Jornal Maio

Uma história alentejana

Pouco depois do 25 de Abril, diz o texto de contracapa deste romance de Carlos Campaniço, “os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas”. Em Aldeia Velha, que poderia ser a Safara natal do autor, no concelho de Moura, ou alguma outra aldeia do Alentejo, onde decorre a ação deste romance, “a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da guerra colonial e as novas liberdades trazidas pela revolução”.

 “Primeiro a Revolução; meses depois, uma autorização ministerial para ocuparem as terras de quem não as trabalhava. Houve euforia, era a força do povo, a justiça do povo, finalmente, tantos braços levantados; mas também houve medo, porque os que tinham terras e bens de repente se perguntavam porque lhes tiravam o que sempre fora seu. Muitas daquelas terras sempre estiveram nas famílias, e, além disso, eram obrigados a fugir levando as próprias vidas, carregando-as como malas de roupas incompletas (p. 23).”

Ao longo de 270 páginas vemos desfilar uma galeria de personagens: Zeferino Guedelha, antigo lavrador, expropriado com a reforma agrária. Tonico e Aurora, crianças criadas ao deus-dará, filhos do moleiro Adrião Lampreia e de Ana Maria, que o troca pela vida confortável ao lado de José Maria Falcão, latifundiário expropriado e ressentido. João Cotovio, que veio da guerra com stress pós-traumático – tinha “crises de nervos” e partia tudo o que tivesse à mão. A irmã deste, Marianita Cotovio, que regressa à terra vinda da capital, “prenha por todos os lados de onde se olhasse” e sem marido. O médico, doutor Francisco Geraldes, e a sua amante Tomásia Bicho. José Catarino, o presidente da junta, o padre Manuel Francisco, rapaz da terra, filho do “Carvoero”, de uma das famílias mais pobres da aldeia. E sobretudo Boca-Viúva – o carteiro, “negro como uma sombra dentro do seu casaco grosso, carregando a correspondência com um sofrimento que lhe mirrava os gestos. Parecia que todas as más notícias contidas nas cartas entravam nele e lhe faziam dano” – que estará no centro do enredo.

O tempo do romance vai muito além do período pós-revolucionário, acompanhando o fim da reforma agrária e dos sonhos que acalentou.

Carlos Campaniço nasceu na aldeia de Safara, no concelho de Moura, e aí viveu até ingressar na universidade, onde cursou Línguas e Literaturas Modernas. É mestre em Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo. Profissionalmente, é programador artístico. Publicou vários romances, entre eles Os Demónios de Álvaro Cobra (2013, vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada), Mal Nascer (2014, finalista do Prémio LeYa e vencedor do Prémio Mais Literatura promovido pela revista Mais Alentejo), As Viúvas de Dom Rufia (2016) e Velhos Lobos (2022).


Carlos Campaniço,
A Cinco Palmos dos Olhos
1.ª edição: Outubro de 2025
Casa das Letras | Grupo Leya

 

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