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1143: o ódio e a violência como método político
categoria-antifascismo Crime Mulheres Neonazis edicao-2026-02-05 (14)

1143: o ódio e a violência como método político

Renata Cambra, professora e ativista política de esquerda, tem vindo a receber ameaças de violação e morte por parte do grupo neonazi 1143, liderado pelo criminoso Mário Machado.

Renata Cambra
Uma Igreja Católica de uns contra os outros
categoria-opinião Igreja Mulheres edicao-2025-12-18 (09)

Uma Igreja Católica de uns contra os outros

Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.

Pe. José Luís Rodrigues
categoria-antifascismo Crime Mulheres Neonazis edicao-2026-02-05 (14)

1143: o ódio e a violência como método político

Renata Cambra, professora e ativista política de esquerda, tem vindo a receber ameaças de violação e morte por parte do grupo neonazi 1143, liderado pelo criminoso Mário Machado. Estas ameaças repetiram-se já este ano, com frases no Telegram como “aparecias com uma cruz invertida enfiada desde o cu até à boca, vocês mulheres precisam aprender, não é por acaso que às vezes são encontradas aos bocados na mala dum carro ou que a taxa de feminicídio tenha aumentado, apenas colhem o que semeiam”, ou “a puta da Renata Cambra deve estar a dar pulos de alegria, não sei como ninguém trata dessa puta, bando de frouxos submissos a mulheres, se fosse no Brasil já tinha sido encomendado o estupro da puta e ela já tinha aparecido esquartejada em pedaços dentro dum saco, ainda espero que isso venha a acontecer”. O Maio dá-lhe a palavra.

Em maio de 2025, a porta da sede do meu partido, Trabalhadores Unidos, em Lisboa, apareceu marcada com um autocolante do grupo neonazi 1143. A sede não tem placa nem letreiro, pelo que quem o colou teve de saber exatamente onde fica e quando valia a pena aparecer. O recado era simples: sabemos onde estás, conseguimos chegar a ti.

Nessa mesma semana eu já vinha a receber, nas redes sociais, uma sequência de ameaças de morte e de violência sexual. Mensagens a dizer que “o que é teu está guardado”, que “a tua horinha vai chegar”, que “não terás paz em lugar nenhum deste país”, e desejos explícitos de violação e esventramento, de tal forma violentos que, quando tentei expô-los no Instagram, fui temporariamente bloqueada pela aplicação. Havia também, nessas publicações, a pergunta que aparece sempre quando este tipo de gente decide apontar a um alvo: alguém sabe onde ela mora?

A origem desta escalada é fácil de identificar. No início de 2022 apresentei queixa contra Mário Machado, líder do 1143, e contra Ricardo Pais, também parte do grupo, por incitamento ao ódio e à violência – sob a forma de “prostituição forçada”, isto é, de violação – contra mulheres de esquerda, com referência direta a mim, processo em que fui defendida pelo advogado António Garcia Pereira e que conseguimos vencer em tribunal. Quando a possibilidade de recurso destes dois neonazis se esgotou e a pena de prisão efetiva de Mário Machado se confirmou, a intimidação subiu de tom.

Quando a possibilidade de recurso destes dois neonazis se esgotou e a pena de prisão efetiva de Mário Machado se confirmou, a intimidação subiu de tom.”

A 8 de maio de 2025, por ocasião da efetivação da pena de Mário Machado, apresentei uma nova queixa na Polícia Judiciária, desta vez por intimidação ligada ao 1143, traduzida nas ameaças publicadas no Twitter e na marcação, com o dito autocolante, de um dos lugares que frequento regularmente. Reforçámos a segurança do espaço e tornamos público o que estava a acontecer. Quem quer intimidar aposta no silêncio e no isolamento; na ideia de que a vítima aguenta sozinha, até desistir. Por isso, apesar de saber que denunciar e enfrentar estas ameaças não seria pacífico, não duvidei de que era, efetivamente, o melhor a fazer.

