Os inícios da organização operária internacional
Na luta do movimento operário não houve duas fases em sequência cronológica, primeiro sindical (em defesa do valor da força de trabalho) e, só depois, política (luta pelo poder na sociedade e pela abolição da exploração capitalista). Toda a luta de classes tendia a ser uma luta política.
Por volta de meados da década de 1840, já existiam núcleos importantes de organização em prol da emancipação social dos operários nos três principais países (ou projetos de países, no caso da Alemanha) da Europa: Inglaterra, França e Alemanha. A Liga dos Justos, embora inicialmente alemã, tinha-se espalhado pela Europa junto com os operários ou artesãos especializados daquela origem. Nenhum desses movimentos, porém, tinha o caráter e a influência de massas da Charter (ou “Carta”) inglesa, que atuava legalmente mediante petições ao Parlamento britânico. O vínculo entre a Liga (basicamente alemã) e os cartistas possibilitou uma nova síntese política para a luta dos trabalhadores. Como informa David Riazanov, os cartistas que haviam ingressado na Liga o fizeram com a condição de que pudessem manter sua ligação com o partido. O seu intuito era organizar uma espécie de núcleo comunista no cartismo, para ali expandir o programa e os objetivos dos comunistas. A Liga dos Justos tinha, apesar de os alemães serem preponderantes entre seus membros, um caráter internacional. Segundo o grande historiador da Liga, Bert Andreas, a Liga devia alguns traços de sua organização secreta às sociedades secretas neobabeuvistas com as quais as comunas da Liga em Paris tinham estreitas relações. Os membros da Liga estavam obrigados a difundir os princípios, fazer novos recrutamentos, fundar associações oficiais de operários e artesãos.
Foi somente nos grandes centros da Liga, em Paris e Londres, e mais tarde em Genebra, que as comunas tiveram uma existência e uma atividade contínuas, apoiando-se sempre em associações operárias públicas paralelas: Karl Marx, residente em Paris (onde ficou do final de 1843 até fevereiro de 1845, quando foi expulso por sua colaboração com o jornal democrático radical Vorwärts e partiu para Bruxelas) manteve-se nesse período à margem das sociedades secretas; não aderiu à Liga dos Justos, apesar de frequentar as suas reuniões na Rua de Vincennes, vigiadas pela polícia prussiana, e apesar da estima que tinha pelos artesãos comunistas, enquanto homens e lutadores: “Entre eles”, escreveu em 1844, “a fraternidade não é uma palavra vazia, mas uma realidade, e toda a nobreza da humanidade irradia desses homens endurecidos pelo trabalho”, nos quais ele admirava “o gosto pelo estudo, a sede de conhecimentos, a energia moral, a necessidade de desenvolvimento”.
Convidado pela Liga dos Justos a aderir a ela, Marx filiou-se no início de 1847. Sob sua influência, e a influência ainda maior de Friedrich Engels (que aderiu à Liga antes de Marx e convidou insistentemente o amigo a fazer o mesmo), foram adoptados novos estatutos, cujo primeiro artigo afirmava: “O objectivo da Liga é o derrube da burguesia, a dominação do proletariado, a superação da velha sociedade burguesa fundada no antagonismo de classes, e o estabelecimento de uma nova sociedade sem classes e sem propriedade.” A Liga foi reorganizada depois que Marx e Engels exigiram que se suprimisse dela tudo o que favorecesse a “superstição autoritária”, favorecida pelo seu caráter secreto e conspirativo. Colocou-se desse modo um fim a todo o tipo de conspiração, que requeria métodos ditatoriais da direção, e a atividade da Liga concentrou-se na propaganda pública, pelo menos quando isso fosse possível. O congresso da Liga aprovou a publicação de uma revista, cujo único número apareceu em setembro de 1847, com o título de Revista Comunista. Nesse número apareceu como epígrafe, substituindo o antigo lema da Liga: “Todos os homens são irmãos”, o indicado por Engels sob sugestão de Marx: “Proletários de todos os países, uni-vos!” O internacionalismo operário, iniciado pelos operários grevistas de Manchester e Lyon em inícios da década de 1840, virava programa político.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Existia já na Inglaterra uma classe operária nascida da fábrica, que fazia valer suas reivindicações através do poderoso movimento cartista; havia alguma liberdade de reunião e de associação; havia, além dos numerosos operários e artesãos de todos os países europeus, exilados políticos franceses, alemães, italianos e polacos de todas as opiniões. O cartismo testemunhou o despertar político da classe operária no cenário social. Com base no programa democrático, organizou manifestações de massas, e até uma greve geral em 1842, que abarcou mais de cinquenta mil operários, e que inaugurou a prática dos “piquetes móveis”, depois mundialmente difundida. A ação dos cartistas foi eficiente, eles conseguiram mudanças efetivas, tais como a primeira lei de proteção ao trabalho infantil (incluída na Factory Act), a lei de imprensa (1836), a reforma do Código Penal (1837), a regulamentação do trabalho feminino e infantil, a lei de supressão dos direitos alfandegários sobre os cereais (esta, em aliança com os políticos liberais e a burguesia industrial), tornando-os mais baratos para o consumo do povo, a lei das associações políticas.
A luta dos trabalhadores contra o capital foi, portanto, em escala histórica e internacional, a consequência das contradições que, no sistema de produção capitalista, opunham o capital ao trabalho assalariado. Essa luta atravessou diversas fases: as primeiras reações anticapitalistas dos trabalhadores focaram-se nos instrumentos da dominação capitalista (as máquinas, as leis contra a “ociosidade”, das quais se tentava fugir), para só depois atacarem as próprias relações sociais, baseadas na propriedade privada burguesa dos meios de produção, que forneciam sustentação a esses instrumentos. O movimento operário organizado foi o resultado da percepção, pelos trabalhadores, do caráter irreconciliável das contradições de classe.
