Leon Trotsky

Trotsky e a inteligência artificial
categoria-cultura edicao-2026-10-15 (45) Leon Trotsky Literatura IA

Trotsky e a inteligência artificial

As previsões do dirigente da Revolução Russa, a experiência da “escola formal” de estudos literários da década de 1920 e os actuais desafios postos pelas redes neuronais e grandes modelos linguísticos.

Said Gafurov
Lev Trótski, A Minha Vida
categoria-um livro Leon Trotsky edicao-2025-11-13 (04)

Lev Trótski, A Minha Vida

Edições 70, setembro de 2025 “Só tenho uma palavra, só tenho uma linguagem, a do revolucionário; é a língua que falo nas reuniões populares, é a língua que usarei com os aliados e os Alemães.” Lev Trotsky A I Guerra Mundial ceifava milhões de vidas de soldados e civis nos

Ricardo Cabral Fernandes
categoria-cultura edicao-2026-10-15 (45) Leon Trotsky Literatura IA

Trotsky e a inteligência artificial

ilustração: Mantraste

Há cem anos, o brilhante panfletista e crítico literário Lev Trotsky — tal avatar do dirigente da revolução será, para muitos, uma descoberta — antecipou o futuro. Especificamente, as discussões dos nossos dias sobre os grandes modelos linguísticos (GML) e as redes neuronais. O ensejo foi a famosa e emblemática polémica da década de 1920 acerca do método formal, da “escola formal” da literatura. Surdem do passado as sombras de Chklovski e Jakobson, Tynyanov e Eichenbaum — restando imaginar, interviesse a OPOIAZ (Sociedade para o Estudo da Linguagem Poética) com as ideias e métodos que eram os seus nos nossos dias, como se reflectiria a prática da inteligência artificial no processo literário contemporâneo.

Com característica agudeza e sarcasmo, Lev Davidovich caiu, pois, sobre os formalistas. Por via das dúvidas, rememore-se o contexto histórico, citando Victor Chklovsky: “A arte sempre foi livre, nunca na sua cor se reflectiu a cor da bandeira que ondeava no castelo.” Reitere-se, entretanto, que o nosso assunto é a incrível intuição de Trotsky no contexto da polémica contemporânea sobre grandes modelos linguísticos, redes neuronais e inteligência artificial.

Trotsky escreve:

“No fundo, os formalistas não levam às últimas consequências a maneira como encaram a arte. Encarar o processo de criação poética apenas como combinação de sons ou de palavras, desse modo tentando resolver todos os problemas da poesia, dá em que a única fórmula definitiva de ‘poética’ seja esta: munidos de Dalh1, criar por combinação e permutação algébrica de elementos literários todas as obras poéticas do mundo já criadas e todas as ainda por criar. Raciocinando ‘formalmente’, é possível chegar a Eugénio Onegin por dois caminhos: ou submetendo a escolha dos elementos literários a uma ideia artística pré-concebida (caso do próprio Pushkin), ou resolvendo o problema algebricamente. Sempre desse ponto de vista “formal”, o mais correcto é o segundo caminho, que não depende de estados de espírito, da inspiração e de outras coisas tremidas, tendo a vantagem adicional de, a caminho do Eugénio Onegin, nos proporcionar incontáveis outras grandes obras (…)”

Se analisarmos esta citação de Literatura e Revolução (1924) pelo prisma da arquitectura dos grandes modelos linguísticos contemporâneos, vemos que, ao criticar os formalistas, Trotsky descreve com precisão assustadora, quase radiográfica, o “motor”. Sem se dar conta disso, o comissário do povo para o Exército e a Marinha estava a descrever não só o formalismo radical, mas também o sonho assaz assustador de uma máquina de produção de arte que pegasse nos elementos literários, fixasse as suas regras combinatórias, percorresse o espaço das combinações e delas extraísse o Eugénio Onegin. E, do mesmo passo, um número infinito (no sentido da teoria dos conjuntos) de outras obras-primas. É uma caricatura intelectual quase perfeita (oxalá apenas uma caricatura!) daquilo que hoje conhecemos como grande modelo linguístico (GML), que, partindo do corpus da linguagem humana (da alta poesia e da gíria jurídica ao dialogar quotidiano e à voz de comando militar), procede, por combinações e permutações algébricas, à previsão probabilística do próximo token. Magia, nenhuma, apenas geometria multidimensional pura, álgebra linear e estatística.

