. O leitor deverá cruzar na sua mente todas estas perspetivas, perfazendo uma unidade estética, que se constituirá como o bilhete de identidade do romance.
A originalidade de Patrícia Portela atinge o seu máximo expoente aqui, em Hoje, 3 de Maio, versando sobre o quadro “Os fuzilamentos de 3 de Maio” ocorridos nesse dia de 1808, pintado por Goya.
Depois de Hífen, parecia-nos ser impossível que a autora criasse uma estrutura romanesca tão original, mas não só a criou como, com ela, abre uma nova vertente nas correntes da literatura portuguesa contemporânea, o hipermodernismo (pedimos o conceito emprestado a Gilles Lipovetsky), no qual o tempo perde o seu caráter contínuo e cronológico, expresso no romance pelo quadro “Saturno Devorando o seu Filho”, evidenciando-se como simultaneidade, aquilo que Saramago tentava mostrar no final da sua vida: um processo pelo qual se evidenciaria literariamente a simultaneidade. A autora define no romance a modernidade: “É isto a modernidade. Uma abordagem desligada do presente em permanente revisão do passado” (p. 48). O hipermodernismo, como extrema intensificação da modernidade, significa que os processos literários passados e o trabalho sobre a categoria de tempo encontram-se esgotados. Assim, ao lado do pós-modernismo, que reflete, critica e denuncia o passado (a maioria dos escritores portugueses atuais), é preciso inventar processos do hipermodernismo, como Patrícia Portela nos dá o exemplo com este livro. Não é impossível que a novela gráfica seja um desses processos que substituirá o romance só com letras e palavras.
É neste sentido que Hoje, 3 de Maio se expõe por estruturas (oito), desde a Necrose até Germinação, cada uma repetindo as restantes (a simultaneidade) e em algumas discutindo a questão do tempo vista por Einstein e por Bergson, intercalando-se com a vida da narradora em Madrid. Porque tentativa de passar para o papel a simultaneidade, a autora dá sugestões de leitura que aproximem a escrita do romance da realidade. E a realidade e só uma: os fuzilamentos do dia 3 de maio de 1808 tal como vistos por Goya. Por isso, o quadro ou fragmentos deste repetem-se continuamente, dando a sensação (verdadeira) de que não se está a falar de outra coisa senão do quadro de Goya. O quadro é omnipotente neste romance face às múltiplas personagens, inclusive da narradora.
O hipermodernismo, como extrema intensificação da modernidade, significa que os processos literários passados e o trabalho sobre a categoria de tempo encontram-se esgotados.
É um romance sobre os modos como foi pintado (não técnicas, mas mentalidades), como foi vivido, as circunstâncias, inclusive da narração e da narradora, os lugares geográficos, os que constituíram o pelotão de fuzilamento, os que foram assassinados, os testemunhos do lado do povo e da aristocracia. O leitor deverá cruzar na sua mente todas estas perspetivas, perfazendo uma unidade estética, que se constituirá como o bilhete de identidade do romance. É evidente que cada leitor será atraído por um aspeto singular do romance e, assim, teremos o mesmo romance multiplicado diferentemente por um número infinito de leitores. É isto o hipermodernismo: ainda que mesmidade, oferece-se sempre como alteridade. Lemos por três vezes o romance e tivemos três sensações e sentimentos de leitura diferentes, consoante líamos de seguida todos os “Preâmbulos”, todos os capítulos relacionados com o espaço ou os capítulos relacionados com o tempo.
Repito, não há romance igual em Portugal. Leitor: bem-vindo a um mundo novo em Portugal.
Parabéns, Patrícia!
Fahrenheit 451 é a temperatura de combustão do papel na escala de Fahrenheit, escala de temperatura proposta por Daniel Gabriel Fahrenheit em 1724. A sua unidade é o grau Fahrenheit (símbolo: °F). Nesta escala o ponto de fusão da água é de 32°F e o ponto de ebulição é de 212°F. Os 451ºF corresponderão a 232,8ºC.
É também o título de um livro de Ray Bradbury, autor norte-americano normalmente referenciado como escritor de ficção científica, ainda que este livro em particular seja essencialmente uma distopia.
Recentemente (março de 2026) reeditado pela Cavalo de Ferro, casa que tem vindo a reeditar a obra do autor, ou mesmo a apresentar algumas até aqui inéditas, Fahrenheit 451 constava da coleção Argonauta, da Livros do Brasil, com tradução de Mário Henrique Leiria, e capa desenhada por Lima de Freitas.
A Utopia, escrita em 1516 por Thomas More, retrata a ilha do mesmo nome, onde estaria vigente um regime sociopolítico perfeito. Por curiosidade, o narrador toma conhecimento de todos aqueles factos através de uma conversa que mantém numa taberna de um qualquer porto, com um marinheiro português. A Cidade do Sol, de Campanella, ou a Nova Atlântida, de Francis Bacon, são outros exemplos deste tipo de exercício literário, mais tarde designado como literatura utópica.
Já no século XX, com o advento dos totalitarismos, esse exercício foi posto em prática de uma forma invertida. Já não era descrito o sistema perfeito. Passámos a estar confrontados com sistemas disfuncionais, quando não já perto do colapso, sendo evidente que os autores pretendiam antever aquilo a que poderia levar a ambição do homem.
A novela 1984, de George Orwell, atingiu, talvez, maior notoriedade do que qualquer outra do género, mas isso deveu-se essencialmente ao ambiente político existente à época do seu lançamento, tratando-se de uma crítica direta ao regime estalinista.
Mas Nós, do russo Evgueni Zamiatine, vista como inspiração para Orwell, ou o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, são obras igualmente poderosas, quer na análise que é feita dos mecanismos da nossa sociedade, quer no apuro artístico conseguido.
Fahrenheit 451 é muitas vezes citado quando falamos de censura e de proibição de livros. Na sociedade retratada, determinados livros são proibidos, sendo que estava previsto que, sempre que fosse encontrada uma biblioteca clandestina (qualquer número de livros, na verdade), era chamado o corpo de bombeiros, que já não funcionava para extinguir fogos, mas sim para incinerar livros proibidos.
É fácil perceber que a sua notoriedade passa em grande parte pela ideia poderosa de vermos o corpo de bombeiros votado à queima de obras literárias. Contribuiu, em muito, para a sua fama, o filme de François Truffaut, realizado em 1966. O grande mestre da Nouvelle Vague não poderia passar despercebido ao fazer um filme em língua inglesa, colocando no ecrã uma das maiores estrelas daquele lado do canal da Mancha: Julie Christie.
Só que Fahrenheit 451 tem muito mais para nos contar do que bombeiros com mangueiras donde jorra gasolina. Mais do que envelhecer bem, esta obra tem vindo a ficar mais atual.
Comecemos por uma pequena curiosidade. Na história, o passado menos recente, tal como era apresentado, tinha sido alterado em função das conveniências do regime. O corpo de bombeiros tinha como narrativa oficial que a sua fundação datava dos anos da revolução americana, e que tinha como propósito queimar os livros de influência inglesa. O seu primeiro líder teria sido Benjamin Franklin, sendo de assinalar o sentido de ironia.
Neste regime em particular, que é, obviamente, totalitário, não sabemos exatamente quem é o adversário. Mesmo que durante parte da ação se esteja na iminência de uma guerra, que acaba por deflagrar já no final, como se de uma espécie de cair do pano se tratasse. Mas sabemos que são os livros em geral que são proibidos, mais concretamente a literatura, e não os livros que defendam algum modelo específico de distribuição de riqueza, ou de regras de convívio entre raças e/ou géneros. Não se trata de atacar os que rezam a Deus vestidos de branco, por parte daqueles que rezam vestidos de negro.
O que está verdadeiramente em causa é a literatura, como veículo de transmissão de ideias. Naquele regime, era a reflexão, fosse em que sentido fosse, que era combatida. E ninguém estranhava a extraordinária taxa de suicídios, toxicodependência ou divórcio registada.
Em determinado momento, o protagonista, Guy Montag, bombeiro de profissão, é confrontado pelo seu superior hierárquico, que aproveita para lhe explicar alguns detalhes sobre a realidade que os rodeava. É dito em determinado momento: “Quanto maior é a população, mais numerosas são as minorias.” E depois é explicado que as tensões decorrentes de uma sobrepopulação do planeta levaram o homem a simplificar tudo, do sistema político ao entretenimento. A literatura começou por ser resumida, chegando a não passar de resumos de resumos, acabando, por fim, por ser banida. Tudo o que pudesse constituir razão para divergências de opinião passou a ser banido – ainda que as pessoas não fossem necessariamente mais felizes por isso.
Numa época em que a comunicação de massas se faz em grande parte pelas redes sociais, são-nos fornecidos ideias e valores que já temos e defendemos, sem qualquer contraditório e, portanto, sem necessidade de reflexão.
O nosso herói acaba por se rebelar contra os poderes instituídos e, já em fuga, quando se julgava irremediavelmente sozinho, encontra um grupo de marginais que sobrevive nas margens daquela sociedade. Entre outras coisas, asseguram que a memória coletiva não se perca, na medida em que memorizam os livros que leem.
Significativamente, respondem à pergunta “O que é que vocês fazem?” com: “Nós lembramos.”
A história termina com o deflagrar de uma guerra, como já referido, e com alguém a refletir que seria bom que o homem não agisse como uma fénix, porque, ainda que possa renascer das cinzas, poderia não mergulhar tão facilmente em piras funerárias.
Estamos numa época em que a comunicação de massas se faz em grande parte pelas redes sociais, que operam de forma a fornecer-nos essencialmente aquilo que nos interessa. Ou seja, são-nos fornecidos ideias e valores que já temos e defendemos, sem qualquer contraditório e, portanto, sem necessidade de reflexão. Pelo que, inevitavelmente, quando finalmente entramos em confronto com alguma coisa, a nossa posição surge já extremada. Caminhamos para um tipo de sociedade mais confrontacional.
Uma vez lida esta obra, que era originalmente um mero meio de entretenimento típico de uma época em que o átomo e a corrida espacial dominavam o nosso imaginário, e que tem vindo a revelar um carácter ominoso, o leitor atento perceberá que importa que saibamos manter viva a chama da reflexão, mantendo presente que os caminhos mais curtos e planos não são necessariamente os que nos conduzem ao nosso destino.
Pouco depois do 25 de Abril, diz o texto de contracapa deste romance de Carlos Campaniço, “os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas”. Em Aldeia Velha, que poderia ser a Safara natal do autor, no concelho de Moura, ou alguma outra aldeia do Alentejo, onde decorre a ação deste romance, “a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da guerra colonial e as novas liberdades trazidas pela revolução”.
“Primeiro a Revolução; meses depois, uma autorização ministerial para ocuparem as terras de quem não as trabalhava. Houve euforia, era a força do povo, a justiça do povo, finalmente, tantos braços levantados; mas também houve medo, porque os que tinham terras e bens de repente se perguntavam porque lhes tiravam o que sempre fora seu. Muitas daquelas terras sempre estiveram nas famílias, e, além disso, eram obrigados a fugir levando as próprias vidas, carregando-as como malas de roupas incompletas (p. 23).”
Ao longo de 270 páginas vemos desfilar uma galeria de personagens: Zeferino Guedelha, antigo lavrador, expropriado com a reforma agrária. Tonico e Aurora, crianças criadas ao deus-dará, filhos do moleiro Adrião Lampreia e de Ana Maria, que o troca pela vida confortável ao lado de José Maria Falcão, latifundiário expropriado e ressentido. João Cotovio, que veio da guerra com stress pós-traumático – tinha “crises de nervos” e partia tudo o que tivesse à mão. A irmã deste, Marianita Cotovio, que regressa à terra vinda da capital, “prenha por todos os lados de onde se olhasse” e sem marido. O médico, doutor Francisco Geraldes, e a sua amante Tomásia Bicho. José Catarino, o presidente da junta, o padre Manuel Francisco, rapaz da terra, filho do “Carvoero”, de uma das famílias mais pobres da aldeia. E sobretudo Boca-Viúva – o carteiro, “negro como uma sombra dentro do seu casaco grosso, carregando a correspondência com um sofrimento que lhe mirrava os gestos. Parecia que todas as más notícias contidas nas cartas entravam nele e lhe faziam dano” – que estará no centro do enredo.
O tempo do romance vai muito além do período pós-revolucionário, acompanhando o fim da reforma agrária e dos sonhos que acalentou.
Carlos Campaniço nasceu na aldeia de Safara, no concelho de Moura, e aí viveu até ingressar na universidade, onde cursou Línguas e Literaturas Modernas. É mestre em Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo. Profissionalmente, é programador artístico. Publicou vários romances, entre eles Os Demónios de Álvaro Cobra (2013, vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada), Mal Nascer (2014, finalista do Prémio LeYa e vencedor do Prémio Mais Literatura promovido pela revista Mais Alentejo), As Viúvas de Dom Rufia (2016) e Velhos Lobos (2022).
Carlos Campaniço, A Cinco Palmos dos Olhos 1.ª edição: Outubro de 2025 Casa das Letras | Grupo Leya
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A ciência, a poesia e o futuro: o voo ambicioso de Butterfly Chronicles.
A editora Escorpião Azul acaba de lançar Butterfly Chronicles, a mais recente obra de João Mascarenhas, autor veterano e presença reconhecida da banda desenhada portuguesa. A obra, que nasceu como webcomic há mais de uma década, chega finalmente ao formato de álbum físico, agora com a história concluída — um desfecho aguardado pelos leitores que acompanharam o projeto desde os seus primeiros passos digitais.
A premissa que sustenta Butterfly Chronicles é de imediato intrigante: poderá a memória individual ser acedida através do ADN? A questão, simultaneamente científica e filosófica, serve de porta de entrada para uma narrativa que começa de forma contemplativa, quase meditativa, antes de mergulhar no ambiente dinâmico da Investigação em Bio-Robótica da Universidade de Kymera, em Tóquio. É ali que uma equipa de investigadores trabalha na leitura da chamada “memória da espécie”, procurando extrair dos genes de determinados animais informações para melhorar o desempenho de robôs desportivos no competitivo universo do Droidball, um desporto mecanizado longe de ser apenas “futebol com robôs”, que Mascarenhas explora de forma conceptual.
O enredo adensa-se quando a equipa descobre que este método permite ir mais longe: não só a memória genética coletiva, mas também a memória individual se revela acessível. O salto científico abre, então, caminho a questões éticas, psicológicas e sociais que conduzem a narrativa para territórios mais profundos: a privacidade biológica, a identidade e os limites da ciência são temas que ecoam ao longo do álbum e que têm eco no tempo presente em que vivemos quando a evolução tecnológica parece mais rápida do que nunca.
João Mascarenhas constrói aqui uma ficção científica que não se afasta do plausível; antes, apoia-se em bases reais da genética e da robótica para projetar um futuro que se apresenta credível e inquietante. Essa ponte entre rigor científico e imaginação, por vezes com contornos poéticos, torna Butterfly Chronicles num livro estimulante, daqueles que, uma vez abertos, custam a pousar.
