Guerra

Premissas económicas para a paz
categoria-internacional Guerra Rússia edicao-2026-01-08 (10)

Premissas económicas para a paz

Ao avaliar, no final de 2025, a situação económica na Rússia, Ekaterina Shulman, considerada agente do estrangeiro, sugeriu que o país estava a ficar sem dinheiro e sem pessoas. E, de facto, tudo indica que alguma coisa está a acabar. Mas o dinheiro não é com certeza. Ao Estado nunca se acaba o dinh

Boris Kagarlitski
Sob cada uniforme de soldado há um operário
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Internacionalismo

Sob cada uniforme de soldado há um operário

Durante a II Guerra Mundial, na França ocupada pelos nazis, militantes trotskistas no arsenal da Marinha alemã em Brest criaram uma célula comunista dentro do Exército Alemão para publicar um jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado).

Anísio G. Homem
Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Rússia Ucrânia

Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky

Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia, defende Felipe Alegria.

Filipe Alegria
Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”
categoria-dossier: Guerra e resistência Golpe Guerra Venezuela

Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”

Quase nada de novo existe na agressão contra a Venezuela. O intervencionismo norte-americano na América Latina vem de longe.

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O inimigo dentro de portas
categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Rússia União Europeia Venezuela edicao-2026-01-08 (10)

O inimigo dentro de portas

A EU, em conivência com Zelenski, faz campanha não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO.

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Cortes sociais, investimento na guerra: trabalhadores italianos combatem orçamento de Meloni
categoria-internacional Greve Guerra edicao-2025-12-05 (07)

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Há uma nova vaga de mobilizações em Itália contra o orçamento de guerra do governo e em solidariedade com o povo palestiniano.

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Canhões ou manteiga? Michael Roberts
categoria-opinião Guerra NATO Portugal Rearmarmento

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A lógica da guerra infinita como estratégia de governo
categoria-internacional Acumulação Primitiva Guerra Imperialismo Palestina Racismo Reprodução Social edicao-2025-11-06 (03)

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Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza é compreender as estruturas que naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo...

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"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"
categoria-internacional Guerra Palestina edicao-2025-10-23 (02)

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O ativista e investigador palestiniano refere, , que o reconhecimento de um Estado palestiniano pela França é, acima de tudo, marketing político.

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As pensões na mira da “roleta da especulação” do capital financeiro e da guerra​
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O governo AD pretende “reformar” a segurança social em três pontos fundamentais: redução da taxa contributiva global com vista a reduzir os custos do trabalho para o empregador...

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10 de Junho - O grande Camões não tem culpa Mário Tomé
categoria-opinião Guerra Paz Serviço Militar Obrigatório edicao-2025-10-16 (01)

10 de Junho - O grande Camões não tem culpa

O povo trabalhador, o proletariado moderno do nosso país, tem de exigir, contra os heróis com o sangue dos outros, travar a despesa armamentista ...

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condicionadores condicionados
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Rui Pereira
categoria-internacional Guerra Rússia edicao-2026-01-08 (10)

Premissas económicas para a paz

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Ao avaliar, no final de 2025, a situação económica na Rússia, Ekaterina Shulman, considerada agente do estrangeiro, sugeriu que o país estava a ficar sem dinheiro e sem pessoas. E, de facto, tudo indica que alguma coisa está a acabar. Mas o dinheiro não é com certeza. Ao Estado nunca se acaba o dinheiro.

É uma particularidade do pensamento dos especialistas liberais tudo reduzirem ao dinheiro. Ora, o dinheiro não passa de um instrumento que ajuda a redistribuir outros recursos. Claro que, se irrefletidamente criado, ele deprecia-se. Sabemos de épocas em que até o ouro e a prata se desvalorizaram. Não obstante, a questão fundamental é: que recursos; e: como se distribuem eles através da despesa pública. Ora, esses recursos são sempre limitados (é nisso, aliás, que consiste a essência da economia, a ciência de trabalhar com recursos limitados), o eles acabarem é uma sua propriedade intrínseca.

As pessoas, a reserva de efetivos tanto para a guerra como para a produção, são também um recurso — e são um recurso extremamente limitado. Já lá vai, e há muito, o tempo em que se podia partir do princípio, tal como o fazia o oficial russo do século XVIII, de que “as mulheres parem mais”. Não são menores, porém, os problemas que, em tempo de guerra, se manifestam noutros recursos: metais, combustíveis, energia elétrica, capacidade ferroviária, equipamento que tende para a obsolescência e se desgasta, etc. O resultado de uma campanha militar depende, em boa medida, da forma como todos esses recursos são distribuídos.

O famoso economista soviético Y. V. Yaremenko fez notar, ao desenvolver a noção da economia multiníveis, que a diferença também está na qualidade dos recursos. Assim como o metal pode ser bom ou nem tanto, também os especialistas podem ser altamente qualificados ou não muito competentes. Na URSS, o complexo militar-industrial absorvia todos os melhores recursos de forma ilimitada. Os demais sectores da economia viam-se obrigados a compensar a falta de qualidade com quantidade. E quanto menor a prioridade do sector, pior a situação.


As pessoas, a reserva de efetivos tanto para a guerra como para a produção, são também um recurso — e são um recurso extremamente limitado

Voltando à questão dos recursos humanos, vê-se que, sendo esse o método, a produção civil começa a sofrer de uma escassez crónica de pessoal, mesmo que pareça haver gente suficiente. No fim de contas, os melhores especialistas são necessários precisamente onde faltam recursos e onde eles, com a sua inteligência, talento e experiência, podem corrigir a situação, imaginar maneiras de se desenvencilhar, inventar algo novo. Porém, passa-se exatamente o contrário. Com as melhores cabeças técnicas já concentradas na indústria militar, os restantes sectores têm de viver de migalhas.

O problema é que a crise crescente da produção civil começa a afetar a economia como um todo, espalhando-se de baixo para cima. Os trabalhadores do complexo militar-industrial também precisam de comprar roupa e ovos, de levar os filhos às creches e escolas, de se tratar nas clínicas, etc. Os dirigentes do país estão cientes do problema, mas é aí que surgem as dificuldades com o dinheiro. Verifica-se, no mais, que tais dificuldades são ainda maiores na economia de capitalismo de mercado russa do que eram na economia de planeamento administrativo da URSS.

Como já se disse, os economistas liberais — não sendo exceção os que trabalham para o Estado — veem todos os problemas como problemas monetários e resolvem-nos em consonância. Em condições “normais”, a coisa funciona mais ou menos, mas, em condições de crise, não. O que distingue, com efeito, as situações de crise é que, nelas, os métodos habituais não só não produzem o efeito esperado, como muitas vezes ainda agravam a situação. A própria especificidade da crise atual é que as autoridades económicas se preocupam (em total conformidade com a doutrina da gestão financeira) não só em cobrir o défice objetivo de recursos — que, no mais, não irá desaparecer — , injetando fundos adicionais, mas também em manter o financiamento de sectores e projetos prioritários, combinando-o com uma austeridade rigorosa e uma política fiscal ainda mais rigorosa, na tentativa de conter o aumento dos preços e equilibrar o orçamento. O principal resultado desta maneira de fazer é os desequilíbrios económicos e sociais intensificarem-se.

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A teoria monetária moderna (TMM) alternativa à teoria liberal clássica é muitíssimo mais tolerante com a impressão de dinheiro, não divisando grande desastre no aumento do défice orçamental — que, no final de 2025, já ultrapassava os quatro biliões de rublos. Um matiz importante é, contudo, que os teóricos da TMM propõem que o dinheiro adicional vá para onde há recursos inativos que, graças ao financiamento estatal, possam ser postos em movimento. Por exemplo, jazigos minerais conhecidos para os quais não há investidores. Ou um número grande de desempregados, que possam ser ocupados em trabalhos socialmente úteis. A situação em que nos encontramos é, porém, o contrário disto. O Banco Central e o Ministério das Finanças estão a pôr dinheiro não onde há potencial de recursos, mas onde já não há recursos disponíveis. Que não vão aparecer só por se aumentar o financiamento. O metal não se funde sozinho, e os soldados não crescem de debaixo da terra, por muito que a semeiem com dentes de dragão como fizeram os heróis do mito antigo.

Há, além disso, um outro recurso limitado: o tempo. Só Deus o tem infinitamente — e para isso é preciso que ele exista. Para os mortais, o tempo não só é um recurso limitado, como não é renovável. Por outras palavras, erros cometidos antes e oportunidades perdidas costumam tornar impossível recuperá-lo. Na primavera e no verão de 2024, quando parecia que a economia nacional não se estava a dar nada mal com as sanções nem com o fardo das despesas militares, era possível tomar medidas de racionamento dos recursos, protegendo o sector civil da escassez e o sistema financeiro do aumento espontâneo dos preços. Mas para quê, se, nessa altura, tudo estava, em princípio, a correr bem sem nada disso? Ainda por cima, se se alcançasse um acordo de paz entre o outono de 2024 e a primavera de 2025, como muitos esperavam, as dificuldades temporárias não chegariam provavelmente a transformar-se em crise aberta. Só que esse momento já lá vai. A escassez de recursos agudizou-se, tomando, para o poder, a forma de défice monetário crítico. Continuar a aumentar o financiamento de sectores e programas prioritários só fará que os desequilíbrios se aprofundem ainda mais, o sistema monetário se desequilibre definitivamente e a crise social se aprofunde quando sectores inteiros da economia e grupos sociais reduzidos a rações míseras não conseguirem sequer garantir minimamente o nível necessário de investimentos para a sua própria reprodução.

A situação é perfeitamente reconhecida pelas autoridades e, por isso, a vontade de paz dos círculos dominantes aumenta na proporção direta do agravamento da crise. Só que o problema não se reduz a que o agravamento da crise irá inevitavelmente exigir que os recursos voltem a ser redistribuídos para os sectores civis; surgirão igualmente questões políticas e ideológicas que só podem continuar a ser sacudidas enquanto as hostilidades continuam. Além disso, tal redistribuição implicará uma série de decisões difíceis. Poderá ser feita por métodos de mercado ou administrativos, de forma mais ou menos eficaz — em qualquer dos casos, ela já hoje é incompatível com a intensificação do esforço militar. E mesmo que tudo seja feito de forma competente, é inevitável que surjam inúmeras dificuldades e conflitos ao longo do processo. A compreensão disso por parte dos detentores do poder também contribui para a tendência para deixar tudo como está por algum tempo, sem tomar medidas irreversíveis. No entanto, adiar decisões para um futuro indefinido não só não facilita a escolha, como agrava problemas existentes.

Em última análise, as autoridades terão de tomar decisões políticas. Talvez então se possa pôr um ponto final.


1 Esta nota acompanha o artigo de Boris Kagarlitski, que está preso, acusado de ser um “agente do estrangeiro” por ter criticado a “operação especial” do Kremlin na Ucrânia.


Publicado originalmente em Рабкор (Rabkor, Correspondência dos Trabalhadores). Tradução de Adriano Zilhão.

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Sob cada uniforme de soldado há um operário

Durante a II Guerra Mundial, na França ocupada pelos nazis, militantes trotskistas no arsenal da Marinha alemã em Brest criaram uma célula comunista dentro do Exército Alemão para publicar um jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado). Muitos pagaram com a vida o arrojo internacionalista.

Durante a primeira grande guerra imperialista mundial, iniciada em 1914, a direção da II Internacional, capitaneada pelos social-democratas alemães, aderiu em cada país ao patriotismo bélico inoculado pelas grandes burguesias das suas nações, atrelando-se assim de corpo e alma às disputas militares pelo controle do mercado mundial.

