Receita: Sopas de cavalo cansado com aveia e pera muito bêbeda
A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar.
A história do consumo das sopas de cavalo cansado em Portugal é mais complexa do que a caricatura a que frequentemente são reduzidas. Se, por um lado, tentam evocar um nostálgico universo rural de tradição, resistência e identidade popular, são sobretudo símbolo de pobreza extrema, de subalimentação e de práticas alimentares de recurso numa cultura nacionalista da alegre e modesta casinha, onde tudo o resto falha.
A origem da designação parece remontar ao século XIX, numa época anterior aos caminhos de ferro, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Ao longo do percurso, existiam pousadas onde viajantes e animais recuperavam forças. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar. Dessa prática teria surgido a expressão “sopas de cavalo cansado”.
Embora não existam fontes históricas definitivas que comprovem esta origem, a mesma interpretação aparece também na tradição galega, onde existem designações semelhantes, como sopas de cabalo cansado, sopas de burro cansado, sopas borrachas ou simplesmente sopas de viño. Em Portugal, além da expressão mais conhecida, registam-se igualmente variantes como “sopas de burro cansado” ou “sopas de vinho”, sobretudo em Trás-os-Montes e no Alto Douro.
Com o tempo, aquilo que terá começado como um alimento de recuperação para animais, transformou-se num pequeno-almoço comum entre as populações rurais pobres, sobretudo do Norte de Portugal. A dureza do trabalho agrícola, associada à escassez alimentar crónica, fazia do vinho não apenas uma bebida, mas também uma fonte de calorias e um elemento central da dieta quotidiana.
Existem outras sopas na cultura popular europeia que incluem vinho na sua composição, desde a sopa de cebola francesa, enriquecida com vinho branco ou xerez, as sopas alemãs e suíças de Riesling, passando pelas Weinsuppen do Norte de Itália, mas todas são bem mais sofisticadas e não refletem, como as nossas, uma utilização do vinho como ingrediente de reforço alimentar e energético.
A receita das sopas variava consoante a região e os recursos disponíveis. Na sua forma mais simples, consistia em pão duro demolhado em vinho tinto com açúcar. Noutras versões mais enriquecidas podiam juntar-se gema de ovo, mel, canela, broa de milho esfarelada ou vinho verde tinto. Servia-se numa malga ou tigela funda e era entendida como um alimento altamente energético, adequado ao desgaste físico do trabalho agrícola.
Estas práticas alimentares surgem num contexto histórico marcado por profundas carências económicas e sociais. Durante as décadas de 1930 e 1940 grande parte da população vivia em condições de miséria extrema, onde o salário do chamado “chefe de família” era insuficiente para assegurar sequer uma alimentação básica. Para sobreviver, era necessário o trabalho de todos os membros da família, incluindo crianças.
As sopas de cavalo cansado não eram, assim, apenas uma tradição gastronómica da ruralidade: eram uma resposta pragmática à fome, ao desgaste físico e à ausência de alternativas alimentares. O vinho, diluído no quotidiano rural, era encarado como um alimento fortalecedor, quase medicinal.
A vitivinicultura em Portugal, abençoado com o maior número de castas autóctones do mundo, umas notáveis 250, era um dos pilares da economia portuguesa. Nos anos 1940, a vinha ocupava 320 mil hectares repartidos por mais de 300 mil produtores, quase todos de pequena ou muito pequena dimensão, e era a que mobilizava mais mão de obra e durante mais tempo. O vinho representava uma das principais exportações nacionais, apenas ultrapassada pela da cortiça. Organismos como a Junta Nacional do Vinho, criada em 1937, ou o Grémio dos Armazenistas de Vinho controlavam preços, produção e propaganda, e promoviam intensamente a produção e o consumo de vinho como símbolo da identidade nacional, difundindo a ideia de que “beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses”.
O regime utilizava a iconografia rural e vínica como instrumento de propaganda nacionalista, apresentando um país harmonioso e tradicional que contrastava fortemente com a realidade de pobreza vivida por grande parte da população.
Em 1938, surgia um cartaz do Grémio dos Armazenistas de Vinho, conhecido como o Cartaz das Tabernas, que misturava com pouco rigor regras sanitárias e alegados argumentos científicos. O cartaz proclamava coisas extraordinárias como: “o alcoolismo é combatido pelo consumo de vinho”, frase atribuída a um misterioso Dr. Bertillon. Citava ainda, supostamente, Louis Pasteur com “o vinho é a mais sã e higiénica das bebidas”, demonizando as bebidas destiladas estrangeiras, onde se inclui a cerveja, essas sim, fontes de decadência social e moral. A propaganda chegava ao ponto de declarar que “um litro de vinho de 10º corresponde, como alimento, a 90 cl de leite, 370 g de pão, 585 g de carne ou cinco ovos”.
Contudo, a relação social com o álcool transformou-se profundamente ao longo do século XX e início do século XXI. Se durante décadas o consumo de vinho foi associado à força física, ao convívio, à celebração e até à saúde, hoje cresce uma visão muito mais crítica sobre o álcool e os seus impactos sociais e sanitários.
Depois do aumento do consumo durante o confinamento, houve um declínio geral no hábito de beber: as pessoas mais velhas continuam a ser as que mais bebem, enquanto os menos propensos ao consumo têm entre 16 e 24 anos, sendo que 26% dessa faixa etária é totalmente abstémia. São muitos jovens sóbrios. A cultura da grande bebedeira como evento olímpico regular que marcou os anos 1980 e 1990 perde prestígio social e o álcool deixa de ser um ritual obrigatório de integração juvenil e passa, para muitos, a representar algo antiquado, dispendioso e pouco desejável. Surgem agora as raves sem álcool, em cafés e padarias, apenas movidas a boas vibrações e o kombucha. Quantos Salazares seriam hoje precisos para devolver a alma genuinamente boémia ao dancefloor?
As razões para esta mudança são várias. Sair à noite tornou-se muito mais caro, mas sobretudo há alterações culturais profundas: maior preocupação com a saúde mental e física, novas formas de socialização, transformação das relações e menor pressão social para beber. Paralelamente, muitos espaços tradicionais de convívio noturno enfrentam dificuldades económicas e muitos encerram, pressionados pela gentrificação urbana, pelo aumento dos custos operacionais, mas, em grande parte, pela diminuição do consumo de álcool.
Sopas de cavalo cansado com aveia e pera muito bêbeda
Ingredientes:
1 pera bem firme
2 copos generosos de vinho tinto
1 cálice de vinho do porto
1 cálice de aguardente velha
3 colheres de sopa de açúcar
3 colheres de sopa de flocos de aveia finos
1 estrela de anis
2 cravinhos
1 pau de canela
Raspas de chocolate negro
Descasque a pera mantendo-a inteira e leve a lume moderado com todos os outros ingredientes, exceto a aveia e o chocolate. Deixe cozer a pera cerca de 10 minutos, retire-a e reserve.
Acrescente os flocos de aveia e deixe que cozinhem enquanto o molho reduz, mexendo sempre.
Sirva esta mistura numa taça, coloque por cima a pera e finalize com as raspas de chocolate
No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-reitor continuava irredutível e furibundo.
Ainda sobravam uns minutos do intervalo entre aulas. A suar, sentindo o peito a explodir, Ó correu escadas abaixo para jogar à bola com os amigos e esquecer aquilo tudo.
Eram oito lanços de escadas. O Texas estava instalado numa das escarpas da Lapa, de modo que na frontaria ostentava dois pisos acima da rua e nas traseiras, colina abaixo, revelava-se um edifício de quatro andares. O pátio de recreio ficava ao nível da sub-sub-cave e era aí que os rapazes saltavam ao eixo, jogavam à apanhada e davam uns chutos na bola.
Ao nível do rés-do-chão, mas com janela para as traseiras (e, portanto, sobranceira ao pátio de recreio), ficava a sala dos professores. Nessa sala ocorria todos os dias, por volta das 10.30, um ritual sagrado: o professor que estivesse desocupado durante o período de aulas antecedente preparava para os colegas um café aromático, feito numa máquina “de balão” – uma máquina de café que consistia em dois balões de vidro pirex, aquecidos por uma lamparina.
Por essa época surgiu uma nova moda de calçado: os sapatos de pala, sem atacadores. E assim, num belo dia primaveril, um dos colegas do Ó apareceu no recreio com uns sapatos de pala, os primeiros a pisarem o chão do liceu. Meteu-se o rapaz a jogar à bola e a certa altura disparou um tremendo chuto à baliza. O problema, porém, é que o sapato lhe saltou do pé, foi atrás da bola, girou pelos ares num arco caprichoso e foi bater na janela da sala dos professores; partiu a vidraça e, como se isso não bastasse, acertou em cheio na máquina do café, reduzindo-a a estilhaços. Aquilo foi uma heresia pior do que cuspir em todas as santinhas. Gerou-se uma enorme comoção no corpo docente, senão mesmo, nos primeiros instantes, uma raiva assassina; o eco da indignação subiu as escadarias e chegou ao gabinete do vice-reitor, que desceu seis lanços de escadas a galope e, horrorizado perante os estilhaços da máquina de café, emitiu logo ali um edital: a partir daquele momento seria proibido jogar à bola no pátio e andar em correrias. Os contínuos (chamam-se hoje auxiliares) foram enviados em todas as direcções, apreenderam bolas, caricas, berlindes e todos os demais objectos circulares ou projectáveis que lhes apareceram pela frente, atiraram berros à cara dos alunos e puseram-nos em sentido. O dia terminou envolto num inquietante nevoeiro de trituração e revolta que desfocava as letras nas ardósias e tornava os ouvidos moucos às palavras dos professores.
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No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-reitor continuava irredutível e furibundo.