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A amplitude temática impressiona: ciência, cultura japonesa, humor, crime organizado, música, reflexão ética. À primeira instância, poder-se-ia pensar que são temas a mais, mas Mascarenhas consegue entrelaçá-los com habilidade, garantindo que o enredo nunca se dispersa em excesso. É verdade que algumas personagens poderiam beneficiar de maior desenvolvimento, mas o equilíbrio entre entretenimento e profundidade mantém-se sólido.
Graficamente, Mascarenhas apresenta um traço preto e branco enriquecido com tramas densas, num estilo que bebe do mangá sem nunca perder identidade própria. Os grandes planos das personagens são particularmente eficazes, transmitindo subtileza emocional e profundidade psicológica. Nota-se, porém, alguma irregularidade entre páginas de grande impacto visual e outras onde a proporção ou a fluidez do desenho não atingem o mesmo nível de excelência.
No conjunto, Butterfly Chronicles afirma-se como uma das obras mais completas de João Mascarenhas desde O Menino Triste. Embora diferente em temática e estética, partilha com essa obra maior a sensibilidade rara e a capacidade de provocar reflexão profunda no leitor. É uma narrativa intelectualmente desafiadora, movida pela ciência, emoção e uma inesperada metáfora poética da borboleta, símbolo de identidade, mudança e fragilidade humana. Uma contribuição relevante para a banda desenhada portuguesa contemporânea, sobretudo na sua vertente de ficção científica especulativa.
(Objectiva, setembro de 2025)
Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
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O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
Letra do single “Danúbio” que integra o álbum “Um gelado antes do fim do mundo” (2025).
Engenheiro, professor de Matemática, fundador da Juventude Socialista em Seia, posteriormente militante do PSD, incendiário das redes sociais e agora deputado eleito na AR pelo Chega.
Ficamos a saber que O fim do Estado Novo e as origens do 25 de Abril (1995) é um dos livros de cabeceira de André Ventura.
Processo retratado em obras literárias como Regresso a Reims de Didier Eribon, Os Anos de Annie Ernaux ou Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule de Édouard Louis.
5.Trata-se de Patrícia Sousa Uva, “mandatária nacional da candidatura presidencial de Ventura quando se demitiu” (p. 400).
Ver, por exemplo, o dossiê "Outros nomes, histórias cruzadas: os nomes de pessoa em português", publicado sob direção de João de Pina-Cabral, na revista Etnográfica, n.º 12(1), disponível em: https://journals.openedition.org/etnografica/1583 ou a obra seminal O que Falar Quer Dizer (Bourdieu, 1988).
Teoria da conspiração de extrema-direita, surgida em 2017, nos Estados Unidos, segundo a qual existiu uma cabala de esquerda, constituída por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais, que dirigiu uma rede global de tráfico sexual de menores, e conspirou contra Donald Trump durante o seu primeiro mandato presidencial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/QAnon.
Ver Rodríguez-Pose, Terrero-Dávila e Lee (2023) Left-behind versus unequal places: interpersonal inequality, economic decline and the rise of populism in the USA and Europe. Journal of Economic Geography, 23, 951-977.
Ver Madeira, Silva e Malheiros (2021) A geografia da direita nacionalista em Portugal: contornos de um processo emergente. Cad. Metrop., São Paulo, 23(51), 469-498.
Conceito central para a reflexão pós-colonial, o “outro” é objeto de discussão aprofundada em obras Postcolonialism (Jazeel, 2019) ou Geographies of Postcolonialism: Spaces of Power and Representation (Sharp, 2009).
Ver Magalhães e Cancela (2025) Political neglect and support for the radical right: The case of rural Portugal. Political Geography, 116, 103224.
Em A Era do Vazio: Ensaios sobre o Individualismo Contemporâneo (2013), Gilles Lipovetsky aborda o processo de individualização das sociedades ocidentais contemporâneas, nas quais o narcisismo e formas quási-niilistas de hedonismo emergem como atributos definidores dos sujeitos.
Ver As Novas Faces do Fascismo: Populismo e a Extrema Direita (Traverso, 2024).
“Só tenho uma palavra, só tenho uma linguagem, a do revolucionário; é a língua que falo nas reuniões populares, é a língua que usarei com os aliados e os Alemães.”
Lev Trotsky
A I Guerra Mundial ceifava milhões de vidas de soldados e civis nos campos de batalha europeus e africanos quando uma revolução socialista se deu no país no qual durante décadas a ortodoxia marxista afirmou ser impossível: a Rússia. A Revolução de Outubro de 1917, a primeira revolução socialista, abalou os alicerces nos quais a classe dominante assentava o seu então sacrossanto poder político e económico. Uma nova esperança nasceu para milhões de trabalhadores pelo mundo fora. Um dos grandes responsáveis por esse abalo que mudou para sempre a História do século XX foi, a par de Vladimir Ilitch Lenine, Lev Trotsky.
Os meses de interregno entre a Revolução de Fevereiro, que depôs o czar Nicolau II, dando origem a uma explosão de alegria e esperança no país, e a de Outubro foram palco de um verdadeiro surto de democracia popular nas ruas de Petrogrado, hoje São Petersburgo. “Como em toda a revolução, a massa, a maré humana, está no centro dos eventos e invade o espaço”, assim descreveu Michel Löwy esses meses revolucionários no livro Revoluções. “As fotos das assembleias de massa em Petrogrado […] são um testemunho da efervescência da sociedade civil ao longo desse ano extraordinário. Revelam a aprendizagem da democracia, no fogo da ação, por operários e camponeses que, livres de um só golpe de um jogo social e político esmagador, se descobrem sujeitos da história.”
O revolucionário Lev Trotsky, conhecido pela sua eloquente e acutilante oratória, despertando os mais profundos sentimentos entre quem o escutava, fossem de apoio ou de repúdio, foi um dos principais atores históricos desse período, sendo uma das presenças mais assíduas nas tribunas populares. Usava os seus talentos para criticar duramente os adversários, para explicar as suas posições políticas e, também, para justificar as decisões do Conselho dos Comissários do Povo, no qual assumiu desde logo as funções de Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros. E uma das suas primeiras decisões diplomáticas, três semanas depois de os bolcheviques conquistarem o poder e enquanto delineavam a estratégia para alcançar finalmente a paz, foi a divulgação de todos os tratados e documentos secretos dos governos czarista e provisórios com os aliados da Entente. Trotsky só tinha uma palavra, a do revolucionário.
O responsável pela diplomacia do novo poder socialista argumentou, no decreto que autorizou a divulgação, que “o imperialismo, com os seus planos mundiais de anexação, as suas alianças e maquinações vorazes, desenvolveu o sistema de diplomacia secreta ao mais alto grau” e que a sua abolição é “elemento essencial de uma política externa honrada, popular e verdadeiramente democrática”. O socialismo de Trotsky e de Lenine era obrigatoriamente internacionalista, e a Revolução tinha de se expandir para o resto do mundo, principalmente para a Europa Central, pois o socialismo não poderia existir num só país, iria gangrenar.
Vinte e dois anos depois da revelação desses tratados secretos, em 1939, o regime socialista fundado por Lenine estava irreconhecível sob a mão termidoriana de Josef Estaline, cuja argúcia Trotsky desvalorizou, um dos grandes erros da sua vida. A democracia socialista tinha então sido esmagada, os bolcheviques que lideraram a Revolução de Outubro e o Exército Vermelho contra os brancos e os exércitos estrangeiros estavam mortos, presos ou no exílio, a mão totalitária do ditador tudo decidia e ordenava, apoiada por uma burocracia que, sustentada pela polícia política, sufocava toda a vida política, social e cultural. A burocracia, uma excrescência parasitária dentro de um Estado operário, tinha ascendido ao poder com a contrarrevolução do Termidor soviético: a propriedade dos meios de produção era estatal, mas a classe trabalhadora não controlava o Estado.
Sob Estaline, a política externa soviética deixou de ter a revolução mundial socialista como objetivo, passando a defender e a justificar a doutrina do socialismo num só país, ou seja, a manutenção dos privilégios da burocracia, por si representada, como se fosse um novo Napoleão Bonaparte, entrando no jogo imperialista com as potências capitalistas. Se Trotsky revelou tratados secretos com potências capitalistas que dividiam territórios entre si, Estaline assinou, depois de ter dizimado em julgamentos fantoche as altas chefias militares soviéticas, um tratado com a Alemanha Nacional-Socialista, dividindo a Polónia entre si, com o Pacto Germano-Soviético. Um pequeno exemplo do abismo que separa o estalinismo do marxismo revolucionário.
Os marxistas revolucionários, os descendentes do pensamento de Trotsky, ainda hoje se confrontam com a amálgama, propalada por quem vê no socialismo a mais séria e verdadeira ameaça aos seus privilégios, entre estalinismo (ou o “socialismo realmente existente”) e a ideia de comunismo, sendo necessário, como defendeu Daniel Bensaïd em Trotskismos, “libertar os vivos do peso dos mortos, e virar a página das desilusões”. Foi precisamente esse combate que norteou a segunda parte da vida de Trotsky, já depois da morte de Lenine e da ascensão ao poder de Estaline e do centralismo burocrático que deformou o primeiro Estado operário e a internacional comunista: continuar a batalhar por um socialismo internacionalista.
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A vida de Trotsky está marcada por um sucedâneo de contribuições essenciais para o desenvolvimento do pensamento e práticas marxistas (teoria do desenvolvimento desigual e combinado, revolução permanente, teoria do fascismo e da estratégia da frente única, programa de transição, só para elencar as mais importantes), de escrita constante (com a sua clássica pena aguçada, onde as palavras trespassam a paixão que acompanha o combate político) e de batalhas pelo socialismo em que acreditava, sem nunca capitular perante a paralisia, o comodismo ou o oportunismo. Esta sua grande batalha contra o estalinismo está bem espelhada na sua autobiografia A Minha Vida, escrita entre 1929 e 1930, aquando do seu terceiro exílio forçado, desta vez por ordem de Estaline, na ilha de Büyükada (Prinkipo), perto de Istambul. Trotsky foi um dos mais importantes revolucionários e intelectuais marxistas do século XX e foi perseguido e assassinado por Estaline por ser uma séria ameaça ao seu poder na União Soviética com o início do cataclismo da II Guerra Mundial.
“Nos últimos anos, a GPU [a secreta soviética] destruiu muitas centenas de amigos meus, incluindo membros da minha família na União Soviética. Em Espanha, mataram o meu antigo secretário Erwin Wolf e vários dos meus companheiros de reflexão política; em Paris, mataram o meu filho Lev Sedov, que os assassinos profissionais de Estaline perseguiram durante dois anos. Em Lausanne, a GPU matou Ignace Reiss, que tinha deixado a GPU e aderido à IV Internacional. Em Paris, os agentes de Estaline assassinaram outro dos meus antigos secretários, Rudolf Klement, cujo corpo foi encontrado no Sena com a cabeça, as mãos e as pernas cortadas”, escreveu Trotsky duas semanas depois de uma primeira tentativa de assassinato no México, em maio de 1940. “Esta lista poderia continuar interminavelmente”, continuou, vaticinando linhas abaixo: “A repetição da tentativa é inevitável”. Estaline tentou, durante anos, destruir política e moralmente Trotsky, mas falhou. Era, então, na lógica estalinista, necessário eliminar fisicamente o seu maior adversário, precisamente quando encetava a empreitada de escrever a biografia do principal coveiro da revolução.
As perseguições tinham começado anos antes, a par e passo com a concentração de poder de Estaline, e a resposta de Trotsky não se fez esperar. Derrotada a Oposição de Esquerda, em 1927, nos três anos seguintes viveu-se o aprofundar do terror termidoriano: a campanha contra o fundador do Exército Vermelho atingia um novo auge na União Soviética e a polícia secreta perseguia os bolcheviques aliados de Trotsky, aprisionando, torturando e assassinando-os nos seus calabouços. Trotsky, que continuava a ter grande influência no movimento comunista internacional, sentiu então que era necessário contra-atacar, destruindo os argumentos e acusações estalinistas que, receava, pudessem contagiar a História da Revolução e os consequentes embates políticos: as deturpações do marxismo e do socialismo não poderiam vingar.
Daí que esta obra seja mais que uma autobiografia, é um ajuste de contas do mais puro combate político em que a principal arma do revolucionário é a verdade, alicerçada num sólido arquivo (excertos de notícias, decretos, correspondência pessoal). É a afirmação do pensamento e da prática marxistas como Trotsky as encara, de como se juntou às fileiras marxistas, como liderou o soviete de Petrogrado de 1905, como participou nos debates teóricos marxistas mais importantes, como lidou com os sucessivos exílios e sacrifícios pessoais que a luta pela revolução lhe exigia. É, também, uma análise autocrítica dos principais momentos que culminaram na Revolução de Outubro, na vitória na Guerra Civil Russa e na ascensão do Termidor Soviético.
Mas é também uma obra incompleta. Foi escrita dez anos antes de o revolucionário ser assassinado a mando de Estaline no México, a 21 de agosto de 1940. A autobiografia não aborda o seu restante exílio (Noruega e México), a sua análise sobre o nazismo, os erros políticos do Partido Comunista Alemão em impedir a sua ascensão, a degenerescência e os ziguezagues oportunistas da Internacional Comunista e a formulação da estratégia de frente única, em oposição à frente popular estalinista. Nem se debruça sobre a guerra civil espanhola e, mais uma vez, sobre os erros do estalinismo para impedir a vitória do franquismo. Fenómenos que culminaram na II Guerra Mundial e, para Trotsky, impunha-se, logo em 1938, a questão: o que fazer no contexto de mais uma guerra mundial imperialista? A sua resposta foi a fundação da IV Internacional com a elaboração do Programa de Transição, que também não são abordados nesta obra.
Esta autobiografia é uma pequena grande janela para a vida e pensamento de Trotsky contados pelo próprio, é um documento histórico que vale por si só, mas é também apenas isso mesmo, uma pequena grande janela, um vislumbre para a sua personalidade, falhas (e erros cometidos) e pensamento. A obra de Trotsky é extensíssima, começando desde logo pelas suas principais obras teóricas (Balanço e Perspectivas, Revolução Permanente, Programa de Transição) e pela sua gigante (em tamanho, pormenor e qualidade) História da Revolução Russa, sem esquecer os seus inúmeros compêndios de escritos políticos. O historiador polaco Isaac Deutscher escreveu a biografia mais completa e fidedigna de Trotsky, indo mesmo além da sua vida para contar pormenorizadamente a história do movimento revolucionário russo e da Revolução Russa, composta por três volumes – O Profeta Armado (1879-1921), O Profeta Desarmado (1921-1929) e O Profeta Banido (1929-1940) – e arrisco-me a dizer que, se hoje fosse acrescentado um quarto volume, teria como título O Profeta Esquecido.
