O novo filme de Kleber Mendonça Filho chegou às salas de cinema há pouco mais de duas semanas. A primeira informação que me chamou a atenção ao ver os créditos foi a sua duração: 2.41 horas. Bem diferente da última longa metragem do realizador, Retratos Fantasmas (1.33 h) e também de Bacurau (2.11 h) ou mesmo de Aquarius e de O som ao redor, ambos com também pouco mais de 2 horas. Ao assistir ao filme, o tempo se justificou pelas várias inserções de cenas aparentemente gratuitas no curso da narrativa do realizador recifense. Por exemplo, logo no início, Marcelo (Wagner Moura), recém-chegado ao novo apartamento, depois de ser recebido por Dona Sebastiana (Tânia Maria), coloca o disco Desabafo, do grupo musical recifense Conjunto Concerto Viola, para ouvir “Retiro / Tema de amor n.º 3”. Ou ainda a cena em que o personagem sai em meio ao carnaval de rua do Recife. E também os vários trechos que ajudam a contar a lenda da perna cabeluda que muitos de nós, no Sul do Brasil, conhecíamos apenas através da canção “Banditismo por uma questão de classe”, de Chico Science e Nação Zumbi, e que mereceria um novo texto em que se tratasse apenas do encontro entre essas duas obras dos artistas pernambucanos, tão fortes as relações que se pode supor que existam entre elas. A intenção, parece-me, é conceder à cultura popular do Nordeste brasileiro o lugar que lhe foi historicamente negado.
Neste espaço de que disponho, quero tratar de quatro elementos importantes para compreender a história do Brasil apresentada por Kleber Mendonça Filho em O agente secreto. Primeiro, Dona Sebastiana, que liga a história brasileira à internacional, as quais são atravessadas pelos fascismos de Mussolini na Itália e dos integralistas no Brasil na década de 1930, que são, no fundo, parte do mesmo armamento do capital global. Também o casal Tereza Vitória (Isabel Zuaa) e Antonio (Licínio Januário), que une a história de luta pela independência em África, que enfrentou o regime totalitário de Salazar até ao fim dos anos 1970, reproduzido nas antigas colônias pelos governos “nacionais” a serviço do imperialismo, às lutas contra a ditadura militar no Brasil, de modo que é possível compreendê-las como partes de um mesmo processo de enfrentamento do sistema capitalista mundial, que, embora se expresse de maneiras distintas em Angola e no Brasil, são, em verdade, um mesmo movimento em favor da libertação dos povos africano e brasileiro dos grilhões do capital internacional em suas formas mais brutais.
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Além desses, o personagem Hans, interpretado por Udo Kier, também permite ao espectador aproximar a barbárie praticada pela ditadura empresarial-militar brasileira à nazista da Alemanha do segundo quartel do século XX. E, mais importante do que isso, sugere que os judeus buscaram refúgio em lugares do mundo tão distantes da sua terra natal quanto quaisquer outros refugiados que lutaram e lutam pela sobrevivência ao longo da história, tanto antes quanto depois dos terríveis episódios gestados pelo antissemitismo levado às últimas consequências por Hitler.
Uma face abjeta do Sul do Brasil produz e reproduz o preconceito contra o povo do Norte e do Nordeste
Ainda, são bastante significativos os personagens que representam o “eles” no filme de Kleber Mendonça Filho. Bobbi (Gabriel Leone), Augusto (Roney Villela), Arlindo (Thomas Aquino), Euclides (Robério Diógenes) e Sergio (Igor de Araújo). No papel de milicianos, esses personagens são os agentes de uma perseguição violenta às ideias representadas por Marcelo, que é engenheiro e professor universitário. Há uma cena em que esses personagens estão dentro de um carro da polícia evocando repetidamente vocábulos que remetem às suas patentes militares, como “tenente” e “coronel”, em meio a uma macabra sequência de risadas e deboche, que ligam os fios de uma trama que narra a violência de Estado e a pilhagem praticada por eles. Augusto, ex-militar dispensado por problemas de disciplina e lealdade, e Bobbi, seu enteado, ainda servem como uma espécie de alegoria para uma família que tem lugar na história recente do Brasil como símbolo de uma virilidade forjada pela violência de gênero e pelo desejo de destruição do diferente. O passado desses personagens é reconstituído em parte no enredo por meio da revelação de uma sinistra aliança que envolve o assassinato da mãe de Bobbi. Dentro deste quadro também poderiam ser incluídos Ghirotti (Luciano Chirolli) e seu filho, Salvatore (Gregorio Graziosi), que representam uma face abjeta do Sul do Brasil, que produz e reproduz o preconceito contra o povo do Norte e do Nordeste, servindo de freio de mão do capital internacional para o desenvolvimento técnico e econômico do Brasil, como o espectador pode ver na cena em que Ghirotti e Salvatore vão à UFPB discutir os projetos do departamento coordenado por Marcelo, os quais buscam soluções para o desenvolvimento energético do país e que são enterrados pelo sulista, representante da Eletrobrás, entre outras razões, porque, conforme ele externaliza, a universidade “do Nordeste” deveria se preocupar com problemas “mais regionais”.
