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Streets of Minneapolis
categoria-um poema edicao-2026-02-05 (14)

Streets of Minneapolis

Pelo gelo e frio do inverno Descendo a Avenida Nicollet, Arrostou a cidade ardente fogo e gelo Sob o tacão dum ocupante. O exército privado d’el-rei Trump, Armas a escorrer pelos blusões, Vinha trazer a lei a Minneapolis Ou assim contaram eles Contra fumo e balas de borracha,

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Democracia​
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-02-05 (14)

Democracia​

Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que significa: 1) sistema político em que a autoridade emana do conjunto dos cidadãos, baseando-se nos princípios de igualdade e liberdade; 2) nação democrata; 3) forma de organização em que todos os membros de um grupo participam em grau semelhante no

Jornal Maio
O vendaval que deixou o Estado a nu
categoria-editorial edicao-2026-02-05 (14)

O vendaval que deixou o Estado a nu

A tempestade Katrin e o seu rasto de destruição deixaram à vista de todos um Estado falhado, desmantelado por décadas de neoliberalismo, e um Governo incapaz de responder à realidade.

Jornal Maio
E se fôssemos honestos?
categoria-crónica Civilidade edicao-2026-02-05 (14)

E se fôssemos honestos?

A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão.

Maria Augusta Tavares
Desventurazinhas
categoria-opinião Eleições Presidenciais Maio edicao-2026-02-05 (14)

Desventurazinhas

Esta é uma resposta ao texto “O desventura”, publicado por Jorge Costa (BE) no esquerda.net em que, na parte final (aquela que fica na retina do espectador) pega num alfinete para atacar uma suposta opção do Maio pelo apelo à abstenção na segunda volta das presidenciais.

António Simões do Paço
Perante as ameaças de Ventura, impõe-se o necessário voto em Seguro
categoria-opinião Eleições Presidenciais Manuel Carlos Silva Seguro Ventura edicao-2026-02-05 (14)

Perante as ameaças de Ventura, impõe-se o necessário voto em Seguro

Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, importa posicionarmo-nos contra as ameaças e mentiras (fake news) de Ventura, mobilizarmo-nos e votarmos efetivamente em António José Seguro para Presidente da República no próximo dia 8 de fevereiro.

Manuel Carlos Silva
Caracas na encruzilhada
categoria-internacional Rui Pereira Venezuela edicao-2026-02-05 (14)

Caracas na encruzilhada

Um mês depois do sequestro do Presidente venezuelano Nicolás Maduro e da deputada e sua mulher, Cilia Flores, começam a poder discernir-se algumas coordenadas da nova situação no país e para além dele.

Rui Pereira
Metro do Porto: trabalhadores da manutenção transferidos durante a greve – um risco para a segurança
categoria-voz dos sindicatos Ferrovia Greve Manutenção edicao-2026-02-05 (14)

Metro do Porto: trabalhadores da manutenção transferidos durante a greve – um risco para a segurança

Os trabalhadores afetos a uma das frotas (CT) do Metro do Porto estão a ser transferidos das suas funções habituais para intervir em avarias de outra frota (ET), com características técnicas completamente distintas, um risco para a segurança.

Bruno Oliveira
Urgências hospitalares: como desbloqueá-las?
categoria-saúde Urgências edicao-2026-02-05 (14)

Urgências hospitalares: como desbloqueá-las?

A limitação dos pontos de acesso e a sua concentração em grandes Urgências respondendo por grandes áreas, levou a dificuldades extremas de resposta a todos os casos.

Carlos Costa Almeida
1143: o ódio e a violência como método político
categoria-antifascismo Crime Mulheres Neonazis edicao-2026-02-05 (14)

1143: o ódio e a violência como método político

Renata Cambra, professora e ativista política de esquerda, tem vindo a receber ameaças de violação e morte por parte do grupo neonazi 1143, liderado pelo criminoso Mário Machado.

Renata Cambra
Streets of Minneapolis
categoria-um poema edicao-2026-02-05 (14)

Streets of Minneapolis

Pelo gelo e frio do inverno Descendo a Avenida Nicollet, Arrostou a cidade ardente fogo e gelo Sob o tacão dum ocupante. O exército privado d’el-rei Trump, Armas a escorrer pelos blusões, Vinha trazer a lei a Minneapolis Ou assim contaram eles Contra fumo e balas de borracha,

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Democracia​
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-02-05 (14)

Democracia​

Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que significa: 1) sistema político em que a autoridade emana do conjunto dos cidadãos, baseando-se nos princípios de igualdade e liberdade; 2) nação democrata; 3) forma de organização em que todos os membros de um grupo participam em grau semelhante no

Jornal Maio
Kristin; A culpa é do vento?
categoria-política Clima Infraestruturas Kristin edicao-2026-02-05 (14)

Kristin; A culpa é do vento?

Na última semana, Portugal foi atingido por uma sucessão de eventos climáticos extremos, com especial destaque para a tempestade Kristin. Na região de Leiria, os seus efeitos foram devastadores, comparáveis a um cenário de guerra

Jonas van Vossole
O vendaval que deixou o Estado a nu
categoria-editorial edicao-2026-02-05 (14)

O vendaval que deixou o Estado a nu

A tempestade Katrin e o seu rasto de destruição deixaram à vista de todos um Estado falhado, desmantelado por décadas de neoliberalismo, e um Governo incapaz de responder à realidade.

Jornal Maio
E se fôssemos honestos?
categoria-crónica Civilidade edicao-2026-02-05 (14)

E se fôssemos honestos?

A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão.

Maria Augusta Tavares
Desventurazinhas
categoria-opinião Eleições Presidenciais Maio edicao-2026-02-05 (14)

Desventurazinhas

Esta é uma resposta ao texto “O desventura”, publicado por Jorge Costa (BE) no esquerda.net em que, na parte final (aquela que fica na retina do espectador) pega num alfinete para atacar uma suposta opção do Maio pelo apelo à abstenção na segunda volta das presidenciais.

António Simões do Paço
Perante as ameaças de Ventura, impõe-se o necessário voto em Seguro
categoria-opinião Eleições Presidenciais Manuel Carlos Silva Seguro Ventura edicao-2026-02-05 (14)

Perante as ameaças de Ventura, impõe-se o necessário voto em Seguro

Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, importa posicionarmo-nos contra as ameaças e mentiras (fake news) de Ventura, mobilizarmo-nos e votarmos efetivamente em António José Seguro para Presidente da República no próximo dia 8 de fevereiro.