Há mais de cinco décadas, os livros de Trotsky começaram a entrar, clandestinamente, em Portugal nas malas de carro de um reduzido grupo de jovens de Coimbra, Porto e Lisboa que viajavam até França para saberem mais sobre a situação política internacional. Politizados pela resistência à Guerra Colonial, pelo Maio de 1968 e pela invasão da Checoslováquia em 1968 pela União Soviética, estes jovens estabeleceram contactos políticos com trotskistas franceses, espanhóis, entre outras nacionalidades, e, depois, formaram-se os Grupos de Ação Comunista (GAC), de discussão e agitação, em Lisboa, Porto e Coimbra. Começaram-se a editar, devagarinho, livros de Trótski. Em 1973, nasceu o primeiro partido trotskista português, a Liga Comunista Internacionalista (LCI), que em 1978 se fundiu com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) dando origem ao Partido Socialista Revolucionário (PSR). Uma editora foi fundada, a Antídoto (o seu nome foi inspirado num dos pseudónimos de Trotsky: Antid Oto), afeta ao partido e dedicada a difundir o pensamento do revolucionário russo. O fundador e editor da Antídoto, João Cabral Fernandes, abandonou a política ativa em 1982 e a editora encerrou portas, deixando muito por publicar. Procurar, hoje, livros de Trotsky (e de outros trotskistas, como Ernest Mandel) é sinónimo de percorrer, minuciosamente, lombadas em estantes cheias de velhos e amarelados livros em alfarrabistas, sabendo que cada nova descoberta é uma relíquia a agarrar de imediato.
Noventa e cinco anos depois da primeira edição de A Minha Vida, a sua edição portuguesa chega pela primeira vez às livrarias em Portugal. É editada quando nos é mais fácil imaginarmos o fim do mundo do que uma alternativa socialista ao capitalismo neoliberal mais selvagem, quando a necropolítica canibaliza todas as vertentes do nosso dia-a-dia – o trabalho, as relações pessoais e comunitárias e o pensamento crítico – sem que o sistema consiga aumentar a taxa de acumulação capitalista, entrando em crise. A austeridade permanente (e a reconfiguração securitária do Estado) que sofremos há mais de uma década, a reemergência da extrema-direita, os sucessivos ataques aos direitos mais elementares dos trabalhadores, o aprofundamento dos choques inter-imperialistas entre as principais potências mundiais e, agora, o acelerar do rearmamento da Europa são sintomas de mais uma crise histórica do sistema capitalista.
Esta crise histórica evoca alguns dos dilemas enfrentados pelos revolucionários marxistas na primeira metade do século XX. Como enfrentar a extrema-direita? Como nos poderemos opor às guerras imperialistas lutando pela autodeterminação dos povos e pela paz? Como podemos construir uma alternativa e uma coligação popular alargada contra o capitalismo mais selvagem? São tantas as perguntas e tão poucas as respostas. Daí a necessidade de se procurarem pistas nas experiências de outros revolucionários. Porque a herança das resistências é vasta, mesmo que as tentem apagar da nossa memória coletiva. A vida de Trotsky é uma dessas resistências. É um testemunho de coragem, lucidez e sacrifício por uma causa maior: o socialismo.
Entrevistas a José Afonso
O livro Semeador de Palavras – entrevistas a José Afonso, edição da AJA – Associação José Afonso, organizado por Ana Ribeiro, Guadalupe Portelinha e José Rodrigues é um libelo contra o esquecimento, uma luta pela memória, e tem como propósito informar e esclarecer sobre o pensamento de José Afonso, através das suas palavras, que tocam os mais variados temas, enriquecendo o seu legado e a nossa herança cultural.
José Afonso tem-nos seduzido e emocionado com a sua arte maior, legando-nos uma obra de enorme valor artístico e humano. Mas sabemos que por detrás da obra está o homem com uma biografia e um pensamento, independente das histórias que narra nas canções, mas seguramente com muitos pontos em comum. Nestas entrevistas (cerca de 100) revela-se em toda a sua grandeza e simplicidade e ficamos com uma melhor compreensão da obra criada, que necessariamente o envolveu e da qual não podia dissociar-se, mas também um melhor entendimento desse tempo em que foi um protagonista activo.
José Afonso foi um semeador de palavras com causas e luta dentro e tentou sempre espalhar as sementes para que criassem raízes. Como alguém disse, “sementes de raiva e amor”. Canta numa das suas canções: “semear a palavra, para romper e crescer como baleia/ Plantei a semente da palavra/ Antes da cheia matar o meu gado/ Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita num terreno ao lado/ A palavra rompeu/ Cresceu como a baleia/(…)”. E as suas palavras têm sido ouvidas, colhidas, guardadas como tesouros ou cantadas como hinos e voltadas a semear não só em Portugal como em várias partes do mundo.
Com esta pesquisa, recolha e publicação de entrevistas e declarações à Imprensa, nacional e estrangeira, que José Afonso foi dando ao longo da vida, consideramos que estamos a prestar um serviço público, dando a conhecer melhor o homem por detrás das canções. E assim partimos ao encontro desse homem excepcional que marcou e contribuiu para a cultura deste país com a sua arte, baseada num profundo humanismo e enorme talento poético e musical. Pretendemos desvendar e confirmar o seu percurso, apresentar este ser humano na primeira pessoa e, de viva voz, sem interpretações ou suposições, revelar o seu pensamento, opções, concepção e visão do país e do mundo – que ele foi transmitindo pelas canções e poemas que eram o palco primordial onde exibia o seu teatro de vida, mas agora colocados de outra forma, falados directamente para os entrevistadores – para nós! Na verdade, não encontramos aqui as palavras transformadas em poemas e canções que tanto nos encantam e emocionam, mas, e não menos emocionante, confrontamo-nos com o ser em toda a sua humanidade, na simplicidade do dia-a-dia, com o seu sentido de humor, alguma alegria e muito da sua mágoa, revolta, desilusão. Esta obra reforça esse olhar de homem comprometido com o seu tempo, envolvido em lutas com causas e ideais dentro, que tem de confrontar-se com aspectos práticos de sobrevivência. É chocante, por exemplo, ler que houve um tempo em que passou fome. É muito confrangedor, pungente mesmo, porque sabemos o desfecho, ouvir a sua voz falar da esperança de recuperação da doença fatal, e por momentos quase vibramos com o seu entusiasmo pela cura. É com muita incredulidade que o ouvimos dizer que o desporto lhe deu mais alegrias do que as canções alguma vez lhe proporcionaram ou que teve experiências muito mais bonitas como professor do que como cantor. E mais surpreendente ainda, quando afirma que não gosta de cantar. Neste livro/documento há, pois, situações, afirmações inusitadas que nos criam perplexidade, apreensão e emoção. Engane-se, por exemplo, quem afirme que José Afonso gostava mais deste ou daquele disco. Ele vai mudando de opinião conforme o tempo em que foi interrogado, pressinto que conforme as mensagens que quer que os discos transmitam naquele momento. Muitas vezes nas suas falas sentimos o arauto, o aviso, a consciência quanto ao que pode acontecer em sentido contrário ao seu pensamento, neste país que viveu uma esperança e um júbilo sem paralelo. Soam-nos premonitórias certas palavras, neste tempo ácido, onde focos infecciosos de neofascismos estão a impor-se no mundo. Há vários exemplos que nos desafiam, pelo que a leitura deste Semeador de Palavras nunca se torna monótona, antes carrega constantes novidades. A certa altura sentimo-nos dentro do texto, também nós com a cabeça cheia de perguntas, perante a sua voz viva, mensageira de utopia.
Nesta obra lê-se a história de um homem grande, dada a conhecer graças às pessoas que o entrevistaram. Para elas o nosso agradecimento.
Entre o colapso climático, a inação política própria de um sistema económico que o sustenta e a ascensão da extrema-direita, Quebrar em caso de emergência climática, escrito a várias mãos pelo coletivo Climáximo a convite da editora Tigre de Papel, desafia-nos a olhar de frente as catástrofes climáticas que têm acossado o planeta e a sonhar com o fim do capitalismo como a revolução que ainda pode devolver esperança ao futuro.
A emergência presente no título é um verdadeiro apelo à ação. A emergência em responder ao colapso é real: “A perspetiva de futuro sem uma revolução global resultará no fim do clima estável que permitiu o florescimento da atual civilização humana” (p. 23).
Numa das suas obras1, Slavoj Žižek cita Orwell a propósito da questão das diferenças de classe (todos nós denunciamos as distinções de classe, mas são muito poucos os que querem seriamente aboli-las) para ilustrar que a possibilidade da transformação é evocada para garantir que a ação transformadora não terá lugar. Nesta linha de pensamento, e muito resumidamente, “a verdadeira coragem não é imaginarmos uma alternativa, mas aceitarmos as consequências do facto de não haver qualquer alternativa claramente discernível, o sonho de uma alternativa é um sintoma de cobardia teórica, funcionando com um fetiche que nos impede de pensarmos até ao fim o beco sem saída da nossa situação”. Este livro, Quebrar em caso de emergência climática, transporta-nos claramente até aqui, dá-nos essa imagem. E fá-lo quer no plano geral – “Não há mais tempo para a ilusão de que governos, instituições e empresas estão a fazer algo que não seja levar-nos para o fundo” (p. 9) –, quer no plano concreto: “Os Estados Unidos, o maior produtor mundial de petróleo e gás, o segundo produtor mundial de carvão e o maior emissor de gases com efeito de estufa da história, abandonam o acordo, em 2025, pela segunda vez” (p. 10). “Depois de invadir a Venezuela, Trump anunciou “o império fóssil vinha para tomar as reservas petrolíferas e determinar o rumo da sociedade da Venezuela” (p. 10).
Com este cenário, a verdadeira declaração subversiva de independência parte do pressuposto de que “pensar é aprender de novo a ver e a dirigir a atenção, a renomear a realidade”2, uma condição suficiente mas também necessária para ler este livro, que nos transmite uma sinceridade comovente ao reconhecer a responsabilidade individual e que, com toda a clareza e sem eufemismos, renomeia a realidade através de três pontos: o sistema capitalista provocou a crise climática; as elites estão a executar uma guerra sem precedentes; qualquer pessoa viva tem o dever moral, material e histórico de agir para parar esta guerra. Ou seja, o caos climático e a guerra não surgem só do ponto de vista interseccional, mas da própria essência e o nosso dever moral deve impelir-nos à ação. É, pois, esse convite que não só preenche as páginas deste livro, mas nos faz levantar da cadeira e sair a correr. Não para fugir, mas para agir. Aliás, ao introduzirem-se, habilmente, relatos de ação direta, a visualização mental da possibilidade de ação é inequívoca.
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Este livro possui, também, uma importante dimensão educativa. Se existe um campo em que a promessa de transformação é mais reiterada, é precisamente na educação, apresentada como motor de mobilidade social, como condição de emancipação, como resposta às desigualdades. E, no entanto, o que se observa é adestramento do seu papel. A Educação Ambiental é atirada para o desenvolvimento de competências utilitárias, para a adaptabilidade, no fundo, para a autorresponsabilização. O coletivo Climáximo, com esta escrita de vertente pedagógica, alia rigor conceptual e inteligibilidade, binómio próprio de quem domina o tema. O livro fornece toda a lexicologia fundamental para pensarmos no sentido de renomear a realidade: gases com efeito de estufa (GEE) , aquecimento global, o que é o clima, orçamento de carbono, neutralidade carbónica, ou a importância do fim dos combustíveis fósseis até 2030, a emergência! Cimenta as definições em dados concretos e ilustrados: “A Terra já aqueceu e arrefeceu antes, assim como variaram também os níveis de GEE na atmosfera, mas é precisamente pelo facto de as alterações no clima terrestre nunca terem sofrido alterações tão grandes em tão pouco tempo que estamos perante um evento histórico dramático” (p. 28). Faz conexões com a nossa vida atual: “Há ainda importantes impactos sociais e económicos, com consequências diretas e indiretas nos meios de subsistência e condições de povos inteiros, e exprimindo‑se frequentemente através de um aumento do custo de vida diretamente relacionado com a escassez (a ‘mão invisível’ do mercado a funcionar: menos comida implica comida mais cara). Pois sim, a crise climática já está a ter impacto na tua vida, mesmo que ainda não tenhas parado um pouco para pensar nela” (p. 35). Dá-nos uma visão utilitarista3 da ação em termos de ativismo, visível na forma como comparam o ganho da ação individual com a luta ativista. Num dos momentos do livro sustentam que um “monge franciscano climático” (p. 113), mesmo adotando um estilo de vida extremamente sóbrio, reduziria cerca de duas toneladas de emissões relativamente à média portuguesa, enquanto uma pessoa envolvida na luta antipetróleo poderia contribuir para evitar emissões significativamente superiores.
Tudo isto pode parecer uma distopia – exemplo que dão no livro, com o filme Don’t look up (Não Olhem para Cima) –, mas não é. “Foi por isso mesmo que estas elites apostaram na extrema-direita como a camada violenta que garantirá a continuação da exploração, cada vez mais exacerbada, até chegarmos a pontos de colapso” (p. 41). Na mesma linha de Žižek, o Climáximo adverte para o aceleracionismo que convém à extrema-direita “Eles vieram para manter a exploração, para a acelerar até ao último momento” (p. 10). Esta leitura encontra eco nas reflexões de Naomi Klein, que alerta para a existência de um “sobrevivencialismo monstruoso e supremacista” por parte dos magnatas da tecnologia. Por sua vez, Leonor Canadas, do coletivo Climáximo, relembra, numa sessão de apresentação, que “estamos mais próximas de ser refugiadas climáticas do que ser bilionárias”. A célebre frase “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” introduz uma secção preciosa de desconstrução da inevitabilidade da vida no seio do sistema capitalista e deste éter invisível, bem como a responsabilidade sobre a perpetuação da crise climática, não esquecendo que “o modelo energético fóssil tornou‑se a espinha dorsal da dominação colonial” (p. 78).
A formulação da frase “a guerra mata e é por isso que o debate sobre a guerra é tão intenso”4 pode ajudar a compreender a força com que Quebrar em caso de emergência climática evoca as vítimas do inferno climático e descreve a crise atual em termos de guerra. Define-se urgência suprema como o momento em que os valores mais profundos de uma comunidade e a sua própria sobrevivência coletiva se encontram sob ameaça iminente, exigindo decisões extraordinárias. É precisamente nesse estado de exceção que o coletivo Climáximo situa a emergência climática, e a sua conexão com Gaza. Gaza interpela-nos porque ali se revela, em toda a sua nudez, uma forma de poder que ameaça reorganizar o mundo inteiro, uma política de desenraizamento5 da própria condição humana, ou seja, uma espécie de vida pós-humana. É esta dissociação de nós mesmos que surge no livro e da qual emerge a referência à crise dos cuidados, conceito de Nancy Fraser, “como uma crescente dificuldade de dar resposta às necessidades de cuidados e de reprodução das comunidades” (p. 90). Pensar a interrupção seria, então, perguntar-nos que laços, que memórias e que formas de enraizamento continuam a ser capazes de impor um limite à força. No documentário, Com a Alma na Mão, Caminha, Fatem diz-nos que “antes da guerra só tirava fotografias a coisas belas, agora é só destruição. Mas é uma forma de ainda procurar vida no meio da morte”.
