Os vencedores agora podem reescrever a história através da IA generativa. Mas qual o sentido de recorrer a uma tecnologia que falseia e deturpa?
Os múltiplos exemplos de erros, imprecisões, invenções e falsidades produzidos pelas respostas dos mecanismos de IA generativa já insinuavam um problema que agora ficou evidente: a possibilidade, e o risco, de se alterar o passado e reescrever a história.
Este é o principal alerta dos investigadores Nuno Moniz, da Universidade de Notre Dame, e Miguel Cardina, da Universidade de Coimbra, ao apresentarem, no início de maio, um relatório sobre o estudo, desenvolvido em conjunto com colegas de outros países, que buscava saber como o ChatGPT respondia a perguntas sobre quatro conflitos internacionais, entre eles a guerra colonial e os movimentos de libertação das antigas colónias portuguesas em África.
Os resultados confirmaram aquilo que estudiosos e utilizadores críticos da IA generativa já vinham constatando, independentemente da área de conhecimento: as respostas produzidas pelos robôs estão cheias de invenções, distorções, imprecisões, falsidades, omissões. A investigação escolheu lidar com o ChatGPT por ser o mais popular entre os chatbots e comprovou problemas recorrentes, como informações fabricadas – isto é, inventadas –, erros factuais básicos como a data de ocorrência de determinados eventos, narrativas históricas falsas ou distorcidas, influência da língua prevalecente no treino da máquina para a produção de resultados ideologicamente direcionados e narrativas diferentes ou mesmo contraditórias sobre os mesmos eventos, em função da língua.
As consequências são evidentes e muito graves: crianças e jovens deformados a partir de sistemas que estabelecem padrões de autoridade falsos e embaralham informações verdadeiras e fictícias, que se vão normalizando com o tempo.
Os vencedores agora podem reescrever a história através da IA generativa. Mas qual o sentido de recorrer a uma tecnologia que falseia e deturpa?
Diante desse quadro que, segundo os próprios investigadores, exige intervenção “urgente”, não se percebe muito bem porquê as recomendações ainda insistem na formação de grupos de estudo para avaliar as potencialidades e os riscos do uso da IA. Por que não a frontal rejeição do uso dessa tecnologia no sistema de ensino? Por que não o desenvolvimento de campanhas que alertem para as distorções que as interações com chatbots podem promover na formação das futuras gerações? Em janeiro, um grupo de professores lançou um manifesto exatamente nesses termos. Por que não investir na ampliação do alcance dessa crítica?
Não bastassem todos os argumentos bem sustentados sobre o desvirtuamento do processo educativo, que afeta a própria capacidade de pensar, valeria a pena considerar o contrassenso de se consultar uma fonte inconfiável. Qual o sentido de recorrer a esses robôs, se não podemos ter certeza das informações que nos fornecem e ainda precisamos ter o trabalho acrescido de confirmá-las?
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Num trecho do seu relatório, os autores fazem graça com o famoso adágio segundo o qual a história é escrita pelos vencedores: agora, passaria a ser escrita “por quem produz mais dados sobre ela”. Mas bastaria perguntar quem tem capacidade de produzir mais dados para concluir que, do ponto de vista ideológico, a situação não se altera tanto assim. Por sinal, reforça a notável observação de Walter Benjamin: nem os mortos estarão a salvo se os vencedores continuarem a vencer.
Importaria ainda avançar com mais perguntas: quem produz, desenvolve e controla esses modelos de linguagem? A quem interessaria promover incerteza e finalmente concretizar a distopia orwelliana de um mundo em que a história é permanentemente reescrita, de modo que a Eurásia e a Lestásia são aliadas na guerra contra a Oceania e logo a seguir a situação se inverte e as informações anteriores são descartadas porque se vive num presente contínuo e continuamente atualizado, sem memória do passado e, por isso, sem qualquer perspectiva de futuro?
Numa conhecida passagem do seu famoso ensaio sobre verdade e política, Hannah Arendt cita a resposta de Georges Clemenceau a um representante da República de Weimar a respeito das futuras interpretações sobre a Grande Guerra (a Primeira Guerra Mundial): tudo poderia ser dito, menos que a Bélgica invadiu a Alemanha.
Mais de um século depois, a depender do ChatGPT, já não se poderá ter tanta certeza.
A Inteligência Artificial Generativa é um artefacto para a expropriação intelectual dos professores e dos estudantes e corresponde a uma estratégia política das big tech para a precarização total da força de trabalho mundial.
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Já não é possível ignorar as lutas das e dos trabalhadores da educação em distintas partes do mundo contra as plataformas das big tech utilizadas nas redes de ensino para intensificar a jornada de trabalho, ampliar o controle e a vigilância sobre o trabalho, desqualificar intelectualmente os docentes e os estudantes, inviabilizar a autonomia da escola por meio da corrosão da liberdade de cátedra e interditar a agência de sua comunidade no autogoverno da instituição. De facto, muitas dessas lutas interpelam as mudanças curriculares sob a égide do capital, em especial, pela chamada inteligência artificial generativa (IA-Gen.), e a reestruturação dos livros e materiais didáticos como sistemas de ensino e plataformas por holdings educacionais sob controle de fundos de investimentos. Essas corporações afinal objetivam difundir o que é dado a pensar em milhares de escolas e, ao mesmo tempo, lograr modelar os perfis dos estudantes e docentes para que componham seus portfólios de negócios e sua base política.
No Brasil, em maio de 2025, no estado do Paraná, o sindicato dos trabalhadores da educação APP-Sindicato convocou a Semana de Luto e Luta em Defesa da Vida, com greve e mobilizações em todo o Paraná contra o uso de plataformas, o adoecimento e a pressão excessiva sobre os(as) educadores(as)2. Em Londres, em 8 de março de 2026 aconteceu uma massiva Marcha contra as Máquinas, interpelando as corporações de IA3. Nos EUA, pais, estudantes e professores criaram o movimento Schools Beyond Screens e lançaram neste ano uma petição chamada “Tirem as big tech das Mesas das Crianças”4. Após quase cinco décadas, ocorreu uma greve dos educadores de São Francisco (UESF) contra a substituição tecnológica dos professores5, logrando cláusulas semelhantes às da grande greve dos argumentistas de Hollywood em 20236 que estão servindo de referência para os demais sindicatos de trabalhadores da educação. Na Florida, em 8 de maio de 2026, por ocasião de uma formatura da Faculdade de Artes e Humanidades e da Escola Nicholson de Comunicação e Mídia da Universidade da Flórida Central, a oradora, vinda do mundo empresarial, afirmou que a “ascensão da inteligência artificial é a próxima revolução industrial” provocando uma sonora e massiva vaia dos estudantes que se formavam7. Em Nova Iorque, mobilizações interromperam o projeto de escola secundária de Manhattan Next Gen8, pois pais, professores e estudantes entenderam que a escola poderia ser um laboratório de IA. É significativo que os exemplos de lutas são muitos9, nem sempre diretamente contra as big tech e, por isso, necessitam ser coligidos e analisados.
Embora muitas vezes dissociadas de táticas e estratégias contra as expressões do capital na educação, essas lutas têm contribuído de modo extraordinário para dissipar águas turvas que dissimulam as aceleradas e radicais mudanças nas escolas, em especial após 2022, ano em que a IA-Gen. se popularizou. Sem essas lutas, o presente artigo não seria possível.
Os limites táticos e estratégicos dessas lutas advêm, parcialmente, de uma leitura ainda incipiente do significado da dissociação entre as big tech e i) o complexo militar e de vigilância; ii) a plataformização de todas as formas de trabalho, e iii) o uso de IA pelas corporações educacionais, questões retomadas adiante. Os estudos realizados no âmbito do Coletivo de Estudos em Marxismo e Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro10 propugnam que é imprescindível examinar, compreender e explicar tais nexos para explicar as mudanças no trabalho docente e nos processos de ensino e aprendizagem que têm provocado o derretimento da autonomia intelectual dos estudantes. Mais amplamente, preocupa a refuncionalização das escolas e universidades públicas que podem estar substituindo a formação crítica, sistemática, metódica, comprometida com a internalização profunda dos conhecimentos – base da autonomia intelectual necessária para que todos os que possuem um rosto humano possam fazer uso autônomo e crítico da razão – pela universidade operacional11 que sacrifica os processos em nome dos produtos, os valores ético-políticos e a busca processual da verdade em virtude dos vieses epistemológicos dos algoritmos que reproduzem os valores políticos de suas corporações comprometidas com o complexo militar e de vigilância.
A análise centrada nos processos de ensino e aprendizagem nas salas de aula, se não levar em consideração as nervuras políticas e econômicas das big tech, apaga problemas e pode inspirar formas de lutas inexequíveis. Dois exemplos são destacáveis. A Internacional da Educação, nas Resoluções de seu 10o Congresso, realizado em Buenos Aires, em 2024, propôs: “Impulsionar as competências das organizações afiliadas para colaborar com empresas tecnológicas na definição do conteúdo e das metodologias que possibilitam a aprendizagem e o ensino profissional”12 e a Federação Americana de Professores (AFT) pactuou parcerias com empresas como Microsoft, OpenAI e Anthropic que envolvem grandes somas de recursos (US$ 23 milhões) para estabelecer a Academia Nacional de Instrução em IA13.
Embora seja justificável a defesa da regulação estatal das big tech compreendendo aspectos importantes como privacidade, propriedade intelectual e o uso ético e responsável da IA, tal enfoque não enfrenta o cerne do problema que nem arranhado é pelas abordagens dissociadas da natureza e do caráter das big tech, de seus Grandes Sistemas de Linguagem e do caráter performativo de seus algoritmos.
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Existem diferenças específicas entre as big tech e as formas de privatização e mercantilização que foram difundidas nas escolas e universidades nos anos 1990. Um ponto a destacar é o tamanho dessas corporações. As sete gigantes, Alphabet (Google), Apple, Amazon, Microsoft, Meta (GAFAM), Nvidia e Tesla, estão sendo turbinadas por investimentos jamais imaginados. Somente as ações das corporações que atuam na IA nas bolsas estadunidenses correspondem ao valor total de todas as bolsas europeias reunidas14. Os investimentos previstos em infraestrutura, US$ 375 mil milhões em 2025 e mais de US$ 600 mil milhões em 202615,16 compreendem a ‘economia real’, como data centers, fábricas de semicondutores e fornecimento de energia e de água necessários para construir o poder de computação que a IA. exige. Além disso, é preciso computar os investimentos em mineradoras. Não menos importante, as vultosas somas aplicadas no desenvolvimento de supercomputadores e sistemas complexos, modelos de linguagem, todos eles indissociáveis da computação quântica. A Brookfield Asset Management estima que somente a infraestrutura de IA absorverá US$ 7 biliões nos próximos 10 anos17. Esse processo de acumulação é alavancado por investimentos de escala inédita e provoca mudanças disruptivas, monopolistas em todas as esferas da vida.
Contudo, a economia digital precisa ser realizada em curto intervalo de tempo, em virtude da obsolescência do setor, pirataria, novas abordagens tecnológicas, como foi o caso da Deep Seek, por exemplo. Por isso, a agressividade de ocupação dos mercados é um traço distintivo dessas corporações que enfrentam qualquer intento de regulação dos Estados. Nenhuma outra tecnologia foi tão concentrada e assumiu tal dimensão. Aproximadamente 6 mil milhões de pessoas utilizam quotidianamente smartphones, tornando o alcance das big tech planetário18.
Retomando a caracterização das big tech, o facto de serem corporações vinculadas ao complexo militar e de vigilância requer que seus sistemas de linguagem e seus algoritmos possam elaborar perfis das populações a partir dos quais: i) indivíduos poderiam ser alvos para os drones guiados pela IA.; ii) os sistemas de vigilância (na forma de aplicativos, câmeras de trânsito, reconhecimento facial) podem ser acionados para localizar trabalhadores não documentados, a exemplo da Palantir, iii) as corporações possam produzir hierarquias de humanidade, uma forma de racismo algorítmico, também utilizados nas guerras em que, por exemplo, drones identificam as pessoas palestinianas como alvos tidos como legítimos e, também, iv) as corporações podem se valer dos perfis dos estudantes de uma determinada escola, universidade, rede de ensino, territórios para personalizar o tipo de educação que as frações mais exploradas das classes trabalhadoras poderão receber, atualizando os novos dualismos educacionais. Essa hierarquia de perfis é intrínseca ao LLM e aos algoritmos.
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Os Grandes Modelos de Linguagem de propriedade de corporações são indissociáveis dos sistemas complexos de algoritmos que condicionam quotidianamente milhões de pessoas e organizações em todo o mundo, incluindo as escolas e as universidades nas quais circula a grande maioria dos mais de 1400 milhões de estudantes e trabalhadores da educação em atividade. Distintamente das tecnologias de informação e comunicação como a televisão, por exemplo, as atuais tecnologias digitais permitem interação do sujeito que recebe a mensagem com os seus emissores, ainda que o seu lugar seja inclementemente subordinado. Likes, partilhas, comentários, postagens e imagens mobilizam o desejo, sequestram a atenção e geram a percepção de integração em determinados grupos. E não somente isso. As interações, por sua vez, “educam” os algoritmos que, com isso, condicionam ainda mais profundamente os seus usuários.
O facto de não ser uma rua de sentido único reforça a penetrante ideologia do sujeito de que ele faz parte de uma comunidade, seja ela religiosa, política, futebolística, etc. As big tech, como amplamente documentado, estão operando politicamente e dirigem seus algoritmos para reter a atenção e mobilizar paixões em prol da extrema-direita neofascista19. O quadro é ainda mais grave em virtude de sua escala. O controle dos dados que consubstanciam os perfis formatados pelos algoritmos e pelas corporações é tratado por elas como bens privados e livres de qualquer regulação estatal.
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A partir das indicações desenvolvidas até aqui é possível retomar a discussão das corporações educacionais que estão se associando de modo subordinado às big tech. Estas são totalmente distintas das existentes há uma década. Atualmente, as corporações educacionais e grupos editoriais estão impulsionados pelos operadores financeiros e foram transformadas em sociedades anónimas, organizadas na forma de holdings e com ações nas bolsas de valores. Os investidores financeiros comandam as empresas nos conselhos de administração, um bastião de poder exclusivo. Prevalece a avaliação nos grupos educacionais de que a associação subordinada com as big tech é uma grande oportunidade para requalificar os negócios relacionados com os sistemas de ensino e as plataformas de trabalho. De facto, os currículos escolares, regra geral elaborados pelos aparelhos privados de hegemonia empresariais, como ocorreu com as Bases Nacionais Comuns Curriculares no Brasil, elaboradas pela aliança de dois conglomerados de APH (Lemann e Todos pela Educação) estão sendo operacionalizados por meio de planos de aula por IA e propagados nas escolas por intermédio de sistemas de ensino e plataformas de trabalho mediados pela IA-Gen.
Frequentemente, as próprias universidades e as redes de ensino, sob orientação governamental dos Ministérios da Educação e das Secretarias de Educação, adquirem esses sistemas e plataformas para suas escolas, aparentemente acreditando na possibilidade de um uso ético dos referidos artefactos para melhorar a eficiência do trabalho docente. Assim, incentivam os estudantes e professores a fazer um uso “responsável” da IA generativa, realimentando a megamáquina educativa do capital, como destacado em um estudo anterior (Leher, 2026)20.
A IA se apropria do acervo de conhecimentos que pertence aos povos, mas oferece aos seus usuários, espalhados por todo o mundo, produtos semelhantes a alimentos processados. Ela suprime os processos, deseduca os jovens ao afastá-los da leitura lenta e profunda, elabora resumos de textos que não serão lidos e inviabiliza os processos de elaboração criativa de textos. Uma pesquisa do MIT sobre o custo cognitivo de utilizar um Grande Modelo de Linguagem (LLM) na redação de ensaios concluiu que os participantes que utilizaram o ChatGPT para escrever apresentaram menor conectividade cerebral, pior memória do ensaio que acabavam de “escrever” e menor senso de autoria, uma vez que o pensamento foi externalizado21. Centenas de milhões de jovens têm sua capacidade de concentração comprometida, o que afeta o pensamento sistemático e concentrado. Formatos curtos, como o TikTok e o Instagram, deseducam a concentração interior. Milhões de jovens enfrentam sérias dificuldades para ler e utilizar a matemática básica. Com isso, o pensamento crítico vai se esvaindo cada vez mais, o que prejudica a capacidade de refletir sobre questões que são decisivas para o futuro da humanidade.
O impacto cognitivo de curto prazo da tecnologia é sombrio: vários estudos a associaram à perda de memória de curto prazo e descobriram que ela atrofia o pensamento crítico.
Desse modo, a expropriação sobretudo das classes trabalhadoras é realizada com a conivência das políticas nacionais e internacionais que deveriam proteger a formação intelectual dos estudantes. Com efeito, o impacto cognitivo de curto prazo da tecnologia é sombrio: vários estudos a associaram à perda de memória de curto prazo e descobriram que ela atrofia o pensamento crítico23,24.
