Deus

Conhecimento mata?
categoria-crónica Conhecimento Deus Ignorância edicao-2026-06-18 (32)

Conhecimento mata?

A ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores.

Maria Augusta Tavares
Primeiramente a Deus
categoria-crónica Deus Folclore edicao-2025-12-05 (07)

Primeiramente a Deus

Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido

Maria Augusta Tavares
categoria-crónica Conhecimento Deus Ignorância edicao-2026-06-18 (32)

Conhecimento mata?

Tenho o rádio ligado na Antena 2, enquanto limpo pés de galinhas. Mortas. O campo da estética ainda não inclui pedicure galinácea. Ouço ópera: Pagliacci. Esta ópera tem um prólogo: um ator alerta o público para que o que vão ver não serão palhaçadas, mas acontecimentos comuns à vida de muitas pessoas. Aproprio-me do mesmo prólogo para vos dizer que os meus pés de galinha não vão conduzir à comédia, mas a factos reais, que desgraçadamente atingem a vida da maioria.

Não me surpreende se alguém torcer o nariz ao se perguntar se vou comer pés de galinha. Sim, vou. O pé de galinha é um alimento altamente nutritivo, tem uma elevada concentração de colagénio e proteína. É o que dizem os grandes criadores de galinhas. O baixo preço e a comprovação de que atuam na eliminação dos pés de galinha que carregamos ao redor dos olhos podem fazer desse produto, que iria para o lixo, um campeão de vendas.

A higienização dos pés de galinha não é das coisas mais bonitas que se faz na cozinha. Embora já os compremos parcialmente limpos, outras tarefas complementam a limpeza. A primeira delas é fazer a mutilação de parte dos dedos, o que me remete imediatamente para a grave ação de violência praticada por torturadores, nas guerras, nos regimes ditatoriais e, por vezes, bem pertinho de nós, nas organizações criminosas e em sistemas prisionais.

Faz parte da higiene eliminar a falange distal, ou mais cientificamente, a falange ungueal, onde se encontra a unha. Uma a uma, a repetição desse ato e a música – sem que seja descartado o propósito culinário – me carregam por caminhos inusitados. Coisas da subjetividade.

Penso na fome e em Josué de Castro, médico brasileiro, cuja vida foi dedicada a explicar e a combater a fome. A sua pesquisa constata que, ao contrário das causas comumente aludidas à época – condições físicas, climáticas e étnicas –, a fome no Brasil não era um fenómeno natural, mas o resultado de desigualdades sociais, má distribuição de renda e concentração de terras. Pleno de razão. Mas a sua defesa de uma reserva mundial contra a fome contrariou os interesses de grupos económicos nacionais e internacionais, ao ponto de ter seus direitos políticos cassados em 1964, por ocasião do golpe militar. Para não ser preso, exilou-se em Paris, onde continuou a luta contra a fome até morrer. “Metade da humanidade não come; a outra não dorme com medo da que não come”, dizia ele. Hoje, caríssimo Josué de Castro, a sua afirmação precisa ser revisitada. A realidade só piorou: temos também – talvez mais – muito medo dos que comem, principalmente dos que comem caviar, lagosta, foie gras, etc., regados a Romanee Conti.

Penso na ignorância dos famintos e em Paulo Freire, educador brasileiro, considerado um dos pensadores mais notáveis da história da pedagogia mundial. Tornou-se famoso por ter desenvolvido um método de alfabetização de adultos orientado para o desenvolvimento da consciência crítica. Pedagogia do Oprimido, sua obra mais conhecida, está entre os três livros mais citados em trabalhos académicos de ciências sociais no mundo. Foi homenageado com dezenas de títulos de doutor honoris causa. Mas, também, à semelhança de Josué de Castro, sofreu imensas perseguições durante a ditadura militar brasileira. O facto de ter tido uma vida de extrema pobreza, agravada durante a crise económica de 1929, como também a precariedade da região onde ele vivia explicam a expressão “educar pela fome” a ele associada. Para ele, a fome não era apenas falta de alimento, era uma violência praticada por aqueles que deviam assumir a tarefa de proteger. Foi preso sob a acusação de doutrinação e subversão e ao sair da prisão forçado ao exílio. 

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Penso ainda na guerra e na literatura produzida pelo Primo Levi. Por fim, penso na sua morte. Paro aí, para me perguntar o que justificaria o seu suicídio. Arrisco-me a supor que a profundidade do saber crítico o pôs diante de uma realidade insuportável. A ideia me assusta. Se o capital e o Estado levantarem a mesma hipótese, podem tomá-la como justificativa para que a educação se restrinja tão somente a preparar para o mercado de trabalho. Nenhuma novidade, nós o sabemos. O liberalismo advoga essa prática desde a sua origem. Mas, convenhamos, um exemplo sempre fortalece, sobretudo quando proveniente de um resistente antifascista convicto, participante da luta armada clandestina, nos anos da Segunda Grande Guerra. Primo Levi foi capturado pela milícia fascista e deportado para o campo de extermínio de Auschwitz, sobreviveu ao holocausto e dedicou a sua vida a escrever sobre os mecanismos de desumanização dos regimes autoritários. Não se pode dizer que foi um derrotado. Trata-se de alguém cujas memórias foram registadas e tornadas públicas através dos seus livros, que denunciam os horrores do holocausto. Se considerarmos o sentido da vida para ele, podemos dizer que, apesar dos sofrimentos impostos, a sua luta não foi vã. Contudo, ele escolheu antecipar a morte. 

