Greve Geral

A greve e a soberania
Greve Greve Geral categoria-política edicao-2026-06-04 (30)

A greve e a soberania

Foram as greves gerais dos séculos XIX e XX que transformaram a democracia restrita aos proprietários naquilo que hoje conhecemos. Um pouco por toda a Europa, o sufrágio universal e a representação dos trabalhadores figuravam entre as principais reivindicações — e conquistas — dessas lutas

Jonas van Vossole
No centenário da greve geral de 1926 na Grã-Bretanha
Greve Geral Reino Unido categoria-história edicao-2026-05-07 (26)

No centenário da greve geral de 1926 na Grã-Bretanha

Assinala-se este mês o centenário da greve geral de 1926 na Grã-Bretanha. Quase 1,7 milhões de trabalhadores entraram em greve em solidariedade com um milhão de mineiros postos em layoff. Enfrentavam os proprietários das minas, o governo conservador e o aparelho do Estado.

Ralph Darlington
Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles
categoria-internacional EUA Greve Geral Minneapolis edicao-2026-03-26 (21)

Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles

Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes

Suzi Weissman
Sorel e o direito à greve geral
categoria-história Greve Geral Sorel edicao-2026-02-12 (15)

Sorel e o direito à greve geral

Sorel rejeitava a concepção da revolução como mera conquista do poder estatal, entendendo que tal conduziria apenas à substituição de elites no comando político. Para ele, o socialismo implicava a abolição do Estado e a transformação radical da sociedade.

Maria João Cantinho
Greve geral no Minnesota — e na América — pode ser precursora
categoria-internacional Greve Geral ICE Minnesota edicao-2026-01-29 (13)

Greve geral no Minnesota — e na América — pode ser precursora

Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros.

Robert Reich
Greve Greve Geral categoria-política edicao-2026-06-04 (30)

A greve e a soberania

Foram as greves gerais dos séculos XIX e XX que transformaram a democracia restrita aos proprietários naquilo que hoje conhecemos. Um pouco por toda a Europa, o sufrágio universal e a representação dos trabalhadores figuravam entre as principais reivindicações — e conquistas — dessas lutas, que em todo o lado envolveram confrontos violentos com o Estado e dezenas de mortos.

O que hoje reconhecemos como pilares fundamentais da democracia — o sufrágio universal, os direitos sociais básicos — é consequência direta das greves e, em particular, das greves gerais. A democracia burguesa nasceu de uma aliança contra a aristocracia e a monarquia feudal, mas restringia a cidadania a quem detinha propriedade e pagava impostos. O seu principal objetivo era conter o povo revolucionário através de sistemas bicamerais: em Inglaterra, pela Câmara dos Lordes, que conferia poder desproporcional aos aristocratas e grandes proprietários; nos Estados Unidos, pela sobre-representação dos estados mais conservadores no Senado. A medida mais determinante era, porém, a exclusão dos trabalhadores assalariados do direito de voto: considerados economicamente dependentes, não eram tidos como cidadãos autónomos capazes de posições políticas racionais e independentes.

Foram as greves gerais dos séculos XIX e XX que transformaram essa democracia restrita naquilo que hoje conhecemos. Um pouco por toda a Europa, o sufrágio universal e a representação dos trabalhadores figuravam entre as principais reivindicações — e conquistas — dessas lutas, que em todo o lado envolveram confrontos violentos com o Estado e dezenas de mortos.

Mas a ligação entre a greve e a democracia não se esgota na sua dimensão formal. Também no plano do conteúdo, na sua dimensão substantiva, é a greve que está na origem do que hoje consideramos inalienável: os direitos sociais e políticos, o Estado-providência. A jornada de oito horas, as quarenta horas semanais, as férias pagas, os feriados, a saúde e segurança no trabalho, as pensões, o salário mínimo, a concertação social, o aumento generalizado dos salários, o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social — tudo isto são conquistas da greve e da força organizativa do movimento operário. Sem ela, continuaríamos a viver sob um Estado mínimo e autoritário: o despotismo do local de trabalho.

Porque tem a greve, e em particular, a greve geral, um impacto tão profundo? Em primeiro lugar, pelo seu efeito económico direto e indireto: parar de trabalhar é parar de contribuir para a acumulação de capital. Afeta a faturação e o serviço direto ao patrão, aos clientes e, indiretamente, todas as atividades interligadas. É a forma mais imediata pela qual o trabalhador, pela ausência do seu trabalho, demonstra a sua importância económica e social e clarifica a relação de forças que o liga ao supervisor, ao patrão, à sociedade e ao Estado.

A greve geral tem, além disso, um potencial revolucionário por duas razões fundamentais.

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A primeira é que desfaz a dicotomia entre economia e política sobre a qual assenta o capitalismo. O mercado privado só pode funcionar porque é concebido como uma esfera separada, regulada pelas leis do mercado e da propriedade, sem — ou quase sem — intervenção política direta. Uma greve pode começar como um conflito puramente económico e localizado: um aumento salarial, uma melhoria das condições de trabalho. Mas à medida que se articula em torno de interesses e solidariedades comuns — entre empresas, entre setores, entre diferentes franjas da sociedade —. ela alarga-se e generaliza-se, torna-se intrinsecamente política. O que nasceu de um contrato individual de trabalho transforma-se num confronto cujo alvo já não é o patrão, mas o Estado: a mudança das leis, a disputa pelo poder.

A segunda razão é que a greve geral coloca, na prática, a questão da propriedade, do poder e da soberania. Soberano é quem detém o poder na exceção — e no capitalismo, a greve é precisamente esse momento de exceção em que a classe trabalhadora afirma a sua soberania coletiva. O local de trabalho, espaço normalmente autoritário e hierarquizado por quem possui a propriedade, onde o trabalhador cumpre ordens e obedece, inverte-se no momento da greve. Os trabalhadores ocupam o seu lugar enquanto produtores da sociedade: param as máquinas e os serviços, bloqueiam as entradas e os stocks, decidem sobre eventuais serviços mínimos. O patrão perde, temporariamente, o controlo.

Por isso, a greve é também um momento pedagógico. Os trabalhadores descobrem o poder que possuem em conjunto e aprendem que só a solidariedade o sustenta. Para mantê-la e construí-la são necessárias formas de organização que reflitam esse interesse coletivo: daí nascem as práticas de democracia de base — comissões de trabalhadores, assembleias gerais, delegações. É a democracia operária, essa organização coletiva e participativa que está na origem histórica do movimento dos trabalhadores.

Esta forma de organização, que emerge quase espontaneamente nas greves mais prolongadas e nas crises revolucionárias, tende a expandir-se para outros domínios da vida social. Uma sociedade paralisada durante semanas — como aconteceu na greve geral belga de 1960-62 ou em Maio de 68 em França — vê rapidamente surgir a necessidade de resolver problemas concretos: a recolha do lixo, a distribuição de alimentos, a segurança. São então os comités grevistas locais e intersectoriais, mas também os órgãos coletivos de bairro e de escola, que dão resposta a essas necessidades, construindo, na prática quotidiana, uma outra sociedade.

É por isso que a greve é muitas vezes entendida como prefiguração da sociedade futura. O conceito de prefiguração tem origem cristã: para atingir o Paraíso, os fiéis deveriam comportar-se já na vida terrena como seguidores de Deus, construindo assim, desde já, o reino de Deus na terra. Quando, na modernidade, a teologia cedeu lugar à política laica e científica, o paraíso religioso — crítica da miséria terrena — foi substituído pelo programa socialista ou comunista, que serve da mesma forma como crítica e alternativa à miséria provocada pelo capitalismo. E a ideia de prefiguração manteve-se: a luta de hoje é já a construção do amanhã.

 A greve não é um direito: é uma prática inerente ao próprio ato de ser trabalhador. É a afirmação da soberania sobre a própria força de trabalho e sobre a própria vida.

 O termo ganhou nova popularidade nos movimentos “Occupy” e antiglobalização, mas esqueceu-se da sua forma clássica e original: na greve geral encontramos, já na luta contra o capital, os fundamentos organizativos daquilo que um dia substituirá o capitalismo. É por isso que a greve geral é o principal instrumento político contra a sociedade capitalista.