Em Portugal, o Ministério da Educação e as câmaras municipais, sob a capa da inovação e da “abertura à comunidade” como ONGs, são os centros de entrada destes holdings nas escolas. No Brasil, atualmente na vanguarda mundial da mercantilização financeirizada da educação, os grandes grupos que atuam na educação possuem ações nas bolsas de valores e estão sob controle de fundos de investimentos, inclusive pelos maiores fundos como Blackstone, Apollo, KKR, Carlyle, Advent, e gestoras de ativos como BlackRock, a maior do mundo com ativos da ordem de US$ 10 biliões, e Oppenheimer, entre outros. No caso brasileiro, o setor privado é responsável por cerca de 70% das matrículas do ensino superior: dos 10 milhões de estudantes no ensino superior, 5,2 milhões estão na modalidade a distância – EaD (INEP, 2024) que não assegura sequer uma formação compatível com os objetivos legais minimalistas do ensino superior. A financeirização dos holdings educacionais produz uma nefasta monopolização das matrículas estudantis. De facto, embora existam 2600 instituições de ensino superior, apenas uma dezena de holdings já possui cerca de 60% dos estudantes e, no caso da EaD, a concentração dos dez maiores grupos alcança preocupantes 80% das matrículas.
Na educação básica, governos comprometidos com a austeridade contra o trabalho e a soberania popular sobre os assuntos públicos, adotam as tecnologias digitais nos moldes do “tecnossolucionismo”. Se as crianças não estão indo bem na alfabetização, as tecnologias irão resolver o problema. Se existem distorções entre a idade da criança e o seu nível de ensino, idem, tecnologias podem ‘corrigir’ o problema. Se a língua portuguesa é muito complicada, uma IA pode simplificá-la. Esse discurso neoliberal é empreendido por uma tecnocracia que se diz técnica, referenciada em supostas provas científicas e, com isso, afastam os professores de todas as decisões relevantes sobre a escola e as políticas educacionais. Essa perspectiva abriu largas autoestradas para a entrada das corporações educacionais nas escolas, por meio da comercialização de seus sistemas de ensino e plataformas de trabalho nas escolas. Desse modo, com a anuência e ação dos governos de austeridade, as corporações despejam nas salas de aula a educação processada, “macdonaldizada” e calibrada para os diferentes perfis sociais, realimentando as desigualdades sociais e naturalizando a separação das escolas para dirigidos e as escolas para dirigentes. Assim, por que ler Saramago se é possível difundir competências instrumentais condizentes com o mercado para os jovens pobres?
Tais ações são brutalmente coercivas. Os sistemas de avaliação erigidos pelas políticas neoliberais dos anos 1990 pela OCDE, as contrarreformas do Processo de Bolonha nas universidades europeias, a massificação da EaD no Brasil são processos indissociáveis da exigência de que os professores preencham demorados e inúteis plataformas diariamente, ampliando o controle, a exploração, a exaustão e o sofrimento laboral. Como destacado pelo movimento “Tirem as Big Tech das Mesas das Crianças” as escolas devem estar livres dessas corporações.
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A ofensiva das big tech cujo epicentro encontra-se nos EUA25 e das corporações educacionais a elas subordinadas, distribuídas em diversos países, mira o conjunto da formação das classes trabalhadoras e, como expressão do capital-imperialismo, está inserida na geopolítica e na geoeconomia mundiais. As movimentações do capital engendram outras expressões das lutas de classes em âmbito mundial. Como apontado, essas contradições se materializam na forma de lutas, greves, mobilizações dos trabalhadores da educação e dos estudantes. Não é possível a neutralidade ética. Os coletivos de pesquisa do campo crítico, sindicatos, jornais como o Maio não podem deixar de ser parte de um esforço unitário e coordenado para coligir e analisar as lutas que eclodem em toda a parte contra tal ofensiva do capital.
Existem iniciativas antissistémicas, mas ainda de magnitude modesta. No I Seminário Internacional Capitalismo Digital, Financeirização e Educação, realizado em julho de 2025 no campus da Praia Vermelha da UFRJ com a participação de pesquisadores de diversas universidades brasileiras e da Universidade de Barcelona e do Chile foi consensuada a criação da Rede Internacional de Estudos e Pesquisas sobre o Avanço do Capital por meio de Tecnologias Digitais na Educação. Em julho de 2026, na Universidade de Barcelona, acontecerá o II Congresso Internacional sobre Capitalismo e Educação, no qual a referida rede internacional poderá ganhar nova dimensão. Outra iniciativa afim é o projeto de investigação continental da Red Social para la Educación Pública en las Américas (Initiative for Democratic Education in the Americas) Políticas de las “nuevas” derechas hacia la educación pública, resistências y alternativas, cujo documento de trabalho foi discutido de modo sistemático ao longo de 2024 e de 2025 em dois seminários, o primeiro na Argentina (2024, CTERA) e o seguinte no México em 2025 (UNAM) com pesquisadores e ativistas sociais de Argentina, Canadá, Colômbia, Costa Rica, Equador, Estados Unidos, Guatemala, Honduras e México. Essas iniciativas, inclusive as greves indicadas no presente texto, embora limitadas, confirmam que está havendo um adensamento de ações contra as novas expressões do capital na educação.
Existem avanços tecnocientíficos que foram desenvolvidos na sociedade capitalista que, por meio de rupturas profundas, poderão ser apropriadas pelos povos em busca da soberania popular para além do capital.
Uma tarefa urgente é construir conexões mais orgânicas com as lutas sindicais e estudantis que se espalham pelo mundo. Quando a presidente da AFT, Randi Weingarten, afirmou que “achámos que precisávamos trabalhar com as maiores empresas do mundo. Fomos até elas”, o que prontamente foi acolhido pelas big tech que irão repassar mais de US$ 30 milhões para a constituição de centros de formação que irão acionar 400 mil docentes nos próximos anos26 é evidente que o tema alcança a grande política do capital! Sem um esforço coordenado dos sindicatos comprometidos com a desmercantilização da educação, logo a aliança das big tech irá ampliar a subordinação de outras grandes organizações sindicais.
Pensar as tecnologias na educação requer radicalidade. Não se trata, obviamente, de inseri-las em manuais sobre o bom uso da IA, como querem muitas universidades, nem de treinar professores para um uso adequado das mesmas.
Plataformas de comunicação virtuais, aplicativos de tradução, acesso livre aos acervos de museus e bibliotecas e programas de busca sofisticados, capazes de respostas que sejam excelentes pontos de partida para novos estudos, devem ser objetivos internacionalistas. Concretamente, existem avanços tecnocientíficos que foram desenvolvidos na sociedade capitalista que, por meio de rupturas profundas, poderão ser apropriadas pelos povos em busca da soberania popular para além do capital. Esse movimento está apenas se iniciando e somente avançará a partir do internacionalismo, pois tais plataformas não mercantis não podem se esgotar nos Estados em uma perspectiva chauvinista. É uma luta empolgante e necessária para o porvir da humanidade. Juntos, lograremos avanços!
1 Professor catedrático da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
11 CHAUI, Marilena. A universidade operacional. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas/Sorocaba, v. 4, n. 3, 1999. Disponível em: Portal de Periódicos Uniso. Acesso em: 17 maio 2026.
20 Leher, R. IA, TECNOFASCISMO Y EDUCACIÓN. Importancia estratégica de la pedagogía ludita. (Prólogo) In: Jarquín, M. La pedagogía ludita. Bs.As. CLACSO, 2026 (no prelo)
22 ABBAS, Muhammad; JAM, Farooq Ahmed; KHAN, Tariq Iqbal. Is it harmful or helpful? Examining the causes and consequences of generative AI usage among university students. International Journal of Educational Technology in Higher Education, v. 21, art. 10, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s41239-024-00444-7. Acesso em: 15 maio 2026.
23 Noor Al-Sibai. Study Finds That People Who Entrust Tasks to AI Are Losing Critical Thinking Skills. Futurism. 18/02/2025. Disponível em: https://futurism.com/study-ai-critical-thinking. Acesso em 15/-5/26.
24 LEE, Hao-Ping et al. The Impact of Generative AI on Critical Thinking: Self-Reported Reductions in Cognitive Effort and Confidence Effects From a Survey of Knowledge Workers. In: CHI CONFERENCE ON HUMAN FACTORS IN COMPUTING SYSTEMS, 2025, Yokohama. Proceedings […]. New York: ACM, 2025. p. 1-22.
25 A China possui particularidades que não foram examinadas no presente texto.
O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários seria substituir toda a força de trabalho humana por IA. Só que esta hipótese gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo que se produz?
Entre o apocalipse dos trabalhadores e o tecnoterrorismo: a IA como campo de batalha
A 5 de Maio, Robert Reich, perigoso esquerdista que trabalhou nas administrações dos presidentes Ford e Carter, foi secretário do Trabalho dos EUA durante o consulado de Clinton e integrou a comissão consultiva para a transição económica de Obama, assinava um texto intitulado “The AI Job Apocalypse Is Already Happening1”. Nele se assinalava o modo como, para fazer crescer os seus lucros, as grandes empresas estão a utilizar a IA e os potenciais ganhos de produtividade resultantes da sua integração nos processos produtivos como pretexto para cortar salários e postos de trabalho. Independentemente de a IA poder substituir os postos de trabalho cortados, e isso não parece ser a questão mais relevante, as grandes empresas estão a aproveitar essa possibilidade para despedimentos em massa.
Entre janeiro e abril de 2026, mais de 128 000 trabalhadores foram despedidos. A Meta despediu 8000, apontando para 10 000 até ao final de 20262, a Amazon 30 000, os seis maiores bancos de Wall Street mais 15 000, na Oracle o número pode ascender aos 30 000, o mesmo que a UPS espera despedir ao longo de 2026, a empresa química Dow anuncia 4500 e a Block aponta para uma redução de 40% da sua força de trabalho (± 4000 trabalhadores). Já em maio, a tecnológica norte-americana Cloudfare anunciou o despedimento de cerca de 1100 pessoas3 (20% da sua força de trabalho). Entretanto, Evan Spiegel, CEO da empresa norte-americana Snap, responsável pelo Snapchat, anunciou (imagina-se que numa daquelas sessões online sem direito a diálogo) o despedimento de cerca de 1000 trabalhadores, incluindo 16% do seu quadro de pessoal a tempo inteiro4.
Mesmo que muitas das pessoas despedidas não tenham ainda sido substituídas, ou possam sequer vir a sê-lo, pela IA, o turbo-capitalismo digital powered by AI empurra as grandes empresas neste sentido5. Afinal de contas, a competição feroz é a alma do negócio e, como é sabido, a noção de que os trabalhadores são variável de ajustamento fez escola. O facto de a IA ser capaz de realizar tarefas intelectuais que até há poucos anos só pareciam possíveis na ficção científica6, acentuando a fragilização dos trabalhadores de colarinho branco, só dá mais visibilidade ao fenómeno.
O hype é tanto que, no Dia do Trabalhador, se realizou no Beato Innovation District, a primeira edição do Agents Day, destinada a developers, founders e builders. Promovida pela CTO Portugal, comunidade de líderes em tecnologia e IA, foi anunciada como uma iniciativa que visava “colocar agentes de IA a trabalhar pelos humanos7”. Ao mesmo tempo, vai fazendo caminho o celestial canto dos administradores de empresas, para quem “a IA vai substituir os trabalhadores que não se adaptarem8”. Parafraseando Margaret Thatcher, poder-se-ia até dizer que a IA é o método, o objetivo é despedir trabalhadores.
No limite, toda a força de trabalho humana seria substituída por IA. O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários. Só que esta hipótese, explorada em The AI Layoff Trap9, e que decorre de uma lógica individual irrepreensível por parte de empresas que lutam pela sobrevivência na selva capitalista, gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo que se produz? Ou, recorrendo a terminologia marxista, desde quando é possível a substituição integral de trabalho vivo por trabalho morto? Mas, infelizmente, não é tudo. Parece que o aperfeiçoamento da IA só piora as coisas, dado que o impulso para substituir trabalho humano por IA se intensifica e acelera. Uma verdadeira corrida para o abismo ou para uma crise de sobreprodução de proporções bíblicas.
Num mundo profundamente desigual, em que o rendimento real dos trabalhadores caiu 12%, enquanto o dos CEO aumentou 54% entre 2019 e 202510, e onde os bilionários e os ultra-ricos dominam os media e a IA (mais de metade dos grandes grupos mundiais de media são detidos por bilionários, 9 das 10 maior empresas na área das redes sociais são geridas por apenas seis bilionários, algo que sucede com 8 das 10 maiores empresas de IA, com apenas três delas a possuírem quase 90% de quota de mercado11), o tecnoterrorismo impõe-se como discurso dominante que legitima despedimentos, instala o medo e a insegurança, constitui-se enquanto mecanismo ideológico disciplinador de uma força de trabalho amedrontada que, por isso, perde capacidade reivindicativa.
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Por outras palavras, trata-se de “uma narrativa futurista que amplifica ameaças hipotéticas para mascarar as contradições muito concretas do presente (...) [funcionando] como um espelho quebrado manejado pelo capital tecnológico: cada caco devolve uma imagem ampliada do perigo, mas nunca permite enxergar a totalidade. Em vez de descrever realisticamente o que a IA é capaz de fazer, projecta fantasias hiperbólicas que servem para legitimar a precarização, pressionar salários e justificar reformas regressivas12”. Até porque, segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho13, apesar de 25% dos empregos no mundo estarem potencialmente expostos à IA, apenas 5-6% enfrentam ameaça de extinção; para além de, como também é evidenciado por esta organização, existirem inúmeros desafios metodológicos relacionados com a medição dos aumentos de produtividade resultantes da adopção da IA14.
Naturalmente, o impacto sobre o trabalho não se limita ao desemprego (real ou imaginário). Como se defende em “O trabalho explorado por trás da inteligência artificial15”, por trás de cada suposta conquista da IA existe um exército de trabalhadores precarizados que, nas mais das vezes, se encontram a milhares de quilómetros de Silicon Valley. Analistas de dados, motoristas de entrega, moderadores de conteúdos, são milhões os trabalhadores mal remunerados em todo o mundo – Venezuela, Bulgária, Índia, Quénia, Filipinas ou México são alguns dos locais onde se concentram – que executam tarefas repetitivas e monótonas indispensáveis ao desenvolvimento da IA, muitas vezes colocando as suas vidas em risco. Bem diz o povo, longe da vista, longe do coração. E assim se exporta e invisibiliza sub-desenvolvimento, trabalho indigno e miséria social, ao mesmo tempo que se varrem para debaixo do tapete os inúmeros riscos psicossociais associados ao uso da IA16 (ex: vigilância intrusiva, perda de autonomia e dignidade no trabalho, recolha de dados excessiva, etc.).
Por economia de espaço, abstemo-nos ainda de falar dos enormes custos ecológicos resultantes dos consumos de água, energia eléctrica, solo e outros recursos necessários ao funcionamento da infraestrutura da IA, centros de dados, servidores e restante parafernália tecnológica; do aprofundamento do fosso entre a metrópole imperialista e as periferias; ou dos efeitos da IA sobre a inteligência, a criatividade, a empatia, a ética e a saúde mental de crianças e jovens; ou da superinteligência que tem gerado fundados receios sobre a sua potencial capacidade para pôr fim à humanidade17.
Por uma IA ao serviço do povo!
Hoje, como no contexto de aparecimento dos luditas, o problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas. Aquilo que podemos observar é que, hoje, os principais beneficiários da IA são os grandes monopolistas da Big Tech. São eles que, num contexto de degradação generalizada das condições de vida – afinal, já levamos mais de meio século de contra-revolução neoliberal –, se empanturram em vil metal ao mesmo tempo que atiram com trabalhadores para o desemprego. Os donos da IA tornaram-se uma espécie de casta privilegiada que concentra todo o poder – económico, social, político e cultural –, enquanto os restantes, sem qualquer controlo sobre a arquitetura da IA, disputam as migalhas que caem da mesa com que se banqueteiam. Deve ser isto aquilo a que chamam “trickle down economics”.
E é por isso que, em vez de se discutir o alcance potencial da IA para promover um aumento generalizado do bem-estar, como, por exemplo, a possibilidade de todos trabalharmos menos horas sem qualquer perda de remuneração, antes pelo contrário aumentando salários, e termos todos mais tempo para viver, aceitando a lógica (que já vimos ser discutível mas é aquela que está na base do tecnoterrorismo vigente) de que a IA gera enormes ganhos de produtividade, aquilo que sucede são despedimentos em barda e uma chantagem permanente sobre os trabalhadores que, como é bom de ver, ou se adaptam ou sucumbem ao avanço inexorável da IA.
O problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas.
