Israel

Estivadores em greve contra a guerra
categoria-internacional edicao-2026-11-05 (48) Estivadores Greve Apartheid Israel Boicote

Estivadores em greve contra a guerra

A segunda Jornada de Luta Internacional dos Estivadores em solidariedade com a Palestina e contra o militarismo terá sido porventura a mais vasta acção operária contra a guerra da história. Só por si, não muda o curso da história, mas é a confirmação de que é necessária uma classe trabalhadora

Peter Cole
Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹ Somayeh Rostampour
categoria-opinião edicao-2026-10-29 (47) “Campismo” Guerra Fria Irão EUA Israel Teocracia

Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹

A autora, socióloga curda iraniana, defende que os opositores da agressão dos EUA e de Israel ao Irão devem ir além do “campismo”, ou não conseguiremos reconstruir uma esquerda genuinamente emancipadora nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular.

Somayeh Rostampour
Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹ Somayeh Rostampour
categoria-opinião edicao-2026-10-22 (46) “Campismo” Guerra Fria Irão EUA Israel Teocracia

Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹

A autora, socióloga curda iraniana, defende que os opositores da agressão dos EUA e de Israel ao Irão devem ir além do “campismo”, ou não conseguiremos reconstruir uma esquerda genuinamente emancipadora nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular.

Somayeh Rostampour
Naza – no silêncio das salas de cinema
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Naza – no silêncio das salas de cinema

“Naza” é a designação que, na linguagem burocrático-militar das forças armadas israelitas, nomeia os civis “colateralmente” atingidos ou atingíveis por uma ação militar.

Rui Pereira
Carta aos editores do The New York Times sobre a natureza fascista do partido de Menachem Begin
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Jornal Maio
O Exército israelita aponta à cabeça das crianças
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O Exército israelita aponta à cabeça das crianças

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Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos
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Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam de terra

Qassam Maadi
O plano de Israel e dos EUA para o Irão é dividi-lo em vários Estados – falidos
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O plano de Israel e dos EUA para o Irão é dividi-lo em vários Estados – falidos

Yassamine Mather é uma académica iraniana, editora da revista Critique, Journal of Socialist Theory e investigadora na Universidade de Oxford. Ela tem analisado a situação no Médio Oriente e no Irão e é também uma intelectual pública no Reino Unido, militante empenhada na luta contra o genocídio e n

Raquel Varela, Yassamine Mather
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Estivadores em greve contra a guerra

A segunda Jornada de Luta Internacional dos Estivadores em solidariedade com a Palestina e contra o militarismo terá sido porventura a mais vasta acção operária contra a guerra da história. Só por si, não muda o curso da história, mas é a confirmação de que é necessária uma classe trabalhadora politizada em todos os sete mares para causar transtorno às cadeias de abastecimento globais.

ilustração: Rita Comedida

Em 1984, a luta mundial contra o apartheid estava ao rubro. Para manifestar a sua hostilidade ao regime fascista de supremacia branca, os estivadores sindicalizados de São Francisco recusaram-se a descarregar carga sul-africana.

Reiteravam, assim, a resposta do primeiro presidente do Sindicato Internacional dos Estivadores (ILWU) a uma pergunta sobre o papel que os sindicalistas haviam de desempenhar na política mundial: “Interferir na política externa do país? Sim, absolutamente! É a nossa função, a nossa prerrogativa, o nosso direito, o nosso dever.”

Não há muitos trabalhadores que achem ter poder suficiente para manifestarem opiniões políticas no local de trabalho, quanto mais organizar paralisações para intervir na política mundial. Não obstante, como lembrava o sindicalista revolucionário “Big” Bill Haywood, “organizem-se os trabalhadores, que lhes basta meter as mãos nos bolsos para lixar a classe capitalista”.

Em 2023, a Federação Geral de Sindicatos Palestinianos (PGFTU) começou a apelar aos trabalhadores e sindicatos para “pararem de armar Israel”. Em 2025, pediu aos trabalhadores do mundo que “organizassem dias de revolta e solidariedade global de apoio à Palestina e ao seu bravo povo, nas fábricas e oficinas, nos portos e aeroportos, nas ruas e praças públicas”.

O movimento palestiniano pelo Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) bebe ostensivamente na luta contra o apartheid na África do Sul, que se pode considerar o mais eficaz movimento global pela justiça social do final do século XX. Já em 1959 o presidente do Congresso Nacional Africano, o chefe Albert Luthuli, mais tarde galardoado com o Prémio Nobel da Paz, declarara que “o boicote económico é a maneira de o mundo como um todo deixar claro às autoridades sul-africanas que ou mudam ou sofrem as consequências”.

Na sexta-feira, 30 de Outubro, os estivadores de cerca de cem portos de quase vinte países fizeram talvez a maior paralisação laboral coordenada da história mundial. O epicentro da luta é o Mediterrâneo — estivadores de dezenas de portos da Itália, da Grécia, de França, de Chipre, do País Basco e de Marrocos recusaram-se a trabalhar em parte ou na totalidade desse dia. Juntaram-se-lhes estivadores e outros trabalhadores em concentrações em Espanha, na Turquia, na Alemanha, na Irlanda, em Portugal, na Dinamarca, na Suécia, na Austrália, em Veracruz (México) e em Oakland (Califórnia), assim como em muitos portos da Índia.

Não reivindicam nem salários mais altos nem redução de horários. Citando dois dos muitos cartazes que por aí circulam, “os estivadores não trabalham pela guerra” e “nem um porto pelo genocídio”. O que os estivadores dizem é que se recusam a ser cúmplices da guerra, ainda menos do genocídio. O que a acção dos trabalhadores patenteia é que os trabalhadores têm o direito de — e potencial para — moldar o mundo.

Citando dois dos muitos cartazes que por aí circulam, “os estivadores não trabalham pela guerra” e “nem um porto pelo genocídio”.

Zarpe o navio a horas

A história das greves está indissociavelmente ligada ao transporte marítimo, agora parte integrante da indústria logística, ou seja, das ditas “cadeias de abastecimento”.

Não é por acaso que o termo inglês para a mais poderosa arma dos trabalhadores, strike (greve), tem origens náuticas. No livro Many-Headed Hydra (“Hidra de Muitas Cabeças”), Peter Linebaugh e Marcus Rediker descreveram como, em 1768, em Londres, os marinheiros arrearam “as velas dos navios, paralisando o comércio da principal cidade do império e acrescentando a greve ao arsenal da resistência”1. Desde essa altura, o termo usado para paralisação do trabalho em língua inglesa passou a ser “strike”, confirmando o lugar fundamental que o transporte marítimo ocupava no capitalismo. Ainda hoje, mais de 90 por cento de todos os bens consumidos (sejam matérias-primas, sejam produtos acabados) são transportados por mar.

Faz pelo menos um século que, de quando em quando, estivadores, marinheiros e outros trabalhadores do sector marítimo se recusam a carregar ou descarregar mercadorias em protesto contra o imperialismo, o fascismo e a guerra.

Em 1935-36, os estivadores de portos da África do Sul — Durban, Cidade do Cabo e Baía de Lüderitz —, assim como os de São Francisco, recusaram-se a carregar mercadorias para bordo de navios italianos em protesto contra a invasão da Etiópia pelo império fascista italiano.

No final da década de trinta, os estivadores da décima secção do ILWU da região da Baía de São Francisco uniram-se à comunidade chinesa, recusando-se a carregar mercadoria para o Japão imperial em protesto contra a invasão japonesa da China.

O exemplo mais vasto de militância dos estivadores foi contra o apartheid na África do Sul. Em São Francisco, Brooklyn, Sydney, Porto Espanha (Trindade), Gotemburgo (Suécia), Copenhaga e muitos outros portos, os operários sindicalizados recusaram-se a movimentar carga.

O activismo dos trabalhadores contra o apartheid não ficou restrito ao trânsito marítimo. Os trabalhadores dos supermercados irlandeses mantiveram, anos a fio, uma campanha em que se recusavam a servir clientes que comprassem produtos sul-africanos, conforme dramaticamente descreveu a autora irlandesa Sally Rooney.

Talvez o exemplo mais relevante tenha sido a campanha da 10ª secção do ILWU contra o Chile fascista. Em 1978, os estivadores e empregados de escritório de São Francisco sindicalizados na 34ª secção do ILWU descobriram que as forças armadas dos EUA estavam a enviar secretamente armas para o Chile. O ILWU tinha apoiado com todas as suas forças o regime anterior, encabeçado pelo socialista Salvador Allende, derrubado por um golpe de Estado militar, em 1973, chefiado por Augusto Pinochet, com o apoio activo dos Estados Unidos.

Os sindicalistas da 10ª secção, entre eles Herb Mills, que mais tarde escreveu um relato ficcionado intitulado Presenté, puseram-se em contacto com exilados chilenos, “latinos” da baía de São Francisco, a Igreja Católica e outros para pressionar o governo dos EUA a parar de enviar material militar. Trabalhando com congressistas solidários, o ILWU ajudou a convencer a Administração Carter da necessidade de reverter a política dos EUA e parar de mandar material militar para o Chile.

Solidariedade dos estivadores com a Palestina: de Génova ao Mediterrâneo e ao mundo

O apelo da PGFTU de 2025, “Cry Before Death” (O Grito Ante a Morte), apelava aos “camaradas do nosso sindicato, aguardamos que façais a vossa parte e transmitais o grito das crianças e trabalhadores de Gaza até aos decisores políticos e às ruas”.

A segunda Jornada Internacional de Luta dos Estivadores visa, em solidariedade com o movimento operário palestiniano, paralisar a cadeia de abastecimento global, antes de mais nada nos portos do Mediterrâneo. Estes estão na “linha da frente” na luta contra a guerra de Israel contra a Palestina, bem como contra as guerras de Israel contra o Líbano, a Turquia, a Síria e o Irão, todas elas alimentadas por equipamento e munições militares vindos dos EUA e da Europa.

Desde que, em 2019, se recusaram a carregar armas para a guerra travada pela Arábia Saudita no Iémen, os estivadores sindicalizados do porto de Génova, o de maior movimento da Itália, emergiram como vanguarda, tanto o Collettivo Autonomo Lavoratori Portuali (Colectivo Autónomo de Estivadores, CALP) como a Unione Sindacale di Base (Sindicato de Base ou USB). No ano passado, em solidariedade com a Frota Global Sumud, que procurou romper o bloqueio ilegal de Gaza por Israel, o estivador genovês Riccardo Rudino prometeu que “se perdermos o contacto com os nossos barcos, com os nossos camaradas, mesmo que apenas por 20 minutos, bloqueamos toda a Europa”. No outono passado, entre os participantes da frota encontrava-se outro estivador genovês, José Nivoi (assim como o sindicalista da Amazon Chris Smalls).

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Os estivadores genoveses contam com forte apoio de uma sociedade civil bem organizada, de grupos de estudantes e de um governo local solidário. Este outono, Génova acolhe uma potente instalação sonora da artista Hajra Waheed, “Hum III: From Port to Port, A Sonic Convening”. A exposição de Waheed explora a tradição histórica do sindicalismo radical, do antifascismo e do internacionalismo em Casablanca, Chattogram (Chatigão), Durban, Génova, Sydney, Jaffa e outros portos. Waheed faz uma ligação ostensiva entre as histórias de acção directa e a oposição dos estivadores ao apartheid israelita, também na jornada de 30 de Outubro.

A Federação Mundial dos Sindicatos (WFTU), organização com sede em Atenas, cujos sindicatos filiados representam 105 milhões de trabalhadores, co-patrocina a acção.

A mobilização desenrola-se num momento crítico, com conflitos militares em alastramento e frentes de guerra a progredirem e interligarem-se perigosamente, da Ucrânia ao Médio Oriente. O Estado assassino de Israel, apoiado pelos EUA, pela União Europeia e pela NATO, prossegue a sua actividade criminosa contra o povo palestiniano e intensifica a agressão militar contra o Irão e o Líbano, aumentando o perigo de um conflito ainda mais alargado.