Por isso mesmo, tudo tem sido feito para enfraquecer e domesticar a greve, muitas vezes em cumplicidade com direções sindicais e no quadro da concertação social. A um primeiro nível, pela via da repressão direta: a ilegalização das greves, a proibição dos sindicatos e das organizações políticas anticapitalistas, a intimidação da organização sindical no local de trabalho.

Mas a um segundo nível, também pela via inversa: a legalização e domesticação da greve, a concessão do direito à greve em moldes estritos, a burocratização dos sindicatos e do próprio ato grevista, a negociação pública, a concertação social, a intervenção jurídica. São estas as formas através das quais o Estado burguês tende a normalizar a exceção, a evitar a ocupação prolongada e a manter o controlo.

Perante esta dupla ameaça, importa lembrar que a greve não depende de concessões. Mesmo durante as ditaduras fascistas se faziam greves — e se obtinham vitórias, mesmo confrontando a repressão e a violência. A greve não é um direito: é uma prática inerente ao próprio ato de ser trabalhador. É a afirmação da soberania sobre a própria força de trabalho e sobre a própria vida.

Greve Geral Reino Unido categoria-história edicao-2026-05-07 (26)

No centenário da greve geral de 1926 na Grã-Bretanha

Assinala-se este mês o centenário da greve geral de 1926 na Grã-Bretanha. Quase 1,7 milhões de trabalhadores entraram em greve em solidariedade com um milhão de mineiros postos em layoff. Enfrentavam os proprietários das minas, o governo conservador e o aparelho do Estado. Foi um período de luta de classes sem quartel e com importantes implicações políticas. Porém, apesar do entusiasmo mostrado pelos grevistas e da sua disposição em intensificar a luta até à vitória, ao fim de nove dias o Conselho Geral do Congresso dos Sindicatos (TUC) suspendeu repentinamente a acção de solidariedade e deixou os mineiros a lutar sozinhos, até acabarem derrotados. Esta caracterização vem contrabalançar significativamente o que os comentadores burgueses e de centro-esquerda têm sustentado, a saber, que a greve geral estava, à partida, inevitavelmente votada à derrota. No mais, o interesse desta batalha não é meramente histórico. Encerra, também, lições importantes para os militantes radicais dos nossos dias.

O contexto

Enquanto a libra regressava ao padrão-ouro e se procurava baixar os custos de produção para os mercados de exportação, os proprietários privados das minas decidiram que reduzir salários era uma questão de sobrevivência. Anunciaram então declarar a caducidade de um acordo salarial nacional e do salário mínimo à data de 30 de Junho de 1925, o que acarretaria cortes salariais drásticos — salvo se os mineiros aceitassem que a jornada de trabalho voltasse para oito horas. Em reacção à ameaça de lockout nacional, o Conselho Geral do TUC convocou uma conferência especial de dirigentes sindicais dos sectores ferroviário, dos transportes e marítimo de apoio à Federação dos Mineiros, decidindo a conferência que o lockout teria como resposta um embargo total ao transporte de carvão. A perspectiva de tal acção conjunta forçou o governo conservador a intervir no último momento, anunciando que subsidiaria os salários dos mineiros até ao final de Abril de 1926, enquanto uma comissão investigaria a situação do sector. O movimento sindical chamou-lhe “Sexta-feira Vermelha”; mas o recuo foi claramente táctico, para ganhar tempo e preparar o terreno para um confronto em grande escala dez meses mais tarde.

O Partido Comunista da Grã-Bretanha e o seu braço sindical, o National Minority Movement (Movimento Minoritário Nacional), tinham influência em várias indústrias-chave, apesar da sua relativa fraqueza numérica no movimento operário, em comparação com os seus homólogos comunistas noutras partes da Europa. Apoiaram, por exemplo, a eleição para secretário-geral da Federação dos Mineiros de um sindicalista seu simpatizante. A posição que defendiam, de que a crise das minas era parte de uma ofensiva mais geral da classe dominante, para a qual os trabalhadores tinham de se preparar, teve muito eco.

O reacendimento das lutas operárias depois dos reveses sofridos no início da década de 1920 reflectia-se, entretanto, na eleição de várias figuras bastante à “esquerda” para o Conselho Geral do TUC, nomeadamente Albert Purcell (sector do mobiliário), Alonzo Swales (metalomecânica) e George Hicks (construção civil), todos eles com grandes simpatias pela Rússia soviética. Muitos militantes sindicais de base apoiavam a ideia de o TUC actuar como um “estado-maior do trabalho” capaz de servir de direcção centralizada do movimento sindical e das suas lutas. Contudo, alegando a necessidade de não se antecipar ao relatório da Comissão nem comprometer as negociações para um acordo de compromisso, o TUC deixou-se ficar inactivo durante meses, não fazendo, até ao último momento, quaisquer preparativos para antecipar a greve geral. Os dirigentes do Partido Trabalhista, Ramsay MacDonald e Arthur Henderson, estavam ainda mais ansiosos por evitar confrontos.

Por fim, expirado o subsídio ao carvão a 30 de Abril de 1926, e tendo a Comissão recomendado cortes salariais, os proprietários das minas anunciaram um lockout nacional. Incapaz de mediar um acordo entre patronato e sindicatos, o Governo encerrou as negociações, insistindo que os mineiros aceitassem ou cortes salariais ou o aumento da jornada de trabalho. A Federação dos Mineiros declarou categoricamente: “Nem um centavo de salário a menos, nem um segundo a mais na jornada.”


A greve

Os dirigentes do TUC acabaram por anunciar uma greve geral com início na terça-feira 4 de Maio. A acção contrariava-os, porém, e só concordaram em convocá-la devido à pressão da classe operária e às expectativas da base. Enquanto isso, um círculo restrito de dirigentes continuou em conversações de bastidores com o Governo, indicando-lhe que, com um aperto, os mineiros poderiam porventura aceitar o princípio dos cortes salariais, se o Governo reabrisse negociações formais sobre modalidades de racionalização da indústria, cancelando-se então a greve.

Além disso, o TUC, apesar de ter pela frente um Governo belicoso, chamou deliberadamente à acção “greve nacional” — em vez de “greve geral” — , na preocupação de deixar claro que a greve não abrangia todos os trabalhadores dos sindicatos seus filiados. Optou deliberadamente por restringir a participação aos operários de sectores seleccionados, uma dita “linha da frente” que compreendia transportes, tipografias, metalurgia e química, construção civil e energia. Vastos e importantes sectores operários, designadamente da metalomecânica, construção naval e têxteis, ficavam de fora. Esta cautela era reflexo do receio de que uma greve geral que abarcasse toda a classe pudesse ameaçar demasiado o Governo, escalar para fora de controlo e provocar desordem social, além de poder soçobrar num instante se, sem conseguir ganhos tangíveis, tivesse de prolongar-se por mais do que uns poucos dias.

Apesar disso, a força da resposta ao apelo à greve deixou estupefactos tanto o Governo como o TUC; as indústrias afectadas praticamente pararam. O transporte ferroviário de mercadorias ficou virtualmente paralisado, só funcionando serviços mínimos de passageiros; portos e docas ficaram paralisados, e os transportes municipais (eléctricos e autocarros nas vilas e cidades, bem como o metro de Londres) foram gravemente afectados; a produção de ferro e aço ficou muito prejudicada. Em alguns sectores, até os mecânicos entraram em greve, desafiando as instruções oficiais, embora outros continuassem a trabalhar, dadas as falhas do plano de greve.

Centenas de milhares de activistas (dirigentes sindicais locais, delegados sindicais e membros) organizaram-se localmente, por todo o país, a uma escala sem precedentes.

A greve geral desafiou a narrativa dominante da “moderação” britânica. Muitos comentadores contemporâneos, mas também alguns historiadores, minimizaram o espírito e a inspiração da militância de base, da iniciativa e da revolta deste período. Os operários mostraram uma determinação e coragem imensas. Centenas de milhares de activistas (dirigentes sindicais locais, delegados sindicais e membros) organizaram-se localmente, por todo o país, a uma escala sem precedentes. Comités de greve e centenas de “conselhos de acção”, organismos coordenadores do movimento sindical, produziram boletins usados para divulgar informações sobre a condução da greve e os piquetes, chegando a coordenar actividades que iam bem além da política oficial do TUC.

