O complexo militar-industrial português
A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O Governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro. Porém, nos últimos cinco anos, Portugal construiu uma indústria militar surpreendentemente forte.
ilustração: Ricardo Ferreira
Portugal não teve sempre um complexo militar-industrial. Historicamente dependente de armamento estrangeiro, o país só começou a desenvolver uma indústria de defesa e aeroespacial independente na década de 1960, para sustentar as guerras coloniais. Na época do seu império global, viveu principalmente do poderio naval, adquirindo a maior parte do equipamento pesado a fornecedores estrangeiros. Mesmo depois de aderir à NATO, em 1949, continuou a carecer tanto de siderurgia pesada como de uma indústria de armamento, dependendo de importações.
A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro.
Agora, porém, no século XXI, Portugal construiu, nos últimos cinco anos, uma indústria militar surpreendentemente forte. A indústria de defesa cresceu rapidamente graças à inovação no sector privado, a par de subsídios do Estado e colaborações com a academia. O sector consta de uma rede altamente rentável e de alta tecnicidade de mais de 160 organizações, representadas pelo AED Cluster Portugal (Aeronáutica, Espaço e Defesa).
O complexo militar-industrial português não produz blindados em massa; é altamente especializado, fortemente baseado no modelo da “hélice tripla” que, integrando forças armadas, laboratórios de investigação universitários e fornecedores privados de tecnologia, cria tecnologias de “uso dual” (ou seja, civil e militar). As universidades portuguesas têm aumentado o seu investimento na investigação e desenvolvimento de armamento e outras tecnologias bélicas.
A produção de armamento dá muito dinheiro a ganhar, e muitas empresas portuguesas deram por isso. O sector português da defesa regista o seu maior crescimento desde que o país aderiu à União Europeia. Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo. A indústria da “defesa” portuguesa emprega agora cerca de 20 mil pessoas e gera receitas anuais superiores a 2100 milhões de euros. “E a tendência é ascendente”, indica José Neves, presidente da associação do sector, a AED Cluster Portugal, que engloba mais de 160 organizações portuguesas que trabalham nas áreas da aeronáutica, do espaço e da defesa.
Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo.
Para cumprir a meta acordada pela NATO de gastar 5% do PIB na defesa, o Governo também está a adquirir activamente equipamento ao estrangeiro. Lisboa compra fragatas à Itália, tanques à Alemanha e novos caças. Em Outubro do ano passado, o Governo português anunciou um aumento recorde das despesas militares para 2026. O orçamento da defesa aumentou quase 3800 milhões de euros, ou mais 23,2% em comparação com 2025.
Esta recente expansão está directamente relacionada com a guerra na Ucrânia e com a campanha de propaganda sobre a chamada “ameaça russa” à segurança da Europa. Portugal tem sido aliado da Ucrânia desde o início da invasão russa. O Governo contribui com dinheiro dos contribuintes para o mecanismo PURL, que medeia a compra de armas dos EUA para a Ucrânia. Estão a ser usados na Ucrânia drones e sistemas de comunicação portugueses.
Se bem que ainda possa ser relativamente pequeno em termos globais, o complexo militar-industrial português tem-se desenvolvido em subsectores de nicho de alta tecnologia mais do que na produção de equipamento tradicional. Há empresas portuguesas a fabricar drones ou componentes para grandes grupos internacionais da defesa. Empresas como o fabricante de drones Tekever ou a Critical Software são parceiros de confiança do sector da defesa à escala internacional, quer como fornecedores, quer — cada vez mais — como fabricantes de produtos acabados. Empresas como a Critical Software desenvolvem sistemas aeroespaciais e de defesa complexos, incluindo software de voo e interfaces-utilizador de co-piloto usadas por parceiros internacionais como a Saab. Portugal também investe muito na vigilância marítima, nas comunicações navio-costa e em navios auxiliares.
Para cumprir os ditames da NATO e modernizar as suas forças, Portugal está a proceder activamente a uma revisão da sua presença militar. Entre os reapetrechamentos mais importantes contam-se a modernização dos submarinos da classe Tridente, a integração de sistemas de recepção de alertas para a frota de F-16 e a reabilitação de centros estratégicos como a Base Aérea de Montijo e a Base das Lajes, nos Açores, mantida pelos EUA. O Governo está actualmente a conduzir um grande projecto de aquisição que visa a potencial substituição da sua frota de caças F-16 em obsolescência, estando nos pratos da balança jactos americanos caros e alternativas europeias, como o Gripen sueco.
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A empresa sueca de defesa Saab almeja vender a Portugal o seu sistema Gripen de avião de caça. “O Gripen-E seria uma solução verdadeiramente europeia”, segundo Daniel Boestad, vice-presidente do programa Gripen na Saab. A empresa aeroespacial portuguesa OGMA poderia fabricar peças para a aeronave, tal como já faz, designadamente, para a empresa brasileira Embraer, adquirindo Portugal, em troca, à Embraer aviões de transporte militar. “Além disso, estamos a analisar o potencial de alargamento da cooperação nas áreas da produção e MRO”, observou Boestad; a sigla MRO cobre a manutenção, reparação e revisão.
A empresa portuguesa Critical Software tem em desenvolvimento um simulador de voo para o Gripen-E. “Estamos a trabalhar com a Saab, porque é um desafio interessante e porque nos identificamos com o projecto”, refere João Carreira, director executivo da Critical Software. A sua empresa começou com apenas três colaboradores, em 1998, tendo, entretanto, crescido e passado a ser uma empresa internacional com cerca de 5 mil empregados. Inicialmente, a empresa produzia software para as fragatas da Marinha portuguesa. Actualmente, a Critical Software opera joint ventures com empresas como a BMW e colabora com empresas alemãs do sector da defesa como a Diehl e a Rheinmetall.
A enorme expansão da indústria de armamento portuguesa faz parte de uma viragem europeia para aumentar a despesa com a defesa, apoiada por financiamentos da UE. A Europa não está apenas a rearmar-se, está a reorientar a sua base industrial da produção civil para a produção militar, e Portugal está discretamente a aproveitar a onda.
Tudo isto é óptimo para os fabricantes de armas, mas pouco valor acrescenta à economia geral. Estima-se em não mais de 0,5% do rendimento nacional a contribuição central directa da próspera indústria militar/de defesa portuguesa, que emprega apenas 0,4% da força de trabalho. A defesa nunca será grande contribuinte para a prosperidade do país, ainda que renda milhões de euros às empresas envolvidas. E afectar preciosos recursos e mão de obra à produção de armas para matar e destruir vidas e meios de subsistência reduz os recursos disponíveis para investir em necessidades sociais reais e em melhorar a vida das pessoas.
Tradução de Adriano Zilhão.
Michael Roberts
Economista