Ao segundo dia, o Ó, inspirado no confronto que tivera há dias com o professor de Religião e Moral, teve uma ideia. Em grande segredo, começou a passar palavra entre os alunos. Nesse dia os rapazes regressaram a casa numa grande excitação e cada um inventou uma desculpa qualquer (trabalhos manuais, ou coisa assim) para sacar alguns materiais às mães.
Era um espectáculo digno de ser filmado, com novelos de lã de todas as cores; toda a gente em silêncio, apenas se ouvia o tique-tique das agulhas.
Ao terceiro dia, todos os alunos presentes ao primeiro tempo de aulas chegaram com bom avanço antes do toque da campainha, a fim de prepararem o cenário combinado. Os contínuos acharam aquilo inusitado, mas não pensaram muito no assunto. Quando o vice-reitor atravessou os portões da escola, foi encontrar os 700 alunos estacionados em todos os lanços das escadarias, do primeiro ao último, sossegadamente sentados nos degraus a fazerem tricô. Era um espectáculo digno de ser filmado, com novelos de lã de todas as cores; toda a gente em silêncio, apenas se ouvia o tique-tique das agulhas. Siderado, sem dizer uma palavra, o vice-reitor subiu ao seu gabinete como pôde, pisando os degraus com dificuldade entre aquela massa de corpos e agulhas. Enfiou-se no gabinete e pouco depois tocou a campainha a chamar um contínuo.
Novamente foram enviados os contínuos pelos corredores do liceu, a colarem nas paredes novo edital: passava a ser novamente possível jogar à bola. Mas, claro está, o vice-reitor não dava o braço a torcer completamente: preservava a sua dignidade com algumas limitações e o aviso de que qualquer prejuízo adveniente de brincadeiras estouvadas seria cobrado aos alunos e respectivas famílias. O Ó acertara em cheio: não era suportável ver uma massa de rapazes dedicados a tarefas supostamente feminis. Felizmente, ao contrário da sede do Liceu Pedro Nunes, O Texas não era misto.
A 28 de Maio de 1926 a burguesia portuguesa, a maioria dela republicana (só uma pequena parte resistiu) opta pela ditadura para se afirmar como Estado-nação moderno (dos mais tardios de toda a Europa, na nossa análise) e controlar as greves e lutas do movimento dos trabalhadores, anarquista e comunista, e garantir a proletarização dos camponeses, agora transformados em trabalhadores, com salários baixos.
Portugal teve desde 1890 um dos principais e mais bem organizados movimentos sindicalistas revolucionários do mundo (a par do norte-americano, italiano, francês e claro, espanhol – era um movimento ibérico). Depois da crise de 1929 e a ameaça revolucionária em Espanha nos anos 1930, o regime torna-se abertamente fascista.
A incapacidade de estabilizar o país para a acumulação de capital no quadro da fase imperialista – a criação de monopólios como condição de existência da burguesia portuguesa no mercado mundial, ou seja, como condição de existência da própria burguesia nacional – vai levar um sector importante desta classe a abdicar do poder político-institucional a partir de 1926, para manter o poder económico-social, ensaiando um clássico regime bonapartista, suprimindo o Parlamento – a Ditadura Militar.
Entre 1926 e 1933, houve uma compreensão clara por parte da maioria dos setores da burguesia portuguesa de que a modernização capitalista e a acumulação de capital, baseada, na metrópole, no “trabalho barato” (assente na proibição de sindicatos e partidos políticos livres) e, nas colónias, na primazia do trabalho forçado, não poderiam ocorrer sob regime democrático, porque, já no século XX, se dá a par da emergência de um novíssimo sujeito social: o moderno proletariado.
O pronunciamento militar deu-se durante um Congresso Mariano em Braga, cidade ultracatólica. Seguindo o figurino da Europa do Sul, veio de fora da capital.
Se a República teve como mote inicial uma unidade contra a monarquia, a ditadura que se instalou dispôs-se, sobretudo, a derrubar a República e seus aliados. Os protestos contra a “partidocracia”, a “balbúrdia” parlamentar, a “instabilidade” governativa, a crise das instituições e a “agitação social” operária, assumem a forma de putsch. Os golpistas são, à proa, Mendes Cabeçadas e Gomes da Costa.
O golpe de 28 de maio de 1926, que inicia a ditadura militar, não é inesperado. A República burguesa tinha sido brutal contra o movimento operário, que, mesmo assim, resistia. Além das prisões, das perseguições, dos batalhões antigreve ou do vagão-fantasma, o ambiente anticomunista, incentivado pelo culto mariano contra a URSS – as “aparições” de Fátima, em 1917, aos três pastorinhos –, abre a via para a ditadura que se segue.
Como lembra César Oliveira: “Todo o período que vai desde o fim da Primeira Guerra Mundial até 1927-1928 é, de facto, muito marcado por uma constante: o apelo sistemático à salvação do país, quer dos desmandos da “ordem republicana”, quer dos eventuais perigos da revolução social”. O “anticomunismo” é a argamassa da contrarrevolução.
Não se pode compreender a vitória da contrarrevolução (militar ou fascista) sem compreender o destino da revolução russa, a derrota da revolução alemã e da revolução europeia no início da década de 1920.
Contexto internacional da Ditadura Militar
Não se pode compreender a vitória da contrarrevolução (militar ou fascista) sem compreender o destino da revolução russa, a derrota da revolução alemã e da revolução europeia no início da década de 1920, concomitantes com o boom económico desses anos, “os loucos anos 20”, e a vitória da contrarrevolução estalinista, depois de 1927.
Gramsci sintetizará o fascismo em três dimensões: i) como a ideologia que pretende eliminar o conflito social e unificar a nação como um todo, ii) como uma forma de dominação da transição histórica da sociedade camponesa-industrial para a sociedade industrial de massas e iii) como o produto de uma época histórica de crise orgânica do capitalismo.
Primo de Rivera liderará a Espanha com mão de ferro entre 1923 e 1930, e fundará o novo partido fascista espanhol, a Falange, em 1933. Entre 3 e 12 de maio de 1926, ergue-se com uma força inédita desde as lutas cartistas, em Inglaterra, o movimento social e operário inglês numa greve geral. As classes dominantes foram obrigadas a aceitar, a contragosto, uma aliança entre o Partido Trabalhista e a burguesia para esquivar os efeitos da greve geral de 1926, que começara pela exigência de aumentos salariais para os mineiros, mas tomara proporções insurrecionais, ao atingir 1,7 milhões de trabalhadores em todo o país e envolver estivadores, transportes, etc.
À semelhança de outros países, casos da Alemanha e da Itália, de tardia unificação, que irão constituir as forças do Eixo na Segunda Guerra Mundial, a tardia “democratização liberal” do país leva a que, quando é feita, o proletariado – organizado nas correntes anarcossindicalistas e comunistas, além das socialistas – já tenha expressão suficientemente importante para impedir a estabilização do capitalismo e garantir as taxas de lucro almejadas.
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Bonapartismo
É bonapartista a forma do encerramento do Parlamento, a 31 de maio do mesmo ano; a formação de um novo governo dominado pelos militares (de “salvação nacional”); a forte coerção armada contra os opositores, condenados, sem julgamento, ao desterro para as colónias. As greves operárias e manifestações públicas são proibidas em todo o território. Toda a oposição é fortemente reprimida – a começar pelas revoltas do reviralhismo, republicanas e democráticas. A maçonaria será proibida em 1935.
Após o golpe de Estado, funda-se a Polícia de Segurança Pública (PSP), depois do reordenamento do corpo de polícia cívica de Lisboa e Porto. No mês seguinte é instituída a censura à imprensa. As sedes do PCP são encerradas no Porto e em Lisboa. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) é posta na ilegalidade. Dá-se então uma contrarreforma do sistema de educação pública, com a redução do ensino primário de seis para quatro anos.
Em 1928, promulga-se um novo “Código de Trabalho” para os autóctones das colónias portuguesas em África. O documento baseava-se no pressuposto “civilizatório” do trabalho indígena, obrigando ao trabalho, que deveria também prover interesses “públicos”. Fundar -se -á a Polícia de Informação do Ministério do Interior. A 27 de abril de 1928, Oliveira Salazar tomará posse como o novo ministro das Finanças, iniciando a austeridade, liderando o início da mais longa ditadura da Europa Ocidental no século XX. Após a crise de 1929, a burguesia acumula forças que levam à instituição do “Estado Novo”. Com as exportações, fonte central de receita, em queda, o ministro Oliveira Salazar começa um pacote de medidas restritivas, com severos cortes orçamentais, inaugurando uma verdadeira “política de austeridade” no país.
Qual regime?
Mas afinal o que é o regime republicano, entre a monarquia constitucional finda em 1910 e a Ditadura Militar de 1926? É, na síntese de César Oliveira, “um avanço limitado, de carácter não estrutural, no ciclo das transformações burguesas que desde 1820 tiveram lugar na sociedade portuguesa”.
Não houve resistência de vulto do movimento operário ao golpe de 28 de maio de 1926. Exaurido por anos e anos de repressão na Primeira República, logra tornar a República ingovernável, mas não consegue candidatar-se a governá-la ele.
A repressão durante a República, fundamentalmente dirigida contra o movimento operário, tem traços claramente bonapartistas, e que não se resumem às ditaduras de Pimenta de Castro (1915) ou Sidónio Pais (1917-1918). Os republicanos obtiveram o consentimento operário, mas pouco ofereceram aos trabalhadores além da coerção. Houve violência contra o clero, sobretudo os jesuítas, “nunca contra os detentores da propriedade, facto perfeitamente natural dado o Partido Republicano não ser, na sua composição social, muito diverso dos partidos monárquicos”.
A República decapitou as suas tropas, os artesãos da Carbonária, os operários de Alcântara, para finalmente parte das suas frações se reorganizarem em torno da Ditadura Militar e depois no Estado Novo e, aí sim, criarem uma coisa e o seu contrário – os monopólios e o proletariado, que saiu das Beiras para a Lisnave, da aldeia nativa para as plantações da Cotonang, como trabalhadores forçados, em Angola.