Em muitas áreas, estes organismos surgiram como embriões de centros alternativos de poder da classe operária, assumindo funções normalmente consideradas da responsabilidade exclusiva da máquina do Estado e das autarquias locais. Organizaram piquetes de massas, procuraram controlar a circulação de mercadorias e instauraram sistemas locais de salvos-condutos para as empresas, comerciantes e lojistas poderem solicitar autorização aos dirigentes grevistas locais para o transporte de bens essenciais, como leite e comida. Houve batalhas contínuas entre piquetes, fura-greves e a polícia em vários locais, assim como casos isolados de sabotagem industrial, nomeadamente o descarrilamento do comboio de passageiros Flying Scotsman. As mulheres participaram activamente nos protestos e piquetes, bem como em mobilizações comunitárias de massa contra os fura-greves, por todo o país. À medida que a greve avançava, muitos trabalhadores foram-se dando conta de que estavam metidos não numa luta sindical comum, mas num confronto entre a classe operária organizada e o aparelho de Estado da classe dominante.


O poder do Estado

Apesar de o TUC reclamar que a greve era puramente sindical, não visando pôr em causa o Parlamento e o Governo constitucional, a lógica da greve geral – a forma mais acesa de luta de classes – representava um desafio político intrínseco ao poder do Estado. Aliás, o Governo percebeu claramente que era uma batalha política entre os mineiros e o movimento operário, por um lado, e o Governo, o Estado e a classe capitalista, por outro. Essa lucidez produziu nestes a necessidade imperativa de, sem hesitação nem escrúpulos, mobilizar todos os recursos e todas as armas disponíveis para manter o seu poder de classe.

Assim, sem preocupações de escondê-la atrás de uma aparência superficial de neutralidade do Estado “acima das classes”, desenrolou-se a maior operação fura-greves alguma vez organizada pelo Estado na história britânica, sob a protecção do poder civil e militar, tendo os preparativos começado logo a seguir à sexta-feira vermelha. Criou-se uma rede organizada secreta de abastecimento e transportes cujos nós eram “comissários civis” com responsabilidades por diferentes regiões do país, encarregados de organizar operações de repressão da greve nas centrais eléctricas, companhias de gás e depósitos ferroviários. Fizeram-se preparativos para mobilizar milhares de voluntários — principalmente gente das classes médias, estudantes universitários, grupos conservadores e fascistas — para substituir os operários em greve. Quando o Partido Comunista fez propaganda para que as tropas se recusassem a cumprir as ordens dos seus oficiais de se mobilizarem contra os grevistas, o Governo mandou deter e prender 12 dos seus dirigentes mais proeminentes por alegada “sedição”, tentando decapitar a organização antes de a greve geral começar.

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Ao começarem os nove dias de greve, centenas de milhares de voluntários foram mobilizados. O Governo distribuiu o seu jornal antigreve, a British Gazette, usando veículos de transporte rodoviário não sindicalizados. Em várias áreas industriais, recorreu-se a uma reserva de agentes especialmente ajuramentados paralelamente às forças policiais regulares. As forças armadas do país foram, ainda, concentradas em locais estratégicos específicos, postando-se navios de guerra ao largo de todos os portos principais do país, como Liverpool, o Tyne, o Clyde e Bristol. Os serviços de segurança e de informações (Special Branch, MI5 e Metropolitan CID) foram activamente implicados. Ficou explicitamente ilustrada a veracidade da afirmação de Karl Marx de que, sob o capitalismo, o Estado é o “comité executivo da classe capitalista”.

O objectivo era garantir o fornecimento ininterrupto de energia a indústrias-chave e às famílias, bem como o abastecimento crítico de alimentos e leite, quebrando, do mesmo passo, a eficácia da greve, ao assegurar que quem quisesse trabalhar ou ser voluntário pudesse fazê-lo. O Hyde Park, em Londres, por exemplo, foi fechado e usado como ponto central de recepção e distribuição de abastecimentos críticos, recorrendo-se a um comboio maciço de camiões de alimentos, escoltados pela tropa, para romper o bloqueio imposto pelos piquetes de estivadores do East End. Em tudo isto, a repressão foi feroz em todo o país, com violência policial, a detenção de 9 mil grevistas e seus apoiantes e rusgas a sedes locais do Partido Comunista, com a detenção de uns 2500 militantes seus.

No entanto, o TUC, completamente omisso que fora na preparação da greve geral, foi-o igualmente na direcção e condução da luta. Por muito que o TUC implorasse ao Governo que aceitasse um acordo qualquer que lhe permitisse pôr fim à greve e por muito que concentrasse todos os esforços no reinício das negociações e não na vitória dos mineiros, o facto é que o Governo, em contrapartida, queria claramente infligir uma derrota decisiva ao movimento da classe operária. A resposta do Conselho Geral foi envidar todos os esforços para conter a militância dos operários e sabotar o impacto da greve. Embora a pressão da base acabasse por forçar o Conselho Geral a alargar a greve a uma “segunda linha” de operários, isso só se fez tarde demais, no dia 11 de Maio. No dia seguinte, a greve foi abruptamente suspensa, na totalidade.


Traição

O TUC suspendeu ignominiosamente a acção, sem conseguir nem a resolução do conflito original nem a anulação das declarações de lockout dos proprietários das minas — além de não ter obtido garantias de que os grevistas não fossem sujeitos a represálias. Aceitou, na prática, cortes salariais a mineiros que nem sequer tinham feito directamente parte das negociações. A única concessão, um memorando da Comissão, não vinculativo, sobre a reorganização da indústria, nunca veio a ser — que surpresa! — concretizada pelo Governo. Todos os dirigentes sindicais de esquerda do Conselho Geral, sem excepção, votaram a favor da decisão de suspender a greve.

A traição foi um choque enorme para os grevistas, a maior parte dos quais sentia uma solidariedade quase total. Porém, a greve geral não terminou no dia 12 de Maio. Um número crescente de trabalhadores da segunda linha aderiu na mesma à acção, incrédulos de que os dirigentes tivessem capitulado; no final, estavam em greve mais cerca de 100 mil trabalhadores do que no início. Por todo o país, a greve começava a fugir ao controlo dos dirigentes sindicais, e comícios de massas condenaram a decisão do TUC. Era patente a determinação generalizada de continuar a greve, apesar do abandono dos dirigentes sindicais.

O patronato de várias indústrias respondeu agressivamente, impondo condições punitivas ao regresso ao trabalho, ameaçando com represálias e cortes salariais a uma escala sem precedentes. Mesmo assim, foi preciso uma pressão insistente dos dirigentes sindicais para forçar o regresso ao trabalho ao longo da semana seguinte, assim deixando os mineiros isolados, até à derrota final, seis meses mais tarde. A derrota dos mineiros traduziu-se, por seu turno, em mais desemprego, queda da sindicalização e numa dura legislação anti-sindical proibindo todas as formas de greve de solidariedade e apertando as regras aplicáveis aos piquetes.

No entanto, apesar de todos os planos de contingência e medidas repressivas do Governo e da recusa do TUC em alargar a participação ao máximo, a greve criou perturbações graves em sectores-chave e fez esgotar as reservas de alimentos. A sua eficácia poderia ter aumentado se se tivesse alargado e intensificado a acção, rompendo o plano de contingência civil do Governo com piquetes de massa mobilizados para todos os centros de transportes. É claro que isso teria constituído um desafio político directo ao poder do Estado, perspectiva que aterrorizava a direcção do TUC, também preocupada em impedir o desenvolvimento de uma direcção alternativa e independente a partir da base. No entanto, embora nunca tivesse sido uma situação revolucionária, a greve desafiou directamente o sistema político e económico e contribuiu para a radicalização política de um segmento considerável do operariado.


O Partido Comunista

Se bem que os militantes do Partido Comunista tivessem mostrado extraordinária coragem, a estratégia do partido foi profundamente errada. A sua palavra de ordem de “Todo o poder ao Conselho Geral”, defendida no período que antecedeu a greve geral, subordinou a acção independente da classe operária a ilusões nos dirigentes de esquerda do TUC. Foi uma política moldada pelas prioridades da que passara a ser uma Internacional Comunista cada vez mais controlada pelo estalinismo, que preconizava apoiar um Comité (Sindical) Anglo-Russo, recentemente criado com o objectivo de favorecer laços fraternos entre os sindicatos russos e os dirigentes do TUC e prometedor veículo para conferir à União Soviética legitimidade diplomática e protecção contra as contínuas ameaças de ataques imperialistas. A consequência foi não só incitar o partido a abster-se de criticar os dirigentes sindicais de esquerda em nome do apoio à unidade internacional, mas também fomentar mais geralmente a confiança dos trabalhadores em que o TUC levasse por diante o combate na greve geral.