Porque é que não se usam os extraordinários avanços tecnológicos para libertar quem vive do seu trabalho, daquilo que nele é penoso, arriscado, desumano e alienante? Porque é que em vez de a tecnologia ser colocada ao serviço do povo trabalhador, para que este tenha todo o tempo para ser aquilo que deseja ser, é utilizada como cutelo sobre o seu pescoço? Porque, como sempre sucede no capitalismo, independentemente das suas metamorfoses ao longo do tempo, se privatizam os ganhos e socializam as perdas. Como defende Prabhat Patnaik, “se a humanidade está no limiar de grandes avanços científicos e tecnológicos, então a necessidade do socialismo, para tirar partido desses avanços, torna-se esmagadora. O socialismo torna-se então uma sociedade que não é apenas mais equitativa, mas que pode de facto fazer justiça ao engenho humano na introdução de profundos avanços tecnológicos, precisamente devido à sua natureza equitativa, precisamente porque é uma sociedade onde o trabalho e o produto são partilhados equitativamente entre todos18”.
Sendo produto de um empreendimento coletivo, a única forma aceitável de governo da IA passa pela socialização da sua propriedade19. Só assim, os seus efeitos deletérios sobre as classes trabalhadoras podem passar a ser uma carta fora do baralho ou, pelo menos, uma preocupação genuína, dado que seriam estes os donos da IA e os principais interessados em que ela não funcionasse como ferramenta digital de exploração. Por algum motivo, o recente manifesto da Palantir não menciona trabalhadores nem sindicatos. Porque sabe que “os trabalhadores por si só, se se organizarem, são capazes de parar as linhas de produção da morte. Uma greve geral no vale do Silício, ou mesmo nos próprios escritórios da Palantir, é o pesadelo deste projeto20”.
Com uma política anti-monopolista e a socialização da IA, mesmo os seus efeitos nocivos sobre a nossa “casa comum21” seriam potencialmente mitigados, até porque o trabalhador comum não tem possibilidades de construir um bunker numa ilha remota ou de sequer se imaginar a viver em Marte como fazem os multimilionários tecnofascistas. Enquanto a IA for pensada apenas e só com vista ao lucro e à acumulação de riqueza por meia dúzia de sociopatas, que perdem a maior parte do seu tempo atormentados com a possibilidade de perderem uns milhões22, não existe qualquer possibilidade de não operar enquanto ferramenta de produção de miséria social em massa.
Neste sentido, a IA corresponde a uma forma altamente sofisticada e complexa de extractivismo socioecológico. Parafraseando Proudhon, a “IA é roubo!” e reverter esta lógica passaria, por exemplo, por tornar público, universal e gratuito o acesso à tecnologia, inclusive à sua arquitetura mais elementar que hoje permanece debaixo de um manto de enorme opacidade (afinal, o segredo é a alma do negócio). Desmercantilizar a IA implica também que a sua infraestrutura fique sujeita a controlo democrático e transparente, que esta seja concebida enquanto propriedade comum da humanidade. Caso contrário, “não [se] pode controlar o seu futuro, não [se] é livre, não [se] é independente e não [se] pode decidir sobre o seu futuro nem proteger a sua democracia23” e a oligarquia tecno-digital reforça o seu poder totalitário. A este respeito, em Portugal, vale a pena salientar a proposta pioneira de criação do Instituto Nacional para a Computação Avançada, feita pelo PCP24.
Como se afirma em “Automation and AI: A Socialist Perspective on Workers’ Rights25”, um projeto socialista para a IA seria capaz de colocar os aumentos de produtividade e eficiência ao serviço do bem-estar de quem vive do seu trabalho. Como? Diminuindo erros e eliminando desperdícios nos processos produtivos; assegurando as tarefas repetitivas e libertando os trabalhadores para aquilo que é mais recompensador; substituindo os trabalhos sujos e perigosos, reduzindo acidentes e melhorando a segurança nos locais de trabalho; criando condições para o aparecimento de novas ocupações, altamente qualificadas e bem remuneradas; impedindo despedimentos sob pretexto de adopção da IA26; aumentando o tempo livre para atividades de lazer e ócio, jornadas de trabalho mais curtas e mais tempo de férias; levando a cabo grandes investimentos em serviços e infraestruturas públicas. Contudo, fazer avançar uma agenda tão progressista requer, naturalmente, que se combatam os inúmeros riscos e desafios que a IA coloca hoje ao trabalho. Para além do desemprego, da compressão salarial e das desigualdades crescentes, que já antes vimos, também a vigilância e o controlo permanentes devem ser combatidos, bem como a degradação do trabalho que o torna desumano.
Ao contrariar o tecnoterrorismo e os seus efeitos, indo à raiz do problema, uma perspectiva socialista da IA cria um novo horizonte de possibilidades para os trabalhadores, susceptível de libertar todo o potencial da tecnologia e colocá-lo ao seu serviço. A IA deve ser escravizada e não fazer de nós escravos. E essa foi a intuição inicial dos luditas que vale a pena recuperar para a atualidade e, em última instância, foi contra isso que se revoltaram há cerca de dois séculos, lançando a semente que viria a germinar num potente movimento operário e nos primeiros sindicatos. Não contra as máquinas, mas sim contra os grandes monopólios do capitalismo.
É por isso urgente “virar o jogo” e resgatar para o trabalho o potencial emancipador desta “nova” tecnologia. Rejeitando tanto as acusações preconceituosas dirigidas aos neoluditas de hoje, como a sua mais recente variação – “populismo IA27 –, desenvolvendo uma cultura contra-hegemónica esclarecida, consciente e crítica e uma alternativa socialista que coloque a IA, não enquanto fetiche28, mas sim como produto histórico-geográfico do capitalismo, no centro das suas preocupações, promovendo ação coletiva e lugares de encontro cara a cara, onde a empatia, a solidariedade e a confiança se constroem. Não num futuro longínquo onde apenas os historiadores da longa duração poderão ser capazes de vislumbrar retrospetivamente os ganhos civilizacionais resultantes da IA, deixando na penumbra o seu rasto de destruição e violência social, mas tão rapidamente quanto possível para evitar que este se torne cada vez mais real. Lutemos, pois, por uma IA ao serviço do povo!
13 Gmyrek P, Berg J, Kamiński K, Konopczyński F, Ładna A, Nafradi B, Rosłaniec K, Troszyński M (2025) Generative AI and Jobs: A Refined Global Index of Occupational Exposure, ILO Working Paper 140 (Geneva, ILO). https://doi.org/10.54394/HETP0387.
14 Ver ILO (2026) The Impact of Artificial Intelligence on Productivity: Evidence Across Levels of Aggregation, Research brief. International Labour Office.
22 A partir da análise dos ficheiros Epstein, é possível compreender que a urdimenta de planos e estratégias de preservação dos privilégios é a principal ocupação do tempo das elites globais. Ver https://the.ink/s/epstein (acedido a 11 de maio de 2026).
De uma penada, aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado, rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando são rotulados de tecnofóbicos e olhados com sobranceira repugnância. Seriam os novos luditas que, assim reza esta versão da história, teriam sido contra o desenvolvimento tecnológico, a inovação e o futuro.
Num mundo onde a evolução devia
Livrar-nos do esforço ingrato
Para a humana criação
Se nos tira esse prazer
Pra que serve então?
AI, Cara de Espelho, 2026
A propósito de inteligência artificial generativa (IA), sobre a qual, só em 2026, já se escreveram milhares de artigos científicos, ensaios, crónicas e textos de opinião (alguns deles claramente gerados por chatbots porque o tom monocórdico do mangas de alpaca não engana), um dos epítetos com que são brindados aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado (se eu tivesse um euro por cada vez que li ou ouvi a expressão “não se pode parar o vento com as mãos” já não precisava de trabalhar), rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando, é a de serem neoluditas.
De uma penada, são rotulados de tecnofóbicos e olhados com o esgar de sobranceira repugnância que habitualmente se lança a quem não embarca no deslumbramento tecnológico vigente. Os luditas, assim reza esta versão da história, teriam sido contra o desenvolvimento tecnológico, a inovação e o futuro. Eram gente ignorante e dogmática que via uma máquina a vapor e tratava logo de a destruir com uma moca. Hoje, saltando da revolução industrial para a digital, seria a vez de os neoluditas fazerem o mesmo com portáteis, tablets, smartphones, aspiradores, frigoríficos e quaisquer outros dispositivos digitais assentes em IA. Dois mundos diferentes, um mesmo inexorável destino – o seu triste fim.
Mas será que esta leitura faz jus ao papel desempenhado pelos luditas no contexto da revolução industrial? Que lições dessa história podemos nós retirar para melhor lidar com as circunstâncias atuais? Que caminhos podemos trilhar para que a IA seja colocada ao serviço de quem vive do seu trabalho? Este é o exercício que pretendo desenvolver neste texto e, para isso, começo por recuar no tempo para delinear os contornos do movimento liderado pelo “general Ludd”, passando depois à leitura da IA enquanto campo de batalha político-ideológica, concluindo com algumas notas a propósito da necessidade de desenvolver um projeto socialista para a IA.
Rage Against the Machine, ou talvez não
Embora não seja clara a origem da expressão ludita e exista um interessante debate historiográfico em torno desta matéria e assuntos conexos, em “Luddite Lessons”1 remete-se para um conjunto de atos de sabotagem, motins e ataques variados levados a cabo na segunda metade do século XVIII, que se prolongam pelo século XIX, por parte de artesãos do sector têxtil que, percebendo que o capitalismo industrial ameaçava as suas condições de subsistência e não tendo qualquer instância de mediação e/ou representação política formal, optaram por seguir a via da ação direta e dos protestos violentos, que dirigiam tanto à maquinaria como aos barões da indústria. A sua atuação era geograficamente muito localizada e não existia nenhuma estrutura organizada que articulasse as lutas em todo o Reino Unido. Neste contexto, emerge a figura (provavelmente mitológica) de Ned Ludd, uma espécie de Robin Hood de uma classe trabalhadora que se debatia com inúmeras desigualdades e injustiças.
O ludismo é, por isso, a um tempo, sintoma de mal-estar e manifestação de descontentamento social. A sua acção não decorria de um qualquer delírio tecnofóbico ou hostilidade primária contra a maquinaria, correspondendo, isso sim, à manifestação de um sentimento profundo de injustiça relativamente àqueles – os patrões da industrialização – que enriqueciam devido à degradação das condições de vida dos trabalhadores (muitos deles artesãos ou camponeses convertidos em operários) e à apatia de governos que não demonstravam qualquer vontade de intervir com vista à regulação das relações laborais2. Tratava-se, por isso, de um projeto político e económico que, através de um repertório diversificado de práticas subversivas (para E. P. Thompson tratava-se de um movimento quase insurrecional3), procurou rebelar-se contra os efeitos da industrialização sobre as vidas concretas dos trabalhadores e melhorar as suas condições de vida. Pretendia, essencialmente, assegurar os meios de subsistência mais básicos como, por exemplo, acesso a alimentação e vestuário, e limitar o recurso ao trabalho infantil. Neste sentido, o seu contributo para despertar consciências em torno da necessidade de construir uma sociedade mais igualitária e de denunciar o custo humano da mudança económica não pode ser descartado como irrelevante.
Para os luditas, a máquina não era simplesmente um sofisticado artefacto tecnológico feito de diversas peças, roldanas, manivelas e pedais que importava destruir. Ela significava o lugar onde o poder se materializava, era o símbolo maior da concentração de poder obscena do grande industrial e, ao mesmo tempo, da perda de autonomia e controlo sobre o tempo da vida quotidiana por parte dos trabalhadores assalariados. Os luditas não eram, por isso, antitecnologia, mas sim militantes em prol de sociedades menos desiguais que, frequentemente, desencadeavam a sua ação na sequência de episódios pontuais de flagrante injustiça social (ex: despedimentos em massa, cortes salariais, colheitas pobres, etc.). Na verdade, tratando-se maioritariamente de artesãos, correspondiam às camadas sociais mais qualificadas e dotadas de competências técnicas especializadas. Longe de serem tecnologicamente incapazes, seriam provavelmente as pessoas mais capazes de levar a cabo uma crítica qualificada do desenvolvimento tecnológico e dos seus efeitos sociais, económicos, culturais e políticos.
Com efeito, como assinala Steven E. Jones em Against Technology: From the Luddites to Neo-Luddism2, como especialistas no uso da tecnologia do seu tempo, que era justamente aquilo que lhes permitia ganhar a vida, os luditas procuravam essencialmente proteger o seu direito à tecnologia e não, como na habitual caricatura depreciativa, advogar o regresso a um tempo idílico e pré-tecnológico.
Tanto os luditas, no passado, como os neoluditas, hoje, parecem desempenhar uma função social da maior relevância, contestando a noção de que o desenvolvimento tecnológico é um fenómeno natural e não produto de escolhas humanas.
Dois séculos volvidos e, em 2015, Stephen Hawking, Elon Musk e Bill Gates seriam co-nomeados para o Luddite Award por manifestarem publicamente as suas reservas relativamente à evolução da IA5. Destacadas figuras do pensamento contemporâneo como Rachel Carson, Jacques Ellul, Ivan Illich, Langdon Winner ou, mais recentemente, Evnegy Morozov seriam também merecedoras desse epíteto6. O simples facto de se manifestar cepticismo relativamente ao sentido do desenvolvimento tecnológico ou de se expressar algum distanciamento crítico relativamente a entendimentos meramente virtuosos da inovação, sem ter em conta os inúmeros riscos e potenciais consequências nefastas destes processos sócio-técnicos, leva à colagem de rótulos como, por exemplo, o de neoludita, que operam sobretudo enquanto dispositivos estigmatizantes que inviabilizam a possibilidade do diálogo, da crítica e, em última instância, do pensamento.
O ludismo, sublinha-se em Breaking Things at Work7, encerra em si uma perspectiva crítica da tecnologia, sobretudo no que diz respeito aos seus efeitos sobre os processos produtivos e as condições de trabalho – a tecnologia não é neutra, mas sim um campo de batalha –, rejeita a lógica do aumento da produtividade e da eficiência como fins últimos a alcançar e assume uma condição eminentemente contrária às relações sociais do capitalismo, independentemente de este assentar na máquina a vapor ou no microchip8.
Neste sentido, tanto os luditas, no passado, como os neoluditas, hoje, parecem desempenhar uma função social da maior relevância, contestando a noção ingénua de que o desenvolvimento tecnológico é um fenómeno natural e não o produto de escolhas humanas (políticas, institucionais, jurídicas, etc.). Para além disso, ao fazerem das estruturas e sistemas de poder o objeto do seu questionamento, manifestando preocupações existenciais sobre o presente e o futuro, contribuem para um entendimento mais abrangente do desenvolvimento tecnológico, criando as condições necessárias para que a politização do debate em torno da tecnologia possa ocorrer. Que é como quem diz, a disputa pelo poder.
(continua)
Cassidy J (2025) Luddite Lessons. The weavers lost the fight to save their livelihoods. As A.I. looms, can we do better? The New Yorker, April 21, p. 20-24.
Para aprofundar a compreensão sobre quem eram os luditas e como se organizavam ver, por exemplo, Bailey B (1998) The Luddite Rebelion. New York University Press.
Alonso A, Arzoz I (2021) El desencanto del Progreso: Para una crítica luddita de la tecnología. Editorial Dykinson, p.31.
Mueller G (2021) Breaking Things at Work: The Luddites Are Right about Why You Hate Your Job. Verso Books.
Ver, para uma crítica profunda do “capitalismo tecnológico”, Sadowski J (2025) The mechanic and the Luddite : a ruthless criticism of technology and capitalism. University of California Press.
Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?
ilustração: Ricardo ferreira
Quando, por ocasião dos 50 anos de Abril e Novembro, uma turma de estudantes universitários elaborou uma série de trabalhos sobre esse período, constatou-se que todos os grupos que haviam escrito sobre o 25 de Novembro, de diferentes formas, partiam do mesmo pressuposto: a ação militar dos “moderados” tinha posto cobro a um “golpe da extrema-esquerda”, tinha evitado “a guerra civil e a ditadura” e instalado “a democracia”.
Foi fácil verificar que essa era uma resposta-tipo fornecida por todas as mais populares plataformas de inteligência artificial generativa então disponíveis. Ou seja, todos os textos dos estudantes eram diferentes, mas nenhum deles escapava à premissa base fornecida pela engenhoca.
A aceleração dos ritmos industrializados de ensino-aprendizagem com que se fabricalizou o ensino superior (esquartejado em cadeiras semestrais, saturado por turmas extensas, sobreposições inevitáveis de conteúdos, testes, trabalhos, provas, exames…) inviabilizou qualquer possibilidade de discutir seriamente quer o 25 de Novembro, quer a parametrização em que os dispositivos de IA o enquadravam, como e porquê.
O episódio ilustra com eloquência a conhecida e disputada tese da não neutralidade da técnica, por oposição à ideia generalizada de que as “tecnologias” são em si mesmas neutrais, só os seus usos lhes determinam a bondade ou maldade. De há muito que uma longa tradição de autores vem sustentadamente combatendo este ponto de vista. Uma nova técnica, como lembrava, há décadas, Neil Postman, muda tudo.
No caso da chamada inteligência artificial, cúspide até aqui das possibilidades geradas pelo que Touring chamou ao computador, “a máquina das máquinas”, a proposta é perigosamente extremista. Completar a inteligência humana, chamemos-lhe “natural”, por um dispositivo protético que potencie a primeira sem ser esmagada pelo segundo.