Esses dirigentes, alguns deles notáveis figuras que se reivindicavam do marxismo, mesmo depois de conferências mundiais, como a de Basileia em 1912, onde juraram enfrentar a ameaça da iminente guerra capitalista com greves gerais e revoluções, passaram a defender que a Internacional era “essencialmente um instrumento para a paz” e “não uma ferramenta eficiente para tempos de guerra”, decretando a “suspensão” da validade do grande lema do Manifesto Comunista: “Proletários do mundo, uní-vos.”

Essa capitulação desavergonhada denunciada por Lenine, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Karl Liebknecht e outros, facilitou aos capitalistas usarem a classe trabalhadora de cada país como mão de obra armada e carne para canhão ao serviço de grandes grupos económicos que disputavam territórios para as suas mercadorias e capitais. Os trabalhadores matavam-se uns aos outros, aos milhões, pela ampliação dos lucros da sua burguesia nacional imperialista. Era o que Lenine apelidou de política social-chauvinista.

A Revolução Russa, dirigida pelo Partido Bolchevique, reacendeu as chamas e fez renascer o internacionalismo proletário, resultando na fundação da Internacional Comunista, ou III Internacional, em 1919. A Revolução Russa e a reanimação de um sentimento de solidariedade internacional do proletariado fez soar o alerta dos riscos para as burguesias beligerantes, o que precipitou o fim da guerra, antes que a situação derivasse para uma sublevação revolucionária generalizada da classe trabalhadora.

O advento da segunda guerra mundial imperialista, em 1939, pôs à prova, mais uma vez, aqueles que se declaravam a direção mundial do proletariado. Desta feita coube à Internacional Comunista, agora sob o controle de Estaline e da burocracia que se apropriou do poder político na União Soviética, sucumbir diante de um novo conflito necessário para o capitalismo. Para os capitalistas, era incontornável responder com uma nova redivisão económica do planeta diante do aumento da capacidade crescente das forças produtivas e a contradição com a camisa de forças de um mercado mundial incapaz de absorver esse possível crescimento da produção se mantida a lógica do lucro e constrangimento das fronteiras nacionais. Lenine já tinha alertado no seu livro O imperialismo, fase superior do capitalismo, para a tendência de expansão dos monopólios e para o facto de que esse período seria marcado por crise permanente do capital em declínio, gerando uma sucessão de “guerras e revoluções”.

Hoje, há uma associação que preserva a memória destes combatentes socialistas, incluindo militantes e historiadores franceses e alemães.

Depois de acordos com Hitler, Estaline, traído pelo “Führer”, que invadiu a União Soviética em 1941, adotou como orientação para os partidos comunistas do mundo todo a aliança com as suas burguesias democráticas contra o nazismo. Mais uma vez estava suspensa a fórmula do Manifesto Comunista de Marx e Engels de unidade mundial da classe trabalhadora, alistando o proletariado nos exércitos dos seus opressores para se matarem uns aos outros em nome da pátria. O social-chauvinismo da Primeira Guerra tinha sucessores.

Sempre ressabiada com os perigos de qualquer traço, por mínimo que fosse, de internacionalismo proletário nas circunstâncias de instabilidades sociais de uma guerra, a burguesia imperialista “democrática” viu com bons olhos Estaline decretar unilateralmente, em 1943, o fim da Internacional Comunista.

O trabalho de confraternização internacionalista dentro do exército alemão

É neste contexto que a decisão dos trotskistas de criarem, em 1943, na França ocupada pelos nazis, no arsenal da Marinha alemã, em Brest, uma célula comunista dentro do Exército Alemão e publicar um pequeno e precário jornal clandestino chamado Arbeiter und Soldat (Operário e Soldado) para distribuir mensalmente (quando possível) entre esses soldados, é um ato de lealdade de consciência ao internacionalismo proletário, de luta contra a guerra e a exploração capitalista.

Num artigo publicado no n.º 2 do Arbeiter und Soldat, de agosto de 1943, quando o regime nazi já cambaleava perante a derrota em Estalinegrado, um trecho demonstra bem o tipo de mensagem de classe que o jornal procurava passar àqueles trabalhadores enfiados em uniformes:

“Já passou da hora de os capitalistas anglo-americanos se prepararem para salvar o capital alemão e europeu. Por mais fervorosamente que os membros da alta finança guerreiem entre si com o sangue dos trabalhadores, eles ajudar-se-ão mútua e fraternalmente quando o sagrado direito à propriedade e à exploração capitalista for questionado. Esses senhores sabem como as revoluções operárias podem ser contagiosas, hoje mais do que nunca.”

E o que se passou depois do fim da segunda guerra imperialista senão os acordos de Ialta e Potsdam, onde os chefes imperialistas vitoriosos – junto com Estaline – tudo fizeram para preservar o predomínio do capitalismo, inclusive salvaguardando interesses económicos dos grandes grupos industriais da Alemanha?

A célula trotskista que organizava a publicação e distribuição do Arbeiter und Soldat foi desbaratada em 1944, com membros fuzilados e enviados para campos de concentração.

Hoje, há uma associação que preserva a memória destes combatentes socialistas, incluindo militantes e historiadores franceses e alemães. Eles publicam materiais de valor inestimável para a preservação da luta pelo internacionalismo proletário que podem ser acedidos pelo link https://arbeiter-und-soldat.org/de/publikationen.

Neste momento da conjuntura mundial, onde os gastos militares, o incremento sem amarras da indústria bélica, as guerras em curso e as que estão a ser anunciadas são apresentados como soluções para a expansão dos lucros capitalistas à custa de maior empobrecimento e exploração dos trabalhadores e da juventude, a pergunta que devemos fazer, espelhando-nos em exemplos como os de Brest, é: como construir a unidade mundial dos trabalhadores contra a guerra e a exploração? Como forjar a internacional operária necessária para revolucionariamente acabar com a propriedade privada dos grandes meios de produção e derrotar os inimigos de classe?

categoria-dossier: Guerra e resistência Guerra Rússia Ucrânia

Porquê a classe trabalhadora deve apoiar a Ucrânia contra a invasão imperialista russa, apesar dos EUA e de Zelensky

Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia, defende Felipe Alegria.

A intervenção de potências imperialistas rivais nos conflitos e guerras dos países semicoloniais é um facto presente desde o surgimento do imperialismo e hoje apresenta-se de forma cada vez mais acentuada. Ninguém pode negar a intensa intervenção indireta dos EUA e da UE na guerra da Ucrânia, bem como o carácter pró-imperialista e anti-operário do governo Zelensky. No entanto, isso não elimina o aspeto central: estamos perante uma guerra de agressão nacional do imperialismo russo, segunda potência militar do mundo, contra uma nação semicolonial, muito mais fraca, usando como ferramenta a violência e métodos de extrema crueldade. Uma guerra cujo objetivo é o controle de um país que é um enorme “celeiro”, tem uma localização geográfica fundamental para o trânsito energético e comercial da região e uma dimensão e recursos que o Kremlin precisa para o seu projeto da Grande Rússia.

Este facto define uma guerra justa por parte dos Ucranianos: uma guerra de libertação nacional contra um exército imperialista invasor. A intervenção indireta dos imperialismos norte-americano e europeu (sem esquecer o chinês), cada um com os seus próprios interesses, bem como a natureza pró-burguesa e pró-imperialista do governo Zelensky, devem ser tidas em conta para precisar a política, mas não alteram este facto substancial.

Não estamos perante uma guerra “por procuração”, uma guerra (inter)imperialista em que os EUA e a UE agiriam contra a Rússia através da Ucrânia. Para aqueles que defendem esta posição, não importa se a Ucrânia ou a Rússia triunfam, porque em ambos os casos um campo imperialista venceria e a classe trabalhadora e os povos ucraniano e russo perderiam sempre.

Contudo, apenas poderíamos definir a guerra atual na Ucrânia como imperialista, caso o comando militar efetivo passasse para as mãos dos EUA, com o controlo tecnológico completo e a necessária intervenção de tropas no terreno. Algo que não aconteceu e que é altamente improvável, justamente quando Trump quer obrigar Zelensky a aceitar as condições de Putin, em troca de dividir com este os recursos ucranianos e a exploração do Ártico, bem como afastar a Rússia da China.

Alguém acha que é possível desmascarar as intrigas e os enganos da NATO se não for a partir das trincheiras ucranianas?

A classe trabalhadora europeia deve apoiar o povo ucraniano na luta pela sua liberdade e integridade nacional, integrando esse apoio na luta por uma saída socialista para a Ucrânia e a Rússia e por uma Europa socialista; desmascarando e enfrentando, nesse processo, o governo Zelensky, o imperialismo norte-americano e a UE.

O apoio expressa-se, por exemplo, na organização de comboios de ajuda, como os enviados por sindicatos como o Solidaires (França), a CSP-Conlutas (Brasil), a Inicjatywa Pracownicza (Polónia), ou o STASA (Portugal), ao sindicato mineiro-metalúrgico de Kryvyi Rih (com muitos dos seus membros na frente de batalha), ou na campanha para que os lutadores classistas como Denys Matsola e Vlad Zhuravlev, presos na defesa de Mariupol, sejam incluídos nas listas de troca de prisioneiros de guerra. Significa também apoiar as grandes mobilizações que ocorreram contra a tentativa de Zelensky de controlar os organismos anticorrupção, bem como unir-se à repulsa generalizada do povo ucraniano às pretensões de Trump.

Os defensores da tese “Nem com Rússia, nem com a Ucrânia”, quando defendem a retirada das tropas russas da Ucrânia, não vão além de uma declaração verbal. Isto porque, para eles, não existe uma guerra justa de libertação nacional, mas sim uma “guerra reacionária” de ambos os lados, na qual os Ucranianos são meros “bancos de carne” dos EUA… que são amigos de Putin.

Por outro lado, alguém acha que é possível desmascarar as intrigas e os enganos da NATO se não for a partir das trincheiras ucranianas? Alguém considera que é possível combater Zelensky sem ser “os melhores soldados contra Putin”? O que dizem aos trabalhadores ucranianos, muitos deles na linha de frente: que não se deve combater o invasor porque ambos os campos bélicos são reacionários e que eles não passam de fantoches dos EUA e da UE?

O resultado da guerra dependerá da força da resistência da classe trabalhadora e do povo ucraniano ao seu governo pró-imperialista e à pilhagem russa, norte-americana e europeia. Também dependerá disso o impulso da luta da classe trabalhadora e dos povos da Federação Russa e da sua periferia.

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Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”

Quase nada de novo existe na agressão contra a Venezuela. O intervencionismo norte-americano na América Latina vem de longe.

Uma Venezuela cercada pela maior frota naval norte-americana deslocada para o mar das Caraíbas, sem que possa predizer-se com exatidão o que vai acontecer, constitui um valioso recordatório sobre a relação entre poder e indeterminação. Como bem teorizou Alain Badiou, a extensão do poder é diretamente proporcional à indeterminação com que procura exercer-se e forçar os seus limites. Quanto maior a indeterminação, quanto maior a dúvida sobre o seu alcance e a sua vontade, maior esse poder se torna.

Com Trump, pouco há de novo na política “hemisférica” da Casa Branca, mediante a reabilitação do arcaico direito feudal de “pernada” do velho Monroe, doutrinariamente lavrado em 1823. De um modo emblemático edificou-se, até, metonimicamente, a designação que funde um dos Estados do continente, os EUA, com a sua totalidade, “a América”.

Na sua fase historicamente mais recente este intervencionismo tem a sua génese em 1954 na “República das Bananas”, com o golpe contra o governo de Jacobo Arbenz, na Guatemala, ao serviço da United Fruits, a quem pertenceriam as plantações e os solos guatemaltecos. Este argumento reedita-se agora com uma das mais recentes declarações de Trump quando afirma que na Venezuela se trata de “recuperar”, sequestrando petroleiros “sancionados”, a propriedade norte-americana do petróleo venezuelano, “usurpado” pelo governo do país.