Há esperança? Quebrar em caso de emergência climática responde sem hesitação: a revolução. “É impossível descrever o que acontecerá sem usar a palavra revolução. As petrolíferas sabem‑no, os governos sabem‑no, os ultrarricos sabem‑no, e já é mais que tempo de nós, classe trabalhadora, o sabermos” (p. 98). David Harvey afirma que o capital nunca cairá por si mesmo. Haverá que empurrá-lo. É nesta convicção que o coletivo Climáximo apresenta um Plano de Desarmamento e um Plano de Paz. De que precisamos mais?
1Žižek, A Coragem do Desespero, Relógio d’Água, 2017.
2Amador Fernández-Savater, La batalla del pensamiento, NED Ediciones, abril de 2026.
3Na perspetiva utilitarista de justiça a deliberação de uma ação a realizar tem em vista o maior alcance de resultados.
4Michael Walzer no livro A Guerra em Debate, Cotovia 2004.
5Amador Fernández-Savater.
Mas por um homem ferido/ num labirinto perdido/ entre uma morte e uma vida! Transforma-se o oprimido/ em instrumento opressor/ Nasce num peito uma guerra! / E, lá longe… Na sua terra/o abutre, o carrasco, /o nazi, / a peste./ enchendo o ventre de carne/escreve:/ “DITOSA PÁTRIA QUE TAIS FILHOS DESTE. António Calvinho
Bardamerda para tal gente e um hurra aos cadáveres de todos os soldados perdidos, afinal todos nós. João Viegas
Enquanto um só combatente estiver vivo, enquanto mulheres e filhos permanecerem vivos e com eles os traumas que a guerra colonial provocou nos corpos e nos espíritos, ela aí está: a guerra colonial.
Já muito se escreveu sobre aqueles treze anos que deixaram a marca mais dura e mais profunda no século XX português.
Os Soldados Perdidos, que tenho à minha frente, quarenta e oito anos depois de o seu autor, João Viegas, ter desembarcado no “paraíso de todos os medos”, como ele próprio qualificou aquela terra que atrai e repele a um tempo, será, talvez, a última obra literária sobre a guerra colonial escrita por um ex-combatente.
O stress provocado pela brutalidade e pela violência da guerra, pelo que viveram durante aqueles mais de dois anos, uma interrupção brutal na sua vida em construção, na continuidade das suas vidas profissionais, no amanho do campo, nos estudos despertou em muitos combatentes mobilizados como carne para canhão a necessidade e a vontade incontida de pôr no papel, tanta vez numa abordagem literária sem filtro, como quem respira, a realidade nua, brutal, sem contemplações, quase sem narrativa organizada; um grito, um berro tão violento quanto a própria guerra que o determinava.
Uma condenação sem apelo, saída do coração, da chaga aberta para sempre, do coto ainda mais provocador que inferiorizante como foi, aliás, o caso de um dos personagens reais, como são quase todos, senão todos, os que habitam esta obra tão singela e tão poderosa. Refiro-me ao Jorge Carneiro, militar e combatente de eleição e um revolucionário genuíno.
Assim foi a verdadeira aprendizagem daquela guerra para a geração que lhe sucedeu, pela pena de escritores que nunca o tinham sido ou que não constavam (ainda) do mainstream da literatura, a arte a brotar das profundas feridas que lhes marcaram a alma, quer pelo que viram fazer, quer pelo que fizeram e nunca pensaram ser capazes de fazer, quer pelo que sofreram na verdadeira solidão dos que enfrentam a morte iminente.
Em Os Soldados Perdidos encontramos a revelação profunda do humano pela exposição visceral dos soldados na sua permanente procura da sobrevivência física e anímica numa realidade cuja essência lhes escapa mas que vão aprendendo a dominar, a cada dia que passa no confronto com o inesperado, por vezes com o indizível.
Uma inteligência prática e uma capacidade inata de resistência constroem o seu mundo possível servindo-se da própria hierarquia que os sujeita.
O cotejo, que me atrai, de duas obras tão diferentes mas tão próximas como são Nó Cego, a obra-prima que se impõe como o requiem da guerra colonial e Os Soldados Perdidos, de João Viegas, decorre de, nesta última, termos um invulgar e poderoso enlace entre a veemente e sistemática condenação da guerra, e desta guerra em particular, a condenação frontal dos assassinos de voz meiga que a impõem por métodos brutais, totalitários e terroristas e a explícita e por vezes entusiástica celebração, mesmo exaltação, das qualidades militares daqueles que são forçados ao combate que está presente em Nó Cego.
Será uma característica de todas as guerras esta contradição, eventualmente percorrerá todas as obras, mas aqui encontramo-la no centro da narrativa. Aqui não se trata de uma constatação amarga. É uma forma muito bela, quase ingénua, de como se celebra a vida e a sua precariedade.
Falo-vos de um belo livro. Um belo livro caracterizado pela simplicidade narrativa que nos põe no centro da acção, por vezes quase frenética, mobilizados também nós “ao serviço da pátria” como ainda hoje sem qualquer pejo se diz daqueles que foram vítimas do fascismo e enviados para matar os seus irmãos de sofrimento ainda mais brutal, e depois, calhando, morrer.
Um estilo lesto e vivíssimo, sem rodriguinhos nem apaziguadores nem moralismos, sem complicações ficcionais, com a limpidez e a força da realidade crua, acompanha a acção do alferes miliciano Viegas, como tantos outros arrancado aos seus filhos – sem direito a beneficiar da figura de “amparo”, vá-se lá saber porquê, todos sabemos, ele fazia política e propaganda subversiva insidiosa contra a guerra colonial transformada na linha principal de ataque ao fascismo.
Feita a travessia do sofrimento, da contradição angustiante entre a consciência anti-fascista e anti-colonial e a consciência mobilizadora, tornada necessidade, de que tinha de levar os seus homens de volta para casa, fosse onde fosse e de que para isso tinha de saber estar à altura, ele, saído de uma instrução precária, feita à pressa, carne para canhão, eis o nosso alferes miliciano Viegas que escapou por entre os pingos da chuva, de volta ao seu CITAC, entretanto assaltado, roubado, encerrado e destruído pela PIDE, de volta ao encontro dos colegas e camaradas para o fazer renascer e com ele repercutir na arte a paz e a liberdade conquistadas.
A beleza dos jogos de amor desprendido, simples e divertido com Bela, a jovem informadora do PAIGC como todos sabiam, mas que oferecia momentos de prazer único naquelas paragens, fê-lo sofrer genuinamente quando foi presa pela PIDE e desterrada para um campo de concentração, o ilhéu das Galinhas, no arquipélago dos Bijagós.
Mas teve o prazer de ser o primeiro a receber o seu abraço emocionado e sentir correndo pela sua face as lágrimas de alegria e de emoção e de amor com que Bela se encolheu, feliz de novo, nos seus braços numa festa à liberdade de ambos e de ambas as pátrias.
A narrativa da experiência do alferes miliciano Viegas, desde o embarque no DC-6 para a Guiné, “o paraíso de todos os medos” até ao regresso a casa, dois anos depois de ser encharcado, sem aviso, pelo seu próprio suor, pegajoso e mórbido, com que Bissau na “época das chuvas” saúda os que mal assomam à porta do avião no aeroporto da Bissalanca, até dois meses depois do 25 de Abril, quando regressa à “metrópole”, é um palpitante hino à alegria de viver através das picadas da morte.
João Viegas fá-lo com uma entusiástica e quase absurda delicadeza, que se esconde por detrás da adopção sistemática da linguagem vulgar e rude dos homens na fronteira do suportável. Somos tocados profundamente pela sensibilidade esclarecida de um sentido crítico irredutível decorrente da sua inteligência de artista.
A sempre presente condenação do fascismo e da guerra colonial não prejudica a naturalidade com que, nela metido até aos cabelos, fosse simplesmente um soldado camarada dos homens que comandava desenvolvendo uma relação de grande fraternidade e compreensão com cada um, assumindo naturalmente com grande espontaneidade a capacidade de comando entre camaradas, estabelecendo uma hierarquia muito própria alicerçada nos humanos valores e interesses comuns: enfrentar as condições adversas, enfrentar aqueles que os obrigaram a designar por inimigos e que, na elementaridade radical da luta pela sobrevivência, foram forçados a agir como se assim fosse.
O alferes Viegas e os seus homens construíram um núcleo invencível, e não me refiro às vicissitudes do combate, porque simplesmente foram levados ao entendimento de que a sua vida e a sua humanidade essencial se enraizavam não tanto na eficácia do combate ao inimigo, que, reconheçamos, não era muita, mas na fraternidade e solidariedade que souberam construir.
E uma das coordenadas determinantes foi a compreensão de que a tragédia se combate com a alegria da camaradagem e que a coragem para a viver também pode nascer da própria acção.
Em Os Soldados Perdidos, o autor, ele mesmo o alferes miliciano Viegas, subverte pela forma como age e se relaciona com os seus homens, os cânones da hierarquia contrapondo-lhe, em pleno teatro de operações, a solidariedade e a fraternidade que constituem a verdadeira camaradagem. E mesmo a base da eficácia operacional possível.
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João Viegas consegue, na pessoa do alferes Viegas, pôr em prática os ensinamentos de A Arte de Ser Chefe, de Gaston Courtois, curiosamente um sacerdote francês ligado ao movimento dos trabalhadores católicos, estudada na Academia Militar, mas tão só, para tantas vezes serem postos de parte pelo carreirismo, pela opção do mando em vez do comando, pela pusilanimidade da carácter que fornece à burocracia todo o seu poder e pelo cretinismo militar, para parafrasear Lenine quando classifica o cretinismo parlamentar.
Na sua hostilidade radical à guerra e à hierarquia, o alferes Viegas, por amor dos seus homens e não à pátria dos fascistas, capitalistas e latifundiários que, inda hoje, roubam ao povo a sua pátria para lhe imporem a deles, revela-se um verdadeiro comandante, encostando às tábuas a hierarquia que sempre tentou submetê-lo às suas regras estritas sem realmente o conseguir.
Um verdadeiro comandante sempre na primeira linha a enfrentar os perigos que a todos ameaçavam. Ele próprio, ferido em combate e evacuado para de novo voltar por exigência sua para junto dos seus homens, os camaradas a quem pertencia e que comandou nas mais diversas situações, ora abrigando-se do tiro dos guerrilheiros, ora correndo de peito aberto sobre eles como o exemplo dos soldados africanos sob o seu comando o obrigava.
Mas bom, bom eram, quando a sorte o proporcionava e surgia a oportunidade, aquelas bebedeiras catárticas conjuntamente com a ida às meninas nas povoações já organizadas de acordo com o cânone colonizador. E para esses momentos de absoluta entrega ao prazer não importava arriscar de novo a vida numa emboscada ou no rebentamento de uma mina. A vida é nossa, vale mais arriscá-la porque nos sabe bem do que sob o látego infernal da hierarquia.
Viegas irá, já na última fase da comissão, ser colocado no Estado-Maior do comando-chefe por decisão directa do general Spínola, que antes de ser chefe dos bombistas do MDLP, no intento abstruso de fazer ajoelhar a democracia, esquecido de que há formas mais eficazes como ficou provado, foi um comandante militar de prestígio, apesar de condenado a perder a guerra já perdida logo que começou.
Aí, as capacidades de Viegas para analisar as diversas componentes do movimento das tropas baseado nos serviços de informações tornaram-no indispensável.
Sublinhe-se que os serviços de informações militares estavam organizados de acordo com a estrutura NATO a que o governo fascista de Salazar aderiu orgulhosamente para a defesa comum das nações democráticas da Europa, decerto com a garantia de que tais democracias não apoiariam, como sucedeu, o movimento democrático que timidamente eclodiu em Portugal na sequência da derrota do nazi-fascismo em 1945.
Isto quer dizer que a capacidade de obter informações sobre os movimentos do inimigo estava praticamente a cargo das unidades militares no terreno e, essencialmente, dependente da PIDE e sua vasta rede de bufos. Tal colocava a PIDE numa situação relativamente privilegiada, que sustentava uma certa arrogância quando em contacto com as unidades combatentes.
O alferes Viegas, quando ainda no comando operacional do seu pelotão, teve ocasião de confrontar uma dessas ratazanas da PIDE dando a fuga a um guerrilheiro de que o pide, o inspector Palma, se arrogara o direito de se apoderar para o torturar e extorquir informações, mostrando serviço.
As relações entre os militares e as polícias políticas foram sempre conflituais, o que se pode atribuir à frequente actividade política e golpista desenvolvida pelos militares, aliás na tradição revolucionária desde o afrontamento a Beresford que custou a vida ao general Gomes Freire de Andrade. O próprio 28 de Maio de Gomes da Costa teve, no seu desencadear, uma percepção dos interesses populares à flor da pele naturalmente esmagados logo de seguida pelas forças do capital e dos senhores da terra organizadas em torno de Salazar. Outras tentativas, várias, de derrubar os fascistas, envolveram civis e, sempre, militares até ao assalto ao quartel de Beja, em 1961, para proclamar o legítimo presidente da República, o general Humberto Delgado.
Nesta sua nova actividade acompanha de perto o Movimento dos Capitães, a aproximação ao PAIGC e as dificuldades inerentes ao encontro de forças beligerantes durante treze anos e que agora se confrontavam ainda, mas para encontrarem a melhor forma de se darem as mãos.
O Movimento dos Capitães, a caminho de se tornar Movimento das Forças Armadas, para atenuar a radicalidade do golpe, enquanto iam morrendo soldados e guerrilheiros esforçava-se por se libertar da estratégia spinolista de manter o império esgotado e apodrecido.
De regresso à vida de cidadão finalmente livre face ao poder, porque livre foi sempre perante si próprio, de cidadão politicamente comprometido e empenhado e não apenas cidadão sobrevivente de uma guerra que lhe não dizia respeito mas o confrontou nas suas mais profundas convicções, de regresso à sua actividade profissional num Portugal liberto do fascismo mas ainda e sempre sob ameaça dos “irredentistas”, o professor não descurou a defesa material da liberdade conquistada.
Agora já na sua escola, em Figueiró dos Vinhos, participou entusiasmado na preparação da resistência à possibilidade de uma incursão de um forte grupo terrorista que se constituía do lado de lá da fronteira, na Espanha franquista. A experiência humana e operacional ganha na luta contra a liberdade a que fora obrigado, estava agora pronta para a defender até às últimas consequências.