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Há, inclusivamente, quem se dedique a especular pelo prisma da filosofia política até que ponto um uso “socialista” desta ferramenta não poderia resolver no futuro problemas que os esboços socialistas passados não conseguiram solucionar. Mas essa é uma variante do modelo de raciocínio sobre a neutralidade da técnica. Numa reflexão penetrante, Evgeny Morozov expõe, sobre a IA, um ponto de vista diferente. Para o autor de “Socialism After AI” (https://www.theideasletter.org/essay/socialism-after-ai/), a técnica não é “uma esfera puramente instrumental que a política orienta a partir do exterior”, uma perspetiva que constitui uma cegueira a respeito do problema de saber onde se situa presentemente o poder.
O poder de criar mundos
Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.
A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.
Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.
Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.
Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.
Embora muitas vezes dissociadas de táticas e estratégias contra as expressões do capital na educação, essas lutas têm contribuído de modo extraordinário para dissipar águas turvas que dissimulam as aceleradas e radicais mudanças nas escolas, em especial após 2022, ano em que a IA-Gen. se popularizou. Sem essas lutas, o presente artigo não seria possível.
Os limites táticos e estratégicos dessas lutas advêm, parcialmente, de uma leitura ainda incipiente do significado da dissociação entre as big tech e i) o complexo militar e de vigilância; ii) a plataformização de todas as formas de trabalho, e iii) o uso de IA pelas corporações educacionais, questões retomadas adiante. Os estudos realizados no âmbito do Coletivo de Estudos em Marxismo e Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro10 propugnam que é imprescindível examinar, compreender e explicar tais nexos para explicar as mudanças no trabalho docente e nos processos de ensino e aprendizagem que têm provocado o derretimento da autonomia intelectual dos estudantes. Mais amplamente, preocupa a refuncionalização das escolas e universidades públicas que podem estar substituindo a formação crítica, sistemática, metódica, comprometida com a internalização profunda dos conhecimentos – base da autonomia intelectual necessária para que todos os que possuem um rosto humano possam fazer uso autônomo e crítico da razão – pela universidade operacional11 que sacrifica os processos em nome dos produtos, os valores ético-políticos e a busca processual da verdade em virtude dos vieses epistemológicos dos algoritmos que reproduzem os valores políticos de suas corporações comprometidas com o complexo militar e de vigilância.
A análise centrada nos processos de ensino e aprendizagem nas salas de aula, se não levar em consideração as nervuras políticas e econômicas das big tech, apaga problemas e pode inspirar formas de lutas inexequíveis. Dois exemplos são destacáveis. A Internacional da Educação, nas Resoluções de seu 10o Congresso, realizado em Buenos Aires, em 2024, propôs: “Impulsionar as competências das organizações afiliadas para colaborar com empresas tecnológicas na definição do conteúdo e das metodologias que possibilitam a aprendizagem e o ensino profissional”12 e a Federação Americana de Professores (AFT) pactuou parcerias com empresas como Microsoft, OpenAI e Anthropic que envolvem grandes somas de recursos (US$ 23 milhões) para estabelecer a Academia Nacional de Instrução em IA13.
Embora seja justificável a defesa da regulação estatal das big tech compreendendo aspectos importantes como privacidade, propriedade intelectual e o uso ético e responsável da IA, tal enfoque não enfrenta o cerne do problema que nem arranhado é pelas abordagens dissociadas da natureza e do caráter das big tech, de seus Grandes Sistemas de Linguagem e do caráter performativo de seus algoritmos.
(2)
Existem diferenças específicas entre as big tech e as formas de privatização e mercantilização que foram difundidas nas escolas e universidades nos anos 1990. Um ponto a destacar é o tamanho dessas corporações. As sete gigantes, Alphabet (Google), Apple, Amazon, Microsoft, Meta (GAFAM), Nvidia e Tesla, estão sendo turbinadas por investimentos jamais imaginados. Somente as ações das corporações que atuam na IA nas bolsas estadunidenses correspondem ao valor total de todas as bolsas europeias reunidas14. Os investimentos previstos em infraestrutura, US$ 375 mil milhões em 2025 e mais de US$ 600 mil milhões em 202615,16 compreendem a ‘economia real’, como data centers, fábricas de semicondutores e fornecimento de energia e de água necessários para construir o poder de computação que a IA. exige. Além disso, é preciso computar os investimentos em mineradoras. Não menos importante, as vultosas somas aplicadas no desenvolvimento de supercomputadores e sistemas complexos, modelos de linguagem, todos eles indissociáveis da computação quântica. A Brookfield Asset Management estima que somente a infraestrutura de IA absorverá US$ 7 biliões nos próximos 10 anos17. Esse processo de acumulação é alavancado por investimentos de escala inédita e provoca mudanças disruptivas, monopolistas em todas as esferas da vida.
Contudo, a economia digital precisa ser realizada em curto intervalo de tempo, em virtude da obsolescência do setor, pirataria, novas abordagens tecnológicas, como foi o caso da Deep Seek, por exemplo. Por isso, a agressividade de ocupação dos mercados é um traço distintivo dessas corporações que enfrentam qualquer intento de regulação dos Estados. Nenhuma outra tecnologia foi tão concentrada e assumiu tal dimensão. Aproximadamente 6 mil milhões de pessoas utilizam quotidianamente smartphones, tornando o alcance das big tech planetário18.
Retomando a caracterização das big tech, o facto de serem corporações vinculadas ao complexo militar e de vigilância requer que seus sistemas de linguagem e seus algoritmos possam elaborar perfis das populações a partir dos quais: i) indivíduos poderiam ser alvos para os drones guiados pela IA.; ii) os sistemas de vigilância (na forma de aplicativos, câmeras de trânsito, reconhecimento facial) podem ser acionados para localizar trabalhadores não documentados, a exemplo da Palantir, iii) as corporações possam produzir hierarquias de humanidade, uma forma de racismo algorítmico, também utilizados nas guerras em que, por exemplo, drones identificam as pessoas palestinianas como alvos tidos como legítimos e, também, iv) as corporações podem se valer dos perfis dos estudantes de uma determinada escola, universidade, rede de ensino, territórios para personalizar o tipo de educação que as frações mais exploradas das classes trabalhadoras poderão receber, atualizando os novos dualismos educacionais. Essa hierarquia de perfis é intrínseca ao LLM e aos algoritmos.
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(3)
Os Grandes Modelos de Linguagem de propriedade de corporações são indissociáveis dos sistemas complexos de algoritmos que condicionam quotidianamente milhões de pessoas e organizações em todo o mundo, incluindo as escolas e as universidades nas quais circula a grande maioria dos mais de 1400 milhões de estudantes e trabalhadores da educação em atividade. Distintamente das tecnologias de informação e comunicação como a televisão, por exemplo, as atuais tecnologias digitais permitem interação do sujeito que recebe a mensagem com os seus emissores, ainda que o seu lugar seja inclementemente subordinado. Likes, partilhas, comentários, postagens e imagens mobilizam o desejo, sequestram a atenção e geram a percepção de integração em determinados grupos. E não somente isso. As interações, por sua vez, “educam” os algoritmos que, com isso, condicionam ainda mais profundamente os seus usuários.
O facto de não ser uma rua de sentido único reforça a penetrante ideologia do sujeito de que ele faz parte de uma comunidade, seja ela religiosa, política, futebolística, etc. As big tech, como amplamente documentado, estão operando politicamente e dirigem seus algoritmos para reter a atenção e mobilizar paixões em prol da extrema-direita neofascista19. O quadro é ainda mais grave em virtude de sua escala. O controle dos dados que consubstanciam os perfis formatados pelos algoritmos e pelas corporações é tratado por elas como bens privados e livres de qualquer regulação estatal.
(4)
A partir das indicações desenvolvidas até aqui é possível retomar a discussão das corporações educacionais que estão se associando de modo subordinado às big tech. Estas são totalmente distintas das existentes há uma década. Atualmente, as corporações educacionais e grupos editoriais estão impulsionados pelos operadores financeiros e foram transformadas em sociedades anónimas, organizadas na forma de holdings e com ações nas bolsas de valores. Os investidores financeiros comandam as empresas nos conselhos de administração, um bastião de poder exclusivo. Prevalece a avaliação nos grupos educacionais de que a associação subordinada com as big tech é uma grande oportunidade para requalificar os negócios relacionados com os sistemas de ensino e as plataformas de trabalho. De facto, os currículos escolares, regra geral elaborados pelos aparelhos privados de hegemonia empresariais, como ocorreu com as Bases Nacionais Comuns Curriculares no Brasil, elaboradas pela aliança de dois conglomerados de APH (Lemann e Todos pela Educação) estão sendo operacionalizados por meio de planos de aula por IA e propagados nas escolas por intermédio de sistemas de ensino e plataformas de trabalho mediados pela IA-Gen.
Frequentemente, as próprias universidades e as redes de ensino, sob orientação governamental dos Ministérios da Educação e das Secretarias de Educação, adquirem esses sistemas e plataformas para suas escolas, aparentemente acreditando na possibilidade de um uso ético dos referidos artefactos para melhorar a eficiência do trabalho docente. Assim, incentivam os estudantes e professores a fazer um uso “responsável” da IA generativa, realimentando a megamáquina educativa do capital, como destacado em um estudo anterior (Leher, 2026)20.
A IA se apropria do acervo de conhecimentos que pertence aos povos, mas oferece aos seus usuários, espalhados por todo o mundo, produtos semelhantes a alimentos processados. Ela suprime os processos, deseduca os jovens ao afastá-los da leitura lenta e profunda, elabora resumos de textos que não serão lidos e inviabiliza os processos de elaboração criativa de textos. Uma pesquisa do MIT sobre o custo cognitivo de utilizar um Grande Modelo de Linguagem (LLM) na redação de ensaios concluiu que os participantes que utilizaram o ChatGPT para escrever apresentaram menor conectividade cerebral, pior memória do ensaio que acabavam de “escrever” e menor senso de autoria, uma vez que o pensamento foi externalizado21. Centenas de milhões de jovens têm sua capacidade de concentração comprometida, o que afeta o pensamento sistemático e concentrado. Formatos curtos, como o TikTok e o Instagram, deseducam a concentração interior. Milhões de jovens enfrentam sérias dificuldades para ler e utilizar a matemática básica. Com isso, o pensamento crítico vai se esvaindo cada vez mais, o que prejudica a capacidade de refletir sobre questões que são decisivas para o futuro da humanidade.
O impacto cognitivo de curto prazo da tecnologia é sombrio: vários estudos a associaram à perda de memória de curto prazo e descobriram que ela atrofia o pensamento crítico.
Desse modo, a expropriação sobretudo das classes trabalhadoras é realizada com a conivência das políticas nacionais e internacionais que deveriam proteger a formação intelectual dos estudantes. Com efeito, o impacto cognitivo de curto prazo da tecnologia é sombrio: vários estudos a associaram à perda de memória de curto prazo e descobriram que ela atrofia o pensamento crítico23,24.
Em Portugal, o Ministério da Educação e as câmaras municipais, sob a capa da inovação e da “abertura à comunidade” como ONGs, são os centros de entrada destes holdings nas escolas. No Brasil, atualmente na vanguarda mundial da mercantilização financeirizada da educação, os grandes grupos que atuam na educação possuem ações nas bolsas de valores e estão sob controle de fundos de investimentos, inclusive pelos maiores fundos como Blackstone, Apollo, KKR, Carlyle, Advent, e gestoras de ativos como BlackRock, a maior do mundo com ativos da ordem de US$ 10 biliões, e Oppenheimer, entre outros. No caso brasileiro, o setor privado é responsável por cerca de 70% das matrículas do ensino superior: dos 10 milhões de estudantes no ensino superior, 5,2 milhões estão na modalidade a distância – EaD (INEP, 2024) que não assegura sequer uma formação compatível com os objetivos legais minimalistas do ensino superior. A financeirização dos holdings educacionais produz uma nefasta monopolização das matrículas estudantis. De facto, embora existam 2600 instituições de ensino superior, apenas uma dezena de holdings já possui cerca de 60% dos estudantes e, no caso da EaD, a concentração dos dez maiores grupos alcança preocupantes 80% das matrículas.
Na educação básica, governos comprometidos com a austeridade contra o trabalho e a soberania popular sobre os assuntos públicos, adotam as tecnologias digitais nos moldes do “tecnossolucionismo”. Se as crianças não estão indo bem na alfabetização, as tecnologias irão resolver o problema. Se existem distorções entre a idade da criança e o seu nível de ensino, idem, tecnologias podem ‘corrigir’ o problema. Se a língua portuguesa é muito complicada, uma IA pode simplificá-la. Esse discurso neoliberal é empreendido por uma tecnocracia que se diz técnica, referenciada em supostas provas científicas e, com isso, afastam os professores de todas as decisões relevantes sobre a escola e as políticas educacionais. Essa perspectiva abriu largas autoestradas para a entrada das corporações educacionais nas escolas, por meio da comercialização de seus sistemas de ensino e plataformas de trabalho nas escolas. Desse modo, com a anuência e ação dos governos de austeridade, as corporações despejam nas salas de aula a educação processada, “macdonaldizada” e calibrada para os diferentes perfis sociais, realimentando as desigualdades sociais e naturalizando a separação das escolas para dirigidos e as escolas para dirigentes. Assim, por que ler Saramago se é possível difundir competências instrumentais condizentes com o mercado para os jovens pobres?
Tais ações são brutalmente coercivas. Os sistemas de avaliação erigidos pelas políticas neoliberais dos anos 1990 pela OCDE, as contrarreformas do Processo de Bolonha nas universidades europeias, a massificação da EaD no Brasil são processos indissociáveis da exigência de que os professores preencham demorados e inúteis plataformas diariamente, ampliando o controle, a exploração, a exaustão e o sofrimento laboral. Como destacado pelo movimento “Tirem as Big Tech das Mesas das Crianças” as escolas devem estar livres dessas corporações.
(5)
A ofensiva das big tech cujo epicentro encontra-se nos EUA25 e das corporações educacionais a elas subordinadas, distribuídas em diversos países, mira o conjunto da formação das classes trabalhadoras e, como expressão do capital-imperialismo, está inserida na geopolítica e na geoeconomia mundiais. As movimentações do capital engendram outras expressões das lutas de classes em âmbito mundial. Como apontado, essas contradições se materializam na forma de lutas, greves, mobilizações dos trabalhadores da educação e dos estudantes. Não é possível a neutralidade ética. Os coletivos de pesquisa do campo crítico, sindicatos, jornais como o Maio não podem deixar de ser parte de um esforço unitário e coordenado para coligir e analisar as lutas que eclodem em toda a parte contra tal ofensiva do capital.
Existem iniciativas antissistémicas, mas ainda de magnitude modesta. No I Seminário Internacional Capitalismo Digital, Financeirização e Educação, realizado em julho de 2025 no campus da Praia Vermelha da UFRJ com a participação de pesquisadores de diversas universidades brasileiras e da Universidade de Barcelona e do Chile foi consensuada a criação da Rede Internacional de Estudos e Pesquisas sobre o Avanço do Capital por meio de Tecnologias Digitais na Educação. Em julho de 2026, na Universidade de Barcelona, acontecerá o II Congresso Internacional sobre Capitalismo e Educação, no qual a referida rede internacional poderá ganhar nova dimensão. Outra iniciativa afim é o projeto de investigação continental da Red Social para la Educación Pública en las Américas (Initiative for Democratic Education in the Americas) Políticas de las “nuevas” derechas hacia la educación pública, resistências y alternativas, cujo documento de trabalho foi discutido de modo sistemático ao longo de 2024 e de 2025 em dois seminários, o primeiro na Argentina (2024, CTERA) e o seguinte no México em 2025 (UNAM) com pesquisadores e ativistas sociais de Argentina, Canadá, Colômbia, Costa Rica, Equador, Estados Unidos, Guatemala, Honduras e México. Essas iniciativas, inclusive as greves indicadas no presente texto, embora limitadas, confirmam que está havendo um adensamento de ações contra as novas expressões do capital na educação.
Existem avanços tecnocientíficos que foram desenvolvidos na sociedade capitalista que, por meio de rupturas profundas, poderão ser apropriadas pelos povos em busca da soberania popular para além do capital.
Uma tarefa urgente é construir conexões mais orgânicas com as lutas sindicais e estudantis que se espalham pelo mundo. Quando a presidente da AFT, Randi Weingarten, afirmou que “achámos que precisávamos trabalhar com as maiores empresas do mundo. Fomos até elas”, o que prontamente foi acolhido pelas big tech que irão repassar mais de US$ 30 milhões para a constituição de centros de formação que irão acionar 400 mil docentes nos próximos anos26 é evidente que o tema alcança a grande política do capital! Sem um esforço coordenado dos sindicatos comprometidos com a desmercantilização da educação, logo a aliança das big tech irá ampliar a subordinação de outras grandes organizações sindicais.
Pensar as tecnologias na educação requer radicalidade. Não se trata, obviamente, de inseri-las em manuais sobre o bom uso da IA, como querem muitas universidades, nem de treinar professores para um uso adequado das mesmas.