A Oeste quase nada de novo

Quase nada existe de novo na agressão contra a Venezuela. Nada que Cuba e os Cubanos desconheçam, enquanto vítimas de um dos maiores crimes de lesa-humanidade que continua placidamente a ser cometido com a continuada guerra económica que reduziu o país a uma pauperização tão indescritível quanto mal descrita e acusatoriamente voltada contra a revolução.

Nada de novo também, na ideia fundamental aplicada contra a Nicarágua sandinista nos anos 1980, quando se trocaram armas por dinheiro do narcotráfico (Oliver Norton e o Irão-Contra, lembramo-nos?), cujas perspetivas revolucionárias deviam ser afogadas por uma guerra de agressão em nome da “liberdade”.

Em suma, o “quase” neste nada de novo, no caso venezuelano, tem apenas a ver com os recursos naturais do país, dos mais ricos do mundo, que o situam no epicentro das guerras em curso por recursos.

Esse supremacismo reaparece no neo-colonial-imperialismo revestido não pelo termo ‘civilização’, mas pelos termos ‘democracia e direitos humanos.

Uma revolução bem-sucedida num dos países mais ricos do planeta não representaria apenas um mau exemplo para os restantes povos, como o constituído representado por Cuba ou pela Nicarágua. Poderia, ao invés, transformar a Venezuela numa potência regional poderosa, cujo “descontrolo” representaria uma enorme esperança e apoio para outros povos latino-americanos e não só. Por conseguinte, não existe qualquer inquietação com “a democracia” ou os “direitos humanos” dos Venezuelanos, fórmula que substituiu no discurso supremacista do Norte ocidental, as antigas e hoje insustentáveis bases argumentativas, de levar aos “selvagens” os méritos cristãos da “civilização”. Esse supremacismo reaparece, assim, no neo-colonial-imperialismo, revestido não pelo termo “civilização”, mas sim pelos termos “democracia e direitos humanos”.

As esquerdas e o conto do vigário

Desafortunadamente, não causa grande surpresa a adesão de várias esquerdas europeias ocidentais (e não só), a este argumento neo-imperial, sempre que, antes ou depois da crítica ao intervencionismo de Washington, tem de haver uma referência “ao regime de Maduro”.

Trata-se, aliás, a meu ver do mesmo “mas” a que essas mesmas esquerdas recorrem quando, a respeito de outras áreas internacionais e da geopolítica, tentam enquadrar-se sem maiores percalços nas dinâmicas de extrema-direitização das suas existências políticas nacionais.

O problema não parece, pois, um qualquer debate (legítimo) sobre o processo venezuelano iniciado com Chávez. Mas, como a classe de oportunismo que prodigaliza uma suave cumplicidade pós-moderna com as políticas imperiais, travestida de um discurso de “esquerda linha branca”, passível de ser encontrado a propósito de cada esquina mais agreste do mundo dos nossos dias. Como se em causa estivessem as escolhas dos Venezuelanos e não o novel e agressivo supremacismo imperial.

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O inimigo dentro de portas

A EU, em conivência com Zelenski, faz campanha não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO.

A guerra é um momento de verdade para os Estados, que são os seus protagonistas essenciais, mas também para os indivíduos, que, na sua origem e decurso, são os seus potenciais algozes e vítimas. A minha tese principal consiste em afirmar que a União Europeia se transformou no principal inimigo dos Estados europeus e sobretudo da vida e da fazenda dos cidadãos europeus. E é a guerra da Ucrânia a grande prova de fogo que serve de demonstração a esta tese.

É verdade que até Josep Borrell, Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança (2019-2024), afirmou em final de outubro de 2024, que com a cumplicidade ativa da UE no genocídio praticado pelo Estado de Israel contra o povo palestiniano em Gaza, o projeto iniciado por Jean Monnet “perdeu a sua alma”. Contudo, essa queda da UE no espesso lodo da moral pública, começou muito antes, tendo-se revelado com a guerra da Ucrânia e as suas raízes. Compreender a historicidade e multidimensionalidade desse processo é indispensável para perceber os motivos que me levam a sustentar que atualmente a principal ameaça existencial aos povos europeus não reside na Rússia nem nos EUA, mas sim no colapso cognitivo e na furiosa russofobia dos órgãos supremos da UE. Vejamos os principais argumentos demonstrativos.

Primeiro. A UE, com uma responsabilidade especial para a Alemanha, confundiu-se crescentemente com a NATO, sendo cúmplice ativa da tentativa dos EUA de, depois da dissolução da URSS, manter a Rússia à margem de um novo e indivisível sistema de segurança europeia. De 1990, ano da falsa promessa de não alargamento da NATO para Leste, até 24-02-2022, data da invasão russa da Ucrânia, temos três décadas de sucessivas tentativas de marginalizar as “garantias de segurança” da Rússia, explorando todas as vias para fomentar a fragmentação e a dissensão dentro e fora das fronteiras desse país. Isso continua bem vivo, já depois da 2022, na manutenção do objetivo declarado da UE de infligir uma “derrota estratégica” a Moscovo, o que seria igual à fragmentação da Rússia em cinco ou seis Estados mais pequenos, como lembra, repetidamente, a atual chefe da diplomacia de Bruxelas, Kaja Kallas.

Segundo. Usando o direito internacional como desculpa para a autoflagelação estratégica, a UE, e em particular a Alemanha, enveredaram (depois de 2014 e 2022) por uma política de sanções contra a Rússia que se voltou contra os interesses da economia e da qualidade de vida dos Europeus, suportando o objetivo disruptivo dos EUA de destruir a cooperação mutuamente vantajosa entre a Rússia e a UE, contrariando todos os esforços diplomáticos para encontrar uma solução para o rápido fecho do conflito. O gigantesco financiamento do governo de Kiev, conhecido pelo tradicional e elevado nível de corrupção, foi feito sem escrutínio (ao contrário do que ocorreu no período da crise do euro com a vigilância da troika à política orçamental de Portugal, da Grécia e da Irlanda).

Como recompensa pelos seus bons serviços, talvez Paulo Rangel termine a sua carreira política como governador [de uns Açores tutelados pelos EUA].

Terceiro. A UE mergulhou os Europeus numa cortina de propaganda, com um controlo férreo das narrativas sobre a guerra. A imposição de uma mitologia simplificadora foi feita com a cumplicidade da maioria dos media convencionais e o entusiasmo colaborante de muitos académicos, manifestando também o desastroso crepúsculo da “imparcialidade homérica” e da lisura intelectual nas instituições de ensino superior europeias, que as deveriam defender incondicionalmente.

Quarto. Com uma economia destroçada pela dívida pública crescente, pela estagnação económica, e pelo “imposto Trump” de 5% do PIB europeu para garantir a compra de armas aos EUA, a UE entrou num processo de violação das regras do jogo dos mercados financeiros. A tentativa gorada de roubar os ativos russos, sobretudo em títulos de dívida dos Estados europeus, transformando-os em dinheiro oferecido a Kiev para o esforço de guerra, teve como resultado a consolidação de um sentimento de desconfiança dos mercados financeiros relativamente à UE. Não só aumenta a taxa de esforço da dívida dos Estados europeus como se expande o abandono do euro como moeda de reserva internacional.

Quinto. A Comissão Europeia tem governado por decreto. O Tratado da União Europeia e o Tratado de Funcionamento da União Europeia têm sido violentados com brutalidade, através de interpretações totalmente contrárias, tanto à letra como ao espírito, desses documentos para-constitucionais. Mais recentemente, o Conselho da União Europeia na área da política externa e de segurança tem violado grosseiramente os direitos humanos ao alargar a cidadãos europeus brutais sanções que os privam de acesso aos seus bens materiais e coartam o seu direito de circulação (Council Decision (CFSP) 2025/2572 of 15 December 2025. https://eur-lex.europa.eu/eli/dec/2025/2572/oj). Estamos a falar da transformação da liberdade de expressão em delito de opinião, abolindo a separação de poderes, e o direito à defesa num julgamento justo. A UE faz-nos regressar aos tempos anteriores à Magna Carta!

Sexto. O mais grave, contudo, é a campanha organizada pela UE, em conivência com Zelenski, não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO. Responsáveis políticos e militares têm indicado o período entre 2026 e 2030 como a janela provável para tal ocorrência. Como afirmou J. F. Kennedy, num discurso em Washington, em 10 de junho de 1963: “Acima de tudo, enquanto defendem os seus próprios interesses vitais, as potências nucleares devem evitar os confrontos que levam o adversário a optar entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear. Adotar esse tipo de atitude na era nuclear seria apenas uma prova da falência da nossa política – ou de um desejo coletivo de morte para o mundo.” Esquecer a mais importante lição da Guerra Fria, que é o princípio da Destruição Mútua Assegurada (MAD). Sustentar hoje que é possível travar uma guerra vitoriosa contra a maior potência nuclear do planeta é uma prova abominável do “desejo coletivo de morte para o mundo”, reinante em Bruxelas, que só poderá conduzir à destruição definitiva da Europa, incluindo o seu património e memória, varridos no inferno nuclear.

O sonho de paz com justiça da União Europeia há muito que foi raptado pela avidez e os caprichos de uma elite neoliberal para quem a democracia é um mero instrumento, só valioso quando o resultado é o mais conveniente (basta ver a doutrina de choque praticada durante a crise do euro). Mas desta vez é diferente. Os inimigos da vida e dos bens dos cidadãos europeus, com a cumplicidade da maioria dos governos nacionais, estão sentados na Comissão Europeia, no Conselho Europeu, no Conselho da União Europeia, no Parlamento Europeu. O seu niilismo ético só é ultrapassado pela sua profunda ignorância dos resultados de uma guerra levada ao extremo entre potências nucleares. Ursula von der Leyen, António Costa e Kaja Kallas são hoje o rosto de uma incompetente desmesura europeia que nos poderá condenar a todos à aniquilação.