Trecho editado de Breve História de Portugal (Bertrand). Todas as referências estão no livro.
O conhecimento do que se estava a passar em Angola rapidamente me levou a pôr em causa não apenas a guerra, mas também o meu papel como elemento que havia aderido às forças armadas. Ao fim de algum tempo passei a sentir-me deslocado no seio deste Exército, e o meu pensamento passou a concentrar-se em tentar descobrir qual a melhor maneira de sair dali.
O início da nossa história coincide com o começo da guerra colonial em África. Uma grande parte dos oficiais que prepararam e fizeram o 25 de Abril entraram para a Academia Militar (AM) entre 1960 e 1964. Quando entrei no quartel da Academia Militar na Amadora em Outubro de 1961, a guerra em Angola havia começado apenas oito meses antes, a 4 de Fevereiro de 1961. As portas da AM foram então abertas, como prémio, aos primeiros “heróis” das bárbaras campanhas de morticínio perpetradas em Angola nesses primeiros meses da guerra colonial. Foi assim que tive o “privilégio” de ouvir em primeira mão, e contadas pelos próprios “heróis”, as histórias dos assassínios e torturas cometidos em Angola.
O conhecimento do que se estava a passar em Angola rapidamente me levou a pôr em causa não apenas a guerra, mas também o meu papel como elemento que havia aderido às Forças Armadas. Ao fim de algum tempo passei a sentir-me deslocado no seio deste Exército, e o meu pensamento passou a concentrar-se em tentar descobrir qual a melhor maneira de sair dali. Após quatro anos de estudos de Engenharia na Academia Militar, promovidos a alferes, somos matriculados no Instituto Superior Técnico (IST) para completar os três anos de curso que faltavam. Chegados ao Técnico, deparamos com a informação e o debate político que, apesar de tudo, existia nas universidades portuguesas, sobretudo no IST em Lisboa. Neste ambiente, para além da grande actividade política de agitação, abre-se-me a porta da literatura revolucionária, proibida, mas de relativamente fácil aquisição.
Com a transição para o Técnico em 1965 a nossa atitude começa a mudar de modo rápido e imparável. Não se trata apenas de uma evolução ideológica a nível pessoal, fruto já das muitas leituras e do acesso a filmes e debates políticos no seio da universidade, é antes uma evolução que acompanha a crescente radicalização dos movimentos de oposição à guerra colonial e à ditadura fascista.
O impacto destas quatro semanas vividas no estrangeiro, com toda a liberdade para ver filmes que eram proibidos em Portugal, ler livros aqui censurados, assistir a manifestações de rua, foi enorme.
Apesar de um maior interesse pela actividade política do que pelos estudos, acabo por ser finalista do Curso de Engenharia Electrotécnica, em 1968. Isso permite-me a inscrição no grupo de alunos que organizará uma viagem que irá percorrer as principais capitais da Europa durante quase um mês, em Março e Abril de 1968. Esta viagem de finalistas do IST, com cerca de 40 elementos, inclui oito que são alunos da AM. A influência desta viagem é fundamental para o que se passará a seguir. Destes oito elementos acabarão por recusar a guerra colonial e desertar para a Suécia nada menos do que cinco. O impacto destas quatro semanas vividas no estrangeiro, com passagens por Paris, Londres, Bruxelas, Amsterdão, Copenhaga e Estocolmo, com toda a liberdade para ver filmes que eram proibidos em Portugal, ler livros aqui censurados, assistir a manifestações de rua, foi enorme. Ninguém voltou igual ao que era antes do início desta viagem.
No regresso, uma primeira decisão crucial estava tomada: deixar a AM e acabar com a carreira das armas. Nesse momento, era já para nós, acima de tudo, uma questão de consciência.
A contradição entre ser contra o regime e contra a guerra colonial e ao mesmo tempo servir as suas forças armadas tornou-se óbvia. É assim que nos últimos meses de 1968 umas dezenas de alunos da AM resolvem recorrer aos meios legais para deixar as fileiras da AM, pagando para tal uma pesada indemnização ao Estado.
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Em Abril e Maio de 1969 somos enviados para o quartel da Escola Prática de Infantaria, em Mafra, a fim de cumprir quatro anos de Serviço Militar Obrigatório (SMO). Aqui nos vamos encontrar com mais de uma dezena de ex-alunos da AM e também com colegas de cursos de Engenharia do IST que ali cumpriam o SMO. Agora, livres de compromissos, perdido o medo de falar, a influência da nossa linguagem, das nossas ideias e das nossas atitudes passou a ter grande impacto junto dos quadros do Exército.
Depois de cerca de seis meses passados em Mafra como instrutores do Curso de Oficiais Milicianos (COM), somos dispersos por diferentes quartéis do país, desta vez para desempenhar o papel de instrutores de soldados recrutas. Nada sabíamos sobre o nosso futuro, mas era certo que a mobilização para as colónias nos viria bater à porta. O que não esperávamos era que no início do ano de 1970 fôssemos reencontrar mais de uma vintena destes ex-alunos da AM no quartel do RI 5 das Caldas da Rainha.
De imediato começamos a reunir-nos em conversas informais em que a pergunta era uma única: o que fazer? O sigilo das nossas reuniões passou a ser total desde o primeiro dia. Assim é que, em Fevereiro ou Março de 1970 já havíamos decidido o que fazer no caso de mobilização para a guerra colonial. Iniciamos então os primeiros contactos com gente da Oposição no sentido de obter documentos e ajuda para passar a fronteira. Rapidamente verificámos que o melhor era contar com os nossos próprios meios, pois a reacção dos elementos contactados foi tentar convencer-nos a não desertar dado que, diziam eles, a nossa experiência e a condição de ex-oficiais de carreira poderia ser de grande utilidade para a luta contra a guerra colonial no seio das FA. A nossa recusa de enveredar por esse caminho, que significava embarcar para as colónias, foi imediata e taxativa: DESERTÁMOS E DENUNCIÁMOS OS CRIMES DA GUERRA COLONIAL.
Esta deserção, resultado de uma iniciativa colectiva de 10 oficiais da Academia Militar, por isso mesmo teve um forte impacto no seio das forças armadas portuguesas: ao longo dos 14 anos da guerra colonial, foi a que maior impacto teve tanto no estrangeiro como em Portugal, aqui sobretudo pela grande divulgação que houve no interior dos quartéis, tanto na metrópole como no “ultramar”.
Segunda e última parte da entrevista de Afonso Maia Silva, do Maio, ao historiador Diogo Ferreira, que estuda a história local da cidade do Sado, sobre os fuzilamentos de Setúbal de 1911 e investiga o que se passou com duas vítimas; os operários António Mendes e Mariana Torres. Aqui focada na violência protagonizada pela GNR e PSP, que muitas vezes rivalizou com a da PIDE.
Maio: Portanto, tem esse impacto na tal degradação da relação de confiança que muito precocemente se perde entre o operariado, que tinha sido uma importante base de apoio ao 5 de Outubro e ao crescimento dos círculos republicanos, etc., face ao regime republicano e às elites dirigentes que muito rapidamente, local e nacionalmente, acabaram por quase num volte-face ter atitudes tão repressivas como aquela que tu aqui estudaste.
DF: A começar pelo próprio António José de Almeida. É uma figura por quem tenho bastante respeito e acho que marcou a história do país, um indivíduo que era o grande arauto de pegar em armas para a revolução. Quando está no poder, já como ministro do Governo Provisório, o discurso foi completamente outro. Acho que a elite republicana local conseguiu manietar o movimento operário para criar esta quase “coalizão antimonárquica”, mas a seguir ao 5 de Outubro não há um único operário, não há nenhum dirigente sindical que tivesse sido nomeado para uma comissão administrativa de uma junta de freguesia, que eram as de paróquia ainda, nem para a comissão administrativa da Câmara Municipal nem para regedor de freguesia. Portanto, não houve nenhum cargo político ocupado por um trabalhador.
A Guarda Republicana, claro que ainda sem a formação que devia de ter, disparou a matar. O que o livro vem trazer é realmente isso. Eles dispararam sem ordem de fogo, não fizeram disparos para o ar para dispersar a população e os grevistas. É algo que ficou tatuado na memória dos trabalhadores locais, que não viram aquela República social emancipadora. Alves Redol, excecionalmente, numa página do seu livro Os Reinegros, diz que a República durou dois dias na Rotunda e pouco mais. É essa rápida desilusão destes homens e mulheres para com o regime, os que não receberam o direito ao voto, que veem reconhecido o direito à greve, mas também o lock-out patronal…
Maio: Sim, inclusive, tenho aqui uma questão sobre a Guarda Republicana, porque é utilizada a expressão “batismo de sangue”, que tu citas no livro, originalmente pelo jornal socialista O Trabalho. E aquilo que podemos observar é que, ao longo do período da Primeira República, este corpo policial irá ocupar um papel na repressão violenta do operariado organizado em Setúbal e não só, a nível nacional. Quão decisivo é esse papel, para pensarmos no carácter burguês do regime? Falamos inclusive já da questão da exclusão do operariado dos círculos de decisão, muito longe do ideal de República social que tinha alimentado as esperanças dos republicanos desde meados do século XIX.
DF: Até vou mais longe, do ponto de vista cronológico, saindo aqui do âmbito do livro. A Guarda Republicana e a PSP aqui em Setúbal (e é preciso fazer uma pequena diferença, porque a Polícia de Segurança Pública em Setúbal só vai nascer em fevereiro de 1927; desde 1899, o que existia era uma polícia cívica municipal, paga pelos cofres da Câmara) vão ser sempre agentes de repressão política.