Manuel Carlos Silva
Caracas na encruzilhada
categoria-internacional Rui Pereira Venezuela edicao-2026-02-05 (14)

Caracas na encruzilhada

Um mês depois do sequestro do Presidente venezuelano Nicolás Maduro e da deputada e sua mulher, Cilia Flores, começam a poder discernir-se algumas coordenadas da nova situação no país e para além dele.

Rui Pereira
Metro do Porto: trabalhadores da manutenção transferidos durante a greve – um risco para a segurança
categoria-voz dos sindicatos Ferrovia Greve Manutenção edicao-2026-02-05 (14)

Metro do Porto: trabalhadores da manutenção transferidos durante a greve – um risco para a segurança

Os trabalhadores afetos a uma das frotas (CT) do Metro do Porto estão a ser transferidos das suas funções habituais para intervir em avarias de outra frota (ET), com características técnicas completamente distintas, um risco para a segurança.

Bruno Oliveira
Urgências hospitalares: como desbloqueá-las?
categoria-saúde Urgências edicao-2026-02-05 (14)

Urgências hospitalares: como desbloqueá-las?

A limitação dos pontos de acesso e a sua concentração em grandes Urgências respondendo por grandes áreas, levou a dificuldades extremas de resposta a todos os casos.

Carlos Costa Almeida
categoria-um poema edicao-2026-02-05 (14)

Streets of Minneapolis

Pelo gelo e frio do inverno
Descendo a Avenida Nicollet,
Arrostou a cidade ardente fogo e gelo
Sob o tacão dum ocupante.
O exército privado d’el-rei Trump,
Armas a escorrer pelos blusões,
Vinha trazer a lei a Minneapolis
Ou assim contaram eles

Contra fumo e balas de borracha,
Reluzia o amanhecer,
De pé pela justiça,
Na noite a voz ecoou dos cidadãos,
A clemência não teve lugar,
Ficaram pegadas ensanguentadas,
Deitados à morte, dois, nas ruas nevadas
Alex Pretti e Renée Good

Oh, Minneapolis nossa, ouço a tua voz
A cantar na névoa de sangue.
Defenderemos esta terra
E o forasteiro no nosso seio
Aqui, em nossa casa, rusgaram, mataram
No inverno de 26
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis

Espancaram-no os jagunços de Trump
No rosto e no peito,
Soaram depois os tiros,
Alex Pretti jazeu na neve, morto.
Alegaram legítima defesa, senhor juiz,
Nos seus olhos não creia!
São o nosso sangue, os nossos ossos,
Mais estes apitos e telefones
Contra mentiras porcas do Miller e da Noem

Oh, Minneapolis nossa, ouço a tua voz
A cantar na névoa de sangue.
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis

Dizem vir para a lei cumprir,
Mas espezinham nossos direitos
Pele negra ou morena tens, amigo?
Que t’interrogam e deportam à vista!
No cântico «ICE fora, já!»,
Revive da cidade coração e alma
Nos vidros partidos e lágrimas de sangue
Das ruas de Minneapolis

Oh, Minneapolis nossa, ouço a tua voz
A cantar na névoa de sangue.
Aqui, em nossa casa, rusgaram, mataram
No inverno de 26
Defenderemos esta terra
E o forasteiro no nosso seio
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis
Recordaremos os nomes que morreram
Nas ruas de Minneapolis

Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE (Fora ICE)
Fora ICE

Bruce Springsteen

categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-02-05 (14)

Democracia​

Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que significa: 1) sistema político em que a autoridade emana do conjunto dos cidadãos, baseando-se nos princípios de igualdade e liberdade; 2) nação democrata; 3) forma de organização em que todos os membros de um grupo participam em grau semelhante no processo de tomada de decisões sobre esse coletivo.

EM NOVILÍNGUA:

Só que, já cantava (e canta) o Sérgio Godinho: “Há muitos países que julgam que têm democracia / Inclusive às vezes o nosso / Mas encha-se de justiça o fosso e erga-se a liberdade ao meio / Que só de intenções 'tá o inferno cheio. / Não há justiça sem liberdade / O vice-versa é também verdade.” No dia 8 não confundamos a democracia e os seus filhos com algum filho da mãe que também jure por ela. ASP

categoria-política Clima Infraestruturas Kristin edicao-2026-02-05 (14)

Kristin; A culpa é do vento?

Na última semana, Portugal foi atingido por uma sucessão de eventos climáticos extremos, com especial destaque para a tempestade Kristin. Na região de Leiria, os seus efeitos foram devastadores, comparáveis a um cenário de guerra: dezenas de milhares de casas ficaram sem cobertura, habitações pré-fabricadas implodiram, mais de 800 postes de muito alta tensão colapsaram, o estádio municipal foi parcialmente desmantelado.

Uma semana depois, grande parte da população continua sem eletricidade, água ou comunicações móveis; as escolas permaneceram encerradas durante dias. E isto falando apenas da cidade de Leiria, sem mencionar localidades ainda mais fustigadas e isoladas, como Vieira de Leiria ou Pedrógão Grande. Perante a dimensão da destruição, é quase um milagre que o número de vítimas mortais tenha sido relativamente baixo.

Mas não nos enganemos: a culpa não é do vento.

Os chamados “desastres naturais” nunca são apenas naturais. Aliás, a própria “Natureza” moderna, entendida como algo separado do “homem” ou da “civilização”, é uma invenção histórica do capitalismo. Essa separação serve um propósito muito concreto: designar como externo aquilo que estaria fora do controlo e da responsabilidade humana e, ao mesmo tempo, legitimar o seu tratamento como recurso gratuito, passível de colonização e exploração em nome do lucro. Esta imagem falsa — que apresenta a crise como algo inevitável ou exterior — limita a nossa capacidade de ação e naturaliza a inação perante catástrofes que se apresentam como fatalidades.

É por isso fundamental perceber que os desastres chamados “naturais” são sempre, acima de tudo, desastres sociais e políticos. Isso torna-se evidente tanto nas suas consequências como nas suas causas. Eventos catastróficos deste tipo afetam as populações de forma profundamente desigual: penalizam sobretudo quem vive em territórios mais expostos, com infraestruturas precárias, serviços públicos fragilizados e menor capacidade de resposta. Um episódio climático extremo não tem o mesmo impacto sobre quem vive em habitações sólidas e seguras e sobre trabalhadores empurrados para habitações pré-fabricadas, ou obrigados a deslocar-se e a trabalhar durante a noite em condições meteorológicas adversas.

