“Só tenho uma palavra, só tenho uma linguagem, a do revolucionário; é a língua que falo nas reuniões populares, é a língua que usarei com os aliados e os Alemães.”
Lev Trotsky
A I Guerra Mundial ceifava milhões de vidas de soldados e civis nos campos de batalha europeus e africanos quando uma revolução socialista se deu no país no qual durante décadas a ortodoxia marxista afirmou ser impossível: a Rússia. A Revolução de Outubro de 1917, a primeira revolução socialista, abalou os alicerces nos quais a classe dominante assentava o seu então sacrossanto poder político e económico. Uma nova esperança nasceu para milhões de trabalhadores pelo mundo fora. Um dos grandes responsáveis por esse abalo que mudou para sempre a História do século XX foi, a par de Vladimir Ilitch Lenine, Lev Trotsky.
Os meses de interregno entre a Revolução de Fevereiro, que depôs o czar Nicolau II, dando origem a uma explosão de alegria e esperança no país, e a de Outubro foram palco de um verdadeiro surto de democracia popular nas ruas de Petrogrado, hoje São Petersburgo. “Como em toda a revolução, a massa, a maré humana, está no centro dos eventos e invade o espaço”, assim descreveu Michel Löwy esses meses revolucionários no livro Revoluções. “As fotos das assembleias de massa em Petrogrado […] são um testemunho da efervescência da sociedade civil ao longo desse ano extraordinário. Revelam a aprendizagem da democracia, no fogo da ação, por operários e camponeses que, livres de um só golpe de um jogo social e político esmagador, se descobrem sujeitos da história.”
O revolucionário Lev Trotsky, conhecido pela sua eloquente e acutilante oratória, despertando os mais profundos sentimentos entre quem o escutava, fossem de apoio ou de repúdio, foi um dos principais atores históricos desse período, sendo uma das presenças mais assíduas nas tribunas populares. Usava os seus talentos para criticar duramente os adversários, para explicar as suas posições políticas e, também, para justificar as decisões do Conselho dos Comissários do Povo, no qual assumiu desde logo as funções de Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros. E uma das suas primeiras decisões diplomáticas, três semanas depois de os bolcheviques conquistarem o poder e enquanto delineavam a estratégia para alcançar finalmente a paz, foi a divulgação de todos os tratados e documentos secretos dos governos czarista e provisórios com os aliados da Entente. Trotsky só tinha uma palavra, a do revolucionário.
O responsável pela diplomacia do novo poder socialista argumentou, no decreto que autorizou a divulgação, que “o imperialismo, com os seus planos mundiais de anexação, as suas alianças e maquinações vorazes, desenvolveu o sistema de diplomacia secreta ao mais alto grau” e que a sua abolição é “elemento essencial de uma política externa honrada, popular e verdadeiramente democrática”. O socialismo de Trotsky e de Lenine era obrigatoriamente internacionalista, e a Revolução tinha de se expandir para o resto do mundo, principalmente para a Europa Central, pois o socialismo não poderia existir num só país, iria gangrenar.
Vinte e dois anos depois da revelação desses tratados secretos, em 1939, o regime socialista fundado por Lenine estava irreconhecível sob a mão termidoriana de Josef Estaline, cuja argúcia Trotsky desvalorizou, um dos grandes erros da sua vida. A democracia socialista tinha então sido esmagada, os bolcheviques que lideraram a Revolução de Outubro e o Exército Vermelho contra os brancos e os exércitos estrangeiros estavam mortos, presos ou no exílio, a mão totalitária do ditador tudo decidia e ordenava, apoiada por uma burocracia que, sustentada pela polícia política, sufocava toda a vida política, social e cultural. A burocracia, uma excrescência parasitária dentro de um Estado operário, tinha ascendido ao poder com a contrarrevolução do Termidor soviético: a propriedade dos meios de produção era estatal, mas a classe trabalhadora não controlava o Estado.
Sob Estaline, a política externa soviética deixou de ter a revolução mundial socialista como objetivo, passando a defender e a justificar a doutrina do socialismo num só país, ou seja, a manutenção dos privilégios da burocracia, por si representada, como se fosse um novo Napoleão Bonaparte, entrando no jogo imperialista com as potências capitalistas. Se Trotsky revelou tratados secretos com potências capitalistas que dividiam territórios entre si, Estaline assinou, depois de ter dizimado em julgamentos fantoche as altas chefias militares soviéticas, um tratado com a Alemanha Nacional-Socialista, dividindo a Polónia entre si, com o Pacto Germano-Soviético. Um pequeno exemplo do abismo que separa o estalinismo do marxismo revolucionário.
