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Ordem (forças da)
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-10-22 (46)

Ordem (forças da)

Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, ordem é um nome feminino que designa, entre outras coisas 1) sossego, paz; 2) disciplina (militar ou cívica); 3. boa administração; 4) mandado, autorização; 5) regra; lei. EM NOVILÍNGUA: Por estes dias, nas ruas e praças de Paris, Madrid, Porto e muitas

Jornal Maio
O triste panorama das relações de trabalho em Portugal
categoria-trabalho edicao-2026-10-22 (46) Portugal Relações de trabalho Pobreza Código do Trabalho

O triste panorama das relações de trabalho em Portugal

Um milhão de contratos precários, 2,5 milhões com salários inferiores a mil euros por mês, salários que representam cerca de 55 a 65% da média europeia. A “economia informal” representa mais de um terço (34,87%) de todo o PIB. Terceiro país da União Europeia com o maior número

António Garcia Pereira
Comunicado do SiLPE – Sindicato dos Leitores de Português no Estrangeiro
categoria-trabalho edicao-2026-10-22 (46)

Comunicado do SiLPE – Sindicato dos Leitores de Português no Estrangeiro

O que tem sido anunciado nos últimos dias pelo governo através dos meios de comunicação sobre o novo Regime Jurídico do Ensino Português no Estrangeiro (RJEPE) não corresponde à verdade. Os Leitores têm seguido o processo de revisão com muita apreensão e, não tendo podido ter assento à mesa de

SiLPE
Não era uma manifestação. Era uma vigília!
categoria-política edicao-2026-10-22 (46) Manifestação Vigília Polícia Lei

Não era uma manifestação. Era uma vigília!

Os jovens que velavam em tendas na Praça D. João I, no Porto, não estavam numa manifestação. Estavam numa vigília. E não há base legal para reprimir vigílias. Nem em Fátima, nem na Semana Santa de Braga, nem pela Palestina, nem por Timor.

Jorge Van Krieken
Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹ Somayeh Rostampour
categoria-opinião edicao-2026-10-22 (46) “Campismo” Guerra Fria Irão EUA Israel Teocracia

Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹

A autora, socióloga curda iraniana, defende que os opositores da agressão dos EUA e de Israel ao Irão devem ir além do “campismo”, ou não conseguiremos reconstruir uma esquerda genuinamente emancipadora nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular.

Somayeh Rostampour
#65 Colectivo Ruptura
categoria-o tempo contra o tempo edicao-2026-10-22 (46)

#65 Colectivo Ruptura

Tiago Lucas e Pedro Vilão do colectivo Ruptura conversam com Adriano Zilhão, do Maio, sobre a mobilização dos trabalhadores e da juventude, sobre revolução e contra-revolução, passado e futuro: como organizar e construir o combate por um futuro melhor, pelo socialismo.

Jornal Maio
As frentes populares dos anos 30
categoria-aula pública edicao-2026-10-22 (46)

As frentes populares dos anos 30

Qual o significado das frentes populares ou frentes amplas da década de 1930? A França da revolução e do apaziguamento da frente popular. Aula Pública é um programa semanal da historiadora Raquel Varela.

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Naza – no silêncio das salas de cinema
categoria-um filme edicao-2026-10-22 (46) Israel Palestinianos Linguagem Mal

Naza – no silêncio das salas de cinema

“Naza” é a designação que, na linguagem burocrático-militar das forças armadas israelitas, nomeia os civis “colateralmente” atingidos ou atingíveis por uma ação militar.

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(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-10-22 (46)

(sem título)

O outono come da minha mão a sua folha: somos amigos. Tiramos às nozes a casca do tempo e ensinamo-lo a andar: o tempo regressa de novo à casca. No espelho é domingo, no sonho dorme-se, a boca fala verdade. O meu olhar desce até ao sexo dos

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Quatro vintes
categoria-crónica edicao-2026-10-22 (46) Humanidade Idade Exercício Fisioterapia

Quatro vintes

Posso, perguntou, enquanto arrastava a cadeira para se sentar à minha mesa, branquinho fresco a tremer na mão canhota.

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A cordialidade para sanar a crueldade Pe. José Luís Rodrigues
categoria-opinião edicao-2026-10-22 (46) Cordialidade Crueldade Bondade

A cordialidade para sanar a crueldade

Nos tempos inquietos que vivemos, onde navegamos sob a incerteza em oceanos de saudosismos totalitários e repressivos, sempre podem ser férteis gestos amistosos de cordialidade.

Pe. José Luís Rodrigues
Apelo a um encontro nacional de informáticos
categoria-trabalho edicao-2026-10-22 (46) Informáticos Organização

Apelo a um encontro nacional de informáticos

Urge a nossa organização, à volta de um programa de desmercantilização, que não se limite a meras reivindicações pontuais, mas sim à crítica de fundo ao modo de produção em que vivemos, pois só assim é possível enfrentar as nossas dificuldades.

Jornal Maio
Inaugurada a Escola José Fontana, Trabalho e Cultura
categoria-maio edicao-2026-10-22 (46) José Fontana Escola Gramsci

Inaugurada a Escola José Fontana, Trabalho e Cultura

Numa sala cheia da Escola Secundária Camões teve lugar a primeira sessão pública da Escola José Fontana, em frente da praça lisboeta com o mesmo nome. Compreender a crise do capitalismo a partir de Gramsci foi o tema proposto pelo Prof. Roberto Leher, um biólogo, pedagogo, professor e ex-reitor

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SFRCI convoca greve na CP para 30 de outubro
categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-10-22 (46) CP Greve Ferroviarios Ferrovia

SFRCI convoca greve na CP para 30 de outubro

Trabalhadores exigem recuperação do poder de compra, valorização das carreiras e defesa de uma CP pública

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Reflexões sobre a revolução de 1936¹
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Reflexões sobre a revolução de 1936¹

1.ª parte Na vasta literatura sobre a guerra civil de Espanha, esta é frequentemente apresentada como uma luta entre a democracia e o fascismo. Esta visão é quase hegemónica em sectores da esquerda, muitos deles historicamente influenciados pelo estalinismo. Mas essa abordagem entra em conflito com a realidade sociopolítica

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Pelo nosso futuro, contra as guerras deles
categoria-editorial edicao-2026-10-22 (46) Habitação Educação Governos Repressão

Pelo nosso futuro, contra as guerras deles

Em toda a Europa, o despertar da juventude para o combate pela educação e a habitação que lhes é negada reacendeu e transformou em luta o profundo descontentamento que abarca toda a classe trabalhadora e pôs em sentido os políticos-proprietários cuja resposta é … chamar a polícia. “Guardas, a mim!

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As frentes populares dos anos 30
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As frentes populares dos anos 30

Qual o significado das frentes populares ou frentes amplas da década de 1930? A França da revolução e do apaziguamento da frente popular. Aula Pública é um programa semanal da historiadora Raquel Varela.

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Naza – no silêncio das salas de cinema
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“Naza” é a designação que, na linguagem burocrático-militar das forças armadas israelitas, nomeia os civis “colateralmente” atingidos ou atingíveis por uma ação militar.

