Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências, nome feminino que significa 1) ação de contar, de relatar oralmente ou por escrito, um ou mais acontecimentos; 2) (Literatura) texto em que se conta um facto ou uma sucessão de factos reais ou imaginários, que decorrem num espaço e tempo determinados e em que intervêm personagens: narrativa histórica; narrativa curta; narrativa longa.
EM NOVILÍNGUA:
O pós-modernismo descreve a realidade e a história como construções discursivas, em que a verdade absoluta é substituída pela multiplicidade de perspetivas. A realidade é considerada uma teia de narrativas em disputa. A história passa a ser entendida como uma narrativa contada sob pontos de vista específicos (por exemplo, a perspetiva do colonizador vs. a do colonizado; a do branco e a do negro; a do homem e a da mulher, etc.). Se a crítica pós-moderna às “metanarrativas”, como um certo positivismo economicista que passava por marxismo, poderia ter aspetos positivos, substituir a objetividade e a busca da verdade através da ciência pela "performatividade" (Lyotard) é, essa sim, uma narrativa que serve o obscurantismo. A realidade e a objetividade existem independentemente dos diferentes sujeitos, não dependem de “perceções”. Como diz o ditado, uma mulher não pode estar ligeiramente grávida; ou está ou não está. ASP
É verdade que Montenegro, dez meses depois, não conseguiu validar na “concertação social” o seu embrulho de medidas que visa destruir as formas de autodefesa legais de que muitos trabalhadores (mas não todos) ainda dispõem, aumentar horários de trabalho e a precariedade, baixando ao máximo o que eles chamam o “custo do trabalho”. Mas não é menos verdade que o projecto de alteração das leis laborais acaba de dar entrada no Parlamento, como o Governo avisara. A forma do diploma é, inclusive, muito próxima da versão inicial: à bruta, sem concessões.
Montenegro lançou ou concretizou a privatização da TAP e a privatização da CP, a demolição do SNS e a privatização da saúde, a privatização do ensino e o fim da carreira docente, a subsidiação pública da especulação privada com a habitação (rendas moderadas até 2300 euros), a legalização da perseguição aos imigrantes (detenção até 18 meses sem crime algum), a restrição do acesso ao ensino superior, a aceleração da entrega de dados (com IA) em vários serviços, o pacote laboral que precariza o trabalho e restringe drasticamente os direitos dos trabalhadores, entre eles direitos e garantias Constitucionais. Por fim, quer criar, para o crime de pobreza, a pena de trabalhos forçados gratuitos. E anuncia a privatização de pelo menos parte das reformas e pensões.
O director do Expresso, JVP, dedicou o seu editorial de 4 de Junho ao “problema Montenegro”. Aos que atacam o vagar do primeiro ministro responde que é injusto dizer que ele não faz nada. “Há dossiês importantes que foram resolvidos, como o da imigração. Há tomadas de decisão cruciais como a do novo aeroporto ou da ferrovia. Há avanços na administração e contratação pública (...) Apesar da continuação de uma situação no mínimo precária do SNS, há muito trabalho feito, inclusive o lançamento de concurso para dezenas de centros de Saúde de gestão privada (...). Há uma paz social, comprada com aumentos significativos, mas que permitiu a revisão de mais de 40 carreiras da Função Pública que estavam estagnadas. Há uma privatização da TAP que parece estar a caminho de uma resolução. (...) Na educação, a aprovação do novo Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (...). O pacote fiscal da habitação, que terá sem dúvida um impacto muito necessário neste mercado. Há inclusive a resolução de dossiês antigos e obrigatórios, como o da Prestação Social Única (…).”
JVP critica Montenegro, mas por ele não “dramatizar” as suas “reformas estruturais”. Por pôr os ministros para a frente a levar com as balas.
Montenegro terá levado a sério os comentadores que fazem de tudo “problema de comunicação”. Concluiu que o melhor é ir fazendo, calado, pela calada. Montenegro aprendeu com a sua Solverde que batoteiro de sucesso é o dono das cartas, não o pregoeiro da sorte.
Nisso o ajuda a comunicação social, nas mãos dos grandes grupos económicos, que ora esconde, ora apoia estas medidas. Nisso o ajudam o Chega e a IL, entusiastas da demolição. Nisso o ajuda o PS, à espera, paralisado, enquanto as “reformas estruturais” acabam com o país.