Meses depois, já em 20 de janeiro de 2026, a Operação Irmandade veio confirmar que a ameaça não era apenas “conversa”. Entre os elementos do 1143 investigados e detidos, estava o responsável pelo ato de intimidação que denunciei. Trata-se de um funcionário do Hotel Lutécia, mesmo ao lado da sede do meu partido, que me viu várias vezes por lá e, sabendo onde eu passava parte dos meus dias, propôs ao grupo passar à ação com uma “visita” a esse espaço1, o que só não aconteceu porque a nova liderança, Gil “Pantera”, agora também em prisão preventiva, decidiu que não deviam avançar com a proposta.

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Durante as buscas da PJ, foi apreendida ao responsável por este ato de intimidação uma arma proibida; o tribunal entendeu existir perigo de continuação da atividade criminosa e necessidade de algum “controlo policial”, pelo que ficou obrigado a apresentações semanais. Isto não é por acaso. Nos próprios canais internos do 1143, Mário Machado tem criticado os membros que se limitam à propaganda online, chamando-lhes “ratos da internet” e pressionando-os a sair à rua, a perder o medo e a agir.2

E este é o ponto que interessa politicamente: a extrema-direita violenta em Portugal não é um fenómeno de teclado. Organiza-se, cria núcleos, recruta, coordena ações e testa limites. O 1143 não funciona como um amontoado de “indignados”; funciona como estrutura que define regras, cria grupos regionais, difunde propaganda, incentiva ações de rua e normaliza a violência como horizonte. E quando não avança é por cálculo, não por falta de intenção. É por isso que a discussão sobre “liberdade de expressão” é, muitas vezes, uma cortina de fumo. O que está em causa não é a falta de vergonha em partilhar “opiniões” chocantes, é intimidação política, perseguição e preparação para agressões.

A resposta institucional tem sido, em geral, reativa e fragmentada. As instituições intervêm depois de as ameaças circularem, depois de alguém aparecer à porta, depois de surgirem armas. E mesmo quando há detenções, os grupos reorganizam-se, mudam de rosto, distribuem funções. É assim que se constrói impunidade, testando até onde dá para ir, sem que estas organizações criminosas sejam verdadeiramente ilegalizadas e desmanteladas.

Quando um grupo destes escolhe alvos, sejam estes mulheres, ativistas, imigrantes, jornalistas, gente de esquerda, não está só a insultar. Está a tentar impor o medo e a violência como método político. A questão não é apenas o que me aconteceu. É o que este tipo de organização está a treinar para fazer, e o espaço que lhe é concedido para continuar.

A história mostra que milícias não se combatem apenas nos tribunais, e certamente não com silêncio ou ironia. Combatem-se com organização coletiva, solidariedade ativa e resposta política à altura da ameaça. Isto implica que o movimento sindical, os coletivos feministas, os movimentos antirracistas e a esquerda organizada assumam este combate como parte central da sua intervenção, rompendo com a normalização do ódio, denunciando as cumplicidades políticas e recusando o isolamento dos alvos.

Perante uma extrema-direita que se organiza para a violência, a única resposta eficaz é a mobilização consciente e organizada de quem não aceita voltar atrás.


1https://expresso.pt/sociedade/2026-01-29-grupo-1143-volta-a-fazer-ameacas-de-morte-contra-dirigente-de-esquerda-c8798770

2https://www.jn.pt/nacional/artigo/milicia-de-mario-machado-espalha-odio-na-net-e-cria-nucleos-de-norte-a-sul/17830178

categoria-opinião Igreja Mulheres edicao-2025-12-18 (09)

Uma Igreja Católica de uns contra os outros

Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.

As piedosas conclusões da segunda comissão presidida pelo arcebispo emérito de Áquila, cardeal Giuseppe Petrocchi, sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas, no mínimo, suscitam irritação e desilusão. Várias entidades mundiais já expressam tal estupefação. Por exemplo, os leigos do Caminho Sinodal Alemão, o movimento Nós Somos Igreja e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) pela voz da Irmã Stetter-Karp.

Esta nada inclusiva comissão foi formada a pedido do papa Francisco, com a incumbência de examinar a possibilidade de proceder à ordenação de mulheres diaconisas. Os seus trabalhos foram concluídos em fevereiro passado. O relatório de sete páginas que o cardeal enviou a Leão XIV em 18 de setembro último foi agora tornado público, a pedido do papa.