Duas personagens fundamentais, para além, naturalmente, do alferes Viegas, lui même, balizam todo o conceito estético, humanista e ético de Os Soldados Perdidos. São elas o furriel Trindade, formado na escola dos Rangers, formando combatentes com elevado grau de eficácia. Ele será o verdadeiro instrutor, o protector durante os combates, o companheiro seguro de tropelias, o amigo e companheiro de todos os momentos. E o comandante do destacamento de fuzileiros, o explosivo ruivo Labaredas, pronto para acorrer em auxílio sempre que necessário no combate ou na festa com que os combatentes celebram estarem vivos.
Estas duas personagens, na vivíssima simplicidade com que são descritas, expressam afinal, e de forma tão real, a complexidade radical da vida das tropas especiais, neste caso os “rangers” e os “fuzos”. Eles assumem como sua própria natureza, como justificação do próprio acto de combater numa guerra odiosa, uma superioridade moral, não em relação ao inimigo, que desse são próximos, talvez mesmo irmãos, numa ética própria, mesmo quando não percebida, que tantas vezes sublima a violência, até quando extrema, no combate que apenas fisicamente os opõe. Trata-se, pelo contrário, de uma superioridade que os faz permanecer, vivos ou mortos, uma acusação eterna às bestas engomadas que lhes impuseram a maior das violências: tirar a vida aos seus próprios irmãos.
A burocracia virtuosamente assassinada, a hierarquia metamorfoseada no desfrute da fraternidade, da solidariedade, da camaradagem. A humanidade manifestando-se em toda a sua beleza no “paraíso de todos os medos”. A abnegação e o medo, eis o ser humano na sua totalidade.
Ao longo da leitura destas páginas senti-me contigo, meu caro João Viegas. A acompanhar-te nas picadas, nas bebedeiras, nos combates, no estremecimento angustiado perante a tua luta pela vida quando ficaste gravemente ferido, a construir contigo, com o Trindade, com o Labaredas e a malta toda, pretos e brancos, a caminhada que me ia pôr do lado daqueles com que afinal iria identificar-me e unir forças para liquidar, ainda que só daquela vez, o inimigo comum.
Hoje, 3 de Maio, de Patrícia Portela, é um romance sobre os modos como foi pintado o quadro de Goya “Os fuzilamentos de 3 de Maio” (não técnicas, mas mentalidades), como foi vivido, as circunstâncias, inclusive da narração e da narradora, os lugares geográficos, os que constituíram o pelotão de fuzilamento, os que foram assassinados, os testemunhos do lado do povo e da aristocracia. O leitor deverá cruzar na sua mente todas estas perspetivas, perfazendo uma unidade estética, que se constituirá como o bilhete de identidade do romance.
A originalidade de Patrícia Portela atinge o seu máximo expoente aqui, em Hoje, 3 de Maio, versando sobre o quadro “Os fuzilamentos de 3 de Maio” ocorridos nesse dia de 1808, pintado por Goya.
Depois de Hífen, parecia-nos ser impossível que a autora criasse uma estrutura romanesca tão original, mas não só a criou como, com ela, abre uma nova vertente nas correntes da literatura portuguesa contemporânea, o hipermodernismo (pedimos o conceito emprestado a Gilles Lipovetsky), no qual o tempo perde o seu caráter contínuo e cronológico, expresso no romance pelo quadro “Saturno Devorando o seu Filho”, evidenciando-se como simultaneidade, aquilo que Saramago tentava mostrar no final da sua vida: um processo pelo qual se evidenciaria literariamente a simultaneidade. A autora define no romance a modernidade: “É isto a modernidade. Uma abordagem desligada do presente em permanente revisão do passado” (p. 48). O hipermodernismo, como extrema intensificação da modernidade, significa que os processos literários passados e o trabalho sobre a categoria de tempo encontram-se esgotados. Assim, ao lado do pós-modernismo, que reflete, critica e denuncia o passado (a maioria dos escritores portugueses atuais), é preciso inventar processos do hipermodernismo, como Patrícia Portela nos dá o exemplo com este livro. Não é impossível que a novela gráfica seja um desses processos que substituirá o romance só com letras e palavras.
É neste sentido que Hoje, 3 de Maio se expõe por estruturas (oito), desde a Necrose até Germinação, cada uma repetindo as restantes (a simultaneidade) e em algumas discutindo a questão do tempo vista por Einstein e por Bergson, intercalando-se com a vida da narradora em Madrid. Porque tentativa de passar para o papel a simultaneidade, a autora dá sugestões de leitura que aproximem a escrita do romance da realidade. E a realidade e só uma: os fuzilamentos do dia 3 de maio de 1808 tal como vistos por Goya. Por isso, o quadro ou fragmentos deste repetem-se continuamente, dando a sensação (verdadeira) de que não se está a falar de outra coisa senão do quadro de Goya. O quadro é omnipotente neste romance face às múltiplas personagens, inclusive da narradora.
O hipermodernismo, como extrema intensificação da modernidade, significa que os processos literários passados e o trabalho sobre a categoria de tempo encontram-se esgotados.
É um romance sobre os modos como foi pintado (não técnicas, mas mentalidades), como foi vivido, as circunstâncias, inclusive da narração e da narradora, os lugares geográficos, os que constituíram o pelotão de fuzilamento, os que foram assassinados, os testemunhos do lado do povo e da aristocracia. O leitor deverá cruzar na sua mente todas estas perspetivas, perfazendo uma unidade estética, que se constituirá como o bilhete de identidade do romance. É evidente que cada leitor será atraído por um aspeto singular do romance e, assim, teremos o mesmo romance multiplicado diferentemente por um número infinito de leitores. É isto o hipermodernismo: ainda que mesmidade, oferece-se sempre como alteridade. Lemos por três vezes o romance e tivemos três sensações e sentimentos de leitura diferentes, consoante líamos de seguida todos os “Preâmbulos”, todos os capítulos relacionados com o espaço ou os capítulos relacionados com o tempo.
Repito, não há romance igual em Portugal. Leitor: bem-vindo a um mundo novo em Portugal.
Fahrenheit 451 é a temperatura de combustão do papel na escala de Fahrenheit, escala de temperatura proposta por Daniel Gabriel Fahrenheit em 1724. A sua unidade é o grau Fahrenheit (símbolo: °F). Nesta escala o ponto de fusão da água é de 32°F e o ponto de ebulição é de 212°F. Os 451ºF corresponderão a 232,8ºC.
É também o título de um livro de Ray Bradbury, autor norte-americano normalmente referenciado como escritor de ficção científica, ainda que este livro em particular seja essencialmente uma distopia.
Recentemente (março de 2026) reeditado pela Cavalo de Ferro, casa que tem vindo a reeditar a obra do autor, ou mesmo a apresentar algumas até aqui inéditas, Fahrenheit 451 constava da coleção Argonauta, da Livros do Brasil, com tradução de Mário Henrique Leiria, e capa desenhada por Lima de Freitas.
A Utopia, escrita em 1516 por Thomas More, retrata a ilha do mesmo nome, onde estaria vigente um regime sociopolítico perfeito. Por curiosidade, o narrador toma conhecimento de todos aqueles factos através de uma conversa que mantém numa taberna de um qualquer porto, com um marinheiro português. A Cidade do Sol, de Campanella, ou a Nova Atlântida, de Francis Bacon, são outros exemplos deste tipo de exercício literário, mais tarde designado como literatura utópica.
Já no século XX, com o advento dos totalitarismos, esse exercício foi posto em prática de uma forma invertida. Já não era descrito o sistema perfeito. Passámos a estar confrontados com sistemas disfuncionais, quando não já perto do colapso, sendo evidente que os autores pretendiam antever aquilo a que poderia levar a ambição do homem.
A novela 1984, de George Orwell, atingiu, talvez, maior notoriedade do que qualquer outra do género, mas isso deveu-se essencialmente ao ambiente político existente à época do seu lançamento, tratando-se de uma crítica direta ao regime estalinista.
Mas Nós, do russo Evgueni Zamiatine, vista como inspiração para Orwell, ou o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, são obras igualmente poderosas, quer na análise que é feita dos mecanismos da nossa sociedade, quer no apuro artístico conseguido.
Fahrenheit 451 é muitas vezes citado quando falamos de censura e de proibição de livros. Na sociedade retratada, determinados livros são proibidos, sendo que estava previsto que, sempre que fosse encontrada uma biblioteca clandestina (qualquer número de livros, na verdade), era chamado o corpo de bombeiros, que já não funcionava para extinguir fogos, mas sim para incinerar livros proibidos.
É fácil perceber que a sua notoriedade passa em grande parte pela ideia poderosa de vermos o corpo de bombeiros votado à queima de obras literárias. Contribuiu, em muito, para a sua fama, o filme de François Truffaut, realizado em 1966. O grande mestre da Nouvelle Vague não poderia passar despercebido ao fazer um filme em língua inglesa, colocando no ecrã uma das maiores estrelas daquele lado do canal da Mancha: Julie Christie.
Só que Fahrenheit 451 tem muito mais para nos contar do que bombeiros com mangueiras donde jorra gasolina. Mais do que envelhecer bem, esta obra tem vindo a ficar mais atual.
Comecemos por uma pequena curiosidade. Na história, o passado menos recente, tal como era apresentado, tinha sido alterado em função das conveniências do regime. O corpo de bombeiros tinha como narrativa oficial que a sua fundação datava dos anos da revolução americana, e que tinha como propósito queimar os livros de influência inglesa. O seu primeiro líder teria sido Benjamin Franklin, sendo de assinalar o sentido de ironia.
Neste regime em particular, que é, obviamente, totalitário, não sabemos exatamente quem é o adversário. Mesmo que durante parte da ação se esteja na iminência de uma guerra, que acaba por deflagrar já no final, como se de uma espécie de cair do pano se tratasse. Mas sabemos que são os livros em geral que são proibidos, mais concretamente a literatura, e não os livros que defendam algum modelo específico de distribuição de riqueza, ou de regras de convívio entre raças e/ou géneros. Não se trata de atacar os que rezam a Deus vestidos de branco, por parte daqueles que rezam vestidos de negro.
O que está verdadeiramente em causa é a literatura, como veículo de transmissão de ideias. Naquele regime, era a reflexão, fosse em que sentido fosse, que era combatida. E ninguém estranhava a extraordinária taxa de suicídios, toxicodependência ou divórcio registada.
Em determinado momento, o protagonista, Guy Montag, bombeiro de profissão, é confrontado pelo seu superior hierárquico, que aproveita para lhe explicar alguns detalhes sobre a realidade que os rodeava. É dito em determinado momento: “Quanto maior é a população, mais numerosas são as minorias.” E depois é explicado que as tensões decorrentes de uma sobrepopulação do planeta levaram o homem a simplificar tudo, do sistema político ao entretenimento. A literatura começou por ser resumida, chegando a não passar de resumos de resumos, acabando, por fim, por ser banida. Tudo o que pudesse constituir razão para divergências de opinião passou a ser banido – ainda que as pessoas não fossem necessariamente mais felizes por isso.
Numa época em que a comunicação de massas se faz em grande parte pelas redes sociais, são-nos fornecidos ideias e valores que já temos e defendemos, sem qualquer contraditório e, portanto, sem necessidade de reflexão.
O nosso herói acaba por se rebelar contra os poderes instituídos e, já em fuga, quando se julgava irremediavelmente sozinho, encontra um grupo de marginais que sobrevive nas margens daquela sociedade. Entre outras coisas, asseguram que a memória coletiva não se perca, na medida em que memorizam os livros que leem.
Significativamente, respondem à pergunta “O que é que vocês fazem?” com: “Nós lembramos.”
A história termina com o deflagrar de uma guerra, como já referido, e com alguém a refletir que seria bom que o homem não agisse como uma fénix, porque, ainda que possa renascer das cinzas, poderia não mergulhar tão facilmente em piras funerárias.
Estamos numa época em que a comunicação de massas se faz em grande parte pelas redes sociais, que operam de forma a fornecer-nos essencialmente aquilo que nos interessa. Ou seja, são-nos fornecidos ideias e valores que já temos e defendemos, sem qualquer contraditório e, portanto, sem necessidade de reflexão. Pelo que, inevitavelmente, quando finalmente entramos em confronto com alguma coisa, a nossa posição surge já extremada. Caminhamos para um tipo de sociedade mais confrontacional.
Uma vez lida esta obra, que era originalmente um mero meio de entretenimento típico de uma época em que o átomo e a corrida espacial dominavam o nosso imaginário, e que tem vindo a revelar um carácter ominoso, o leitor atento perceberá que importa que saibamos manter viva a chama da reflexão, mantendo presente que os caminhos mais curtos e planos não são necessariamente os que nos conduzem ao nosso destino.
Pouco depois do 25 de Abril, diz o texto de contracapa deste romance de Carlos Campaniço, “os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas”. Em Aldeia Velha, que poderia ser a Safara natal do autor, no concelho de Moura, ou alguma outra aldeia do Alentejo, onde decorre a ação deste romance, “a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da guerra colonial e as novas liberdades trazidas pela revolução”.
“Primeiro a Revolução; meses depois, uma autorização ministerial para ocuparem as terras de quem não as trabalhava. Houve euforia, era a força do povo, a justiça do povo, finalmente, tantos braços levantados; mas também houve medo, porque os que tinham terras e bens de repente se perguntavam porque lhes tiravam o que sempre fora seu. Muitas daquelas terras sempre estiveram nas famílias, e, além disso, eram obrigados a fugir levando as próprias vidas, carregando-as como malas de roupas incompletas (p. 23).”
Ao longo de 270 páginas vemos desfilar uma galeria de personagens: Zeferino Guedelha, antigo lavrador, expropriado com a reforma agrária. Tonico e Aurora, crianças criadas ao deus-dará, filhos do moleiro Adrião Lampreia e de Ana Maria, que o troca pela vida confortável ao lado de José Maria Falcão, latifundiário expropriado e ressentido. João Cotovio, que veio da guerra com stress pós-traumático – tinha “crises de nervos” e partia tudo o que tivesse à mão. A irmã deste, Marianita Cotovio, que regressa à terra vinda da capital, “prenha por todos os lados de onde se olhasse” e sem marido. O médico, doutor Francisco Geraldes, e a sua amante Tomásia Bicho. José Catarino, o presidente da junta, o padre Manuel Francisco, rapaz da terra, filho do “Carvoero”, de uma das famílias mais pobres da aldeia. E sobretudo Boca-Viúva – o carteiro, “negro como uma sombra dentro do seu casaco grosso, carregando a correspondência com um sofrimento que lhe mirrava os gestos. Parecia que todas as más notícias contidas nas cartas entravam nele e lhe faziam dano” – que estará no centro do enredo.
O tempo do romance vai muito além do período pós-revolucionário, acompanhando o fim da reforma agrária e dos sonhos que acalentou.