Rui Pereira
(sem título)
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(sem título)

O outono come da minha mão a sua folha: somos amigos. Tiramos às nozes a casca do tempo e ensinamo-lo a andar: o tempo regressa de novo à casca. No espelho é domingo, no sonho dorme-se, a boca fala verdade. O meu olhar desce até ao sexo dos

Jornal Maio
Quatro vintes
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Quatro vintes

Posso, perguntou, enquanto arrastava a cadeira para se sentar à minha mesa, branquinho fresco a tremer na mão canhota.

Adriano Alcântara
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Ordem (forças da)

Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, ordem é um nome feminino que designa, entre outras coisas 1) sossego, paz; 2) disciplina (militar ou cívica); 3. boa administração; 4) mandado, autorização; 5) regra; lei.

EM NOVILÍNGUA:

Por estes dias, nas ruas e praças de Paris, Madrid, Porto e muitas outras cidades europeias vimos as mal chamadas “forças da ordem” a provocar a desordem contra manifestações pacíficas, carregando brutalmente contra tudo o que mexe. Vimos também agentes provocadores das polícias a atiçar os ânimos para justificar as cargas brutais e os comentários dos avençados do sistema na comunicação social. David Piqué, ex-comissário-chefe da polícia catalã, defendeu estas táticas na sua tese de mestrado, cunhando para designá-las o termo “síndrome de Sherwood”. Agentes infiltrados misturam-se com os manifestantes e iniciam atos de vandalismo ou violência isolada (queima de contentores, partir vidros e mobiliário urbano, etc.). O comando policial ordena que as unidades fiquem imóveis, permitindo que a violência escale até um nível que seja socialmente inaceitável. Finalmente, a polícia avança com cargas violentas contra a multidão. Estas práticas são ilegais e violam nomeadamente o art. 32º, n.º 8, da Constituição e o art. 126º, n.ºs 1, 2 e 4 do Código Penal. ASP

categoria-trabalho edicao-2026-10-22 (46) Portugal Relações de trabalho Pobreza Código do Trabalho

O triste panorama das relações de trabalho em Portugal

Um milhão de contratos precários, 2,5 milhões com salários inferiores a mil euros por mês, salários que representam cerca de 55 a 65% da média europeia. A “economia informal” representa mais de um terço (34,87%) de todo o PIB. Terceiro país da União Europeia com o maior número de acidentes de trabalho. Assédio moral, enfraquecimento da organização coletiva: eis um retrato sombrio do Portugal que trabalha.

O chamado mundo das relações de trabalho, em particular do trabalho assalariado e por conta de outrem, está no nosso país, e ao contrário dos discursos oficiais, cada vez mais transformado num autêntico paraíso para os patrões, em particular os de grande dimensão, e num inferno para os trabalhadores. 

Na verdade, em 2025, a população ativa portuguesa rondava os 5,5 milhões, cerca de um milhão dos quais tinha vínculos precários, como contratos a prazo ou ainda mais precários, como contratos de trabalho temporário, três a quatro milhões tinham um salário inferior a 1300 euros mensais e 2,5 milhões, cerca de metade da mesma população ativa, um salário inferior a mil euros por mês. Dos mais de dois milhões de portugueses em situação de pobreza, um milhão são trabalhadores empregados, o que significa que os miseráveis salários que recebem são insuficientes para assegurar uma vida condigna. 

Dos mais de dois milhões de portugueses em situação de pobreza, um milhão são trabalhadores empregados.

Um milhão e novecentos mil trabalhadores tinha de trabalhar aos sábados, domingos, feriados ou à noite, sendo que os trabalhadores portugueses são dos que na UE-27 ganham salários mais baixos, cerca de 55 a 65% da média europeia, e mais de um milhão deles têm de trabalhar 49 horas ou mais por semana. 

Aliás, e de acordo com as próprias estatísticas da UE, os custos horários unitários de trabalho, incluindo salários, contribuições para a Segurança Social, custos dos seguros e outras despesas, eram em Portugal de 18,2 euros/hora, na UE 27 de 33,4 euros/hora e na zona euro 37 euros/hora. Enquanto isto, os cinco maiores bancos embolsam lucros gigantescos, da ordem dos 12 milhões de euros por dia, e as empresas de setores como combustíveis, eletricidade e distribuição alimentar acumulam ganhos da ordem das centenas de milhões de euros por ano. E um presidente da comissão executiva de uma das empresas mais cotadas na bolsa, o chamado PSI, aufere em média, entre vencimentos e prémios, mais de 1,4 milhões de euros por ano, ou seja, mais de 100 mil euros por mês.

Ademais, entre 2015 e 2024, o PIB (produto interno bruto) cresceu 21%, mas apenas 5% desse aumento veio da produtividade, sendo que em 20 anos, cresceu 49,9%, mas os salários reais apenas 39%, o que significa que mais 12% da riqueza criada pelo trabalho migrou para o capital. 

Segundo os estudos e estimativas do Observatório de Economia e Gestão de Fraude da Economia, sediado na Faculdade de Economia do Porto, a chamada “economia informal” ou “economia não registada” representava em 2023 mais de um terço (34,87%!) de todo o PIB. Ora nesta enorme área de atividade, onde não há leis do trabalho, nem tribunais do trabalho, nem Autoridade para as Condições do Trabalho, nem descontos para a Segurança Social, nem prestações sociais, está seguramente um número considerável de trabalhadores individuais e até de microempresários que não aguentam o peso de uma fiscalidade asfixiante. Mas estão também empresas de média e até de grande dimensão que, propositadamente, exercem pelo menos parte da sua atividade à margem da lei; e o caso das partes das remunerações pagas sem descontos, “por baixo da mesa”, é disso um exemplo significativo. 

Por outro lado, esta situação mascara também a realidade noutras matérias extremamente relevantes, à cabeça das quais está a sinistralidade laboral. Portugal, com uma média de acidentes de trabalho da ordem dos 190 mil por ano, é o terceiro país da União Europeia com o maior número de acidentes, mas esta realidade há de ser ainda muito superior, só que uma parte dela não é declarada. Tal como é aliás também incontornável o fenómeno da gigantesca subnotificação, ou falta de participação, das doenças profissionais. Sendo que muitas delas, inclusivamente mortais, são apenas descobertas já depois de o trabalhador passar à reforma. 

Como sucessivos estudos do economista Eugénio Rosa têm demonstrado, o número real dos desempregados é, desde logo, por força do elevado número de trabalhadores no desemprego que, pela idade, pela doença ou pelo cansaço não alimentam qualquer esperança de arranjar novo emprego e não se inscrevem nos centros de emprego, muito superior aos desempregados constantes das estatísticas oficiais. E destes apenas metade consegue ter direito a receber o magro subsídio de desemprego. Realmente é muito difícil um trabalhador despedido, mais ainda com 40 ou 50 anos de idade, encontrar um novo emprego, sendo que o desemprego de longa duração representa cerca de 37% do desemprego total. 