Apesar da existência de polícia política, no contexto da Ditadura Militar, do Estado Novo ou mesmo já durante a República e de haver esta ideia, na sociedade portuguesa e entre historiadores (e bem, naturalmente), de que a PIDE é o símbolo máximo do obscurantismo, da violência política, da tortura, dos crimes perpetrados contra quem queria pensar de forma diferente no país, localmente isto será diferente.
Estamos a falar outra vez de Setúbal, a terceira maior cidade do país. Em 30 anos de ditadura, de 1926 a 1956, Setúbal não teve uma delegação da PIDE. Portanto, a pergunta é: quem são os primeiros agentes da ação repressora dos regimes no plano das comunidades? A resposta é simples: PSP e Guarda Nacional Republicana. Na investigação que tenho vindo a fazer sobre presos políticos de Setúbal, é completamente expresso que, por exemplo, quando se dá o 18 de Janeiro de 1934, quem está a prender as pessoas, a interrogar e a abrir os inquéritos antes de os ceder à polícia política é a PSP.
Posso dizer que, numa entrevista que reproduzi, a um neto de um antigo preso político já falecido, o setubalense que mais vezes foi preso, Salvador Pereira Amália, ele contou que o avô tinha estado preso no Aljube, em Caxias e em Peniche. Segundo o próprio preso, foi mais bárbara e violentamente agredido (ao ponto de ficar completamente irreconhecível) na esquadra da PSP de Setúbal em 1938. Portanto, a GNR e a PSP têm no seu código genético um monopólio da violência fruto do monopólio da manutenção da ordem pública. O que ouvimos hoje nas notícias, polícias presos por torturarem e agredirem violentamente os detidos na esquadra, faz parte da nossa história coletiva. Portanto, a Guarda Republicana e essa polícia municipal foram permanentemente agentes da burguesia e da elite política, como arma de opressão e de repressão sobre o universo trabalhador.
Existiram várias prisões de natureza política aqui em Setúbal durante a Primeira República, por muito que me custe dizer isto, olhando sempre para este período com uma lógica de abertura democratizante e com um espírito de vanguarda e jacobinismo. Mas o facto é que há prisões políticas aqui durante a Primeira Guerra, no sidonismo, no pimentismo (ditadura breve de Pimenta de Castro) e mesmo depois, nas greves gerais de 1925.
Maio: Há bocado, falámos também da camada da elite dirigente republicana, nomeadamente no caso do António José de Almeida, figura mais reconhecida por ter chegado a Presidente da República. Mas uma figura que salta à vista na leitura do livro é Paulino de Oliveira, uma figura local bastante relevante, que me parece paradigmática das contradições desta elite dirigente. Envolvido em protestos antimonárquicos e anticlericais reprimidos violentamente pela monarquia, preso político, levanta-se contra a repressão violenta do Estado, ainda monárquico, durante esse período. Mas já após a implantação da República, utilizará o periódico que dirigia, O Radical, como plataforma para a condenação da ação grevista. Como é que podemos enquadrar figuras como esta na viragem do regime monárquico para o republicano?
DF: É já uma evidência das riquezas que a história local também tem, em que não estamos a falar num plano teórico e abstrato. Temos aqui um exemplo absolutamente concreto: Paulino de Oliveira, contando com o apoio da sua esposa, que é uma figura nacional de grande relevância, Ana de Castro Osório. Ainda é mais surreal pensar que Ana de Castro Osório, em dezembro, 3 meses e meio antes deste evento, tinha orgulhosamente secretariado o processo de constituição da Associação de Classe das Mulheres Operárias Conserveiras de Setúbal, de forma voluntária. Escreve ainda um livro sobre as operárias e a greve de Setúbal. Paulino de Oliveira agrediu à chibatada estas mesmas mulheres e ele próprio escreve no jornal O Radical que as agrediu porque estariam a agredir a sua família. Tiveram de lhe arranjar um exílio político, São Paulo, onde foi nomeado cônsul.
Diria que há mais figuras assim no contexto local. Porquê? Muitos destes homens faziam parte dessa elite intelectual republicana, em que alguns são elite, mas são pequenos comerciantes. Não são pessoas que vivem em palacetes nem são grandes burgueses. Eu acho que isso é fruto do que é o ser humano, ou seja, de acordo com as circunstâncias, de acordo com os interesses, de acordo com o momento, acabam por trair determinados valores e ideais. O que eles acabam por alegar foi “precisamos de calma, a República precisa de tempo, precisa de tranquilidade e de paz para se desenvolver, não é do dia para a noite que os operários e as mulheres mais pobres vão ter os problemas resolvidos”. Isto não tem a ver com as figuras, tem a ver com o ideal.
Os operários de Setúbal, em dois momentos, ainda vão defender a República com armas e no terreno, apesar desta enorme cicatriz que foram os fuzilamentos. Em 1915, com o 14 de Maio, que acaba com o pimentismo, houve confrontos em Setúbal. Também com a Monarquia do Norte os operários voltam e há uma brigada voluntária de Setúbal que vai para o Norte combater os monárquicos, porque havia esta leitura, tanto no setor socialista, como no setor anarcossindicalista, de que regressar à monarquia era perder terreno nos avanços dessa República social que almejavam. Diria que isso é transversal, porque não deram o direito ao voto, bloqueando o acesso dos trabalhadores às decisões políticas. Os sindicatos e as organizações de classe foram sempre a plataforma de reivindicação da luta política que estes homens e mulheres tiveram para conseguir contrabalançar este controlo absoluto que os republicanos tiveram.
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Maio: Falemos da adesão do operariado aos ideais do sindicalismo revolucionário e do anarco-sindicalismo. Focamo-nos então em Setúbal, a “Barcelona portuguesa”, como ficou conhecida precisamente pela adesão a estas mundivisões e ideologias, num fenómeno similar ao que se passava na cidade catalã. O que criou na tua visão as condições para que este movimento fermentasse em Setúbal e o que o distinguia das restantes correntes do movimento operário da época, como o socialismo nos seus vários tons e, mais tarde, o bolchevismo, inspirado na Revolução Russa de Outubro de 1917?
DF: Não há investigação feita para o século XIX que explique esse início de adesão. Há este take-off industrial conserveiro, em 1880, com uma crise sardinheira na costa da Bretanha, que obrigou a que os franceses investissem o seu capital e deslocalizassem as fábricas para a zona costeira da Península Ibérica. Foram desde Vigo ao Algarve. Setúbal foi um dos pontos centrais deste investimento. Vai ser inclusive a capital ibérica da produção de enlatados de sardinha durante um bom período. Vai ter um conjunto muito diversificado de fábricas de média e grande dimensão, num total de uma centena de unidades fabris. Desta centena, muitas eram fabriquetas, até em vão de escada, às vezes com três trabalhadores que faziam uma pequena empresa.
Este boom industrializador, com investimento de capital francês, trouxe consigo um grande surto demográfico. Trouxe muita gente para Setúbal. Para termos uma ideia, em trinta anos duplica a população residente. E esse aumento de população é fruto da necessidade de trabalho que há neste setor, também para a pesca, naturalmente. Há uma grande migração para esta zona, principalmente da Murtosa, na zona de Aveiro, e também do Algarve. Um grande conjunto de jovens migra para aqui. A juventude é um aspeto importante para esta fenómeno de radicalização.
Depois, o carácter e o perfil monoindustrial da região: a dependência absoluta do setor da pesca e conserveiro industrial. Se não há peixe, não há produção, se não há latas, mesmo que haja peixe, não se pode pôr o peixe dentro das latas. Imaginemos a fábrica Y, que tem 50 ou 60 operários, se naquela semana houve insucesso na captura do peixe, ela fecha e não há trabalho, não se paga salário. Portanto, tem de haver uma conjugação. Este setor é muito especial desse ponto de vista, dessa dependência, são mais de dez mil pessoas ligadas a estas áreas de atividade económica, o que acaba por obrigar à construção de redes de solidariedade e sindicalismo como plataforma de unidade e de defesa dos interesses comuns. Os outros setores praticamente não têm peso, à exceção dos vinhos de Azeitão, ou até do moscatel de Setúbal, numa realidade diferente e até distante geograficamente.
Alia-se à juventude e à concentração do perfil industrial a dificuldade da captura do peixe, por não existirem subsídios para apoiar os momentos de maior escassez. Falamos também de desregulação completa do trabalho. As jornadas são absolutamente impressionantes. Enquanto houvesse peixe, tinha de se trabalhar: 13, 14, 15 horas. E quando o peixe chegasse à lota, tinham de ir. Às quatro da manhã os barcos vinham do mar, tocavam as sirenes das fábricas, alguém de bicicleta ia chamar as operárias respetivas e a essa hora tinham de ir para o trabalho, até acabar o peixe. Este é um setor também de grande responsabilidade das mulheres: homens no mar, a maior parte das mulheres nas fábricas.
Ao contrário da PIDE, os crimes perpetrados pela PSP e pela GNR têm passado em claro.
Existe também o carácter pioneiro dos soldadores. Foram uma espécie de “elite operária”, porque tinham uma competência técnica superior aos restantes, com ferramentas próprias. Foram os primeiros, assim que, ainda na monarquia, foi legislado o direito à criação de associações de classe, a criarem a sua, em 1891, e a recorrerem à greve como plataforma de reivindicação de aumentos salariais e de outros tipos de regalias ou direitos.