Plataformas de comunicação virtuais, aplicativos de tradução, acesso livre aos acervos de museus e bibliotecas e programas de busca sofisticados, capazes de respostas que sejam excelentes pontos de partida para novos estudos, devem ser objetivos internacionalistas. Concretamente, existem avanços tecnocientíficos que foram desenvolvidos na sociedade capitalista que, por meio de rupturas profundas, poderão ser apropriadas pelos povos em busca da soberania popular para além do capital. Esse movimento está apenas se iniciando e somente avançará a partir do internacionalismo, pois tais plataformas não mercantis não podem se esgotar nos Estados em uma perspectiva chauvinista. É uma luta empolgante e necessária para o porvir da humanidade. Juntos, lograremos avanços!
1 Professor catedrático da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
11 CHAUI, Marilena. A universidade operacional. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas/Sorocaba, v. 4, n. 3, 1999. Disponível em: Portal de Periódicos Uniso. Acesso em: 17 maio 2026.
20 Leher, R. IA, TECNOFASCISMO Y EDUCACIÓN. Importancia estratégica de la pedagogía ludita. (Prólogo) In: Jarquín, M. La pedagogía ludita. Bs.As. CLACSO, 2026 (no prelo)
22 ABBAS, Muhammad; JAM, Farooq Ahmed; KHAN, Tariq Iqbal. Is it harmful or helpful? Examining the causes and consequences of generative AI usage among university students. International Journal of Educational Technology in Higher Education, v. 21, art. 10, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s41239-024-00444-7. Acesso em: 15 maio 2026.
23 Noor Al-Sibai. Study Finds That People Who Entrust Tasks to AI Are Losing Critical Thinking Skills. Futurism. 18/02/2025. Disponível em: https://futurism.com/study-ai-critical-thinking. Acesso em 15/-5/26.
24 LEE, Hao-Ping et al. The Impact of Generative AI on Critical Thinking: Self-Reported Reductions in Cognitive Effort and Confidence Effects From a Survey of Knowledge Workers. In: CHI CONFERENCE ON HUMAN FACTORS IN COMPUTING SYSTEMS, 2025, Yokohama. Proceedings […]. New York: ACM, 2025. p. 1-22.
25 A China possui particularidades que não foram examinadas no presente texto.
Entre janeiro e abril de 2026, mais de 128 000 trabalhadores foram despedidos. A Meta despediu 8000, apontando para 10 000 até ao final de 20262, a Amazon 30 000, os seis maiores bancos de Wall Street mais 15 000, na Oracle o número pode ascender aos 30 000, o mesmo que a UPS espera despedir ao longo de 2026, a empresa química Dow anuncia 4500 e a Block aponta para uma redução de 40% da sua força de trabalho (± 4000 trabalhadores). Já em maio, a tecnológica norte-americana Cloudfare anunciou o despedimento de cerca de 1100 pessoas3 (20% da sua força de trabalho). Entretanto, Evan Spiegel, CEO da empresa norte-americana Snap, responsável pelo Snapchat, anunciou (imagina-se que numa daquelas sessões online sem direito a diálogo) o despedimento de cerca de 1000 trabalhadores, incluindo 16% do seu quadro de pessoal a tempo inteiro4.
Mesmo que muitas das pessoas despedidas não tenham ainda sido substituídas, ou possam sequer vir a sê-lo, pela IA, o turbo-capitalismo digital powered by AI empurra as grandes empresas neste sentido5. Afinal de contas, a competição feroz é a alma do negócio e, como é sabido, a noção de que os trabalhadores são variável de ajustamento fez escola. O facto de a IA ser capaz de realizar tarefas intelectuais que até há poucos anos só pareciam possíveis na ficção científica6, acentuando a fragilização dos trabalhadores de colarinho branco, só dá mais visibilidade ao fenómeno.
O hype é tanto que, no Dia do Trabalhador, se realizou no Beato Innovation District, a primeira edição do Agents Day, destinada a developers, founders e builders. Promovida pela CTO Portugal, comunidade de líderes em tecnologia e IA, foi anunciada como uma iniciativa que visava “colocar agentes de IA a trabalhar pelos humanos7”. Ao mesmo tempo, vai fazendo caminho o celestial canto dos administradores de empresas, para quem “a IA vai substituir os trabalhadores que não se adaptarem8”. Parafraseando Margaret Thatcher, poder-se-ia até dizer que a IA é o método, o objetivo é despedir trabalhadores.
No limite, toda a força de trabalho humana seria substituída por IA. O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários. Só que esta hipótese, explorada em The AI Layoff Trap9, e que decorre de uma lógica individual irrepreensível por parte de empresas que lutam pela sobrevivência na selva capitalista, gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo que se produz? Ou, recorrendo a terminologia marxista, desde quando é possível a substituição integral de trabalho vivo por trabalho morto? Mas, infelizmente, não é tudo. Parece que o aperfeiçoamento da IA só piora as coisas, dado que o impulso para substituir trabalho humano por IA se intensifica e acelera. Uma verdadeira corrida para o abismo ou para uma crise de sobreprodução de proporções bíblicas.
Num mundo profundamente desigual, em que o rendimento real dos trabalhadores caiu 12%, enquanto o dos CEO aumentou 54% entre 2019 e 202510, e onde os bilionários e os ultra-ricos dominam os media e a IA (mais de metade dos grandes grupos mundiais de media são detidos por bilionários, 9 das 10 maior empresas na área das redes sociais são geridas por apenas seis bilionários, algo que sucede com 8 das 10 maiores empresas de IA, com apenas três delas a possuírem quase 90% de quota de mercado11), o tecnoterrorismo impõe-se como discurso dominante que legitima despedimentos, instala o medo e a insegurança, constitui-se enquanto mecanismo ideológico disciplinador de uma força de trabalho amedrontada que, por isso, perde capacidade reivindicativa.
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Por outras palavras, trata-se de “uma narrativa futurista que amplifica ameaças hipotéticas para mascarar as contradições muito concretas do presente (...) [funcionando] como um espelho quebrado manejado pelo capital tecnológico: cada caco devolve uma imagem ampliada do perigo, mas nunca permite enxergar a totalidade. Em vez de descrever realisticamente o que a IA é capaz de fazer, projecta fantasias hiperbólicas que servem para legitimar a precarização, pressionar salários e justificar reformas regressivas12”. Até porque, segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho13, apesar de 25% dos empregos no mundo estarem potencialmente expostos à IA, apenas 5-6% enfrentam ameaça de extinção; para além de, como também é evidenciado por esta organização, existirem inúmeros desafios metodológicos relacionados com a medição dos aumentos de produtividade resultantes da adopção da IA14.
Naturalmente, o impacto sobre o trabalho não se limita ao desemprego (real ou imaginário). Como se defende em “O trabalho explorado por trás da inteligência artificial15”, por trás de cada suposta conquista da IA existe um exército de trabalhadores precarizados que, nas mais das vezes, se encontram a milhares de quilómetros de Silicon Valley. Analistas de dados, motoristas de entrega, moderadores de conteúdos, são milhões os trabalhadores mal remunerados em todo o mundo – Venezuela, Bulgária, Índia, Quénia, Filipinas ou México são alguns dos locais onde se concentram – que executam tarefas repetitivas e monótonas indispensáveis ao desenvolvimento da IA, muitas vezes colocando as suas vidas em risco. Bem diz o povo, longe da vista, longe do coração. E assim se exporta e invisibiliza sub-desenvolvimento, trabalho indigno e miséria social, ao mesmo tempo que se varrem para debaixo do tapete os inúmeros riscos psicossociais associados ao uso da IA16 (ex: vigilância intrusiva, perda de autonomia e dignidade no trabalho, recolha de dados excessiva, etc.).
Por economia de espaço, abstemo-nos ainda de falar dos enormes custos ecológicos resultantes dos consumos de água, energia eléctrica, solo e outros recursos necessários ao funcionamento da infraestrutura da IA, centros de dados, servidores e restante parafernália tecnológica; do aprofundamento do fosso entre a metrópole imperialista e as periferias; ou dos efeitos da IA sobre a inteligência, a criatividade, a empatia, a ética e a saúde mental de crianças e jovens; ou da superinteligência que tem gerado fundados receios sobre a sua potencial capacidade para pôr fim à humanidade17.
Por uma IA ao serviço do povo!
Hoje, como no contexto de aparecimento dos luditas, o problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas. Aquilo que podemos observar é que, hoje, os principais beneficiários da IA são os grandes monopolistas da Big Tech. São eles que, num contexto de degradação generalizada das condições de vida – afinal, já levamos mais de meio século de contra-revolução neoliberal –, se empanturram em vil metal ao mesmo tempo que atiram com trabalhadores para o desemprego. Os donos da IA tornaram-se uma espécie de casta privilegiada que concentra todo o poder – económico, social, político e cultural –, enquanto os restantes, sem qualquer controlo sobre a arquitetura da IA, disputam as migalhas que caem da mesa com que se banqueteiam. Deve ser isto aquilo a que chamam “trickle down economics”.
E é por isso que, em vez de se discutir o alcance potencial da IA para promover um aumento generalizado do bem-estar, como, por exemplo, a possibilidade de todos trabalharmos menos horas sem qualquer perda de remuneração, antes pelo contrário aumentando salários, e termos todos mais tempo para viver, aceitando a lógica (que já vimos ser discutível mas é aquela que está na base do tecnoterrorismo vigente) de que a IA gera enormes ganhos de produtividade, aquilo que sucede são despedimentos em barda e uma chantagem permanente sobre os trabalhadores que, como é bom de ver, ou se adaptam ou sucumbem ao avanço inexorável da IA.
O problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas.
Porque é que não se usam os extraordinários avanços tecnológicos para libertar quem vive do seu trabalho, daquilo que nele é penoso, arriscado, desumano e alienante? Porque é que em vez de a tecnologia ser colocada ao serviço do povo trabalhador, para que este tenha todo o tempo para ser aquilo que deseja ser, é utilizada como cutelo sobre o seu pescoço? Porque, como sempre sucede no capitalismo, independentemente das suas metamorfoses ao longo do tempo, se privatizam os ganhos e socializam as perdas. Como defende Prabhat Patnaik, “se a humanidade está no limiar de grandes avanços científicos e tecnológicos, então a necessidade do socialismo, para tirar partido desses avanços, torna-se esmagadora. O socialismo torna-se então uma sociedade que não é apenas mais equitativa, mas que pode de facto fazer justiça ao engenho humano na introdução de profundos avanços tecnológicos, precisamente devido à sua natureza equitativa, precisamente porque é uma sociedade onde o trabalho e o produto são partilhados equitativamente entre todos18”.
Sendo produto de um empreendimento coletivo, a única forma aceitável de governo da IA passa pela socialização da sua propriedade19. Só assim, os seus efeitos deletérios sobre as classes trabalhadoras podem passar a ser uma carta fora do baralho ou, pelo menos, uma preocupação genuína, dado que seriam estes os donos da IA e os principais interessados em que ela não funcionasse como ferramenta digital de exploração. Por algum motivo, o recente manifesto da Palantir não menciona trabalhadores nem sindicatos. Porque sabe que “os trabalhadores por si só, se se organizarem, são capazes de parar as linhas de produção da morte. Uma greve geral no vale do Silício, ou mesmo nos próprios escritórios da Palantir, é o pesadelo deste projeto20”.
Com uma política anti-monopolista e a socialização da IA, mesmo os seus efeitos nocivos sobre a nossa “casa comum21” seriam potencialmente mitigados, até porque o trabalhador comum não tem possibilidades de construir um bunker numa ilha remota ou de sequer se imaginar a viver em Marte como fazem os multimilionários tecnofascistas. Enquanto a IA for pensada apenas e só com vista ao lucro e à acumulação de riqueza por meia dúzia de sociopatas, que perdem a maior parte do seu tempo atormentados com a possibilidade de perderem uns milhões22, não existe qualquer possibilidade de não operar enquanto ferramenta de produção de miséria social em massa.
Neste sentido, a IA corresponde a uma forma altamente sofisticada e complexa de extractivismo socioecológico. Parafraseando Proudhon, a “IA é roubo!” e reverter esta lógica passaria, por exemplo, por tornar público, universal e gratuito o acesso à tecnologia, inclusive à sua arquitetura mais elementar que hoje permanece debaixo de um manto de enorme opacidade (afinal, o segredo é a alma do negócio). Desmercantilizar a IA implica também que a sua infraestrutura fique sujeita a controlo democrático e transparente, que esta seja concebida enquanto propriedade comum da humanidade. Caso contrário, “não [se] pode controlar o seu futuro, não [se] é livre, não [se] é independente e não [se] pode decidir sobre o seu futuro nem proteger a sua democracia23” e a oligarquia tecno-digital reforça o seu poder totalitário. A este respeito, em Portugal, vale a pena salientar a proposta pioneira de criação do Instituto Nacional para a Computação Avançada, feita pelo PCP24.
Como se afirma em “Automation and AI: A Socialist Perspective on Workers’ Rights25”, um projeto socialista para a IA seria capaz de colocar os aumentos de produtividade e eficiência ao serviço do bem-estar de quem vive do seu trabalho. Como? Diminuindo erros e eliminando desperdícios nos processos produtivos; assegurando as tarefas repetitivas e libertando os trabalhadores para aquilo que é mais recompensador; substituindo os trabalhos sujos e perigosos, reduzindo acidentes e melhorando a segurança nos locais de trabalho; criando condições para o aparecimento de novas ocupações, altamente qualificadas e bem remuneradas; impedindo despedimentos sob pretexto de adopção da IA26; aumentando o tempo livre para atividades de lazer e ócio, jornadas de trabalho mais curtas e mais tempo de férias; levando a cabo grandes investimentos em serviços e infraestruturas públicas. Contudo, fazer avançar uma agenda tão progressista requer, naturalmente, que se combatam os inúmeros riscos e desafios que a IA coloca hoje ao trabalho. Para além do desemprego, da compressão salarial e das desigualdades crescentes, que já antes vimos, também a vigilância e o controlo permanentes devem ser combatidos, bem como a degradação do trabalho que o torna desumano.
Ao contrariar o tecnoterrorismo e os seus efeitos, indo à raiz do problema, uma perspectiva socialista da IA cria um novo horizonte de possibilidades para os trabalhadores, susceptível de libertar todo o potencial da tecnologia e colocá-lo ao seu serviço. A IA deve ser escravizada e não fazer de nós escravos. E essa foi a intuição inicial dos luditas que vale a pena recuperar para a atualidade e, em última instância, foi contra isso que se revoltaram há cerca de dois séculos, lançando a semente que viria a germinar num potente movimento operário e nos primeiros sindicatos. Não contra as máquinas, mas sim contra os grandes monopólios do capitalismo.
É por isso urgente “virar o jogo” e resgatar para o trabalho o potencial emancipador desta “nova” tecnologia. Rejeitando tanto as acusações preconceituosas dirigidas aos neoluditas de hoje, como a sua mais recente variação – “populismo IA27 –, desenvolvendo uma cultura contra-hegemónica esclarecida, consciente e crítica e uma alternativa socialista que coloque a IA, não enquanto fetiche28, mas sim como produto histórico-geográfico do capitalismo, no centro das suas preocupações, promovendo ação coletiva e lugares de encontro cara a cara, onde a empatia, a solidariedade e a confiança se constroem. Não num futuro longínquo onde apenas os historiadores da longa duração poderão ser capazes de vislumbrar retrospetivamente os ganhos civilizacionais resultantes da IA, deixando na penumbra o seu rasto de destruição e violência social, mas tão rapidamente quanto possível para evitar que este se torne cada vez mais real. Lutemos, pois, por uma IA ao serviço do povo!
13 Gmyrek P, Berg J, Kamiński K, Konopczyński F, Ładna A, Nafradi B, Rosłaniec K, Troszyński M (2025) Generative AI and Jobs: A Refined Global Index of Occupational Exposure, ILO Working Paper 140 (Geneva, ILO). https://doi.org/10.54394/HETP0387.
14 Ver ILO (2026) The Impact of Artificial Intelligence on Productivity: Evidence Across Levels of Aggregation, Research brief. International Labour Office.
22 A partir da análise dos ficheiros Epstein, é possível compreender que a urdimenta de planos e estratégias de preservação dos privilégios é a principal ocupação do tempo das elites globais. Ver https://the.ink/s/epstein (acedido a 11 de maio de 2026).
Alonso A, Arzoz I (2021) El desencanto del Progreso: Para una crítica luddita de la tecnología. Editorial Dykinson, p.31.
Mueller G (2021) Breaking Things at Work: The Luddites Are Right about Why You Hate Your Job. Verso Books.
Ver, para uma crítica profunda do “capitalismo tecnológico”, Sadowski J (2025) The mechanic and the Luddite : a ruthless criticism of technology and capitalism. University of California Press.
Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.
A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.
Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.
Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.
Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.
…
Os vencedores agora podem reescrever a história através da IA generativa. Mas qual o sentido de recorrer a uma tecnologia que falseia e deturpa?
Os múltiplos exemplos de erros, imprecisões, invenções e falsidades produzidos pelas respostas dos mecanismos de IA generativa já insinuavam um problema que agora ficou evidente: a possibilidade, e o risco, de se alterar o passado e reescrever a história.
