Pornografia

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Onde se esconde o pornográfico? 
No púbis rapado de uma mulher de coxas expostas
no pénis erecto de um amante excitado 
no ousado perfil de um corpo chamando desejo 
ou no ventre cheio de uma criança subnutrida?

Onde se esconde o atentado à moral? 
No custo sem preço de uma bala perdida 
no peito de balas violado de uma camponesa 
no sexo à baioneta trespassado de uma mãe indefesa 
ou na sofreguidão com que bebo da tua boca querida?

Onde se esconde a pouca-vergonha? 
Na sorte sem nome de um refugiado 
no destino sem sorte de um raptado 
ou nos teus seios nus de moça atrevida? 

Onde se escondem as moscas e a porcaria? 
No brinco inútil de uma orelha cortada 
na cirurgia de um nariz de plástico 
ou na carícia das nossas mãos trocando alegrias? 

Pornográfico será o lençol de sémen manchado 
ou antes e sempre o vermelho do sangue na terra semeado?

Adriano Alcântara
Publicado originalmente em Xiphefo, nº 4, Fevereiro-Março de 1988 (Inhambane, Moçambique)

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