Como toda obra grandiosa, O agente secreto renderia muitas linhas mais. Mas considero que esta pode ser uma boa continuação do diálogo sobre o Brasil iniciado por este último filme de Kleber Mendonça Filho.
A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os ferroviários espanhóis, que vivem momentos de profunda dor e angústia.
Perante esta tragédia, o SFRCI expressa a sua solidariedade para com os trabalhadores ferroviários espanhóis, reconhecendo o impacto humano e profissional de acontecimentos desta natureza numa classe que diariamente assume responsabilidades fundamentais na segurança e no transporte de passageiros.
As referências à eventual falha dos sistemas de segurança e à insuficiência de meios redundantes de protecção, capazes de assegurar a operação em condições de segurança quando os sistemas digitais falham, reforçam a necessidade de uma investigação rigorosa e independente, que permita apurar as causas do acidente e retirar todas as conclusões necessárias à prevenção de futuras tragédias.
A segurança ferroviária tem de ser uma prioridade absoluta e inegociável. A tecnologia é fundamental, mas não pode constituir a única barreira de protecção. É indispensável garantir sistemas de segurança fiáveis, mecanismos redundantes de recurso, manutenção adequada, investimento contínuo nas infraestruturas e condições de trabalho que permitam aos profissionais desempenhar as suas funções com segurança.
Nenhuma consideração económica ou operacional pode sobrepor-se à vida humana. Um sistema ferroviário verdadeiramente seguro exige prevenção, investimento, responsabilidade e respeito por todos os trabalhadores e passageiros.
Neste momento de dor, a Direcção do SFRCI associa-se ao luto dos ferroviários espanhóis e de todo o sector ferroviário, reiterando a sua solidariedade para com as famílias enlutadas e desejando uma rápida e plena recuperação a todos os feridos.
Às vítimas mortais, a nossa homenagem. Às famílias, as nossas sentidas condolências. Aos feridos, os votos de rápidas melhoras. Aos ferroviários espanhóis, a nossa solidariedade fraterna.
A tragédia ferroviária de 28 de outubro, em Urda, Toledo, exige respostas que não se compadecem com a simples alegação de erro humano. Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.
As primeiras notícias atiram imediatamente o foco para quem, alegadamente, tomou uma decisão errada. Mas identificar um eventual erro individual não explica a avaria inicial, a organização do trabalho, nem por que razão as restantes barreiras de segurança não impediram o desastre.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano. Quando ocorre uma avaria, essas exigências multiplicam-se precisamente quando cada decisão requer maior cuidado.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano.
Teria uma equipa reforçada, com funções claras de apoio e verificação, permitido detetar o perigo a tempo? A investigação deve responder. Não basta contar pessoas numa sala. Importa perceber que apoio estava disponível e como funcionou.
A redundância na segurança também se faz com trabalhadores.É necessário prever o erro e garantir meios para o detetar e corrigir, antes de provocar consequências irreversíveis.
José Luis Villa, antigo diretor-geral da Renfe, questionou no El Mundo a explicação centrada no indivíduo, apontando responsabilidades de gestão e problemas de coordenação. A sua avaliação não substitui a investigação, mas lembra que as decisões de quem organiza e dirige também devem ser escrutinadas.
Portugal precisa de ter esta discussão perante a perspetiva de mais empresas de passageiros na rede. Pergunto: mais operadores e circulações serão acompanhados por investimento na infraestrutura, manutenção, contratação e coordenação? Se aumentarem as exigências sem aumentarem os meios, não estaremos a criar condições para um risco acrescido?
Esta discussão também exige olhar para as prioridades do investimento. A modernização ferroviária deve melhorar as deslocações quotidianas, ligar populações e garantir alternativas de transporte. Os comboios suburbanos, regionais e serviços do interior precisam de investimento continuado, tal como as oficinas e os profissionais que asseguram o seu funcionamento. A alta velocidade não dispensa uma rede de proximidade fiável.
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O valor de um serviço público não se mede apenas pela receita dos bilhetes. Mede-se também pelas populações que serve, pela coesão territorial e pela segurança que oferece. E qualquer modelo de exploração deve ser avaliado por esses critérios.
Entretanto, os maquinistas espanhóis já tinham uma greve convocada para 29 de outubro. Exigiam melhorias de segurança, comunicações de emergência, contratação e cumprimento das pausas. Não sabemos se essas medidas teriam evitado esta tragédia. E se tivessem? Sabemos que os trabalhadores já reclamavam respostas e queriam ser ouvidos. E se tivessem sido?
Quando uma greve é apresentada apenas pelos transtornos que provoca, fica por explicar aquilo que os trabalhadores procuram proteger. Defender quem trabalha na ferrovia é também defender quem viaja. A segurança exige investimento, organização e trabalhadores em número suficiente para a garantir.
O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança públicas, mas a repressão contra quem luta por direitos. São um corpo dos empresários e do Estado, foi assim em 1838, na Maria da Fonte, na República e no Estado Novo, é assim hoje no Rossio e em Covas de Barroso.