A situação dos jovens, e em particular dos jovens qualificados, é particularmente grave num país que aceitou destruir a sua capacidade produtiva e dedicar-se esmagadoramente à prestação de serviços de alta intensidade e baixa qualificação e remuneração, como a agricultura intensiva, a restauração e o turismo, atingindo assim o desemprego jovem entre os 16 e os 24 anos os 19,5%. 

Por outro lado, a vida no interior das empresas está cada vez mais difícil, com o assédio moral, ou seja, a política do medo, da perseguição, da discriminação, a ser generalizadamente utilizado como ferramenta de gestão para levar os trabalhadores a aceitarem piores condições de trabalho e/ou salários mais baixos. 

Os truques e as artimanhas patronais multiplicam-se e endurecem na maior das impunidades. Os salários “partidos” em várias componentes, em que apenas uma delas é chamada de vencimento base, e só ela constitui a base de cálculo, em caso de despedimento, por exemplo. Ou a composição do salário com prestações remuneratórias atribuídas – e logo também retiradas – por atos de gestão, ou seja, pelo mero arbítrio dos patrões, que assim conseguem manter aquietados e controlados um número significativo de trabalhadores que, com receio de verem a sua retribuição subitamente diminuída para cerca de metade, a tudo ou quase tudo se prestam. 

A chamada “avaliação de desempenho” está hoje generalizadamente transformada, até pela falta de efetivo controlo, seja ele sindical ou judicial, num meio privilegiado de conferir um verniz de pretensa objetividade ou cientificidade à discriminação e à perseguição e no colocar na calha para o despedimento os indesejáveis, ou seja, os trabalhadores que não baixam a cabeça e não abdicam de lutar pelos seus direitos e de denunciar as ilegalidades e arbítrios patronais. 

Os mecanismos de defesa individual e sobretudo coletiva dos trabalhadores estão muito enfraquecidos.

E os mecanismos de defesa individual e sobretudo coletiva dos trabalhadores estão muito enfraquecidos. Ainda que os números oficiais camuflem a realidade do elevado número de trabalhadores que são sindicalizados mas que, por receio de represálias, não o comunicam ao patrão, o certo é que, também por responsabilidade própria dos sindicatos, por incapacidade de compreender as novas realidades do mundo do trabalho e de combaterem o ultra individualismo da ideologia neoliberal e por terem aceitado um recuo histórico para serem meras estruturas de fraca reivindicação económica, a taxa oficial de sindicalização é muito baixa, rondando os cerca de 7%. 

E, mercê desse enfraquecimento da organização dos trabalhadores e das medidas cirúrgicas adotadas pelo Código do Trabalho e intensificadas pelas chamadas reformas laborais da Troika, e mantidas no essencial em vigor por todos os governos dos últimos 25 anos, a contratação coletiva, quer em termos de número absoluto de convenções coletivas, quer de número de trabalhadores abrangidos, desceu drasticamente, sendo os últimos dados oficiais de 272 convenções e 885 mil trabalhadores abrangidos, isto é, somente 15% do total. 

Ao contrário da sistemática propaganda patronal e governamental, o número e intensidade das formas de luta coletiva são fracos (tendo, porém, e felizmente, conhecido uma evolução bastante positiva com as duas greves gerais contra o pacote laboral). Assim, em 2024, segundo os dados do Ministério do Trabalho, verificaram-se apenas 219 greves, abrangendo perto de 66 mil trabalhadores. 

Em contrapartida, os despedimentos, em especial os despedimentos coletivos, que lançam trabalhadores para a rua às dezenas ou às centenas, têm aumentado, havendo atingido em 2025 os 562, com mais de 6500 trabalhadores despedidos. 

Por seu turno, os meios legais de defesa dos direitos dos trabalhadores constituem outra fraude. As custas judiciais são, precisamente para funcionarem como um travão no acesso aos tribunais do trabalho, escandalosamente caras e por isso, de acordo com os dados estatísticos do Ministério da Justiça, de cerca de 200 mil processos laborais entrados anualmente entre 1976 e 1978, passámos, sobretudo a partir de 1990 e em particular nos últimos 10-15 anos, para um número da ordem de apenas 50 mil. 

Grande parte dos julgadores desconhece o que é a realidade das relações de trabalho e de todas estas artimanhas patronais e o que é, por exemplo, o fortíssimo constrangimento que um trabalhador, sobretudo se for precário, enfrenta para conseguir arranjar prova testemunhal, através de colegas seus em situação idêntica e, logo, sujeitos a toda a espécie de retaliações. As indemnizações por danos morais, designadamente nos casos de violações graves dos direitos laborais, como por exemplo de assédio moral, são, mercê de uma dominante e miserabilista cultura judiciária, ridiculamente baixas, constituindo assim um meio de impunidade, senão mesmo de incentivo à reincidência dos patrões violadores da lei.

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As indemnizações legalmente devidas em caso de despedimento coletivo ou extinção do posto de trabalho são também escandalosamente baixas, porque calculadas apenas a partir daquilo que é pago ao trabalhador a título de remuneração base (e não de toda a retribuição que ele recebe) e à irrisória razão de 14 dias de retribuição por cada ano de antiguidade.

Acresce que se o trabalhador quiser impugnar um desses despedimentos, tem desde logo que devolver de imediato ao patrão a referida indemnização de antiguidade e depois esperar anos, às vezes três, quatro, cinco ou mesmo mais, por uma decisão favorável. A mesma demora espera também o trabalhador atingido por um despedimento individual ilícito, sendo certo que, com frequência, mesmo condenado a reintegrar o trabalhador, que por tal reintegração optou, o patrão não o reintegra, tudo isto sem consequências de maior.

Formação adequada e garantia das devidas condições de higiene e segurança no trabalho são coisas que, em muitos sectores e em muitas empresas, em particular, por exemplo, na construção civil e nas indústrias transformadoras (aqueles sectores nos quais se verifica um maior número de acidentes de trabalho), não existem, sendo mesmo consideradas um “custo” que é preciso diminuir a todo o transe ou até eliminar, para assim se garantirem maiores lucros.

E a atividade inspetiva e sancionatória, em particular por parte da propositadamente depauperada e desvalorizada ACT (Autoridade para as Condições de Trabalho) é coisa que também praticamente não existe.

Por fim, em caso de acidente de trabalho ou de doença profissional, os respetivos processos judiciais são uma verdadeira e longuíssima tortura e revitimização das vítimas da doença ou acidente, abandonadas à sua sorte, sem capacidade para guerrear com as poderosas seguradoras e os seus sempre prestáveis peritos. Para mais, com base numa Tabela Nacional de Incapacidades totalmente ultrapassada e inadequada, mas a cuja revisão o omnipotente lobby segurador se tem oposto com êxito desde há décadas.

A generalidade dos trabalhadores portugueses está assim sujeita a que, enquanto podem trabalhar no máximo das suas capacidades, lhes devorem a carne e lhes chupem o sangue, para, assim que sofrem um acidente, ficam doentes ou simplesmente mais velhos e cansados, serem, de forma totalmente indigna, atirados para um canto como um trapo imprestável.

É tempo, pois, de os trabalhadores portugueses e das organizações que dizem representá-los se erguerem, de forma resoluta e firme, em defesa da dignidade de quem trabalha!

