Conhecimento

Conhecimento mata?
categoria-crónica Conhecimento Deus Ignorância edicao-2026-06-18 (32)

Conhecimento mata?

A ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores.

Maria Augusta Tavares
O papel da escola
categoria-educação Conhecimento Escola Vigotski edicao-2025-11-27 (06)

O papel da escola

O estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa.

Roberto Valdés Puentes
categoria-crónica Conhecimento Deus Ignorância edicao-2026-06-18 (32)

Conhecimento mata?

Tenho o rádio ligado na Antena 2, enquanto limpo pés de galinhas. Mortas. O campo da estética ainda não inclui pedicure galinácea. Ouço ópera: Pagliacci. Esta ópera tem um prólogo: um ator alerta o público para que o que vão ver não serão palhaçadas, mas acontecimentos comuns à vida de muitas pessoas. Aproprio-me do mesmo prólogo para vos dizer que os meus pés de galinha não vão conduzir à comédia, mas a factos reais, que desgraçadamente atingem a vida da maioria.

Não me surpreende se alguém torcer o nariz ao se perguntar se vou comer pés de galinha. Sim, vou. O pé de galinha é um alimento altamente nutritivo, tem uma elevada concentração de colagénio e proteína. É o que dizem os grandes criadores de galinhas. O baixo preço e a comprovação de que atuam na eliminação dos pés de galinha que carregamos ao redor dos olhos podem fazer desse produto, que iria para o lixo, um campeão de vendas.

A higienização dos pés de galinha não é das coisas mais bonitas que se faz na cozinha. Embora já os compremos parcialmente limpos, outras tarefas complementam a limpeza. A primeira delas é fazer a mutilação de parte dos dedos, o que me remete imediatamente para a grave ação de violência praticada por torturadores, nas guerras, nos regimes ditatoriais e, por vezes, bem pertinho de nós, nas organizações criminosas e em sistemas prisionais.

Faz parte da higiene eliminar a falange distal, ou mais cientificamente, a falange ungueal, onde se encontra a unha. Uma a uma, a repetição desse ato e a música – sem que seja descartado o propósito culinário – me carregam por caminhos inusitados. Coisas da subjetividade.

Penso na fome e em Josué de Castro, médico brasileiro, cuja vida foi dedicada a explicar e a combater a fome. A sua pesquisa constata que, ao contrário das causas comumente aludidas à época – condições físicas, climáticas e étnicas –, a fome no Brasil não era um fenómeno natural, mas o resultado de desigualdades sociais, má distribuição de renda e concentração de terras. Pleno de razão. Mas a sua defesa de uma reserva mundial contra a fome contrariou os interesses de grupos económicos nacionais e internacionais, ao ponto de ter seus direitos políticos cassados em 1964, por ocasião do golpe militar. Para não ser preso, exilou-se em Paris, onde continuou a luta contra a fome até morrer. “Metade da humanidade não come; a outra não dorme com medo da que não come”, dizia ele. Hoje, caríssimo Josué de Castro, a sua afirmação precisa ser revisitada. A realidade só piorou: temos também – talvez mais – muito medo dos que comem, principalmente dos que comem caviar, lagosta, foie gras, etc., regados a Romanee Conti.

Penso na ignorância dos famintos e em Paulo Freire, educador brasileiro, considerado um dos pensadores mais notáveis da história da pedagogia mundial. Tornou-se famoso por ter desenvolvido um método de alfabetização de adultos orientado para o desenvolvimento da consciência crítica. Pedagogia do Oprimido, sua obra mais conhecida, está entre os três livros mais citados em trabalhos académicos de ciências sociais no mundo. Foi homenageado com dezenas de títulos de doutor honoris causa. Mas, também, à semelhança de Josué de Castro, sofreu imensas perseguições durante a ditadura militar brasileira. O facto de ter tido uma vida de extrema pobreza, agravada durante a crise económica de 1929, como também a precariedade da região onde ele vivia explicam a expressão “educar pela fome” a ele associada. Para ele, a fome não era apenas falta de alimento, era uma violência praticada por aqueles que deviam assumir a tarefa de proteger. Foi preso sob a acusação de doutrinação e subversão e ao sair da prisão forçado ao exílio. 