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Pois não, a IA “não depende de estados de espírito, da inspiração e de outras coisas tremidas” — os GML/LLM não têm ritmos circadianos de sono e vigília, não sofrem de “névoa matinal”, não têm nem medo nem esperança; eles não se comovem com o trágico da cena de Pushkin em que os miúdos roubam a moeda ao tolo e este pede a morte deles, nem distinguem armagnac de zubrovka.

Há, porém, um matiz que Trotsky, no seu sarcasmo, deixou escapar e que, hoje em dia, é fundamental. Sim, os GML são capazes de gerar algebricamente um texto que será formalmente irrepreensível pela gramática, pelo estilo e até pela argumentação — mas o que confere sentido ao texto é (oxalá!) o ser humano. O mesmo ser humano, a mesma “ideia artística pré-concebida”, como lhe chama Chklovsky, a que subjaz a experiência de vida, a mulher amada, os “homenzinhos”, a dor pessoal ou a ironia e a auto-ironia, a compreensão de que o bem e o mal podem ser relativos, mas sem anular a diferença entre o bem e o mal. A ideia artística pré-concebida, no mais elevado sentido pushkiniano, transforma as “permutações algébricas” naquele texto vivo e certeiro, que um GML pode polir, eliminando gralhas e distracções.

Trotsky parte do princípio de que, uma vez que uma obra é composta por elementos literários, é possível obtê-la através de uma permutação algébrica desses elementos. Obter um enorme conjunto de sequências linguísticas já existentes, construir um modelo estatístico-estrutural complexo das suas inter-relações e, em seguida, gerar novas sequências. Com isso, ele está, na prática, a dar de barato um pressuposto fundamental: o de que o espaço da forma é suficiente para gerar conteúdo. Trotsky vislumbrou com absoluta perfeição a possibilidade de gerar automaticamente uma quantidade infinita de novos textos, mas talvez tenha errado precisamente quanto ao ponto em que a arte começa.

Coisa esta notável: o GML produz cem mil milhões de textos gramaticalmente impecáveis; um milhão de poemas perfeitos; dez mil textos com aspecto pushkiniano; mil textos que um literato confundiria com o Pushkin da juventude, mas é seriamente de duvidar que o modelo conseguisse, mesmo assim, produzir um único Onegin.

A arte até num castelo de marfim é social. Não se pode, numa sociedade, escrever poesia ou prosa, vendo-se livre da sociedade. Eugénio Onegin não é apenas uma dada combinação de palavras. Mesmo assumindo a posição mais formalista possível, nele existe uma estrutura do mais alto nível: a escolha do tema, da composição, do herói, da distância irónica, do aparelho de referências culturais, do ritmo, da relação do autor com o leitor, a consideração de questões de censura e assim por diante.

Se descrevermos de forma suficientemente completa e densa o espaço das regularidades formais da língua, conseguiremos obter automaticamente obras que antes exigiam criatividade humana?

Mas ainda mais interessante é que o GML moderno demonstra precisamente que a fronteira entre uma “combinação de palavras” e algo que se assemelhe ao pensamento é muito mais instável, menos óbvia do que até há pouco parecia. O modelo não se limita a percorrer palavra n.º 1 + palavra n.º 2 + palavra n.º 3, num sentido combinatório primitivo. Contempla um enorme espaço multidimensional de relações probabilísticas, seleccionando em seguida as continuações que condigam com o contexto. Ou seja, estamos bem mais perto de uma álgebra das relações entre elementos linguísticos do que da permutação mecânica de palavras tiradas do Dalh. É por isso que a frase de Trotsky se lê hoje quase como uma formulação preliminar do grandioso problema da IA generativa: se descrevermos de forma suficientemente completa e densa o espaço das regularidades formais da língua, conseguiremos obter automaticamente obras que antes exigiam criatividade humana?

Sabemos hoje que é tecnicamente fácil produzir um número incontável de obras; mas produzir um número incontável de grandes obras é outra história. Aí está o busílis! Para o ser humano, são importantes a situação social, o sujeito da narração, o grau de proximidade, o subtexto sexual, a marca do poder e da ternura. Ou seja, o que há de mais interessante na linguagem não mora apenas nas relações entre palavras, mas também em quem as diz, a quem, quando e para quê.