Quanto à segunda questão, releva a vinda de franceses para cá, pensando que o sindicalismo tem em França praticamente o seu berço. Para a formação técnica deste setor nos anos 80 e 90 do século XIX, existiu uma microcolónia de franceses em Setúbal, de homens que vieram para cá viver e ensinar durante muito tempo como é que se trabalhava com as máquinas. Dizem que isso contribuiu (uma das teorias, também não está cientificamente comprovada) para que em Setúbal se carregue nos “Rs”, por essa influência da língua francesa, conotada com o “falar bem”. Esta presença pode ajudar a compreender a introdução destas ideologias no contexto local. O socialismo, apesar de ter muito menor peso nos operários, onde o anarco-sindicalismo é muito mais hegemónico, é divulgado graças a um jornal durará cerca de vinte anos, O Trabalho, dirigido por Manuel Luís Figueiredo, um socialista muito importante a nível nacional, que viveu os últimos 25 anos de vida em Setúbal, produzindo um semanário com 800 números! Os jornais sindicalistas também tiveram relevância, através do advogado José Martins dos Santos ou do barbeiro José Quaresma, num jornal que é o Germinal, já posterior, que teve 10 anos de existência. Também estes periódicos podem ter sido uma forma de galvanizar estas pessoas para estes ideários. Há uma conjugação de fatores: esta imprensa periódica, o espaço sindical, a juventude, o perfil monoindustrial…
Maio: Para concluir esta entrevista, pergunto se apesar do avanço que esta edição nos permite na compreensão dos fuzilamentos de Setúbal, consideras que há ainda uma lacuna na investigação histórica sobre a agitação social e operária do período da Primeira República e sobre o papel do Estado republicano na sua repressão?
DF: Há muitos historiadores que felizmente se têm dedicado a estudar essa matéria, acho que o Prof. Fernando Rosas, por exemplo, teve esse cuidado, e mesmo numa historiografia mais recente sobre a Primeira República, acho que já tem havido esse cuidado de não a endeusar. Eu diria, não tanto para a República, mas para o período do Estado Novo, que me parece que há lacunas muito sérias sobre como é que a PSP e a GNR têm passado em claro pelos crimes que perpetraram até ao 25 de Abril, na sua ação repressora no terreno, em nome da polícia política. Aí eu acho que há uma grande lacuna porque a história local da resistência é uma coisa que ainda está muito por trabalhar. Nós vamos ver os processos políticos na PIDE dos mais de trezentos presos políticos de Setúbal e talvez 95% deles nunca tinham sido consultados.
O que está feito é sobre as grandes figuras, prisões políticas e momentos. A PSP teve um papel decisivo nesta repressão, tal como, nos campos, a Guarda Republicana. Aí sim, acho que falta ainda a historiografia e as instituições terem a coragem de sarar as próprias feridas e cicatrizes, sem nenhum tipo de complexos, sem justiça histórica ou indemnizações, não é disso que se trata. Mas, ao contrário da PIDE, os crimes perpetrados pela PSP e pela GNR têm passado em claro.
Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.
ilustração: Ricardo Ferreira
As eleições búlgaras, realizadas logo a seguir às húngaras, foram interpretadas pelos meios de comunicação italianos como sinal em contramão com a liquidação de Orbán, portanto como sinal “eurocéptico” e, logo, pró-russo. Interpretação decididamente parcial. Poucos recordaram que a Bulgária acolhe quatro bases militares dos EUA desde 2006, com 2500 soldados em regime de rotação. Uma delas fica em Bezmer, a menos de 100 km do Mar Negro. E foi em Bezmer que, em Dezembro de 2025, a italiana Crosetto assinou com a Bulgária um acordo para a construção e gestão conjunta de uma nova infra-estrutura militar.
Uma correcta interpretação destas eleições deve ter em conta o quadro internacional global. Estamos a falar de um pequeno país com 6,6 milhões de habitantes (dos quais 1,4 milhões emigraram para o estrangeiro), em constante declínio demográfico1, o mais pobre da Europa2, a quem a recente entrada na zona euro não fez bem — zona da qual, e não é mero acaso, a Hungria não faz parte. País que, ainda assim, devido à sua localização geográfica perto dos estreitos que comunicam com o Mediterrâneo, de frente para a Rússia, a Turquia e o Médio Oriente, pode negociar em várias frentes, e não apenas no contexto da guerra na Ucrânia.
Embora se tenda a falar menos disso, a guerra na Ucrânia (no matadouro ucraniano) ainda está em curso. Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.
Regresso ao passado?
Para compreender a política búlgara, é necessária uma breve incursão pela sua história. Em ambas as guerras mundiais, a Bulgária esteve do lado dos perdedores e, na segunda, ao lado da Alemanha. Em Ialta, foi concedida pelos EUA à esfera de influência da URSS. Antes da queda do Muro de Berlim (1989), a Bulgária foi o país mais fiel às directrizes estalinistas e pós-estalinistas. Depois, consolidou-se, tal como na Rússia ou na Ucrânia, o poder dos oligarcas, na linha da antiga política de autoritarismo real dos Saxe-Coburgo. Até meados da década de 1980, o país era predominantemente agrícola. [Não por acaso, nos movimentos de massas depois da Primeira Guerra Mundial, os mais activos não foram os operários, como na Hungria ou na Alemanha, mas os camponeses pobres ou pequenos proprietários de terras.]
No pós-guerra, a Bulgária aceitou o papel de ajudante da política externa da URSS, enviando armas e soldados em apoio aos movimentos de libertação apoiados pela URSS (Vietname, Indonésia, Angola, etc.), mais tarde aos regimes amigos (10 mil búlgaros enviados para a Líbia em 1984, participação na invasão russa do Afeganistão em 1980), constituindo uma espécie de prefiguração do grupo Wagner. Como a Checoslováquia, a Bulgária foi frequentemente acusada pelo Ocidente de vender armas a “terroristas” ou revolucionários.
Tal como a URSS e os restantes países do Leste, o país abriu-se à penetração de tecnologia e capitais da Europa Ocidental, em primeiro lugar da Alemanha, logo no início dos anos 70. De entre os vários países do Comecon, tinha a mais elevada taxa de trocas comerciais com a Europa Ocidental.
Após o colapso da URSS, em 1989, as primeiras eleições foram vencidas pelo Partido Socialista, as novas vestes envergadas pelos antigos estalinistas “democratizados”, mas entre 1992 e 1994 uma nova vaga de partidos liberais encarregou-se de lançar um plano de privatizações. As indústrias privatizadas, pouco competitivas e sem o apoio de infra-estruturas adequadas, faliram na sua maioria, provocando vagas de despedimentos. Isso explica o frequente regresso ao governo dos socialistas, que se apresentavam como defensores dos trabalhadores empobrecidos contra os excessos do mercado livre, ao passo que a população mais idosa sentia saudades dos serviços de saúde e da escola do antigo regime soviético.
Pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza.
Muito rapidamente, pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza. Recorde-se que, de 2001 a 2005, o governo búlgaro foi chefiado por Simeão de Saxe-Coburgo, filho do “czar” búlgaro Boris III. Não vale muito a pena acompanhar as idas e vindas eleitorais; pode-se, em resumo, dizer que, na era pós-soviética, o desemprego e a emigração foram uma constante, enquanto os níveis de vida, depois de se despenharem durante alguns anos, foram melhorando muito lentamente.
Se, no período da URSS, a única indústria que se desenvolveu em grande escala foi a siderúrgica (também graças à existência de lenhite e ferro), com, em segundo plano, a têxtil e agro-alimentar (além da transformação do tabaco), em meados dos anos 90 inicia-se a diversificação industrial, com o desenvolvimento da mecânica e da química.
Intervenção dos EUA e da Europa
Após o colapso da URSS, também na Bulgária houve uma intervenção financeira americana substancial (mais de 600 milhões de dólares até 2007), que levou o país à NATO em 2004 (com a ajuda do já mencionado Simeão de Saxe-Coburgo). Confirmando a tendência de se colocar ao serviço do mais forte, a Bulgária enviou contingentes militares para a Bósnia em 1996 e para o Kosovo em 1999 (missões contestadas pelo Partido Socialista pró-russo). Outros contingentes foram enviados para o Afeganistão de 2001 a 2014 e para o Iraque de 2003 a 2005, ao lado dos EUA.
Tal como aconteceu com muitos outros países da Europa de Leste, a adesão à NATO precedeu a adesão à UE, que ocorreu em 2007. A entrada na UE implicou o acesso a financiamentos substanciais, sobretudo para a agricultura (PAC)3. Intensificou-se, porém, o massacre social liberal. Uma sondagem de 2009 indicava que 76% dos búlgaros se consideravam insatisfeitos com o sistema democrático, 63% achavam que o mercado livre não melhorava a vida das pessoas, e apenas 11% dos búlgaros concordavam que a população comum tinha beneficiado das mudanças após 1989. Nesta avaliação categoricamente negativa, pesavam de maneira determinante os efeitos sobre os trabalhadores da entrada na esfera de influência ocidental.
A entrada da Bulgária na NATO e na UE não alterou a grande dependência do petróleo russo, fornecido principalmente pela Lukoil, que garantia até 80% das necessidades energéticas do país, a que se juntou posteriormente o gás do Azerbaijão. Tudo mudou em 2022 com a guerra na Ucrânia.
Antes das eleições
A política dos partidos burgueses deu escassíssima resposta às contradições sociais mais agudas do país. O Parlamento fragmentou-se: às eleições de 2026 apresentaram-se 24 partidos e coligações. Daí a incapacidade de criar governos estáveis e eficazes e o recurso contínuo a eleições antecipadas (oito nos últimos 5 anos)4. As eleições legislativas de 2026 foram o resultado dos protestos em massa de Dezembro de 2025 contra o projecto de orçamento para 2026, que previa aumentos dos impostos e contribuições sobre os salários. Um orçamento, reflexo de uma sociedade em que o parasitismo de poucos ricos era pago por muitos, com as desigualdades sociais em constante aumento (os 20% mais ricos possuem 8 vezes mais do que os 20% mais pobres; média da UE: 4,9 vezes)5.
O plano foi retirado, e o Presidente da República, Rumen Radev, que agora venceu as eleições, dissolveu o Parlamento, criou, em Março, o seu próprio partido, Bulgária Progressista, e propôs-se a si próprio como solução para os problemas, na tradição populista do homem forte.