Trotsky foi a única figura de destaque da direcção russa que se opôs a isto. Criticou a posição de Estaline, argumentando que a propagação internacional da revolução continuava a ser a melhor maneira de defender a Rússia soviética e vincando que os dirigentes sindicais de esquerda britânicos, embora fossem reflexo de um clima radicalizado no interior do movimento operário, constituíam também um freio ao seu desenvolvimento. Era essencial apoiar os dirigentes de esquerda contra a direita, mas, em vez de alimentar qualquer fé e a confiança neles, o Partido Comunista Britânico só conseguiria, insistia ele, dirigir a classe trabalhadora pela crítica implacável e pelo apoio à organização independente da base. Porém, Trotsky fora já afastado dos organismos de decisão superiores.

Será irrealista supor que, tivesse o Partido Comunista adoptado uma estratégia diferente, ele teria sido capaz de construir um movimento nacional de base que alterasse completamente o desfecho final dos acontecimentos. Mas poderia ter reduzido as ilusões e a confiança nos dirigentes de esquerda, reforçado a preparação dos operários, atenuado o choque da capitulação do Conselho Geral, dado uma explicação política coerente da derrota e posto o partido em melhor posição para resistir ao refluxo da luta operária que se seguiu.


Lições contemporâneas

Embora o panorama económico da Grã-Bretanha seja hoje muito diferente, com um número muito mais reduzido de operários industriais, numa economia globalmente interligada os trabalhadores da logística e dos transportes ocupam uma posição estratégica de força, porventura mais do que nunca. Os trabalhadores “de colarinho branco” da função pública têm igualmente a sua própria força económica e poder político para paralisar a vida social do país, com repercussões na economia em geral.

Apesar das suas fraquezas organizativas, os sindicatos continuam a ser as maiores organizações democráticas da sociedade e constituem a primeira linha de defesa dos trabalhadores contra o patronato e o Governo, continuando a greve a ser uma arma poderosa. Tal potencial ficou patente nas recentes greves gerais na Índia (onde mais de 250 milhões de trabalhadores de dez sindicatos diferentes protestaram contra o código do trabalho e as privatizações), em Itália (onde sindicatos de base mobilizaram centenas de milhares de trabalhadores contra o genocídio que Israel perpetra em Gaza) e em Minneapolis (onde vários sindicatos e movimentos sociais mobilizaram 80 mil pessoas contra as rusgas terroristas e detenções do ICE).

As lições centrais de 1926 permanecem claras: por muitos dirigentes de esquerda que haja na cúpula dos sindicatos, nada substitui o poder consciente, organizado e independente da base. Os dirigentes sindicais de esquerda podem, por vezes, desempenhar um papel importante no apoio às lutas dos trabalhadores, mas as pressões estruturais decorrentes do seu papel social de intermediários entre o capital e o trabalho fazem que, em última análise, eles estejam sujeitos aos mesmos imperativos de compromisso e traição que os seus homólogos direitistas. Contrariá-lo exige redes de base, mas também uma organização socialista revolucionária politicamente capaz de puxar as lutas para lá dos limites das direcções sindicais.


Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-internacional EUA Greve Geral Minneapolis edicao-2026-03-26 (21)

Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles

Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes, que não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada no balanço da greve geral.

ilustração: ricardo Ferreira

Algo mexeu nos Estados Unidos. A tentativa do Governo Trump de impor deportações em massa ao serviço da sua agenda etnonacionalista encontrou resistência massiva e determinada nas maiores cidades democratas do país — de Los Angeles a Chicago e Minneapolis. Tropas federais, a Guarda Nacional, agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — até os fuzileiros navais, em Los Angeles — viram-se obrigados a recuar diante da oposição nada comum da gente comum. Nos bairros, locais de trabalho, hospitais, escolas e paragens de transportes públicos, os moradores enfrentaram a máquina deportadora federal sem se deixarem intimidar. A indignação moral transformou-se em insurreição colectiva a uma escala que há décadas se não via nos Estados Unidos e que, em várias cidades, forçou um dos governos mais autoritários e agressivos da história americana a recuar, pelo menos temporariamente.

Esta é a história de como esse movimento tomou forma e do sinal para que poderá apontar quanto aos limites de um regime autoritário na América. É também um aviso: o poder autoritário, mesmo em plena expansão do Estado securitário, não é ilimitado se e quando comunidades organizadas, o movimento operário e instituições democráticas o enfrentarem.

Uma ocupação, mais do que uma política

Para entender o que se passou em Minneapolis e Los Angeles, é preciso começar pelo que Trump tem andado a fazer: não a fiscalizar a imigração, seja qual for o sentido tradicional que se queira dar à palavra. Ele declarou antes uma guerra política às cidades e comunidades que são bastiões democratas, muitas delas dirigidas por pessoas de cor, e aos laços de solidariedade que lhes mantêm a coesão.

As fileiras do ICE e da Guarda de Fronteiras dispararam, alimentadas por prémios à contratação de 50 mil dólares, feitos para atrair recrutas que são depois rapidamente treinados e colocados. Os agentes da Guarda de Fronteiras enviados para Minneapolis — que não é uma cidade fronteiriça — não estão habituados a lidar com pessoas que gozam dos direitos garantidos pela Primeira Emenda Constitucional. Ambas as forças servem-se de armas e tácticas militares, tratando a população civil como alvos inimigos.

Não é policiamento de rotina, nem sequer é o modelo já conhecido de rusgas aos imigrantes. Assistimos à militarização da fiscalização da imigração e à transformação de agências federais numa força de segurança interna.

Há quem descreva a enorme expansão do aparelho de segurança federal — exactamente quando Trump e Musk despedem centenas de milhares de outros funcionários públicos federais — como forma de keynesianismo policial: um programa de criação de emprego construído para a repressão. Dito com menos cerimónia, é um canal de recrutamento para as milícias dos Proud Boys e de outras formações de extrema-direita.

É, contudo, um fracasso, mesmo como programa de criação de emprego. Ao contrário do rearmamento militar dos nazis, que vinculou sectores significativos da população alemã ao projecto de Hitler, criando empregos a sério e expectativas económicas crescentes, a expansão do Estado de segurança nacional por intermédio do ICE não é capaz de oferecer estabilidade ou poder de compra aos trabalhadores. Não cria uma base de beneficiários alargada. O que gera é medo, raiva e repulsa. Minneapolis tanto pôs a nu os limites do poder repressivo do ICE como os limites políticos do projecto de deportação de Trump.

A administração Trump destacou para Minneapolis mais de três mil agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — mais do dobro da força policial combinada das cidades gémeas de Minneapolis e St. Paul —, no que o governo denominou de Operação Metro Surge. Os agentes do ICE espancaram e gasearam manifestantes, perseguiram autocarros escolares, lançaram bombas de gás lacrimogéneo à frente de hospitais e fizeram rusgas a pequenas empresas. Em 7 de Janeiro de 2026, o agente do ICE Jonathan Ross atirou a matar contra Renée Nicole Good, uma poeta e mãe de três filhos, enquanto ela e a mulher observavam uma rusga no seu bairro, sem violar nenhuma lei. “Nós tínhamos apitos”, disse depois Rebecca, a mulher de Good, “e eles tinham armas.” Três semanas depois, agentes federais executaram o manifestante Alex Pretti numa esquina. Dezenas de milhões de espectadores horrorizados assistiram à cena do assassinato, captada de vários ângulos.

Mesmo sem contar os montes de neve encharcados de sangue, os aspectos mais correntes da vida debaixo de ocupação são tão drásticos como os mais chocantes crimes. O jornalista sindical Luis Feliz León estava em Minneapolis, no terreno, nos dias que antecederam e se seguiram ao Dia da Verdade e da Liberdade de 23 de Janeiro. Descreveu assim o que viu:

“Varandas com montes de casacos a arejar do gás lacrimogéneo ao ar do Inverno; gatos a vaguear pelas ruas, farejando o que resta do cheiro de donos raptados; crianças de cor à boleia de vizinhos brancos por os pais terem medo de a polícia os parar; professores a recolherem sacos de roupa suja à chegada à escola por os pais não poderem sair para pôr roupa a lavar.”