Os marxistas revolucionários, os descendentes do pensamento de Trotsky, ainda hoje se confrontam com a amálgama, propalada por quem vê no socialismo a mais séria e verdadeira ameaça aos seus privilégios, entre estalinismo (ou o “socialismo realmente existente”) e a ideia de comunismo, sendo necessário, como defendeu Daniel Bensaïd em Trotskismos, “libertar os vivos do peso dos mortos, e virar a página das desilusões”. Foi precisamente esse combate que norteou a segunda parte da vida de Trotsky, já depois da morte de Lenine e da ascensão ao poder de Estaline e do centralismo burocrático que deformou o primeiro Estado operário e a internacional comunista: continuar a batalhar por um socialismo internacionalista.
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A vida de Trotsky está marcada por um sucedâneo de contribuições essenciais para o desenvolvimento do pensamento e práticas marxistas (teoria do desenvolvimento desigual e combinado, revolução permanente, teoria do fascismo e da estratégia da frente única, programa de transição, só para elencar as mais importantes), de escrita constante (com a sua clássica pena aguçada, onde as palavras trespassam a paixão que acompanha o combate político) e de batalhas pelo socialismo em que acreditava, sem nunca capitular perante a paralisia, o comodismo ou o oportunismo. Esta sua grande batalha contra o estalinismo está bem espelhada na sua autobiografia A Minha Vida, escrita entre 1929 e 1930, aquando do seu terceiro exílio forçado, desta vez por ordem de Estaline, na ilha de Büyükada (Prinkipo), perto de Istambul. Trotsky foi um dos mais importantes revolucionários e intelectuais marxistas do século XX e foi perseguido e assassinado por Estaline por ser uma séria ameaça ao seu poder na União Soviética com o início do cataclismo da II Guerra Mundial.
“Nos últimos anos, a GPU [a secreta soviética] destruiu muitas centenas de amigos meus, incluindo membros da minha família na União Soviética. Em Espanha, mataram o meu antigo secretário Erwin Wolf e vários dos meus companheiros de reflexão política; em Paris, mataram o meu filho Lev Sedov, que os assassinos profissionais de Estaline perseguiram durante dois anos. Em Lausanne, a GPU matou Ignace Reiss, que tinha deixado a GPU e aderido à IV Internacional. Em Paris, os agentes de Estaline assassinaram outro dos meus antigos secretários, Rudolf Klement, cujo corpo foi encontrado no Sena com a cabeça, as mãos e as pernas cortadas”, escreveu Trotsky duas semanas depois de uma primeira tentativa de assassinato no México, em maio de 1940. “Esta lista poderia continuar interminavelmente”, continuou, vaticinando linhas abaixo: “A repetição da tentativa é inevitável”. Estaline tentou, durante anos, destruir política e moralmente Trotsky, mas falhou. Era, então, na lógica estalinista, necessário eliminar fisicamente o seu maior adversário, precisamente quando encetava a empreitada de escrever a biografia do principal coveiro da revolução.
As perseguições tinham começado anos antes, a par e passo com a concentração de poder de Estaline, e a resposta de Trotsky não se fez esperar. Derrotada a Oposição de Esquerda, em 1927, nos três anos seguintes viveu-se o aprofundar do terror termidoriano: a campanha contra o fundador do Exército Vermelho atingia um novo auge na União Soviética e a polícia secreta perseguia os bolcheviques aliados de Trotsky, aprisionando, torturando e assassinando-os nos seus calabouços. Trotsky, que continuava a ter grande influência no movimento comunista internacional, sentiu então que era necessário contra-atacar, destruindo os argumentos e acusações estalinistas que, receava, pudessem contagiar a História da Revolução e os consequentes embates políticos: as deturpações do marxismo e do socialismo não poderiam vingar.
Daí que esta obra seja mais que uma autobiografia, é um ajuste de contas do mais puro combate político em que a principal arma do revolucionário é a verdade, alicerçada num sólido arquivo (excertos de notícias, decretos, correspondência pessoal). É a afirmação do pensamento e da prática marxistas como Trotsky as encara, de como se juntou às fileiras marxistas, como liderou o soviete de Petrogrado de 1905, como participou nos debates teóricos marxistas mais importantes, como lidou com os sucessivos exílios e sacrifícios pessoais que a luta pela revolução lhe exigia. É, também, uma análise autocrítica dos principais momentos que culminaram na Revolução de Outubro, na vitória na Guerra Civil Russa e na ascensão do Termidor Soviético.