Porém, uma questão ainda mais fundamental se levanta então: se a linguagem não surgiu para transmitir a “verdade”, nem sequer para transmitir pensamentos prontos, mas sim como instrumento de coordenação da actividade conjunta e orientada dos primatas, que acontece exactamente quando o instrumento dessa actividade começa autonomamente a produzir linguagem?

Acaba por ser esta a questão ontológica e antropológica mais fundamental que se põe hoje à filosofia da consciência, à linguística e à teoria da IA. Se rejeitarmos a ilusão idealista de que a linguagem é um “espelho da verdade” ou um “telégrafo de transmissão de pensamentos” e regressarmos à visão materialista, evolucionista e baseada na praxis (da escola soviética de Vygotsky-Leontiev à antropologia evolucionista contemporânea de Michael Tomasello), o quadro não pode ficar mais rigoroso e claro.

A linguagem é um instrumento da física social. É necessária aos primatas para chegarem a acordo sobre como atrair o mamute para a armadilha, quem há-de ficar de vigia, quem acasala com quem, como se há-de repartir a carne e contra quem nos aliamos. A linguagem é a continuação do grooming (o “catar social” dos animais) que permite manter a coesão do grupo para lá do “número de Dunbar” (150 indivíduos). Como entram os grandes modelos linguísticos neste esquema?

Pode dizer-se que, no sentido hegeliano, marxista e não só, os GML representam a máxima “alienação” da actividade linguística colectiva do sujeito biológico e social. O modelo absorveu toda a soma de textos, ou seja, toda a pegada que a coordenação humana deixou ao longo de vários milénios, aprendendo a sintaxe da persuasão, do comando, do consolo e da mobilização, mas sem que nada de biológico esteja em jogo.

Quando um primata diz a um congénere: “Está ali um predador, toca a andar, escapemo-nos”, o que está por trás destas palavras é o medo da morte, a adrenalina e a necessidade evolutiva de sobrevivência do grupo. Quando os GML geram o texto “unamo-nos face à ameaça”, trata-se da reconstrução estatística de um padrão, sem intencionalidade de espécie alguma (intenção) e sem consequências para o seu “corpo”. O GML domina a forma da actividade colectiva, mas está totalmente excluído da sua prática material.

O popular psicólogo evolucionista norte-americano Michael Tomasello considerava que a principal diferença entre o ser humano e os outros primatas estava na capacidade de “intencionalidade partilhada”, ou seja, nós sermos capazes de criar o espaço mental comum do “NÓS”, onde um fim comum se situa. Também o GML imita de forma genial esta “posição do NÓS”, servindo-se para isso de marcadores de solidariedade, de técnicas retóricas de criação de coligações e de disparadores emocionais.

O problema é ser um simulacro, uma vez que o modelo não participa da definição de objectivos, limitando-se a prever quais as palavras que com maior frequência estatística deram azo a que, no passado, os primatas iniciassem uma acção conjunta. É irónico ser precisamente esta a razão de os GML estarem tão bons a gerar ideologias, manifestos e propaganda e, de um modo geral, a ser excepcionalmente úteis aos estrategas políticos: eles copiam na perfeição o instrumentário da coordenação, sem se preocuparem aonde a coordenação conduz.

Ao longo da história da nossa espécie biológica, mitos, religiões, ideologias e mentiras descaradas saíram-se muito mais eficazmente na coordenação de milhões de pessoas do que a seca verdade empírica.

Se o objectivo da actividade linguística não é a verdade (seja lá o que por isso se entenda), mas sim a coordenação, então as famosas “alucinações” (invenções) das redes neuronais deixam de ser erro técnico e passam a ser norma evolutiva. Ao longo da história da nossa espécie biológica, mitos, religiões, ideologias e mentiras descaradas saíram-se muito mais eficazmente na coordenação de milhões de pessoas do que a seca verdade empírica.

Aprendendo de textos humanos, os GML assimilaram este princípio: o discurso que une e mobiliza é mais importante do que factos. É pedir ao modelo para escrever um discurso motivacional para uma start-up ou um programa político, e ele fornece exactamente aquilo que faz as pessoas agirem em conjunto, ainda que para tal seja preciso “dar um jeito” aos factos! Por outras palavras, o que os GML exactamente são é máquinas de produção de mitos coordenadores.