Pode-se concluir que o conhecimento mata? 

Parecer-vos-ia um grande absurdo se os poderes constituídos afirmassem que a oferta da educação direcionada para a prática, a produtividade, o desenvolvimento capitalista tem o propósito de preservar a vida dos trabalhadores?

Imaginemos a grande mídia, com todos os recursos de que dispõe, declarando: CONHECIMENTO MATA.

Um grande absurdo? Alguém acreditaria? 

Eu vos digo que muitas pessoas, além de acreditar, juntar-se-iam aos divulgadores oficiais. Algumas até acrescentariam com ares de sabedoria: se o que Josué de Castro queria era solucionar o problema da fome, podia ter estudado as propriedades nutricionais da casca de banana, da casca da maçã e de outros alimentos que vão para o lixo. Meteu-se no que não era de sua conta. Por sua vez, Paulo Freire podia ter alfabetizado aquela gente miserável do Nordeste na cartilha que rezava “Vovó viu a uva”. Em lugar de enfatizar a fome, como ele fez, estaria fomentando curiosidade por uma fruta que quase ninguém conhecia naquela região do Brasil. Então, sem medo de estar sendo leviana, eu afirmo que muitas pessoas, sim, acreditariam.

As mesmas pessoas que pensam ter acabado a contradição capital-trabalho; as mesmas que, mesmo estando a trabalhar em regime de 24/7, sempre ligadas, como analisa Jonathan Crary1, ao afirmar que o sono é a última fronteira não mercantilizada do capitalismo contemporâneo, creem que ao serem patrões de si mesmos estão a um passo de se tornarem capitalistas; as mesmas que estão a fazer cursos de inteligência artificial – de iniciante à pós graduação –, acreditando que estão sendo preparadas para serem líderes de um mundo novo; as mesmas que vivem do trabalho, mas enchem a boca quando se declaram empreendedoras, como se isso as distinguisse de uma ainda pequena parcela de gente pobre que alinha com a defesa dos direitos do trabalho. Enfim, dependendo de quem formula e de quem veicula a propaganda, a mentira repetida torna-se verdade. 

A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital.

Eu diria que, ao contrário, a ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores. Com um sério agravante: alguns, conscientemente, repetem a mentira do opositor como se fora ideia própria. Tornam-se lacaios, bajuladores, submissos, dissimulados, na ilusão de obter vantagens. 

Como o capital de tudo tira proveito, também acaba por monetizar a desconfiança, na medida em que aprofunda o individualismo. O trabalho, já o sabemos, não põe os trabalhadores do mesmo lado. A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital. É maravilhoso para o sistema que eles, os trabalhadores, tenham um Deus, não importa qual, a quem agradecer pelos pés de galinha, pelas cascas de banana e por tudo que o capital descarta e ainda pode ser reciclado, sem cotejamentos, sem que se questione a base material da riqueza, sem elaborações teóricas que conduzam às desigualdades sociais e, por conseguinte, ao alinhamento com a própria classe social. Em tempos de crise do capital, que haja Deus, que haja profetas e salvadores. Enquanto o sistema promove e se sustenta na desigualdade, cria os meios através dos quais nos faz crer que somos todos iguais.

Um palavrão viria a calhar.


  1. Capitalismo tardio e os fins do sono. Lisboa, Antígona, 2018.
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Primeiramente a Deus

Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido fácil a passagem de um mundo a outro, o fato é que, para além do seu mundo, descobriu haver outro, ou outros modos de apreensão do mesmo mundo.

Até então, ela estivera sempre rodeada de cristãos, fossem colegas, amigos ou familiares. Todos os seus sentimentos eram aprisionados por um Deus onipresente, que invadia até (para não dizer predominantemente) a sua sexualidade. À volta, na sua solitária luta contra a pobreza, a cada ínfima conquista, estava alguém a lhe lembrar que devia agradecer a Deus. Ah, como Deus é bom! Você não percebe como Ele é bom pra você?

Sério?, perguntava-se.

Onde estava esse Deus que não lhe permitia guardar nenhuma daquelas fantasias que o mercado fomenta nas crianças? Nem Papai Noel, nem coelhinho da páscoa, nem fadas, nem príncipe encantado. Nada. Bolo de aniversário e parabéns nem pensar. Frescura de gente rica, diziam-lhe. Exercitaram nela a objetividade comum a quem nasce pobre, mas queriam lhe imprimir uma subjetividade que as suas experiências não sustentavam. Desde a infância, a vida fora tão escassa de romantismo que não ter-se tornado amarga já era quase um milagre. Como milagre não existe, talvez o romantismo do escritor José de Alencar e a literatura de cordel do seu avô respondessem pela sua capacidade de sonhar. Porque sim, ela ainda sonhava e não era graças a Deus.