O relatório relembrou que há argumentos favoráveis à integração das mulheres no sacramento da Ordem, porque enfatiza a injustiça da exclusão da igualdade de género e porque deve ser assumido sem medo o acesso igualitário às funções institucionais.

No entanto, prevaleceram mais uma vez os argumentos contrários, que defendem que a masculinidade de Cristo e dos ordenados é parte essencial da identidade sacramental. Alterá-la “romperia o significado nupcial da salvação” (frase ininteligível, leva-me a considerar que faz parte do discurso redondo que volta e meia domina uma certa hierarquia da Igreja Católica, convencida de que diz muito para que ninguém perceba nada).

O patriarcalismo anacrónico (para não dizer misoginia obsessivamente doentia) de muitos que compõe a hierarquia da Igreja Católica de alto a baixo, não quer, repudia, vomita, esquece que a vontade de Deus e o vento que sopra os tempos irá varrer essa teimosia e limpar todas as tolices que inventam para justificar o injustificável.

Dizem, Jesus só escolheu homens para constituir o “seu grupo” de apóstolos. E, perversamente, selecionam a dedo, enfatizando as “desgraças” das igrejas protestantes que conferem o sacramento da Ordem a mulheres nos seus três graus: diaconado, presbiterado e episcopado.

Os argumentos contra valorizam o arcaico e menosprezam o Evangelho, a prática inclusiva de Jesus e diabolizam o pulsar dos tempos, como se isso não fizesse parte da ação contínua de Deus na história.

É inegável que os argumentos contra, sobrevalorizados por quem tem o dever de decidir, justificam apenas anacronismos, o contínuo desprezo pelas mulheres, as suas capacidades e a sua criatividade. Há uma certa hierarquia da Igreja Católica que prefere a desumanidade ao normal funcionamento humano que em todos os seus domínios deve incluir a igualdade entre mulheres e homens. Neste âmbito, a Igreja Católica teria um forte testemunho pedagógico a dar ao mundo que em alguns aspetos, nesta matéria da paridade, ainda não avançou quanto devia.

É mais uma vez lamentável que a Igreja Católica e a sua hierarquia recusem contribuir para reaver a sua credibilidade e bom nome face ao mundo, fortemente abalados por causa do rol tenebroso de abusos sexuais levados a cabo por membros do clero que vieram a lume nos últimos anos.

Não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade.

Por isso, não só estamos perante uma oportunidade perdida, mas também perante uma injustiça contra a dimensão feminina da humanidade, o grupo maioritário de membros que compõem os fiéis da Igreja Católica. Não é a primeira vez que se mete os pés à parede contra este assunto.

O papa João Paulo II “encerrou” o assunto da ordenação das mulheres (cf. carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 22 de maio de 1994), pensou-se que ficaria arrumado definitivamente, mas não foi assim, e ainda bem.

O papa Francisco, essa lufada de ar fresco que sacudiu a naftalina dos corredores do Vaticano, foi diversas vezes confrontado com o assunto e disse o seguinte no voo de regresso da sua visita pastoral a Cuba e aos Estados Unidos em 2015: “Não é porque não tenham capacidade. Na Igreja, as mulheres são mais importantes do que os homens porque a Igreja é feminina; é ‘a Igreja’ não ‘o Igreja’”.

Na altura colocou em sentido os mais acérrimos defensores da não ordenação das mulheres. Foi um sinal, embora ainda ténue, e vieram outros momentos onde prevaleceu sempre uma nebulosa de equívocos e ambiguidades inconsequentes. Mesmo que se tenha notado uma clara opção para dar cargos de relevância nos organismos do Vaticano às mulheres. O papa Francisco iniciou um caminho que desta feita parece sofrer um revés.

Francisco entendia que as grandes transformações e revoluções na Igreja Católica fazem-se com pequenos passos, mas determinados. Lamenta-se, que aqueles que diziam seguir-lhe os passos estejam neste momento a tentar tapar os raios do sol e a parar a brisa transformadora do Espírito da História.

Apesar de tudo, importa relevar mais uma vez que hoje não se consegue encerrar debates. O que pareceu ter sido encerrado com a posição do papa João Paulo II, na prática, nunca esteve encerrado e voltará sempre seguramente, porque está colado ao tempo e ao modo do devir histórico.