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Comunicado do SiLPE – Sindicato dos Leitores de Português no Estrangeiro

O que tem sido anunciado nos últimos dias pelo governo através dos meios de comunicação sobre o novo Regime Jurídico do Ensino Português no Estrangeiro (RJEPE) não corresponde à verdade. Os Leitores têm seguido o processo de revisão com muita apreensão e, não tendo podido ter assento à mesa de negociações, sentem-se obrigados a desenganar a opinião pública sobre este acordo.

1. Proclamam-se melhores condições de trabalho, mas o novo RJEPE agrava as más condições de trabalho existentes e piora ainda mais essas condições.

Aos Leitores é-lhes exigida uma multiplicidade de responsabilidades e funções adicionais àsfunções principais de docentes universitários (gestão de: atividade cultural de embaixadas, Centros de Cultura Portuguesa, Centros de Língua Portuguesa, redes de professores, cátedras de investigação, centros de exames de certificação, etc.), sem limitações na lei nem compensações de nenhum tipo.

O RJEPE proposto não só não limita esta situação, como adiciona novas funções, não diminui a carga letiva atribuída aos Leitores, não prevê o pagamento de horas extraordinárias, nem compensação financeira pela acumulação de funções.

A grande maioria dos Leitores vive e trabalha em países fora da UE, muitas vezes com riscos para a sua segurança pessoal, falta de acesso a cuidados de saúde, ausência de acesso a um sistema de educação adequado para os seus dependentes, isolamento e a grandes e difíceis distâncias de Portugal. Até agora, estas diferenças eram supostamente colmatadas pela atribuição de um subsídio de residência, não atualizado desde os anos 90.

O RJEPE proposto elimina o subsídio de residência, sem introduzir nenhum mecanismo de compensação pelas difíceis condições de vida e trabalho dos Leitores, diferenciando os países (e não os postos) apenas segundo o custo de vida.

2. Proclamam-se “aumentos remuneratórios acumulados, na grande maioria dos casos, de cerca de 20% entre 2027 e 2029”, mas a maioria dos Leitores verá o seu rendimento líquido diminuído.

Os Leitores não veem o seu vencimento base atualizado desde 1999 (e não 2009, como indica o ministro) e os subsídios de residência desde muito antes. Estamos a falar de uma inflação acumulada de cerca de 73% em Portugal, sendo que no país onde trabalham a inflação acumulada é muitas vezes muitíssimo superior. Os Leitores —docentes universitários detentores de mestrados e doutoramentos e anos de experiência—, têm atualmente a sua remuneração equiparada a um índice da carreira docente universitária que já não existe: o de Assistente Estagiário.

O RJEPE proposto proclama aumentos médios de 20%, muito aquém do rendimento perdido pelos Leitores durante as últimas décadas, o qual será implementado apenas a partir de janeiro de 2027 e em fases até 2029. O BCE prevê taxas de inflação entre 2027 e 2029 na ordem dos 6,6%, o que diminui esse aumento de 20% para 13,4%. O governo não pagará retroativos desde janeiro de 2026.

O novo RJEPE alterará a fórmula de tributação dos Leitores, aumentando extraordinariamente os descontos em sede de IRS. O que é proclamado como um aumento, na prática, para a esmagadora maioria dos Leitores (49 dos atuais 56), representa uma perda de até 31% do rendimento líquido, em vários casos igual ou superior a 1000,00€ mensais.

Este RJEPE propõe colmatar esta questão com um suplemento remuneratório transitório pago em 12 meses, o que implica uma redução efetiva do rendimento líquido para os Leitores nessa situação. Os 7 Leitores que não receberão esse suplemento transitório receberão aumentos efetivos de 0,8% (2), 1% (2), 2,3% (1), 4,1% (1) e 13,6% (1). Em suma, praticamente nenhum Leitor verá o seu vencimento aumentado.

3. Proclama-se a valorização dos profissionais, mas não se valoriza o percurso académico e a experiência acumulada, nem se torna a rede de leitorados mais atrativa.

Os Leitores não veem atualmente a sua experiência e formação reconhecidas. Se quiserem mudar de posto, devem apresentar-se novamente a concurso, sendo obrigados a apresentar prova de admissão uma e outra vez, o que é inaudito. O conhecimento não se perde com os anos de experiência; pelo contrário, aumenta e consolida-se.

O governo quer transformar professores universitários em agentes técnicos da língua e da cultura, o que corresponde a uma desvalorização do seu percurso e da sua formação académica, mas opta por um recrutamento e avaliação do desempenho baseados quase exclusivamente em conhecimentos e prestações académicas. A repetição da prova de admissão mantém-se e a experiência não é valorizada.

Atualmente, 17 dos 58 Leitorados existentes (29%) não se encontram preenchidos por Leitores em comissão de serviço. Esta situação deve-se à falta de atratividade dos postos, quer em termos de remuneração quer em condições de trabalho e de vida.

O governo torna os postos difíceis ainda menos atrativos, diminuindo os vencimentos dos novos Leitores e limitando a renovação das comissões de serviço dos novos profissionais da Rede EPE a um máximo de 9 anos.

Este acordo foi obtido sem representação efetiva dos Leitores, que, apesar de sindicalizados em várias frentes sindicais, não sentem que os seus anseios e revindicações tenham sido plenamente defendidos, pelo que decidiram criar um sindicato próprio, o SiLPE – Sindicato dos Leitores de Português no Estrangeiro, com o objetivo de visibilizar as especificidades da profissão de Leitor e as condições nas quais desempenham as suas funções, próprias e acumuladas, assim como defender a justa valorização da profissão.

SiLPE — Sindicato dos Leitores de Português no Estrangeiro
6 de outubro de 2026


categoria-política edicao-2026-10-22 (46) Manifestação Vigília Polícia Lei

Não era uma manifestação. Era uma vigília!

ilustração: Maria Quintas

Na madrugada de 15 de Outubro, perto das três da manhã, a polícia de intervenção carregou sobre algumas dezenas de jovens que dormiam em tendas na Praça D. João I, no Porto. Trinta e nove feridos, dois com gravidade. O argumento oficial é jurídico e parece sólido. A lei de 1974 diz que as manifestações não podem prolongar-se para além da meia-noite e meia. Passava da meia-noite e meia. Logo, a manifestação era ilegal. Logo, a polícia foi “forçada” a intervir.

Quero contestar a premissa, não a conclusão. Aquilo não era uma manifestação. Era uma vigília. E Portugal é, há séculos, um país de vigílias nocturnas.

Todos os anos, de 12 para 13 de Maio e de Outubro, centenas de milhares de pessoas pernoitam ao relento em Fátima. É a maior vigília do país e ninguém a manda dispersar à meia-noite e meia. Em 2010 e em 2017, com dois papas, foram perto de meio milhão. Em Agosto de 2023, um milhão e meio de jovens dormiram no Parque Tejo com o papa Francisco, a maior concentração de sempre em Portugal. Os romeiros de São Bento da Porta Aberta, da Senhora da Agonia, de São João d’Arga, da Peneda, acampam, cantam, rezam, madrugam. Os romeiros de Fátima a pé dormem nas bermas das estradas em Maio. A Vigília Pascal é nocturna por definição. A Semana Santa de Braga enche a cidade pela noite dentro. Na Mesquita Central de Lisboa reza-se até à madrugada na Noite do Decreto.