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Penso ainda na guerra e na literatura produzida pelo Primo Levi. Por fim, penso na sua morte. Paro aí, para me perguntar o que justificaria o seu suicídio. Arrisco-me a supor que a profundidade do saber crítico o pôs diante de uma realidade insuportável. A ideia me assusta. Se o capital e o Estado levantarem a mesma hipótese, podem tomá-la como justificativa para que a educação se restrinja tão somente a preparar para o mercado de trabalho. Nenhuma novidade, nós o sabemos. O liberalismo advoga essa prática desde a sua origem. Mas, convenhamos, um exemplo sempre fortalece, sobretudo quando proveniente de um resistente antifascista convicto, participante da luta armada clandestina, nos anos da Segunda Grande Guerra. Primo Levi foi capturado pela milícia fascista e deportado para o campo de extermínio de Auschwitz, sobreviveu ao holocausto e dedicou a sua vida a escrever sobre os mecanismos de desumanização dos regimes autoritários. Não se pode dizer que foi um derrotado. Trata-se de alguém cujas memórias foram registadas e tornadas públicas através dos seus livros, que denunciam os horrores do holocausto. Se considerarmos o sentido da vida para ele, podemos dizer que, apesar dos sofrimentos impostos, a sua luta não foi vã. Contudo, ele escolheu antecipar a morte. 

Pode-se concluir que o conhecimento mata? 

Parecer-vos-ia um grande absurdo se os poderes constituídos afirmassem que a oferta da educação direcionada para a prática, a produtividade, o desenvolvimento capitalista tem o propósito de preservar a vida dos trabalhadores?

Imaginemos a grande mídia, com todos os recursos de que dispõe, declarando: CONHECIMENTO MATA.

Um grande absurdo? Alguém acreditaria? 

Eu vos digo que muitas pessoas, além de acreditar, juntar-se-iam aos divulgadores oficiais. Algumas até acrescentariam com ares de sabedoria: se o que Josué de Castro queria era solucionar o problema da fome, podia ter estudado as propriedades nutricionais da casca de banana, da casca da maçã e de outros alimentos que vão para o lixo. Meteu-se no que não era de sua conta. Por sua vez, Paulo Freire podia ter alfabetizado aquela gente miserável do Nordeste na cartilha que rezava “Vovó viu a uva”. Em lugar de enfatizar a fome, como ele fez, estaria fomentando curiosidade por uma fruta que quase ninguém conhecia naquela região do Brasil. Então, sem medo de estar sendo leviana, eu afirmo que muitas pessoas, sim, acreditariam.

As mesmas pessoas que pensam ter acabado a contradição capital-trabalho; as mesmas que, mesmo estando a trabalhar em regime de 24/7, sempre ligadas, como analisa Jonathan Crary1, ao afirmar que o sono é a última fronteira não mercantilizada do capitalismo contemporâneo, creem que ao serem patrões de si mesmos estão a um passo de se tornarem capitalistas; as mesmas que estão a fazer cursos de inteligência artificial – de iniciante à pós graduação –, acreditando que estão sendo preparadas para serem líderes de um mundo novo; as mesmas que vivem do trabalho, mas enchem a boca quando se declaram empreendedoras, como se isso as distinguisse de uma ainda pequena parcela de gente pobre que alinha com a defesa dos direitos do trabalho. Enfim, dependendo de quem formula e de quem veicula a propaganda, a mentira repetida torna-se verdade. 

A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital.

Eu diria que, ao contrário, a ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores. Com um sério agravante: alguns, conscientemente, repetem a mentira do opositor como se fora ideia própria. Tornam-se lacaios, bajuladores, submissos, dissimulados, na ilusão de obter vantagens. 

Como o capital de tudo tira proveito, também acaba por monetizar a desconfiança, na medida em que aprofunda o individualismo. O trabalho, já o sabemos, não põe os trabalhadores do mesmo lado. A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital. É maravilhoso para o sistema que eles, os trabalhadores, tenham um Deus, não importa qual, a quem agradecer pelos pés de galinha, pelas cascas de banana e por tudo que o capital descarta e ainda pode ser reciclado, sem cotejamentos, sem que se questione a base material da riqueza, sem elaborações teóricas que conduzam às desigualdades sociais e, por conseguinte, ao alinhamento com a própria classe social. Em tempos de crise do capital, que haja Deus, que haja profetas e salvadores. Enquanto o sistema promove e se sustenta na desigualdade, cria os meios através dos quais nos faz crer que somos todos iguais.

Um palavrão viria a calhar.


  1. Capitalismo tardio e os fins do sono. Lisboa, Antígona, 2018.
categoria-educação Conhecimento Escola Vigotski edicao-2025-11-27 (06)

O papel da escola

O estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa.

Lev S. Vigotski, Evald Vasilievich Ilyenkov e Vasili V. Davidov afirmavam que o papel da escola era criar condições propícias para que as crianças aprendessem os conhecimentos teóricos. Essa ideia baseava-se em dois pressupostos. Primeiro, que os conhecimentos empíricos – que constituíam o conteúdo principal do currículo da época – aprendem-se muito melhor fora da escola, pois são produzidos a partir do contacto direto com a realidade. Segundo, que o conhecimento teórico só pode ser aprendido na escola, por depender de uma forma de organização da aprendizagem coletiva que conduz ao desenvolvimento psíquico e subjetivo.