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A proposta política de Radev
Neste contexto, Rumen Radev, ex-general, ex-piloto de elite da Força Aérea, ex-Presidente da República (2017-2026), eleito com os votos do Partido Socialista de ascendência estalinista, não é propriamente um homem novo, tal como Magyar não é novo em relação a Orban. Venceu com 44,7% dos votos, conquistando 130 lugares em 240.
Conseguiu convencer os búlgaros a voltarem às urnas (48,5% do eleitorado votou, contra 33% em 2024), agitando não temas internacionais, mas propostas sociais, acompanhadas pelo apelo aos valores nacionais e patrióticos: o orgulho de pertencer ao povo eslavo e à Igreja Ortodoxa, mas sempre ostentando grande pragmatismo. Foi esta combinação hábil que lhe granjeou credibilidade junto das massas.
Entre as suas propostas sociais (que resta ver se serão cumpridas): aumentar as pensões, adaptar os cuidados de saúde às necessidades das pessoas com deficiência e idosas, garantir água potável a todos (actualmente, especialmente nas cidades, o abastecimento diário não ultrapassa três horas), melhorar os transportes públicos.
Radev levantou também o tema da luta contra a corrupção e os métodos mafiosos que caracterizam o modelo oligárquico6. Os protestos contra a corrupção tinham ocasionado manifestações generalizadas em 2020. A palavra de ordem anti-corrupção é menos uma exigência moral ou cívica e mais uma resposta à necessidade do capitalismo búlgaro de racionalizar o sistema produtivo e reduzir o parasitismo.
Uma análise recente da OCDE aponta para a necessidade de enfrentar o envelhecimento da força de trabalho, a fuga de mão-de-obra e de cérebros jovens para o estrangeiro devido a salários demasiado baixos, mas também a baixa produtividade. Não há massa suficiente de capital investido e, para atrair capital estrangeiro, já não bastam salários baixos; é necessário adequar as competências da mão-de-obra, investindo em cursos profissionais. É preciso reduzir “os obstáculos regulamentares” (leia-se: cortar nos subornos aos funcionários que emitem licenças de investimento, cortar nas luvas exigidas pelos mafiosos) e, por fim, é preciso modernizar a infra-estrutura. O país deu um exemplo de ineficiência no caso do PNRR. Havendo fundos europeus no valor de 6700 milhões de euros, o governo só conseguiu gastar 1400 milhões em 2025. Outro fracasso parcial foi a adesão ao espaço Schengen em 2024, pois o país não aplica Schengen nas fronteiras terrestres. Estas, as observações da OCDE. É muito duvidoso que possam ter impacto positivo na condição dos proletários e dos camponeses búlgaros.
Os meios de comunicação italianos têm vincado o eurocepticismo de Radev. Mas é facto assente que a classe dirigente búlgara não pode renunciar às copiosas subvenções europeias, nem ao mercado europeu. Actualmente, 65,7% do comércio da Bulgária é com a UE; o principal parceiro é a Alemanha, com 13,5%. Só o plano da UE para 2021-27 previa para a Bulgária a concessão de 17 mil milhões de euros (incluindo os 6700 milhões de fundos do PNRR).
Radev opôs-se simplesmente à entrada da Bulgária na zona euro a 1 de Janeiro de 2026. Em Dezembro, apenas os bancos, o comércio e as empresas previam tirar partido disso. Em contrapartida, entre a população, sobretudo os mais desfavorecidos, 6 em cada 10 búlgaros eram contra. Os trabalhadores, justamente, sabendo do acontecido nos países que foram aderindo ao euro, temem uma vaga de aumentos de preços, que, neste caso, se somaria ao aumento dos custos energéticos já ocorrido devido à guerra na Ucrânia, que a UE erigiu em sua razão “existencial”. Radev, na qualidade de Presidente da República, cavalgando o descontentamento, definiu a adesão ao euro como “prematura”, solicitando um referendo, o que foi rejeitado pelo Tribunal Constitucional7.
Radev foi apresentado como pró-russo com base no seu entendimento (realista) de que era preferível ter petróleo proveniente de países vizinhos (incluindo a Rússia, além do Azerbaijão) a preços mais convenientes a abastecer-se de GNL americano a custos muitíssimos mais altos. Diga-se que o partido pró-russo mais coerente, os socialistas, não entrou no parlamento, tendo-se ficado por 3,02% dos votos.
É evidente que, para a Bulgária, restabelecer as relações energéticas com a Rússia teria valia estratégica, porque poria o país a salvo de eventuais cortes no abastecimento e, sobretudo, por ser muito mais económico.
Além disso, a Bulgária poderia desempenhar o papel de país de trânsito para o petróleo russo ou azeri se a Europa voltasse a comprar à Rússia, pois passam pelo seu território muitos oleodutos e gasodutos (por exemplo, o Turkstream). A Hungria de Magyar conseguiu acesso ao petróleo russo, por que não a Bulgária?
Sobre a guerra na Ucrânia – um desmentido mais das narrativas dominantes — Radev definiu a Rússia como “agressor”, mas sem partilhar a atitude belicista de países como a Polónia ou as repúblicas bálticas; declarou, ainda, ser contrário ao fornecimento de armas a Kiev — declaração a tomar, porém, com pinças. Desde 2023, a Bulgária aumentou as suas exportações de armas em 900%. E o principal comprador foi precisamente a Ucrânia de Zelensky. Isto na prática, não nas evidências diplomáticas: as exportações de armas e equipamento militar passaram por países terceiros, nomeadamente a Polónia e a Roménia. Uma “triangulação” à qual a Bulgária decerto não renunciará, visto representar uma das receitas mais lucrativas da sua andrajosa economia.
A declaração de Radev insere-se, portanto, na lógica da “moeda de troca” típica dos países mais fracos da UE e representa, diga-se, um piscar de olhos a Trump, para o caso de este querer continuar a tentar alguma abertura à Rússia para quebrar o eixo desta com a China. A burguesia búlgara está sempre pronta, como a sua história demonstra, a servir o melhor licitante. Certamente um problema para a Europa, ou pelo menos para a Alemanha e França, face aos EUA.
Traduzido e adaptado do artigo “Bulgaria: la paura dell’euro fa vincere Radev”, in Il Pungolo Rosso”, 5 de Maio de 2026, por Adriano Zilhão.
Em 1989, a Bulgária tinha 8,7 milhões de habitantes.
O rendimento médio mensal é de cerca de 15 mil € contra uma média europeia de 40 mil.
Ainda em 2014, 82% das empresas agrícolas, nascidas da desagregação das cooperativas estatais, dispunham apenas de cerca de 2 hectares. A agricultura ocupava 18% da população activa. A fraca produtividade foi em parte compensada pelo desenvolvimento do sector agro-alimentar.
A dispersão de votos é corrigida pelo limiar de 4%. Por exemplo, nas recentes eleições, ultrapassaram-no: Gerb – SDS, partido ainda no governo, com o primeiro-ministro Rossen Jelyakov, pró-europeu e de centro-direita, dirigido por Boyko Borissov; caiu para 13,4% dos votos (39 lugares); Bulgária Democrática PP-DB, obteve 12,62% (37 assentos); O Movimento pelos Direitos e pela Liberdade (DPS) obteve 7,12% (21 assentos); Renascimento (Vazraždane), de extrema-direita, obteve 4,26% e 13 assentos.
Um dos instrumentos para aumentar as desigualdades sociais é o sistema tributário – a taxa de imposto única de 10% (flat tax), defendida pelos liberais.
Um dos oligarcas mais comentados, influente nos negócios e na política, é Delyan Peevski, chefe do partido Movimento pelos Direitos e Liberdades (Dvizhenie), ex-magnata dos meios de comunicação social, membro do Parlamento, sancionado por corrupção nos EUA e no Reino Unido.
A Bulgária é o 21.º país a entrar na zona euro, da qual não fazem parte a Suécia, a Dinamarca, a Polónia, a Roménia, a República Checa e a Hungria.
De uma penada, aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado, rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando são rotulados de tecnofóbicos e olhados com sobranceira repugnância. Seriam os novos luditas que, assim reza esta versão da história, teriam sido contra o desenvolvimento tecnológico, a inovação e o futuro.
Num mundo onde a evolução devia
Livrar-nos do esforço ingrato
Para a humana criação
Se nos tira esse prazer
Pra que serve então?
AI, Cara de Espelho, 2026
A propósito de inteligência artificial generativa (IA), sobre a qual, só em 2026, já se escreveram milhares de artigos científicos, ensaios, crónicas e textos de opinião (alguns deles claramente gerados por chatbots porque o tom monocórdico do mangas de alpaca não engana), um dos epítetos com que são brindados aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado (se eu tivesse um euro por cada vez que li ou ouvi a expressão “não se pode parar o vento com as mãos” já não precisava de trabalhar), rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando, é a de serem neoluditas.
De uma penada, são rotulados de tecnofóbicos e olhados com o esgar de sobranceira repugnância que habitualmente se lança a quem não embarca no deslumbramento tecnológico vigente. Os luditas, assim reza esta versão da história, teriam sido contra o desenvolvimento tecnológico, a inovação e o futuro. Eram gente ignorante e dogmática que via uma máquina a vapor e tratava logo de a destruir com uma moca. Hoje, saltando da revolução industrial para a digital, seria a vez de os neoluditas fazerem o mesmo com portáteis, tablets, smartphones, aspiradores, frigoríficos e quaisquer outros dispositivos digitais assentes em IA. Dois mundos diferentes, um mesmo inexorável destino – o seu triste fim.
Mas será que esta leitura faz jus ao papel desempenhado pelos luditas no contexto da revolução industrial? Que lições dessa história podemos nós retirar para melhor lidar com as circunstâncias atuais? Que caminhos podemos trilhar para que a IA seja colocada ao serviço de quem vive do seu trabalho? Este é o exercício que pretendo desenvolver neste texto e, para isso, começo por recuar no tempo para delinear os contornos do movimento liderado pelo “general Ludd”, passando depois à leitura da IA enquanto campo de batalha político-ideológica, concluindo com algumas notas a propósito da necessidade de desenvolver um projeto socialista para a IA.