PS. Escassas horas depois de ter escrito o texto acima, os EUA atacaram a Venezuela e raptaram o presidente Maduro e a sua mulher, levando-os para Nova Iorque. Maduro será julgado sob a acusação de liderar o narcotráfico para os EUA. Há ainda muitas dúvidas por esclarecer. A ausência de resistência dos sistemas aéreos e das tropas terrestres venezuelanas ao raide das forças especiais norte-americanas indicia a possibilidade de um acordo prévio, talvez através do suborno de uma parte da hierarquia militar. Nas questões essenciais, contudo, não restam dúvidas. Enquanto os soldados norte-americanos destruíam qualquer resistência (fala-se de 40 mortos, pelo menos), o presidente Trump indicava o petróleo como o motivo principal do ataque. A explicação mereceria um texto mais longo, mas as questões-chave são as seguintes: a) os EUA carecem de crude pesado (heavy crude oil) para as suas principais refinarias. Elas estão instaladas perto do Canadá (nos estados do Illinois e do Montana) e da Venezuela (nos estados da Luisiana e do Texas). Os outros grandes exportadores, Arábia Saudita e Rússia, estão envolvidos na construção dos BRICS e num novo sistema monetário internacional que rompa com os petrodólares (a obrigação de todas as compras de combustíveis fósseis serem efetuadas na moeda dos EUA). Este ataque dos EUA à Venezuela é um regresso ao imperialismo boçal, baseado na força militar e não no softpower do poderio económico e cultural, que passou a ser dominante após 1945. Trump fala como se a submissão da Venezuela estivesse completa, mas esse país não é o Panamá. Muito sangue irá ainda escorrer. O que é certo é a total inaceitabilidade desta ação bélica dos EUA à luz do direito internacional e do mais elementar respeito pela soberania dos Estados sobre os seus recursos naturais. Contudo, com a exceção da condenação espanhola, tanto a Comissão Europeia como os principais países europeus recusaram-se a condenar Trump, mostrando uma vergonhosa cumplicidade com ele. Porém, pelo que conheço, o cúmulo da desfaçatez pertence ao ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, que considerou “benigna” a intenção de Trump e chegou mesmo a aconselhar a Trump o nome de Edmundo González para futuro chefe de Estado em Caracas… É uma pena que Trump não o tenha escutado, pois estava ocupado a dizer que Corina Machado, a Nobel da Paz 2025, apesar de entusiasmada com a intervenção americana não tinha qualidades para esse cargo. Não tenho palavras para expressar a infelicidade que me assola por ver Portugal, além de encurralado numa UE enlouquecida, ser governado por quem prejudica os interesses nacionais e ofende o melhor da nossa herança histórica. Talvez o presidente Trump, depois de ter arrancado a Gronelândia à soberania dinamarquesa, também desembarque os seus marines em todas as ilhas da Região Autónoma dos Açores, declarando-as como um novo Porto Rico, um território tutelado por Washington. Nessa altura, como recompensa pelos seus bons serviços, talvez Paulo Rangel termine a sua carreira política como governador. Viver rodeado pelo Atlântico por todos os lados será o melhor habitat para um atlantista incondicional como o atual MNE.

categoria-internacional Greve Guerra edicao-2025-12-05 (07)

Cortes sociais, investimento na guerra: trabalhadores italianos combatem orçamento de Meloni

Há uma nova vaga de mobilizações em Itália contra o orçamento de guerra do governo e em solidariedade com o povo palestiniano.

ilustração: Pedro Páscoa

A palavra de ordem foi, mais uma vez, “bloquear tudo”. A greve geral de 28 de novembro, na passada sexta-feira, contra o rearmamento e a austeridade da primeira-ministra de extrema-direita, Giorgia Meloni, foi mais um episódio da crescente mobilização dos trabalhadores italianos e dos seus sindicatos. Esta greve geral junta-se a outras duas nos últimos dois meses, a de 22 de setembro e a de 3 de outubro, contra o genocídio do povo palestiniano às mãos do Estado de Israel. E mais greves virão.

O governo de Meloni tem sido cúmplice do genocídio do povo palestiniano ao fornecer armas e munições a Israel, ao se recusar a reconhecer o Estado palestiniano e a cortar laços diplomáticos ou comerciais com Telavive. Roma tem sido uma força de bloqueio na aplicação de sanções ao Estado de Israel, e por isso Meloni e dois dos seus ministros foram denunciados ao Tribunal Penal Internacional (TPI) por mais de 50 juristas palestinianos, organizados no grupo Juristas e Advogados pela Palestina.

Meloni mantém esta posição hipócrita enquanto assume a dianteira no apoio político, diplomático, militar e financeiro à Ucrânia, invadida pela Rússia, em nome da defesa da autodeterminação dos povos e do direito internacional. Dois pesos e duas medidas, como os líderes europeus já nos habituaram. O povo italiano, historicamente apoiante da causa palestiniana, está em oposição ferrenha à política militarista e genocida do seu governo. A linha que separa a humanidade e a decência da monstruosidade está a ser desenhada a sangue.

Daí que os trabalhadores italianos, em especial os estivadores, tenham avançado com duas greves gerais, em setembro e outubro, em apoio do povo palestiniano. Foram as greves gerais mais bem-sucedidas da história recente de Itália. Foram enormes mobilizações anti-guerra — as quais só têm equiparação com as manifestações contra a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003 — e espalharam-se a todo o país, não se limitaram aos redutos da esquerda italiana nem ao seu eleitorado.

A greve geral de 3 de outubro foi convocada pelas centrais sindicais CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho) e USB (União Sindical de Base), entre outras organizações, em resposta à intercepção israelita da flotilha Sumud, a 1 de outubro, e em solidariedade com o povo palestiniano, pelo fim do genocídio. Mobilizou dois milhões para as ruas italianas. Já a greve geral de setembro foi convocada por uma série de sindicatos de base e centrais sindicais mais pequenas, como a Confederação Unitária de Base (CUB), conseguindo mobilizar um milhão de pessoas.

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No entanto, a mobilização tinha “acalmado” um pouco no último mês, por causa de uma certa ilusão (ou expectativa) em torno do suposto “acordo de paz” de Donald Trump, mas o gatilho para mais uma greve geral não se fez esperar: a proposta de Orçamento do Estado de 2026. A sua linha mestra é bastante clara e simples: cortes no Estado Social para canalizar verbas para o rearmamento do país, cumprindo os 5% de investimento em defesa impostos pelos Estados Unidos, Bruxelas e NATO. É, em suma, um orçamento de guerra e de ataque aos direitos de quem trabalha quando os salários reais diminuem e o custo de vida não pára de aumentar.

A proposta orçamental retira milhares de milhões da saúde, da educação, das pensões e dos serviços locais para os canalizar para a indústria do armamento. Os trabalhadores são, assim, forçados a financiar o “esforço de guerra”. Mas há mais: o orçamento, à semelhança das intenções do Governo de Luís Montenegro com o seu pacote laboral, também vai aprofundar a precariedade, ao expandir o outsourcing, desregular a contratação e incentivar os patrões a substituir empregos estáveis por empregos de curto prazo e baixos salários. Vai acelerar a privatização de bens públicos essenciais, como infraestruturas e serviços, beneficiando os interesses empresariais e financeiros.

Como se não bastassem os ataques aos direitos mais elementares dos trabalhadores, a nova proposta orçamental também vai aumentar os recursos financeiros para as forças e serviços de segurança. Isto depois de, no início de junho, o governo ter conseguido aprovar no Senado uma lei repressiva que criminaliza protestos, aumenta os poderes da polícia e fortalece os mecanismos de controlo sobre a dissidência. A nova lei até permite aos agentes do Estado cometerem certos crimes em sua defesa, sem que sejam acusados e condenados. Tudo para reprimir a contestação social que o governo sabe que estas medidas vão causar.

A resposta dos sindicatos apenas poderia ser uma: greve geral. Ao contrário da greve geral de 3 de outubro, os sindicatos de base Cobas, USB, SGB, CUB e a central sindical CGIL não uniram esforços. Os sindicatos convocaram greve geral de 24 horas para 28 de novembro, na passada sexta-feira, enquanto a CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho), a maior central sindical institucional do país, o fez para 12 de dezembro, também sexta-feira.

"Gostaríamos que a CGIL também participasse, para repetir a grande e forte união de 3 de outubro. Mas os nossos apelos caíram em ouvidos moucos. A CGIL preferiu entrar em greve sozinha e fora de época, a 12 de dezembro, quando o processo de aprovação da lei orçamental estará finalizado", afirmou a confederação Cobas, citado pelo jornal italiano Il Fatto Quotidiano.

A greve geral de 28 de novembro avançou na mesma e mobilizou dezenas de milhares de trabalhadores nos sectores públicos e privados nos transportes, saúde, educação, administração pública e indústria. As viagens ferroviárias e áreas foram seriamente afetadas e pelo menos 26 voos foram cancelados. O caderno reivindicativo? Travão na aprovação do Orçamento do Estado, investimento no Estado Social, reforço da lei laboral em prol dos trabalhadores, a não privatização de empresas públicas de energia, correios, telecomunicações, transporte público, saneamento ambiental, saúde e educação, a revogação da lei de segurança nacional, entre outras.

“Queremos pelo menos 2000 euros de salário base, reforma até aos 62 anos, fim da subcontratação, redução do horário de trabalho sem perda salarial, direitos à habitação garantidos, novas contratações no setor público e cuidados de saúde públicos universais e gratuitos”, afirmou, em comunicado, a USB. “Estas são necessidades urgentes num país exausto, necessidades incompatíveis com o belicismo do governo.”


Os líderes europeus veem na ameaça da guerra uma oportunidade económica e aproveitam-na para justificar a sua contrarrevolução social.

E, em mais um exemplo de como a mobilização dos trabalhadores interliga a solidariedade com o povo palestiniano e a oposição ao militarismo europeu, milhares de pessoas marcharam, no sábado, 29 de novembro, pelas ruas de Roma contra o genocídio. A marcha, organizada pela USB, foi encabeçada pela relatora especial das Nações Unidas Francesca Albanese, pela ativista Greta Thunberg e pelo ativista Thiago Ávila.

“Receio que o genocídio vá continuar, graças ao silenciamento da verdade”, avisou Albanese. “Mais de 50% da Faixa de Gaza está ocupada por tanques israelitas”, recordou a relatora especial, salientando que na Cisjordânia mais de 1200 palestinianos já foram mortos desde 7 de outubro de 2023. “Itália e União Europeia devem parar de transferir armas, realizar exercícios militares com Israel e de comercializar tecnologias que possam alimentar os crimes em curso.”

O próximo grande embate será a 12 de dezembro, mas o mês de dezembro está pejado de protestos e greves, mais um sinal da enorme e significativa mobilização da classe trabalhadora em Itália. Na segunda-feira passada, os trabalhadores do sector dos transportes da Sicília pararam entre as 10h30 e as 14h30. No dia 9 de dezembro, o sector público de Roma entrará em greve por 24 horas e todo o sector marítimo italiano por 48 horas, até 11 de dezembro. Depois, a 17 de dezembro, os controladores do tráfego, trabalhadores das companhias aéreas e dos aeroportos farão greve parcial entre as 13h e as 17h. E, por fim, a 22 de dezembro, mais uma greve, desta vez de 72 horas, no sector de logística.

A mobilização dos trabalhadores não se restringe a Itália. Na Bélgica, os sindicatos organizaram uma greve geral no dia 26 de novembro contra os cortes nas pensões e a redução dos benefícios sociais impostos pelo governo, enquanto aumentam os gastos na indústria da guerra. E a 11 de dezembro será a vez de os trabalhadores portugueses saírem à rua contra o pacote laboral do Governo de Montenegro, a primeira greve geral convocada em conjunto pela CGTP e a UGT desde 2013.

Não há dúvida de que todos estes protestos são um sinal da crescente mobilização das classes trabalhadoras europeias em oposição a uma crise mais alargada, seja dos regimes democrático-liberais seja do próprio capitalismo – e ainda estamos para ver como rebentará a brutal bolha financeira da Inteligência Artificial. Depois da pandemia de Covid-19 e da injeção de milhares de milhões de euros na economia, colmatando uma carência brutal de investimento público ao longo de dez anos, os governos europeus apostam agora no rearmamento para a economia continuar a girar. Fazem-no como sempre fizeram: pondo os trabalhadores a arcar com os prejuízos e os sacrifícios, seja nas empresas seja nas casernas, com a reintrodução de novas modalidades de serviços militares obrigatórios.

Os líderes europeus veem na ameaça da guerra uma oportunidade económica e aproveitam-na para justificar a sua contrarrevolução social. E já sabemos como será tratado quem se lhes opuser e os denunciar: será apelidado de putinista, de colaboracionista, de lacaio de Vladimir Putin, de traidor e antipatriota. Assim seja.

categoria-opinião Guerra NATO Portugal Rearmarmento

Canhões ou manteiga?

O presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Armindo Monteiro, afirmou que, preparando-se os países da NATO para aumentar a despesa em matéria de defesa até 5% dos PIBs nacionais, Portugal devia converter algumas das suas fábricas à produção de armas. “Por que não dedicar a capacidade [do sector automóvel] à produção militar?”, questionou Monteiro.