A WFTU salienta que os operários “da indústria metalúrgica e dos estaleiros navais, dos caminhos-de-ferro, da energia, das telecomunicações, dos transportes e da logística… ligam portos, zonas industriais e infra-estruturas militares… [e] podem desempenhar um papel decisivo na luta comum contra a guerra imperialista e a exploração”.

A investigadora especializada no estudo de perturbações das cadeias de abastecimento, activista sindical e pela Palestina Charmaine Chua refere mais pormenores sobre:

… os nós estratégicos em que o genocídio israelita se sustém: da Turquia, que fornece petróleo bruto através do porto de Ceyhan, às exportações de carvão da África do Sul, aos envios de componentes para a Elbit Systems por Génova, Ravena, Livorno e outros portos, ao papel de Oakland no aprovisionamento das operações militares americanas pelo mundo fora. Ao traçar o papel destes portos no genocídio, veem-se os tentáculos do combustível, dos sistemas de armamento e das energias renováveis a alimentar as máquinas de guerra israelita e norte-americana. Se nos portos se cristalizou de forma surpreendente a brutal cumplicidade dos nossos Estados com a máquina de guerra, já a enorme solidariedade dos estivadores e da sociedade civil é sinal da maciça oposição que toma forma em resposta a estas catástrofes em marcha.

É forçoso compreender, também, que, sendo as cadeias de abastecimento — que tornam possível a guerra “moderna” — globais, não basta encerrar um porto, nem mesmo todos os portos de um país. Katy Fox-Hodess escreveu que não há nenhum ponto de estrangulamento estratégico que seja uma “solução milagrosa”. Com a sua frequente co-autora Rafeef Ziadah, pôs-se a estudar o “Internacionalismo dos Trabalhadores numa Época de Genocídio".

Chua vai mais longe: “O movimento operário prestar solidariedade a sério à Palestina exige de todos nós que encontremos nos nossos próprios locais de trabalho outras alavancas influentes, mantenhamos viva a base da organização sindical no nosso próprio chão de fábrica e construamos um sindicalismo empenhado em organizar em toda a parte, não apenas em pontos estratégicos.” 

Embora se estejam a preparar para subir ao palco, houve estivadores que não esperaram. Na semana passada, em Livorno, os estivadores interromperam o transporte de carga militar norte-americana da base aérea conjunta italo-americana de Sigonella, considerada o centro nevrálgico do Mediterrâneo.

Em 30 de Outubro, os estivadores de boa parte do Mediterrâneo e não só paralisaram o trabalho, manifestando-se contra a guerra e o genocídio. As suas acções são apenas o início. No mundo actual, os trabalhadores que queiram moldar a política mundial têm de se organizar transversalmente aos sectores e países. A jornada dessa sexta-feira será certamente gigante; mais importante ainda será como os trabalhadores responderão nas semanas seguintes.


Traduzido e ligeiramente adaptado de jacobin.com por Adriano Zilhão.

1 Em 1768, os marinheiros, em apoio das manifestações em Londres, “struck”, ou seja, arriaram as velas de gávea dos navios mercantes no porto, incapacitando-os assim de navegar.

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Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹

2.ª parte

Uma traição às memórias do Sul Global

Desde a contra-revolução islâmica contra a verdadeira revolução de 1979, parte da esquerda nacional e internacional passou a subordinar a análise de classe e género à sua interpretação unilateral do anti-imperialismo. Os protestos das mulheres contra o uso obrigatório do véu, por exemplo, foram marginalizados, contribuindo inadvertidamente para a consolidação da ordem religiosa e patriarcal, que passou a ser apresentada como garantia de “autenticidade cultural”, sinal distintivo em relação ao Ocidente e marcador de independência nacional. Foi tomando forma uma narrativa dominante que vê a Revolução Iraniana exclusivamente pelo prisma anti-ocidental, assim apagando as forças laicas, feministas, queer, curdas, socialistas e outras forças progressistas. Esta ideologia é estruturalmente incapaz de reconhecer a legitimidade de lutas internas em Estados anti-ocidentais. Povos não ocidentais são reconhecidos unicamente como objecto do imperialismo ocidental; a experiência vivida, a memória colectiva e as subjectividades políticas de grupos subalternos — mulheres/comunidades queer, minorias étnicas e as classes populares — são sistematicamente depreciadas como distracções insignificantes ou invenções do Ocidente.

Após o colapso da URSS, em 1991, esta orientação subsistiu na forma de um terceiro-mundismo estatista: transferiu-se a lealdade às populações para a lealdade a Estados “anti-americanos”, subordinando-se os direitos das mulheres, das pessoas queer e das minorias à “unidade anti-imperialista”. Esta perspectiva, simultaneamente eurocêntrica e orientalista, ignora a subjectividade dos povos não ocidentais. Só leva a sério a violência que emana do campo dos EUA e recusa-se a reconhecer que as populações do Sul Global possam lutar genuinamente por direitos e liberdades democráticos.

A “unidade anti-colonial” transforma-se assim em autoritarismo nacionalista. E aceita a lógica de um “estado de emergência” aparentemente permanente: dá-se prioridade ao poder do Estado, à segurança e à influência geopolítica (por exemplo: “Lutamos na Síria para não termos de lutar em Teerão”).

O campismo transforma a memória anticolonial num instrumento de legitimação de Estados pós-coloniais autoritários. Faz do Estado o agente da resistência e priva os povos tanto da sua legitimidade como da sua subjectividade política. Trai, deste modo, memórias subalternas que tantas vezes se constituíram contra o próprio Estado. Paradoxalmente, Estados como o Irão são apresentados como “independentes do capitalismo global”, quando eles não deixam de ser máquinas de exploração interna e de militarismo, exactamente preocupadas em integrar-se no capitalismo global e em competir com outros Estados nesse palco.

É exactamente na sua relação com as margens colonizadas do Irão que esta lógica revela com máxima clareza a sua violência. O campismo não se limita a apagar a pluralidade das forças de oposição iranianas. Enraizado numa concepção quase colonial e securitária da soberania e das fronteiras, reproduz também hierarquias internas, relegando para segundo plano ou mesmo desqualificando as lutas étnicas curdas e de outros povos não persas. A este respeito, desde a jihad de 1980 contra o Curdistão até aos mais de 100 ataques recentes a partidos curdos iranianos exilados no Curdistão iraquiano durante a guerra, os campistas têm-se amiúde mostrado ainda mais hostis aos curdos do que o próprio governo iraniano, minimizando ou marginalizando a legitimidade da sua resistência.

Estas violências fazem parte de uma história mais antiga, agravada pelo apoio activo — ou pelo silêncio — de alguns actores do mundo árabe e de alguns segmentos da esquerda. O genocídio de Al-Anfal, levado a cabo por Saddam Hussein durante a Guerra Irão-Iraque, que custou a vida a cerca de 180 mil curdos simplesmente por causa da sua identidade, ilustra esta dinâmica. Ao trauma da repressão assassina acrescentou-se o apoio de parte do mundo árabe e a negação do genocídio por parte de intelectuais.

Mais recentemente, em 2018, a ocupação de Afrin, no Rojava, pelo Exército turco foi acompanhada de violência, expulsão e destruição sistemáticas. Em resposta, o chefe do Hamas, Khaled Mashaal, afirmou: “A vitória em Afrin é um símbolo da vontade da Turquia. Se Deus quiser, apresentaremos grandes epopeias em ajuda ao nosso povo”, antes de passar a elogiar a direcção do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan e do seu partido, o Partido da Justiça e Desenvolvimento, no poder há mais de vinte anos.

Estes acontecimentos produziram, infelizmente, uma ruptura duradoura nos laços entre as lutas curdas e as do mundo árabe ou persa, bem como com certas partes da autoproclamada esquerda anti-imperialista, que tantas vezes evitou reconhecer e apoiar a luta curda.

Instrumentalização estatal das sanções ocidentais

A recente guerra contra o Irão não apareceu de repente; foi longamente preparada por um regime de sanções que funciona como uma tecnologia imperial de produção de vulnerabilidade social, como já se tinha demonstrado no Iraque. As sanções não se limitaram a empobrecer a população, alimentar a inflação, corroer os cuidados de saúde e o emprego e enfraquecer as capacidades colectivas de resistência; ajudaram, também, a gerar condições favoráveis para a escalada militar. Confinando o país a uma economia eternamente sitiada, normalizaram o estado de excepção, consolidaram os aparelhos rentistas e securitários do Estado e passaram os custos da crise para cima das classes populares. Ao fazê-lo, prepararam o terreno tanto material como ideológico para a guerra: uma sociedade exausta, fragmentada e reduzida à luta pela sobrevivência fica mais exposta a projectos de militarização externos. As sanções mostram, assim, o que realmente são: não uma alternativa à guerra, mas uma das suas formas preparatórias.

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No entanto, se bem que reais e devastadoras, as sanções não são, por si só, responsáveis pelas condições de vida indignas num país rico em recursos como o Irão. Contra as leituras “campistas” que reduzem todas as formas de desigualdade social no Irão às sanções ocidentais, a análise também deve enfrentar a economia política do próprio Irão: uma ordem capitalista marcada por uma privatização dura, precariedade laboral generalizada — a informação disponível indica que mais de 90 por cento dos contratos são temporários — e um regime de dominação e privação organizado internamente, sustentado em parte na exploração extrema e na expropriação de trabalhadores racializados e indocumentados, especialmente afegãos e baloches. Para os campistas, os protestos populares no Irão são interpretados como descontentamento económico, causado inteiramente pelas sanções, obscurecendo, assim, o papel central das políticas do próprio Estado. Uma consequência desta lógica campista é que, ao minimizar a dinâmica real da oposição interna à República Islâmica, ela estabelece uma falsa equivalência, assente na transviada noção de que tal “descontentamento económico” está em consonância com o projecto reaccionário pahlavista de mudança de regime por cima. Ao contrário do que afirmam os campistas, opor-se à mudança pró-imperialista de regime não passa por rejeitar ou deslegitimar a revolta interna contra a República Islâmica.

Não se pode atribuir a pobreza generalizada no Irão unicamente às sanções; ela mergulha igualmente raízes numa economia política rentista e na monopolização das importações, ambas instrumentalizadas pela República Islâmica. As suas políticas de segurança e regionais não são simplesmente reacções à pressão externa. Pelo contrário: tais políticas são parte integrante da lógica de sobrevivência do Estado, canalizando recursos para instituições coercivas e projectos ideológico-militares, enquanto a população fica exausta e empobrecida. Como argumenta Kayhan Valadbaigi, as sanções ajudam a intensificar a concentração de riqueza na oligarquia, consolidando as estruturas de poder. Passam os custos para cima dos mais vulneráveis, justificam a repressão e enriquecem ainda mais a oligarquia. As políticas de choque económico — flutuações para o dólar, eliminação da taxa de câmbio preferencial — apresentam-se como medidas calculadas de “sobrevivência” num contexto de vulnerabilidade.

Além disso, os campistas apagam a violência da República Islâmica contra o povo. Assassinatos, tortura, execuções, disparos sobre feridos em hospitais e ataques a cerimónias fúnebres são ignorados ou negados e, assim, legitimados. Apoiando uma teocracia autoritária e anti-imperialista, esvazia-se a linguagem da emancipação de todo o conteúdo real.

Deixem de julgar uma causa pela forma como é instrumentalizada

A propagação do campismo autoritário faz-se em grande parte pelas redes sociais. Aí, a legitimação de Estados autoritários entrelaça-se com um anti-ocidentalismo redutor e, em alguns casos, com anti-semitismo e padrões de pensamento conspirativos.