A esmagadora maioria do “país” é trabalhadora e, por isso, rejeita maciçamente o pacote laboral. A esmagadora maioria do “país” não tem acções para lucrar com o desmantelamento da TAP e da CP. A esmagadora maioria do “país” não pode ir a clínicas privadas nem mandar os filhos para escolas privadas. A esmagadora maioria do “país” é pobre ou em risco de o ser. E a esmagadora maioria do “país” não vê com gosto o trabalho escravo dos imigrantes no Alentejo ou nas plataformas.
A esmagadora maioria do país precisa de derrotar as contra-reformas e o governo das contra-reformas.
O Governo enfrentou ontem, 3 de junho, a segunda greve geral contra o seu pacote laboral. Seu e do patronato. Não por acaso, só os patrões e as suas associações apoiam este pacote laboral. Nem é por acaso que os números que a ministra do Trabalho, a milionária Palma Ramalho, cita sempre, quando se trata de fazer comparações entre as adesões à greve geral de 11 de dezembro e esta, são os números dos patrões. Há até aspetos anedóticos: a cadeia de supermercados Intermarché integrou-se na luta pelo pacote laboral dando uma borla de 10€, apenas ontem, dia da greve, a quem abastecesse pelos menos 50€ de combustível nas suas gasolineiras. E ainda há quem diga que a luta de classes não existe!
Tal como em dezembro, Palma Ramalho citou os “representantes do sector privado” para dizer que aí a “adesão foi residual”. Não foi. Ao final do dia, a CGTP enviou às empresas de comunicação social um documento de 55 páginas a dar conta das empresas paradas ou com altos níveis de adesão à greve geral. O secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, falou numa paralisação “de dimensão idêntica à levada a cabo em dezembro”. É verdade que no sector público a adesão foi muitíssimo maior. O Metro de Lisboa parou, quatro linhas do Metro do Porto também. Os STCP no Porto e a Carris e a Carris Metropolitana na região de Lisboa, apesar do recurso intensivo a trabalhadores imigrantes (precários), andaram a meio gás. Escolas e hospitais fecharam ou estiveram a trabalhar em regime de serviços mínimos.
De conjunto, a greve e as manifestações que a acompanharam terão tido uma participação inferior à de 11 de dezembro, ao que não foi alheio o facto de a UGT desta vez ter ficado de fora, de o pacote laboral ter sido encaminhado para a Assembleia da República, onde a sua sorte é incerta, de António José Seguro ter afirmado que o vetaria se se mantivesse como está e da estranha campanha pela imprensa fora — e também de sectores da esquerda oficial — a dizer que o pacote “já está morto”.
Por muita propaganda e negociatas de bastidores com o Chega que o Governo faça, a rejeição do pacote laboral atinge os 80% da população, como demonstrado pelas greves, pela eleição presidencial (a entretanto ocorrida, onde o seu candidato foi cilindrado) e até por sondagens recentes.
Não que isso impeça o governo, empurrado pelas confederações patronais, de tentar impô-lo na Assembleia.
Por isso, a vigilância tem de ser máxima. É necessário que a parte desses 80% que ontem hesitou em aderir à greve esteja preparada para se juntar aos outros para derrubar este pacote, que só lhes retira direitos. Não podemos confiar que a AR, o Presidente da República ou a Senhora de Fátima façam o milagre de nos livrar “sem dor” do pacote. Enquanto não for enterrado, a possibilidade de, no todo ou em parte, este pacote de medidas contra os trabalhadores ser aprovado é uma ameaça para as nossas vidas.
Segundo o dicionário da Porto Editora, adjetivo de 2 géneros 1) relativo, próprio ou pertencente ao campo ou à vida agrícola; rústico; campesino; 2) diz-se da freguesia situada fora da vila ou da cidade. Tem origem no latim Rus, ruris, que é um substantivo neutro que significa campo, quinta, lavoura ou casa de campo.