Mas é também uma obra incompleta. Foi escrita dez anos antes de o revolucionário ser assassinado a mando de Estaline no México, a 21 de agosto de 1940. A autobiografia não aborda o seu restante exílio (Noruega e México), a sua análise sobre o nazismo, os erros políticos do Partido Comunista Alemão em impedir a sua ascensão, a degenerescência e os ziguezagues oportunistas da Internacional Comunista e a formulação da estratégia de frente única, em oposição à frente popular estalinista. Nem se debruça sobre a guerra civil espanhola e, mais uma vez, sobre os erros do estalinismo para impedir a vitória do franquismo. Fenómenos que culminaram na II Guerra Mundial e, para Trotsky, impunha-se, logo em 1938, a questão: o que fazer no contexto de mais uma guerra mundial imperialista? A sua resposta foi a fundação da IV Internacional com a elaboração do Programa de Transição, que também não são abordados nesta obra.
Esta autobiografia é uma pequena grande janela para a vida e pensamento de Trotsky contados pelo próprio, é um documento histórico que vale por si só, mas é também apenas isso mesmo, uma pequena grande janela, um vislumbre para a sua personalidade, falhas (e erros cometidos) e pensamento. A obra de Trotsky é extensíssima, começando desde logo pelas suas principais obras teóricas (Balanço e Perspectivas, Revolução Permanente, Programa de Transição) e pela sua gigante (em tamanho, pormenor e qualidade) História da Revolução Russa, sem esquecer os seus inúmeros compêndios de escritos políticos. O historiador polaco Isaac Deutscher escreveu a biografia mais completa e fidedigna de Trotsky, indo mesmo além da sua vida para contar pormenorizadamente a história do movimento revolucionário russo e da Revolução Russa, composta por três volumes – O Profeta Armado (1879-1921), O Profeta Desarmado (1921-1929) e O Profeta Banido (1929-1940) – e arrisco-me a dizer que, se hoje fosse acrescentado um quarto volume, teria como título O Profeta Esquecido.
Há mais de cinco décadas, os livros de Trotsky começaram a entrar, clandestinamente, em Portugal nas malas de carro de um reduzido grupo de jovens de Coimbra, Porto e Lisboa que viajavam até França para saberem mais sobre a situação política internacional. Politizados pela resistência à Guerra Colonial, pelo Maio de 1968 e pela invasão da Checoslováquia em 1968 pela União Soviética, estes jovens estabeleceram contactos políticos com trotskistas franceses, espanhóis, entre outras nacionalidades, e, depois, formaram-se os Grupos de Ação Comunista (GAC), de discussão e agitação, em Lisboa, Porto e Coimbra. Começaram-se a editar, devagarinho, livros de Trótski. Em 1973, nasceu o primeiro partido trotskista português, a Liga Comunista Internacionalista (LCI), que em 1978 se fundiu com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) dando origem ao Partido Socialista Revolucionário (PSR). Uma editora foi fundada, a Antídoto (o seu nome foi inspirado num dos pseudónimos de Trotsky: Antid Oto), afeta ao partido e dedicada a difundir o pensamento do revolucionário russo. O fundador e editor da Antídoto, João Cabral Fernandes, abandonou a política ativa em 1982 e a editora encerrou portas, deixando muito por publicar. Procurar, hoje, livros de Trotsky (e de outros trotskistas, como Ernest Mandel) é sinónimo de percorrer, minuciosamente, lombadas em estantes cheias de velhos e amarelados livros em alfarrabistas, sabendo que cada nova descoberta é uma relíquia a agarrar de imediato.
Noventa e cinco anos depois da primeira edição de A Minha Vida, a sua edição portuguesa chega pela primeira vez às livrarias em Portugal. É editada quando nos é mais fácil imaginarmos o fim do mundo do que uma alternativa socialista ao capitalismo neoliberal mais selvagem, quando a necropolítica canibaliza todas as vertentes do nosso dia-a-dia – o trabalho, as relações pessoais e comunitárias e o pensamento crítico – sem que o sistema consiga aumentar a taxa de acumulação capitalista, entrando em crise. A austeridade permanente (e a reconfiguração securitária do Estado) que sofremos há mais de uma década, a reemergência da extrema-direita, os sucessivos ataques aos direitos mais elementares dos trabalhadores, o aprofundamento dos choques inter-imperialistas entre as principais potências mundiais e, agora, o acelerar do rearmamento da Europa são sintomas de mais uma crise histórica do sistema capitalista.
Esta crise histórica evoca alguns dos dilemas enfrentados pelos revolucionários marxistas na primeira metade do século XX. Como enfrentar a extrema-direita? Como nos poderemos opor às guerras imperialistas lutando pela autodeterminação dos povos e pela paz? Como podemos construir uma alternativa e uma coligação popular alargada contra o capitalismo mais selvagem? São tantas as perguntas e tão poucas as respostas. Daí a necessidade de se procurarem pistas nas experiências de outros revolucionários. Porque a herança das resistências é vasta, mesmo que as tentem apagar da nossa memória coletiva. A vida de Trotsky é uma dessas resistências. É um testemunho de coragem, lucidez e sacrifício por uma causa maior: o socialismo.