Recentemente, o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Armindo Monteiro, afirmou que, preparando-se os países da NATO para aumentar a despesa em matéria de defesa até 5% dos PIBs nacionais, Portugal devia converter algumas das suas fábricas à produção de armas. “Temos de reativar algumas indústrias de defesa que ainda temos, mas sobretudo aproveitar algumas indústrias que estão plenamente operacionais e convertê-las. Um exemplo é o sector automóvel, que está a sofrer uma recessão; por que não dedicar essa capacidade à produção militar?”, questionou Monteiro, acrescentando ser relativamente simples transformar a fabricação de automóveis em fabrico de armas e que tal estava já a acontecer.

Mas será fabricar armas para a guerra a melhor maneira de Portugal e outros países europeus aumentarem a produção nacional e o emprego? As grandes potências parecem determinadas a transformar o mundo num imenso quartel. A despesa global com armamento ascendeu a 2,7 biliões de dólares no ano passado e está para acelerar. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs um plano de rearmamento da Europa (Rearm Europe), que visa mobilizar até 800 mil milhões de euros para financiar um incremento maciço da despesa com defesa. “Estamos numa era de rearmamento, e a Europa está pronta para aumentar maciçamente a despesa com a defesa.” Enquanto isso, a ameaça existencial representada pela emergência climática está a chegar a uma etapa crítica, devendo a comunidade internacional andar antes a mobilizar recursos dessa ordem de grandeza para a criação de uma economia pós-carbono.

“A questão de fundo é saber se estamos dispostos a aceitar que a corrida global aos armamentos é inevitável, e as alterações climáticas irreversíveis.”

Os governantes costumam argumentar que o aumento da despesa militar criará emprego e puxará pela economia. Então, mas para criar emprego, somos a favor de fabricar armas que servem para matar gente? O economista ortodoxo Maynard Keynes disse uma vez que, para puxar pela economia, “os governos deviam pagar gente para cavar buracos no chão e depois voltar a enchê-los”. O leitor ficará tentado a responder: “Mas que estupidez, não era melhor pagar para construir estradas e escolas?” Keynes responderia: “Está bem, paguem-lhes para construir escolas. A questão, aqui, é que não interessa o que façam, desde que o Estado crie emprego.”

Só que Keynes estava enganado. Interessa, sim. Se o tipo de empregos não interessasse, por que não aumentar drasticamente a produção de tabaco e promover o vício, assim criando emprego? A maior parte das pessoas opor-se-lhe-ia, por isso prejudicar diretamente a saúde. Ora, fabricar armas (convencionais e não convencionais) é extremamente prejudicial.

Não faltam produtos e serviços socialmente úteis que poderiam proporcionar emprego e salário aos trabalhadores. Infelizmente, muitos dirigentes sindicais apoiam as indústrias armamentistas porque muitos filiados seus nelas conseguem empregos seguros e bem remunerados, em que podem praticar orgulhosamente as suas competências especializadas. No entanto, diversificar a produção em detrimento do armamento poderia ser tão fácil quanto Monteiro pensa que é passar do fabrico de automóveis para o fabrico de tanques e bombas. Mais: teria maior potencial de criação de emprego. A produção de armas é particularmente intensiva em capital, gerando, por isso, menos empregos, em termos relativos, do que a produção civil. Um estudo norte-americano concluiu que, se o governo dos EUA investisse mil milhões de dólares em sectores civis alternativamente à produção militar, geraria até 140% mais emprego. Os investimentos em energia limpa, cuidados de saúde e educação criam também número muito maior de empregos em todas as faixas salariais, incluindo empregos de rendimento médio e alto.

Portugal tem um pequeno sector de produção de armamento, originalmente controlado pelo Estado para apoiar as forças armadas, particularmente durante as guerras coloniais do pós-1945. Essa estrutura acabou quando se deu a Revolução dos Cravos, em 1974-75. Atualmente, a indústria do armamento gera apenas 73 milhões de dólares por ano, correspondentes principalmente a sete grandes empresas privadas e cerca de trezentas micro, pequenas e médias empresas, que empregam apenas 32 mil pessoas, abarcando os sectores da aeronáutica, construção e reparação naval, têxtil, automação e robótica, metalurgia e desenvolvimento de software.

Em vez de apelar à expansão deste sector para satisfazer os objetivos bélicos da NATO e puxar pelos lucros das empresas privadas de armamento, como o presidente da federação empresarial portuguesa gostava, o governo português podia assumir o controlo pleno do sector e usar os recursos e as competências da força de trabalho para a produção civil, fosse de energias renováveis ou de desenvolvimento de inteligência artificial. São sectores que requerem competências idênticas e oferecem salários tão bons como a indústria de armamento. Seriam empregos melhores para os trabalhadores e para todos nós: postos de trabalho em indústrias que muito carecem de expansão e que não contribuem para um mundo mais perigoso, mas para um mundo mais seguro.

Nem sequer é certo que os trabalhadores atualmente empregados na produção de armamento se opusessem à mudança. Um estudo que perguntou aos trabalhadores da indústria armamentista se eles se opunham à diversificação indicou que os trabalhadores se dividiam; mas a mensagem forte que ficou foi que, para qualquer mudança, era preciso consultá-los. Eles detinham conhecimento indispensável em matéria do que fosse necessário fazer para tal diversificação.

Assim, propostas de redução da produção de armamento não podem vir de cima para baixo. Têm de dar voz e um papel aos sindicalistas, ouvir as ideias dos trabalhadores a respeito de planos alternativos praticáveis. O governo deveria criar uma agência para a diversificação que concebesse um programa de transição que, na reafectação a novos empregos, preservasse qualificações, empregos, salários e pensões.

Porém, a questão de fundo ainda é saber se estamos dispostos a aceitar que a corrida global aos armamentos é inevitável, e as alterações climáticas irreversíveis. Ou se, em alternativa, erguemos uma nova economia, assente nas orgulhosas tradições do movimento operário, de internacionalismo e luta pelo desarmamento, uma economia em que as qualificações dos trabalhadores possam servir para produções socialmente úteis, não para fazer armas de destruição maciça.

categoria-internacional Acumulação Primitiva Guerra Imperialismo Palestina Racismo Reprodução Social edicao-2025-11-06 (03)

A lógica da guerra infinita como estratégia de governo

Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias

A Acumulação do Capital: Uma Contribuição à Teoria Econômica do Imperialismo, de Rosa Luxemburgo, foi publicado em 1913 às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Suas avaliações críticas ao colonialismo e ao imperialismo não estavam apartadas da sua própria experiência como uma judia crescendo na Polónia ocupada pela Rússia, ela estava pessoalmente consciente dos impactos da dominação colonial.

Já nos seus primeiros trabalhos, esteve comprometida com a denúncia de como o extermínio dos povos indígenas e a interferência do capitalismo euro-americano nas formações sociais do mundo não ocidental não eram um acidente ocasional da acumulação de capital, mas sua própria base. Faz parte do capitalismo eliminar as economias pré-capitalistas, autossuficientes e não monetárias, transformando-as em ferramentas para acumulação de capital. Para tanto, faz uso de métodos como violência, fraude e até mesmo de genocídios.

Nesse sentido, embora motivações ideológicas facilitem o processo, o imperialismo é impulsionado pelas engrenagens do próprio capital, e por isso é viabilizado tanto em formas autoritárias de governo, quanto em “democracias” capitalistas.


“Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.”

Maria Mies, uma das primeiras feministas a analisar sistematicamente o papel das mulheres no capitalismo com base na estrutura de Rosa Luxemburgo, em seu livro Patriarcado e acumulação em escala mundial, aplica a teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo às mulheres, ao seu trabalho e à família.

A abordagem de Mies traça paralelos entre o trabalho feminino e o trabalho não remunerado de camponeses, colónias e outros “meios não capitalistas”, que Luxemburgo descreveu como sendo explorados “gratuitamente”, de forma semelhante à natureza. Maria Mies não vê o patriarcado e o capitalismo como sistemas separados, antes compreende que eles formam uma única entidade: o patriarcado capitalista. Por isso, para ela a subjugação das mulheres não se deve à misoginia masculina inerente, mas sim a uma necessidade estrutural para a acumulação de capital. Assim como Rosa Luxemburgo via a acumulação primitiva como intrínseca ao capitalismo, Mies afirma que o capitalismo não pode funcionar sem o patriarcado, visto que a acumulação contínua de capital requer a manutenção ou a criação de relações de género patriarcais e/ou coloniais.

Se Mies vê o patriarcado como expressão intrínseca da acumulação primitiva, também é verdade que os sujeitos dentro de um estado de exceção estão a mercê da mesma lógica da acumulação primitiva. Nesse sentido, os corpos racializados e colonizados de Gaza encontram-se em posição equiparada de exploração. Se em certo contexto histórico de superexploração, trabalhavam para empresas israelitas como forças de reservas para baixarem os salários, agora são expulsos do próprio território para aumentarem o valor de exploração.

No livro Pele Negra, máscaras brancas Frantz Fanon argumentou que a crescente conscientização dos trabalhadores em países colonizadores e racistas – levou a uma evolução no conceito de raça. Se o racismo vulgar e biológico correspondia ao período de exploração bruta do trabalho físico, onde a subjugação e a desumanização dos escravizados eram justificadas por hierarquias raciais pseudocientíficas, à medida que os meios de produção se tornaram mais avançados, as técnicas de exploração — e as formas de racismo — tornaram-se mais dissimuladas. A distinção colonial/racial entre civilização e barbárie evoluiu para uma divisão entre aqueles percebidos como capazes de dominar a natureza e aqueles vistos como subjugados por ela ou inerentemente parte dela.

Já Tithi Bhattacharya defende que todo esse processo sempre aconteceu sobre uma base de racialização intensa, o que não só fomentou a manutenção dos salários baixos, como fez subempregos parecerem um presente do capital a determinadas comunidades racializadas. Reconhecer as principais vítimas desse caminho também nos faz compreender porque sindicatos formados em sua maioria por trabalhadores do Sul global compostos por uma classe trabalhadora diversa, demonstram maior solidariedade e identificação com Gaza do que tantos outros da Europa.

Contudo, é importante reconhecer que o que tem sido feito ainda é muito pouco. O que estamos a assistir nada mais é do que a lógica da guerra infinita como dispositivo de governo, onde a desordem contínua é a única condição para a preservação de uma ordem que não tem mais como garantir horizontes normativos estáveis. Antes, o que temos visto é a consolidação daquilo que Giorgio Agamben chamou de paradigma da exceção. Simplesmente, porque militarizar as mentes é também acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo. É a banalização das piores violências, como um soberano que tem direito sobre a vida do outro.

Segundo Carl Schmitt, trata-se da construção no imaginário social de um inimigo eterno, onde a militarização das mentes emerge como uma técnica eficaz para acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo.

Fenómenos que podem ser observados desde os discursos de ódio e dessensibilização em face à violência estatal nas periferias do mundo, quanto na execução da política colonialista do Estado israelita que se estrutura desde a Guerra Fria através da emergência de um Estado que se estabeleceu enquanto superpotência na ordem bipolar. A política baseada no proveito político e económico feito pelo movimento sionista que fez que este se aliasse a uma potência capitalista imperialista, capaz de assegurar a expulsão sistemática dos Palestinos, é a prova da instrumentalização desse processo. Características que podem ser observadas na tentativa de confinar o máximo de palestinianos, mas também no roubo de recursos estratégicos (água e terra cultivável), utilização da mão de obra barata, trabalho análogo ao escravo.

Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza há décadas é compreender as estruturas que autorizam e naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo a serem aplicados em escala indefinida contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade. Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.

categoria-internacional Guerra Palestina edicao-2025-10-23 (02)

"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"

Entrevista com Naji El Khatib

O ativista e investigador palestiniano Naji El Khatib, que esteve há meses numa palestra no Porto, refere, em entrevista à página francesa em linha Reporterre, que o reconhecimento de um Estado palestiniano pela França é, acima de tudo, marketing político. Ele lembra que a colonização continua entretanto, com a cumplicidade material da França. O leitor notará que tudo o que Naji El-Khatib diz se aplica na íntegra ao reconhecimento da Palestina pelo Estado português e à figura cínica e sinistra feita pelo ministro Rangel e pelo presidente Marcelo.


Que pensa do anúncio de Emmanuel Macron de reconhecer o Estado palestiniano?

Naji El Khatib Este anúncio suscita-me, em primeiro lugar, muitas dúvidas. Agirá Emmanuel Macron por sentimento de culpa, ou será, antes, um caso de cálculo político, para recauchutar a sua imagem, quando há agora uma queixa apresentada contra ele no Tribunal Internacional de Justiça, por cumplicidade com genocídio? Neste contexto, custa não ver neste gesto uma manobra de diversão. Há meses que a rua francesa se mobiliza contra os massacres em Gaza e pelos direitos dos Palestinianos.

No entanto, não acredito que Macron esteja a agir por remorso. Os seus aliados dizem-no cínico: parece-me que o reconhecimento é principalmente uma ferramenta de comunicação política. Chega tarde, muito tarde. Já mais de 140 países reconheceram o Estado palestiniano. Acima de tudo, porém, este Estado, o Estado derivado dos acordos de Oslo (1993), é um “Estado fantoche”, incapaz de responder às necessidades reais dos Palestinianos.

Hoje, os territórios reservados a um futuro Estado palestiniano correspondem a uns meros 10% da Palestina mandatária original. Falo como refugiado: a minha família foi expulsa de Jaffa em 1948. Ora, 60% dos palestinianos partilham esse destino do exílio forçado. A questão do direito ao regresso sempre foi excluída das negociações.

O que nos é proposto não é um Estado viável, é um simulacro que ratifica o esquecimento de centenas de milhares de expulsos. Por isso falo de uma farsa, perigosa para os direitos históricos do povo palestiniano, do rio até ao mar.


Acusa a França de cumplicidade com Israel. Em que consiste a cumplicidade, na sua opinião?

Naji El Khatib Em primeiro lugar, cumplicidade material. A França nunca deixou de fornecer armas e munições a Israel. Novos carregamentos partem regularmente do Aeroporto de Roissy. Há também empresas francesas a fornecer tecnologias utilizadas nos drones israelitas. Esta cadeia de produção alimenta diretamente a máquina de guerra.

Há, todavia, resistência: os estivadores de Marselha têm-se recusado a carregar caixas destinadas a Israel. Já o Estado francês continua. Como se pode pretender estar a reconhecer o direito dos Palestinianos à autodeterminação se, ao mesmo tempo, se arma quem os bombardeia e coloniza a sua terra?

Cumplicidade, igualmente, política. A França não impôs nenhuma sanção, apesar de dispor de meios de pressão económica e diplomática significativos. Permanecer em silêncio diante de um genocídio é participar nele. O coletivo de 114 advogados que está por detrás da queixa contra o Estado francês evoca-o com clareza: não agir para impedir um crime é ser cúmplice dele. Macron tenta mascarar essa responsabilidade com um reconhecimento do Estado palestiniano, mas a realidade é outra: fornecimento de armas, nenhuma sanção, inércia diplomática. Tudo isto configura participação direta e indireta no genocídio.


Mesmo assim, que consequências concretas pode ter o reconhecimento?

Naji El Khatib Em política, o simbolismo só tem peso se se traduzir em relações de força. Reconhecer o Estado palestiniano sem agir contra o agressor não muda nada. Enquanto a colonização continuar a avançar, enquanto se multiplicarem os ataques de colonos armados, assim como as barragens de controlo, é do foro da ilusão andar a falar de Estado palestiniano.

Para o reconhecimento ter sentido, seriam necessárias medidas concretas: sanções económicas, embargo militar e científico, retirar o embaixador. A França tem meios para fazê-lo. Mas não há sinais que indiquem tal vontade. Este anúncio é, portanto, uma manobra do foro do marketing político e, o que é pior, sem sanções nem medidas concretas, o risco é que a seguir se acelere a colonização e os territórios palestinianos se fragmentem.


O que pensa da iniciativa da Flotilha da Liberdade para Gaza?

Naji El Khatib É um ato de coragem essencial. Perante o bloqueio e o genocídio, não podemos manter-nos espectadores. A Flotilha procura quebrar o isolamento de Gaza e levar ajuda vital a uma população atingida pela fome e pelos bombardeamentos. Centenas de pessoas já perderam a vida por falta de comida ou de cuidados médicos.

Eu próprio participei na Marcha para Gaza, no Egito, em junho. A iniciativa malogrou-se, mas encarnava essa vontade de “fazer algo”. A Flotilha inscreve-se na sua continuidade: encarna uma forma de esperança, provando que há gente, noutras partes do mundo, que não se contenta em manifestar-se, que está pronta a correr riscos perante uma máquina de guerra.

Isto é tanto mais importante, quanto o Estado israelita tenta tirar legitimidade a estas ações e preparar os espíritos para ataques contra elas. Os participantes são muitas vezes caricaturados como “terroristas” ou “jihadistas", tal como aconteceu com o ataque ao barco turco que rumava a Gaza em 2010. Apesar dos riscos, a Flotilha não deixa de ser um gesto concreto de solidariedade.


Há muitos ativistas ecologistas a participar na Flotilha. Como entende esta ligação entre a luta pela Palestina e as lutas ambientalistas?

Naji El Khatib A expropriação da Palestina não afeta apenas terras e casas: também transforma o ambiente. Desapareceu de toda a Galileia o tomilho selvagem, o zaatar. As florestas plantadas por Israel com espécies importadas da Europa destruíram as plantas locais e apagaram os vestígios das aldeias palestinianas destruídas em 1948. Com os bombardeamentos maciços, Gaza está a tornar-se inabitável, os solos, contaminados.

Genocídio e ecocídio andam de mãos dadas. Defender a Palestina é defender, ao mesmo tempo, um povo e o seu ambiente, a sua cultura e a sua ligação à terra. Por isso é tão importante a presença de ativistas ecologistas na Flotilha. Lembra que a luta pela Palestina é também uma luta por terras viáveis e um ambiente habitável. São lutas que não estão separadas, estão profundamente ligadas.

categoria-política Especulação Guerra Pensões Pobreza Segurança social edicao-2025-10-23 (02)

As pensões na mira da “roleta da especulação” do capital financeiro e da guerra​

O governo AD pretende “reformar” a segurança social em três pontos fundamentais: redução da taxa contributiva global com vista a reduzir os custos do trabalho para o empregador; expansão dos planos privados de pensões; pôr termo à garantia universal de pensões mínimas do regime contributivo

“a segurança social é um sistema que deveria ser desligado da relação laboral, porque cada vez mais a relação laboral será uma relação pouco estável.”

Luís Cabral, professor da Universidade de Nova Iorque e colaborador na AESE, ao jornal Público1

A crise do sistema do capital tem vindo a acentuar-lhe o carácter austeritário e depredador, nos campos ambiental, do trabalho e social. Potencia o avanço da direita e da extrema-direita no mundo, agora reforçado com Trump pela segunda vez na presidência dos Estados Unidos.

A guerra em curso na Europa, a barbárie e o genocídio em Gaza são a “política por outros meios”, os mecanismos com que a Nato pretende subjugar os povos e as nações. A Nato pressiona para as despesas militares aumentarem para 5% do PIB de cada Estado. Para isso, “os cidadãos devem aceitar fazer sacrifícios, como cortes nas pensões, na saúde, nos sistemas de segurança (…)” (Mark Rutte, secretário-geral da Nato). A UE, através do plano Draghi e de um pacote de investimentos de 800 000 M€, dotou-se de uma “bússola da competitividade”. 650 000 M€ são para sair dos orçamentos nacionais, tendo estes autorização para ultrapassar as metas do pacto de estabilidade. Para a guerra permite-se, para o investimento público e as necessidades sociais, não.

Espalhar o medo social é o modus operandi do capital financeiro. Foi assim quando a troika interveio, concretizando a mais brutal transferência de rendimentos do trabalho para o capital, com o objetivo de baixar os custos de trabalho para os patrões (TSU), objetivo que se mantém.

Portugal é um país periférico, com investimento público diminuto e elevadíssima taxa de privatização dos sectores estratégicos. Quase 2 milhões de pessoas vivem na pobreza, e mais 1 milhão em grande vulnerabilidade. Esta situação mais do que duplicaria se não houvesse apoios sociais aos reformados e desempregados. Acrescem os 51% dos reformados da segurança social (2024) que vivem abaixo do limiar de pobreza (632€). Três em cada cinco portugueses não têm condições para satisfazer as suas necessidades básicas. Mesmo trabalhando, 900 mil trabalhadores são pobres. Os salários são baixíssimos. 3,4 milhões de trabalhadores ganham entre oitocentos e mil euros. Cresce a uberização do trabalho, enquanto os patrões usam e abusam da mão de obra imigrante (1,6 milhões), superexplorada e sem direitos. Os agiotas e angariadores saem ilesos.

Um pouco por toda a Europa, os sistemas públicos de segurança social têm estado na mira do capital. Muitas alterações impostas seguem o modelo de sistemas mistos de capitalização e do aumento da idade da aposentação. Em Portugal, desde 2007, o maior ataque foram sem dúvida os cortes nas pensões e nas prestações sociais durante a intervenção da troika (de que não recuperámos) e o ataque à TSU (taxa social única) em nome do aumento da “competitividade da economia”, prejudicando seriamente o futuro dos trabalhadores e das suas pensões. É a diminuição dos custos do trabalho, a “desvalorização fiscal” a favor dos patrões: se aquela medida não tivesse sido travada, teria sido uma brutal transferência do trabalho para o capital. “Que se lixe a troika!” pôs 1 milhão de trabalhadores e jovens na rua, e a medida não passou. Mas está hoje de novo em cima da mesa.

Diz-se que o nosso “sistema previdencial da segurança social está de boa saúde”2. No entanto, duas ofensivas estão em curso. Uma parte da comissária europeia, M. Luís Albuquerque3, a outra, do governo AD, dando continuação ao trabalho desenvolvido pelo anterior governo PS de António Costa. Este nomeara uma nova comissão, dirigida por Jorge Bravo (professor universitário, com ligações ao sector dos seguros e fundos privados de pensões), para aprofundar propostas do “Livro Verde para a sustentabilidade das pensões”. A Comissão começou logo por juntar os dois sistemas de pensões – o sistema público da segurança social e o da Caixa Geral de Aposentações – para concluir que são deficitários. Uma grosseira manipulação, dada as diferenças entre os sistemas.

Em entrevista ao Jornal de Negócios4, M. Luís Albuquerque entra na disputa pelas “poupanças dos Europeus”: quer usar as pensões para investir em armas. Manifestou, ainda, a sua “determinação” em erguer uma segurança social aberta ao capital financeiro, banca, seguradoras, fundos especulativos, em três pilares: o público, o de pensões complementares ao nível da empresa (de inscrição obrigatória?) e PPR europeus5, pilar privado de pensões.