Rage Against the Machine, ou talvez não
Embora não seja clara a origem da expressão ludita e exista um interessante debate historiográfico em torno desta matéria e assuntos conexos, em “Luddite Lessons”1 remete-se para um conjunto de atos de sabotagem, motins e ataques variados levados a cabo na segunda metade do século XVIII, que se prolongam pelo século XIX, por parte de artesãos do sector têxtil que, percebendo que o capitalismo industrial ameaçava as suas condições de subsistência e não tendo qualquer instância de mediação e/ou representação política formal, optaram por seguir a via da ação direta e dos protestos violentos, que dirigiam tanto à maquinaria como aos barões da indústria. A sua atuação era geograficamente muito localizada e não existia nenhuma estrutura organizada que articulasse as lutas em todo o Reino Unido. Neste contexto, emerge a figura (provavelmente mitológica) de Ned Ludd, uma espécie de Robin Hood de uma classe trabalhadora que se debatia com inúmeras desigualdades e injustiças.
O ludismo é, por isso, a um tempo, sintoma de mal-estar e manifestação de descontentamento social. A sua acção não decorria de um qualquer delírio tecnofóbico ou hostilidade primária contra a maquinaria, correspondendo, isso sim, à manifestação de um sentimento profundo de injustiça relativamente àqueles – os patrões da industrialização – que enriqueciam devido à degradação das condições de vida dos trabalhadores (muitos deles artesãos ou camponeses convertidos em operários) e à apatia de governos que não demonstravam qualquer vontade de intervir com vista à regulação das relações laborais2. Tratava-se, por isso, de um projeto político e económico que, através de um repertório diversificado de práticas subversivas (para E. P. Thompson tratava-se de um movimento quase insurrecional3), procurou rebelar-se contra os efeitos da industrialização sobre as vidas concretas dos trabalhadores e melhorar as suas condições de vida. Pretendia, essencialmente, assegurar os meios de subsistência mais básicos como, por exemplo, acesso a alimentação e vestuário, e limitar o recurso ao trabalho infantil. Neste sentido, o seu contributo para despertar consciências em torno da necessidade de construir uma sociedade mais igualitária e de denunciar o custo humano da mudança económica não pode ser descartado como irrelevante.
Para os luditas, a máquina não era simplesmente um sofisticado artefacto tecnológico feito de diversas peças, roldanas, manivelas e pedais que importava destruir. Ela significava o lugar onde o poder se materializava, era o símbolo maior da concentração de poder obscena do grande industrial e, ao mesmo tempo, da perda de autonomia e controlo sobre o tempo da vida quotidiana por parte dos trabalhadores assalariados. Os luditas não eram, por isso, antitecnologia, mas sim militantes em prol de sociedades menos desiguais que, frequentemente, desencadeavam a sua ação na sequência de episódios pontuais de flagrante injustiça social (ex: despedimentos em massa, cortes salariais, colheitas pobres, etc.). Na verdade, tratando-se maioritariamente de artesãos, correspondiam às camadas sociais mais qualificadas e dotadas de competências técnicas especializadas. Longe de serem tecnologicamente incapazes, seriam provavelmente as pessoas mais capazes de levar a cabo uma crítica qualificada do desenvolvimento tecnológico e dos seus efeitos sociais, económicos, culturais e políticos.
Com efeito, como assinala Steven E. Jones em Against Technology: From the Luddites to Neo-Luddism2, como especialistas no uso da tecnologia do seu tempo, que era justamente aquilo que lhes permitia ganhar a vida, os luditas procuravam essencialmente proteger o seu direito à tecnologia e não, como na habitual caricatura depreciativa, advogar o regresso a um tempo idílico e pré-tecnológico.
Tanto os luditas, no passado, como os neoluditas, hoje, parecem desempenhar uma função social da maior relevância, contestando a noção de que o desenvolvimento tecnológico é um fenómeno natural e não produto de escolhas humanas.
Dois séculos volvidos e, em 2015, Stephen Hawking, Elon Musk e Bill Gates seriam co-nomeados para o Luddite Award por manifestarem publicamente as suas reservas relativamente à evolução da IA5. Destacadas figuras do pensamento contemporâneo como Rachel Carson, Jacques Ellul, Ivan Illich, Langdon Winner ou, mais recentemente, Evnegy Morozov seriam também merecedoras desse epíteto6. O simples facto de se manifestar cepticismo relativamente ao sentido do desenvolvimento tecnológico ou de se expressar algum distanciamento crítico relativamente a entendimentos meramente virtuosos da inovação, sem ter em conta os inúmeros riscos e potenciais consequências nefastas destes processos sócio-técnicos, leva à colagem de rótulos como, por exemplo, o de neoludita, que operam sobretudo enquanto dispositivos estigmatizantes que inviabilizam a possibilidade do diálogo, da crítica e, em última instância, do pensamento.
O ludismo, sublinha-se em Breaking Things at Work7, encerra em si uma perspectiva crítica da tecnologia, sobretudo no que diz respeito aos seus efeitos sobre os processos produtivos e as condições de trabalho – a tecnologia não é neutra, mas sim um campo de batalha –, rejeita a lógica do aumento da produtividade e da eficiência como fins últimos a alcançar e assume uma condição eminentemente contrária às relações sociais do capitalismo, independentemente de este assentar na máquina a vapor ou no microchip8.
Neste sentido, tanto os luditas, no passado, como os neoluditas, hoje, parecem desempenhar uma função social da maior relevância, contestando a noção ingénua de que o desenvolvimento tecnológico é um fenómeno natural e não o produto de escolhas humanas (políticas, institucionais, jurídicas, etc.). Para além disso, ao fazerem das estruturas e sistemas de poder o objeto do seu questionamento, manifestando preocupações existenciais sobre o presente e o futuro, contribuem para um entendimento mais abrangente do desenvolvimento tecnológico, criando as condições necessárias para que a politização do debate em torno da tecnologia possa ocorrer. Que é como quem diz, a disputa pelo poder.
(continua)
Cassidy J (2025) Luddite Lessons. The weavers lost the fight to save their livelihoods. As A.I. looms, can we do better? The New Yorker, April 21, p. 20-24.
Para aprofundar a compreensão sobre quem eram os luditas e como se organizavam ver, por exemplo, Bailey B (1998) The Luddite Rebelion. New York University Press.
Alonso A, Arzoz I (2021) El desencanto del Progreso: Para una crítica luddita de la tecnología. Editorial Dykinson, p.31.
Mueller G (2021) Breaking Things at Work: The Luddites Are Right about Why You Hate Your Job. Verso Books.
Ver, para uma crítica profunda do “capitalismo tecnológico”, Sadowski J (2025) The mechanic and the Luddite : a ruthless criticism of technology and capitalism. University of California Press.
Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)
Se o Estado prefere tanques, Senhora Directora da PIDE das Almas, eis a minha declaração sob tortura: confesso o verso escondido na sola do sapato, a metáfora que fugiu pela janela do quarto de interrogatório, e o estribilho que os porões não calaram UM PAÍS É UMA GAIOLA COM HINO
A contabilidade do horror! Até os gemidos têm recibos em triplicado, e os poemas, esses subversivos, são revistados à porta do peito, enquanto a pátria, de farda, cataloga até o peso das lágrimas nos relatórios de segurança nacional.
Devolva-me o papel que o lápis engoliu de medo, o grito que o muro-de-berlim-do-avesso regurgitou em Lisboa, o instante em que o poeta, nu de palavras, cuspia sonhos no colo do verdugo.
Nota de rodapé do sistema: A arte é crime sem corpo de delito, mas a alma tem impressões digitais. Senhora Directora, cuidado com os arquivos da noite: há sílabas que disparam como balas perdidas.
E se o orçamento for uma balança, pesem isto:
o dinheiro para a guerra vem em sacos de ráfia, enquanto a cultura — migalhas em envelopes de veneno é servida com o sorriso do funcionário do terceiro inferno.
Mas ouça o segredo que os muros sopram: até a tinta invisível sangra, até um poema torturado guarda, sob as unhas, sementes de um alfabeto futuro.
Fátima Vale (Oshakati, Namíbia, 1975) é poeta e criadora cénica.
“Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)”
integra P.E.L.E. — Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026)
Escritor, romancista, diz que a literatura é uma vingança, vingou-se agora do Partido Fascista Chega criando um “Ventura” o Furão, vingou-se dos maus tratos dos patrões nas fábricas da lanifícios da Covilhã aos seus colegas de escola, ainda no Estado Novo; diz que a literatura está mal porque há uma crise geral de imaginação, não é capaz de viver sem rir, a sua mais poderosa arma, diz-se um emigrante sexual, que teve que ir para França para poder fazer amor livremente. Não percebe a falta de desejo que vê na cara hoje de jovens e não jovens, acha que as redes sociais ajudaram a matar o desejo. Quando, ainda na ditadura, um crítico literário disse mal de um livro dele mandou durante dois meses um carro funerário à sua porta.
Segundo o dicionário britânico da Collins, nome que designa a tentativa de maximizar a atratividade da própria aparência física. Segundo o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, “o tema já tem alguns anos nos media de língua inglesa, mas, em Portugal, só nos últimos meses as secções de moda e tendências da comunicação social lhe deram espaço”. É a “denominação de um conjunto de práticas para aperfeiçoar a aparência masculina, que surgiu nos anos 10 deste século e parece ser popular graças ao TikTok.”