Ir à escola passou a ser um risco. Aniversários e quinceañeras (festas dos quinze anos) foram cancelados. Uma comunidade inteira, sitiada.

O procurador-geral adjunto da República, Todd Blanche, queixou-se à Fox News: “Temos estes abusos e este barril de pólvora numa cidade — em mais lado nenhum.” Disse-o como insulto. Minneapolis ouviu-o com orgulho.

Raízes fundas, fogo súbito

A revolta que se seguiu não surgiu do nada. É um dos argumentos centrais apresentados pelos analistas do movimento operário que estudaram o que aconteceu — e é o argumento que mais há-de interessar leitores em Portugal e noutros países que desejem tirar ilações, mais do que meramente admirar a coragem.

Minneapolis tem uma história de luta sedimentada, nas palavras de um militante, incrustada “bem fundo no solo gelado do Minnesota”. A greve dos Teamsters (camionistas) de 1934, dirigida por militantes trotskistas, foi um dos momentos fundacionais do sindicalismo americano, conjugando entreajuda, acção de massas disciplinada e uma política que extravasou da simples contratação para o desafio ao carácter da própria cidade. A revolta de 2020 em reacção ao assassinato de George Floyd pela polícia — a poucos quarteirões de onde Renée Good foi depois morta — ergueu redes inteiramente novas de solidariedade e confiança entre moradores que superaram barreiras raciais. Em 2022, a Federação dos Professores de Minneapolis fez greve não apenas pelos salários, mas por justiça racial. As enfermeiras fizeram greve. Os trabalhadores da saúde sindicalizaram-se. Ao longo de mais de uma década, uma aliança de organizações de direitos dos imigrantes, sindicatos, comunidades religiosas e centros operários foi construindo o que os militantes chamavam, deliberadamente, não aliança, mas “alinhamento” — algo mais profundo, em que as organizações se conhecem intimamente e estão profundamente empenhadas em fortalecer as bases organizativas umas das outras.

Emilia González Avalos, a directora executiva da Unidos, descreve assim a trajectória desta organização: começando por ser considerada um “grupo especializado”, periférico na aliança progressista, a sua organização passou anos a juntar poder através da infra-estrutura eleitoral, de trabalho junto do eleitorado e da aprovação do programa legislativo do “Milagre do Minnesota”, em 2023: cartas de condução para residentes indocumentados, remuneração das faltas por doença, maior cobertura de assistência médica e muito mais. Quando o ICE apareceu em força, já estavam criados os alicerces de algo muito mais vasto do que qualquer organização tivesse podido conseguir isoladamente. A invasão do ICE foi a faísca. Décadas de organização, o combustível.

Cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra.

O Dia da Verdade e da Liberdade

Em 23 de Janeiro de 2026, com temperaturas de -30°C e vento a produzir sensações térmicas de -45°C, entre 75 mil e 100 mil pessoas acorreram ao centro da cidade de Minneapolis, a meio de um dia útil. Escolas, instituições culturais e mais de mil pequenas empresas fecharam. Mais de 80% dos membros da secção 7250 do Sindicato dos Trabalhadores em Comunicação da América (CWA) faltaram ao trabalho. Os motoristas da Uber e da Lyft — quase todos eles trabalhadores imigrantes de cor — choraram ao saber que cem religiosos haviam sido presos no Aeroporto de Minneapolis por exigirem que a Delta, a Target, a 3M e a General Mills tomassem publicamente posição contra a ocupação federal da cidade. Segundo uma sondagem realizada posteriormente, cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra, apesar de a acção ter sido convocada com apenas duas semanas de antecedência. Aderiram à acção cidades e vilas de todo o país.

Terá sido uma greve geral? Interessa menos a resposta do que o que o dia representou. Na sua análise da greve de massas na Rússia de 1905, Rosa Luxemburgo argumentou que a greve geral não era um evento específico, mas um processo — um vaivém entre luta económica e política, erupção espontânea e resposta organizada, coragem individual e consciência colectiva. O que Minneapolis demonstrou foi exactamente isso: o momento em que uma comunidade deixa de ser um agregado de indivíduos isolados e se torna, ainda que brevemente, num actor colectivo consciente de si.

Kieran Knutson, presidente da secção 7250 do CWA e um dos principais arquitectos da resposta sindical, é franco tanto a respeito do que se conseguiu como dos seus limites. As grandes empresas continuaram a funcionar. A acção de 23 de Janeiro foi uma greve política de massas, não uma greve geral no sentido clássico. Mas houve algo de qualitativamente novo. Os trabalhadores que marcharam até ao escritório do patrão antes do dia da acção para exigir o encerramento da empresa voltaram no dia seguinte com mais reivindicações: que o ICE fosse definitivamente proibido de entrar na empresa. “Tal é o nível de confiança a que estamos a assistir”, disse León. Pela primeira vez há muito tempo, uma classe trabalhadora que acabava de ganhar confiança em sim mesma tomava conta de uma grande cidade americana.

Eric Blanc, cuja avaliação rigorosa do momento de Minneapolis está entre as melhores que apareceram, identifica três ingredientes necessários para uma verdadeira greve geral: a energia, a organização e uma direcção militante e disposta a correr riscos. Minneapolis teve-os aos três em grau pouco habitual. Ainda assim, onde Blanc vê o reverso da medalha e o calcanhar de Aquiles do movimento é no sector privado, onde a densidade sindical é de apenas 6% ao nível nacional e onde os trabalhadores de empresas como Target, Amazon e Home Depot — cujos empregadores são cúmplices directos do ICE — têm o maior potencial estrutural, mas a menor protecção organizacional.

Uma das inovações tácticas mais importantes, em Minneapolis, foi o que González Avalos chama a “rampa de observação constitucional”. A Unidos treinou 30 mil habitantes do Minnesota para observar e documentar as rusgas do ICE nos termos da lei. Parecia coisa modesta, passiva, até: pessoas a filmar, a serem testemunhas. Contudo, ver-se cara a cara com sete agentes federais armados a prender um pai que levava os filhos à escola mudou as pessoas. “Muda as pessoas”, disse simplesmente González Avalos. Esses 30 mil observadores passaram a ser a base da qual podia crescer uma organização mais profunda — recrutados não ideologicamente, mas pela experiência de testemunharem actos de crueldade e decidirem não olhar para o lado.

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Los Angeles: o modelo

Antes de Minneapolis, houvera Los Angeles. E a história de Los Angeles tem significado especial para mim, que lá vivo e trabalho.

Trump odeia Los Angeles, cidade de maioria negra e parda que vota esmagadoramente nos democratas, com quase 35% de imigrantes, cidade com sindicatos fortes, orgulhosa cidade-refúgio. Entre Junho e Julho de 2025, Trump mandou para a cidade 4800 soldados da Guarda Nacional e 700 fuzileiros navais, expressamente para esmagar a resistência, abrir um precedente e fomentar a violência. Apanhou, em vez disso, com o escantilhão da sua derrota.

A resistência intensificou-se quando as tropas entraram. O governador, o presidente da câmara, os dois senadores federais, a maioria absoluta na legislatura da Califórnia e os superintendentes dos condados uniram-se em oposição, dando à resistência cobertura política e legitimidade institucional. Mas a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, declarou que iria “libertar Los Angeles do presidente da câmara e do governador socialistas” — aparentemente ignorante da sua falta de autoridade para destituir funcionários eleitos.

O ponto de viragem deu-se em 6 de Junho, quando o presidente do sindicato dos empregados de serviços, SEIU California, David Huerta, foi espancado e preso enquanto documentava uma operação do ICE no centro da cidade. Da cama de hospital, Huerta definiu o que se passara não como um incidente, mas como um movimento: “O que temos de saber é como nós, a comunidade que somos, nos unimos e resistimos à injustiça que está a acontecer”. A Federação Sindical do Condado de Los Angeles, uma das maiores do país, mobilizou-se imediatamente. Os sindicatos organizaram comícios e acções de defesa dos imigrantes por toda a cidade.