Mas também as próprias causas destes desastres estão longe de ser neutras. As alterações climáticas, amplamente documentadas pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), tornam estes fenómenos cada vez mais frequentes e intensos, refletindo interesses económicos e políticos que colocam o lucro acima da vida. Não se trata de acaso, mas de um modelo económico predatório assente na extração contínua de recursos, na expansão da petroquímica, da agroindústria intensiva e dos transportes fósseis. A isto soma-se a urbanização desordenada, a desflorestação e o abandono do território. A responsabilidade recai sobre um sistema capitalista que coloca o lucro acima da vida — e sobre os decisores políticos que, durante décadas, governaram em função desses interesses.

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Perante a catástrofe, o Estado demonstrou a sua falência. Em vez de uma resposta rápida, coordenada e à escala nacional, assistimos a um Governo ausente, substituindo ação por visitas simbólicas, declarações vagas e selfies. No primeiro dia após o desastre, foram enviados apenas quatro militares para apoiar a Proteção Civil no distrito de Leiria. Só cinco dias depois se decidiu reforçar os meios de forma minimamente adequada. A ministra da Administração Interna admitiu desconhecer planos de prevenção e reação, classificando o ocorrido como um “fenómeno pedagógico” — uma expressão que procura normalizar aquilo que é, na verdade, incompetência estrutural. Décadas de austeridade e privatizações deixaram um Estado incapaz, descapitalizado e sem meios para proteger quem mais precisa.

A fragilidade ficou particularmente clara no setor energético. A destruição da rede elétrica evidenciou a ausência de uma política séria de investimento no reforço, fiscalização e adaptação das infraestruturas às novas condições climáticas. Em vez disso, empresas como a EDP e a REN priorizam a distribuição de dividendos aos acionistas — entre eles a China Three Gorges, a State Grid of China e grandes fundos financeiros internacionais. Coloca-se aqui uma questão simples: quando a população não paga a fatura da eletricidade, o fornecimento é cortado de imediato. Mas quando a empresa falha durante dias, deixando milhares sem luz e sem respostas, onde está a responsabilidade? A segurança das populações, a soberania energética e a resiliência das infraestruturas não podem ser sacrificadas em nome da maximização do lucro. Foi isto que nos trouxeram as privatizações: responder aos acionistas em vez de responder às necessidades coletivas.

O mesmo se aplica às comunicações, que colapsaram quase por completo. A fragmentação entre operadoras, a falta de redundância e a ausência de coordenação pública revelam um setor privado incapaz de garantir um serviço essencial em momentos críticos.

A culpa não é do vento. É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.

Perante o colapso do Estado, foi a auto-organização popular que respondeu. Voluntários distribuíram comida, cobertores e materiais, demonstrando que a solidariedade de classe salva vidas. Este processo tem uma dimensão pedagógica: ensina práticas de cooperação, planeamento coletivo e consciência crítica. A história mostra-o: em 1967, as chuvas intensas que causaram mais de 700 mortos na região de Lisboa tornaram-se um momento central de politização, quando milhares de estudantes se mobilizaram no terreno enquanto o Estado fascista se limitava à repressão e a censura impedia os meios de comunicação de divulgar as dimensões da tragédia.

Mas é igualmente fundamental reconhecer os limites do voluntariado numa sociedade altamente especializada. As pessoas não sabem, nem podem, reconstruir telhados ou redes elétricas em segurança. Os riscos são reais: mais de 600 pessoas já deram entrada nas urgências do Hospital de Leiria com ferimentos associados a trabalhos improvisados de limpeza e reconstrução. A reconstrução exige conhecimento técnico, coordenação e meios produtivos ao serviço da população. Não faz sentido que milhares de trabalhadores da construção civil regressem amanhã à construção de hotéis, enquanto há famílias sem casa, sem eletricidade e à mercê das próximas chuvas.

Onde está a requisição civil? Aquela que surge sem hesitação para limitar direitos laborais, mas desaparece quando é preciso garantir abrigo, reparações e dignidade. É urgente requisitar meios da construção civil, mobilizar trabalhadores qualificados e requisitar alojamento turístico para realojar os desalojados.

A culpa não é do vento.
É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.

categoria-editorial edicao-2026-02-05 (14)

O vendaval que deixou o Estado a nu

A tempestade Kristin e o seu rasto de destruição deixaram à vista de todos um Estado falhado, desmantelado por décadas de neoliberalismo, e um Governo incapaz de responder à realidade.

As sucessivas tempestades que fustigaram o país na última semana puseram a nu o Governo e o Estado. O que ficou exposto foi um Estado falhado, desmantelado por décadas de neoliberalismo, e um Governo incapaz de responder à realidade. Durante vários dias, assistimos a uma ausência quase total do poder público: dezenas de milhares de casas tornaram-se inabitáveis, fábricas foram destruídas, populações ficaram sem água, energia e comunicações — e, durante três dias, nem sequer o 112 funcionou na zona de Leiria.

A resposta governamental foi tardia, irresponsável e esclarecedora. O ministro da Defesa demorou quatro dias a mobilizar algumas dezenas de militares para apoiar as populações afetadas. A ministra da Administração Interna revelou desconhecer a existência de planos de emergência. Pelo meio, o ministro da Economia considerou aceitável afirmar que as vítimas do furacão não precisariam de ajuda imediata por terem acabado de receber o salário no final do mês. Some-se a isto a já conhecida incompetência dos responsáveis pela Saúde — a ministra associada aos bebés nos parques de estacionamento — e pela Educação — o ministro que pretende empurrar os professores para um regime de contratação privada.

Mas não nos enganemos: isto não é apenas incompetência. É vontade política. É programa ideológico. O que aqui se manifesta é um governo que, por fidelidade aos interesses do grande capital, sempre procurou desmantelar o Estado e a coisa pública. Tudo é alvo de destruição: serviços públicos, proteção social, capacidade de resposta coletiva. Tudo, exceto o essencial para o Estado mínimo liberal que serve o capital: novos meios nunca faltam para a polícia, chamada a conter a chamada “ameaça interna” contra a propriedade e a ordem, nem para um Exército orientado para a defesa de interesses geopolíticos e imperialistas, obediente à NATO.

Mas as catástrofes revelam os regimes. As cheias de 1967 também expuseram o Estado Novo: evidenciaram a incompetência dos dirigentes, a censura, e ensinaram às populações atingidas e aos estudantes mobilizados uma lição fundamental: só podiam contar consigo próprios. Daí nasceram processos de auto-organização popular e um verdadeiro momento pedagógico, que conduziu da revolta à organização e contribuiu para o derrube do regime em 1974.