EM NOVILÍNGUA:
Para além da particularidade de Marcelo Rebelo de Sousa ter qualificado como “rural” o primeiro-ministro Luís Montenegro (presume-se que por oposição a “urbano”), o que nos conduz à utilização novilinguística do adjetivo rural é a aproximação do verão e da “época dos incêndios”. Ora, de há alguns anos para cá, os incêndios, que têm como território predominante a floresta (em latim, silva), passaram a ser designados de “incêndios rurais”. Isso deve dar jeito às celuloses, grandes plantadores de eucaliptos, mas confunde e mascara a natureza da grande maioria dos incêndios. O espaço rural, o campo cultivado e habitado, é barreira natural aos incêndios e à sua progressão, não seu causador. ASP
A ULS Braga enfrenta problemas internos, instabilidade organizacional e uma pressão crescente para regresso a um modelo contestado pelos profissionais. Ora os dados científicos internacionais demonstram que os processos de privatização no setor da saúde raramente surgem em sistemas estáveis e bem financiados. Pelo contrário, desenvolvem-se em contextos de fragilidade organizacional, pressão sobre os profissionais e degradação progressiva das condições de funcionamento, criando o ambiente necessário para legitimar soluções alternativas como as PPP.
O momento atual vivido na Unidade Local de Saúde de Braga (ULS Braga) levanta preocupações sérias quanto à estabilidade organizacional, à qualidade dos cuidados e ao futuro do modelo de gestão da instituição.
A polémica recente na Unidade Local de Saúde de Braga (ULS Braga), marcada pelo confronto entre médicos e o Conselho de Administração, não deve ser analisada como um episódio isolado. Insere-se antes num padrão mais amplo e bem documentado na literatura internacional, que associa contextos de fragilidade organizacional à emergência da privatização ou de modelos como as parcerias público privadas (PPP).
Ao longo das duas últimas décadas, consultas e meios complementares de diagnóstico, assim como cirurgias, têm sido sujeitos a processos de privatização parcial, ou seja, através da externalização de serviços ou da gestão privada de unidades públicas. As provas científicas acumuladas demonstram que estes processos ocorrem em contextos de instabilidade, sobretudo em sistemas pressionados por constrangimentos financeiros, problemas de organização e desgaste dos profissionais.
“A perceção de ineficiência pode ser, ela própria, uma condição prévia para justificar essas soluções.”
Um dos contributos mais relevantes nesta matéria foi publicado recentemente no The Lancet Public Health, onde uma revisão sistemática conclui que o sustentação científica para a privatização da saúde é, na verdade, frágil. Segundo Goodair e Reeves (2024), a privatização hospitalar tende a associar-se a uma redução de custos conseguida sobretudo através da diminuição de pessoal e da seleção de doentes, frequentemente à custa da qualidade dos cuidados. Mais ainda, o estudo conclui que o crescimento da privatização está associado a piores resultados em saúde, incluindo maior mortalidade evitável em alguns contextos.
O estudo conclui que o crescimento da privatização está associado a piores resultados em saúde, incluindo maior mortalidade evitável em alguns contextos.
Este dado desmonta uma narrativa utilizada em debates públicos que vendem a ideia de que a privatização surge como solução para sistemas públicos ineficientes.
Na realidade, os dados da ciência sugerem o contrário, que a perceção de ineficiência pode ser, ela própria, uma condição prévia para justificar essas soluções.
Outro elemento central neste processo é a precarização do trabalho. Diversos estudos demonstram que condições de trabalho instáveis estão diretamente associadas a piores resultados organizacionais. Uma revisão sistemática recente conclui que o trabalho precário entre profissionais de saúde conduz a pior saúde física e mental, menor envolvimento profissional e maior rotatividade.
Adicionalmente, investigações sobre o impacto da precariedade evidenciam uma relação direta entre insegurança laboral, aumento do stress e diminuição da qualidade de vida dos trabalhadores, fatores que inevitavelmente se refletem no desempenho das equipas de saúde e na prestação de cuidados.
Estudos académicos sobre o caso português mostram que, embora as PPP possam apresentar indicadores de eficiência superiores em determinados períodos, existe controvérsia quanto à sua superioridade global face ao modelo público.
A própria análise crítica das PPP em Portugal sublinha que estas surgem frequentemente como resposta à necessidade de conciliar controlo financeiro com prestação de cuidados, refletindo mais uma opção de política pública do que uma solução tecnicamente incontestável.
Ou seja, quando um sistema apresenta sinais de fragilidades operacionais, organizacionais e laborais, cria-se o contexto ideal para a reintrodução de modelos de gestão privada.
Este padrão não é teórico e a sequência é conhecida: inicia-se por uma degradação do funcionamento, aumento da pressão sobre os serviços, construção de narrativa de falha e surgimento de soluções alternativas “mais eficientes”.
Os dados da ciência mostram que sistemas públicos robustos, estáveis e bem organizados dificilmente são substituídos. São, antes, aqueles que se apresentam fragilizados que se tornam mais permeáveis a mudanças estruturais.
Se cruzarmos estes elementos com o que hoje se observa na ULS Braga, percebemos que a precarização é um problema sistémico e contribui para a fragilização estrutural.
Os profissionais de saúde relatam falhas nos sistemas clínicos, desorganização operacional, perda de registos e dificuldades na resposta assistencial, problemas que configuram exatamente o tipo de deterioração funcional identificado na literatura como fator de risco para a instabilidade institucional.
A isto soma-se a saída de profissionais e um clima de tensão interna, visível no confronto recente entre médicos e administração.
Por outro lado, o próprio Conselho de Administração reconhece que o processo de transformação em curso gera perceções divergentes entre profissionais, o que evidencia uma quebra de alinhamento organizacional, outro indicador clássico
de sistemas em stress.
Nisto se apoia o debate político sobre a reintrodução de um modelo de gestão PPP no Hospital de Braga. O Hospital de Braga deixou de ser gerido em regime de PPP em 2019 não por uma decisão isolada ou meramente ideológica, mas porque não existiram propostas válidas que permitissem a continuidade ou renegociação do modelo naquele momento, realidade amplamente conhecida e noticiada à época.
Há posições recorrentes de responsáveis políticos e sinais, ainda que informais, pois não existe transparência neste processo, de que a transição para PPP está a ser acelerada.
A Câmara Municipal de Braga opôs-se ao fim desse modelo e nunca retirou da agenda a defesa da PPP, sendo essa uma posição persistente, o que levanta mais uma questão: a de se estamos perante uma decisão baseada em critérios técnicos e assistenciais, ou perante a concretização de uma vontade — ou teimosia — política?
Mais preocupante é o que começa a ser referido dentro da própria instituição. Existem gestores que dizem apoiar a PPP, mas que admitem, em conversas informais, que pedirão transferência para outras unidades caso essa mudança se concretize. O mesmo sucede com médicos que abandonaram o hospital durante o período de gestão privada, regressaram com a reversão para EPE e admitem sair novamente se o modelo voltar. Existe, assim, um risco real de perda de profissionais e agravamento da instabilidade.
A par desta realidade política, existe a narrativa da intenção de fazer evoluir a ULS Braga para uma unidade de natureza universitária. No entanto, não são conhecidos avanços concretos, modelos organizativos ou processos estruturados que sustentem essa transformação.
O que existe é um discurso político sem execução, em contraste com o que se está a fazer na Unidade Local de Saúde do Alto Ave (Guimarães), que se encontra atualmente a desenvolver trabalho concreto nesse sentido, organizando procedimentos, modelos internos e articulações institucionais, conforme relatado pelos próprios trabalhadores.
A instabilidade organizacional é agravada por um problema grave, que é a desvalorização recorrente dos trabalhadores.
Ao longo dos anos, nas estruturas de gestão pública, tem-se assistido à utilização sistemática de mecanismos de contratação precária, promovidos por estruturas de gestão de nomeação política.
Este modelo não é neutro é uma opção que replica práticas típicas de grupos económicos centrados na redução de custos à custa da vida dos trabalhadores, vínculos frágeis, ausência de estabilidade, salários baixos e limitação de direitos.
Na prática, o que se verifica é a manutenção de profissionais em situação de dependência permanente, sem condições para organizar a sua vida pessoal e familiar. Falamos de trabalhadores que, mesmo exercendo funções essenciais ao funcionamento do sistema de saúde, não têm segurança contratual suficiente para aceder a direitos tão básicos como o crédito à habitação.
Esta realidade não pode ser dissociada da dificuldade em fixar profissionais no Serviço Nacional de Saúde.
A conjugação de todos estes fatores, problemas de gestão interna, indefinição estratégica, pressão política e desvalorização dos trabalhadores está a produzir um efeito cumulativo na motivação das equipas.
Como é reconhecido até pelo próprio Conselho de Administração, os processos de transformação estrutural geram diferentes perceções e tensões internas.
No entanto, quando essas tensões se associam a falhas operacionais graves e à ausência de um rumo claro, o risco deixa de ser apenas interno e passa a refletir-se diretamente na qualidade dos cuidados prestados. O que está em causa é a segurança, qualidade e continuidade da satisfação das necessidades de assistência na saúde da população, e, para os profissionais comprometidos com uma assistência na saúde pública, sem qualquer discriminação por gravidade na doença, o modelo de gestão em PPP não pode ser aceite.
Qualquer decisão sobre o futuro da ULS Braga deve assentar em critérios transparentes, baseados em provas e centrados na defesa do Serviço Nacional de Saúde e não de quaisquer agendas políticas.
A experiência demonstra que instabilidade, precariedade e ausência de planeamento estratégico têm consequências diretas na capacidade de resposta dos serviços.
A defesa do SNS faz-se com investimento, com organização e com valorização efetiva dos seus trabalhadores, não com regressões nem com modelos que colocam em risco o futuro dos cuidados de saúde.
Os dados científicos internacionais demonstram que os processos de privatização no setor da saúde raramente surgem em sistemas estáveis e bem financiados. Pelo contrário, desenvolvem-se em contextos de fragilidade organizacional, pressão sobre os profissionais e degradação progressiva das condições de funcionamento, criando o ambiente necessário para legitimar soluções alternativas como as PPP.
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