Este é o principal alerta dos investigadores Nuno Moniz, da Universidade de Notre Dame, e Miguel Cardina, da Universidade de Coimbra, ao apresentarem, no início de maio, um relatório sobre o estudo, desenvolvido em conjunto com colegas de outros países, que buscava saber como o ChatGPT respondia a perguntas sobre quatro conflitos internacionais, entre eles a guerra colonial e os movimentos de libertação das antigas colónias portuguesas em África.
Os resultados confirmaram aquilo que estudiosos e utilizadores críticos da IA generativa já vinham constatando, independentemente da área de conhecimento: as respostas produzidas pelos robôs estão cheias de invenções, distorções, imprecisões, falsidades, omissões. A investigação escolheu lidar com o ChatGPT por ser o mais popular entre os chatbots e comprovou problemas recorrentes, como informações fabricadas – isto é, inventadas –, erros factuais básicos como a data de ocorrência de determinados eventos, narrativas históricas falsas ou distorcidas, influência da língua prevalecente no treino da máquina para a produção de resultados ideologicamente direcionados e narrativas diferentes ou mesmo contraditórias sobre os mesmos eventos, em função da língua.
As consequências são evidentes e muito graves: crianças e jovens deformados a partir de sistemas que estabelecem padrões de autoridade falsos e embaralham informações verdadeiras e fictícias, que se vão normalizando com o tempo.
Os vencedores agora podem reescrever a história através da IA generativa. Mas qual o sentido de recorrer a uma tecnologia que falseia e deturpa?
Diante desse quadro que, segundo os próprios investigadores, exige intervenção “urgente”, não se percebe muito bem porquê as recomendações ainda insistem na formação de grupos de estudo para avaliar as potencialidades e os riscos do uso da IA. Por que não a frontal rejeição do uso dessa tecnologia no sistema de ensino? Por que não o desenvolvimento de campanhas que alertem para as distorções que as interações com chatbots podem promover na formação das futuras gerações? Em janeiro, um grupo de professores lançou um manifesto exatamente nesses termos. Por que não investir na ampliação do alcance dessa crítica?
Não bastassem todos os argumentos bem sustentados sobre o desvirtuamento do processo educativo, que afeta a própria capacidade de pensar, valeria a pena considerar o contrassenso de se consultar uma fonte inconfiável. Qual o sentido de recorrer a esses robôs, se não podemos ter certeza das informações que nos fornecem e ainda precisamos ter o trabalho acrescido de confirmá-las?
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Num trecho do seu relatório, os autores fazem graça com o famoso adágio segundo o qual a história é escrita pelos vencedores: agora, passaria a ser escrita “por quem produz mais dados sobre ela”. Mas bastaria perguntar quem tem capacidade de produzir mais dados para concluir que, do ponto de vista ideológico, a situação não se altera tanto assim. Por sinal, reforça a notável observação de Walter Benjamin: nem os mortos estarão a salvo se os vencedores continuarem a vencer.
Importaria ainda avançar com mais perguntas: quem produz, desenvolve e controla esses modelos de linguagem? A quem interessaria promover incerteza e finalmente concretizar a distopia orwelliana de um mundo em que a história é permanentemente reescrita, de modo que a Eurásia e a Lestásia são aliadas na guerra contra a Oceania e logo a seguir a situação se inverte e as informações anteriores são descartadas porque se vive num presente contínuo e continuamente atualizado, sem memória do passado e, por isso, sem qualquer perspectiva de futuro?
Numa conhecida passagem do seu famoso ensaio sobre verdade e política, Hannah Arendt cita a resposta de Georges Clemenceau a um representante da República de Weimar a respeito das futuras interpretações sobre a Grande Guerra (a Primeira Guerra Mundial): tudo poderia ser dito, menos que a Bélgica invadiu a Alemanha.
Mais de um século depois, a depender do ChatGPT, já não se poderá ter tanta certeza.
A Inteligência Artificial Generativa é um artefacto para a expropriação intelectual dos professores e dos estudantes e corresponde a uma estratégia política das big tech para a precarização total da força de trabalho mundial.
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Já não é possível ignorar as lutas das e dos trabalhadores da educação em distintas partes do mundo contra as plataformas das big tech utilizadas nas redes de ensino para intensificar a jornada de trabalho, ampliar o controle e a vigilância sobre o trabalho, desqualificar intelectualmente os docentes e os estudantes, inviabilizar a autonomia da escola por meio da corrosão da liberdade de cátedra e interditar a agência de sua comunidade no autogoverno da instituição. De facto, muitas dessas lutas interpelam as mudanças curriculares sob a égide do capital, em especial, pela chamada inteligência artificial generativa (IA-Gen.), e a reestruturação dos livros e materiais didáticos como sistemas de ensino e plataformas por holdings educacionais sob controle de fundos de investimentos. Essas corporações afinal objetivam difundir o que é dado a pensar em milhares de escolas e, ao mesmo tempo, lograr modelar os perfis dos estudantes e docentes para que componham seus portfólios de negócios e sua base política.
No Brasil, em maio de 2025, no estado do Paraná, o sindicato dos trabalhadores da educação APP-Sindicato convocou a Semana de Luto e Luta em Defesa da Vida, com greve e mobilizações em todo o Paraná contra o uso de plataformas, o adoecimento e a pressão excessiva sobre os(as) educadores(as)2. Em Londres, em 8 de março de 2026 aconteceu uma massiva Marcha contra as Máquinas, interpelando as corporações de IA3. Nos EUA, pais, estudantes e professores criaram o movimento Schools Beyond Screens e lançaram neste ano uma petição chamada “Tirem as big tech das Mesas das Crianças”4. Após quase cinco décadas, ocorreu uma greve dos educadores de São Francisco (UESF) contra a substituição tecnológica dos professores5, logrando cláusulas semelhantes às da grande greve dos argumentistas de Hollywood em 20236 que estão servindo de referência para os demais sindicatos de trabalhadores da educação. Na Florida, em 8 de maio de 2026, por ocasião de uma formatura da Faculdade de Artes e Humanidades e da Escola Nicholson de Comunicação e Mídia da Universidade da Flórida Central, a oradora, vinda do mundo empresarial, afirmou que a “ascensão da inteligência artificial é a próxima revolução industrial” provocando uma sonora e massiva vaia dos estudantes que se formavam7. Em Nova Iorque, mobilizações interromperam o projeto de escola secundária de Manhattan Next Gen8, pois pais, professores e estudantes entenderam que a escola poderia ser um laboratório de IA. É significativo que os exemplos de lutas são muitos9, nem sempre diretamente contra as big tech e, por isso, necessitam ser coligidos e analisados.
Embora muitas vezes dissociadas de táticas e estratégias contra as expressões do capital na educação, essas lutas têm contribuído de modo extraordinário para dissipar águas turvas que dissimulam as aceleradas e radicais mudanças nas escolas, em especial após 2022, ano em que a IA-Gen. se popularizou. Sem essas lutas, o presente artigo não seria possível.
Os limites táticos e estratégicos dessas lutas advêm, parcialmente, de uma leitura ainda incipiente do significado da dissociação entre as big tech e i) o complexo militar e de vigilância; ii) a plataformização de todas as formas de trabalho, e iii) o uso de IA pelas corporações educacionais, questões retomadas adiante. Os estudos realizados no âmbito do Coletivo de Estudos em Marxismo e Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro10 propugnam que é imprescindível examinar, compreender e explicar tais nexos para explicar as mudanças no trabalho docente e nos processos de ensino e aprendizagem que têm provocado o derretimento da autonomia intelectual dos estudantes. Mais amplamente, preocupa a refuncionalização das escolas e universidades públicas que podem estar substituindo a formação crítica, sistemática, metódica, comprometida com a internalização profunda dos conhecimentos – base da autonomia intelectual necessária para que todos os que possuem um rosto humano possam fazer uso autônomo e crítico da razão – pela universidade operacional11 que sacrifica os processos em nome dos produtos, os valores ético-políticos e a busca processual da verdade em virtude dos vieses epistemológicos dos algoritmos que reproduzem os valores políticos de suas corporações comprometidas com o complexo militar e de vigilância.
A análise centrada nos processos de ensino e aprendizagem nas salas de aula, se não levar em consideração as nervuras políticas e econômicas das big tech, apaga problemas e pode inspirar formas de lutas inexequíveis. Dois exemplos são destacáveis. A Internacional da Educação, nas Resoluções de seu 10o Congresso, realizado em Buenos Aires, em 2024, propôs: “Impulsionar as competências das organizações afiliadas para colaborar com empresas tecnológicas na definição do conteúdo e das metodologias que possibilitam a aprendizagem e o ensino profissional”12 e a Federação Americana de Professores (AFT) pactuou parcerias com empresas como Microsoft, OpenAI e Anthropic que envolvem grandes somas de recursos (US$ 23 milhões) para estabelecer a Academia Nacional de Instrução em IA13.
Embora seja justificável a defesa da regulação estatal das big tech compreendendo aspectos importantes como privacidade, propriedade intelectual e o uso ético e responsável da IA, tal enfoque não enfrenta o cerne do problema que nem arranhado é pelas abordagens dissociadas da natureza e do caráter das big tech, de seus Grandes Sistemas de Linguagem e do caráter performativo de seus algoritmos.
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Existem diferenças específicas entre as big tech e as formas de privatização e mercantilização que foram difundidas nas escolas e universidades nos anos 1990. Um ponto a destacar é o tamanho dessas corporações. As sete gigantes, Alphabet (Google), Apple, Amazon, Microsoft, Meta (GAFAM), Nvidia e Tesla, estão sendo turbinadas por investimentos jamais imaginados. Somente as ações das corporações que atuam na IA nas bolsas estadunidenses correspondem ao valor total de todas as bolsas europeias reunidas14. Os investimentos previstos em infraestrutura, US$ 375 mil milhões em 2025 e mais de US$ 600 mil milhões em 202615,16 compreendem a ‘economia real’, como data centers, fábricas de semicondutores e fornecimento de energia e de água necessários para construir o poder de computação que a IA. exige. Além disso, é preciso computar os investimentos em mineradoras. Não menos importante, as vultosas somas aplicadas no desenvolvimento de supercomputadores e sistemas complexos, modelos de linguagem, todos eles indissociáveis da computação quântica. A Brookfield Asset Management estima que somente a infraestrutura de IA absorverá US$ 7 biliões nos próximos 10 anos17. Esse processo de acumulação é alavancado por investimentos de escala inédita e provoca mudanças disruptivas, monopolistas em todas as esferas da vida.
Contudo, a economia digital precisa ser realizada em curto intervalo de tempo, em virtude da obsolescência do setor, pirataria, novas abordagens tecnológicas, como foi o caso da Deep Seek, por exemplo. Por isso, a agressividade de ocupação dos mercados é um traço distintivo dessas corporações que enfrentam qualquer intento de regulação dos Estados. Nenhuma outra tecnologia foi tão concentrada e assumiu tal dimensão. Aproximadamente 6 mil milhões de pessoas utilizam quotidianamente smartphones, tornando o alcance das big tech planetário18.
Retomando a caracterização das big tech, o facto de serem corporações vinculadas ao complexo militar e de vigilância requer que seus sistemas de linguagem e seus algoritmos possam elaborar perfis das populações a partir dos quais: i) indivíduos poderiam ser alvos para os drones guiados pela IA.; ii) os sistemas de vigilância (na forma de aplicativos, câmeras de trânsito, reconhecimento facial) podem ser acionados para localizar trabalhadores não documentados, a exemplo da Palantir, iii) as corporações possam produzir hierarquias de humanidade, uma forma de racismo algorítmico, também utilizados nas guerras em que, por exemplo, drones identificam as pessoas palestinianas como alvos tidos como legítimos e, também, iv) as corporações podem se valer dos perfis dos estudantes de uma determinada escola, universidade, rede de ensino, territórios para personalizar o tipo de educação que as frações mais exploradas das classes trabalhadoras poderão receber, atualizando os novos dualismos educacionais. Essa hierarquia de perfis é intrínseca ao LLM e aos algoritmos.
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Os Grandes Modelos de Linguagem de propriedade de corporações são indissociáveis dos sistemas complexos de algoritmos que condicionam quotidianamente milhões de pessoas e organizações em todo o mundo, incluindo as escolas e as universidades nas quais circula a grande maioria dos mais de 1400 milhões de estudantes e trabalhadores da educação em atividade. Distintamente das tecnologias de informação e comunicação como a televisão, por exemplo, as atuais tecnologias digitais permitem interação do sujeito que recebe a mensagem com os seus emissores, ainda que o seu lugar seja inclementemente subordinado. Likes, partilhas, comentários, postagens e imagens mobilizam o desejo, sequestram a atenção e geram a percepção de integração em determinados grupos. E não somente isso. As interações, por sua vez, “educam” os algoritmos que, com isso, condicionam ainda mais profundamente os seus usuários.
O facto de não ser uma rua de sentido único reforça a penetrante ideologia do sujeito de que ele faz parte de uma comunidade, seja ela religiosa, política, futebolística, etc. As big tech, como amplamente documentado, estão operando politicamente e dirigem seus algoritmos para reter a atenção e mobilizar paixões em prol da extrema-direita neofascista19. O quadro é ainda mais grave em virtude de sua escala. O controle dos dados que consubstanciam os perfis formatados pelos algoritmos e pelas corporações é tratado por elas como bens privados e livres de qualquer regulação estatal.
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A partir das indicações desenvolvidas até aqui é possível retomar a discussão das corporações educacionais que estão se associando de modo subordinado às big tech. Estas são totalmente distintas das existentes há uma década. Atualmente, as corporações educacionais e grupos editoriais estão impulsionados pelos operadores financeiros e foram transformadas em sociedades anónimas, organizadas na forma de holdings e com ações nas bolsas de valores. Os investidores financeiros comandam as empresas nos conselhos de administração, um bastião de poder exclusivo. Prevalece a avaliação nos grupos educacionais de que a associação subordinada com as big tech é uma grande oportunidade para requalificar os negócios relacionados com os sistemas de ensino e as plataformas de trabalho. De facto, os currículos escolares, regra geral elaborados pelos aparelhos privados de hegemonia empresariais, como ocorreu com as Bases Nacionais Comuns Curriculares no Brasil, elaboradas pela aliança de dois conglomerados de APH (Lemann e Todos pela Educação) estão sendo operacionalizados por meio de planos de aula por IA e propagados nas escolas por intermédio de sistemas de ensino e plataformas de trabalho mediados pela IA-Gen.
Frequentemente, as próprias universidades e as redes de ensino, sob orientação governamental dos Ministérios da Educação e das Secretarias de Educação, adquirem esses sistemas e plataformas para suas escolas, aparentemente acreditando na possibilidade de um uso ético dos referidos artefactos para melhorar a eficiência do trabalho docente. Assim, incentivam os estudantes e professores a fazer um uso “responsável” da IA generativa, realimentando a megamáquina educativa do capital, como destacado em um estudo anterior (Leher, 2026)20.
A IA se apropria do acervo de conhecimentos que pertence aos povos, mas oferece aos seus usuários, espalhados por todo o mundo, produtos semelhantes a alimentos processados. Ela suprime os processos, deseduca os jovens ao afastá-los da leitura lenta e profunda, elabora resumos de textos que não serão lidos e inviabiliza os processos de elaboração criativa de textos. Uma pesquisa do MIT sobre o custo cognitivo de utilizar um Grande Modelo de Linguagem (LLM) na redação de ensaios concluiu que os participantes que utilizaram o ChatGPT para escrever apresentaram menor conectividade cerebral, pior memória do ensaio que acabavam de “escrever” e menor senso de autoria, uma vez que o pensamento foi externalizado21. Centenas de milhões de jovens têm sua capacidade de concentração comprometida, o que afeta o pensamento sistemático e concentrado. Formatos curtos, como o TikTok e o Instagram, deseducam a concentração interior. Milhões de jovens enfrentam sérias dificuldades para ler e utilizar a matemática básica. Com isso, o pensamento crítico vai se esvaindo cada vez mais, o que prejudica a capacidade de refletir sobre questões que são decisivas para o futuro da humanidade.
O impacto cognitivo de curto prazo da tecnologia é sombrio: vários estudos a associaram à perda de memória de curto prazo e descobriram que ela atrofia o pensamento crítico.
Desse modo, a expropriação sobretudo das classes trabalhadoras é realizada com a conivência das políticas nacionais e internacionais que deveriam proteger a formação intelectual dos estudantes. Com efeito, o impacto cognitivo de curto prazo da tecnologia é sombrio: vários estudos a associaram à perda de memória de curto prazo e descobriram que ela atrofia o pensamento crítico23,24.