Carlos Campaniço nasceu na aldeia de Safara, no concelho de Moura, e aí viveu até ingressar na universidade, onde cursou Línguas e Literaturas Modernas. É mestre em Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo. Profissionalmente, é programador artístico. Publicou vários romances, entre eles Os Demónios de Álvaro Cobra (2013, vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada), Mal Nascer (2014, finalista do Prémio LeYa e vencedor do Prémio Mais Literatura promovido pela revista Mais Alentejo), As Viúvas de Dom Rufia (2016) e Velhos Lobos (2022).
Carlos Campaniço, A Cinco Palmos dos Olhos 1.ª edição: Outubro de 2025 Casa das Letras | Grupo Leya
A ciência, a poesia e o futuro: o voo ambicioso de Butterfly Chronicles.
A editora Escorpião Azul acaba de lançar Butterfly Chronicles, a mais recente obra de João Mascarenhas, autor veterano e presença reconhecida da banda desenhada portuguesa. A obra, que nasceu como webcomic há mais de uma década, chega finalmente ao formato de álbum físico, agora com a história concluída — um desfecho aguardado pelos leitores que acompanharam o projeto desde os seus primeiros passos digitais.
A premissa que sustenta Butterfly Chronicles é de imediato intrigante: poderá a memória individual ser acedida através do ADN? A questão, simultaneamente científica e filosófica, serve de porta de entrada para uma narrativa que começa de forma contemplativa, quase meditativa, antes de mergulhar no ambiente dinâmico da Investigação em Bio-Robótica da Universidade de Kymera, em Tóquio. É ali que uma equipa de investigadores trabalha na leitura da chamada “memória da espécie”, procurando extrair dos genes de determinados animais informações para melhorar o desempenho de robôs desportivos no competitivo universo do Droidball, um desporto mecanizado longe de ser apenas “futebol com robôs”, que Mascarenhas explora de forma conceptual.
O enredo adensa-se quando a equipa descobre que este método permite ir mais longe: não só a memória genética coletiva, mas também a memória individual se revela acessível. O salto científico abre, então, caminho a questões éticas, psicológicas e sociais que conduzem a narrativa para territórios mais profundos: a privacidade biológica, a identidade e os limites da ciência são temas que ecoam ao longo do álbum e que têm eco no tempo presente em que vivemos quando a evolução tecnológica parece mais rápida do que nunca.
João Mascarenhas constrói aqui uma ficção científica que não se afasta do plausível; antes, apoia-se em bases reais da genética e da robótica para projetar um futuro que se apresenta credível e inquietante. Essa ponte entre rigor científico e imaginação, por vezes com contornos poéticos, torna Butterfly Chronicles num livro estimulante, daqueles que, uma vez abertos, custam a pousar.
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A amplitude temática impressiona: ciência, cultura japonesa, humor, crime organizado, música, reflexão ética. À primeira instância, poder-se-ia pensar que são temas a mais, mas Mascarenhas consegue entrelaçá-los com habilidade, garantindo que o enredo nunca se dispersa em excesso. É verdade que algumas personagens poderiam beneficiar de maior desenvolvimento, mas o equilíbrio entre entretenimento e profundidade mantém-se sólido.
Graficamente, Mascarenhas apresenta um traço preto e branco enriquecido com tramas densas, num estilo que bebe do mangá sem nunca perder identidade própria. Os grandes planos das personagens são particularmente eficazes, transmitindo subtileza emocional e profundidade psicológica. Nota-se, porém, alguma irregularidade entre páginas de grande impacto visual e outras onde a proporção ou a fluidez do desenho não atingem o mesmo nível de excelência.
No conjunto, Butterfly Chronicles afirma-se como uma das obras mais completas de João Mascarenhas desde O Menino Triste. Embora diferente em temática e estética, partilha com essa obra maior a sensibilidade rara e a capacidade de provocar reflexão profunda no leitor. É uma narrativa intelectualmente desafiadora, movida pela ciência, emoção e uma inesperada metáfora poética da borboleta, símbolo de identidade, mudança e fragilidade humana. Uma contribuição relevante para a banda desenhada portuguesa contemporânea, sobretudo na sua vertente de ficção científica especulativa.
Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal é uma grande obra. Não apenas pelas suas 752 páginas, mas sobretudo pelo conteúdo. Que vai para além da descrição e do relato pormenorizado de factos muito bem fundamentados e procura dialogar, aqui e ali, com alguns dos principais pensadores atuais e históricos do campo do pensamento crítico e da reflexão sobre a extrema-direita e o fascismo (ex: Theodor Adorno, Zygmunt Bauman, Benito Mussolini, Giuliano da Empoli, Enzo Traverso e Bruno Latour), ajudando a enquadrar algumas das evidências apresentadas e a colocar em perspetiva a leitura que é feita. Este permanente vaivém entre a análise crítica fundada na teoria e os detalhes empíricos de quem andou a palmilhar o terreno durante os últimos seis anos, os pequenos episódios que dão vida ao conjunto, fazem desta obra um verdadeiro exercício de tapeçaria interpretativa do Chega e da sociedade portuguesa contemporânea. Num tempo em que, como canta a Capicua “não há quem não sinta um cheio a anos 30“1, é uma leitura fundamental e regista para memória futura aquilo que não devemos esquecer.
Ao mergulhar bem fundo nos bastidores do Chega, permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam, aqueles que permanecem na sombra a financiar a sua atividade e a alimentar aquilo que lhe dá força e vitalidade, isto é, a desinformação e a paranoia, o ressentimento, o preconceito e o ódio. Permite-nos compreender como foi possível termos deixado inscrever-se na sociedade portuguesa um agente patológico que corrói e ataca as fundações de uma democracia em acelerada degenerescência, a nossa, a partir do seu interior, enquanto, dominando com habilidade a narrativa mediática e cavalgando as redes sociais, consegue convencê-la de que é vítima e não carrasco.
Permite-nos levantar o véu sobre aquilo que este partido político pretende ocultar, a sua verdadeira natureza, os protagonistas que o viabilizam…
Logo a abrir, um alerta que devemos ter em conta: é importante que façamos um esforço intelectual e político para distinguir o eleitorado do Chega de quem “manda, dirige ou nele investe pequenas fortunas para defender interesses individuais ou de casta” (p. 20). Depois, explora-se o carácter messiânico do líder do Chega, André Ventura, também conhecido internamente como “Kim Jong-un de Mem Martins” (p. 578). Amadurecido nos debates futebolísticos que abundam na televisão portuguesa, onde terá exercitado o seu “galope de Gish”, isto é, uma estratégia retórica que passa por paralisar qualquer oponente debaixo de um jorro torrencial de argumentos, independentemente da sua validade, tornando impossível qualquer refutação, Ventura arrastou um séquito de fiéis provenientes de diferentes quadrantes, que incluiu, no congresso fundador realizado em Viseu, no final de fevereiro de 2020, “polícias, militares e seguranças adictos da ordem, da disciplina e da autoridade, mas também mulheres e homens “cansados de impunidades e compadrios” (…) [e] outros, já fartos de “parasitas com Mercedes à porta de casa” [que] desejavam simplesmente pôr os ciganos “nos eixos” (p. 40) (…) casais com bebés e crianças, um campeão de hipismo, um coronel da GNR aposentado e celebridades locais como João Tilly2 (p. 43)”.
André Ventura, diz-nos Miguel Carvalho, “intui como poucos os ressabiamentos, as ruminações e os preconceitos populares subterrâneos que borbulhavam pelo país” (p. 41). E prossegue para uma certa genealogia do Chega que abrange atores relativamente conhecidos do grande público, como o Partido Nacional Renovador ou o movimento Hammerskin, e outros mais obscuros como a Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro (P1) ou o Escudo Identitário. Os contornos de toda esta constelação de extrema-direita e das suas fontes doutrinárias nacionalistas e saudosistas de Salazar, com destaque para Jaime Nogueira Pinto3, mas também as referências internacionais como, por exemplo, Viktor Órban, líder do governo húngaro, ou Alexander Dugin, alegado ideólogo e “líder espiritual” de Vladimir Putin, são muito bem delineados, oferecendo-nos um retrato nítido do caldo cultural, relacional e institucional que possibilitou o aparecimento do Chega.
Também Ventura é colocado no divã e o seu trajeto suburbano, banalíssimo, sujeito a escrutínio. A sua história na freguesia de Algueirão-Mem Martins, Sintra, diz-nos Miguel Carvalho, “é a de um rapaz pacato de periferia, de raiz pequeno-burguesa, a quem a família pagava os estudos com dificuldade” (p. 60), filho de um ex-combatente na guerra colonial, que geria uma mercearia, e de uma secretária administrativa, depois doméstica; todos coabitando num lar onde abundavam livros sobre salazarismo e o pós-revolução.
Benfiquista inveterado, ocasional e dissimulado fumador de haxixe, vítima de bullying na escola, acabaria por descobrir Deus aos catorze anos, revelando um perfil obsessivo e fundamentalista habitual em convertidos tardios. Segue-se uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde despontam, por um lado, o seu carácter camaleónico e, por outro, um certo “oportunismo” que talvez possa ser sociologicamente associado ao alpinismo social que caracteriza a pequena burguesia em ascensão4. Seria um dos melhores alunos de sempre da Nova, terminando o curso com 19 valores, seguindo-se, a partir de 2008, uma estada em Cork, onde faz o seu doutoramento e nele cita extensivamente Boaventura de Sousa Santos, figura cimeira da teoria social crítica. De permeio, ensaia uma incursão como romancista publicando A Última Madrugada do Islão, obra que seria objeto da crítica literária do Jovem Conservador de Direita, para quem se tratava de “uma espécie de thriller erótico-político com a qualidade literária de uma ata de condomínio. O ‘50 sombras de Maomé’ que ninguém pediu” (p. 78). De regresso a Portugal, primeiro, torna-se inspetor da Autoridade Tributária, depois, apadrinhado por Jorge Bacelar Gouveia, converte-se em professor na Universidade Autónoma de Lisboa, tendo como assistente o deputado Rodrigo Taxa. Toda esta densa trama e o modo como o Ventura messiânico e camaleónico foi urdindo as suas redes de capital social, nas imediações de vários tipos de poderes (jurídico, económico-empresarial, do “comentariado” futebolístico, mediático, etc.), onde, entre outras, pontificam destacadas figuras da extrema-direita bombista hoje convertidas em ilustres democratas, como José Manuel Júdice ou Diogo Pacheco de Amorim. Daí até ao ato “ciganófobo” falhado de 2017 em Loures, já com Ventura no PSD, à inspiração evangélica e bolsonarista, pouco depois, ou à falsificação de assinaturas que viria a ameaçar o registo do Chega enquanto partido político, foi um saltinho.
Desta fase formadora, aquilo que resulta claro é que as pessoas que no Chega procuraram infundir alguma espessura e consistência ideológica ao projeto político acabaram, quase todas, empurradas ou convidadas a sair. O importante foi promover um projeto de poder pessoal onde sempre imperou a navegação à vista. Impressiona também o modo como o WhatsApp é utilizado como suporte para a reflexão coletiva e o Facebook constitui uma plataforma sem a qual não haveria Chega como, de resto, concede uma das pessoas entrevistadas no livro5. Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas. Naturalmente, não prescindindo de financiamento mais ou menos expressivo proveniente de diversas personalidades das elites económicas e empresariais portuguesas: Pedro José de Mello, Mafalda Champalimaud e Miguel Sommer Champalimaud, Francisco Van Uden, Salvador Posser de Andrade, Francisco Cruz Martins, Anthony Stilwell, entre outros. E todo este contexto, permitiu seduzir aquilo a que Miguel Carvalho chama “liga de esquecidos”.
O livro explora também as ligações mais ou menos obscuras do Chega com famílias de “privilegiados do antigo império” (p. 343), burgueses poderosos ligados à escravatura, ao colonialismo, à ditadura fascista do Estado Novo e à guerra colonial como, por exemplo, a família de João Maria Bravo, cuja fortuna começa a ganhar forma no negócio do tabaco, ainda no século XIX, no Brasil; de Miguel Félix da Costa, ligado à filial portuguesa da multinacional Castrol, mas também com participações no imobiliário de luxo, hotelaria e turismo; de Paulo Côrte-Real Mirpuri, que liderou a Air Luxor e tem negócios na aviação, imobiliário, florestas, agricultura e saúde; de Jorge Ortigão Costa, presidente da holding alimentar Sogepoc, e muitos outros. Trata-se, naturalmente, da fina flor da fidalguia lusitana. O facto de todos serem reconhecidos por três nomes é, em si mesmo, um marcador de distinção social. Modos de dizer, categorizar e nomear são tudo menos neutros6.
Provavelmente, é o partido político que melhor soube e sabe capitalizar as redes sociais e cavalgar paranoias algorítmicas.
Também a este respeito, impera alguma diversidade: “baronesas, condes, advogados, figuras da alta finança, gestores de fundos imobiliários, empresários de sucesso, membros de movimentos ultracatólicos, salazaristas convictos e descendentes de admiradores do nazismo, o rol de financiadores ocasionais ou habituais do Chega assemelhava-se a uma grande família onde cada um dava o que podia” (p. 350). Daqui resulta que a pátria do Chega é verdadeiramente o vil metal e a noção de que se trata de um partido antissistema não podia estar mais distante da realidade material que o sustenta.
Descreve-se com grande minúcia o tristemente célebre segundo congresso do Chega, realizado em Évora no final de 2020, num capítulo sugestivamente intitulado “Bem-vindos ao lodo”, onde o conspiracionismo à la QAnon7, as ameaças grotescas entre militantes, os golpes palacianos e as lutas intestinas pelo poder tiveram rédea-solta, e onde tudo se podia dizer. Perder-se-iam milhares de militantes e a imagem do Chega passaria a ser a de uma turba ululante. Patrícia Sousa Uva acrescenta: “somos a maior fraude da história da política portuguesa. Fazemos cá dentro tudo o que dissemos que íamos combater” (p. 405). Mais adiante, Carlos Furtado, deputado eleito em 2020 nos Açores, assegura: “O Chega não é conservador, nem de extrema-direita, mas sim de extremo oportunismo” (p. 417).
O modo como o PSD, por intermédio do seu líder de então, Rui Rio, contribuiu para legitimar e normalizar o Chega gerou alguma celeuma junto de destacadas figuras do partido, como Rui Machete, Pacheco Pereira, Jorge Moreira da Silva ou Teresa Leal Coelho, mas, paulatinamente, foi-se impondo, com a anuência de “barões” como Mota Amaral, Manuela Ferreira Leite e Pinto Balsemão. No que toca à sua afirmação na paisagem política portuguesa, o acordo entre PSD e Chega nos Açores, em 2020, acabaria por ter um desfecho favorável. Mais recentemente, a coligação AD liderada por Luís Montenegro, formalizaria acordos parlamentares sobre o IRS, as restrições à imigração e à obtenção da nacionalidade. Das cercas sanitárias ao “não é não”, tudo isso foi borda fora. Afinal de contas, o poder é a alma do negócio e a direita, ao contrário da esquerda, sempre foi mais psicótica do que neurótica.