Apesar das assimetrias objectivas entre Israel (apoiado pelo Ocidente) e a República Islâmica (sob sanções ocidentais), mecanismos políticos e simbólicos semelhantes operam para ambos: bandeiras dos EUA e de Israel em certos comícios “pró-Irão”; bandeiras do Estado iraniano (ou da República Islâmica) e retratos de Ali Khamenei em algumas mobilizações pró-palestinianas. Todos estes gestos são susceptíveis de transformação de lutas legítimas em justificações para a violência, ao mesmo tempo que desacreditam tanto a resistência iraniana como a palestiniana. A mesma lógica se aplica à agora famosa palavra de ordem “Mulher, Vida, Liberdade” (Jin, Jiyan, Azadî). Apropriada pela extrema-direita ocidental, pela extrema-direita iraniana na diáspora e por correntes pró-genocídio, tem sido instrumentalizada para apoiar a violência militarizada.

Esta lógica não é específica ao Irão. Como David Brophy argumentou em relação ao Xinjiang, há partes da esquerda internacional que têm tratado a repressão dos uigures e de outros povos muçulmanos menos como uma questão de direitos nacionais e violência estatal do que como um problema de propaganda, financiamento ou manipulação geopolítica ocidental; no caso de Vijay Prashad e Tings Chak, esta postura desculpabilizadora chegou ao ponto de se basear em fontes fabricadas, aparentemente geradas por IA. Mas a instrumentalização cínica dos direitos humanos pelos Estados ocidentais não torna menos real o sofrimento a que tal linguagem se reporta.

Sabemos perfeitamente como movimentos progressistas e radicais do Sul Global muitas vezes acabam apropriados pela direita, uma vez divulgados no Ocidente. Mas esse processo não nos pode fazer abandonar o dever de solidariedade. O caso do movimento queer ilustra-o bem: o “branqueamento cor-de-rosa” por Estados como Israel não anula nem a força emancipatória da queerness nem a necessidade de solidariedade com queers que enfrentem repressão seja em que contexto for. A legitimidade de uma resistência depende unicamente do seu conteúdo emancipatório e da sua implantação entre os oprimidos, nunca da sua apropriação.

O campismo contribui de formas muito concretas para a perpetuação de injustiças históricas e contemporâneas. Pela dispersão e fragmentação cria um vácuo político, que é gradualmente preenchido pela direita e pela extrema-direita, tanto na região como em todo o mundo. A extrema-direita iraniana na diáspora ocupa este vácuo, simplificando a revolução e diabolizando o “anti-imperialismo”. Pode, deste modo, apresentar-se como única força de mudança. Homogeneizando artificialmente populações inteiras (“Todos os ucranianos que resistem à Rússia são nazis.” “Todos os revolucionários sírios são jihadistas.” “Todos os iranianos que se revoltam apoiam Israel ou os monárquicos.”), o campismo torna-se cúmplice da ascensão das forças imperialistas e reacionárias.

A extrema-direita é extrema-direita em toda a parte

Na Europa, nenhuma esquerda coerente aceitaria aliar-se às bandeiras da extrema-direita com o argumento de que uma potência inimiga estava a atacar o país. No entanto, para o Irão, alguns consideram aceitável exigir que os Iranianos se apaguem e alinhem atrás de forças reaccionárias, nacionalistas, fanáticas e até fascizantes. Implícito em tal assimetria está, na prática, que os povos do Sul Global devam contentar-se com uma escolha entre dominação imperial e barbárie interna. Ora, precisamente, a República Islâmica é um Estado que deve ser chamado pelo que é: uma formação fascizante, uma extrema-direita não ocidental, especialmente no que diz respeito a minorias étnico-nacionais e aos imigrantes afegãos.

Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte.

A recente declaração “antiguerra” sobre o Irão expõe o impasse político do “campismo”: um discurso antiguerra que permite que certos segmentos da esquerda convirjam com meios fascistas, anti-semitas, neonazis e conspiracionistas. A declaração reúne signatários de meios políticos aparentemente opostos: por um lado, figuras anti-guerra campistas “descolonizadoras”, como Vijay Prashad, Sandew Hira, Ramón Grosfoguel, Boaventura de Sousa Santos, Munyaradzi Mushonga, Ajamu Baraka, Nordine Saïdi e Paulina Aroch Fugellie; e, por outro, uma série de figuras — incluindo Dieudonné, Alain de Benoist, Thomas Werlet, Jean-Michel Vernochet, Christian Bouchet, Marion Sigaut, Jacob Cohen, Pierre-Antoine Plaquevent e Arnaud Develay —, bem como organizações como a RN, Égalité & Réconciliation, L’Œuvre française e o Mouvement France Résistance, todas associadas a correntes conservadoras, de extrema-direita, nacionalistas ou fascistas. Esta justaposição ilustra como uma forma puramente geopolítica de anti-imperialismo se pode tornar compatível com a política de extrema-direita. Neste contexto, o regime iraniano e o seu criminoso chefe supremo, Ali Khamenei, ressurgem nas vestes de “voz contra a arrogância e o terrorismo”, enquanto, sob a bandeira da política anti-guerra, se normaliza uma tolerância profundamente preocupante para com a violência dos Estados pós-coloniais contra as suas próprias populações.

A coerência política exige recusar, tanto para os Iranianos como para qualquer outro povo, qualquer instância de acomodação do fascismo em nome de um “mal menor” geopolítico. Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte. Assim como não marchamos com os fascistas, nem debaixo das bandeiras deles: lutamos contra eles, mesmo quando eles se apropriam do vocabulário da liberdade para lhe inverter o significado.

Identicamente ao estalinismo, que tanto contribuiu para desacreditar o socialismo, o “campismo” no Irão enfraquece a esquerda e fortalece a extrema-direita. Aprofunda, enquanto isso, a divisão Norte-Sul e legitima a repressão de movimentos anti-tirania no Sul. O resultado é o isolamento das forças emancipatórias, a desconfiança dos exilados para com a esquerda, no Norte (incluindo as correntes da descolonização) e o colapso da solidariedade internacional.

O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.

As prisioneiras feministas curdas condenadas à morte na prisão de Evin são capazes de manifestar a sua solidariedade com a resistência palestiniana — mesmo correndo o risco de perder parte do seu apoio no Irão. Já os anti-imperialistas autoritários e identitários se mostram, instalados no conforto do Ocidente ou de outro sítio, incapazes de demonstrar solidariedade comparável com as lutas populares no Irão. Chegam, o que é ainda mais grave, a negar ou duvidar da verdadeira dimensão do sofrimento.

É urgente deixar o “campismo” para trás. Caso contrário, não se conseguirá reconstruir uma esquerda genuinamente emancipatória nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular, como tentam fazer redes como a Peoples Want. O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.


1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.


Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹
A autora, socióloga curda iraniana, defende que os opositores da agressão dos EUA e de Israel ao Irão devem ir além do “campismo”, ou não conseguiremos reconstruir uma esquerda genuinamente emancipadora nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular.
categoria-opinião edicao-2026-10-22 (46) “Campismo” Guerra Fria Irão EUA Israel Teocracia

Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹

1.ª parte

O Irão está a atravessar uma fase de excepcional violência e intensidade. Depois do genocídio na Palestina e da destruição em grande escala infligida ao Líbano, os Estados Unidos e Israel participam também na destruição de vidas, corpos, territórios e infra-estruturas vitais no Irão. Têm alvejado não só refinarias e depósitos de combustível, mas também instituições de saúde, recursos hídricos, sistemas energéticos, instalações petrolíferas, escolas e outros espaços civis. Em Minab, uma escola de raparigas foi totalmente destruída e mais de 168 pessoas foram mortas, entre elas crianças baloches. A guerra desfaz as condições da reprodução social, aprofundando ainda mais a vulnerabilidade das classes trabalhadoras. Mina a base material da autonomia social, fazendo recuar vários patamares as lutas dos de baixo e reforçando formas de etno-nacionalismo promovidas pelo Estado ou pela sociedade. A rápida passagem, no espaço de um mês, da promessa de Trump de “voltar a engrandecer o Irão” à ameaça de reduzir o país à “idade da pedra” — uma fórmula que lembra inevitavelmente a linguagem da Guerra do Golfo de 1991 contra o Iraque — dissipou a última réstia de ambiguidade quanto à lógica imperial do que se passa.

Não se pode, porém, entender esta violência imperialista “externa” separadamente da crise interna pela qual a República Islâmica tem tentado restaurar a sua autoridade. Desde a revolta de 2022 a seguir ao assassinato da jovem curda Jina Mahsa Amini pela polícia, a República Islâmica tem sempre procurado, em todas as guerras e crises geopolíticas, maneira de repor parte da autoridade e respeitabilidade perdidas.

O paradoxo do ataque imperialista e da legitimidade do regime

A guerra travada pelo poder colonial genocida israelita contra os palestinianos após 7 de Outubro de 2023, a que se seguiu o primeiro ataque israelo-americano ao Irão, em Junho de 2025, ofereceu à República Islâmica o primeiro quadro de reabilitação. No entanto, o massacre de Janeiro de 2026, em que milhares de manifestantes iranianos foram mortos pelas forças do Estado teocrático em apenas dois dias, simplesmente por protestarem contra a crise económica e a ditadura política, reabriu uma crise de legitimidade aguda para Teerão, a nível interno e internacional.

Estavam os Iranianos ainda de luto, e muitas famílias ainda nem tinham conseguido recuperar os corpos dos seus entes queridos mortos em Janeiro, quando os Estados Unidos e Israel lançaram uma nova invasão imperialista, em 28 de Fevereiro de 2026, ainda mais violenta do que os ataques anteriores. Paradoxalmente, estes ataques têm, para já, ajudado a República Islâmica a recuperar parte da credibilidade que tinha perdido com a repressão sangrenta do mês anterior.

Estes dois acontecimentos, o massacre e a guerra, não constituem sequências separadas nem duas formas opostas de violência — uma repressiva e a outra supostamente libertadora —, mas sim momentos sucessivos, assimétricos até, de um processo contra-revolucionário interligado. A guerra “externa” prolonga e aprofunda a contra-revolução interna, permitindo ao Estado iraniano reforçar a coesão interna e, mais uma vez, abafar a inconformidade popular.

Reconhecê-lo não minimiza de modo algum que o Irão tenha sido e continue a ser alvo de uma agressão imperialista e colonialista levada a cabo com impunidade. Obriga-nos, sim, a ver este ataque em termos da sua função política mais profunda: em primeiro lugar, como empreitada assassina de destruição que alveja vidas, corpos, infraestruturas e territórios civis, posta em andamento com falsos pretextos e extensão da empreitada genocida levada a cabo em Gaza, assim como na Cisjordânia e no Líbano; e, em segundo lugar, como oferta de novos recursos à República Islâmica para a sua própria reconstituição.

O que é o “campismo”?

A agressão israelo-americana reforça a militarização do Irão, a repressão e a esmagamento das revoltas vindas de baixo. Intensifica, também, uma letal polarização política. De um lado, parte da oposição, especialmente os monárquicos, aplaudiu os bombardeamentos imperialistas em nome da hostilidade ao Estado teocrático. Do outro lado, outras forças políticas voltaram a cair na órbita da República Islâmica em nome do anti-imperialismo e da oposição à guerra. Se a natureza reaccionária da primeira destas correntes — pró-Israel, pró-EUA e pró-genocídio — tem merecido pronta oposição, assente num relativo consenso entre as forças progressistas e de esquerda, a segunda tem infelizmente captado partes da esquerda — e é, em absoluto, igualmente significativa.

É neste impasse que a questão do “campismo” ressurge com particular premência. Por “campismo” refiro-me a um leque de posições e tendências que apoiam qualquer força ou Estado com base na respectiva oposição ao imperialismo ocidental, independentemente da sua própria natureza reaccionária ou progressista.

O “campismo” é um legado da Guerra Fria, articulado por auto-proclamados anti-imperialistas e apoiantes do chamado “campo da resistência”, costumando reduzir o mundo a uma lógica binária de dois “campos”: o imperialismo (os Estados Unidos, a NATO, Israel e os seus aliados) versus “a resistência” (o Irão, a Rússia, a China, a Síria de Assad, etc.). Levantamentos democráticos e subversivos contra estes últimos Estados, como o Rojava, vêem-se assim rejeitados, vistos como intrinsecamente suspeitos ou “cavalos de Tróia” do inimigo. Qualquer crítica aos ditadores é de imediato desqualificada como “cumplicidade com o imperialismo”.