Em Portugal, o Ministério da Educação e as câmaras municipais, sob a capa da inovação e da “abertura à comunidade” como ONGs, são os centros de entrada destes holdings nas escolas. No Brasil, atualmente na vanguarda mundial da mercantilização financeirizada da educação, os grandes grupos que atuam na educação possuem ações nas bolsas de valores e estão sob controle de fundos de investimentos, inclusive pelos maiores fundos como Blackstone, Apollo, KKR, Carlyle, Advent, e gestoras de ativos como BlackRock, a maior do mundo com ativos da ordem de US$ 10 biliões, e Oppenheimer, entre outros. No caso brasileiro, o setor privado é responsável por cerca de 70% das matrículas do ensino superior: dos 10 milhões de estudantes no ensino superior, 5,2 milhões estão na modalidade a distância – EaD (INEP, 2024) que não assegura sequer uma formação compatível com os objetivos legais minimalistas do ensino superior. A financeirização dos holdings educacionais produz uma nefasta monopolização das matrículas estudantis. De facto, embora existam 2600 instituições de ensino superior, apenas uma dezena de holdings já possui cerca de 60% dos estudantes e, no caso da EaD, a concentração dos dez maiores grupos alcança preocupantes 80% das matrículas.
Na educação básica, governos comprometidos com a austeridade contra o trabalho e a soberania popular sobre os assuntos públicos, adotam as tecnologias digitais nos moldes do “tecnossolucionismo”. Se as crianças não estão indo bem na alfabetização, as tecnologias irão resolver o problema. Se existem distorções entre a idade da criança e o seu nível de ensino, idem, tecnologias podem ‘corrigir’ o problema. Se a língua portuguesa é muito complicada, uma IA pode simplificá-la. Esse discurso neoliberal é empreendido por uma tecnocracia que se diz técnica, referenciada em supostas provas científicas e, com isso, afastam os professores de todas as decisões relevantes sobre a escola e as políticas educacionais. Essa perspectiva abriu largas autoestradas para a entrada das corporações educacionais nas escolas, por meio da comercialização de seus sistemas de ensino e plataformas de trabalho nas escolas. Desse modo, com a anuência e ação dos governos de austeridade, as corporações despejam nas salas de aula a educação processada, “macdonaldizada” e calibrada para os diferentes perfis sociais, realimentando as desigualdades sociais e naturalizando a separação das escolas para dirigidos e as escolas para dirigentes. Assim, por que ler Saramago se é possível difundir competências instrumentais condizentes com o mercado para os jovens pobres?
Tais ações são brutalmente coercivas. Os sistemas de avaliação erigidos pelas políticas neoliberais dos anos 1990 pela OCDE, as contrarreformas do Processo de Bolonha nas universidades europeias, a massificação da EaD no Brasil são processos indissociáveis da exigência de que os professores preencham demorados e inúteis plataformas diariamente, ampliando o controle, a exploração, a exaustão e o sofrimento laboral. Como destacado pelo movimento “Tirem as Big Tech das Mesas das Crianças” as escolas devem estar livres dessas corporações.
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A ofensiva das big tech cujo epicentro encontra-se nos EUA25 e das corporações educacionais a elas subordinadas, distribuídas em diversos países, mira o conjunto da formação das classes trabalhadoras e, como expressão do capital-imperialismo, está inserida na geopolítica e na geoeconomia mundiais. As movimentações do capital engendram outras expressões das lutas de classes em âmbito mundial. Como apontado, essas contradições se materializam na forma de lutas, greves, mobilizações dos trabalhadores da educação e dos estudantes. Não é possível a neutralidade ética. Os coletivos de pesquisa do campo crítico, sindicatos, jornais como o Maio não podem deixar de ser parte de um esforço unitário e coordenado para coligir e analisar as lutas que eclodem em toda a parte contra tal ofensiva do capital.
Existem iniciativas antissistémicas, mas ainda de magnitude modesta. No I Seminário Internacional Capitalismo Digital, Financeirização e Educação, realizado em julho de 2025 no campus da Praia Vermelha da UFRJ com a participação de pesquisadores de diversas universidades brasileiras e da Universidade de Barcelona e do Chile foi consensuada a criação da Rede Internacional de Estudos e Pesquisas sobre o Avanço do Capital por meio de Tecnologias Digitais na Educação. Em julho de 2026, na Universidade de Barcelona, acontecerá o II Congresso Internacional sobre Capitalismo e Educação, no qual a referida rede internacional poderá ganhar nova dimensão. Outra iniciativa afim é o projeto de investigação continental da Red Social para la Educación Pública en las Américas (Initiative for Democratic Education in the Americas) Políticas de las “nuevas” derechas hacia la educación pública, resistências y alternativas, cujo documento de trabalho foi discutido de modo sistemático ao longo de 2024 e de 2025 em dois seminários, o primeiro na Argentina (2024, CTERA) e o seguinte no México em 2025 (UNAM) com pesquisadores e ativistas sociais de Argentina, Canadá, Colômbia, Costa Rica, Equador, Estados Unidos, Guatemala, Honduras e México. Essas iniciativas, inclusive as greves indicadas no presente texto, embora limitadas, confirmam que está havendo um adensamento de ações contra as novas expressões do capital na educação.
Existem avanços tecnocientíficos que foram desenvolvidos na sociedade capitalista que, por meio de rupturas profundas, poderão ser apropriadas pelos povos em busca da soberania popular para além do capital.
Uma tarefa urgente é construir conexões mais orgânicas com as lutas sindicais e estudantis que se espalham pelo mundo. Quando a presidente da AFT, Randi Weingarten, afirmou que “achámos que precisávamos trabalhar com as maiores empresas do mundo. Fomos até elas”, o que prontamente foi acolhido pelas big tech que irão repassar mais de US$ 30 milhões para a constituição de centros de formação que irão acionar 400 mil docentes nos próximos anos26 é evidente que o tema alcança a grande política do capital! Sem um esforço coordenado dos sindicatos comprometidos com a desmercantilização da educação, logo a aliança das big tech irá ampliar a subordinação de outras grandes organizações sindicais.
Pensar as tecnologias na educação requer radicalidade. Não se trata, obviamente, de inseri-las em manuais sobre o bom uso da IA, como querem muitas universidades, nem de treinar professores para um uso adequado das mesmas.
Plataformas de comunicação virtuais, aplicativos de tradução, acesso livre aos acervos de museus e bibliotecas e programas de busca sofisticados, capazes de respostas que sejam excelentes pontos de partida para novos estudos, devem ser objetivos internacionalistas. Concretamente, existem avanços tecnocientíficos que foram desenvolvidos na sociedade capitalista que, por meio de rupturas profundas, poderão ser apropriadas pelos povos em busca da soberania popular para além do capital. Esse movimento está apenas se iniciando e somente avançará a partir do internacionalismo, pois tais plataformas não mercantis não podem se esgotar nos Estados em uma perspectiva chauvinista. É uma luta empolgante e necessária para o porvir da humanidade. Juntos, lograremos avanços!
1 Professor catedrático da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
11 CHAUI, Marilena. A universidade operacional. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas/Sorocaba, v. 4, n. 3, 1999. Disponível em: Portal de Periódicos Uniso. Acesso em: 17 maio 2026.
20 Leher, R. IA, TECNOFASCISMO Y EDUCACIÓN. Importancia estratégica de la pedagogía ludita. (Prólogo) In: Jarquín, M. La pedagogía ludita. Bs.As. CLACSO, 2026 (no prelo)
22 ABBAS, Muhammad; JAM, Farooq Ahmed; KHAN, Tariq Iqbal. Is it harmful or helpful? Examining the causes and consequences of generative AI usage among university students. International Journal of Educational Technology in Higher Education, v. 21, art. 10, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s41239-024-00444-7. Acesso em: 15 maio 2026.
23 Noor Al-Sibai. Study Finds That People Who Entrust Tasks to AI Are Losing Critical Thinking Skills. Futurism. 18/02/2025. Disponível em: https://futurism.com/study-ai-critical-thinking. Acesso em 15/-5/26.
24 LEE, Hao-Ping et al. The Impact of Generative AI on Critical Thinking: Self-Reported Reductions in Cognitive Effort and Confidence Effects From a Survey of Knowledge Workers. In: CHI CONFERENCE ON HUMAN FACTORS IN COMPUTING SYSTEMS, 2025, Yokohama. Proceedings […]. New York: ACM, 2025. p. 1-22.
25 A China possui particularidades que não foram examinadas no presente texto.
O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários seria substituir toda a força de trabalho humana por IA. Só que esta hipótese gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo que se produz?
Entre o apocalipse dos trabalhadores e o tecnoterrorismo: a IA como campo de batalha
A 5 de Maio, Robert Reich, perigoso esquerdista que trabalhou nas administrações dos presidentes Ford e Carter, foi secretário do Trabalho dos EUA durante o consulado de Clinton e integrou a comissão consultiva para a transição económica de Obama, assinava um texto intitulado “The AI Job Apocalypse Is Already Happening1”. Nele se assinalava o modo como, para fazer crescer os seus lucros, as grandes empresas estão a utilizar a IA e os potenciais ganhos de produtividade resultantes da sua integração nos processos produtivos como pretexto para cortar salários e postos de trabalho. Independentemente de a IA poder substituir os postos de trabalho cortados, e isso não parece ser a questão mais relevante, as grandes empresas estão a aproveitar essa possibilidade para despedimentos em massa.
Entre janeiro e abril de 2026, mais de 128 000 trabalhadores foram despedidos. A Meta despediu 8000, apontando para 10 000 até ao final de 20262, a Amazon 30 000, os seis maiores bancos de Wall Street mais 15 000, na Oracle o número pode ascender aos 30 000, o mesmo que a UPS espera despedir ao longo de 2026, a empresa química Dow anuncia 4500 e a Block aponta para uma redução de 40% da sua força de trabalho (± 4000 trabalhadores). Já em maio, a tecnológica norte-americana Cloudfare anunciou o despedimento de cerca de 1100 pessoas3 (20% da sua força de trabalho). Entretanto, Evan Spiegel, CEO da empresa norte-americana Snap, responsável pelo Snapchat, anunciou (imagina-se que numa daquelas sessões online sem direito a diálogo) o despedimento de cerca de 1000 trabalhadores, incluindo 16% do seu quadro de pessoal a tempo inteiro4.
Mesmo que muitas das pessoas despedidas não tenham ainda sido substituídas, ou possam sequer vir a sê-lo, pela IA, o turbo-capitalismo digital powered by AI empurra as grandes empresas neste sentido5. Afinal de contas, a competição feroz é a alma do negócio e, como é sabido, a noção de que os trabalhadores são variável de ajustamento fez escola. O facto de a IA ser capaz de realizar tarefas intelectuais que até há poucos anos só pareciam possíveis na ficção científica6, acentuando a fragilização dos trabalhadores de colarinho branco, só dá mais visibilidade ao fenómeno.
O hype é tanto que, no Dia do Trabalhador, se realizou no Beato Innovation District, a primeira edição do Agents Day, destinada a developers, founders e builders. Promovida pela CTO Portugal, comunidade de líderes em tecnologia e IA, foi anunciada como uma iniciativa que visava “colocar agentes de IA a trabalhar pelos humanos7”. Ao mesmo tempo, vai fazendo caminho o celestial canto dos administradores de empresas, para quem “a IA vai substituir os trabalhadores que não se adaptarem8”. Parafraseando Margaret Thatcher, poder-se-ia até dizer que a IA é o método, o objetivo é despedir trabalhadores.
No limite, toda a força de trabalho humana seria substituída por IA. O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários. Só que esta hipótese, explorada em The AI Layoff Trap9, e que decorre de uma lógica individual irrepreensível por parte de empresas que lutam pela sobrevivência na selva capitalista, gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo que se produz? Ou, recorrendo a terminologia marxista, desde quando é possível a substituição integral de trabalho vivo por trabalho morto? Mas, infelizmente, não é tudo. Parece que o aperfeiçoamento da IA só piora as coisas, dado que o impulso para substituir trabalho humano por IA se intensifica e acelera. Uma verdadeira corrida para o abismo ou para uma crise de sobreprodução de proporções bíblicas.
Num mundo profundamente desigual, em que o rendimento real dos trabalhadores caiu 12%, enquanto o dos CEO aumentou 54% entre 2019 e 202510, e onde os bilionários e os ultra-ricos dominam os media e a IA (mais de metade dos grandes grupos mundiais de media são detidos por bilionários, 9 das 10 maior empresas na área das redes sociais são geridas por apenas seis bilionários, algo que sucede com 8 das 10 maiores empresas de IA, com apenas três delas a possuírem quase 90% de quota de mercado11), o tecnoterrorismo impõe-se como discurso dominante que legitima despedimentos, instala o medo e a insegurança, constitui-se enquanto mecanismo ideológico disciplinador de uma força de trabalho amedrontada que, por isso, perde capacidade reivindicativa.
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Por outras palavras, trata-se de “uma narrativa futurista que amplifica ameaças hipotéticas para mascarar as contradições muito concretas do presente (...) [funcionando] como um espelho quebrado manejado pelo capital tecnológico: cada caco devolve uma imagem ampliada do perigo, mas nunca permite enxergar a totalidade. Em vez de descrever realisticamente o que a IA é capaz de fazer, projecta fantasias hiperbólicas que servem para legitimar a precarização, pressionar salários e justificar reformas regressivas12”. Até porque, segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho13, apesar de 25% dos empregos no mundo estarem potencialmente expostos à IA, apenas 5-6% enfrentam ameaça de extinção; para além de, como também é evidenciado por esta organização, existirem inúmeros desafios metodológicos relacionados com a medição dos aumentos de produtividade resultantes da adopção da IA14.
Naturalmente, o impacto sobre o trabalho não se limita ao desemprego (real ou imaginário). Como se defende em “O trabalho explorado por trás da inteligência artificial15”, por trás de cada suposta conquista da IA existe um exército de trabalhadores precarizados que, nas mais das vezes, se encontram a milhares de quilómetros de Silicon Valley. Analistas de dados, motoristas de entrega, moderadores de conteúdos, são milhões os trabalhadores mal remunerados em todo o mundo – Venezuela, Bulgária, Índia, Quénia, Filipinas ou México são alguns dos locais onde se concentram – que executam tarefas repetitivas e monótonas indispensáveis ao desenvolvimento da IA, muitas vezes colocando as suas vidas em risco. Bem diz o povo, longe da vista, longe do coração. E assim se exporta e invisibiliza sub-desenvolvimento, trabalho indigno e miséria social, ao mesmo tempo que se varrem para debaixo do tapete os inúmeros riscos psicossociais associados ao uso da IA16 (ex: vigilância intrusiva, perda de autonomia e dignidade no trabalho, recolha de dados excessiva, etc.).
Por economia de espaço, abstemo-nos ainda de falar dos enormes custos ecológicos resultantes dos consumos de água, energia eléctrica, solo e outros recursos necessários ao funcionamento da infraestrutura da IA, centros de dados, servidores e restante parafernália tecnológica; do aprofundamento do fosso entre a metrópole imperialista e as periferias; ou dos efeitos da IA sobre a inteligência, a criatividade, a empatia, a ética e a saúde mental de crianças e jovens; ou da superinteligência que tem gerado fundados receios sobre a sua potencial capacidade para pôr fim à humanidade17.
Por uma IA ao serviço do povo!
Hoje, como no contexto de aparecimento dos luditas, o problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas. Aquilo que podemos observar é que, hoje, os principais beneficiários da IA são os grandes monopolistas da Big Tech. São eles que, num contexto de degradação generalizada das condições de vida – afinal, já levamos mais de meio século de contra-revolução neoliberal –, se empanturram em vil metal ao mesmo tempo que atiram com trabalhadores para o desemprego. Os donos da IA tornaram-se uma espécie de casta privilegiada que concentra todo o poder – económico, social, político e cultural –, enquanto os restantes, sem qualquer controlo sobre a arquitetura da IA, disputam as migalhas que caem da mesa com que se banqueteiam. Deve ser isto aquilo a que chamam “trickle down economics”.
E é por isso que, em vez de se discutir o alcance potencial da IA para promover um aumento generalizado do bem-estar, como, por exemplo, a possibilidade de todos trabalharmos menos horas sem qualquer perda de remuneração, antes pelo contrário aumentando salários, e termos todos mais tempo para viver, aceitando a lógica (que já vimos ser discutível mas é aquela que está na base do tecnoterrorismo vigente) de que a IA gera enormes ganhos de produtividade, aquilo que sucede são despedimentos em barda e uma chantagem permanente sobre os trabalhadores que, como é bom de ver, ou se adaptam ou sucumbem ao avanço inexorável da IA.
O problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas.
Porque é que não se usam os extraordinários avanços tecnológicos para libertar quem vive do seu trabalho, daquilo que nele é penoso, arriscado, desumano e alienante? Porque é que em vez de a tecnologia ser colocada ao serviço do povo trabalhador, para que este tenha todo o tempo para ser aquilo que deseja ser, é utilizada como cutelo sobre o seu pescoço? Porque, como sempre sucede no capitalismo, independentemente das suas metamorfoses ao longo do tempo, se privatizam os ganhos e socializam as perdas. Como defende Prabhat Patnaik, “se a humanidade está no limiar de grandes avanços científicos e tecnológicos, então a necessidade do socialismo, para tirar partido desses avanços, torna-se esmagadora. O socialismo torna-se então uma sociedade que não é apenas mais equitativa, mas que pode de facto fazer justiça ao engenho humano na introdução de profundos avanços tecnológicos, precisamente devido à sua natureza equitativa, precisamente porque é uma sociedade onde o trabalho e o produto são partilhados equitativamente entre todos18”.