A implantação autárquica do Chega, primeiro em 2021 e, depois, em 2025, também demonstra que o seu processo de expansão é mais complexo e ziguezagueante do que parece. Miguel Carvalho demonstra, com recurso a evidências muito sólidas, que os quadros são recrutados sem quaisquer critérios mínimos de qualidade ou competência, levando a inúmeras situações caricatas de desistência, abandono, mas também à incorporação nas estruturas do partido de delinquentes e criminosos. Neonazis, extremistas de direita radical, teóricos da conspiração e fervorosos prosélitos de vários credos, inclusive do Opus Dei e da maçonaria, sentem-se atraídos pelo partido. Não surpreende, pois, que uma personalidade como Gabriel Mithá Ribeiro, que parece ter feito um esforço honesto para densificar ideologicamente o partido, acabasse – também com um “empurrãozinho” deste Por Dentro do Chega – por abandoná-lo. Tal como escreveu Isabela Figueiredo, sua colega na Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e, tal como Mithá, nascida em Moçambique, “O Gabriel pode não ser solidário, mas é um intelectual, reto, profundamente educado. No Chega ele parecia-me uma célula anómala. Nunca compreendi8“.
Por sua vez, o eleitorado do Chega caracteriza-se por uma excessiva credulidade relativamente a quaisquer conteúdos ou “factos alternativos”, isto é, ausência ou desvalorização de qualquer ceticismo ou pensamento crítico, consumos de informação pobres assentes em tabloides e entretenimento. Tendencialmente, são jovens do sexo masculino, religiosos e rurais ou, diria eu, reféns de mentalidades algo provincianas, com pouco mundo e sem grande espessura ou curiosidade intelectual. Henrique Raposo, escritor católico de direita, citado no livro, põe as coisas em perspetiva afirmando que: “hoje em dia, as pessoas são átomos separados e não têm um sentido de corpo, um sentido de comunidade” (p. 657). Para muitas delas, vítimas da atomização inscrita nos seus corpos e mentes no quadro da hegemonia neoliberal, o Chega tem funcionado como um verdadeiro íman. Gente que por se sentir devastada sente um desejo profundo de destruir os outros.
Miguel Carvalho aborda também a proposta de criação de uma nova central sindical para ombrear com CGTP e UGT, feita por Lucinda Estrela, num congresso em 2021, que seria recebida com enorme acrimónia. Curiosamente, um ano volvido, Ventura anunciaria publicamente a criação do Solidariedade (apelando à memória do sindicato polaco antissoviético liderado por Walesa e financiado pela CIA). Passaram quatro anos e nada. Pura navegação à vista. O que interessa é ocupar tempo de antena e, para o Chega, o vale-tudo não é só uma arte marcial, é uma forma de estar na política. Por isso, não surpreende que atraia oportunistas e alpinistas sociais como, por exemplo, Paulo Ralha que andou pelo PS, passou pelo BE, navegou nas águas do Congresso Democrático das Alternativas, foi dirigente no Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos e acabaria candidato à Câmara de Barcelos pelo Chega, em 2025. Como afirmava Riccardo Marchi, citado por Miguel Carvalho, o Chega é “um saco de gatos com gente de todos os lados” (p. 600).
A capacidade de penetração do Chega nas forças de segurança, junto dos profissionais da GNR e da PSP no ativo, mesmo estando estes legalmente impedidos de se filiar em partidos políticos, mostra também quão fértil estava já este terreno. O aspeto mais preocupante retratado por Miguel Carvalho é o facto de, contrariamente à narrativa dominante, as afinidades com o Chega não traduzirem tanto a existência de “maçãs podres” ou casos excecionais, mas sim um quadro sociológico global bastante alinhado com o discurso do partido. Parece existir uma espécie de submundo policial e militar onde a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e o ódio, sobretudo a coberto do anonimato das redes sociais, atingem um nível desmedido. A este respeito, aliás, menciona-se um tal Manuel C., agente do Comando Distrital de Évora da PSP que, em 2022, coordenava as concelhias do Chega no Alentejo.
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O Alentejo surge, aliás, várias vezes ao longo do livro, ainda que de modo mais desenvolvido quando se descreve o trabalho de campo realizado em Moura. E não é difícil perceber porque é que isto acontece. Hoje, o Alentejo constitui o melhor exemplo daquilo que se tem vindo a designar como “left-behind places9” ou geografias do ressentimento10, isto é, territórios que experienciam vários mecanismos que são percecionados como configurando situações de abandono. Desde o encerramento de serviços públicos, escolas primárias, farmácias, postos dos correios, agências bancárias e até caixas multibanco, passando pela reorganização administrativa que fundiu freguesias e aumentou as distâncias aos centros de poder local, até ao número muito reduzido de deputados eleitos pela região do Alentejo e a grande distância simbólica a Lisboa, que parece desprezar e ignorar a região, mas também o envelhecimento e o despovoamento, os baixos salários, a precariedade ou o empobrecimento, são muitos os motivos para que o desencanto e a falta de perspetivas de futuro se instalem, cresçam o ressentimento e a raiva. A tudo isto acresce a recente dinâmica migratória – marcada pela chegada de imigrantes provenientes de países terceiros, naturalmente, porque os “expats” nunca são um problema –, que, juntamente com as comunidades portuguesas de etnia cigana, constituem aquele “outro11” de que nos fala a teoria pós-colonial, que foi sempre instrumentalizado como bode expiatório.
Isto não significa, contrariamente ao que muitos dizem, que exista uma transferência maciça de votos diretos do PCP para o Chega, por exemplo. Isso é uma simplificação excessiva fruto de uma metodologia deficiente em que se fixa o espaço geográfico de referência – o Alentejo – e se fazem variar os resultados eleitorais, sem considerar as modificações na composição sociodemográfica do eleitorado que resultam da passagem do tempo. Para simplificar, aquilo que provavelmente sucede no Alentejo é a existência de uma modificação intergeracional do padrão de voto, isto é, avós e pais comunistas têm agora filhos e netos que votam Chega. Miguel Carvalho tem o cuidado de nunca cometer este erro de análise, tão comum no “comentariado” nacional, mencionando até um trabalho de investigação que demonstra que, sobretudo nas freguesias rurais do Sul, foi o PS a força política que transferiu mais eleitorado para o Chega12.
Por Dentro do Chega é, pois, uma obra fundamental para compreender a atualidade, perceber como aqui chegámos e começar a ganhar balanço para construir um futuro em que a verdade e a mentira não sejam sinónimos e em que possamos todos parar para pensar, sem sermos levados no fluxo torrencial de desinformação e pós-verdade com que somos diariamente inundados e que o Chega cavalga com mestria. A saturação permanente do espaço digital, o controlo da economia política da atenção, permite manipular as perceções, alimentar vieses cognitivos e, parafraseando Gilles Lipovetsky, criar uma espécie de Era do Vazio13, de que se alimenta o Chega.
Tratando-se de uma obra colossal, por vezes quase colapsa sob o peso imenso das fontes mobilizadas. Consegue aguentar-se porque a abordagem é ágil, simples e direta. São episódios, recortes, narrativas curtas, pequenos contos, que nos transportam para este mundo tão peculiar, sem exaltação de virtude, superioridade moral ou sobranceria. Ainda assim, a inclusão no livro de um esquema ou árvore de ligações articulando os vários protagonistas identificados, um guia visual para a navegação, teria sido vantajoso para o leitor interessado. Quanto mais não seja, para se perceber melhor o modo como o Chega não passa de uma grande família, onde o nepotismo e o tráfico de influências são tão ou mais comuns do que nos partidos que diaboliza.
Percebemos também que o Chega, partido neofascista ou pós-fascista, na terminologia de Enzo Traverso14, não concebe a incoerência programática ou a indefinição ideológica como problemas. Existe intencionalidade na ambiguidade estratégica adotada e no reconhecimento de que tudo deve estar subordinado a uma lógica de ação. Há 100 anos, o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, num texto intitulado “Mussolini e o fascismo”, escreveu: “O programa do fascismo é confuso, contraditório, heterogéneo: contém conceitos liberais e conceitos sindicalistas. Melhor dito, Mussolini não deu ao fascismo um verdadeiro programa, deu-lhe um plano de ação15“.
O que este Por Dentro do Chega sugere é que Ventura lidera o plano de ação do fascismo para Portugal e o Chega é o seu instrumento. A resposta, afirma Miguel Carvalho, poderá passar por escutar e dialogar com a geografia eleitoral do Chega para a resgatar do extremismo, reconstruir o valor da palavra dada e da promessa cumprida, explorar as infinitas possibilidades do encontro com o “outro”, o estranho, o diferente. É preciso cultivar bondade, generosidade e empatia. Para começo de conversa, não está nada mal.
Letra do single “Danúbio” que integra o álbum “Um gelado antes do fim do mundo” (2025).
Engenheiro, professor de Matemática, fundador da Juventude Socialista em Seia, posteriormente militante do PSD, incendiário das redes sociais e agora deputado eleito na AR pelo Chega.
Ficamos a saber que O fim do Estado Novo e as origens do 25 de Abril (1995) é um dos livros de cabeceira de André Ventura.
Processo retratado em obras literárias como Regresso a Reims de Didier Eribon, Os Anos de Annie Ernaux ou Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule de Édouard Louis.
5.Trata-se de Patrícia Sousa Uva, “mandatária nacional da candidatura presidencial de Ventura quando se demitiu” (p. 400).
Ver, por exemplo, o dossiê "Outros nomes, histórias cruzadas: os nomes de pessoa em português", publicado sob direção de João de Pina-Cabral, na revista Etnográfica, n.º 12(1), disponível em: https://journals.openedition.org/etnografica/1583 ou a obra seminal O que Falar Quer Dizer (Bourdieu, 1988).
Teoria da conspiração de extrema-direita, surgida em 2017, nos Estados Unidos, segundo a qual existiu uma cabala de esquerda, constituída por adoradores de Satanás, pedófilos e canibais, que dirigiu uma rede global de tráfico sexual de menores, e conspirou contra Donald Trump durante o seu primeiro mandato presidencial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/QAnon.
Ver Rodríguez-Pose, Terrero-Dávila e Lee (2023) Left-behind versus unequal places: interpersonal inequality, economic decline and the rise of populism in the USA and Europe. Journal of Economic Geography, 23, 951-977.
Ver Madeira, Silva e Malheiros (2021) A geografia da direita nacionalista em Portugal: contornos de um processo emergente. Cad. Metrop., São Paulo, 23(51), 469-498.
Conceito central para a reflexão pós-colonial, o “outro” é objeto de discussão aprofundada em obras Postcolonialism (Jazeel, 2019) ou Geographies of Postcolonialism: Spaces of Power and Representation (Sharp, 2009).
Ver Magalhães e Cancela (2025) Political neglect and support for the radical right: The case of rural Portugal. Political Geography, 116, 103224.
Em A Era do Vazio: Ensaios sobre o Individualismo Contemporâneo (2013), Gilles Lipovetsky aborda o processo de individualização das sociedades ocidentais contemporâneas, nas quais o narcisismo e formas quási-niilistas de hedonismo emergem como atributos definidores dos sujeitos.
Ver As Novas Faces do Fascismo: Populismo e a Extrema Direita (Traverso, 2024).
“Só tenho uma palavra, só tenho uma linguagem, a do revolucionário; é a língua que falo nas reuniões populares, é a língua que usarei com os aliados e os Alemães.”
Lev Trotsky
A I Guerra Mundial ceifava milhões de vidas de soldados e civis nos campos de batalha europeus e africanos quando uma revolução socialista se deu no país no qual durante décadas a ortodoxia marxista afirmou ser impossível: a Rússia. A Revolução de Outubro de 1917, a primeira revolução socialista, abalou os alicerces nos quais a classe dominante assentava o seu então sacrossanto poder político e económico. Uma nova esperança nasceu para milhões de trabalhadores pelo mundo fora. Um dos grandes responsáveis por esse abalo que mudou para sempre a História do século XX foi, a par de Vladimir Ilitch Lenine, Lev Trotsky.
Os meses de interregno entre a Revolução de Fevereiro, que depôs o czar Nicolau II, dando origem a uma explosão de alegria e esperança no país, e a de Outubro foram palco de um verdadeiro surto de democracia popular nas ruas de Petrogrado, hoje São Petersburgo. “Como em toda a revolução, a massa, a maré humana, está no centro dos eventos e invade o espaço”, assim descreveu Michel Löwy esses meses revolucionários no livro Revoluções. “As fotos das assembleias de massa em Petrogrado […] são um testemunho da efervescência da sociedade civil ao longo desse ano extraordinário. Revelam a aprendizagem da democracia, no fogo da ação, por operários e camponeses que, livres de um só golpe de um jogo social e político esmagador, se descobrem sujeitos da história.”
O revolucionário Lev Trotsky, conhecido pela sua eloquente e acutilante oratória, despertando os mais profundos sentimentos entre quem o escutava, fossem de apoio ou de repúdio, foi um dos principais atores históricos desse período, sendo uma das presenças mais assíduas nas tribunas populares. Usava os seus talentos para criticar duramente os adversários, para explicar as suas posições políticas e, também, para justificar as decisões do Conselho dos Comissários do Povo, no qual assumiu desde logo as funções de Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros. E uma das suas primeiras decisões diplomáticas, três semanas depois de os bolcheviques conquistarem o poder e enquanto delineavam a estratégia para alcançar finalmente a paz, foi a divulgação de todos os tratados e documentos secretos dos governos czarista e provisórios com os aliados da Entente. Trotsky só tinha uma palavra, a do revolucionário.
O responsável pela diplomacia do novo poder socialista argumentou, no decreto que autorizou a divulgação, que “o imperialismo, com os seus planos mundiais de anexação, as suas alianças e maquinações vorazes, desenvolveu o sistema de diplomacia secreta ao mais alto grau” e que a sua abolição é “elemento essencial de uma política externa honrada, popular e verdadeiramente democrática”. O socialismo de Trotsky e de Lenine era obrigatoriamente internacionalista, e a Revolução tinha de se expandir para o resto do mundo, principalmente para a Europa Central, pois o socialismo não poderia existir num só país, iria gangrenar.
Vinte e dois anos depois da revelação desses tratados secretos, em 1939, o regime socialista fundado por Lenine estava irreconhecível sob a mão termidoriana de Josef Estaline, cuja argúcia Trotsky desvalorizou, um dos grandes erros da sua vida. A democracia socialista tinha então sido esmagada, os bolcheviques que lideraram a Revolução de Outubro e o Exército Vermelho contra os brancos e os exércitos estrangeiros estavam mortos, presos ou no exílio, a mão totalitária do ditador tudo decidia e ordenava, apoiada por uma burocracia que, sustentada pela polícia política, sufocava toda a vida política, social e cultural. A burocracia, uma excrescência parasitária dentro de um Estado operário, tinha ascendido ao poder com a contrarrevolução do Termidor soviético: a propriedade dos meios de produção era estatal, mas a classe trabalhadora não controlava o Estado.