Ganhou forma uma ampla frente antifascista: sindicatos e centros de trabalhadores, incluindo o Centro de Trabalhadores Filipinos, a Aliança de Trabalhadores Imigrantes Coreanos e a CHIRLA, a Aliança pelos Direitos Humanos dos Imigrantes de Los Angeles; comunidades religiosas, incluindo a Diocese Católica e a Holman United Methodist, a maior igreja negra da cidade; organizações jurídicas, incluindo a ACLU e a MALDEF; artistas e músicos; e, elemento crucial, a comunidade empresarial. Tanto a Câmara de Comércio como o Conselho Empresarial de Los Angeles tomaram posição, não por solidariedade, mas porque as rusgas estavam a dar cabo da economia da cidade. Empresas de construção, restaurantes, hotéis, lavagens automáticas e fábricas de vestuário sofriam perdas de receitas com os trabalhadores imigrantes a ficarem em casa e os clientes imigrantes a não aparecerem.

Um juiz federal sentenciou que o envio de tropas violava a Lei Posse Comitatus, que proíbe o uso das forças armadas como forças da ordem interna.

Trump acabou por mandar retirar as suas forças com o argumento forçado de ter “salvo a cidade de ficar reduzida a cinzas”. Como comentou o militante Bill Gallegos, Los Angeles reagiu ao som de milhões de habitantes a rirem-se do dislate. A retirada fora resultado de uma frente ampla, disciplinada, multi-sectorial.

A lição de Los Angeles não é a mesma de Minneapolis — eram diferentes a infra-estrutura organizativa, a cultura política e o rastilho. Mas a lógica de fundo é a mesma: construir a partir da base de organização; unir quem é susceptível de união; manter uma reivindicação clara e coerente; e não lhes oferecer a violência por que eles anseiam.

Onde estamos e onde podemos chegar

Entre Los Angeles e Minneapolis houve Chicago, onde o ICE foi brutal, mas a resistência, igualmente feroz. A contribuição de Chicago para o arsenal da luta popular foi prática e elegante: a distribuição em massa de apitos, permitindo às comunidades alertar os vizinhos assim que o ICE aparecesse nas suas ruas. As brigadas do apito alastraram a Minneapolis e outros pontos, tornando-se uma ferramenta quase universal da resistência, uma ilustração pequena, mas perfeita, de como as pessoas se apropriaram de formas de auto-organização e defesa, transmitindo a experiência das cidades de uma para a outra.

Luis Feliz León invoca o conceito de greve de massas de Rosa Luxemburgo para descrever o que estava a acontecer: não um único evento programado, mas um processo de radicalização mútua entre a indignação e a organização, entre a acção espontânea da gente comum e a armadura institucional que lhe empresta direcção e solidez. A greve geral, escreveu Luxemburgo, é o “pulso vivo da revolução” — não pode ser decretada, apenas preparada e aproveitada.

Este processo está em andamento nos Estados Unidos em moldes que seriam quase inimagináveis há cinco anos. A infra-estrutura de organização — anos de construção de alianças, desenvolvimento de direcções, de plenários de trabalhadores, de redes de entreajuda, de formação de observadores constitucionais — já existia. A faísca da violência do ICE acendeu-a. E dessa combustão algo de novo se criou: uma confiança da classe trabalhadora em si mesma e um novo sentido das possibilidades colectivas, que não desaparece quando a crise imediata recua.

A história não parou. Trump recuou em algumas das tácticas mais agressivas — que foram extremamente impopulares, prejudicaram os seus índices de aprovação e enfureceram até republicanos, furiosos por o método Trump-Miller ter prejudicado o emblema da sua política, a demonização dos imigrantes. Há décadas que a “imigração ilegal” tem sido usada como cacete para mobilizar o medo, enquanto a sua verdadeira função económica — criar uma força de trabalho imigrante super-explorada e sem direitos, para fazer baixar os salários — passava despercebida. Agora a violência é visível, as vítimas merecem simpatia, e a política é corrosiva.

O ICE recuou, mas continua a sua missão de deportação, agora com pontaria mais afinada. A resistência respondeu com nova energia. Os comícios No Kings (“não queremos reis!”) passaram a ser comícios de massas; em Los Angeles, moradores patrulham os parques de estacionamento da Home Depot, protegendo os seus vizinhos, que trabalham no duro, porque “silêncio é violência”.

Um designer gráfico de um bairro de Los Angeles descreveu o que muitos manifestantes de primeira viagem estão a viver: “Acho que é como uma primeira droga — até pessoas que nunca fizeram nada de militante na vida acabam por ir parar a protestos, animadas pelo espírito de comunidade, pelo propósito e pelo amor à democracia”. Outro activista disse-o de forma simples:

“Minneapolis é o modelo. Quando duas pessoas inocentes foram mortas a protestar contra as rusgas do ICE, a comunidade uniu-se e levantou-se em protesto, forçando as forças de Trump a retirar. Minneapolis reagiu com humanidade — esse é o futuro que queremos construir.”

Kieran Knutson tem estado a convocar assembleias de trabalhadores em Minneapolis — novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes. Não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada pela greve geral em vez de a devolver a quem tem interesses e programas diferentes, onde se incluem os funcionários democratas que condenaram publicamente o ICE enquanto cooperavam com ele em privado.

O horizonte imediato é o Dia do Trabalhador de 2026, um Dia Nacional Sem Trabalho, Sem Escola e Sem Compras. O horizonte mais distante é uma temporada de greves a organizar para 2028, com os sindicatos a alinharem a caducidade dos seus contratos para maximizar o impacto nos sectores manufactureiro, da logística, da educação e do retalho alimentar.

Nenhuma dessas datas está garantida. No entanto, o que é já certo é que dezenas de milhares de americanos comuns olharam agentes federais olhos nos olhos, denunciaram-nos com apitos, mantiveram-se firmes e recusaram-se a abandonar o local.

Como escreveu Boris Kagarlitsky de uma colónia penal russa, num contexto muito diferente, mas num espírito que afina pelo mesmo diapasão: “Não somos vítimas. Somos lutadores.”

O movimento em Minneapolis, Chicago e Los Angeles diz-nos uma coisa que os movimentos de esquerda de toda a parte têm de escutar. Só por si, a resistência não basta, mas é com ela que tudo o mais começa. Quando as pessoas se organizam, se mantêm a pé firme e se recusam a cair na violência que o Estado provoca, pode-se resistir até a um presidente determinado em reprimir.

Quando isso acontece, as pessoas mudam. Surgem novos dirigentes. Novas formas de organização ganham raízes. Novos horizontes tornam-se imagináveis.

É isso que uma greve de massas faz. Não conquista apenas reivindicações. Refaz as pessoas que a fazem.


Tradução: Adriano Zilhão

categoria-história Greve Geral Sorel edicao-2026-02-12 (15)

Sorel e o direito à greve geral

Sorel rejeitava a concepção da revolução como mera conquista do poder estatal, entendendo que tal conduziria apenas à substituição de elites no comando político. Para ele, o socialismo implicava a abolição do Estado e a transformação radical da sociedade.

A partir de meados do século XIX, os movimentos populares europeus empreenderam um esforço de unificação e reorganização do proletariado, procurando ultrapassar fragmentações profissionais e sindicais para se constituírem como classe social com objectivos comuns. Este processo deu origem a intensos debates internos, sobretudo no que dizia respeito às formas de luta e aos modelos de organização considerados mais eficazes para a transformação social.

É neste contexto que surgem os primeiros partidos sociais-democratas europeus, profundamente marcados pela doutrina marxista, aos quais foi atribuída a tarefa de organizar politicamente as massas trabalhadoras e de lhes incutir uma consciência de classe. Nos debates da Segunda Internacional (Socialista), durante a década de 1890, reafirmou-se a centralidade do partido como instância dirigente do movimento operário, defendendo-se que a acção socialista deveria ser prioritariamente política e parlamentar. Esta posição levou à exclusão das correntes anarquistas e sindicalistas, tradicionalmente desconfiadas da política institucional e defensoras da acção directa das massas, em particular da greve geral.