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E não são só as religiosas. Em 1991 e em 1999 fizemos vigílias por Timor frente à Embaixada da Indonésia e no Terreiro do Paço, várias noites seguidas. Em 1994 os estudantes do secundário dormiram frente ao Ministério da Educação contra a PGA. Em 2008 ocuparam a Reitoria de Lisboa. Em 2011 o Rossio teve tendas durante um mês, com réplicas no Porto e em Coimbra. No 6 de Maio e na Jamaica os moradores velaram as casas contra as demolições. Os professores do STOP acamparam com greve de fome em 2023. Os acampamentos pró-Palestina duraram semanas em 2024. Velámos as vítimas de violência doméstica, velámos Pedrógão, velámos a Ucrânia.

Em nenhuma destas noites o Estado mandou o Corpo de Intervenção às três da manhã.

Uma manifestação é um cortejo, um comício, palavras de ordem, trânsito cortado, ruído. A lei limita-a no tempo porque ela incomoda a cidade. Uma vigília é o contrário. É gente parada, em silêncio, a passar a noite num lugar porque esse lugar significa alguma coisa. A Polícia Municipal do Porto percebeu isso. Pediu apenas que não fizessem barulho. Eles não fizeram. Quem rompeu o acordo não foram os jovens.

Porque é que um país que vela os seus santos, os seus mortos e os seus mártires de Timor não suporta ver velar os seus filhos sem casa?

Eu tenho 68 anos. Falo como pai, não como filho. A minha geração comprou casa com salários de professor e de funcionário. Os nossos filhos e netos, com dois ordenados, não conseguem arrendar um T1 no Porto. Esses jovens não estavam a bloquear uma rua. Estavam a dormir numa praça para dizer que não têm onde dormir. Não há metáfora mais simples nem mais portuguesa. É uma vigília pela habitação, como houve vigílias por Timor e pelos professores.

Aplicar-lhes o artigo da meia-noite e meia, e não o aplicar aos peregrinos de Fátima nem aos jovens do Parque Tejo, não é fazer cumprir a lei. É escolher a quem a lei se aplica. E o Estado que escolhe assim, à noite, com bastões, contra quem dorme, não está a defender a ordem. Está a confessar que o problema da habitação já não cabe no horário de expediente.

A provedora de Justiça e a IGAI já pediram explicações, ainda bem. Mas a pergunta que importa não é se a polícia cumpriu o regulamento, é porque é que um país que vela os seus santos, os seus mortos e os seus mártires de Timor não suporta ver velar os seus filhos sem casa.

categoria-opinião edicao-2026-10-22 (46) “Campismo” Guerra Fria Irão EUA Israel Teocracia

Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹

1.ª parte

O Irão está a atravessar uma fase de excepcional violência e intensidade. Depois do genocídio na Palestina e da destruição em grande escala infligida ao Líbano, os Estados Unidos e Israel participam também na destruição de vidas, corpos, territórios e infra-estruturas vitais no Irão. Têm alvejado não só refinarias e depósitos de combustível, mas também instituições de saúde, recursos hídricos, sistemas energéticos, instalações petrolíferas, escolas e outros espaços civis. Em Minab, uma escola de raparigas foi totalmente destruída e mais de 168 pessoas foram mortas, entre elas crianças baloches. A guerra desfaz as condições da reprodução social, aprofundando ainda mais a vulnerabilidade das classes trabalhadoras. Mina a base material da autonomia social, fazendo recuar vários patamares as lutas dos de baixo e reforçando formas de etno-nacionalismo promovidas pelo Estado ou pela sociedade. A rápida passagem, no espaço de um mês, da promessa de Trump de “voltar a engrandecer o Irão” à ameaça de reduzir o país à “idade da pedra” — uma fórmula que lembra inevitavelmente a linguagem da Guerra do Golfo de 1991 contra o Iraque — dissipou a última réstia de ambiguidade quanto à lógica imperial do que se passa.

Não se pode, porém, entender esta violência imperialista “externa” separadamente da crise interna pela qual a República Islâmica tem tentado restaurar a sua autoridade. Desde a revolta de 2022 a seguir ao assassinato da jovem curda Jina Mahsa Amini pela polícia, a República Islâmica tem sempre procurado, em todas as guerras e crises geopolíticas, maneira de repor parte da autoridade e respeitabilidade perdidas.

O paradoxo do ataque imperialista e da legitimidade do regime

A guerra travada pelo poder colonial genocida israelita contra os palestinianos após 7 de Outubro de 2023, a que se seguiu o primeiro ataque israelo-americano ao Irão, em Junho de 2025, ofereceu à República Islâmica o primeiro quadro de reabilitação. No entanto, o massacre de Janeiro de 2026, em que milhares de manifestantes iranianos foram mortos pelas forças do Estado teocrático em apenas dois dias, simplesmente por protestarem contra a crise económica e a ditadura política, reabriu uma crise de legitimidade aguda para Teerão, a nível interno e internacional.

Estavam os Iranianos ainda de luto, e muitas famílias ainda nem tinham conseguido recuperar os corpos dos seus entes queridos mortos em Janeiro, quando os Estados Unidos e Israel lançaram uma nova invasão imperialista, em 28 de Fevereiro de 2026, ainda mais violenta do que os ataques anteriores. Paradoxalmente, estes ataques têm, para já, ajudado a República Islâmica a recuperar parte da credibilidade que tinha perdido com a repressão sangrenta do mês anterior.

Estes dois acontecimentos, o massacre e a guerra, não constituem sequências separadas nem duas formas opostas de violência — uma repressiva e a outra supostamente libertadora —, mas sim momentos sucessivos, assimétricos até, de um processo contra-revolucionário interligado. A guerra “externa” prolonga e aprofunda a contra-revolução interna, permitindo ao Estado iraniano reforçar a coesão interna e, mais uma vez, abafar a inconformidade popular.

Reconhecê-lo não minimiza de modo algum que o Irão tenha sido e continue a ser alvo de uma agressão imperialista e colonialista levada a cabo com impunidade. Obriga-nos, sim, a ver este ataque em termos da sua função política mais profunda: em primeiro lugar, como empreitada assassina de destruição que alveja vidas, corpos, infraestruturas e territórios civis, posta em andamento com falsos pretextos e extensão da empreitada genocida levada a cabo em Gaza, assim como na Cisjordânia e no Líbano; e, em segundo lugar, como oferta de novos recursos à República Islâmica para a sua própria reconstituição.

O que é o “campismo”?

A agressão israelo-americana reforça a militarização do Irão, a repressão e a esmagamento das revoltas vindas de baixo. Intensifica, também, uma letal polarização política. De um lado, parte da oposição, especialmente os monárquicos, aplaudiu os bombardeamentos imperialistas em nome da hostilidade ao Estado teocrático. Do outro lado, outras forças políticas voltaram a cair na órbita da República Islâmica em nome do anti-imperialismo e da oposição à guerra. Se a natureza reaccionária da primeira destas correntes — pró-Israel, pró-EUA e pró-genocídio — tem merecido pronta oposição, assente num relativo consenso entre as forças progressistas e de esquerda, a segunda tem infelizmente captado partes da esquerda — e é, em absoluto, igualmente significativa.