É lícita a pergunta: é directa a relação entre GMLs e actividade colectiva? Obviamente que não, pois o modelo não é um primata, não se pode sentar num círculo à volta da fogueira e participar dos riscos connosco. No entanto, vêm a ser uma nova ferramenta de trabalho e um novo meio de coordenação nossa.

Tal como o machado não corta a árvore sozinho, é uma extensão da mão do primata, também os GML vêm a ser uma extensão do nosso aparelho vocal. Nós (primatas) servimo-nos de GMLs para escrever código mais rapidamente, redigir contratos jurídicos, planear logística e articular textos políticos. Os GML não se coordenam connosco, mas medeiam a coordenação entre nós.

Segue-se que os GML são experiência social cristalizada, digitalizada e alienada da experiência colectiva da nossa espécie, uma espécie de mapa gigantesco de todas as interacções sociais possíveis alguma vez descritas pelos humanos. Mas o mapa não é o território e, no âmbito da nossa analogia, o território somos nós próprios, os primatas superiores, mortais, que continuam a servir-se desta ferramenta poderosíssima para negociar, guerrear, construir Estados e escrever artigos sobre inteligência artificial.

A responsabilidade por qual caminho esta linguagem assim gerada fará enveredar a nossa actividade colectiva — o caminho da criação ou o da aniquilação mútua — recai exclusivamente em nós, seres de carne e osso e instintos sociais. Encontrar-nos-emos então num ponto em que os mortais, sem se darem conta disso, transferiram a função de “manter a coesão do grupo” para um algoritmo? A pergunta requer resposta separada.

Trotsky enganou-se numa coisa: pensou que a máquina escreveria Onegin, mas não previu que a máquina escrevesse um milhão de textos sobre a razão de não ser possível o Onegin — e é exactamente nisso que há-de consistir a principal literatura do novo século.


1 Vladimir Dalh, o grande lexicógrafo russo do século XIX.

Said Gafurov é professor na Universidade Estatal de Línguas de Moscovo e membro do Conselho Central do Sindicato Independente O Novo Trabalho. Publicado em Литературная Газета [Literaturnaia Gazeta] n,º 38, 28 de Setembro de 2026.

Tradução de Adriano Zilhão.

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Lev Trótski, A Minha Vida

Edições 70, setembro de 2025

“Só tenho uma palavra, só tenho uma linguagem, a do revolucionário; é a língua que falo nas reuniões populares, é a língua que usarei com os aliados e os Alemães.”
Lev Trotsky

A I Guerra Mundial ceifava milhões de vidas de soldados e civis nos campos de batalha europeus e africanos quando uma revolução socialista se deu no país no qual durante décadas a ortodoxia marxista afirmou ser impossível: a Rússia. A Revolução de Outubro de 1917, a primeira revolução socialista, abalou os alicerces nos quais a classe dominante assentava o seu então sacrossanto poder político e económico. Uma nova esperança nasceu para milhões de trabalhadores pelo mundo fora. Um dos grandes responsáveis por esse abalo que mudou para sempre a História do século XX foi, a par de Vladimir Ilitch Lenine, Lev Trotsky.

Os meses de interregno entre a Revolução de Fevereiro, que depôs o czar Nicolau II, dando origem a uma explosão de alegria e esperança no país, e a de Outubro foram palco de um verdadeiro surto de democracia popular nas ruas de Petrogrado, hoje São Petersburgo. “Como em toda a revolução, a massa, a maré humana, está no centro dos eventos e invade o espaço”, assim descreveu Michel Löwy esses meses revolucionários no livro Revoluções. “As fotos das assembleias de massa em Petrogrado […] são um testemunho da efervescência da sociedade civil ao longo desse ano extraordinário. Revelam a aprendizagem da democracia, no fogo da ação, por operários e camponeses que, livres de um só golpe de um jogo social e político esmagador, se descobrem sujeitos da história.”