Os argumentos para excluir as mulheres do sacramento da Ordem não são teológicos, mas assentam na interpretação de que Jesus Cristo e a tradição escolheram apenas homens para fundar e governar as igrejas. Este critério é falacioso e injusto. Não é correto conotar Jesus com esta argumentação, dado que Ele se revelou uma pessoa despida de preconceitos culturais e religiosos. O choque afrontoso de Jesus contra as entidades preconceituosas e fixadas em costumes desumanos são claras nos Evangelhos.

A recusa de que as mulheres tenham um papel mais interventivo na condução (exercício dos vários poderes) da Igreja Católica é profundamente arcaica, não assume a igualdade de género e viola a prática universal dos direitos humanos.

Apesar do contexto histórico que se vivia na altura de Jesus, onde a sociedade era densamente patriarcal, a história da Bíblia, a evolução da hermenêutica dos textos bíblicos, as investigações históricas estão a considerar que Jesus tinha mulheres no grupo dos apóstolos e os textos apócrifos revelam como Maria Madalena tinha um papel proeminente junto de Jesus e que provavelmente a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado tenha sido esta mulher, por isso, é considerada a apóstola dos apóstolos.

Os Evangelhos contradizem a ideia de que com Jesus só estavam homens, e apenas doze. Ao doze é preciso não descurar a ideia simbólica que se reveste da totalidade que ele representa. Junto com estes doze existia um grupo grande de discípulas, mulheres que seguiam Jesus (Lucas 8, 1-3).

Estas mulheres ousaram assumir o seguimento de Jesus num ambiente particularmente difícil para elas. A significativa representação feminina junto da cruz é reveladora da sua fidelidade e dedicação a Jesus e à sua missão. São elas as primeiras testemunhas da ressurreição e é a elas que fica destinada ab initio a missão de comunicar o sucedido aos apóstolos. São Paulo, nas suas cartas, refere que são várias as mulheres que são líderes das comunidades por ele fundadas.

Este debate sobre o papel da mulher na Igreja não termina, é impossível que não reincida a todo o momento; os ventos do tempo e do modo não são contrários à sua acutilância e impõem a urgente reposição da verdade dos valores humanos na Igreja Católica para ambos os géneros.

É reconhecível a delicadeza do tema, mas nada pode travar a reflexão. Se noutros tempos as comunidades cristãs pareciam não estar disponíveis para acolher mulheres na condução dos seus diversos serviços, hoje já nos vai parecendo que as comunidades estão disponíveis para acolher as mulheres nos diversos serviços religiosos.

Dado que estamos ainda nestes avanços e recuos, esperemos que o génio feminino no âmbito religioso nunca se apague e contribua para a mudança ou revolução de que precisamos para a reposição da justiça quanto à prática da igualdade dos sacramentos.

Não basta reconhecer que as mulheres são peritas no amor e no serviço, sendo depois remetidas ao silêncio, ao asseio e à colocação de flores nos altares das igrejas. É preciso não ter medo da mudança. Ver e escutar o que faria e diria Jesus às mulheres se tudo começasse nos tempos em que nós vivemos, onde a mulher ganhou emancipação e é chamada a participar em pé de igualdade com os homens na construção da família e na organização da sociedade.

A prevalência do arcaico sobre o evangélico tem de ter fim de uma vez por todas. Porque é triste ainda prevalecer a imagem de uma hierarquia da Igreja Católica misógina, a caminho do abismo da irrelevância.

1143: o ódio e a violência como método político
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1143: o ódio e a violência como método político
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1143: o ódio e a violência como método político

Renata Cambra, professora e ativista política de esquerda, tem vindo a receber ameaças de violação e morte por parte do grupo neonazi 1143, liderado pelo criminoso Mário Machado.

Renata Cambra
Uma Igreja Católica de uns contra os outros
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Uma Igreja Católica de uns contra os outros

Uma comissão da Igreja Católica sobre a não abertura à ordenação de mulheres diaconisas suscitou irritação e desilusão entre muitos católicos e respetivas organizações, que não se reveem nas suas recomendações contrárias a uma maior igualdade entre homens e mulheres no seio da igreja.

Pe. José Luís Rodrigues

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