A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os ferroviários espanhóis, que vivem momentos de profunda dor e angústia.
Perante esta tragédia, o SFRCI expressa a sua solidariedade para com os trabalhadores ferroviários espanhóis, reconhecendo o impacto humano e profissional de acontecimentos desta natureza numa classe que diariamente assume responsabilidades fundamentais na segurança e no transporte de passageiros.
As referências à eventual falha dos sistemas de segurança e à insuficiência de meios redundantes de protecção, capazes de assegurar a operação em condições de segurança quando os sistemas digitais falham, reforçam a necessidade de uma investigação rigorosa e independente, que permita apurar as causas do acidente e retirar todas as conclusões necessárias à prevenção de futuras tragédias.
A segurança ferroviária tem de ser uma prioridade absoluta e inegociável. A tecnologia é fundamental, mas não pode constituir a única barreira de protecção. É indispensável garantir sistemas de segurança fiáveis, mecanismos redundantes de recurso, manutenção adequada, investimento contínuo nas infraestruturas e condições de trabalho que permitam aos profissionais desempenhar as suas funções com segurança.
Nenhuma consideração económica ou operacional pode sobrepor-se à vida humana. Um sistema ferroviário verdadeiramente seguro exige prevenção, investimento, responsabilidade e respeito por todos os trabalhadores e passageiros.
Neste momento de dor, a Direcção do SFRCI associa-se ao luto dos ferroviários espanhóis e de todo o sector ferroviário, reiterando a sua solidariedade para com as famílias enlutadas e desejando uma rápida e plena recuperação a todos os feridos.
Às vítimas mortais, a nossa homenagem. Às famílias, as nossas sentidas condolências. Aos feridos, os votos de rápidas melhoras. Aos ferroviários espanhóis, a nossa solidariedade fraterna.
A tragédia ferroviária de 28 de outubro, em Urda, Toledo, exige respostas que não se compadecem com a simples alegação de erro humano. Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.
As primeiras notícias atiram imediatamente o foco para quem, alegadamente, tomou uma decisão errada. Mas identificar um eventual erro individual não explica a avaria inicial, a organização do trabalho, nem por que razão as restantes barreiras de segurança não impediram o desastre.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano. Quando ocorre uma avaria, essas exigências multiplicam-se precisamente quando cada decisão requer maior cuidado.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano.
Teria uma equipa reforçada, com funções claras de apoio e verificação, permitido detetar o perigo a tempo? A investigação deve responder. Não basta contar pessoas numa sala. Importa perceber que apoio estava disponível e como funcionou.
A redundância na segurança também se faz com trabalhadores.É necessário prever o erro e garantir meios para o detetar e corrigir, antes de provocar consequências irreversíveis.
José Luis Villa, antigo diretor-geral da Renfe, questionou no El Mundo a explicação centrada no indivíduo, apontando responsabilidades de gestão e problemas de coordenação. A sua avaliação não substitui a investigação, mas lembra que as decisões de quem organiza e dirige também devem ser escrutinadas.
Portugal precisa de ter esta discussão perante a perspetiva de mais empresas de passageiros na rede. Pergunto: mais operadores e circulações serão acompanhados por investimento na infraestrutura, manutenção, contratação e coordenação? Se aumentarem as exigências sem aumentarem os meios, não estaremos a criar condições para um risco acrescido?
Esta discussão também exige olhar para as prioridades do investimento. A modernização ferroviária deve melhorar as deslocações quotidianas, ligar populações e garantir alternativas de transporte. Os comboios suburbanos, regionais e serviços do interior precisam de investimento continuado, tal como as oficinas e os profissionais que asseguram o seu funcionamento. A alta velocidade não dispensa uma rede de proximidade fiável.
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O valor de um serviço público não se mede apenas pela receita dos bilhetes. Mede-se também pelas populações que serve, pela coesão territorial e pela segurança que oferece. E qualquer modelo de exploração deve ser avaliado por esses critérios.
Entretanto, os maquinistas espanhóis já tinham uma greve convocada para 29 de outubro. Exigiam melhorias de segurança, comunicações de emergência, contratação e cumprimento das pausas. Não sabemos se essas medidas teriam evitado esta tragédia. E se tivessem? Sabemos que os trabalhadores já reclamavam respostas e queriam ser ouvidos. E se tivessem sido?
Quando uma greve é apresentada apenas pelos transtornos que provoca, fica por explicar aquilo que os trabalhadores procuram proteger. Defender quem trabalha na ferrovia é também defender quem viaja. A segurança exige investimento, organização e trabalhadores em número suficiente para a garantir.
O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança públicas, mas a repressão contra quem luta por direitos. São um corpo dos empresários e do Estado, foi assim em 1838, na Maria da Fonte, na República e no Estado Novo, é assim hoje no Rossio e em Covas de Barroso.