É neste impasse que a questão do “campismo” ressurge com particular premência. Por “campismo” refiro-me a um leque de posições e tendências que apoiam qualquer força ou Estado com base na respectiva oposição ao imperialismo ocidental, independentemente da sua própria natureza reaccionária ou progressista.

O “campismo” é um legado da Guerra Fria, articulado por auto-proclamados anti-imperialistas e apoiantes do chamado “campo da resistência”, costumando reduzir o mundo a uma lógica binária de dois “campos”: o imperialismo (os Estados Unidos, a NATO, Israel e os seus aliados) versus “a resistência” (o Irão, a Rússia, a China, a Síria de Assad, etc.). Levantamentos democráticos e subversivos contra estes últimos Estados, como o Rojava, vêem-se assim rejeitados, vistos como intrinsecamente suspeitos ou “cavalos de Tróia” do inimigo. Qualquer crítica aos ditadores é de imediato desqualificada como “cumplicidade com o imperialismo”.

Mobilizações populares são reduzidas a meras “correias de transmissão ocidentais”, ou então instrumentalizadas na medida em que possam servir a um dos campos. A lógica do “inimigo do meu inimigo” torna-se um álibi: passa a servir de desculpa para ignorar a repressão interna e os protestos que se seguem, reduzindo-os a meras parcelas de um conflito geopolítico mais vasto.

O resultado é a paralisação da solidariedade mútua internacionalista baseada nas experiências e destinos partilhados das classes oprimidas, agora porém incapaz de segurar anti-autoritarismo e anti-imperialismo na mesma mão. A pretexto de impedir a “exploração imperialista” das revoluções, os campistas tendem a privilegiar uma esquerda estruturalmente marginalizada, “prudente”, não raro condenada à derrota perpétua.

Este “anti-imperialismo assente na identidade” privilegia a lealdade a Estados “anti-ocidentais” em detrimento de uma análise do capitalismo global. E, ao fazê-lo, justifica a repressão, o patriarcado, a homofobia e o colonialismo interno em nome da “resistência”. Dá-se prioridade absoluta à luta contra o imperialismo ocidental, reduzindo-se as vítimas dos Estados “anti-imperialistas” a “danos colaterais”.

O ensaísta irlandês Fred Halliday descreveu este tipo de pensamento como “anti-imperialismo para tolos”. Em nome da hostilidade para com os Estados Unidos, esta postura reforça violentamente, na prática, um Estado teocrático que reprime a esquerda, as minorias nacionais, as feministas e os conselhos populares. O conceito foi posteriormente recuperado pela activista síria Leila Al-Shami no seu livro Burning Country para designar os apoiantes de Bashar al-Assad durante a revolução árabe da década de 2010. Da repressão soviética da revolta húngara de Budapeste em 1956 aos nossos dias, este anti-imperialismo para tolos tem servido de máscara à violência de Estado e ao esmagamento da revolta.

Observa-se tal tendência em certos segmentos da esquerda ocidental branca, mas também em modos de pensamento ligados aos processos de descolonização. Enquadra-se no que se poderia chamar de “branqueamento anti-imperialista”, o uso estratégico da retórica anti-imperialista para ocultar, justificar ou minimizar formas de autoritarismo e violência fascizante exercidas dentro das fronteiras nacionais, especialmente quando os Estados se apresentam como adversários do poder hegemónico ocidental. Embora estas figuras denunciem o colonialismo das potências ocidentais, mantêm muita cegueira, cumplicidade mesmo, para com formas de “colonialismo interno”, forma usada por povos minoritários como os curdos e os baloches para descrever a sua relação com o poder estatal iraniano.

Esta prática é também frequentemente acompanhada por uma forma de manipulação psicológica racial. A forma de manipulação psicológica clássica refere-se à que consiste em pôr sistematicamente em dúvida a palavra e estado mental das mulheres. Tendo o termo inglês “gaslighting” passado a termo de referência em psicologia e, mais tarde, ferramenta crítica do feminismo, ele abrange agora, mais amplamente, um tipo de linguagem política enganosa, violenta e até negacionista. Do estrado do relativo privilégio, “ensina-se” a comunidades historicamente sujeitas tanto à dominação imperial como à repressão interna como hão-de interpretar “como deve ser” o imperialismo e a resistência. Esta postura condescendente não se limita a restaurar hierarquias coloniais de conhecimento; tira legitimidade às ideias e experiências vividas — à própria agência — de quem está sujeito a uma trama complexa de sistemas de violência.

As consequências são bem visíveis. A República Islâmica do Irão instrumentaliza este discurso tributário da “descolonização” para rotular manifestantes de “terroristas” e endurecer o seu aparelho coercivo. É uma lógica que igualmente ajuda a justificar políticas discriminatórias dirigidas contra os migrantes afegãos no Irão: retratando-os como ameaça interna, o Estado alija para cima deles a responsabilidade por dificuldades que derivam realmente do seu próprio regime político, social e económico.

A lógica contra-revolucionária do “campismo”

Após o genocídio em Gaza e a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão em Junho de 2025, o “campismo” voltou a dominar parte da esquerda radical global no Ocidente, bem como na América Latina, em África e no mundo árabe. Ele reduz a política iraniana a um duelo entre o “Irão” e o “eixo EUA-Israel”. As revoltas populares, reprimidas no sangue desde 2017, são passadas em silêncio ou refeitas segundo os moldes do discurso oficial do Estado: “infiltração da Mossad”, “revolução colorida”, “conspiração ocidental” e assim por diante. Transforma-se os movimentos sociais em ameaças à segurança e legitima-se a repressão — da violência de rua às execuções — a pretexto do “estado de emergência” ou da “inoportunidade”. Fazendo do povo que se insurge o inimigo principal, o campismo é, na verdade, profundamente contra-revolucionário.

Sob o regime de guerra permanente que alastra, passa-se o tempo a dizer aos povos em luta que retrocedam, se aguentem aí em nome de uma urgência superior. Até os que reconhecem a natureza repressiva daquelas forças põem amiúde de lado as lutas emancipatórias em nome da estratégia. A isto chamaram Morteza Samanpour e Amir Kianpour “campismo estratégico”. Há muito que se anda a armadilhar as lutas feministas exactamente nesta mesma lógica: pede-se-lhes sempre que esperem, primeiro pela classe, agora pelo anti-imperialismo. Mas o feminismo político tem identificado claramente que a essência do adiar é que “mais tarde” tende para “nunca”. Não se relegue nenhuma luta para a “sala de espera da história” em nome de uma concepção linear de libertação, nem as sacrifiquemos a uma hierarquia de causas alegadamente mais urgentes.