O governo AD reconhece, por um lado, “a boa saúde” do sistema público de segurança social: “em março de 2025, já possuía uma carteira de ativos de cerca de 39 400 M€, assegurando já 24,48 meses de pensões, prevendo-se que o Fundo não esgote até 2070”6, reforçado agora com novo “excedente do sistema” de mais 5600 M€. Não obstante, persiste na sua visão neoliberal de “reformar” o sistema público de repartição em três pontos fundamentais: “proposta de redução da taxa contributiva global sobre o salário associada à introdução de uma contribuição sobre o valor acrescentado líquido, com vista a reduzir os custos do trabalho para o empregador; projeto de expansão dos planos privados de pensões (profissionais e pessoais), com o envolvimento ativo do Estado em matéria orçamental e regulamentar; recomendação de pôr termo à garantia universal de pensões mínimas do regime contributivo, passando a sujeitar a garantia de mínimos a condição de recursos.”

O modo de produção tem vindo a mudar, obrigando-nos a refletir também no reforço da sustentabilidade do sistema público de segurança social, mas sem abdicar do seu carácter intergeracional, universal e solidário.

O capital vai preconizar que todas as gerações aceitem abdicar dos direitos presentes e futuros. Tal significaria o triunfo em toda a linha do fascismo social. A nossa unidade é fundamental. Só quem abdica de lutar não vence!•


  1. Luís Cabral ao jornal Público de 8 de junho de 2025.
  2. Min. do Trabalho e Segurança Social ao jornal Público de 20 de março de 2025.
  3. Maria Luís Albuquerque, ex-ministra das Finanças do Governo de Passos Coelho durante a intervenção da troika e atual comissária europeia para os serviços financeiros e união das poupanças.
  4. Jornal de Negócios, 2 de junho de 2025.“Vamos recomendar inscrição automática no Pilar 2 das Pensões”
  5. PPR europeus: Criado o PPR Europeu, um negócio à medida do mercado de capitais, Esquerda,net
  6. CGTP-IN: “Defender a segurança social pública, universal e solidária”, 8 de maio de 2025.

categoria-opinião Guerra Paz Serviço Militar Obrigatório edicao-2025-10-16 (01)

10 de Junho - O grande Camões não tem culpa

O povo trabalhador, o proletariado moderno do nosso país, tem de exigir, contra os heróis com o sangue dos outros, travar a despesa armamentista e que a “defesa nacional” seja defesa civil, proteção de pessoas e bens, proteção da natureza e do meio ambiente

São os pilares da pátria! O Presidente Marcelo, o Montenegro, o PS, os gajos da IL e o partido fascista, todos cúmplices do genocídio do povo palestiniano ao confraternizarem com o Estado pária terrorista de Israel como parceiro de negócios e de “cultura”. Guerra é guerra, babam-se eles. Seja na Palestina, seja na Ucrânia.

As nações modernas construíram-se como alfobre da carne para canhão necessária à conquista e ao domínio colonial. A cultura burguesa forneceu o cimento simbólico e mítico para assegurar a unidade do que era antagónico: a burguesia e o proletariado – a pátria.

A pátria que “não se discute” dissuade a objetividade do internacionalismo proletário e lança no açougue e na chacina a juventude das nações, que embriagam de chauvinismo desde o berço, seja ele dourado ou de palha mijada. Depois do nosso breve interregno do PREC, assim continua a ser. O 10 de Junho foi altivamente definido, há uns anos, pelo preclaro Cavaco Silva, como o “Dia da Raça”!

As forças armadas, sustentadas pelo serviço militar obrigatório como dever supremo de cidadania, asseguraram a integração material e social do proletariado às ordens dos interesses rapaces dos burgueses. Anunciavam a igualdade dos cidadãos e mantinham-na com a mais férrea ferramenta da desigualdade: a hierarquia militar.

O Serviço Militar Obrigatório foi recusado expressa e democraticamente pelos Portugueses. A chamada defesa da pátria passou a ser feita por mercenários, embora de baixo perfil. No contexto da NATO, ou seja, do imperialismo predador e terrorista, obedientes e reverentes, as forças armadas têm sido o mais refinado instrumento de submissão ao imperialismo fazedor de todas as guerras modernas.

Sob ameaça, implícita por enquanto, de uma conflagração mundial com um grande potencial destruidor demonstrado em Hiroxima e Nagasáqui, somos obrigados a questionar o como e o porquê e qual o papel que devem assumir todos aqueles que estão designados para irem morrer no combate ou para morrerem onde seria suposto estarem no seu combate de classe contra os “mordomos do universo todo” como José Afonso chamou aos vampiros do capital.

Posto isto, o povo trabalhador, o proletariado moderno do nosso país tem de exigir, contra os heróis com o sangue dos outros, travar a despesa armamentista e que a “defesa nacional” seja defesa civil, proteção de pessoas e bens, proteção da natureza e do meio ambiente.

A única forma de defender as pessoas – e só elas dão algum significado ao termo pátria – em paz ou perante as destruições da guerra, é reduzir a despesa militar a um mínimo pouco mais do que simbólico e considerar os sapadores florestais como os grandes heróis de que precisamos conjuntamente com os corpos de bombeiros e restantes institutos de proteção civil. E em função disso atribuir os meios necessários para a sua intervenção em tempo de paz, mas de grandes alterações climáticas – terramotos, grandes incêndios, inundações e epidemias – ou de guerra, convencional ou nuclear, a que só seremos sujeitos enquanto serventuários sem desculpa do Estado terrorista dos EUA através da NATO.

O tempo não está para rezas, sejam elas religiosas ou laicas, urge libertar as mentes do lixo ideológico e levantar de novo a única barreira às guerras e à podridão irracionalista do capital: a luta de classes com base no internacionalismo de todos os que trabalham e são explorados em todo o mundo.

categoria-reportagem Guerra Pensões Pobreza Segurança social Uberização edicao-2025-10-16 (01)

condicionadores condicionados

Num texto com perto de duas décadas, o investigador académico francês em jornalismo Alain Accardo explicou as estruturas de condicionamento da chamada “opinião pública”, a partir do condicionamento dos próprios condicionadores, nomeadamente os jornalistas.

ilustração: Pedro Páscoa

Escrevia Accardo que “o observador do sistema mediático deve partir do princípio de que, na sua grande maioria, os jornalistas não estão maquiavelicamente apostados em manipular o público para maior proveito dos acionistas das empresas de imprensa em particular e dos investidores capitalistas em geral. Se agem como ‘condicionadores’ daqueles a quem se dirigem, não será tanto por vontade expressa de os condicionar, quanto pelo facto de serem eles próprios condicionados, e a um grau de que a maioria nem sequer suspeita. Fazendo (ou não fazendo) cada um deles espontaneamente aquilo que deseja fazer, concordam espontaneamente uns com os outros. Inspirados no poeta Robert Desnos, poderíamos dizer que os jornalistas obedecem à lógica do pelicano: “O pelicano põe um ovo branquinho. De onde sai, inevitavelmente, outro que faz o mesmo.”

Já data, aliás, de há quase setenta anos um outro texto seminal sobre como é ilusória a aparência de que são os jornalistas quem faz jornalismo, porque a realidade é a inversa, é o jornalismo que faz os jornalistas. Segundo o seu autor, o antigo jornalista norte-americano e posteriormente investigador Warren Breed, a “socialização” dos neófitos pela redação produz-se “por osmose”, com os jovens repórteres a aprenderem as técnicas do ofício e as regras da arte a partir da leitura quotidiana do próprio jornal, através do enquadramento dos seus colegas seniores e, por fim, da linha editorial que é aplicada de modo sempre oblíquo, não explícito, por parte das chefias. O mecanismo fundamental, como observava Breed no seu estudo sobre o controlo social na redação, como lhe chamou, era o da punição-recompensa, segundo o grau de afastamento ou aproximação aos requisitos do “jornal”.

Para além de tudo o que se modificou no plano tecnológico e das alterações no campo dos media em mais de meio século, no plano mais profundo, o processo permanece inteiramente válido no presente, segundo ex-jornalistas que optaram por sair para abraçar carreiras académicas nas universidades.

Luís Miguel Loureiro, hoje docente e investigador na Universidade do Minho, corrobora este ponto de vista. Para este antigo jornalista da RTP, onde trabalhou quase três décadas: “Chegado ao ecossistema, o novo jornalista é rapidamente absorvido, passando a trabalhar, normalmente sem o notar, de acordo com uma normatividade implícita, não dita, pela qual se regem as relações de trabalho estabelecidas a partir de uma organização profundamente hierarquizada, como qualquer estrutura produtiva industrial. Ou então, nota, quando essa normatividade se abate violentamente sobre a sua capacidade individual de questionamento do mundo, reduzindo o espectro possível de criatividade.”

ilustração: Robson Villaba



Disciplinar as mentes

Aquilo a que este antigo repórter televisivo, que iniciou a sua carreira na Rádio (Nova e Comercial) chama a redução do espetro criativo, corresponde ao que o autor Jeff Schmidt, na sua obra Disciplined Minds sobre os profissionais assalariados, considerou a política do apoliticismo. Schmidt não se referia só, mas também, ao jornalismo para dizer como, em diferentes profissões, usualmente associadas ao trabalho intelectual, dos juristas aos profissionais de saúde, passando pelos jornalistas, claro, a “recusa dos profissionais em questionar a política incorporada no seu trabalho serve os interesses daqueles que detêm poder na sociedade e contribui para a manutenção do statu quo social e económico”.

No entanto, observa perspicazmente Schmidt, “abster-se de questionar não parece um ato político, e por isso, os profissionais mantêm a aparência de neutralidade política no exercício das suas funções”. Na realidade, o que isto significa é que o “‘julgamento profissional’ ou a ‘opinião especializada’ do trabalhador intelectual não é objetiva, como se proclama, mas tende a favorecer os interesses do seu empregador. (Apoiar o empregador e apoiar o sistema em sentido lato não são exatamente a mesma coisa, mas, sendo este essencialmente um sistema corporativo, uma coisa reforça a outra)”, aclara o autor.

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Para Luís Miguel Loureiro, desde o período do seu ingresso na profissão, há três décadas, foi notória “uma cada vez maior rarefação da indisciplina sã do questionamento”. Para isso, diagnostica, “contribuíram decisivamente as condições cada vez mais precárias do trabalho dos jornalistas, não apenas da precarização das relações socioeconómicas do trabalho, cada vez mais individualizadas, mas de todas as condições objetivas para a produção noticiosa: do abocanhamento das redações, cada vez mais pequenas, pelos agentes e estruturas, crescente e assimetricamente poderosos, da comunicação estratégica e propagandística profissionalizada, ao desgaste, quando não esgotamento e total captura dos dispositivos democráticos de representação coletiva dos jornalistas”.

A fuelização do medo

Alexandra Figueira, outra jornalista que trocou, há quatro anos, a carreira nas redações jornalísticas pela academia, reforça a importância destes mecanismos de “captura”, como os designa Luís Loureiro. Por comparação com os anos 1990, quando ingressou na profissão, Alexandra Figueira constata que no Jornal de Notícias, onde desenvolveu grande parte da sua carreia jornalística “a redação, que já não era muito contestatária, tornou-se progressivamente mais amorfa. O Conselho de Redação raras vezes auscultava a redação e deixava passar largas semanas entre cada reunião com a direção e o comunicado com o que lá foi discutido. As datas e a ordem de trabalhos das reuniões não eram divulgadas previamente”.

“Costumo dizer que sobrevivi a três despedimentos coletivos. Não sei o que aconteceria no quarto. Saí do jornalismo antes disso”, diz a antiga jornalista do JN e Diário Económico, hoje professora na Universidade Lusófona. “Num desses despedimentos coletivos, recordo-me de ter passado uma manhã a olhar para o telemóvel, à espera que tocasse. Corria a informação de que os recursos humanos estavam a telefonar a alguns de nós para comunicar o despedimento. Qualquer um podia ser abrangido, naturalmente, inclusive eu.”