Embora a greve geral tivesse sido experimentada desde a década de 1840 pelo proletariado parisiense e reconhecida pela Primeira Internacional no Congresso de Bruxelas de 1868, os líderes sociais-democratas consideravam-na um instrumento excepcional, aplicável apenas em circunstâncias extremas. Argumentavam que a sua eficácia exigia um proletariado altamente educado, organizado e disciplinado, o que levou à rejeição da sua institucionalização nos congressos de Dresden, Bremen e Amesterdão, entre 1903 e 1904. Ainda assim, a revolução russa de 1905 voltou a colocá-la no centro do debate, sobretudo através de Rosa Luxemburgo, que acreditava no potencial revolucionário da acção espontânea das massas, desde que acompanhada por um intenso trabalho de educação política.

Paralelamente, em França, desenvolveu-se uma corrente de sindicalismo revolucionário que rejeitava a primazia do partido político e defendia os sindicatos como forma autêntica de organização proletária. Georges Sorel tornou-se uma das figuras centrais deste movimento, ao lado de autores como Lagardelle e Berth. Para estes pensadores, os sindicatos não deveriam funcionar como simples intermediários entre o partido e as massas, mas como protagonistas de uma acção directa capaz de paralisar o Estado burguês através da greve geral, impondo a revolução sem esperar pelo colapso económico do capitalismo.

Sorel rejeitava a concepção da revolução como mera conquista do poder estatal, entendendo que tal conduziria apenas à substituição de elites no comando político. Para ele, o socialismo implicava a abolição do Estado e a transformação radical da sociedade. A actividade parlamentar e as reformas legislativas eram vistas como factores de conformismo e desmobilização, responsáveis pela atenuação da luta de classes. Por essa razão, Sorel recusava a greve geral política subordinada a objectivos eleitorais, como a ampliação do sufrágio, defendendo antes uma greve geral revolucionária, capaz de libertar uma intensa energia social e de funcionar como motor de transformação histórica da luta de classes.

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A originalidade do pensamento de Sorel está intimamente ligada à sua crítica do determinismo e do racionalismo do marxismo ortodoxo. Influenciado pela filosofia de Bergson, valorizou os elementos irracionais, emocionais e imprevisíveis do processo histórico. Para Sorel, o marxismo não deveria ser entendido como ciência rigorosa da história, mas como uma ideologia mobilizadora, capaz de exercer uma profunda influência sobre o proletariado na sua auto-identificação como classe. Neste ponto, aproxima-se das teorias da psicologia das massas e reconhece o papel central das crenças, imagens e afectos na dinâmica da acção colectiva.

É neste quadro que surge o conceito de mito revolucionário, desenvolvido em Réflexions sur la Violence (1908). O mito não descreve uma sociedade futura ideal, nem corresponde a uma utopia racionalmente construída; trata-se antes de uma imagem mobilizadora que actua sobre o presente, orientando a prática colectiva e reforçando a coesão do grupo. A greve geral constitui, para Sorel, o mito, por excelência, do proletariado: uma representação capaz de condensar sentimentos de solidariedade, heroísmo e auto-sacrifício, mantendo viva a consciência militante e preparando a ruptura com a ordem existente.

A violência associada a este mito não se confunde com a violência jacobina nem com uma apologia da barbárie. A violência proletária defendida por Sorel possui uma função moral e educativa, sendo concebida como um acto de guerra que demarca claramente a divisão de classes. Dirigida contra o Estado e os capitalistas, procura preservar a autonomia do movimento operário e promover uma transformação ética da sociedade, fundada em valores como a dignidade, a grandeza e a autenticidade do trabalho.

É precisamente neste ponto que se pode estabelecer um diálogo fértil com Walter Benjamin. No ensaio Para uma Crítica da Violência, Benjamin reconhece na violência revolucionária uma dimensão não instrumental, distinta tanto da violência jurídica quanto da violência mítica associada ao poder estatal. Embora não adopte integralmente o vocabulário soreliano, Benjamin aproxima-se da ideia de uma violência que interrompe a continuidade da ordem histórica vigente e abre a possibilidade de um novo tempo, libertando a acção revolucionária da lógica dos meios e dos fins. Ao contrário de leituras que associam Sorel ao autoritarismo, Benjamin identifica na sua concepção de greve geral proletária uma forma de violência “pura”, capaz de suspender o direito e de desactivar os mecanismos de dominação do Estado moderno.

Toda a emancipação exige não apenas organização e estratégia, mas também imaginação, risco e coragem histórica.

Também em Gramsci se encontram ressonâncias importantes do pensamento soreliano, ainda que mediadas por uma reelaboração crítica. Gramsci reconhece em Sorel a importância do elemento simbólico, da vontade colectiva e da mobilização moral das massas. A noção de mito revolucionário contribui, indirectamente, para a sua reflexão sobre a hegemonia, entendida como articulação entre coerção e consenso, razão e afecto, estrutura e superestrutura. Contudo, Gramsci distancia-se da espontaneidade soreliana, atribuindo ao partido um papel central na organização da vontade colectiva e na construção de uma direcção política duradoura. Se Sorel confia sobretudo na energia ética da acção directa, Gramsci procura integrá-la num projecto político mais amplo, capaz de disputar o poder cultural e institucional.

Apesar das controvérsias que envolveram o pensamento de Sorel — nomeadamente a sua posterior associação ao autoritarismo e ao fascismo, em parte decorrente da apropriação selectiva das suas ideias por correntes nacional-sindicalistas, a sua obra exerceu influência decisiva em vertentes heterodoxas do marxismo europeu. As tentativas de reduzi-lo a um precursor do totalitarismo ignoram a complexidade do seu projecto teórico, que permanece centrado na emancipação moral das massas, na crítica do reformismo e na confiança na capacidade autónoma da acção proletária para transformar a história.

Em última instância, a reflexão de Sorel sobre a greve geral desloca o problema da revolução do plano estritamente institucional para o domínio da ética, da imaginação política e da experiência histórica vivida. Ao conceber a greve geral como mito mobilizador, Sorel afirma que nenhuma transformação radical pode ocorrer sem a emergência de uma vontade colectiva capaz de romper com o tempo homogéneo do progresso. É nesse ponto que o seu pensamento permanece central: ao insistir na força criadora das massas, na dimensão moral da acção e na centralidade do conflito, Sorel antecipa questões que atravessam o marxismo do século XX — de Benjamin a Gramsci — e continua a interpelar criticamente as formas contemporâneas de política, lembrando que toda a emancipação exige não apenas organização e estratégia, mas também imaginação, risco e coragem histórica.

categoria-internacional Greve Geral ICE Minnesota edicao-2026-01-29 (13)

Greve geral no Minnesota — e na América — pode ser precursora

Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros.

Hoje, o estado de Minnesota fecha portas, em solidariedade.

É a primeira greve geral do país em resposta à violência de Trump.

Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros. Um apagão económico.

Os militantes começaram a chamar ao dia de hoje “Dia da Verdade e da Liberdade”.

É um modelo possível do que o país no seu todo pode fazer nos próximos meses em repúdio à ditadura de Trump.

Escrevendo no TNR [The New Republic] de ontem, Ana Marie Cox destaca a naturalidade com que o estado do Minnesota se põe à cabeça neste tipo de situações. “É impossível sobreviver a um inverno do Minnesota sem ajuda, e nem sempre a ajuda vem dos vizinhos imediatos. São verdadeiras as histórias de pessoas que se põem a limpar a neve dos caminhos de entrada de carros em quarteirões inteiros sem ninguém lho pedir e sem receberem qualquer compensação, mas verdadeiros milagres (e não menos comuns) são as ocasiões em que estranhos param para ajudar alguém a desimpedir um carro enterrado num banco de neve ou tiram dos porta-bagagens areia sanitária para o gato, lá posta exactamente para emergências destas.”

Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros.

Mas o que está a acontecer hoje pelo Minnesota fora é mais do que ajuda mútua entre vizinhos; é o poder popular a falar. Federações sindicais, a [central sindical] AFL-CIO e centenas de empresas coordenam a paralisação económica deste dia em resposta directa à invasão do Minnesota pelos jagunços federais de Trump.

Cox não se engana sobre a cultura do Minnesota. “As pessoas prestam ajuda sem hesitar nem perguntar; acho que nunca ouvi ninguém responder a um agradecimento dizendo ‘nada, retribui-me de outra vez’. Claro que se retribui, toda a gente sabe que é assim. Há quem se possa surpreender por esta generosidade coexistir com a tenaz microdistância interpessoal característica do Médio Oeste (Midwest), que pode demorar anos a dissipar. É que a cautela do relacionamento tem que ver com a universalidade do princípio de que não se ajuda alguém por se gostar da pessoa; ajuda-se, simplesmente.”