Os conhecimentos empíricos se manifestam na forma de conceitos espontâneos e habilidades específicas (por exemplo, um aluno que decora a tabuada cantando uma música ou que aprende a usar a vírgula copiando o padrão dos textos que lê, sem entender a regra gramatical). Já os conhecimentos teóricos se expressam por meio de conceitos científicos e modos generalizados de ação (habilidades gerais). Os primeiros conhecimentos resultam de abstrações formais, obtidas a partir de aspectos secundários dos objetos e fenômenos em estudo (exemplo: um estudante que resolve a equação de 2º grau apenas aplicando a fórmula de Bhaskara de maneira mecânica, sem compreender a relação da equação com uma parábola ou o significado de seus coeficientes). Os segundos são abstrações substantivas, que resultam da análise dos aspectos essenciais desses mesmos objetos e fenômenos (exemplo: o mesmo estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa).

A natureza de cada tipo de conhecimento é definida pelos métodos de apreensão da realidade e de aprendizagem coletiva que se adotam. Os conhecimentos empíricos apoiam-se no método indutivo (do particular para o geral, do concreto para o abstrato). Os conhecimentos teóricos sustentam-se no método dedutivo ou na ascensão do abstrato ao concreto (do geral para o particular). Na escola, o método adotado para o primeiro costuma ser o expositivo ou explicativo-ilustrativo. Para o segundo, são os métodos de quase-pesquisa e de diálogo de estudo.

Por esse motivo, é um engano perigoso acreditar que dominamos os conhecimentos teóricos quando somos capazes de repetir suas definições com precisão. Podemos recitar as leis de Newton, descrever o conceito de “mais-valia” ou explicar a teoria da relatividade com um vocabulário impecável e, ainda assim, não termos verdadeiramente compreendido a essência do que essas palavras representam.

Os conhecimentos teóricos genuínos constituem uma estrutura mental, uma rede de relações, implicações, contextos e aplicações que construímos internamente, integrada fundamentalmente por dois componentes: os conceitos científicos e os modos generalizados de ação.

Pense em aprender a andar de bicicleta. Você pode ler todos os manuais do mundo, decorar o princípio físico do equilíbrio, a função do guiador e a dinâmica das rodas. Pode verbalizar perfeitamente como se faz. Mas só saberá de verdade quando subir na bicicleta e, após tropeços e ajustes, seu corpo e sua mente internalizarem aquele “ponto de equilíbrio”. A teoria se tornou conhecimento na prática; tornou-se uma “sensação” assimilada. O mesmo ocorre com qualquer teoria complexa.

O conhecimento teórico real se manifesta quando:

  1. Conseguimos resolver uma situação de dificuldade ou um problema cuja solução depende da assimilação de novos conceitos científicos e modos generalizados de ação em uma tarefa de natureza coletiva.

  2. Conseguimos explicar a mesma ideia com nossas próprias palavras, usando analogias e metáforas que fazem sentido para nós e para os outros.

  3. Conseguimos relacionar esse conhecimento com outras áreas, visualizando suas conexões com a arte, a política, o cotidiano ou outras disciplinas.

  4. Conseguimos debater as limitações e críticas à teoria, demonstrando que compreendemos não apenas o que ela é, mas também o que ela não é.

Quando nos limitamos à verbalização vazia, caímos no que o educador Paulo Freire chamava de “educação bancária”, na qual o estudante é um mero depositário de frases e fórmulas. Ele pode “devolver” o conteúdo na prova, mas esse conteúdo não o transformou, não ampliou sua visão de mundo.

O verdadeiro conhecimento não habita nas páginas dos livros ou na fluência do discurso. Ele habita na mente que é capaz de manipular, criar, criticar e conectar ideias. A verbalização é a ferramenta poderosa para compartilhar esse conhecimento, mas não é o conhecimento em si. É a ponta visível de um vasto icebergue de compreensão que se esconde sob a superfície do mero falar.

Conhecimento mata?
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Conhecimento mata?

A ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores.

Maria Augusta Tavares
O papel da escola
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O papel da escola

O estudante, ao compreender a teoria por trás da equação, consegue não apenas resolvê-la, mas também esboçar seu gráfico, prever o número de raízes pelo discriminante e aplicar esse conceito para modelar problemas reais, como o lucro máximo de uma empresa.

Roberto Valdés Puentes

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