Impingir a ideia de Deus aos pobres é mais uma maldade dos ricos. Ora, por que fazer um desgraçado de um trabalhador acreditar que há, no plano divino, um ente acima das classes, uma idealização de Estado universal, que zela por todos, sem qualquer discriminação, quando a realidade de quem é pobre está a negar essa afirmação cotidianamente? Por que esse ser de bondade permite que só uns poucos nasçam ricos e graças a essa condição estejam autorizados a explorar indefinidamente quem nasceu pobre?

Para nascer rico é preciso ter pais ricos. “Enriqueceram pelo trabalho”, dizem os herdeiros. Ninguém declara que as propriedades dos seus antecessores foram adquiridas mediante grilagem de terras e exploração do trabalho alheio, dentre outros roubos. Fácil compreender, assim como não há prostituta velha, não há avô ladrão.

Certo é que, se alguém deve ter um Deus a quem agradecer, essa gratidão só se justifica quando advinda dos nascidos ricos. Afinal, não fizeram nenhum esforço para ter o mundo a seus pés. Moradia, educação, saúde, cultura, lazer, fantasias, tudo lhe foi dado. De graça. Como se caídos do céu. Enquanto isso, a criança pobre, ao contrário, para ficar em um só item da sua vida plena de escassez, convive com a ideia de um Papai Noel que não sabe onde ela mora.

Uma criança rica jamais teria dúvida em exercitar a tradição de colocar o sapato na janela, para receber um presente de Natal. Bem diferente da criança pobre que ela foi e que não fazia isso por duas certezas: por saber que o seu código de endereçamento postal não constava das entregas do Papai Noel e, pior, pelo risco de levarem um pé do seu único par de sapatos. Não seria ela a acrescentar às alcunhas já existentes e nada elogiosas a de saci Pererê. Afinal, o risco nem se justificava. Tudo que desejava e que precisava não podia ser trazido pelo mensageiro de São Nicolau, mas tão somente por aquele outro Deus, que dia a dia estivera a descobrir, mas ainda não se atrevia a declarar.

As histórias infantis costumam ter rainha, rei, palácios, grandes festas, maravilhosos figurinos e negrinhos e negrinhas a cozinharem, a servirem à mesa, a abanarem leques…

O leitor já ouviu falar de Saci Pererê? Não por acaso, trata-se de um “negrinho” que, dentre outras versões lendárias, teria perdido uma perna dançando capoeira. Ele podia ser branco e ter perdido a perna num acidente de carruagem, ou numa queda do seu cavalo alazão. Mas não. O folclore, como outras expressões culturais, é cheio de personagens e histórias que ratificam a divisão de classes, entre outras, e reduzem o negro a papéis secundários, figuração que nem nome precisa ter. Note-se que as histórias infantis costumam ter rainha, rei, palácios, grandes festas, maravilhosos figurinos e negrinhos e negrinhas a cozinharem, a servirem à mesa, a abanarem leques para os seus senhores, a desamarrarem o espartilho da princesa, a tirarem as botas do príncipe, a sofrerem abusos do senhor e, por fim, como ninguém é de ferro, algumas vezes, a cantarem, dançarem, lutarem, nos interstícios da submissão que, não por acaso, também inclui um Deus.

A percepção adquirida não a fez uma pessoa feliz, apenas lúcida. Ela tem certeza de que há um Deus, este universal, único, poderoso, ao qual todos estão obrigados a fazer vênia. Na sua imensa sabedoria, esse Deus não dispensa e até incentiva o culto aos deuses que povoam as diferentes crenças, porque estes, em geral, o legitimam. A ausência de gratidão é uma ameaça. Cuida-se, portanto, não só para que a condição de saci seja aceitável, como, ainda, para que se preserve nessa gente de uma perna só a delicadeza do agradecimento.

Ora, gratidão por quê? Talvez porque gratidão e liberdade se oponham. O Deus Mercado não quer homens e mulheres livres, mas gratos. Mas, convenhamos, se gratidão é um sentimento a ser cultivado pelas dádivas recebidas, o verbo agradecer só se justifica no léxico dos ricos. Entretanto, agradecer a Deus é muito mais recorrente entre os pobres. Os trabalhadores agradecem por ter um trabalho. Agradecem a Deus e ao empregador. Ou a Deus e ao Mercado. Ou a Deus e ao Capitalismo. Juntos no mesmo altar, a serem adorados, quando deviam ser incompatíveis.

Até mesmo entre trabalhadores esclarecidos parece ser demasiada ousadia discordar dos “insondáveis mistérios da fé”. A crença em Deus é uma espécie de prisão, na qual o sujeito se coloca e opta por jogar a chave fora. Trabalhadores, na sua maioria, ao celebrar uma conquista começam por “Primeiramente a Deus”. Nem sempre honesto, o agradecimento parece guardar um medo real de que algo lhe seja suprimido se não reconhecer publicamente a substancial ajuda de Deus. Ora, é suposto Deus saber que o agradecimento é falso.

Conhecimento mata?
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A ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores.

Maria Augusta Tavares
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Primeiramente a Deus

Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido

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