Sob Estaline, a política externa soviética deixou de ter a revolução mundial socialista como objetivo, passando a defender e a justificar a doutrina do socialismo num só país, ou seja, a manutenção dos privilégios da burocracia, por si representada, como se fosse um novo Napoleão Bonaparte, entrando no jogo imperialista com as potências capitalistas. Se Trotsky revelou tratados secretos com potências capitalistas que dividiam territórios entre si, Estaline assinou, depois de ter dizimado em julgamentos fantoche as altas chefias militares soviéticas, um tratado com a Alemanha Nacional-Socialista, dividindo a Polónia entre si, com o Pacto Germano-Soviético. Um pequeno exemplo do abismo que separa o estalinismo do marxismo revolucionário.
Os marxistas revolucionários, os descendentes do pensamento de Trotsky, ainda hoje se confrontam com a amálgama, propalada por quem vê no socialismo a mais séria e verdadeira ameaça aos seus privilégios, entre estalinismo (ou o “socialismo realmente existente”) e a ideia de comunismo, sendo necessário, como defendeu Daniel Bensaïd em Trotskismos, “libertar os vivos do peso dos mortos, e virar a página das desilusões”. Foi precisamente esse combate que norteou a segunda parte da vida de Trotsky, já depois da morte de Lenine e da ascensão ao poder de Estaline e do centralismo burocrático que deformou o primeiro Estado operário e a internacional comunista: continuar a batalhar por um socialismo internacionalista.
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A vida de Trotsky está marcada por um sucedâneo de contribuições essenciais para o desenvolvimento do pensamento e práticas marxistas (teoria do desenvolvimento desigual e combinado, revolução permanente, teoria do fascismo e da estratégia da frente única, programa de transição, só para elencar as mais importantes), de escrita constante (com a sua clássica pena aguçada, onde as palavras trespassam a paixão que acompanha o combate político) e de batalhas pelo socialismo em que acreditava, sem nunca capitular perante a paralisia, o comodismo ou o oportunismo. Esta sua grande batalha contra o estalinismo está bem espelhada na sua autobiografia A Minha Vida, escrita entre 1929 e 1930, aquando do seu terceiro exílio forçado, desta vez por ordem de Estaline, na ilha de Büyükada (Prinkipo), perto de Istambul. Trotsky foi um dos mais importantes revolucionários e intelectuais marxistas do século XX e foi perseguido e assassinado por Estaline por ser uma séria ameaça ao seu poder na União Soviética com o início do cataclismo da II Guerra Mundial.
“Nos últimos anos, a GPU [a secreta soviética] destruiu muitas centenas de amigos meus, incluindo membros da minha família na União Soviética. Em Espanha, mataram o meu antigo secretário Erwin Wolf e vários dos meus companheiros de reflexão política; em Paris, mataram o meu filho Lev Sedov, que os assassinos profissionais de Estaline perseguiram durante dois anos. Em Lausanne, a GPU matou Ignace Reiss, que tinha deixado a GPU e aderido à IV Internacional. Em Paris, os agentes de Estaline assassinaram outro dos meus antigos secretários, Rudolf Klement, cujo corpo foi encontrado no Sena com a cabeça, as mãos e as pernas cortadas”, escreveu Trotsky duas semanas depois de uma primeira tentativa de assassinato no México, em maio de 1940. “Esta lista poderia continuar interminavelmente”, continuou, vaticinando linhas abaixo: “A repetição da tentativa é inevitável”. Estaline tentou, durante anos, destruir política e moralmente Trotsky, mas falhou. Era, então, na lógica estalinista, necessário eliminar fisicamente o seu maior adversário, precisamente quando encetava a empreitada de escrever a biografia do principal coveiro da revolução.
As perseguições tinham começado anos antes, a par e passo com a concentração de poder de Estaline, e a resposta de Trotsky não se fez esperar. Derrotada a Oposição de Esquerda, em 1927, nos três anos seguintes viveu-se o aprofundar do terror termidoriano: a campanha contra o fundador do Exército Vermelho atingia um novo auge na União Soviética e a polícia secreta perseguia os bolcheviques aliados de Trotsky, aprisionando, torturando e assassinando-os nos seus calabouços. Trotsky, que continuava a ter grande influência no movimento comunista internacional, sentiu então que era necessário contra-atacar, destruindo os argumentos e acusações estalinistas que, receava, pudessem contagiar a História da Revolução e os consequentes embates políticos: as deturpações do marxismo e do socialismo não poderiam vingar.
Daí que esta obra seja mais que uma autobiografia, é um ajuste de contas do mais puro combate político em que a principal arma do revolucionário é a verdade, alicerçada num sólido arquivo (excertos de notícias, decretos, correspondência pessoal). É a afirmação do pensamento e da prática marxistas como Trotsky as encara, de como se juntou às fileiras marxistas, como liderou o soviete de Petrogrado de 1905, como participou nos debates teóricos marxistas mais importantes, como lidou com os sucessivos exílios e sacrifícios pessoais que a luta pela revolução lhe exigia. É, também, uma análise autocrítica dos principais momentos que culminaram na Revolução de Outubro, na vitória na Guerra Civil Russa e na ascensão do Termidor Soviético.
Mas é também uma obra incompleta. Foi escrita dez anos antes de o revolucionário ser assassinado a mando de Estaline no México, a 21 de agosto de 1940. A autobiografia não aborda o seu restante exílio (Noruega e México), a sua análise sobre o nazismo, os erros políticos do Partido Comunista Alemão em impedir a sua ascensão, a degenerescência e os ziguezagues oportunistas da Internacional Comunista e a formulação da estratégia de frente única, em oposição à frente popular estalinista. Nem se debruça sobre a guerra civil espanhola e, mais uma vez, sobre os erros do estalinismo para impedir a vitória do franquismo. Fenómenos que culminaram na II Guerra Mundial e, para Trotsky, impunha-se, logo em 1938, a questão: o que fazer no contexto de mais uma guerra mundial imperialista? A sua resposta foi a fundação da IV Internacional com a elaboração do Programa de Transição, que também não são abordados nesta obra.
Esta autobiografia é uma pequena grande janela para a vida e pensamento de Trotsky contados pelo próprio, é um documento histórico que vale por si só, mas é também apenas isso mesmo, uma pequena grande janela, um vislumbre para a sua personalidade, falhas (e erros cometidos) e pensamento. A obra de Trotsky é extensíssima, começando desde logo pelas suas principais obras teóricas (Balanço e Perspectivas, Revolução Permanente, Programa de Transição) e pela sua gigante (em tamanho, pormenor e qualidade) História da Revolução Russa, sem esquecer os seus inúmeros compêndios de escritos políticos. O historiador polaco Isaac Deutscher escreveu a biografia mais completa e fidedigna de Trotsky, indo mesmo além da sua vida para contar pormenorizadamente a história do movimento revolucionário russo e da Revolução Russa, composta por três volumes – O Profeta Armado (1879-1921), O Profeta Desarmado (1921-1929) e O Profeta Banido (1929-1940) – e arrisco-me a dizer que, se hoje fosse acrescentado um quarto volume, teria como título O Profeta Esquecido.
Há mais de cinco décadas, os livros de Trotsky começaram a entrar, clandestinamente, em Portugal nas malas de carro de um reduzido grupo de jovens de Coimbra, Porto e Lisboa que viajavam até França para saberem mais sobre a situação política internacional. Politizados pela resistência à Guerra Colonial, pelo Maio de 1968 e pela invasão da Checoslováquia em 1968 pela União Soviética, estes jovens estabeleceram contactos políticos com trotskistas franceses, espanhóis, entre outras nacionalidades, e, depois, formaram-se os Grupos de Ação Comunista (GAC), de discussão e agitação, em Lisboa, Porto e Coimbra. Começaram-se a editar, devagarinho, livros de Trótski. Em 1973, nasceu o primeiro partido trotskista português, a Liga Comunista Internacionalista (LCI), que em 1978 se fundiu com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) dando origem ao Partido Socialista Revolucionário (PSR). Uma editora foi fundada, a Antídoto (o seu nome foi inspirado num dos pseudónimos de Trotsky: Antid Oto), afeta ao partido e dedicada a difundir o pensamento do revolucionário russo. O fundador e editor da Antídoto, João Cabral Fernandes, abandonou a política ativa em 1982 e a editora encerrou portas, deixando muito por publicar. Procurar, hoje, livros de Trotsky (e de outros trotskistas, como Ernest Mandel) é sinónimo de percorrer, minuciosamente, lombadas em estantes cheias de velhos e amarelados livros em alfarrabistas, sabendo que cada nova descoberta é uma relíquia a agarrar de imediato.
Noventa e cinco anos depois da primeira edição de A Minha Vida, a sua edição portuguesa chega pela primeira vez às livrarias em Portugal. É editada quando nos é mais fácil imaginarmos o fim do mundo do que uma alternativa socialista ao capitalismo neoliberal mais selvagem, quando a necropolítica canibaliza todas as vertentes do nosso dia-a-dia – o trabalho, as relações pessoais e comunitárias e o pensamento crítico – sem que o sistema consiga aumentar a taxa de acumulação capitalista, entrando em crise. A austeridade permanente (e a reconfiguração securitária do Estado) que sofremos há mais de uma década, a reemergência da extrema-direita, os sucessivos ataques aos direitos mais elementares dos trabalhadores, o aprofundamento dos choques inter-imperialistas entre as principais potências mundiais e, agora, o acelerar do rearmamento da Europa são sintomas de mais uma crise histórica do sistema capitalista.
Esta crise histórica evoca alguns dos dilemas enfrentados pelos revolucionários marxistas na primeira metade do século XX. Como enfrentar a extrema-direita? Como nos poderemos opor às guerras imperialistas lutando pela autodeterminação dos povos e pela paz? Como podemos construir uma alternativa e uma coligação popular alargada contra o capitalismo mais selvagem? São tantas as perguntas e tão poucas as respostas. Daí a necessidade de se procurarem pistas nas experiências de outros revolucionários. Porque a herança das resistências é vasta, mesmo que as tentem apagar da nossa memória coletiva. A vida de Trotsky é uma dessas resistências. É um testemunho de coragem, lucidez e sacrifício por uma causa maior: o socialismo.
O livro Semeador de Palavras – entrevistas a José Afonso, edição da AJA – Associação José Afonso, organizado por Ana Ribeiro, Guadalupe Portelinha e José Rodrigues é um libelo contra o esquecimento, uma luta pela memória, e tem como propósito informar e esclarecer sobre o pensamento de José Afonso, através das suas palavras, que tocam os mais variados temas, enriquecendo o seu legado e a nossa herança cultural.
José Afonso tem-nos seduzido e emocionado com a sua arte maior, legando-nos uma obra de enorme valor artístico e humano. Mas sabemos que por detrás da obra está o homem com uma biografia e um pensamento, independente das histórias que narra nas canções, mas seguramente com muitos pontos em comum. Nestas entrevistas (cerca de 100) revela-se em toda a sua grandeza e simplicidade e ficamos com uma melhor compreensão da obra criada, que necessariamente o envolveu e da qual não podia dissociar-se, mas também um melhor entendimento desse tempo em que foi um protagonista activo.
José Afonso foi um semeador de palavras com causas e luta dentro e tentou sempre espalhar as sementes para que criassem raízes. Como alguém disse, “sementes de raiva e amor”. Canta numa das suas canções: “semear a palavra, para romper e crescer como baleia/ Plantei a semente da palavra/ Antes da cheia matar o meu gado/ Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita num terreno ao lado/ A palavra rompeu/ Cresceu como a baleia/(…)”. E as suas palavras têm sido ouvidas, colhidas, guardadas como tesouros ou cantadas como hinos e voltadas a semear não só em Portugal como em várias partes do mundo.
Com esta pesquisa, recolha e publicação de entrevistas e declarações à Imprensa, nacional e estrangeira, que José Afonso foi dando ao longo da vida, consideramos que estamos a prestar um serviço público, dando a conhecer melhor o homem por detrás das canções. E assim partimos ao encontro desse homem excepcional que marcou e contribuiu para a cultura deste país com a sua arte, baseada num profundo humanismo e enorme talento poético e musical. Pretendemos desvendar e confirmar o seu percurso, apresentar este ser humano na primeira pessoa e, de viva voz, sem interpretações ou suposições, revelar o seu pensamento, opções, concepção e visão do país e do mundo – que ele foi transmitindo pelas canções e poemas que eram o palco primordial onde exibia o seu teatro de vida, mas agora colocados de outra forma, falados directamente para os entrevistadores – para nós! Na verdade, não encontramos aqui as palavras transformadas em poemas e canções que tanto nos encantam e emocionam, mas, e não menos emocionante, confrontamo-nos com o ser em toda a sua humanidade, na simplicidade do dia-a-dia, com o seu sentido de humor, alguma alegria e muito da sua mágoa, revolta, desilusão. Esta obra reforça esse olhar de homem comprometido com o seu tempo, envolvido em lutas com causas e ideais dentro, que tem de confrontar-se com aspectos práticos de sobrevivência. É chocante, por exemplo, ler que houve um tempo em que passou fome. É muito confrangedor, pungente mesmo, porque sabemos o desfecho, ouvir a sua voz falar da esperança de recuperação da doença fatal, e por momentos quase vibramos com o seu entusiasmo pela cura. É com muita incredulidade que o ouvimos dizer que o desporto lhe deu mais alegrias do que as canções alguma vez lhe proporcionaram ou que teve experiências muito mais bonitas como professor do que como cantor. E mais surpreendente ainda, quando afirma que não gosta de cantar. Neste livro/documento há, pois, situações, afirmações inusitadas que nos criam perplexidade, apreensão e emoção. Engane-se, por exemplo, quem afirme que José Afonso gostava mais deste ou daquele disco. Ele vai mudando de opinião conforme o tempo em que foi interrogado, pressinto que conforme as mensagens que quer que os discos transmitam naquele momento. Muitas vezes nas suas falas sentimos o arauto, o aviso, a consciência quanto ao que pode acontecer em sentido contrário ao seu pensamento, neste país que viveu uma esperança e um júbilo sem paralelo. Soam-nos premonitórias certas palavras, neste tempo ácido, onde focos infecciosos de neofascismos estão a impor-se no mundo. Há vários exemplos que nos desafiam, pelo que a leitura deste Semeador de Palavras nunca se torna monótona, antes carrega constantes novidades. A certa altura sentimo-nos dentro do texto, também nós com a cabeça cheia de perguntas, perante a sua voz viva, mensageira de utopia.
Nesta obra lê-se a história de um homem grande, dada a conhecer graças às pessoas que o entrevistaram. Para elas o nosso agradecimento.
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