A organização independente de classe, surgida da concentração física e social da classe operária, expressava a ideia de uma luta de longo prazo, onde o que estava em jogo era o próprio poder, “a exigência da apropriação de todos os meios de produção em nome da sociedade pelo proletariado elevado à direção política exclusiva”, nas palavras de Engels. Em que, pesem os avanços sociais, o capitalismo apresentava a clara tendência para a diminuição da parte dos salários na totalidade da riqueza produzida. A distribuição da riqueza social entre o capital e o trabalho tornou-se ainda mais desigual. Nas palavras de Karl Marx, “com o mesmo capital, o capitalista controla uma quantidade maior de trabalho. O poder da classe capitalista sobre a classe operária cresceu, a posição social do trabalhador piorou, desceu um degrau mais abaixo da do capitalista”. A tendência para a miséria social relativa se transformava em tendência para a miséria social absoluta em períodos de crise, o que afetava de modo especial os antigos artesãos qualificados transformados em operários de fábrica. Nas primeiras crises capitalistas, o papel de vanguarda dos artesãos qualificados nas lutas operárias foi documentado pelos historiadores.
A organização independente de classe, surgida da concentração física e social da classe operária, expressava a ideia de uma luta de longo prazo, onde o que estava em jogo era o próprio poder.
Os trabalhadores das primeiras indústrias de produção massiva desempenharam um papel relativamente passivo em períodos de conflitos sociais produzidos pelas crises, embora os potenciais trabalhadores fabris criados pelos processos de decomposição dos pequenos produtores mercantis e camponeses amiúde resistissem ao próprio trabalho assalariado capitalista. A maior parte da mão de obra nas indústrias capitalistas de bens de consumo era composta por mulheres e crianças, que enfrentavam enormes obstáculos na sua luta pela igualdade no mercado de trabalho e também por assumir um papel no movimento operário (por exemplo, nas primeiras greves na indústria têxtil e do vestuário). As mulheres se faziam menos ilusões no referente à importância de suas capacidades individuais na produção capitalista, e não possuíam os mesmos direitos políticos e o mesmo poder dos homens.
Foram necessárias décadas de luta para superar esses problemas e unificar o conjunto da classe operária, com independência de sexo, nacionalidade, raça ou idade. Gradualmente, foi se impondo a consciência de que qualquer luta que se limitasse a “melhorias” na condição dos trabalhadores não conseguiria inverter a tendência para a crescente miséria social: “A organização dos trabalhadores, sua sempre crescente resistência, é possível que operasse como muro de contenção contra o aumento da miséria, mas o que aumentava com certeza era a insegurança da existência”. As condições de trabalho e de vida se tornavam cada vez mais incertas com o avanço do capitalismo.
Essa era a base da tendência objetiva para uma luta contra as próprias bases do regime de produção do capital. Marx notara que “os efeitos de todos estes avanços sobre o salário relativo dos operários são o resultado mecânico da produção mercantil e do caráter de mercadoria da força de trabalho. E por isso que a luta contra a queda do salário relativo traz em si a luta contra o caráter de mercadoria da força de trabalho, isto é, contra a produção capitalista em seu conjunto. A luta contra a queda relativa do salário já não é uma luta que se desenvolve no terreno da economia mercantil, mas um assalto revolucionário, subversivo, contra a existência dessa economia, é o movimento socialista do proletariado”.
Através do movimento operário, a luta inicialmente dispersa dos trabalhadores se transformou em luta de classe. O movimento operário, inicialmente, retomou as formas de luta características dos movimentos e classes oprimidas que o precederam: escravos, plebeus, artesãos, camponeses. Mas não se limitou a retomá-las: também as reformulou, de acordo com as novas condições de produção, criando formas específicas de organização. Na luta do movimento operário, porém, não houve duas fases em sequência cronológica, primeiro sindical (em defesa do valor da força de trabalho) e, só depois, política (luta pelo poder na sociedade e pela abolição da exploração capitalista). Toda a luta de classes tendia a ser uma luta política. No berço histórico do movimento operário (a Inglaterra), os sindicatos, de um lado, e as organizações e reivindicações políticas (sufrágio universal, parlamento aberto aos representantes dos trabalhadores), do outro, surgiram paralelamente. As primeiras grandes vitórias da classe operária na luta em defesa da força de trabalho foram produto de movimentos de natureza e conotações claramente políticas.
A luta sindical e a ação política operária não estiveram separadas por períodos históricos diferenciados: foram duas faces de uma mesma atividade de classe. O pensamento socialista contemporâneo surgiu junto com o próprio capitalismo, expressando a sensibilidade de diversos setores sociais, ou de pessoas oriundas de classes sociais diversas, em relação ao caráter dramático e destrutivo das contradições e catástrofes sociais geradas pelo sistema capitalista. A maioria dos pensadores socialistas ficou convencida de que essa desagregação social só teria fim com a abolição da propriedade privada dos meios de produção. Ao mesmo tempo, teve consciência de que as novas forças produtivas criadas pelo capitalismo (o sistema industrial) tornavam possível a realização prática de uma sociedade socialista baseada na propriedade coletiva dos meios de produção, ideia cuja formulação precedera em muito o próprio capitalismo, e que fora inicialmente apresentada dentro de ideologias religiosas. Com a organização de classe dos trabalhadores, que foi internacional desde seus primórdios, sob o novo jugo do capital, essas ideias foram gradualmente se desvencilhando de seu invólucro religioso.