Jornal Maio

Até sempre, Mariano!

Na morte de António Mariano, que presidiu ao Sindicato dos Estivadores e à frente deste travou grandes lutas contra a precariedade, com vitórias e derrotas, Raquel Varela recorda o amigo e companheiro de algumas dessas batalhas.

Raquel Varela

Raquel Varela

Historiadora, professora universitária

Morreu o meu amigo e ex-presidente do Sindicato dos Estivadores, António Mariano. Este é um texto muito difícil para mim. Porque cruza-se com as feridas de Portugal. Com as nossas glórias e derrotas, como país, questiona o movimento sindical, como um todo e também, imaginem, ilumina a greve geral de 23 de janeiro em Minneapolis, a primeira nos EUA desde 1946, contra o ICE. 

Conhecemo-nos no British Bar em Lisboa, quando ainda se podia conspirar aí. Os estivadores faziam então um tipo de greve genial que eu só conhecia como historiadora, nunca tinha visto na realidade: “paramos se entrar aqui algum precário.” Todos os que entram têm de ter contrato. Contrastava com o sindicalismo pós 1980: “somos contra a precariedade, mas assinamos, podem vir os precários desde que para os mais velhos os direitos se mantenham”. Este é o resumo brutal do sindicalismo português desde 1980. 

Queixam-se, mas assinam. E assinam lixar os mais novos. Lixando-se a si próprios. Porque isso destrói as relações sociais como um todo, a segurança social, etc. Por isso, hoje, num local de trabalho há dez pessoas que fazem o mesmo, todas com condições de trabalho distintas. Veja-se agora o silêncio, espero que por desconhecimento, perante a aprovação pela AD de que os novos professores serão todos precários.

Foram os estivadores que fizeram a manifestação “Precariedade nem para nós nem para ninguém”. Um cartaz lindo do Pedro Páscoa e essa palavra de ordem, que tanto debatemos. O Mariano olhava a classe trabalhadora como um todo. E pensava como um homem político. Tudo é política. 

Quando lhe perguntaram até onde iriam os estivadores, ele respondeu, com a calma que o caracterizava: “Até o governo cair.” Foi aí que eu vi aquilo e liguei-lhe. Marcámos encontro no British, com uma cerveja branca. Não nos conhecíamos pessoalmente, sabíamos da existência um do outro. Selámos um pacto que cumprimos: dizer sempre a verdade. 

Pouco depois, ele deu-me um presente de luxo. Pediu-me para explicar, numa reunião no sindicato internacional dos estivadores no Reino Unido, como a precariedade, se avançasse em Lisboa, ia contaminar todos os portos. Aprovada aqui, passariam para Algeciras, dizendo que se Algeciras não cumprisse iam para Lisboa, Tânger, Barcelona, até chegar a Gotemburgo. Eu estava cheia de febre com uma amigdalite, mas meti-me no avião com ele, aterrámos na reunião. Ele falou, determinado, sabia para onde ia e como ia, e tinha uma base organizada em plenários regulares, era essa a sua força. Falei eu a seguir, algumas perguntas e o John Harrison, um gigante do afeto e da luta, estivador dinamarquês, pede a palavra: “Nós, estivadores dinamarqueses, queremos bloquear as cargas para Lisboa. Por nós, podemos já passar à votação”, dito naquele estilo dele, não me tirem mais tempo. O John é daqueles que quando teve de ir ao diálogo social em Bruxelas, que ele é contra, sai e fica a beber cervejas. Eu vi o Mariano e o John, e pensei: “Agora os livros que li ganharam vida, eles existem.”

Esta foi a única greve europeia de solidariedade na crise de 2008. Fizemos história com ele, Mariano. Teve lugar, os patrões cederam um dia depois. Tínhamos vencido. Era o internacionalismo operário.

Seria impossível contar-vos aqui todos os momentos por que passámos. Eu ouvia-o fascinada. Ele ouvia-me com respeito, e pensava muito. Tínhamos reuniões de debate político, em torno de uma revista, a Rubra, porque ele “queria perceber o que se estava a passar no país”. Não era figura pública, era muito melhor, era um organizador coletivo. 

Foi assim que eles prepararam a batalha de Setúbal. Durante meses reuniram em plenário com os precários, fizeram um fundo de greve dos fixos para os precários, e quando entraram em greve, venceram. Na altura estive lá, dias e noites, ajudando, orgulhosa, solidária. 

O melhor, lamento, não posso contar. Porque, como sabem, há um Estado e uma lei, e os estivadores sabiam que o Estado e a lei eram seus inimigos.

Foi por inspiração desse trabalho coletivo, de que o Mariano era o organizador chave, que nasceram sindicatos independentes combativos – porque ele percebia que os estivadores sozinhos seriam derrotados. Solidário com professores, motoristas, enfermeiros, AutoEuropa, quantas horas e horas dedicámos a isso, entre eles o Carlos Renato Teixeira e tantos de nós, dezenas de nós, em tantos sectores, eles eram um exemplo de solidariedade real (fundos de greve entre fixos e precários), democracia real (plenários regulares sem manipulações administrativas e, claro, garra. Em vez do queixume. Sujeitos e não vítimas. 

Éramos amigos, fizemos tantas patuscadas, ele era um grande cozinheiro – o que, já se sabe, é logo uma razão para a morte ser proibida; era um homem radicalmente honesto, reflexivo.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Os estivadores foram derrotados em 2020. E a sua derrota foi a nossa, porque ele tinha sido a chave da organização de um sindicalismo que fazia lembrar o PREC e o socialismo de Antero. E quando eles, estivadores, foram derrotados – com uma estratégia de luta da qual discordei, e nunca em momento algum a nossa amizade se perdeu por isso –, no primeiro dia do estado de emergência da Covid, tive de lutar contra o desânimo. 