O revolucionário Lev Trotsky, conhecido pela sua eloquente e acutilante oratória, despertando os mais profundos sentimentos entre quem o escutava, fossem de apoio ou de repúdio, foi um dos principais atores históricos desse período, sendo uma das presenças mais assíduas nas tribunas populares. Usava os seus talentos para criticar duramente os adversários, para explicar as suas posições políticas e, também, para justificar as decisões do Conselho dos Comissários do Povo, no qual assumiu desde logo as funções de Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros. E uma das suas primeiras decisões diplomáticas, três semanas depois de os bolcheviques conquistarem o poder e enquanto delineavam a estratégia para alcançar finalmente a paz, foi a divulgação de todos os tratados e documentos secretos dos governos czarista e provisórios com os aliados da Entente. Trotsky só tinha uma palavra, a do revolucionário.

O responsável pela diplomacia do novo poder socialista argumentou, no decreto que autorizou a divulgação, que “o imperialismo, com os seus planos mundiais de anexação, as suas alianças e maquinações vorazes, desenvolveu o sistema de diplomacia secreta ao mais alto grau” e que a sua abolição é “elemento essencial de uma política externa honrada, popular e verdadeiramente democrática”. O socialismo de Trotsky e de Lenine era obrigatoriamente internacionalista, e a Revolução tinha de se expandir para o resto do mundo, principalmente para a Europa Central, pois o socialismo não poderia existir num só país, iria gangrenar.

Vinte e dois anos depois da revelação desses tratados secretos, em 1939, o regime socialista fundado por Lenine estava irreconhecível sob a mão termidoriana de Josef Estaline, cuja argúcia Trotsky desvalorizou, um dos grandes erros da sua vida. A democracia socialista tinha então sido esmagada, os bolcheviques que lideraram a Revolução de Outubro e o Exército Vermelho contra os brancos e os exércitos estrangeiros estavam mortos, presos ou no exílio, a mão totalitária do ditador tudo decidia e ordenava, apoiada por uma burocracia que, sustentada pela polícia política, sufocava toda a vida política, social e cultural. A burocracia, uma excrescência parasitária dentro de um Estado operário, tinha ascendido ao poder com a contrarrevolução do Termidor soviético: a propriedade dos meios de produção era estatal, mas a classe trabalhadora não controlava o Estado.

Sob Estaline, a política externa soviética deixou de ter a revolução mundial socialista como objetivo, passando a defender e a justificar a doutrina do socialismo num só país, ou seja, a manutenção dos privilégios da burocracia, por si representada, como se fosse um novo Napoleão Bonaparte, entrando no jogo imperialista com as potências capitalistas. Se Trotsky revelou tratados secretos com potências capitalistas que dividiam territórios entre si, Estaline assinou, depois de ter dizimado em julgamentos fantoche as altas chefias militares soviéticas, um tratado com a Alemanha Nacional-Socialista, dividindo a Polónia entre si, com o Pacto Germano-Soviético. Um pequeno exemplo do abismo que separa o estalinismo do marxismo revolucionário.

Os marxistas revolucionários, os descendentes do pensamento de Trotsky, ainda hoje se confrontam com a amálgama, propalada por quem vê no socialismo a mais séria e verdadeira ameaça aos seus privilégios, entre estalinismo (ou o “socialismo realmente existente”) e a ideia de comunismo, sendo necessário, como defendeu Daniel Bensaïd em Trotskismos, “libertar os vivos do peso dos mortos, e virar a página das desilusões”. Foi precisamente esse combate que norteou a segunda parte da vida de Trotsky, já depois da morte de Lenine e da ascensão ao poder de Estaline e do centralismo burocrático que deformou o primeiro Estado operário e a internacional comunista: continuar a batalhar por um socialismo internacionalista.

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A vida de Trotsky está marcada por um sucedâneo de contribuições essenciais para o desenvolvimento do pensamento e práticas marxistas (teoria do desenvolvimento desigual e combinado, revolução permanente, teoria do fascismo e da estratégia da frente única, programa de transição, só para elencar as mais importantes), de escrita constante (com a sua clássica pena aguçada, onde as palavras trespassam a paixão que acompanha o combate político) e de batalhas pelo socialismo em que acreditava, sem nunca capitular perante a paralisia, o comodismo ou o oportunismo. Esta sua grande batalha contra o estalinismo está bem espelhada na sua autobiografia A Minha Vida, escrita entre 1929 e 1930, aquando do seu terceiro exílio forçado, desta vez por ordem de Estaline, na ilha de Büyükada (Prinkipo), perto de Istambul. Trotsky foi um dos mais importantes revolucionários e intelectuais marxistas do século XX e foi perseguido e assassinado por Estaline por ser uma séria ameaça ao seu poder na União Soviética com o início do cataclismo da II Guerra Mundial.