Mobilizações populares são reduzidas a meras “correias de transmissão ocidentais”, ou então instrumentalizadas na medida em que possam servir a um dos campos. A lógica do “inimigo do meu inimigo” torna-se um álibi: passa a servir de desculpa para ignorar a repressão interna e os protestos que se seguem, reduzindo-os a meras parcelas de um conflito geopolítico mais vasto.

O resultado é a paralisação da solidariedade mútua internacionalista baseada nas experiências e destinos partilhados das classes oprimidas, agora porém incapaz de segurar anti-autoritarismo e anti-imperialismo na mesma mão. A pretexto de impedir a “exploração imperialista” das revoluções, os campistas tendem a privilegiar uma esquerda estruturalmente marginalizada, “prudente”, não raro condenada à derrota perpétua.

Este “anti-imperialismo assente na identidade” privilegia a lealdade a Estados “anti-ocidentais” em detrimento de uma análise do capitalismo global. E, ao fazê-lo, justifica a repressão, o patriarcado, a homofobia e o colonialismo interno em nome da “resistência”. Dá-se prioridade absoluta à luta contra o imperialismo ocidental, reduzindo-se as vítimas dos Estados “anti-imperialistas” a “danos colaterais”.

O ensaísta irlandês Fred Halliday descreveu este tipo de pensamento como “anti-imperialismo para tolos”. Em nome da hostilidade para com os Estados Unidos, esta postura reforça violentamente, na prática, um Estado teocrático que reprime a esquerda, as minorias nacionais, as feministas e os conselhos populares. O conceito foi posteriormente recuperado pela activista síria Leila Al-Shami no seu livro Burning Country para designar os apoiantes de Bashar al-Assad durante a revolução árabe da década de 2010. Da repressão soviética da revolta húngara de Budapeste em 1956 aos nossos dias, este anti-imperialismo para tolos tem servido de máscara à violência de Estado e ao esmagamento da revolta.

Observa-se tal tendência em certos segmentos da esquerda ocidental branca, mas também em modos de pensamento ligados aos processos de descolonização. Enquadra-se no que se poderia chamar de “branqueamento anti-imperialista”, o uso estratégico da retórica anti-imperialista para ocultar, justificar ou minimizar formas de autoritarismo e violência fascizante exercidas dentro das fronteiras nacionais, especialmente quando os Estados se apresentam como adversários do poder hegemónico ocidental. Embora estas figuras denunciem o colonialismo das potências ocidentais, mantêm muita cegueira, cumplicidade mesmo, para com formas de “colonialismo interno”, forma usada por povos minoritários como os curdos e os baloches para descrever a sua relação com o poder estatal iraniano.

Esta prática é também frequentemente acompanhada por uma forma de manipulação psicológica racial. A forma de manipulação psicológica clássica refere-se à que consiste em pôr sistematicamente em dúvida a palavra e estado mental das mulheres. Tendo o termo inglês “gaslighting” passado a termo de referência em psicologia e, mais tarde, ferramenta crítica do feminismo, ele abrange agora, mais amplamente, um tipo de linguagem política enganosa, violenta e até negacionista. Do estrado do relativo privilégio, “ensina-se” a comunidades historicamente sujeitas tanto à dominação imperial como à repressão interna como hão-de interpretar “como deve ser” o imperialismo e a resistência. Esta postura condescendente não se limita a restaurar hierarquias coloniais de conhecimento; tira legitimidade às ideias e experiências vividas — à própria agência — de quem está sujeito a uma trama complexa de sistemas de violência.

As consequências são bem visíveis. A República Islâmica do Irão instrumentaliza este discurso tributário da “descolonização” para rotular manifestantes de “terroristas” e endurecer o seu aparelho coercivo. É uma lógica que igualmente ajuda a justificar políticas discriminatórias dirigidas contra os migrantes afegãos no Irão: retratando-os como ameaça interna, o Estado alija para cima deles a responsabilidade por dificuldades que derivam realmente do seu próprio regime político, social e económico.

A lógica contra-revolucionária do “campismo”

Após o genocídio em Gaza e a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão em Junho de 2025, o “campismo” voltou a dominar parte da esquerda radical global no Ocidente, bem como na América Latina, em África e no mundo árabe. Ele reduz a política iraniana a um duelo entre o “Irão” e o “eixo EUA-Israel”. As revoltas populares, reprimidas no sangue desde 2017, são passadas em silêncio ou refeitas segundo os moldes do discurso oficial do Estado: “infiltração da Mossad”, “revolução colorida”, “conspiração ocidental” e assim por diante. Transforma-se os movimentos sociais em ameaças à segurança e legitima-se a repressão — da violência de rua às execuções — a pretexto do “estado de emergência” ou da “inoportunidade”. Fazendo do povo que se insurge o inimigo principal, o campismo é, na verdade, profundamente contra-revolucionário.

Sob o regime de guerra permanente que alastra, passa-se o tempo a dizer aos povos em luta que retrocedam, se aguentem aí em nome de uma urgência superior. Até os que reconhecem a natureza repressiva daquelas forças põem amiúde de lado as lutas emancipatórias em nome da estratégia. A isto chamaram Morteza Samanpour e Amir Kianpour “campismo estratégico”. Há muito que se anda a armadilhar as lutas feministas exactamente nesta mesma lógica: pede-se-lhes sempre que esperem, primeiro pela classe, agora pelo anti-imperialismo. Mas o feminismo político tem identificado claramente que a essência do adiar é que “mais tarde” tende para “nunca”. Não se relegue nenhuma luta para a “sala de espera da história” em nome de uma concepção linear de libertação, nem as sacrifiquemos a uma hierarquia de causas alegadamente mais urgentes.

Desenvolvimentos geopolíticos recentes ainda dão maior campo de manobra aos campistas. Durante a guerra de Israel contra o Irão, em Junho de 2025, a que se costuma agora chamar “Guerra dos Doze Dias”, a experiência concreta de destruição reforçou as tendências anti-guerra no interior do Irão. No entanto, após o massacre sangrento perpetrado pelo Estado, em Janeiro de 2026, parte da sociedade, exausta e confrontada com um beco sem saída, começou a ver a intervenção estrangeira, erroneamente, como meio para derrubar o governo, uma vez tentadas sem êxito outras vias internas, e mantendo-se o Estado imune à pressão. Um médico proeminente relatou que, a seguir aos protestos de Janeiro, se tinham apresentado num só hospital, em Teerão, “pelo menos mil” pacientes (manifestantes) com lesões oculares graves, todos a necessitarem de tratamento urgente para lhes tentar salvar a vista.

É precisamente aqui que o “campismo” cai por terra. Condenar a guerra externa ficando em silêncio quanto à violência estatal interna não é uma posição anti-guerra de princípio, mas uma forma de relativismo que apaga diferenças cruciais entre regimes e modalidades de violência. O caso não é uma alegação de excepcionalismo iraniano, invocado para legitimar um ataque militar, como algumas correntes trumpistas e monárquicas fizeram. A questão é, sim, a insistência em que não se possa pôr um sinal de igual entre uma ditadura teocrática em que um chefe não eleito exerce um poder extralegal sobre noventa milhões de pessoas pelo terror social, execuções, tortura, prisão política, isolamento digital, poder religioso misógino e políticas racistas-coloniais para com minorias nacionais e os migrantes afegãos; e Estados em que ainda existem liberdades civis e legais, por mais limitadas que sejam, e onde a violência opera a uma escala e em moldes estruturalmente diferentes.

Condenar, como fazem os campistas, a guerra externa ou a intervenção imperialista sem denunciar explicitamente esta violência interna e o massacre da própria população tanto é, politicamente, tresler completamente as dinâmicas no Irão, como equivale a aliar-se ao Estado contra o povo que ele mata. Os Estados governam dividindo a população e esmagando revoltas. Os campistas não resistem a esta lógica; seguem-na. Ao tomarem os Estados e os respectivos alinhamentos geopolíticos para seu ponto de referência primário, eles reproduzem e legitimam as divisões impostas de cima, substituindo as solidariedades forjadas entre os povos em luta a partir de baixo por lealdades a campos estatais.

(continua)


1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-um filme edicao-2026-10-22 (46) Israel Palestinianos Linguagem Mal

Naza – no silêncio das salas de cinema

Quando, por fim, as luzes da sala se acendem, o que estranha é a imobilidade e o silêncio. Ninguém esboça o gesto de se levantar para sair. Ninguém sussurra para o lado. Ninguém nada. A projeção de Naza, o documentário sobre o extermínio do povo palestiniano em Gaza, acabou. E é como se um peso se abatesse sobre as consciências de quantos assistiram. Mesmo se aqueles que se deslocaram ao cinema para ver Naza estivessem de antemão conscientes do que iriam ver, mesmo se grande parte deles, se não todos, tivessem participado em ações de protesto contra os massacres israelitas na Faixa de Gaza, perpetrados sob o pretexto da sua autodefesa. Apensa silêncio e imobilidade. Longamente.

É assim, uma após outra, das sessões de projeção do filme. Lá do fundo, alguém grita: “Palestina Vencerá!” O slogan é entoado por algumas outras vozes, mas o silêncio regressa à sala que, só aos poucos, começa a agitar-se com as pessoas a levantarem-se para sair.

“Naza” é a designação que, na linguagem burocrático-militar das forças armadas israelitas, nomeia os civis “colateralmente” atingidos ou atingíveis por uma ação militar. Cada ordem de abrir fogo é planificada e, nesse planeamento, está incorporada a estimativa de “nazas” a atingir. “Nazas” são os familiares, as crianças, os anciãos, os bebés e as suas mães que estão no interior de um prédio onde, por exemplo, é suspeito encontrar-se um militar do Hamas.

São militares israelitas dos departamentos de informações, planeamento, artilharia, do departamento político conhecido por “Departamento Bibi” e operacionais no terreno quem explica tudo isto aos realizadores de Naza, os cineastas israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor. Conta um deles que, numa das ordens que recebeu, foram autorizados até “500 nazas”.

A nova “Amtssprache”

Quando, no início dos anos 1960, escreveu sobre o julgamento por Israel do criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann, condenado à morte por enforcamento, Hannah Arendt notou que, apesar de se terem passado quase vinte anos desde o tempo em que o antigo coronel dirigira o tráfego dos “comboios da morte” para os campos de extermínio, a sua linguagem não mudara. Eichmann continuava a usar a terminologia burocrática, a “Amtssprache” — linguagem administrativa —, o burocratês que afasta do crime o criminoso. “Eliminação” e não “assassinato”. “Realojamento” e não “deportação”. “Mão-de-obra” e não “escravatura” são palavras com que a consciência humana se protege da realidade cuja precisão lha tornaria insuportável.

Isso ocorre com o crime “legal” de Estado, perpetrado a grande escala por maquinarias político-administrativas que, ao mesmo tempo que criam a verdade da barbárie, geram a mentira das palavras que a eufemizam e que, no limite, a tornam possível. 

Isto ocorre nos casos extremos de liquidação de populações inteiras, massacres de crueldade inominável, mas também acontece com a “política normal”. O burocratês envolve as políticas antissociais de governos após governos que sabem estar a legislar não para defender as populações cuja vida era suposto melhorarem com o seu poder, mas sim para beneficiar as elites que, mesmo que não lhes pertençam, são pagos para servir.

A expressão geral que Arendt utilizou para falar disto foi “a banalidade do mal”. Um termo que grande parte da maldade e dos seus autores desde então tem banalizado para diluir a sua ação, seja em nome de que poder for, seja em que parte for do mundo.

Ouvir os soldados israelitas que, com vozes tratadas digitalmente e filmados de forma a salvaguardar o seu anonimato, sem que isso possa, todavia, ser confundido com uma filmagem artificial, é regressar às atas de Nuremberga ou Tóquio, no final dos anos 1940. A “razão maquínica” apresentada pelos dirigentes e operacionais nazifascistas de então é a mesma que, mais criticamente ou menos, expõem os militares israelitas que aceitaram falar. 