Quando no Governo da Geringonça vi que as greves iam diminuindo e aumentando as “audições parlamentares”, quando Pedro Nuno Santos aparecia como o tipo porreiro “preocupado com os estivadores”, e já o Chega espreitava, os salários tinham caído com a Troika e a Mota Engil tinha ido ganhar mais para a ferrovia, e uns “turcos” tinham comprado a concessão do porto, aí começou o que fizeram na Lisnave: salários em atraso. Assim é a burguesia delicada. À facada.

Eu disse o que pensava: isto só vai lá com greves, sem audições parlamentares que não servem para nada, é preciso exigir a nacionalização dos portos e emprego público. Essa deve ser a estratégia. Nenhuma luta coletiva se ganha em tribunal. 

O governo da Geringonça não está junto de quem trabalha, os de direita muito menos. A esquerda entreteve o caso no parlamento. A extrema-direita quer – em vez da força solidária dos estivadores com os precários – a violência contra os mais frágeis. Contra a luta comum de todos, os fascistas e neonazis semeiam armas, o ódio contra imigrantes e precários. Estão ao serviço dos patrões.

Sem qualquer apoio real de qualquer outro grande sindicato, com meses de salários em atraso, o Governo de Costa aprova um estado de emergência que no primeiro dia da Covid proíbe as greves, e nesse mesmo dia os estivadores de Lisboa veem o acesso ao porto bloqueado com uma carta de despedimento coletivo. As medidas de saúde podiam ter sido feitas ao abrigo da lei de saúde pública, mas Costa escolheu uma que proibia a greve em pleno pânico nacional (e assim derrotava os estivadores que queriam ter salários seguros e decentes). Costa, o homem da guerra, que ganha 35 mil euros/mês. 

Depois desta derrota, o meu irredutível apoio aos estivadores e contra o estado de exceção foi a real razão, junto com a minha contratação na universidade, de uma campanha negra de um jornal dito de referência e mais uns membros da Geringonça na universidade, hoje em cargos de direção a gerir força de trabalho. Entrei num longo período de silêncio público sobre a derrota dos estivadores. Não falei nunca dessa derrota, porque senti que as circunstâncias que recaíam sobre eles eram esmagadoras.

 

Pode parecer exagero, porque as derrotas contam, mas morreu o maior dirigente sindical português desde os anos 1980.

 

Fiz uma reflexão política pessoal, que me levou a escrever um livro. Nesse livro, que escrevi com o meu marido e companheiro intelectual, respondia ao desafio do meu marido, Roberto della Santa: “tens de submeter à teoria da história o teu coração sindicalista revolucionário, o que aconteceu estava escrito que ia acontecer”. Ele escreveu o livro a pensar na formação social em que vivemos, contra as ideias de um país que teria 900 anos, eu fiz a psicanálise do sindicalismo português, foi um empreendimento amoroso a nossa Breve História de Portugal. Concluímos que a burguesia portuguesa não existe hoje, e que a crise de direção política dos trabalhadores passa justamente pela ausência de estratégia política. Foi assim no PREC e foi assim no século XIX.

Sem uma coordenação política das lutas (um ou mais partidos, ou organizações) nos locais de trabalho que pensem politicamente o país, todas as greves, mesmo as mais radicais e combativas, serão derrotadas. Tanto que o sindicato internacional dos estivadores dividiu-se em dois, o europeu que mantém o espírito, e o dirigido pelos americanos da costa leste, que apoiam Trump!

O Mariano, quando começou a greve em Inglaterra em 1997 de fixos com precários, conheceu os dirigentes estivadores sindicalistas revolucionários da Suécia, o Peter, e trotskistas dos EUA e da Austrália, como o Bob Carnegie e o Jack Heyman. Este último começou a lutar contra a guerra do Vietname e bloqueou os portos contra a guerra do Iraque. E que romperam com a todo-poderosa Internacional Transport Federation, a burocracia sindical mundial que manda nos transportes, entre eles nos portos de Hamburgo e Roterdão. São uma âncora do capitalismo. 

O Mariano ficou fascinado com o filme do Ken Loach sobre essa greve, A Chama Ardente. O Mariano era o regresso do espírito de Antero, na sua dupla dimensão, um olhar radical para a sua classe trabalhadora, mas ainda assim demasiado longe da política. Faltaram ainda mais uns pozinhos de política para não sermos derrotados. 

A vida dele – estive lá, com eles, em São Francisco ou Brisbane, na Austrália – é a dos homens que embargaram as armas contra o apartheid, pararam contra a invasão do Iraque e o genocídio em Gaza. A vida dele esteve entrelaçada com a esperança que nasceu de um novo sindicalismo solidário, político e combativo em Portugal. E com períodos de luta contra a guerra e o capitalismo. Cujas armas e peças de drones circulam pelos contentores que eles descarregam. E também que eles podem parar. 

Podia dizer que o Mariano foi um homem e as suas circunstâncias. A verdade é que ele foi além das circunstâncias. Pode parecer exagero, porque as derrotas contam, mas morreu o maior dirigente sindical português desde os anos 1980. Ele trouxe-nos a organização real entre a classe trabalhadora, ele empenhou-se nisso a sério, ele deu-nos esperança. Até sempre, companheiro!