Hoje, o Governo e o Estado atravessam um processo semelhante de deslegitimação. Que este seja também um momento pedagógico: compreender que a ausência do Estado não é um acidente, mas uma escolha política. E que, perante ela, resta-nos fazer o que outros fizeram antes de nós: revoltarmo-nos e organizarmo-nos.

categoria-crónica Civilidade edicao-2026-02-05 (14)

E se fôssemos honestos?

A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão.

Com muita propriedade, alguém disse que a internet se tornou o faroeste da ignorância. A menção à internet, no entanto, não implica exclusividade. A internet é tão somente o meio pelo qual a ignorância é mais rapidamente disseminada, o que não é pouca coisa, na medida em que a proliferação de redes sociais tem suscitado bolhas de informações equivocadas, muitas vezes, falsas e maldosas, as quais são multiplicadas pelo maior fofoqueiro mundialmente existente, um sujeito de nome algoritmo. Esta multiplicação, por sua vez, funciona como estímulo à exposição de pensamentos antes não declarados nem no confessionário.

Seria a ignorância, nos termos aqui enfocados, apenas ausência de conhecimento? Neste sentido, ignorância seria o oposto direto à civilidade? E, sendo assim, a grosseria instalada dever-se-ia ao desconhecimento das normas sociais de convivência? Eu tenho me perguntado se esta discussão não é perpassada pela honestidade ou pela falta dela.

Conduzida pela dúvida, atrevi-me a partilhar o que ora me ocorre sobre civilidade. Percebi que, nas muitas definições encontradas a esse respeito, há em comum a centralidade de conhecidas normas de convívio, orientadas pelo respeito mútuo. Eu destacaria a menor delas: “civilidade é um pacto de não agressão”.

Simples assim. Pois bem, exceto uma colega na universidade que, às gargalhadas, dizia: “É a minha maldade do dia”, nunca conheci outra pessoa que desconsiderasse as regras de civilidade propositadamente, porque isso lhe causasse prazer. E eu que pensava que o saber tornava as pessoas mais evoluídas. Mas, bem, se dentre tantas pessoas com quem convivi tenho apenas este exemplo, não estamos tão mal.

Por que, então, tanta manifestação de incivilidade?

Por pautar-se em fundamentalismos religiosos, por ter tido uma educação conservadora, por não ser capaz de impessoalizar a torcida pelo seu time ou pela sua opção política, até pelo tom como se opina, o pacto de não agressão tem sido quebrado com frequência, o que tende a gerar sérios problemas de relacionamento. Em muitos casos, a convivência torna-se impossível.

Bem, não há dúvida que a civilidade reduz conflitos, no trabalho, na família, nas relações sociais em geral. Mas eu diria que dentre as conquistas civilizatórias a maior delas se expressa nos direitos humanos, no respeito pela dignidade de todos. Convenhamos, se nos restringíssemos apenas a essa dimensão das conquistas civilizatórias, já se justificava a defesa de sua preservação e da progressiva continuidade.

Ser civilizado, a meu ver, é, sobretudo, conceber as diferenças alheias, sem jamais atribuir a si mesmo o mérito do padrão a ser seguido. Essa pequenez, não rara entre sujeitos “civilizados”, é responsável pela destruição de muitas relações, inclusive na família, onde se costuma afirmar o amor incondicional.

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Eu penso que, majoritariamente, preferimos viver entre pessoas e grupos que orientam as suas ações por regras de civilidade, muito embora, quando um tema qualquer nos opõe as conquistas civilizatórias sejam escasseadas. Não preciso, aqui e agora, lembrar de ações humanas que, ainda hoje, remontam à idade da pedra. Ações de autoritarismo, ações preconceituosas, ações desrespeitosas que revelam o pior do ser humano. Em outras palavras, ações que são entendidas como ausência de civilidade.

Se não me engano, foi o dramaturgo romano Terêncio, na antiguidade, que disse “Nada do que é humano me é estranho”. Esta afirmação continua atual e não distingue nacionalidade, escolaridade, condição social, sexo, religião, etc. A civilidade não cancelou a nossa porção perversa, só poliu, amainou, corrigiu o encaminhamento. A exemplo, continuamos assassinos. Matamos pais, filhos, amigos, amantes, principalmente. Quem não? Se você nunca cometeu um assassinato merece o reconhecimento papal e inscrição no catálogo oficial de santos.

Mas, calma lá! Enquanto ser civilizado eu mato e, a depender dos comportamentos pós-morte, eu ressuscito a vítima. Tenho a meu favor, o fato de não ser cristã. Portanto, mato sem sofrer o que para os cristãos constitui um pecado. Com isso, não estou desrespeitando o pacto de não agressão. Apenas uso a porção instintiva e a capacidade imaginativa para organizar um ato mental que me permite reencontrar a minha alegria. Sim, confesso que os detalhes sórdidos do suposto funeral me devolvem o riso. E também o bom senso.

Enquanto ser civilizado eu mato e, a depender dos comportamentos pós-morte, eu ressuscito a vítima.

Com este preâmbulo, eu gostaria de fazer o advogado do diabo, para desmascarar outros comportamentos atuais, que não estão na esfera da ofensa, da difamação ou da agressão, mas são igualmente questionáveis. Também na internet, afloraram as declarações de amor, os elogios exagerados e a constante dissimulação. De repente, todos(as) são lindos(as), maravilhosos(as), excelentes no que fazem e no que deixam de fazer. Abusa-se dos adjetivos superlativos. O escritor Ariano Suassuna, ao criticar o uso banal do termo “genial”, disse: “Se eu gasto o adjetivo genial com o Chimbinha (guitarrista de uma antiga banda brasileira já extinta), o que é que sobra para eu dizer de Beethoven?”

A civilidade requer desonestidade?

Ser civilizado, a meu ver, não implica ausência de objetividade. A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão. Contudo, há muita gente que não resiste à objetividade, preferindo a dissimulação, mesmo que esta seja eivada de mentiras.