Desenvolvimentos geopolíticos recentes ainda dão maior campo de manobra aos campistas. Durante a guerra de Israel contra o Irão, em Junho de 2025, a que se costuma agora chamar “Guerra dos Doze Dias”, a experiência concreta de destruição reforçou as tendências anti-guerra no interior do Irão. No entanto, após o massacre sangrento perpetrado pelo Estado, em Janeiro de 2026, parte da sociedade, exausta e confrontada com um beco sem saída, começou a ver a intervenção estrangeira, erroneamente, como meio para derrubar o governo, uma vez tentadas sem êxito outras vias internas, e mantendo-se o Estado imune à pressão. Um médico proeminente relatou que, a seguir aos protestos de Janeiro, se tinham apresentado num só hospital, em Teerão, “pelo menos mil” pacientes (manifestantes) com lesões oculares graves, todos a necessitarem de tratamento urgente para lhes tentar salvar a vista.

É precisamente aqui que o “campismo” cai por terra. Condenar a guerra externa ficando em silêncio quanto à violência estatal interna não é uma posição anti-guerra de princípio, mas uma forma de relativismo que apaga diferenças cruciais entre regimes e modalidades de violência. O caso não é uma alegação de excepcionalismo iraniano, invocado para legitimar um ataque militar, como algumas correntes trumpistas e monárquicas fizeram. A questão é, sim, a insistência em que não se possa pôr um sinal de igual entre uma ditadura teocrática em que um chefe não eleito exerce um poder extralegal sobre noventa milhões de pessoas pelo terror social, execuções, tortura, prisão política, isolamento digital, poder religioso misógino e políticas racistas-coloniais para com minorias nacionais e os migrantes afegãos; e Estados em que ainda existem liberdades civis e legais, por mais limitadas que sejam, e onde a violência opera a uma escala e em moldes estruturalmente diferentes.

Condenar, como fazem os campistas, a guerra externa ou a intervenção imperialista sem denunciar explicitamente esta violência interna e o massacre da própria população tanto é, politicamente, tresler completamente as dinâmicas no Irão, como equivale a aliar-se ao Estado contra o povo que ele mata. Os Estados governam dividindo a população e esmagando revoltas. Os campistas não resistem a esta lógica; seguem-na. Ao tomarem os Estados e os respectivos alinhamentos geopolíticos para seu ponto de referência primário, eles reproduzem e legitimam as divisões impostas de cima, substituindo as solidariedades forjadas entre os povos em luta a partir de baixo por lealdades a campos estatais.

(continua)


1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-um filme edicao-2026-10-22 (46) Israel Palestinianos Linguagem Mal

Naza – no silêncio das salas de cinema

Quando, por fim, as luzes da sala se acendem, o que estranha é a imobilidade e o silêncio. Ninguém esboça o gesto de se levantar para sair. Ninguém sussurra para o lado. Ninguém nada. A projeção de Naza, o documentário sobre o extermínio do povo palestiniano em Gaza, acabou. E é como se um peso se abatesse sobre as consciências de quantos assistiram. Mesmo se aqueles que se deslocaram ao cinema para ver Naza estivessem de antemão conscientes do que iriam ver, mesmo se grande parte deles, se não todos, tivessem participado em ações de protesto contra os massacres israelitas na Faixa de Gaza, perpetrados sob o pretexto da sua autodefesa. Apensa silêncio e imobilidade. Longamente.

É assim, uma após outra, das sessões de projeção do filme. Lá do fundo, alguém grita: “Palestina Vencerá!” O slogan é entoado por algumas outras vozes, mas o silêncio regressa à sala que, só aos poucos, começa a agitar-se com as pessoas a levantarem-se para sair.

“Naza” é a designação que, na linguagem burocrático-militar das forças armadas israelitas, nomeia os civis “colateralmente” atingidos ou atingíveis por uma ação militar. Cada ordem de abrir fogo é planificada e, nesse planeamento, está incorporada a estimativa de “nazas” a atingir. “Nazas” são os familiares, as crianças, os anciãos, os bebés e as suas mães que estão no interior de um prédio onde, por exemplo, é suspeito encontrar-se um militar do Hamas.

São militares israelitas dos departamentos de informações, planeamento, artilharia, do departamento político conhecido por “Departamento Bibi” e operacionais no terreno quem explica tudo isto aos realizadores de Naza, os cineastas israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor. Conta um deles que, numa das ordens que recebeu, foram autorizados até “500 nazas”.

A nova “Amtssprache”

Quando, no início dos anos 1960, escreveu sobre o julgamento por Israel do criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann, condenado à morte por enforcamento, Hannah Arendt notou que, apesar de se terem passado quase vinte anos desde o tempo em que o antigo coronel dirigira o tráfego dos “comboios da morte” para os campos de extermínio, a sua linguagem não mudara. Eichmann continuava a usar a terminologia burocrática, a “Amtssprache” — linguagem administrativa —, o burocratês que afasta do crime o criminoso. “Eliminação” e não “assassinato”. “Realojamento” e não “deportação”. “Mão-de-obra” e não “escravatura” são palavras com que a consciência humana se protege da realidade cuja precisão lha tornaria insuportável.

Isso ocorre com o crime “legal” de Estado, perpetrado a grande escala por maquinarias político-administrativas que, ao mesmo tempo que criam a verdade da barbárie, geram a mentira das palavras que a eufemizam e que, no limite, a tornam possível. 

Isto ocorre nos casos extremos de liquidação de populações inteiras, massacres de crueldade inominável, mas também acontece com a “política normal”. O burocratês envolve as políticas antissociais de governos após governos que sabem estar a legislar não para defender as populações cuja vida era suposto melhorarem com o seu poder, mas sim para beneficiar as elites que, mesmo que não lhes pertençam, são pagos para servir.

A expressão geral que Arendt utilizou para falar disto foi “a banalidade do mal”. Um termo que grande parte da maldade e dos seus autores desde então tem banalizado para diluir a sua ação, seja em nome de que poder for, seja em que parte for do mundo.

Ouvir os soldados israelitas que, com vozes tratadas digitalmente e filmados de forma a salvaguardar o seu anonimato, sem que isso possa, todavia, ser confundido com uma filmagem artificial, é regressar às atas de Nuremberga ou Tóquio, no final dos anos 1940. A “razão maquínica” apresentada pelos dirigentes e operacionais nazifascistas de então é a mesma que, mais criticamente ou menos, expõem os militares israelitas que aceitaram falar. 

Une-os aos realizadores de Naza a coragem e a consciência do que foi feito e continua a sê-lo em Gaza, agora com silenciador, como em Cuba. A morte por doença, sede, fome, abandono, privação; a existência a ser extinta até ao seu último suspiro.

Tudo isto é apresentado em registo de conversa, calmamente, sem falsos moralismos, no documentário que explica a destruição de Gaza e dos Palestinianos, casa por casa, ser humano por ser humano, tendo em fundo os terraços de Telavive e as imagens da vida doméstica das famílias israelitas através das janelas dos seus apartamentos nas torres da cidade iluminada. Só por uma vez as imagens nos trazem atroadoramente a brutal violência de Gaza, no final do documentário. Depois, as luzes acendem-se e o som lancinante das vítimas em Gaza dá lugar ao silencio imóvel na sala de cinema.

categoria-um poema edicao-2026-10-22 (46)

(sem título)

O outono come da minha mão a sua folha: somos amigos.
Tiramos às nozes a casca do tempo e ensinamo-lo a andar:
o tempo regressa de novo à casca.