“Nos últimos anos, a GPU [a secreta soviética] destruiu muitas centenas de amigos meus, incluindo membros da minha família na União Soviética. Em Espanha, mataram o meu antigo secretário Erwin Wolf e vários dos meus companheiros de reflexão política; em Paris, mataram o meu filho Lev Sedov, que os assassinos profissionais de Estaline perseguiram durante dois anos. Em Lausanne, a GPU matou Ignace Reiss, que tinha deixado a GPU e aderido à IV Internacional. Em Paris, os agentes de Estaline assassinaram outro dos meus antigos secretários, Rudolf Klement, cujo corpo foi encontrado no Sena com a cabeça, as mãos e as pernas cortadas”, escreveu Trotsky duas semanas depois de uma primeira tentativa de assassinato no México, em maio de 1940. “Esta lista poderia continuar interminavelmente”, continuou, vaticinando linhas abaixo: “A repetição da tentativa é inevitável”. Estaline tentou, durante anos, destruir política e moralmente Trotsky, mas falhou. Era, então, na lógica estalinista, necessário eliminar fisicamente o seu maior adversário, precisamente quando encetava a empreitada de escrever a biografia do principal coveiro da revolução.

As perseguições tinham começado anos antes, a par e passo com a concentração de poder de Estaline, e a resposta de Trotsky não se fez esperar. Derrotada a Oposição de Esquerda, em 1927, nos três anos seguintes viveu-se o aprofundar do terror termidoriano: a campanha contra o fundador do Exército Vermelho atingia um novo auge na União Soviética e a polícia secreta perseguia os bolcheviques aliados de Trotsky, aprisionando, torturando e assassinando-os nos seus calabouços. Trotsky, que continuava a ter grande influência no movimento comunista internacional, sentiu então que era necessário contra-atacar, destruindo os argumentos e acusações estalinistas que, receava, pudessem contagiar a História da Revolução e os consequentes embates políticos: as deturpações do marxismo e do socialismo não poderiam vingar.

Daí que esta obra seja mais que uma autobiografia, é um ajuste de contas do mais puro combate político em que a principal arma do revolucionário é a verdade, alicerçada num sólido arquivo (excertos de notícias, decretos, correspondência pessoal). É a afirmação do pensamento e da prática marxistas como Trotsky as encara, de como se juntou às fileiras marxistas, como liderou o soviete de Petrogrado de 1905, como participou nos debates teóricos marxistas mais importantes, como lidou com os sucessivos exílios e sacrifícios pessoais que a luta pela revolução lhe exigia. É, também, uma análise autocrítica dos principais momentos que culminaram na Revolução de Outubro, na vitória na Guerra Civil Russa e na ascensão do Termidor Soviético.

Mas é também uma obra incompleta. Foi escrita dez anos antes de o revolucionário ser assassinado a mando de Estaline no México, a 21 de agosto de 1940. A autobiografia não aborda o seu restante exílio (Noruega e México), a sua análise sobre o nazismo, os erros políticos do Partido Comunista Alemão em impedir a sua ascensão, a degenerescência e os ziguezagues oportunistas da Internacional Comunista e a formulação da estratégia de frente única, em oposição à frente popular estalinista. Nem se debruça sobre a guerra civil espanhola e, mais uma vez, sobre os erros do estalinismo para impedir a vitória do franquismo. Fenómenos que culminaram na II Guerra Mundial e, para Trotsky, impunha-se, logo em 1938, a questão: o que fazer no contexto de mais uma guerra mundial imperialista? A sua resposta foi a fundação da IV Internacional com a elaboração do Programa de Transição, que também não são abordados nesta obra.