Une-os aos realizadores de Naza a coragem e a consciência do que foi feito e continua a sê-lo em Gaza, agora com silenciador, como em Cuba. A morte por doença, sede, fome, abandono, privação; a existência a ser extinta até ao seu último suspiro.

Tudo isto é apresentado em registo de conversa, calmamente, sem falsos moralismos, no documentário que explica a destruição de Gaza e dos Palestinianos, casa por casa, ser humano por ser humano, tendo em fundo os terraços de Telavive e as imagens da vida doméstica das famílias israelitas através das janelas dos seus apartamentos nas torres da cidade iluminada. Só por uma vez as imagens nos trazem atroadoramente a brutal violência de Gaza, no final do documentário. Depois, as luzes acendem-se e o som lancinante das vítimas em Gaza dá lugar ao silencio imóvel na sala de cinema.

categoria-política Begin Fascismo Israel Likud edicao-2026-07-30 (38)

Carta aos editores do The New York Times sobre a natureza fascista do partido de Menachem Begin

É bom recordar a posição de Albert Einstein1 e mais intelectuais judeus contra a admissão nos EUA de Menachem Begin2, notório fascista e líder da organização que assassinou mais de 200 palestinianos que habitavam a aldeia de Deir Yasin logo em 1948. O valor dessa posição mantém-se como um exemplo de como os laços de sangue, crença religiosa e outros não servem de escusa para nos negarmos a reconhecer factos confirmados como o atual genocídio em Gaza.

Albert Einstein, Hannah Arendt e outros

Entre os mais perturbadores fenómenos políticos dos nossos tempos está a emergência do “Partido da Liberdade” (Tnuat Haherut) no recentemente criado Estado de Israel. Um partido político muito próximo em organização, métodos, filosofia política e apelo social aos partidos nazis e fascistas. Ele foi formado a partir dos membros e seguidores do extinto Irgun Zvai Leumi³, uma organização terrorista, conservadora e chauvinista na Palestina.

A atual visita de Menachem Begin, líder desse partido, aos Estados Unidos é obviamente calculada para dar a impressão do apoio dos EUA a esse partido nas eleições de Israel que estão por vir e para cimentar laços políticos com os elementos sionistas conservadores dos Estados Unidos. Vários norte-americanos de reputação nacional têm deixado que os seus nomes sejam usados para caucionar a sua visita. É inconcebível que aqueles que se opõem ao fascismo em todo o mundo, se estão corretamente informados sobre a história política e as perspetivas do Sr. Begin, possam permitir a utilização dos seus nomes e dar o seu apoio ao movimento que ele representa.

Antes que danos irreparáveis ​​sejam causados ​​através de contribuições financeiras, manifestações públicas em defesa de Begin e da criação na Palestina da impressão de que uma grande parte da América apoia elementos fascistas em Israel, o público norte-americano precisa de ser informado sobre o historial e os objetivos do Sr. Begin e do seu movimento.

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As declarações públicas do partido de Begin não condizem de nenhuma forma com o seu verdadeiro carácter. Hoje falam de liberdade, democracia e anti-imperialismo, enquanto até há pouco tempo pregavam abertamente a doutrina do Estado fascista. É nas suas ações que o partido terrorista denuncia o seu verdadeiro carácter. A partir das suas ações passadas, podemos julgar o que se espera que faça no futuro.

O ataque à aldeia árabe

Um exemplo chocante foi o seu comportamento na aldeia árabe de Deir Yassin. Esta aldeia, distante das principais estradas e rodeada de terras judaicas, não participou na guerra e chegou a contrariar o lado árabe que queria usá-la como base. No dia 9 de abril, bandos terroristas atacaram esta aldeia pacífica, que não era um objetivo militar nos combates, mataram a maioria dos seus habitantes (240 homens, mulheres e crianças) e mantiveram alguns deles vivos para desfilarem como cativos pelas ruas de Jerusalém. A maior parte da comunidade judaica ficou horrorizada com o feito, e a Agência Judaica enviou um telegrama de desculpas ao rei Abdullah da Transjordânia. Mas os terroristas, longe de se envergonharem do seu ato, orgulharam-se deste massacre, divulgaram-no amplamente e convidaram todos os correspondentes estrangeiros presentes no país a verem os cadáveres amontoados e a devastação em Deir Yassin.

“No seio da comunidade judaica eles têm pregado uma mistura de ultranacionalismo, misticismo religioso e superioridade racial. Tal como outros partidos fascistas, têm sido usados para furar greves e pressionar pela destruição de sindicatos livres”

O incidente de Deir Yassin exemplifica o carácter e as ações do Partido da Liberdade.

No seio da comunidade judaica eles têm pregado uma mistura de ultranacionalismo, misticismo religioso e superioridade racial. Tal como outros partidos fascistas, têm sido usados para furar greves e pressionar pela destruição de sindicatos livres. Em seu lugar, propuseram sindicatos corporativos segundo o modelo fascista italiano.

Durante os últimos anos de violência antibritânica esporádica, os grupos IZL e Stern inauguraram um reinado de terror na comunidade judaica palestiniana. Professores foram espancados por falarem contra eles, adultos foram baleados por não deixarem os seus filhos juntarem-se a eles. Através de métodos de gângsteres, espancamentos, janelas partidas e roubos generalizados, os terroristas intimidaram a população e cobraram-lhe pesados tributos.

O Partido da Liberdade não teve nenhum papel construtivo na Palestina. Não recuperou terras, não construiu colonatos e apenas prejudicou a atividade de defesa judaica. Os seus tão propagandeados esforços de imigração foram diminutos e dedicados principalmente a trazer compatriotas fascistas.

As discrepâncias observadas

As discrepâncias entre as fanfarronadas de Begin e do seu partido e o seu historial de trabalho na Palestina revelam que não se trata de um partido político comum. São a marca inconfundível de um partido fascista para quem o terrorismo (contra judeus, árabes e britânicos) e a deturpação dos factos são meios, e um “Estado líder” é o objetivo.

À luz das considerações anteriores, é imperativo que a verdade sobre o Sr. Begin e o seu movimento seja divulgada neste país. É ainda mais trágico que a direção superior do sionismo americano se tenha recusado a fazer campanha contra os esforços de Begin, ou mesmo a expor aos seus próprios membros os perigos para Israel decorrentes do apoio a Begin.

Os signatários vêm, pois, por este meio, apresentar publicamente alguns factos relevantes sobre Begin e o seu partido e instar todos os envolvidos a não apoiarem esta mais recente manifestação do fascismo.

Albert Einstein, Hannah Arendt, Isidore Abramowitz, Abraham Brick, Rabi Jessurun Cardozo, Herman Eisen, M.M., Hayim Fineman, M. Gallen, H.D., H.H. Harris, Zelig S. Harris, Sidney Hook, Fred Karush, Bruria Kaufman, Irma L. Lindheim, Nachman Maisel, Seymour Melman, Myer D. Mendelson, M.D., Harry M. Oslinsky, Samuel Pitlick, Fritz Rohrlich, Louis P. Rocker, Ruth Sagis, Itzhak Sankowsky, I. J. Shoenberg, Samuel Shuman, M. Singer, Irma Wolfe, Stefan Wolfe


  1. De 4 de dezembro de 1948.
  2. O Likud, de Benjamin Netanyahu, é o herdeiro do “Partido da Liberdade” de Begin.
  3. Organização Militar Nacional, uma organização paramilitar sionista que operou durante o Mandato Britânico da Palestina (1931-1948).

Tradução de António Simões do Paço.

categoria-internacional edicao-2026-06-25 (33) Palestina Gaza Israel

O Exército israelita aponta à cabeça das crianças

Médicos de diversos países a trabalhar em Gaza observaram um padrão perturbador: crianças com um único ferimento de bala na cabeça ou no peito, sinal de que tinham sido deliberadamente alvejadas. Esta conclusão pôde ser tirada graças a uma pesquisa do jornal neerlandês de grande circulação de Volkskrant, que falou com médicos que estão entre as últimas testemunhas oculares internacionais presentes na Palestina.

Quinze médicos de diversos países disseram ao jornal neerlandês de Volkskrant que, durante o seu trabalho nos hospitais de Gaza, assistiram crianças até aos 15 anos com ferimentos de bala na cabeça ou no peito. Segundo a estimativa mais conservadora, assistiram 114 crianças com estes ferimentos, a maioria das quais faleceu.

O jornal falou com 17 médicos e uma enfermeira dos EUA, e também do Reino Unido, Austrália, Canadá e Holanda que trabalharam em seis hospitais e quatro clínicas em Gaza desde outubro de 2023. Quinze deles disseram ao de Volkskrant que trataram pelo menos 114 crianças até aos 15 anos com um único ferimento por arma de fogo na cabeça ou no peito. A maioria destas crianças morreu em consequência desses ferimentos. Os casos foram documentados entre o final de 2023 e meados de 2025 em 10 diferentes hospitais ou centros de saúde.

 “Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”

 Um dos médicos, o cirurgião de trauma norte-americano Feroze Sidhwa, recordou o seu primeiro dia no Hospital Europeu de Gaza, em março de 2024, onde encontrou quatro rapazes com menos de 10 anos com ferimentos idênticos na cabeça num intervalo de 48 horas.

“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”, disse ao jornal o Dr. Feroze Sidhwa. Nos 13 dias seguintes, assistiu mais nove crianças com ferimentos semelhantes.

Testemunhas oculares disseram aos médicos que os projéteis provinham principalmente de atiradores de elite ou drones do Exército israelita (IDF).

Os médicos entrevistados enfatizaram que tais ferimentos dificilmente seriam acidentais. Peritos forenses consultados pelo jornal disseram que o padrão uniforme sugeria disparos direcionados, possivelmente por franco-atiradores ou drones.

Isso mesmo foi corroborado pelo antigo comandante das forças terrestres holandesas, Mart de Kruif, que afirmou que a probabilidade de terem sido disparos acidentais é insignificante, dado que os médicos descreveram mais de uma centena de casos.

O primeiro-ministro israelita, Netanyahu, e as chefias militares têm negado que os soldados estejam a atacar deliberadamente civis palestinianos. No entanto, soldados anónimos têm admitido repetidamente o contrário ao jornal israelita Haaretz.

Os médicos citados também descreveram o dilema moral que enfrentam: se falarem abertamente, podem ser impedidos de regressar a Gaza. Segundo a ONU, Israel negou a entrada a mais de 100 profissionais de saúde internacionais desde março de 2025, sem uma explicação detalhada.

Nota: este texto foi elaborado pelo Maio tendo como fontes, além do já mencionado artigo de de Volkskrant, outros media internacionais como a Al Jazeera, a BBC, The Guardian e a Reuters.

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categoria-internacional Agricultura Colonos Israel Palestina edicao-2026-05-28 (29)

Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos

Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam1 de terra custa hoje cerca de 100 shekels, quanto irá custar um bidão de azeite? Quem o comprará?”, exclama.

ilustração: Mantraste

Eyad Yousef é um agricultor palestiniano da aldeia de Taybeh, a leste de Ramallah. Também é mecânico de automóveis e pai de três filhos. Todos os anos, na Primavera, com os irmãos, planta ervilhas, lentilhas, pepinos, cebolas e outras culturas sazonais. Mas este ano é diferente.

Eyad já não trabalha a sua própria terra, inacessível devido à ameaça dos colonos israelitas, que patrulham constantemente a planície a leste da aldeia. Já nenhum proprietário de terras em Taybeh consegue aceder à sua propriedade.

“Este ano arrendei a terra de outra pessoa, mas não é que seja um contrato escrito, é só um acordo verbal”, explica Eyad. “Se, a qualquer momento, o proprietário decidir vender a terra, perco o que investi.”

Apesar disso, Eyad continua com a sua lavoura sazonal. “É o meu oxigénio.”