No espelho é domingo,
no sonho dorme-se,
a boca fala verdade.
O meu olhar desce até ao sexo dos amantes:
olhamo-nos,
dizemos algo de escuro,
amamo-nos como papoila e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
ou o mar no brilho-sangue da lua.
Ficamos abraçados à janela, olham para nós da rua:
é tempo que se saiba!
É tempo que a pedra se decida a florir,
que ao desassossego palpite um coração.
É tempo que seja tempo.
É tempo.

Paul Celan
«Corona»
Sete Rosas Mais Tarde — Antologia Poética
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno
Lisboa: Cotovia, 1993.

categoria-crónica edicao-2026-10-22 (46) Humanidade Idade Exercício Fisioterapia

Quatro vintes

Chegou-se-me meio titubeante à mesa da esplanada, no costumeiro e simpático Vai um copo, embora numa interrogação menos convincente do que o habitual. Não, ti J., obrigado. Bebi mesmo agora a bica da manhã, ainda é cedo. Mas o que é que se passa consigo, está mal-encarado, o meu amigo. É pá, não me diga nada. Fiz ontem quatro vintes e estou a passar a pior fase da minha vida. Aquela dos quatro vintes perturbou-me uns segundos, mas logo me recordei de que o agora vacilante companheiro havia labutado largos anos na nossa França de tanta e sofrida emigração. Calma, ti J. Oitenta anos é uma bela idade. Quem me dera lá poder chegar com tudo o que bebo e fumo. Não me diga nada, retorquiu-me logo, seco e de voz triste. Mas então o que se passou, perguntei. Posso, perguntou também, enquanto arrastava a cadeira para se sentar à minha mesa, branquinho fresco a tremer na mão canhota. Soltou um ai dorido, beberricou um gole tremelicante, pousou o copo e olhou-me nos olhos. Repetiu o seu Fiz ontem quatro vinte e estou a passar a pior fase da minha vida. Devolvi-lhe o olhar, entre o curioso e o preocupado, num Então breve a que acrescentei o corriqueiro É verdade que já há algum tempo o não via por aqui.

É pá, não me diga nada. Fiz ontem quatro vintes e estou a passar a pior fase da minha vida.

Pois, nem sabe o que me aconteceu. Conte lá, homem. E ele contou. A minha mulher não sai de casa e decidiu comprar uma passadeira elétrica no supermercado, para andar de improviso e exercitar os joelhos doridos. Andou nela uma ou duas vezes e deixou-a de lado, diz que se cansava e não valia nada contra as dores do menisco. Fez-me confusão o desperdício e vai daí há semanas decidi usá-la eu. Comecei devagarinho, mas depois achei que o ritmo era lento demais e carreguei o botãozinho para acelerar a coisa. Só que feito parvo deixei lá ficar o dedo a apertar a apertar e a passadeira desalmada passou a rolar a cem à hora e eu não a acompanhei. Esbardalhei-me todo, bati com o ombro ou sei lá o quê na esquina de uma cadeira e parti a clavícula, diz o médico. Andei seis semanas com uma armadura para consolidar os ossos, vestir-me e despir-me era o cabo dos trabalhos e agora pronto. Não consigo levantar o braço mais do que isto. Fez o gesto, dorido. E acrescentou Ando agora a fazer fisioterapia. Não tem adiantado nada, mas enfim. Vá, a fisioterapeuta é uma jovem bonita, valha-me isso, nem sei porquê. Com os meus quatro vintes nem o braço nem o amigo mais abaixo se levantam, de que é que me serve ela ser mulher linda? E acabou o branquinho, sem que eu dissesse o que fosse.

Não era uma manifestação. Era uma vigília!
#65 Colectivo Ruptura
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Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, ordem é um nome feminino que designa, entre outras coisas 1) sossego, paz; 2) disciplina (militar ou cívica); 3. boa administração; 4) mandado, autorização; 5) regra; lei. EM NOVILÍNGUA: Por estes dias, nas ruas e praças de Paris, Madrid, Porto e muitas

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O que tem sido anunciado nos últimos dias pelo governo através dos meios de comunicação sobre o novo Regime Jurídico do Ensino Português no Estrangeiro (RJEPE) não corresponde à verdade. Os Leitores têm seguido o processo de revisão com muita apreensão e, não tendo podido ter assento à mesa de

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Os jovens que velavam em tendas na Praça D. João I, no Porto, não estavam numa manifestação. Estavam numa vigília. E não há base legal para reprimir vigílias. Nem em Fátima, nem na Semana Santa de Braga, nem pela Palestina, nem por Timor.

Jorge Van Krieken
Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹ Somayeh Rostampour
categoria-opinião edicao-2026-10-22 (46) “Campismo” Guerra Fria Irão EUA Israel Teocracia

Pelo fim do “campismo”, da guerra no Irão e da “lavagem anti-imperialista” da República Islâmica¹

A autora, socióloga curda iraniana, defende que os opositores da agressão dos EUA e de Israel ao Irão devem ir além do “campismo”, ou não conseguiremos reconstruir uma esquerda genuinamente emancipadora nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular.

Somayeh Rostampour
#65 Colectivo Ruptura
categoria-o tempo contra o tempo edicao-2026-10-22 (46)

#65 Colectivo Ruptura

Tiago Lucas e Pedro Vilão do colectivo Ruptura conversam com Adriano Zilhão, do Maio, sobre a mobilização dos trabalhadores e da juventude, sobre revolução e contra-revolução, passado e futuro: como organizar e construir o combate por um futuro melhor, pelo socialismo.

Jornal Maio
As frentes populares dos anos 30
categoria-aula pública edicao-2026-10-22 (46)

As frentes populares dos anos 30

Qual o significado das frentes populares ou frentes amplas da década de 1930? A França da revolução e do apaziguamento da frente popular. Aula Pública é um programa semanal da historiadora Raquel Varela.

Jornal Maio
Naza – no silêncio das salas de cinema
categoria-um filme edicao-2026-10-22 (46) Israel Palestinianos Linguagem Mal

Naza – no silêncio das salas de cinema

“Naza” é a designação que, na linguagem burocrático-militar das forças armadas israelitas, nomeia os civis “colateralmente” atingidos ou atingíveis por uma ação militar.

Rui Pereira
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-10-22 (46)

(sem título)

O outono come da minha mão a sua folha: somos amigos. Tiramos às nozes a casca do tempo e ensinamo-lo a andar: o tempo regressa de novo à casca. No espelho é domingo, no sonho dorme-se, a boca fala verdade. O meu olhar desce até ao sexo dos

Jornal Maio
Quatro vintes
categoria-crónica edicao-2026-10-22 (46) Humanidade Idade Exercício Fisioterapia

Quatro vintes

Posso, perguntou, enquanto arrastava a cadeira para se sentar à minha mesa, branquinho fresco a tremer na mão canhota.

Adriano Alcântara

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