Note-se, não estou reivindicando grosseria. Apenas insisto que ser civilizado não implica estar sempre de acordo com o outro. A discordância honesta pode ser fator de crescimento, lembrando que honestidade não é igual à incivilidade. Nessa perspectiva não se justifica a honestidade que nada constrói. Para ser breve, nem a civilidade pautada em mentiras, nem a verdade que agride e distancia.

categoria-opinião Eleições Presidenciais Maio edicao-2026-02-05 (14)

Desventurazinhas

Esta é uma resposta ao texto “O desventura”, publicado por Jorge Costa (BE) no esquerda.net em que, na parte final (aquela que fica na retina do espectador) pega num alfinete para atacar uma suposta opção do Maio pelo apelo à abstenção na segunda volta das presidenciais.

Jorge Costa, dirigente e ex-deputado do Bloco de Esquerda, aproveitou um texto publicado no esquerda.net para um ataque ao jornal Maio.

Saúdo e compartilho a sua tomada de posição sobre a necessidade de votar, na segunda volta das presidenciais, contra Ventura – e em António José Seguro, não em branco ou abstendo-se, para achatar ao máximo o resultado do candidato fascista.

Já não saúdo nem aprecio a forma “capelista” como termina o seu texto, tentando associar o jornal Maio a uma tomada de posição pela abstenção na segunda volta das eleições presidenciais. O Maio, ao contrário do esquerda.net, onde publica o seu texto, não é um jornal de partido. Nestas presidenciais convidou apoiantes de diversas candidaturas de esquerda a explicarem as razões do seu voto neste ou naquele candidato, incluindo a de António José Seguro, a de António Filipe e a candidata do Bloco, Catarina Martins, entre outros. Ninguém defendeu a abstenção, nem para a primeira, nem para a previsível segunda volta. No meu caso, quando defendi o voto na primeira volta em André Pestana, pronunciei-me até sobre a segunda: “Numa segunda volta, em face do que se perspetiva, o meu voto será quase certamente um voto contra. Então se o candidato fascista estiver presente, votarei obviamente contra ele. Contra o fascismo, votaria até numa mula, se fosse preciso.”

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No seu texto, Jorge Costa optou por separar dos parágrafos imediatamente anterior e posterior a uma frase de análise em que se critica a “conivência do PS e seus parceiros com a austeridade”, e se refere que “martirizado(s) pelas políticas de José Sócrates e da ‘geringonça’”, alguns se abstêm, “porque não ve(em) alternativa, não porque se esteja(m) nas tintas para Ventura ganhar”, aquilo que aí se afirma: “Uma vitória de Ventura significaria uma ameaça iminente de violenta degradação dos direitos, liberdades e garantias” e “Pode-se derrotar o fascismo nas urnas, mas só momentaneamente; definitivamente, o fascismo só se derrota nas ruas, nos locais de trabalho, na greve, na luta, na cooperação, nos movimentos associativos e culturais.”

Absolutamente claro, a menos que se esteja com os óculos embaciados.

Aprendi ao longo da vida que para qualquer combate, sobretudo os mais importantes, se procuram aliados, não se inventam inimigos.

Vamos lá derrotar o Ventura!

PS: Balanços sobre a desventurada política do Bloco durante a “geringonça” já há muitos e não é o momento de aqui fazer mais um.

categoria-opinião Eleições Presidenciais Manuel Carlos Silva Seguro Ventura edicao-2026-02-05 (14)

Perante as ameaças de Ventura, impõe-se o necessário voto em Seguro

Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, importa posicionarmo-nos contra as ameaças e mentiras (fake news) de Ventura, mobilizarmo-nos e votarmos efetivamente em António José Seguro para Presidente da República no próximo dia 8 de fevereiro.

Como é sabido, as escolhas dos Portugueses na primeira volta das eleições presidenciais fixaram-se em dois candidatos: António José Seguro e André Ventura. A candidata e candidatos de esquerda Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto, assim como os responsáveis do PS, do PCP, do BE e do Livre e doutros grupos sociopolíticos minoritários, não obstante as críticas na primeira volta a António José Seguro, não tiveram qualquer hesitação em declarar e recomendar a votação neste candidato na segunda volta. Num segundo momento, diversos (ex)responsáveis e figuras do PSD, da IL e do CDS têm vindo a declarar o seu voto em Seguro, considerando as ameaças à democracia representativa e entorses ou mesmo violações, por parte de Ventura, perante o figurino constitucional dos poderes do Presidente da República. O que já é difícil de entender é que, dadas tais ameaças aos princípios constitucionais e à própria democracia representativa, Luís Montenegro, como primeiro-ministro, perante este dilema, normalize o Chega e não se defina por razões calculistas e táticas, nomeadamente a de necessitar do Chega para alguns projetos-lei no quadro parlamentar, certamente lesivos da maioria dos Portugueses como, por exemplo, a contrarreforma do pacote laboral, tal como sucedeu com as leis sobre a imigração e a nacionalidade.

Se, no passado, nomeadamente entre os séculos XVI e XIX, a Europa expandiu parte de suas populações no contexto da colonização noutros continentes, a partir dos anos 1920-30, e sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, conheceu uma evolução em sentido inverso, ou seja, tornou-se importadora líquida de força de trabalho estrangeira por maior acumulação de capital nos países centrais e sobreabundância de mão de obra nos países periféricos. Estas migrações, embora não sejam as causas da atual reemergência do racismo na Europa, proporcionam o contexto, a ocasião ou o pretexto para partidos de extrema-direita como o Chega se aproveitarem das situações de descontentamento e até raiva perante efeitos de políticas neoliberais de sucessivos governos, corresponsáveis do agravamento das desigualdades sociais, da degradação das políticas públicas do ‘Estado Social’ sobretudo nas esferas da saúde, da educação e da habitação, provocando um mal-estar e insegurança socioeconómica de largas franjas das classes populares autóctones. Assim o Chega, como outros congéneres na Europa, não é antissistema, nem apresenta reais soluções para os problemas, mas aponta demagogicamente as minorias étnicas (vg. ciganos) e imigrantes como os ‘bodes expiatórios’ da situação de privação e sofrimento; acicatam o ódio a imigrantes negros e asiáticos, reforçando crescentes tensões e clivagens entre imigrantes e população autóctone, nomeadamente a mais empobrecida. Esta clivagem, contaminando outras forças de direita pela indevida e não comprovada associação de imigração com insegurança e criminalidade, é potenciada pelo facto de haver pessoas desinformadas e manipuladas por alguns media, redes sociais e pelo próprio Chega, sentindo-se aquelas receosas de perder os seus lugares face aos “vindos de fora”. Dada a baixa consciência política de camadas das classes populares e inclusive a presença de preconceitos de supremacia branca, estes são reforçados pelo Chega, nomeadamente por Ventura, que não se cansa de (i) elogiar a ditadura de Salazar (e a necessidade atual de “três Salazares”!), negar o sistema esclavagista implantado pelo secular colonialismo português e propor a deportação de imigrantes e “criminosos” islâmicos ou negros, incluindo legítimas deputadas eleitas para a Assembleia da República como Joacine Moreira; (ii) de pugnar por uma IV República e assumir demagogicamente que o 25 de Abril 1974, a Constituição de 1976 e os partidos daí resultantes e suas elites foram, de modo generalizado, geradores de “corrupção ao longo de 50 anos”, sem distinguir entre os reais casos de corrupção e os avanços e garantias de liberdades e direitos fundamentais (vida, expressão, trabalho, saúde, educação, segurança social, habitação, participação política) graças não só ao derrube do fascismo pelo MFA como às conquistas democráticas por via de comissões de moradores e de trabalhadores, de sindicatos, movimentos sociais, partidos e políticas públicas progressistas; (iii) advogar a necessidade de “implantar a ordem” e um Estado presidencialista securitário sem respeito pela separação de poderes e concretizar propostas contra o Estado de Direito e a Declaração de Direitos Humanos, tais como a castração química, a pena de prisão perpétua, o trabalho forçado para reclusos, a possível perseguição a cidadãos “socialistas” ou “comunistas” ou ainda a retirada da nacionalidade a ex-imigrantes naturalizados como portugueses.