Desde Outubro de 2023, aumentaram exponencialmente, em número como em violência, os ataques de grupos de colonos israelitas a agricultores palestinianos na Cisjordânia.

Para muitos agricultores, é um duríssimo golpe à sua subsistência e modo de vida. Mas o impacto não se limita aos agricultores; está-se a desfigurar e dizimar parte substancial da economia palestiniana e um pilar das famílias rurais. Numa época em que os pogroms dos colonos nos campos aterrorizam os palestinianos, os agricultores têm estado na linha da frente da violência crescente.

Segundo o Centro de Informação Palestiniano, grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. O Gabinete de Coordenação Humanitária das Nações Unidas (OCHA) indica que, só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia. Mesmo quem não foi directamente afectado sente o efeito cumulativo da ofensiva, que se reflecte directamente no aumento dos preços dos produtos agrícolas.

Grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. Só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia.

Nem sempre foi assim. Os agricultores constituíam outrora a espinha dorsal da economia palestiniana. Sociedade historicamente agrária, a Palestina foi descrita, em 1887, pelo viajante britânico Lawrence Oliphant como “um lago verde de trigo ondulante”. Hoje a maior parte do trigo usado para fazer o pão consumido pelos palestinianos é importado. Uma transformação que é fruto de um historial de cada vez maiores pressões exercidas pelo colonialismo israelita sobre sucessivas gerações de agricultores palestinianos.

“Fui agricultor toda a vida”, diz Eyad. “Comecei a trabalhar na terra do meu pai, perto da colónia de Rimunim, a sudeste da aldeia; plantávamos trigo e cevada, de que a minha mãe fazia o nosso pão caseiro. Os meus irmãos e eu crescemos com o pão da terra.”

“Do ano 2000 em diante, esta terra ficou-nos inacessível”, recorda, “quando os colonos israelitas começaram a patrulhar no campo, que fica mesmo ao lado da colónia.” Ergue os olhos, como se estivesse a lembrar-se de algo. “Para dizer a verdade, lembro-me da construção da própria colónia, quando era miúdo, em 1979”, continua. “Lembro-me de que a nossa família perdeu uns 20 dunams, entre terras tomadas pela colónia e as que nos foram ficando progressivamente inacessíveis.”

À medida que o acesso às terras agrícolas se ia fechando, os agricultores palestinianos e os beduínos começaram a partilhar a terra disponível, entreajudando-se para tentarem manter a presença. Há oito anos, Eyad começou a ceder a parte da sua terra situada ao lado do assentamento a uma família beduína, que ali vivia e apascentava o seu rebanho, apesar do assédio crescente dos colonos israelitas.

“Sempre que podia ir à minha terra e trabalhá-la, também trabalhava a terra do meu vizinho”, explica Eyad, descrevendo a antiga prática rural palestiniana de entreajuda, o ‘auneh’. “Quando o meu vizinho ia à terra dele, também cuidava da minha. Se eu lavrava a terra deles, eles vinham ajudar-me na colheita; entretanto, os beduínos tiravam proveito de parte da terra e vigiavam o resto”, continua.

Chegou, entretanto, Outubro de 2023, e até as famílias beduínas foram expulsas. Na altura, Eyad não pensou que se viria a ver na mesma situação que os beduínos que tinham usado a sua terra.

“No ano passado, os colonos israelitas começaram a aproximar-se cada vez mais da zona urbana de Taybeh, e as nossas terras agrícolas mais próximas ficaram mais perigosas de frequentar e trabalhar”, diz Eyad. Quando lhe pergunto o que aconteceu da última vez que tentou ir a essa sua terra, ele faz uma pausa. “A última vez que lá fui foi há seis meses. Três colonos israelitas chegaram de carro, um deles armado, disse-me que me fosse embora. Disse que aquela terra já não fazia parte de Taybeh.”

Eyad Yousef no seu campo de ervilhasAzeitonas no mercado de Ramallah, 2022Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah

Quando chegou a Primavera, Eyad e os irmãos tiveram de encontrar uma solução para a temporada agrícola. Decidiram arrendar a mesma terra onde a família beduína se instalara depois de os colonos os terem expulsado da terra de Eyad, dois anos antes. “Primeiro falámos com os beduínos, depois com o proprietário, e dividimos a terra: os beduínos plantaram cevada para o gado em metade da parcela, e nós usámos a outra metade.”

Em cerca de dois dunams de terra, duas famílias palestinianas praticam agora agricultura sazonal e criação de gado. Toda a vida agrícola da região ficou confinada a um pequeno espaço, de onde se avistam os postos avançadas dos colonos, implantados nas colinas vizinhas — as colinas onde Eyad outrora lavrava a sua terra, lado a lado com os beduínos, que ali apascentavam os rebanhos.

Em certo sentido, partilham a perda. Entretanto, continuam a apoiar-se mutuamente na defesa do seu modo de vida e da sua relação com a terra. Os agricultores e os beduínos, os habitantes do campo palestiniano desfigurado, são, uns para os outros, os únicos apoios que têm ante um projecto colonial dotado de recursos infinitos e da impunidade que a maior parte do mundo ocidental lhe concede.

Além de Taybeh, a dinâmica repete-se em toda a Cisjordânia. Jamal Jumaa, responsável pela campanha popular Stop The Wall, diz à Hara 36 que “a dinâmica da expansão dos colonatos israelitas desde Outubro de 2023 é a mesma em todo o lado e obedece a um modelo claro.”

O modelo, como explica Jumaa, consiste em “conseguir fazer na Cisjordânia o mesmo que se fez em Gaza na década de 90.” Nos anos que se seguiram aos Acordos de Oslo, o Exército israelita transformou a maior parte das terras agrícolas de Gaza, situadas na periferia da Faixa, em zonas militares. Os palestinianos de Gaza acabaram confinados às zonas urbanas. Após a retirada israelita em 2005, Gaza ficou isolada, transformada em prisão a céu aberto, sem meios de subsistência.

“Na Cisjordânia, a primeira vítima desta violenta expansão colonial foi a pecuária”, explica Jumaa. “As famílias beduínas e os aldeões que criam gado já perderam as pastagens ou estão a perdê-las.”

Já se sente o efeito nos mercados locais, acrescenta Jumaa, o preço da carne fresca duplicou desde 2023. “A próxima coisa a ser arruinada é a produção de azeitonas”, continua.

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A produção de azeitonas e azeite é o sector agrícola mais importante da Palestina, sustentando a subsistência de cerca de cem mil famílias. A colheita anterior a 7 de Outubro permitiu produzir 23 mil toneladas de azeite, em 2022, número que caiu drasticamente para 10 mil toneladas em Outubro de 2023, coincidindo com a época da colheita. No ano passado, este valor diminuiu ainda mais, atingindo 8 mil toneladas. A ONU entende que a forte queda se pode atribuir ao efeito combinado de confiscações sistemáticas de terras, violência dos colonos, restrições militares israelitas e factores climáticos.

“Por isso a manutenção dos olivais se tornou tão dispendiosa”, explica Eyad. “Arar um olival enquanto os colonos rondam passou a ser um trabalho de risco.”

As actividades dos colonos são concertadas com o Exército israelita, que utiliza o arranque de oliveiras como ferramenta de “dissuasão” e punição colectiva em resposta a ataques contra colonos e soldados. Em Agosto de 2025, divulgadas informações de que um colono israelita fora atacado por um palestiniano perto da aldeia de al-Mughayyir, o Exército israelita arrasou mais de 10 mil oliveiras na aldeia, como represália e acção de “dissuasão” contra os habitantes.

Eyad continua a colher ervilhas. Deita as últimas vagens para o balde. Cala-se, visivelmente afectado pelo seu próprio depoimento. “Se as coisas continuarem assim, vamos acabar por importar azeite de Espanha”, acrescenta, pegando num punhado de ervilhas e levantando-as com um suspiro. “Só as sementes para produzir estas ervilhas custam 250 shekels. Para os recuperar, tenho de vender 25 quilos.”

Vai-se afastando da parcela. A jornada de trabalho terminou. Quando chega ao confim, vira-se. Reflecte no que acaba de fazer.

“Sabes o que ganho com esta safra de ervilhas? Umas trinta a quarenta refeições para a família. Poupava mais não comprando ervilhas do que a vendê-las”, atira, com sarcasmo.

Está o sol do meio-dia no zénite, Eyad regressa à oficina de reparação automóvel — a versão de Eyad do “segundo emprego” de cada agricultor palestiniano. Agradeço-lhe por ter falado comigo e embarco num mini-autocarro em direcção a Ramallah, centro comercial da Cisjordânia, onde se presume invisível o cheiro do campo palestiniano mortificado pelos colonos.

Chegado ao centro da cidade, saio da estação de transportes públicos e avisto um casal de idosos à beira do passeio. Sentados em cadeirinhas, têm à frente vários baldes de plástico cheios de favas verdes acabadas de colher, ainda na vagem. Aproximo-me e pergunto-lhes de onde vem o produto.

“Somos de Sinjil, a aldeia que o Exército israelita cercou completamente de arame farpado”, responde o homem. A mulher intervém: “As ervilhas estão a 10 shekels o quilo, um pouco mais caras do que no ano passado.” Ela parece quase desculpar-se, mas não o suficiente para esconder a exasperação. “Só que este ano, vamos ter de pagar renda pela terra.”

Vira-se para o marido como se se lembrasse de alguma coisa e comenta: “Sabes quanto vai custar um galão de azeite este ano? E alguém o quererá comprar?”


1 O dunam é a unidade de medida de superfície otomana, na Palestina equivalente a 1 km².

Traduzido de Hara 36 (5 de maio de 2026).
https://hara36.substack.com/p/jusqua-la-derniere-racine-la-resilience-7da


Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-conversa com... EUA Guerra Irão Israel edicao-2026-03-19 (20)

O plano de Israel e dos EUA para o Irão é dividi-lo em vários Estados – falidos

Entrevista de Raquel Varela

Yassamine Mather é uma académica iraniana, editora da revista Critique, Journal of Socialist Theory e investigadora na Universidade de Oxford. Ela tem analisado a situação no Médio Oriente e no Irão e é também uma intelectual pública no Reino Unido, militante empenhada na luta contra o genocídio e na reflexão sobre os regimes no Médio Oriente no contexto do sistema capitalista actual. Raquel Varela entrevistou-a para o Maio sobre a situação da guerra contra o Irão e no Médio Oriente.

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ilustração e animação: Pedro Páscoa

Raquel Varela: Qual o significado político dos bombardeamentos israelitas e dos EUA no Irão? As notícias dão-nos uma ideia muito rudimentar. Há uma ditadura no Irão. Há Trump, que não respeita o direito internacional, mas no Irão há, ainda assim, uma ditadura. E tudo gira à volta do petróleo. Isto não é uma explicação demasiado simples?

Yassamine Mather: Sim. A revolução iraniana de 1975 (onde os trabalhadores do petróleo foram centrais) fez-se contra um governo pró-ocidental. Contudo, apesar de o governo que subiu ao poder não ser anticapitalista nem mesmo, na minha opinião, anti-imperialista, o Ocidente não se esqueceu da perda do seu fantoche Mohammad Reza Pahlavi. A derrota da revolução levou ao poder não um sector socialista, mas uma República Islâmica. Acontece, porém, que, nas últimas quatro décadas, a República Islâmica não conseguiu dar resposta a nenhuma das reivindicações da revolução. As palavras de ordem que as pessoas gritavam durante a revolução de 1975 eram pela igualdade, pelo socialismo não diria, porque não era nessa forma que o exprimiriam, mas o que as pessoas queriam era liberdade, igualdade, uma república em que fossem elas a tomar as decisões. Em vez disso, apanharam com uma ditadura religiosa que se mete na vida privada, não é democrática. E não há igualdade. No Irão, há um grande fosso entre ricos e pobres: uma das razões dos protestos de Janeiro deste ano. Os protestos de Janeiro também eram contra a corrupção, porque as pessoas se dão conta de que grande parte da riqueza está nas mãos de uma minoria muito pequena, também ligada à corrupção. Bom, há, portanto, muita insatisfação com o regime. E há também intervenção estrangeira. A intervenção estrangeira fazem-na ou a Mossad ou os EUA, que andam a ver se encontram a sua própria alternativa para mudar o regime.