EM NOVILÍNGUA:
Para além da particularidade de Marcelo Rebelo de Sousa ter qualificado como “rural” o primeiro-ministro Luís Montenegro (presume-se que por oposição a “urbano”), o que nos conduz à utilização novilinguística do adjetivo rural é a aproximação do verão e da “época dos incêndios”. Ora, de há alguns anos para cá, os incêndios, que têm como território predominante a floresta (em latim, silva), passaram a ser designados de “incêndios rurais”. Isso deve dar jeito às celuloses, grandes plantadores de eucaliptos, mas confunde e mascara a natureza da grande maioria dos incêndios. O espaço rural, o campo cultivado e habitado, é barreira natural aos incêndios e à sua progressão, não seu causador. ASP
Volta a ganhar força a ideia das subconcessões na CP. Mais uma vez surgem discursos sobre “modernização”, “eficiência”, “competitividade” e “melhoria do serviço”. A narrativa repete-se com entusiasmo. O problema é que a experiência europeia também se repete. E raramente confirma as promessas feitas no início destes processos.
Ao longo das últimas décadas, vários países avançaram para modelos de liberalização, fragmentação e subconcessão ferroviária. Em muitos casos, o resultado ficou longe do anunciado: aumento de custos, degradação da coordenação operacional, dependência crescente de financiamento público e pressão constante sobre os trabalhadores.
O exemplo britânico continua a ser um dos mais evidentes. Décadas de fragmentação ferroviária produziram um sistema mais caro, mais complexo e incapaz de funcionar sem intervenção permanente do Estado. Várias operações acabaram novamente sob controlo público após falhas sucessivas dos operadores privados.
Também noutros países europeus os resultados ficaram muito aquém da propaganda inicial. Porque a ferrovia não funciona como um mercado qualquer. Exige coordenação, planeamento de longo prazo, estabilidade técnica e trabalhadores qualificados com experiência acumulada.
E é precisamente aqui que surgem os maiores riscos das subconcessões. Quando começam processos de fragmentação de uma empresa pública, os primeiros “custos a otimizar” tendem a ser sempre os mesmos: condições laborais, organização do trabalho, carreiras e capacidade negocial coletiva.
Quando começam processos de fragmentação de uma empresa pública, os primeiros “custos a otimizar” tendem a ser sempre os mesmos: condições laborais, organização do trabalho, carreiras e capacidade negocial coletiva.
Os trabalhadores da CP sabem disso porque já viram este filme noutros setores. A lógica é conhecida: separar operações, criar subconcessões, introduzir concorrência interna, pressionar salários, flexibilizar horários e reduzir direitos laborais para baixar custos operacionais e tornar os serviços mais rentáveis para os operadores privados.
Porque, no fim, o objetivo de qualquer operador privado será sempre maximizar a rentabilidade. E quando a rentabilidade se torna prioridade, os trabalhadores tendem a deixar de ser vistos como parte estratégica do serviço público para passarem a ser encarados como um custo a reduzir.
Mas há perguntas que continuam sem resposta clara.
Qual é exatamente o objetivo de ser a própria CP a financiar estudos para perceber aquilo que os operadores privados pretendem subconcessionar, sobretudo nos serviços potencialmente mais rentáveis da empresa?
Se esses serviços são economicamente atrativos, por que razão deve a empresa pública preparar o terreno para a sua entrega a privados? E se o interesse privado recai precisamente sobre as operações mais rentáveis, o que sobra depois para o operador público assegurar?
O risco é evidente: socializar os custos menos lucrativos enquanto se abre espaço para privatizar as partes financeiramente mais apetecíveis da atividade. Não seria a primeira vez que isso aconteceria na Europa.
Há ainda outra questão que merece reflexão séria. Se o argumento para as subconcessões é a melhoria do serviço prestado aos utentes, por que não dar primeiro à própria CP as mesmas condições que se pretende oferecer aos privados?
Fala-se em maior autonomia de gestão.
Fala-se em mais flexibilidade operacional.
Fala-se em investimento e renovação de material circulante.
Mas se essas condições forem dadas à empresa pública, qual é exatamente a razão para acreditar que a CP não é capaz de prestar um serviço de qualidade?
Os trabalhadores da CP asseguram diariamente milhares de circulações, colocam comboios nas estações a horas, resolvem avarias, garantem manutenção, operação e segurança num sistema frequentemente limitado por falta de investimento, atrasos estruturais e decisões condicionadas por opções políticas e financeiras.
Apesar disso, o sistema continua a funcionar graças ao conhecimento, experiência e compromisso dos seus trabalhadores.
Por isso, a pergunta legítima é simples: será o problema a natureza pública da CP, ou os constrangimentos que lhe são impostos?