Eu acrescentaria, todavia, que a cultura que Cox aponta também se encontra nas ruas e vielas de todos os estados da América. Mergulha raízes numa longa tradição de poder popular. E ajuda a explicar porque superou a mobilização de Minneapolis barreiras de classe e de raça ainda mais radicalmente do que a resposta ao assassinato de George Floyd — e porque uma mobilização semelhante se está a produzir em todo o país.

É o predicado da resistência popular e da participação generalizada de moradores recém-mobilizados contra a ocupação pelo ICE e a tirania de Trump.

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Como diz Cox, “é mais do que os oito minutos de crueldade assassina captados por um telemóvel, é mais do que o assassinato de Renee Nicole Good. O ICE é um exército de Derek Chauvins e Jonathan Rosses [os assassinos de George Floyd e de Renee Good], largados para pôr a cidade a ferro e fogo todos os dias. A memória é viva, o trauma, imediato e duradouro, e a força que subjaz à resposta é fruto de décadas de trabalho”.

A decência dos habitantes de Minnesota reflecte-se nas igrejas luteranas que foram a semente do que veio a ser a maior população de refugiados per capita dos Estados Unidos. O Minnesota já tinha movimento sindical quando ainda não era um estado. O Minnesota criou o primeiro fundo mútuo de alto risco do país para segurar os “inseguráveis”, em 1976.

Sementes idênticas se encontram em cada estado e em cada comunidade.

Cox insta-nos a, no nosso canto, olhar em volta. Talvez a nossa própria comunidade esteja precisada da nossa ajuda para ajudar a semear um módico de capacidade de resistência — agora, antes que apareça uma crise que nos consuma, e ainda que o clima não seja subárctico.

Agora não é má altura para ir pôr víveres num frigorífico de acesso gratuito da nossa cidade. Ou então descobrir algum trabalho que se possa fazer por um vizinho, agora, antes de ele precisar mesmo. Ou então frequentar uma formação sobre a maneira de administrar naloxona. Oferecer-se para passear cães. Começar um armazém de ferramentas comunitário. Decorar uns nomes.

Inscrever-se na vigilância ao ICE (ICE watch) que se está a formar nas redondezas de cada um; quase de certeza que o ICE já anda por aí.

Ainda mais importante é compenetrarmo-nos de que o que Trump anda a fazer a Minneapolis é o modelo do que Trump tenciona fazer na terra de cada um de nós.

Que a greve geral do Minnesota seja o nosso modelo de como lhe vamos responder à escala nacional.

In https://robertreich.substack.com/


*Robert Reich é um professor, escritor, jurista e comentador político americano. Trabalhou nas administrações dos presidentes Gerald Ford e Jimmy Carter. Foi ministro do Trabalho do presidente Clinton de 1993 a 1997.


Depois de Renee Good, a milícia trumpiana ICE assassina mais um trabalhador de Minneapolis

No dia 24 de Janeiro, a milícia nazi de Trump, ICE, assassinou a sangue frio mais um trabalhador de Minneapolis. Desta vez, foi um enfermeiro, Alex Pretti, de 37 anos.

Pretti tinha um telemóvel na mão. Tentou ajudar uma manifestante, brutalmente derrubada pelos milicianos de Trump, a levantar-se. Foi então atacado e derrubado por vários agentes que, quando ele se encontrava no chão, dispararam contra ele uma dezena de tiros à queima-roupa.

A administração Trump apressou-se a dizer que era um “terrorista interno” armado, história absurda que mantém quando vídeos que circulam nas redes sociais e na grande comunicação social mostram o contrário: Alex Pretti estava armado de um telemóvel… Provavelmente a arma mais perigosa que podia levar consigo.

Publicamos excertos de um comunicado do sindicato em que Alex Pretti era filiado, o National Nurses United, o maior sindicato e associação profissional de enfermeiros habilitados dos EUA, com mais de 225 mil membros, dos quais 80 mil no estado do Minnesota.

“Os enfermeiros deste país, cuja missão é cuidar e salvar vidas humanas, manifestam o seu horror e indignação ante o assassinato a sangue frio perpetrado, uma vez mais, por agentes do serviço de imigração contra alguém que observava sem lhes fazer qualquer ameaça. Desta vez, executaram um enfermeiro nosso colega, Alex Pretti, cujo trabalho numa unidade de cuidados intensivos adstrita ao VA, o Serviço de Saúde dos Veteranos consistia em salvar a vida de antigos combatentes. Como membro da Federação Americana de Funcionários do Estado (AFGE), ele não só intercedia pelos interesses dos seus pacientes da VA, como levava esse trabalho para as ruas, intercedendo pela sua comunidade, como é dever de um enfermeiro. Exigimos justiça e apuramento de responsabilidades pelo seu assassinato.

O ICE e todas as agências de imigração com ele relacionadas têm demonstrado repetidamente, pela violência, terror e ilegalidade com que actuam, que representam uma grave ameaça à saúde pública de todo o país e de todas as nossas comunidades. Os agentes do ICE têm raptado pessoas que trabalham duramente: mães, pais, filhos. Assassinaram agora um enfermeiro, membro de uma das profissões que mais confiança merecem ao país.


Os enfermeiros exigem a extinção imediata do ICE

Os enfermeiros são formados para responder a situações de emergência, por isso vimos exigir acção urgente para parar com a violência do ICE nas nossas comunidades. O National Nurses United apela a votar contra o projecto de lei que afecta dotações orçamentais à Segurança Interna, submetido à aprovação do Senado na semana que vem, e exige que o Congresso extinga definitivamente o ICE. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que os deputados que apoiem o financiamento deste ataque sem freio à saúde, segurança e direitos civis do nosso povo não sejam reeleitos.


Extinção do ICE já!

O National Nurses United é o maior sindicato e associação profissional de enfermeiros habilitados dos Estados Unidos e o que mais tem crescido. Entre os sindicatos filiados no NNU incluem-se a California Nurses Association / National Nurses Organizing Committee, a DC Nurses Association, a Michigan Nurses Association, a Minnesota Nurses Association e a New York State Nurses Association.”


Tradução de Adriano Zilhão. O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

A greve e a soberania
No centenário da greve geral de 1926 na Grã-Bretanha
Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles
Sorel e o direito à greve geral
Greve geral no Minnesota — e na América — pode ser precursora
A greve e a soberania
Greve Greve Geral categoria-política edicao-2026-06-04 (30)

A greve e a soberania

Foram as greves gerais dos séculos XIX e XX que transformaram a democracia restrita aos proprietários naquilo que hoje conhecemos. Um pouco por toda a Europa, o sufrágio universal e a representação dos trabalhadores figuravam entre as principais reivindicações — e conquistas — dessas lutas

Jonas van Vossole
No centenário da greve geral de 1926 na Grã-Bretanha
Greve Geral Reino Unido categoria-história edicao-2026-05-07 (26)

No centenário da greve geral de 1926 na Grã-Bretanha

Assinala-se este mês o centenário da greve geral de 1926 na Grã-Bretanha. Quase 1,7 milhões de trabalhadores entraram em greve em solidariedade com um milhão de mineiros postos em layoff. Enfrentavam os proprietários das minas, o governo conservador e o aparelho do Estado.

Ralph Darlington
Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles
categoria-internacional EUA Greve Geral Minneapolis edicao-2026-03-26 (21)

Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles

Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes

Suzi Weissman
Sorel e o direito à greve geral
categoria-história Greve Geral Sorel edicao-2026-02-12 (15)

Sorel e o direito à greve geral

Sorel rejeitava a concepção da revolução como mera conquista do poder estatal, entendendo que tal conduziria apenas à substituição de elites no comando político. Para ele, o socialismo implicava a abolição do Estado e a transformação radical da sociedade.

Maria João Cantinho
Greve geral no Minnesota — e na América — pode ser precursora
categoria-internacional Greve Geral ICE Minnesota edicao-2026-01-29 (13)

Greve geral no Minnesota — e na América — pode ser precursora

Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros.

Robert Reich

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