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Em recente entrevista feita a Ventura a 21/1/2026, este, questionado sobre o seu posicionamento face a posturas de violência racista contra muçulmanos por parte do grupo neonazi 1143 – em que teriam estado implicados alguns membros do Chega – não se demarcou. O cientista político Riccardo Marchi – que em livro seu intitulado A Nova Direita Anti-Sistema - O Caso do Chega normalizou, branqueou e legitimou o Chega como partido radical de direita ‘antissistema’, mas não racista, não xenófobo nem de extrema-direita –, considerou acertada a posição de Ventura por, no quadro das atuais eleições presidenciais, não prescindir deste e doutros grupos neonazis pela sua relevância nas redes sociais. O alinhamento do Chega e do seu chefe Ventura com a ideologia autoritária de extrema-direita perpassada de elementos protofascizantes poder-se-á inferir; a) da adesão a slogans demagógicos e messiânicos em torno de “Deus, Pátria e Família” e posicionamentos racistas e xenófobos, expostos nomeadamente em cartazes; b) de propostas mistificadoras de proibição do chamado “marxismo cultural” nas escolas, de ataques antifeministas em torno da chamada ‘ideologia de género’ e outras propostas limitativas de liberdades para pessoas LGBTQI+; c) de hostilidade ao multiculturalismo, em particular a grupos étnico-raciais minoritários e crentes não cristãos, de imposição de assimilação forçada, de confinamento e criminalização de comunidades ciganas e ‘imigrantes’ classificados amiúde como “incumpridores da lei” e “parasitários do Estado Social”; e sobretudo d) da integração do Chega na família política da extrema-direita e/ou partidos/figuras neofascizantes na Europa e no mundo (vg. Vox na Espanha, Liga italiana, Rassemblement National francês, Partido pela Liberdade/Partij voor de Vrijheid neerlandês e outros no Norte da Europa e do Grupo de Visegrado, Trump e Bolsonaro).

Tendo consciência da porosidade de preconceitos étnico-raciais enraizados e clivagens interétnicas, nomeadamente face a ciganos e imigrantes, estamos nesta curva histórica com uma excecional premência.

As sondagens dão vantagem a António José Seguro. Porém, tendo consciência da porosidade de preconceitos étnico-raciais enraizados e clivagens interétnicas, nomeadamente face a ciganos e imigrantes – aliás não valorizadas ou até desconsideradas por vários partidos, inclusive de esquerda – mas constatados em diversos estudos nacionais1, estamos nesta curva histórica com uma excecional premência a nível (inter)nacional, mesmo em relação às eleições presidenciais de 1986. Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, importa posicionarmo-nos contra as ameaças e mentiras (fake news) de Ventura, mobilizarmo-nos e votarmos efetivamente em António José Seguro para Presidente da República no próximo dia 8 de fevereiro, em prol da democracia e pela criação de condições mínimas para novas lutas e conquistas socioeconómicas e políticas.


  1. Cf., entre outros, Vala, J.; Lopes,D. e Brito, R. (1999), Novos racismos: Perspetivas comparativas. Oeiras: Celta; Silva, M.C. (2022), Etnicidade e racismo. Representações sociais de portugueses(as) sobre minorias étnicas negra e cigana no distrito de Braga, Porto: Afrontamento.
categoria-internacional Rui Pereira Venezuela edicao-2026-02-05 (14)

Caracas na encruzilhada

Um mês depois do sequestro do Presidente venezuelano Nicolás Maduro e da deputada e sua mulher, Cilia Flores, começam a poder discernir-se algumas coordenadas da nova situação no país e para além dele.

Judicialmente, o que parece restar, em termos de qualquer acusação possível, é a cada vez mais segura ideia de que o único crime cometido nesta situação foi o rapto militar de um dignitário estrangeiro. A intervenção militar norte-americana infringe, como é óbvio, o direito internacional, mas, inclusivamente, não passou pelas tramitações e autorizações parlamentares que poderiam cobrir de alguma legalidade interna a agressão contra outro país. O disfarce da missão militar como uma “operação policial” é evidentemente desmentido por si mesmo, dados os meios utilizados e a sua própria tipologia.

Por seu lado, em tribunal, da acusação caiu toda a oratória em torno do narcotráfico, ao reconhecer-se que não existia qualquer cartel de los Soles, pelo que Nicolás Maduro não poderia pertencer, estar ao serviço, servir-se ou chefiar uma inexistência. Quem minimamente conheça a Venezuela sabia desde o primeiro momento que a conveniente “norieguização” do processo não tinha qualquer sustentação.

Horas depois da agressão, caía também o argumento da exportação, nem que à bomba, da “democracia”, com Trump a esclarecer que “vamos fazer imenso dinheiro com a Venezuela”. O descoroçoamento da internacional propagandística agravou-se ainda com a queda da tese da falsificação eleitoral, quando o próprio Trump afirmou que Corina Machado não dispunha de representatividade ou respeito no país.

A madrugada de 4 de Janeiro

Duas grandes linhas preencheram o desconsolado vazio argumentativo em que Trump deixou em cacos os legitimadores de turno. A primeira era a de um suposto “abandono” do governo de Caracas pela Rússia e pela China. A segunda respeitava a uma suposta “traição” de Maduro pelos seus mais próximos co-dirigentes.