Esta era a nova realidade para os jornalistas, que em finais da década de 1980 e princípio da seguinte tinham vivido o que poderia considerar-se à escala nacional um boom do sector, com contratações salarialmente mais compensadoras e surgimentos de novos títulos, haviam assistido e vivido ao processo de aburguesamento das redações dos media e da formação de uma elite organizada que passou rapidamente a funcionar primeiro em formação espontânea e, progressivamente, por cooptação, em função de amizades pessoais e/ou, sobretudo, de solidariedades políticas.

“A maior exceção”, recorda a exredatora do Económico e do JN, “resultou num grande momento de união a que já só assisti como espectadora”, em 2023, no âmbito da venda do grupo ao World Opportunity Fund e do despedimento coletivo anunciado de 150 trabalhadores. “Na altura, as redações do Jornal de Notícias, do Diário de Notícias, do Dinheiro Vivo e da TSF mostraram uma enorme capacidade de mobilização, lideradas pelos jornalistas mais jovens, com o apoio do Sindicato de Jornalistas. A venda de todo o Global Media Group ao World Opportunity Fund foi revertida. Em alternativa, o Jornal de Notícias e a TSF foram vendidos à Notícias Ilimitadas, de um grupo de investidores do Norte que estará ligado ao dono do Global Media Group, Marco Galinha.”

E a vida prosseguiu, com uma repetitividade que só é perturbada pelo temor pessoal de quando chegará a cada um a sua vez. O medo do despedimento por parte dos repórteres de base encontra um eco inconfessado no medo dos chefes de, a qualquer momento, poderem vir a ser demitidos. Assim, hegemonia político-empresarial converte-se numa obediência generalizada no plano profissional e numa desestruturação radical da situação laboral.

Beneficiando de um estatuto formal equiparável ao que outrora se designava por “profissões liberais” ou “profissionais independentes”, à medida que a proletarização e a precarização se instalaram, o exercício profissional do jornalismo tornou-se cada vez mais uma ocupação insegura, onde o que é verdade hoje pode já não o ser amanhã. A insegurança que percorre a generalidade da prestação laboral no país, sobretudo no setor privado, abate-se também sobre as estruturas jornalísticas, sendo que, como sublinha Alexandra Figueira, “toda a imprensa portuguesa é privada, uma vez que não existe qualquer jornal de capitais públicos”.

A sensação de estar sempre em falta


“A minha sensação é de que estava sempre a trabalhar em défice”, diz Alexandra Figueira, a propósito do assoberbamento de trabalho e da intensificação da sua sobre-exploração. Com o passar dos anos, recorda a antiga redatora, “o volume de trabalho foi-se tornando avassalador. Havia cada vez menos jornalistas para responder a um número cada vez maior de solicitações. Ao usual trabalho para a edição em papel, acrescentou-se o online, com exigências muito próprias.”

Para além da crise geral de improdutividade do capital, num país com baixos índices de consumo de imprensa e altos indicadores de concentração publicitária nas televisões e, progressivamente, no digital, foi-se adensando o que Luís Miguel Loureiro define como a “complexidade do ecossistema” mediático, “no qual se cruzam todo o tipo de interesses, seria inocente da minha parte afirmar que os interesses e valores mais ‘elevados’ (o interesse público e a aferição dos valores-notícia, exclusivamente, pela lente ético-metodológica da objetividade) se conseguem sobrepor aos interesses comezinhos (dos interesses das fontes aos interesses particulares dos intervenientes no processo de produção noticiosa) que permeiam o quotidiano do trabalho da redação”.

Alexandra Figueira evoca a este respeito um episódio da sua vida jornalística quando recebeu da parte de um diretor a informação de que uma notícia sua “tinha custado um contrato de publicidade de alguns milhares de euros. A notícia já tinha sido publicada há algum tempo e nunca compreendi a razão pela qual o diretor me contou essa história”. Ou seja, enquanto mecanismos de condicionamento e mesmo afirmando não querer “medir a intenção do diretor” referido, o efeito, concluiu a ex-jornalista, “só poderia ser um: ainda que subconsciente, a autocensura relativa a histórias negativas sobre potenciais anunciantes”.

Formação: entre a técnica e a crítica

Para quem tenha integrado as primeiras gerações de jovens sonhadores que ingressavam nas faculdades para estudar jornalismo e acederem posteriormente à profissão, após Abril, em especial quando do arranque dos primeiros cursos superiores nesta área em inícios da década de 1980, e que acompanhe hoje as gerações que optam pelos cursos de jornalismo e comunicação, os efeitos derrisórios desta “agonia do jornalismo”, como muitos lhe chamam, é notória a abissal diferença de expectativas e a devastadora amputação do sonho.

Outrora movidos pela razão social de promover a justiça, defender a verdade, vigiar os poderes e exercer a liberdade de defender a democracia, opõem-se hoje perspetivas de alcançar se não a fama individual plasmada na figura do “pivô” de televisão, pelo menos a tentativa de conseguir chegar a trabalhar num jornal, numa estação de rádio ou de televisão em condições de sobrevivência mínimas.

A regra de ouro, imperativo absoluto, de atomização individual, de rejeição de qualquer tipo de ação coletiva organizada ou espontânea dentro das redações que possa meter “um pauzinho na engrenagem”, impera e coloniza os próprios imaginários da profissão. Só muito recentemente, um estudo da Universidade da Beira Interior conduzido entre profissionais do jornalismo em Portugal consegue captar uma perceção que, em termos explícitos, nunca havia sido ventilada, quando praticamente metade dos inquiridos se consideravam a si mesmos e aos jornalistas em geral como fatores de propagação de desinformação.

Até aqui, em Portugal como noutras geografias, os jornalistas atribuíam os fatores de pressão e controlo do seu trabalho quase em exclusivo ao que, na gíria profissional, é conhecido como “rotinas e constrangimentos” operacionais, falta de espaço, de tempo, pressão para publicar mais cedo que “a concorrência”, etc. Esse estudo parece sugerir, pela primeira vez, um eventual ganho de consciência sobre a realidade da profissão e a captura hegemónica das suas empresas, órgãos e títulos pela economia política predominante do grande capital.

Em que medida pode isso vir a tornar-se uma consciência crítica e contestatária ou simplesmente em mais um saber dócil e de docilização, com toda a carga de cinismo para o futuro imediato e de médio prazo da profissão entre nós, é difícil predizer. Para Alexandra Figueira, hoje na sua ocupação académica, a opção “tem sido privilegiar o conhecimento da realidade, dos efeitos dos media, das teorias do jornalismo, a capacidade crítica sobre a profissão, a sociedade, a política”. Para Luís Miguel Loureiro, de resto, a questão é idêntica, a consciência da “inadequação total que sei existir entre a ferramentação crítica que tento incutir nos meus estudantes e o ambiente de controlo que sei que irão, fatalmente, encontrar nas redações”.

Profissão para cínicos?

Suscitará poucas dúvidas a afirmação de que o jornalismo e as indústrias da consciência em geral – a que não escapa o sistema de ensino – estarão no epicentro do contraste entre a conceção clássica da política como modalidade superior de organização da vida dos coletivos humanos e a sua versão moderna de luta pela conquista e manutenção no poder de oligarquias organizadas em torno dos fluxos de capital.

Se, ao longo de toda a história do jornalismo industrial e, hoje, digital também, não faltam exemplos de integridade, valentia, militância pela difusão do real com verdade e não apenas como verosimilhança – que é o que hoje sucede –, se não faltam nomes como os de Seymour Hearsh, Robert Fisk, Julian Assange, Ryszard Kapuściński, ou os jovens Woodward e Bernstein e tantos outros, a sua realidade reside na condição de exceções que todos eles representaram e não poucos atraiçoaram.

Para os media corporativos a grande e única verdade é a do mundo dos negócios e dos interesses que se conjuram no seu seio, ao qual pertencem, aliás, os grandes grupos mediáticos, quer à escala local, quer global, a qual um antigo diretor da televisão norte-americana CBS resumiu numa frase simples acerca das opções editoriais e profissionais em jornalismo: “a merda dá dinheiro”. O resto é lirismo e filosofia.

Também na academia se conhece bem o problema, como se deduz das palavras de Alexandra Figueira: “O saber técnico – construir uma pirâmide invertida ou uma técnica de reportagem – é muito relevante, mas é relativamente fácil de transmitir. O mais difícil é dar aos jovens capacidade para questionar por que razão se faz uma pergunta e não outra, se escolhe um determinado aspeto da realidade para título, se ouve a pessoa A em vez da pessoa B. Privilegiar a execução técnica tem como efeito diminuir o espírito crítico dos estudantes. Enviar para as redações meros executantes técnicos é precisamente do que o jornalismo não necessita”. E grande parte dos cursos de formação foi cedendo à opção mais fácil e também a mais ilusória, a de que o jornalismo é um problema técnico, que encontra na técnica a gama das suas soluções, permitindo uma via de fuga para o problema político central que Charles Wright Mills, sociólogo norte-americano, deixou formulado desde os anos 1950: “entre a consciência e a existência fica a comunicação, que influencia a consciência que os homens têm da sua existência”.

Para Luís Miguel Loureiro, de resto, o problema abate-se, de forma semelhante não apenas no jornalismo profissional, mas na academia: “Penso até”, afirma, “pelo que observo, que está em decadência o próprio professor que viva, na academia, o dilema que eu vivo diariamente. Considero, mesmo assim, que não tenho alternativa: não concebo formação de jornalistas que não se funde em modelos de questionamento integral e de indisciplina intelectual militante perante a realidade.”

Sem dúvida que tinha razão Kapuściński ao intitular um dos seus livros que “esta profissão não é para cínicos”. E no entanto, parece não existir crítica da razão cínica bastante para cumprir a consigna do insigne repórter polaco. A crítica do jornalismo e a imprescindível distinção entre jornalismo e jornalistas que lhe deve presidir constituem-se hoje como elementos centrais de uma profissão e de uma atividade social que se degrada tanto quanto mais necessária se faz a sua integridade ou, pelo menos, a consciência crítica e a luta por ela.

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Marcela Uchôa
"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"
categoria-internacional Guerra Palestina edicao-2025-10-23 (02)

"O reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão"

O ativista e investigador palestiniano refere, , que o reconhecimento de um Estado palestiniano pela França é, acima de tudo, marketing político.

Jornal Maio
As pensões na mira da “roleta da especulação” do capital financeiro e da guerra​
categoria-política Especulação Guerra Pensões Pobreza Segurança social edicao-2025-10-23 (02)

As pensões na mira da “roleta da especulação” do capital financeiro e da guerra​

O governo AD pretende “reformar” a segurança social em três pontos fundamentais: redução da taxa contributiva global com vista a reduzir os custos do trabalho para o empregador...

José Casimiro
10 de Junho - O grande Camões não tem culpa Mário Tomé
categoria-opinião Guerra Paz Serviço Militar Obrigatório edicao-2025-10-16 (01)

10 de Junho - O grande Camões não tem culpa

O povo trabalhador, o proletariado moderno do nosso país, tem de exigir, contra os heróis com o sangue dos outros, travar a despesa armamentista ...

Mário Tomé
condicionadores condicionados
categoria-reportagem Guerra Pensões Pobreza Segurança social Uberização edicao-2025-10-16 (01)

condicionadores condicionados

Num texto com perto de duas décadas, o investigador académico francês em jornalismo Alain Accardo explicou as estruturas de condicionamento da chamada “opinião pública”...

Rui Pereira

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