É, portanto, uma situação muito complicada, pois não se pode dizer que isto seja um governo revolucionário que devamos apoiar por ele apoiar os trabalhadores. Do outro lado, temos um governo comprometido com o genocídio e um governo que apoia o genocídio, os EUA e Israel a fazer a guerra, e os países europeus a apoiarem essa empresa sem fazerem perguntas.

A questão do petróleo é, de certa forma, mais complicada para os EUA. A questão é impedir que a China obtenha petróleo barato do Irão. É um problema sério para os EUA. Não é que, actualmente, os EUA estejam necessariamente de olho nas reservas de petróleo do Irão. Talvez estejam de olho nas reservas de minérios iranianas e assim por diante. Mas quanto ao petróleo, o factor crucial é impedir o acesso da China ao petróleo do Irão a um preço muito barato. Bom, no meio disto tudo, há as tentativas de mudar o regime. Só que aqui há dois projectos diferentes. Os israelitas querem trazer de volta um certo grupo, a família do ex-xá. Os EUA têm uma visão mais sofisticada, diria eu. Não é bem como na Venezuela, mas andam a ver se, decapitando regimes, conseguem fazer mudanças suficientes para não terem de fazer mais nada. Os objectivos de Israel e dos EUA são contraditórios, mas convergem em ambos quererem enfraquecer o poder actual no Irão. As negociações: acho que é forçoso admitir que não foram conduzidas de boa-fé. Não sei se o Irão estava a negociar de boa-fé, mas pode dizer-se com certeza que os EUA não estavam a negociar de boa-fé, porque, enquanto isso, já estavam a discutir a operação militar conjunta com Israel. A operação militar conjunta tem aspectos algo estranhos: tem tentado atingir alvos muito específicos, como a casa do chefe supremo, que eles mataram, ou os comandantes da Guarda Revolucionária, mas também instalações militares. Para já, nem tentaram atacar as instalações nucleares, tanto quanto sei. É, portanto, uma situação muito complicada, pois não se pode dizer que isto seja um governo revolucionário que devamos apoiar por ele apoiar os trabalhadores. Do outro lado, temos um governo comprometido com o genocídio e um governo que apoia o genocídio, os EUA e Israel a fazer a guerra, e os países europeus a apoiarem essa empresa sem fazerem perguntas.

Raquel Varela: Deixa-me fazer esta súmula, e corrige-me, por favor, no que não esteja certa. Houve no Médio Oriente, nas décadas de 50, 60 e 70, alguns governos ditos “burgueses desenvolvimentistas”, especialmente no Irão, no Iraque e no Egipto; e os EUA apoiaram, contra esse desenvolvimento, governos religiosos altamente conservadores, com algum impacto. Por exemplo, Gordon Tearborn, no livro Sex and Power, observa que, com “estas mudanças políticas”, houve um retorno inesperado das religiões, que pensávamos estarem, estar o seu poder, a desaparecer. Vê-se o mesmo em Israel. Vê-se o mesmo com os católicos fundamentalistas que apoiam a extrema-direita. Ora, esse apoio está também muito ligado a uma viragem da economia para a extracção de petróleo. E a mudança do papel das mulheres, que era muito mais desenvolvido nos anos 70, tem algo que ver com este tipo de economia retrógrada, onde não há emprego real para as mulheres nem economia produtiva, desenvolvida. Gostava de entender a relação entre a organização política do regime e a economia baseada nesse, como é que havemos de chamar-lhe, talvez “extractivismo”.

O ataque israelo-americano desafia a própria existência do Irão como país; portanto, as facções do poder terão mais facilidade em unir-se

Yassamine Mather: Sim, isso é muitíssimo importante. A política dos anos 60 e 70 era dominada, de ambos os lados, pela guerra fria. Na guerra fria, os EUA tinham a estratégia de construir “cinturas verdes” [islâmicas] em redor dos tais países burgueses em desenvolvimento que, aliás, às vezes colaboravam com a antiga União Soviética. O interesse era comum. Isso permitia-lhes, por vezes, em matéria de programas de desenvolvimento, jogar os EUA contra a União Soviética e vice-versa. Há, portanto, estas cinturas islâmicas, das quais o Afeganistão fazia parte, é claro, com o crescimento do fundamentalismo religioso que lá se dá e a sua exportação para os países da região. Acho que, no caso da Palestina, foi muito deliberado, promoveu-se o Hamas em detrimento da OLP, mas também, e sobretudo, em detrimento dos grupos de esquerda na aliança palestiniana.

Há quem argumente que, em 1979, na revolução iraniana, a esquerda era muito poderosa, e foram os EUA que impulsionaram o movimento religioso. Eu aduzi argumentos contrários, pois, infelizmente, em 1979, o movimento religioso no Irão era forte, e era forte por causa do xá, porque o xá, talvez a CIA lho tenha ensinado, era muito agressivo contra a esquerda, contra os liberais. Os grupos religiosos sobreviviam nas suas mesquitas, nas suas madraças, nos seus seminários. Não eram reprimidos da mesma maneira que a esquerda. Não digo que estivessem em grande, mas convém lembrar que, por exemplo, o próprio xá se apresentava como um homem religioso islâmico, ao contrário de seus apoiantes atuais. Portanto, foi mais fácil ao movimento religioso manter um certo poder, e depois tornou-se no que hoje é.

Este retorno é mau para as mulheres. Sempre que vou à Turquia, fico chocada de ver cada vez mais mulheres a usar o véu. Não quero dizer com isto que o véu, em si mesmo, as oprima. Só que, na minha opinião, não ajuda, para o futuro das mulheres na região, haver um regresso à religião, visto que o véu é apenas um sinal de retorno ao movimento religioso. E, claro, aqueles pequenos emirados do Golfo Pérsico e alguns dos outros países agarraram-se à religião porque é assim que podem sobreviver — o emir passa a ser um governante de direito divino. Tens toda a razão em dizer que as economias, e a economia iraniana mais ainda, são o que eu chamaria de economias rentistas. Sobrevivem graças ao petróleo. Não têm mais nenhuma produção a sério. A industrialização parou ou estagnou. E isso abre caminho a mais corrupção. Outro elemento que contribuiu para a corrupção foram as sanções impostas ao Irão. Quando há sanções, há sempre maneiras de iludi-las. Quem está no poder consegue iludi-las facilmente. E fica com a possibilidade de comprar mercadoria a baixo preço e vendê-la muito mais caro. No Irão, pelo quíntuplo. Olhando para os protestos operários, não só em Janeiro de 2026 ou Dezembro de 2025, mas nos últimos 15 anos, eles são contra a corrupção e contra as políticas económicas que empobrecem continuamente os pobres e enriquecem os aliados do regime, mas também o capital privado, não apenas os aliados do regime. E às mulheres tiram direitos. Por exemplo, o Irão tem grande número de mulheres licenciadas, até mesmo nas ciências e engenharias. Tem mais mulheres licenciadas em ciências STEM [ciências, tecnologia, engenharias e matemáticas] do que o Reino Unido, não vou dar um número porque não sei, mas uma percentagem muito grande delas nunca chega a conseguir emprego. Trabalham a contrato ou em coisas que não têm nada que ver com as suas áreas de formação. São trabalhadoras precárias, fazem, sei lá, trabalho ao domicílio, costuram e vendem as suas peças em casa. Não fazem uso das suas especialidades. Na melhor das hipóteses, são professoras em escolas privadas, que é a maneira de conseguirem ganhar um mínimo. No fundo, empobrece-se ainda mais as mulheres. Entretanto, a economia está parada. Não se pode fazer grande coisa, não só por causa das sanções, mas também por causa da incompetência, da corrupção e da ausência de avanços, de desenvolvimento. Fica-se pela produção rentista de petróleo, pela venda de petróleo, agora restringida, etc.

Raquel Varela: Podes dizer-nos algo mais do regime? As diferentes facções do regime estão unidas?

Yassamine Mather: Eu explico. Fala-se da ditadura do Irão, e é, mas é uma ditadura complicada. Não é como Saddam Hussein, que era um homem só, percebes? Ou Khadafi, que era um homem só. O papel do chefe supremo é, se quiseres, unir as facções. As facções têm diferentes níveis de contradições internas, que variam no tempo. Portanto, quando há um ataque dos EUA ou está em causa a sobrevivência do regime, elas aproximam-se umas das outras. Neste momento, estão muito próximas, porque está em causa sobreviverem. No entanto, historicamente, há várias interpretações de como um governo islâmico há-de funcionar. Não são apenas duas facções, há muitas facções dentro das duas tendências. As duas tendências são a reformista e a conservadora, mas os reformistas só são reformistas para efeitos da política social. Não são reformistas para efeitos de economia política. O que quero dizer com isto? Os reformistas insistem menos no uso do véu, na imposição de regras sobre a não segregação de homens e mulheres na mesma reunião, esse tipo de coisa: são socialmente reformistas. Politicamente, porém, para efeitos de economia política, eles são bastante... são adeptos do livre mercado. Todo o regime é adepto do livre mercado. Mas a facção reformista é de alma e coração pela política económica neoliberal. Foi defensora da política económica neoliberal logo desde o início dos anos 2000 e continuou. Os conservadores também são defensores do mercado livre. Lembre-se, esta gente saiu do bazar, é gente do mercado. Nem é que sejam capitalistas de Estado. São capitalistas. Mas são socialmente conservadores. São eles que se opõem ao que as mulheres conseguiram na questão de tirar o véu. São conservadores em termos de regulamentação de reuniões mistas e assim por diante. São conservadores no forçarem toda a gente a acatar a lei religiosa. O papel do chefe supremo passa, em certos momentos, por garantir que nenhum dos lados se torne dominante. Um dos papéis de Khamenei era, por conseguinte, servir de negociador entre todas as facções e lidar com as divergências. Será esse o papel do novo chefe supremo, se ele sempre vier a aceder ao poder. Será um homem, as mulheres não podem ser chefe supremo. Isso já está definido. Visto assim, tem de se considerar a ditadura com mais complexidade do que se apresenta na imprensa ocidental. Parece-me que este papel de negociador não será, neste momento, muito difícil, porque o país está a ser ameaçado no seu todo. O ataque israelo-americano desafia a própria existência do Irão como país; portanto, as facções terão mais facilidade em unir-se. Uma vez passada a ameaça, e supondo que eles sobrevivam – não sabemos se sobreviverão, mas se sobreviverem –, as diferenças ainda sobressairão mais.

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Raquel Varela: A esquerda iraniana tem uma longa história política, embora parte dela tenha emigrado. Mas ainda ficaram dirigentes de esquerda no Irão? Há alguma alternativa política? É que estamos a falar de um país que tem um sector da classe trabalhadora altamente qualificado, com história política. Mas ainda lá ficou alguma esquerda?