Trata-se de discurso para mostrar à “claque” doméstica como o poder dos EUA era de tal ordem que nem russos nem chineses ousaram defender Maduro. A segunda linha destinava-se a disfarçar como Trump temera que uma invasão se tornasse numa internamente inaceitável ‘vietnamização’ do caso.

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É ainda difícil precisar o sucedido na madrugada de 4 de janeiro. Militarmente, a operação terá tido, segundo fontes militares venezuelanas, um carácter experimental. Novas ferramentas de guerra eletrónica terão sido usadas para empastelar o espetro radioelétrico e de comunicações analógicas e digitais das Forças Armadas Venezuelanas, nomeadamente dos dispositivos sino-russos de deteção por radar e de reação antiaérea. A confirmar-se, trata-se de um ponto adicional de interesse para a intervenção, a investigação bélica.

Exigência da libertação

Quanto à situação política local, emerge de um sem-número de fontes uma quantidade incontrolável de versões. Confirma-se uma recomposição discreta nos quadros dirigentes, tanto militares quanto civis, a que se soma uma política gradual de libertação de detidos por delitos de motivação política. Acresce uma nova legislação relativa à exploração petrolífera que, todavia, não corresponde à propaganda de Washington. A nova lei prevê, pelo contrário, uma partição 70-30 e não a existente 50-50 em favor do Estado venezuelano no investimento empresarial estrangeiro.

Por saber fica, por ora, para onde e até onde a actual reconfiguração do processo político venezuelano pode dirigir-se, nesta sua terceira fase, depois de Chávez e de Maduro.

O poder chavista lança, entretanto, à escala mundial uma campanha pela imediata libertação de Nicolás Maduro e Cília Flores, que reclamaram em tribunal a condição de “prisioneiros de guerra”. A esta reivindicação juntam-se China, Rússia, os governos latino-americanos não controlados por Washington e uma extensa corrente progressista por todo o planeta.

Por saber fica, por ora, para onde e até onde a actual reconfiguração do processo político venezuelano pode dirigir-se, nesta sua terceira fase, depois de Chávez e de Maduro. O que se sabe de ciência certa é que com ela se atualiza o título de uma velha obra dos anos 1970 intitulada A inquietante América Latina. Um problema, mais um, recolocado à frágil consciência do mundo.

categoria-voz dos sindicatos Ferrovia Greve Manutenção edicao-2026-02-05 (14)

Metro do Porto: trabalhadores da manutenção transferidos durante a greve – um risco para a segurança

Os trabalhadores afetos a uma das frotas (CT) do Metro do Porto estão a ser transferidos das suas funções habituais para intervir em avarias de outra frota (ET), com características técnicas completamente distintas, um risco para a segurança.

Desde o início da greve convocada pelo STMEFE, a 8 de janeiro, têm vindo a verificar-se práticas por parte da empresa que merecem a mais séria preocupação do ponto de vista da segurança, da organização do trabalho e do respeito pelos direitos dos trabalhadores.

É nas oficinas de Guifões que se assegura a manutenção do material circulante do Metro do Porto. Chegou ao nosso conhecimento que os trabalhadores afetos a uma das frotas (CT) estão a ser transferidos das suas funções habituais para intervir em avarias de outra frota (ET), com características técnicas completamente distintas e para as quais não estão normalmente alocados nem familiarizados.

Esta deslocação de trabalhadores entre frotas é de assinalar. Cada frota tem especificidades próprias, procedimentos técnicos diferenciados e circuitos claros de responsabilidade. Ignorar esta realidade, sobretudo em contexto de greve, é introduzir riscos desnecessários num sistema que já se encontra sob forte pressão.

Decisões apressadas, soluções improvisadas e aumento do risco operacional são riscos associados à transferência de trabalhadores da manutenção durante a greve.

Mais grave ainda, estas intervenções estão a ser realizadas fora dos circuitos normais de supervisão técnica associados a cada frota, fragilizando a cadeia de responsabilidade e abrindo espaço a decisões apressadas, soluções improvisadas e aumento do risco operacional.

Não podemos calar-nos: a insistência em manter o material circulante em exploração, recorrendo a expedientes que desestruturam a organização normal da manutenção, está a empurrar o sistema para o limiar da segurança operacional. Este é um problema de todos!

Este não é um problema criado pela greve. É anterior. A greve apenas expõe fragilidades que já existiam: degradação progressiva do material circulante, falta de investimento estrutural na manutenção e uma gestão que insiste em responder a problemas estruturais com soluções de curto prazo.

Ao invés de enfrentar estas questões de fundo, a empresa opta por tentar neutralizar os efeitos da greve através da reorganização informal do trabalho, transferindo riscos para os trabalhadores e, em última instância, para quem assegura a condução e a segurança da circulação. Mais uma vez, um problema para todos nós.

O STMEFE reafirma que o direito à greve não pode ser contornado à custa da segurança ferroviária. A exploração do Metro do Porto exige rigor técnico, respeito pelos procedimentos e reconhecimento de que a segurança não se compadece com atalhos nem improvisos.

A defesa dos trabalhadores é indissociável da defesa da segurança da exploração. Quando uma falha ocorre, quem está na linha da frente são sempre os mesmos. Quando uma falha ocorre, quem paga somos nós.

categoria-saúde Urgências edicao-2026-02-05 (14)

Urgências hospitalares: como desbloqueá-las?

A limitação dos pontos de acesso e a sua concentração em grandes Urgências respondendo por grandes áreas, levou a dificuldades extremas de resposta a todos os casos. Sem médico de família, sem centro de saúde aberto e com vaga de atendimento, sem terem quem os trate, os ajude, os oiça, os doentes afluem às Urgências e entopem-nas.

Há situações clínicas que levam à necessidade de uma intervenção rápida, de urgência, seja no plano terapêutico seja no simplesmente diagnóstico, quanto mais não seja para se poder afirmar, ou supor com alta probabilidade de certeza, que não é preciso um tratamento urgente. Claro que muito do que não é uma urgência para um médico, depois de observar um doente, pode para este ser um quadro de extrema urgência, fonte até de enorme angústia e de ansiedade, as quais, só por si, podem afectar o seu estado de saúde. Mas para se desfazer essa confusão com o veredicto médico, implica que o doente seja observado enquanto tal.