Porque se a solução passa por entregar aos privados material circulante novo, maior autonomia de gestão e melhores condições operacionais, então talvez o problema nunca tenha sido a incapacidade da CP.
Talvez tenha sido mais conveniente manter a empresa condicionada, limitada na sua autonomia e permanentemente pressionada, para depois apresentar a subconcessão como solução inevitável.
E se assim for, então não estaremos perante uma falha da empresa pública. Estaremos perante uma decisão política deliberada.
Os trabalhadores da CP têm razões legítimas para olhar com preocupação para este caminho. Não por resistência à mudança, mas porque a experiência demonstra que muitos destes processos acabam por fragilizar precisamente aquilo que dizem querer melhorar.
Modernizar não pode significar precarizar. E eficiência não pode servir de pretexto para desmontar, peça a peça, uma empresa pública estratégica para o país, para a mobilidade e para o serviço público ferroviário.
Em Portugal, três em cada dez médicos trabalham mais de cinquenta horas por dia, superando com bravura o limite conhecido do tempo e da física. A Ordem dos Médicos já solicitou ao Ministério do Espaço-Tempo a criação de novos fusos horários especificamente para profissionais exaustos.
Fontes hospitalares confirmam que alguns clínicos já aprenderam a operar enquanto sonham, a consultar pacientes em simultâneo através de doze dimensões, e a prescrever ansiolíticos a si próprios por telepatia.
Em Coimbra, um cardiologista foi avistado a ressuscitar o seu próprio relógio de pulso. Em Lisboa, uma cirurgiã realizou um transplante de consciência para poder descansar sem interromper a cirurgia.
O Governo garante que o novo Plano de Saúde Interplanetário vai incluir camas com gravidade variável, salas de espera com loops temporais, e um subsídio de café directamente injetado na veia jugular.
Entretanto, os médicos que continuam a trabalhar cinquenta horas por dia, dormem três minutos por século, e diagnosticam a realidade como estando em estado terminal.
Fátima Vale (Oshakati, Namíbia, 1975)
“O RISO PRECISA DE DENTES” integra P.E.L.E.
— Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026).
A pediatra e professora universitária Maria Aparecida Moysés afirma categoricamente: “Jamais daria Ritalina a uma criança.” A possibilidade de morte súbita não explicada em jovens que tomam Ritalina, Concerta ou outra droga dessas, que a médica e investigadora não reconhece como medicação, é 14 vezes maior. As crianças ficam obedientes, mas não aprendem mais. Não é medicamento, são substâncias psicoativas, usadas para drogar crianças. Quem toma estas drogas perde a capacidade de resistir, mas não de sentir, recorda a médica: “muitos jovens fingem tomar porque se sentem muito mal.” A conversa entre Raquel Varela e Maria Aparecida prolongou-se para o tema do sobrediagnóstico de doenças ditas mentais – para a médica há muitos jovens doentes sem apoio, porque os apoios se dividem por uma quantidade enorme de aumento de diagnósticos, como o do “espectro” do autismo; sobre a pressão da indústria farmacêutica, e sobre a falta de rigor de muitos estudos científicos. Uma conversa sobre o mundo de hoje e o papel da escola, professores, médicos e pais.
Segundo o dicionário da Porto Editora, nome masculino que designa: 1) ato ou efeito de desafiar ou chamar alguém para combate; provocação; 2) incitação; estímulo; 3) despique entre dois cantadores; 4) duelo; luta; 5) (desporto) competição desportiva; jogo; 6) situação em que os cantadores respondem um ao outro, improvisando.
EM NOVILÍNGUA:
Desafio começou a ser a tradução da palavra inglesa challenge (“algo que exige grande esforço mental ou físico para ser realizado com sucesso e, por isso, testa a capacidade de uma pessoa”, segundo o Dicionário Cambridge. Palavras como “dificuldade” ou “adversidade” foram substituídas por termos mais suaves e motivacionais (por exemplo, desafio, oportunidade). Há uma pressão social para manter uma imagem de sucesso constante. Falar abertamente sobre dificuldades é muitas vezes evitado ou rotulado como “vitimização” ou “energia negativa”. Isto acontece tanto no trabalho, nas empresas, como no linguajar de políticos e economistas e, talvez o pior de tudo, na educação. Aprender exige esforço e enfrentar dificuldades. Negar isso e criar uma narrativa de resiliência e superação perpétua só pode dar mau resultado. ASP
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