Yassamine Mather: Bem, não podemos dizer que não haja esquerda organizada, no sentido de não haver partidos ou organizações. Se uma pessoa se declarar de um partido, é presa. Isso não foi possível nos últimos 45 anos, 47 anos. Mas há muita esquerda no Irão. Quem é? Bem, em primeiro lugar, parece-me que se deve mencionar as organizações operárias. Não são tão... parecem ser organizações operárias espontâneas, mas houve claramente trabalhadores com tradições de radicalismo a participar em pleno na criação dessas organizações. Talvez já tenhas ouvido falar do Sindicato dos Trabalhadores de Autocarros Wahed. Não é reconhecido como sindicato pelo governo. Os seus dirigentes são presos com frequência. No entanto, eu diria que, nos últimos vinte anos, talvez mais, eles têm organizado protestos quase todos os anos. Eles defendem outros trabalhadores e as suas próprias reivindicações. Exigem o reconhecimento das organizações de trabalhadores. Depois, há os trabalhadores da cana-de-açúcar da Haftap. Eles têm-se batido arduamente contra a privatização, não só da sua própria indústria, mas contra a privatização em geral. Uma vez mais, embora pareçam ser uma organização operária espontânea, eu conheço lá gente muito activa, que se mantém abaixo do radar para não ser presa. São sindicalistas e militantes de esquerda comprometidos. São duas grandes organizações activas, das quais tenho lido posições nos últimos meses. Convém não esquecer, se por acaso leste histórias da revolução iraniana, que os operários do petróleo foram muito importantes na revolução. Só que a República Islâmica dividiu a indústria petrolífera em muitas pequenas empresas privadas, um contrato aqui, um contrato ali. Há um número muito grande de empresas privadas, e as próprias empresas privadas têm subempreiteiros. O que acontece é que os trabalhadores se estão a tentar organizar transversalmente a estas dezenas de empresas, juntando-se na base de serem da mesma indústria. É muito significativo, muito promissor. Há uma série de páginas web de esquerda. De quando em quando bloqueiam-nas, e as pessoas que lá escrevem são presas. Mesmo assim, há uns meses, não agora, estava eu a ver uma dessas páginas, e ias-te surpreender com a quantidade de artigos de Michael Roberts traduzidos para o persa nessa página web.

Raquel Varela: Michael Roberts é um economista marxista. Ele também escreve regularmente para o Maio.

Yassamine Mather: É, pois é. Ias-te surpreender. Até lha mandei, porque queria que ele visse que os artigos dele estão publicados. Algumas destas páginas aceitaram o convite da Critique para falar em persa. Ou seja, eles não tiveram medo de aceitar um convite da Critique, mas obviamente que teriam medo se fosse organizado por uma organização de tipo marxista. Portanto, sim, há limitações ao que eles podem fazer. Nenhuma delas ocupa uma posição de direcção, mas o que eu quero dizer, em suma, é que a esquerda não está morta. Há movimento operário, há movimento intelectual. A página a que me referi é uma de três ou quatro. Tenho mais contacto com uma delas. Chama-se Critique of Political Economy. Não copiaram de nós. Já se chamavam assim antes. Portanto, há vida.

Raquel Varela: Há vida. E onde há vida, há esperança, evidentemente. Nós, na esquerda crítica, na tradição da oposição de esquerda, temos tido que haver-nos com o campismo, que é a ideia de que, especialmente depois da invasão russa da Ucrânia, é preciso escolher entre a Rússia e os EUA, e apoiar os EUA é estar a apoiar os maiores e mais perigosos imperialistas do mundo. Apoiar os EUA é apoiar o imperialismo. Portanto, há como que uma divisão, e seria preciso apoiar a Rússia, digamos assim, porque embora não sendo a Rússia socialista, não sendo o Estado dos trabalhadores para os trabalhadores, sendo um Estado capitalista, com uma ditadura, se não apoiarmos a Rússia, ficamos sem quem nos defenda do imperialismo americano. Tem sido sempre assim, também na Venezuela, e agora também com o Irão. Achas que esta maneira de dividir não tem alternativa, ou há uma alternativa socialista, dos trabalhadores?

Yassamine Mather: Bom, eu acho que, felizmente, aquela gente que eu referi antes não tem ilusões sobre a Rússia e a China. Sim, havia muita gente, antes da agressão, antes do ataque dos EUA, que dizia, bom, se houver guerra, a Rússia vem socorrer-nos, ou então o que temos é de nos despacharmos com o desenvolvimento do nuclear. Precisamos de melhor desenvolvimento nuclear. A Rússia ajuda, a China ajuda. Mas é claro, como se viu na guerra dos doze dias, em Junho de 2025, quando Israel e, depois, os EUA atacaram, claro que a China e a Rússia não quiseram nada com a guerra. A Rússia tem tão boas relações com Israel como com o Irão. Mais, a Rússia e Putin têm melhores relações com Israel do que com muitos outros países. Lembro-me de ele ter afirmado uma vez que Israel era o segundo maior país de língua russa do mundo, o que, aliás, não é verdade, a Ucrânia é maior, assim como muitos outros países. Até a Alemanha, na Europa, é maior. Mas isto era ele a tentar cair nas boas graças de Israel. A ideia é um disparate. No entanto, política e economicamente, a Rússia tem relações muito estreitas com Israel. Emite declarações em tempos de guerra, mas não é aliada do Irão e não fará nada pelo Irão. Mas, também, como é que se vai procurar apoio a um país cujos marxistas são presos, onde não se pode criticar Putin, onde Putin está no poder por causa dos oligarcas, do FSB e das forças de segurança? Portanto, se ter ilusões sobre a ex-União Soviética era terrível, ter ilusões em Putin é muito pior. Já a China, bem, a China está determinadíssima a ser uma potência ainda mais forte do que é. Nada disto a impede. Mesmo quando compra petróleo iraniano a baixo preço, não incorre em risco de sanções ou outro. Fá-lo às escondidas, para a economia não ser afectada. Sim, há um acordo económico entre a China e o Irão, mas não é melhor nem diferente do acordo que a China tem com a Arábia Saudita. A China não se vai pôr do lado do Irão só porque tem um acordo com o Irão. Mas também me parece que quem tem ilusões quanto à China se esquece, até certo ponto, por a China estar em ascensão, de que ela não anda longe de ser uma potência imperialista. Ao dizer isto, bem, tu e eu estamos na Critique, somos críticos, tenho de ter muito cuidado quanto aos nomes que dou às coisas, mas a China tem tendências imperialistas. A China, o governo chinês, a economia chinesa que lá quer chegar, tem-se portado com generosidade relativamente a empréstimos. As taxas de juro dos empréstimos chineses são melhores do que as do FMI, por exemplo. Mas as condições que impõe aos empréstimos são drásticas. 99 anos num porto que a China constrói? Exigir períodos de um século de compromisso com a economia de um dado país para lhe conceder um empréstimo! Não podemos, portanto, vê-la como uma espécie de benfeitora do Sul Global. Está a tentar lucrar com o Sul Global, mas podendo dar-se ao luxo de parecer mais simpática. Nem sequer estou a tentar fazer uma análise marxista da economia da China, porque não sei. Estou a dizer o que pressinto.

Raquel Varela: Só para os nossos leitores compreenderem: o nosso debate na Critique, que é um debate que decorre em várias organizações marxistas pelo mundo fora e na esquerda em geral, é para perceber se a China é um país imperialista ou não, se há uma diferença entre o seu Estado e a sua economia e a sua relação política com os trabalhadores e, ao mesmo tempo, se a China está ou não aberta ao comércio mundial no sentido em que outros Estados capitalistas estão. Infelizmente, não temos tempo para analisar que tipo de Estado é a China. O Michael Roberts tem um debate muito bom sobre isso.

Mencionaste o Irão. Não sabemos bem se o Irão sobreviverá com o regime actual, ou mesmo como país, mas estamos a falar de um país de 93 milhões de pessoas. Que sociologia é a deste país? Quanto desemprego há? É um país de jovens. Uma coisa é usar drones para matar, como os EUA e Israel agora fazem, outra coisa é derrotar 93 milhões de pessoas com uma ocupação; isso não faz parte do programa dos EUA.

No Irão, a percentagem de pessoas com formação universitária é muito alta. Mas a maioria está desempregada. Mais de 33%, diz-se

Yassamine Mather: Tens toda a razão, os EUA não podem fazer isso. Qual é então o plano de Israel, e talvez dos EUA? O Irão é composto por muitas nacionalidades. Não me vou pôr a dar números, mas os curdos, por exemplo, são uma parte grande da população. Há também azeris. As duas províncias do Norte do Irão chamam-se Azerbaijão Oriental e Azerbaijão Ocidental. Falam uma língua túrquica, diferente da de Teerão. Depois há os árabes do Sul do Irão. Têm parentes no Iraque ou no Qatar ou noutro sítio, mas são iranianos árabes. No Irão Oriental há os baluchis, junto à fronteira com o Afeganistão. Há turcomanos, mais próximos talvez da Geórgia, do Turquemenistão, no Norte do Irão. O plano de Israel é criar divisões para criar separações. Em vez dos actuais 93 milhões, ficava-se com um Curdistão iraniano independente, um Azerbaijão independente. Por falar nisso, Israel tem trabalhado muito de perto com a República do Azerbaijão para fomentar o separatismo. Até agora, não tem sido bem sucedido, a não ser com um segmento da oposição curda. E é assim porque toda a gente vê que as separações não têm servido para nada. É olhar para o Iraque, por exemplo: as autoridades curdas não se têm saído melhor do que o resto do Iraque. Tudo subdesenvolvido e em péssimas condições: Estados falidos, no fundo. Mas eles tentam, há dinheiro metido na separação. Sei que os EUA estão metidos no separatismo baluchi. A ideia está lá. Ao nível do desemprego: no Irão, a percentagem de pessoas com formação universitária é muito alta. Mas a maioria delas, uma percentagem muito grande, está desempregada. Mais de 33% desempregados, diz-se. E quem tem emprego não está empregado nos estudos que fez. É provável que trabalhe no sector informal. O Irão tem uma coisa parecida com a Uber, chamada Snap. Motoristas da Uber, motoristas do Uber Eats. A Snap Eats é como a Snap. Salários baixíssimos. A moeda desvaloriza-se, as pessoas empobrecem. Esta é a situação.

Raquel Varela: Uma última pergunta. O que hão-de fazer as organizações dos nossos países, dos países ocidentais? Sindicatos, organizações, partidos políticos, associações, o que havemos de fazer?

Yassamine Mather: Parece-me que somos precisos todos. Eu também vivo na Grã-Bretanha, é lá que tenho de lutar. Temos de ser derrotistas revolucionários. Temos de apelar à derrota dos Estados Unidos e do Reino Unido. Talvez Portugal não esteja directamente comprometido.

Raquel Varela: Não, não, está totalmente comprometido, a grande base militar dos Açores é essencial para a manutenção dos aviões militares americanos.

Yassamine Mather: Então pronto, temos de apelar à derrota dos nossos países imperialistas. Não há nem “ses” nem “mas”. Que havemos de fazer? Como sindicalistas, parece-me que podemos chamar ao boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel, porque é Israel que está a desempenhar este terrível papel no Médio Oriente. Gaza não é uma questão apenas da Palestina. É impedir que Israel e os Estados Unidos destruam toda a região do Médio Oriente com as suas políticas exploradoras. Os sindicalistas podem bater-se por isso. Tenho visto sindicalistas a impedir o carregamento de armas com destino a Israel. São coisas que podemos fazer, que são muito importantes. Enviar informação deste género aos povos do Irão, da Palestina, ajuda a levantar-lhes o moral, mas é também eficaz em si mesmo, porque é fazer algo com efeito prático.

Raquel Varela: Pois, vimos a coragem dos trabalhadores portuários de Génova e de Gotemburgo que impediram o envio de armas para Israel e boicotaram os países que apoiam estas guerras. Podes explicar essa ideia de derrotismo revolucionário?

Yassamine Mather: Acho que foi o nosso bom velho Lenine que se saiu com ela. Creio que no contexto da Primeira Guerra Mundial. Dizia ele que eles deviam querer a derrota do Império Russo, e os social-democratas e comunistas alemães deviam querer a derrota da Alemanha. Portanto, para os países imperialistas, é simples. Queremos que eles saiam derrotados. Querer a derrota do nosso próprio país. É revolucionário, porque o habitual é ser patriota e defendê-lo.

Raquel Varela: Pois, transformar o mundo imperialista numa guerra de classes, em que estaríamos ao lado dos trabalhadores de todo o mundo contra os nossos próprios Estados. E temos de começar pelo nosso próprio Estado. Yassamine, muito obrigada por esta entrevista. Em nome de todos nós, do Maio, por nos teres ajudado a compreender muito melhor estes acontecimentos.

Yassamine Mather: Muito obrigada por me convidares. As perguntas foram muito boas. Espero ter feito jus a algumas.


Tradução: Adriano Zilhão

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