Os hospitais, e de uma maneira geral as instituições de saúde, têm habitualmente um serviço de urgências, onde são concentrados os meios tecnológicos e humanos que permitam o diagnóstico e as intervenções terapêuticas do modo rápido que as urgências que a ele acorram impliquem. É natural, pois, que as urgências vão às Urgências.

Mas a noção de urgência varia. Varia desde logo no seu grau clínico, de maior ou menor urgência, e varia também na noção que o próprio doente tem dela, e que não se pode, nem deve, simplesmente ignorar. É muito importante que os casos emergentes, ou muito urgentes, sejam atendidos imediatamente, ou muito rapidamente, e os outros o sejam de acordo com o seu grau de urgência, mas o sejam, e atempadamente.

No entanto, há também muitos doentes que vão às Urgências sem terem realmente urgência as suas situações clínicas, apenas pelo facto de elas existirem e precisarem de ser observadas e orientadas, diagnosticadas e tratadas na medida do possível. Estes vão aumentar com certeza muito a afluência às Urgências, e são frequentemente invocados como uma das maiores causas do superpovoamento daqueles serviços.

Quando, no início dos anos 80, trabalhei como cirurgião no Reino Unido, a afluência de doentes às Urgências dos grandes hospitais centrais era relativamente pequena, sem causar aflições e atropelos, nem demoras. Os cirurgiões de serviço estavam, naturalmente, em presença física nos hospitais, mas de chamada à Urgência. Ainda com “bips”. Cada hospital integrava uma rede de outros hospitais e centros de saúde, e de consultórios de general practitioners (clínica geral), onde os doentes se podiam e, na verdade, deviam dirigir antes de serem enviados à Urgência de um hospital mais diferenciado. Sem ser por motivos emergentes, ou de grande acidente, só iam à Urgência do hospital enviados pelo seu GP, ou por outro médico que primeiro os tivesse observado.

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Foi no final dessa década que a primeira-ministra Margaret Thatcher revolucionou o NHS (National Health Service), no mesmo sentido do que cá foi feito mais tarde: encerrando maternidades e hospitais mais pequenos, fechando Urgências, retirando a possibilidade de recurso aos centros de saúde e consultórios em situações de urgência, concentrando os doentes nas Urgências hospitalares, tornada cada uma das sobreviventes maior para poder dar maior e melhor resposta, segundo o propalado “efeito de escala”. E foi logo no início da década seguinte (em 1994) que houve necessidade de criar um sistema de triagem de doentes (em Manchester, a triagem de Manchester) para se conseguir receber com alguma eficiência e segurança o enorme número de doentes que tinham passado a inundar as Urgências hospitalares no Reino Unido. Pelas nossas bandas, as mesmas causas tiveram os mesmos efeitos.

A limitação dos pontos de acesso e a sua concentração em grandes Urgências respondendo por grandes áreas, levou a dificuldades extremas de resposta a todos os casos, desde os muito urgentes ou emergentes aos com menos urgência, ou mesmo sem urgência e que por esse motivo chegam a esperar 15, 20 e mais horas para serem atendidos! Algumas vezes acabam por desistir, sem o problema resolvido nem sequer orientado.

Será que a resposta a um número cada vez maior e incomportável de doentes nas Urgências é proibir doentes de irem lá?

Perguntam alguns então, com ar horrorizado, por que razão casos não urgentes procuram as Urgências? Não por loucura, é óbvio, simplesmente porque não têm mais a quem recorrer, uns sem médico de família, outros sem centro de saúde aberto e com vaga de atendimento, ou uma qualquer pequena urgência, todos sem ter quem os trate, os ajude, os oiça. Ou a ter de esperar uma ou duas horas para conseguir falar (se conseguirem) com alguém ao telefone sobre a ferida que têm há dois dias num pé ou da dor nas costas que os incomoda. É difícil compreender?

Será que a resposta a um número cada vez maior e incomportável de doentes nas Urgências é proibir doentes de irem lá? É difícil entender que as dificuldades crescentes nas Urgências hospitalares (públicas, mas cada vez mais nas privadas também) têm uma origem a montante, de há anos para cá e agravando-se cada vez mais, decorrendo de uma política de saúde errada e em que se insiste? E que não é nas próprias Urgências que se encontra a sua solução? É assim tão difícil olhar para trás e ver o que se passou? Talvez perguntar a quem sabe fosse uma ideia a ter.

Há tempos, um amigo e colega que muito prezo contou uma parábola muito oportuna numa reunião de trabalho sobre assuntos de saúde. Numa fábrica de pregos havia várias secções destinadas ao fabrico de diferentes variedades de pregos. Mais compridos, mais curtos, mais finos, mais grossos, de cabeça grande, cabeça pequena, redonda, quadrada, enfim, para tudo o que fosse preciso. A partir de certa altura houve uma modernização na maquinaria e começaram a surgir pregos tortos, de todos os tipos. E a direção da fábrica apresentou a seguinte solução: criaram uma nova secção, destinada a endireitar todos os pregos tortos produzidos. O problema foi essa secção não dar vazão ao trabalho que tinha, pelo que teve de ir sendo exponencialmente aumentada, cada vez com maior custo.

Uma parábola é um texto curto, geralmente em forma de narrativa, que usa personagens, acções e situações simbólicas para ensinar algo profundo de forma simples. De carácter ético, moral, espiritual, ou da organização da saúde num país.


O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

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#38 Está tanto por dizer, e por cantar
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categoria-um poema edicao-2026-02-05 (14)

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Pelo gelo e frio do inverno Descendo a Avenida Nicollet, Arrostou a cidade ardente fogo e gelo Sob o tacão dum ocupante. O exército privado d’el-rei Trump, Armas a escorrer pelos blusões, Vinha trazer a lei a Minneapolis Ou assim contaram eles Contra fumo e balas de borracha,

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Democracia​
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Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que significa: 1) sistema político em que a autoridade emana do conjunto dos cidadãos, baseando-se nos princípios de igualdade e liberdade; 2) nação democrata; 3) forma de organização em que todos os membros de um grupo participam em grau semelhante no

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Esta é uma resposta ao texto “O desventura”, publicado por Jorge Costa (BE) no esquerda.net em que, na parte final (aquela que fica na retina do espectador) pega num alfinete para atacar uma suposta opção do Maio pelo apelo à abstenção na segunda volta das presidenciais.

António Simões do Paço
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categoria-opinião Eleições Presidenciais Manuel Carlos Silva Seguro Ventura edicao-2026-02-05 (14)

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