Esta autobiografia é uma pequena grande janela para a vida e pensamento de Trotsky contados pelo próprio, é um documento histórico que vale por si só, mas é também apenas isso mesmo, uma pequena grande janela, um vislumbre para a sua personalidade, falhas (e erros cometidos) e pensamento. A obra de Trotsky é extensíssima, começando desde logo pelas suas principais obras teóricas (Balanço e Perspectivas, Revolução Permanente, Programa de Transição) e pela sua gigante (em tamanho, pormenor e qualidade) História da Revolução Russa, sem esquecer os seus inúmeros compêndios de escritos políticos. O historiador polaco Isaac Deutscher escreveu a biografia mais completa e fidedigna de Trotsky, indo mesmo além da sua vida para contar pormenorizadamente a história do movimento revolucionário russo e da Revolução Russa, composta por três volumes – O Profeta Armado (1879-1921), O Profeta Desarmado (1921-1929) e O Profeta Banido (1929-1940) – e arrisco-me a dizer que, se hoje fosse acrescentado um quarto volume, teria como título O Profeta Esquecido.

Há mais de cinco décadas, os livros de Trotsky começaram a entrar, clandestinamente, em Portugal nas malas de carro de um reduzido grupo de jovens de Coimbra, Porto e Lisboa que viajavam até França para saberem mais sobre a situação política internacional. Politizados pela resistência à Guerra Colonial, pelo Maio de 1968 e pela invasão da Checoslováquia em 1968 pela União Soviética, estes jovens estabeleceram contactos políticos com trotskistas franceses, espanhóis, entre outras nacionalidades, e, depois, formaram-se os Grupos de Ação Comunista (GAC), de discussão e agitação, em Lisboa, Porto e Coimbra. Começaram-se a editar, devagarinho, livros de Trótski. Em 1973, nasceu o primeiro partido trotskista português, a Liga Comunista Internacionalista (LCI), que em 1978 se fundiu com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) dando origem ao Partido Socialista Revolucionário (PSR). Uma editora foi fundada, a Antídoto (o seu nome foi inspirado num dos pseudónimos de Trotsky: Antid Oto), afeta ao partido e dedicada a difundir o pensamento do revolucionário russo. O fundador e editor da Antídoto, João Cabral Fernandes, abandonou a política ativa em 1982 e a editora encerrou portas, deixando muito por publicar. Procurar, hoje, livros de Trotsky (e de outros trotskistas, como Ernest Mandel) é sinónimo de percorrer, minuciosamente, lombadas em estantes cheias de velhos e amarelados livros em alfarrabistas, sabendo que cada nova descoberta é uma relíquia a agarrar de imediato.

Noventa e cinco anos depois da primeira edição de A Minha Vida, a sua edição portuguesa chega pela primeira vez às livrarias em Portugal. É editada quando nos é mais fácil imaginarmos o fim do mundo do que uma alternativa socialista ao capitalismo neoliberal mais selvagem, quando a necropolítica canibaliza todas as vertentes do nosso dia-a-dia – o trabalho, as relações pessoais e comunitárias e o pensamento crítico – sem que o sistema consiga aumentar a taxa de acumulação capitalista, entrando em crise. A austeridade permanente (e a reconfiguração securitária do Estado) que sofremos há mais de uma década, a reemergência da extrema-direita, os sucessivos ataques aos direitos mais elementares dos trabalhadores, o aprofundamento dos choques inter-imperialistas entre as principais potências mundiais e, agora, o acelerar do rearmamento da Europa são sintomas de mais uma crise histórica do sistema capitalista.

Esta crise histórica evoca alguns dos dilemas enfrentados pelos revolucionários marxistas na primeira metade do século XX. Como enfrentar a extrema-direita? Como nos poderemos opor às guerras imperialistas lutando pela autodeterminação dos povos e pela paz? Como podemos construir uma alternativa e uma coligação popular alargada contra o capitalismo mais selvagem? São tantas as perguntas e tão poucas as respostas. Daí a necessidade de se procurarem pistas nas experiências de outros revolucionários. Porque a herança das resistências é vasta, mesmo que as tentem apagar da nossa memória coletiva. A vida de Trotsky é uma dessas resistências. É um testemunho de coragem, lucidez e sacrifício por uma causa maior: o socialismo.

Trotsky e a inteligência artificial
Lev Trótski, A Minha Vida
Trotsky e a inteligência artificial
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As previsões do dirigente da Revolução Russa, a experiência da “escola formal” de estudos literários da década de 1920 e os actuais desafios postos pelas redes neuronais e grandes modelos linguísticos.

Said Gafurov
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Lev Trótski, A Minha Vida

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