Sendo produto de um empreendimento coletivo, a única forma aceitável de governo da IA passa pela socialização da sua propriedade19. Só assim, os seus efeitos deletérios sobre as classes trabalhadoras podem passar a ser uma carta fora do baralho ou, pelo menos, uma preocupação genuína, dado que seriam estes os donos da IA e os principais interessados em que ela não funcionasse como ferramenta digital de exploração. Por algum motivo, o recente manifesto da Palantir não menciona trabalhadores nem sindicatos. Porque sabe que “os trabalhadores por si só, se se organizarem, são capazes de parar as linhas de produção da morte. Uma greve geral no vale do Silício, ou mesmo nos próprios escritórios da Palantir, é o pesadelo deste projeto20”.
Com uma política anti-monopolista e a socialização da IA, mesmo os seus efeitos nocivos sobre a nossa “casa comum21” seriam potencialmente mitigados, até porque o trabalhador comum não tem possibilidades de construir um bunker numa ilha remota ou de sequer se imaginar a viver em Marte como fazem os multimilionários tecnofascistas. Enquanto a IA for pensada apenas e só com vista ao lucro e à acumulação de riqueza por meia dúzia de sociopatas, que perdem a maior parte do seu tempo atormentados com a possibilidade de perderem uns milhões22, não existe qualquer possibilidade de não operar enquanto ferramenta de produção de miséria social em massa.
Neste sentido, a IA corresponde a uma forma altamente sofisticada e complexa de extractivismo socioecológico. Parafraseando Proudhon, a “IA é roubo!” e reverter esta lógica passaria, por exemplo, por tornar público, universal e gratuito o acesso à tecnologia, inclusive à sua arquitetura mais elementar que hoje permanece debaixo de um manto de enorme opacidade (afinal, o segredo é a alma do negócio). Desmercantilizar a IA implica também que a sua infraestrutura fique sujeita a controlo democrático e transparente, que esta seja concebida enquanto propriedade comum da humanidade. Caso contrário, “não [se] pode controlar o seu futuro, não [se] é livre, não [se] é independente e não [se] pode decidir sobre o seu futuro nem proteger a sua democracia23” e a oligarquia tecno-digital reforça o seu poder totalitário. A este respeito, em Portugal, vale a pena salientar a proposta pioneira de criação do Instituto Nacional para a Computação Avançada, feita pelo PCP24.
Como se afirma em “Automation and AI: A Socialist Perspective on Workers’ Rights25”, um projeto socialista para a IA seria capaz de colocar os aumentos de produtividade e eficiência ao serviço do bem-estar de quem vive do seu trabalho. Como? Diminuindo erros e eliminando desperdícios nos processos produtivos; assegurando as tarefas repetitivas e libertando os trabalhadores para aquilo que é mais recompensador; substituindo os trabalhos sujos e perigosos, reduzindo acidentes e melhorando a segurança nos locais de trabalho; criando condições para o aparecimento de novas ocupações, altamente qualificadas e bem remuneradas; impedindo despedimentos sob pretexto de adopção da IA26; aumentando o tempo livre para atividades de lazer e ócio, jornadas de trabalho mais curtas e mais tempo de férias; levando a cabo grandes investimentos em serviços e infraestruturas públicas. Contudo, fazer avançar uma agenda tão progressista requer, naturalmente, que se combatam os inúmeros riscos e desafios que a IA coloca hoje ao trabalho. Para além do desemprego, da compressão salarial e das desigualdades crescentes, que já antes vimos, também a vigilância e o controlo permanentes devem ser combatidos, bem como a degradação do trabalho que o torna desumano.
Ao contrariar o tecnoterrorismo e os seus efeitos, indo à raiz do problema, uma perspectiva socialista da IA cria um novo horizonte de possibilidades para os trabalhadores, susceptível de libertar todo o potencial da tecnologia e colocá-lo ao seu serviço. A IA deve ser escravizada e não fazer de nós escravos. E essa foi a intuição inicial dos luditas que vale a pena recuperar para a atualidade e, em última instância, foi contra isso que se revoltaram há cerca de dois séculos, lançando a semente que viria a germinar num potente movimento operário e nos primeiros sindicatos. Não contra as máquinas, mas sim contra os grandes monopólios do capitalismo.
É por isso urgente “virar o jogo” e resgatar para o trabalho o potencial emancipador desta “nova” tecnologia. Rejeitando tanto as acusações preconceituosas dirigidas aos neoluditas de hoje, como a sua mais recente variação – “populismo IA27 –, desenvolvendo uma cultura contra-hegemónica esclarecida, consciente e crítica e uma alternativa socialista que coloque a IA, não enquanto fetiche28, mas sim como produto histórico-geográfico do capitalismo, no centro das suas preocupações, promovendo ação coletiva e lugares de encontro cara a cara, onde a empatia, a solidariedade e a confiança se constroem. Não num futuro longínquo onde apenas os historiadores da longa duração poderão ser capazes de vislumbrar retrospetivamente os ganhos civilizacionais resultantes da IA, deixando na penumbra o seu rasto de destruição e violência social, mas tão rapidamente quanto possível para evitar que este se torne cada vez mais real. Lutemos, pois, por uma IA ao serviço do povo!
13 Gmyrek P, Berg J, Kamiński K, Konopczyński F, Ładna A, Nafradi B, Rosłaniec K, Troszyński M (2025) Generative AI and Jobs: A Refined Global Index of Occupational Exposure, ILO Working Paper 140 (Geneva, ILO). https://doi.org/10.54394/HETP0387.
14 Ver ILO (2026) The Impact of Artificial Intelligence on Productivity: Evidence Across Levels of Aggregation, Research brief. International Labour Office.
22 A partir da análise dos ficheiros Epstein, é possível compreender que a urdimenta de planos e estratégias de preservação dos privilégios é a principal ocupação do tempo das elites globais. Ver https://the.ink/s/epstein (acedido a 11 de maio de 2026).
De uma penada, aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado, rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando são rotulados de tecnofóbicos e olhados com sobranceira repugnância. Seriam os novos luditas que, assim reza esta versão da história, teriam sido contra o desenvolvimento tecnológico, a inovação e o futuro.
Num mundo onde a evolução devia
Livrar-nos do esforço ingrato
Para a humana criação
Se nos tira esse prazer
Pra que serve então?
AI, Cara de Espelho, 2026
A propósito de inteligência artificial generativa (IA), sobre a qual, só em 2026, já se escreveram milhares de artigos científicos, ensaios, crónicas e textos de opinião (alguns deles claramente gerados por chatbots porque o tom monocórdico do mangas de alpaca não engana), um dos epítetos com que são brindados aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado (se eu tivesse um euro por cada vez que li ou ouvi a expressão “não se pode parar o vento com as mãos” já não precisava de trabalhar), rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando, é a de serem neoluditas.
De uma penada, são rotulados de tecnofóbicos e olhados com o esgar de sobranceira repugnância que habitualmente se lança a quem não embarca no deslumbramento tecnológico vigente. Os luditas, assim reza esta versão da história, teriam sido contra o desenvolvimento tecnológico, a inovação e o futuro. Eram gente ignorante e dogmática que via uma máquina a vapor e tratava logo de a destruir com uma moca. Hoje, saltando da revolução industrial para a digital, seria a vez de os neoluditas fazerem o mesmo com portáteis, tablets, smartphones, aspiradores, frigoríficos e quaisquer outros dispositivos digitais assentes em IA. Dois mundos diferentes, um mesmo inexorável destino – o seu triste fim.
Mas será que esta leitura faz jus ao papel desempenhado pelos luditas no contexto da revolução industrial? Que lições dessa história podemos nós retirar para melhor lidar com as circunstâncias atuais? Que caminhos podemos trilhar para que a IA seja colocada ao serviço de quem vive do seu trabalho? Este é o exercício que pretendo desenvolver neste texto e, para isso, começo por recuar no tempo para delinear os contornos do movimento liderado pelo “general Ludd”, passando depois à leitura da IA enquanto campo de batalha político-ideológica, concluindo com algumas notas a propósito da necessidade de desenvolver um projeto socialista para a IA.
Rage Against the Machine, ou talvez não
Embora não seja clara a origem da expressão ludita e exista um interessante debate historiográfico em torno desta matéria e assuntos conexos, em “Luddite Lessons”1 remete-se para um conjunto de atos de sabotagem, motins e ataques variados levados a cabo na segunda metade do século XVIII, que se prolongam pelo século XIX, por parte de artesãos do sector têxtil que, percebendo que o capitalismo industrial ameaçava as suas condições de subsistência e não tendo qualquer instância de mediação e/ou representação política formal, optaram por seguir a via da ação direta e dos protestos violentos, que dirigiam tanto à maquinaria como aos barões da indústria. A sua atuação era geograficamente muito localizada e não existia nenhuma estrutura organizada que articulasse as lutas em todo o Reino Unido. Neste contexto, emerge a figura (provavelmente mitológica) de Ned Ludd, uma espécie de Robin Hood de uma classe trabalhadora que se debatia com inúmeras desigualdades e injustiças.
O ludismo é, por isso, a um tempo, sintoma de mal-estar e manifestação de descontentamento social. A sua acção não decorria de um qualquer delírio tecnofóbico ou hostilidade primária contra a maquinaria, correspondendo, isso sim, à manifestação de um sentimento profundo de injustiça relativamente àqueles – os patrões da industrialização – que enriqueciam devido à degradação das condições de vida dos trabalhadores (muitos deles artesãos ou camponeses convertidos em operários) e à apatia de governos que não demonstravam qualquer vontade de intervir com vista à regulação das relações laborais2. Tratava-se, por isso, de um projeto político e económico que, através de um repertório diversificado de práticas subversivas (para E. P. Thompson tratava-se de um movimento quase insurrecional3), procurou rebelar-se contra os efeitos da industrialização sobre as vidas concretas dos trabalhadores e melhorar as suas condições de vida. Pretendia, essencialmente, assegurar os meios de subsistência mais básicos como, por exemplo, acesso a alimentação e vestuário, e limitar o recurso ao trabalho infantil. Neste sentido, o seu contributo para despertar consciências em torno da necessidade de construir uma sociedade mais igualitária e de denunciar o custo humano da mudança económica não pode ser descartado como irrelevante.
Para os luditas, a máquina não era simplesmente um sofisticado artefacto tecnológico feito de diversas peças, roldanas, manivelas e pedais que importava destruir. Ela significava o lugar onde o poder se materializava, era o símbolo maior da concentração de poder obscena do grande industrial e, ao mesmo tempo, da perda de autonomia e controlo sobre o tempo da vida quotidiana por parte dos trabalhadores assalariados. Os luditas não eram, por isso, antitecnologia, mas sim militantes em prol de sociedades menos desiguais que, frequentemente, desencadeavam a sua ação na sequência de episódios pontuais de flagrante injustiça social (ex: despedimentos em massa, cortes salariais, colheitas pobres, etc.). Na verdade, tratando-se maioritariamente de artesãos, correspondiam às camadas sociais mais qualificadas e dotadas de competências técnicas especializadas. Longe de serem tecnologicamente incapazes, seriam provavelmente as pessoas mais capazes de levar a cabo uma crítica qualificada do desenvolvimento tecnológico e dos seus efeitos sociais, económicos, culturais e políticos.
Com efeito, como assinala Steven E. Jones em Against Technology: From the Luddites to Neo-Luddism2, como especialistas no uso da tecnologia do seu tempo, que era justamente aquilo que lhes permitia ganhar a vida, os luditas procuravam essencialmente proteger o seu direito à tecnologia e não, como na habitual caricatura depreciativa, advogar o regresso a um tempo idílico e pré-tecnológico.
Tanto os luditas, no passado, como os neoluditas, hoje, parecem desempenhar uma função social da maior relevância, contestando a noção de que o desenvolvimento tecnológico é um fenómeno natural e não produto de escolhas humanas.
Dois séculos volvidos e, em 2015, Stephen Hawking, Elon Musk e Bill Gates seriam co-nomeados para o Luddite Award por manifestarem publicamente as suas reservas relativamente à evolução da IA5. Destacadas figuras do pensamento contemporâneo como Rachel Carson, Jacques Ellul, Ivan Illich, Langdon Winner ou, mais recentemente, Evnegy Morozov seriam também merecedoras desse epíteto6. O simples facto de se manifestar cepticismo relativamente ao sentido do desenvolvimento tecnológico ou de se expressar algum distanciamento crítico relativamente a entendimentos meramente virtuosos da inovação, sem ter em conta os inúmeros riscos e potenciais consequências nefastas destes processos sócio-técnicos, leva à colagem de rótulos como, por exemplo, o de neoludita, que operam sobretudo enquanto dispositivos estigmatizantes que inviabilizam a possibilidade do diálogo, da crítica e, em última instância, do pensamento.
O ludismo, sublinha-se em Breaking Things at Work7, encerra em si uma perspectiva crítica da tecnologia, sobretudo no que diz respeito aos seus efeitos sobre os processos produtivos e as condições de trabalho – a tecnologia não é neutra, mas sim um campo de batalha –, rejeita a lógica do aumento da produtividade e da eficiência como fins últimos a alcançar e assume uma condição eminentemente contrária às relações sociais do capitalismo, independentemente de este assentar na máquina a vapor ou no microchip8.
Neste sentido, tanto os luditas, no passado, como os neoluditas, hoje, parecem desempenhar uma função social da maior relevância, contestando a noção ingénua de que o desenvolvimento tecnológico é um fenómeno natural e não o produto de escolhas humanas (políticas, institucionais, jurídicas, etc.). Para além disso, ao fazerem das estruturas e sistemas de poder o objeto do seu questionamento, manifestando preocupações existenciais sobre o presente e o futuro, contribuem para um entendimento mais abrangente do desenvolvimento tecnológico, criando as condições necessárias para que a politização do debate em torno da tecnologia possa ocorrer. Que é como quem diz, a disputa pelo poder.
(continua)
Cassidy J (2025) Luddite Lessons. The weavers lost the fight to save their livelihoods. As A.I. looms, can we do better? The New Yorker, April 21, p. 20-24.
Para aprofundar a compreensão sobre quem eram os luditas e como se organizavam ver, por exemplo, Bailey B (1998) The Luddite Rebelion. New York University Press.
Alonso A, Arzoz I (2021) El desencanto del Progreso: Para una crítica luddita de la tecnología. Editorial Dykinson, p.31.
Mueller G (2021) Breaking Things at Work: The Luddites Are Right about Why You Hate Your Job. Verso Books.
Ver, para uma crítica profunda do “capitalismo tecnológico”, Sadowski J (2025) The mechanic and the Luddite : a ruthless criticism of technology and capitalism. University of California Press.
Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?
ilustração: Ricardo ferreira
Quando, por ocasião dos 50 anos de Abril e Novembro, uma turma de estudantes universitários elaborou uma série de trabalhos sobre esse período, constatou-se que todos os grupos que haviam escrito sobre o 25 de Novembro, de diferentes formas, partiam do mesmo pressuposto: a ação militar dos “moderados” tinha posto cobro a um “golpe da extrema-esquerda”, tinha evitado “a guerra civil e a ditadura” e instalado “a democracia”.
Foi fácil verificar que essa era uma resposta-tipo fornecida por todas as mais populares plataformas de inteligência artificial generativa então disponíveis. Ou seja, todos os textos dos estudantes eram diferentes, mas nenhum deles escapava à premissa base fornecida pela engenhoca.
A aceleração dos ritmos industrializados de ensino-aprendizagem com que se fabricalizou o ensino superior (esquartejado em cadeiras semestrais, saturado por turmas extensas, sobreposições inevitáveis de conteúdos, testes, trabalhos, provas, exames…) inviabilizou qualquer possibilidade de discutir seriamente quer o 25 de Novembro, quer a parametrização em que os dispositivos de IA o enquadravam, como e porquê.
O episódio ilustra com eloquência a conhecida e disputada tese da não neutralidade da técnica, por oposição à ideia generalizada de que as “tecnologias” são em si mesmas neutrais, só os seus usos lhes determinam a bondade ou maldade. De há muito que uma longa tradição de autores vem sustentadamente combatendo este ponto de vista. Uma nova técnica, como lembrava, há décadas, Neil Postman, muda tudo.
No caso da chamada inteligência artificial, cúspide até aqui das possibilidades geradas pelo que Touring chamou ao computador, “a máquina das máquinas”, a proposta é perigosamente extremista. Completar a inteligência humana, chamemos-lhe “natural”, por um dispositivo protético que potencie a primeira sem ser esmagada pelo segundo.
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Há, inclusivamente, quem se dedique a especular pelo prisma da filosofia política até que ponto um uso “socialista” desta ferramenta não poderia resolver no futuro problemas que os esboços socialistas passados não conseguiram solucionar. Mas essa é uma variante do modelo de raciocínio sobre a neutralidade da técnica. Numa reflexão penetrante, Evgeny Morozov expõe, sobre a IA, um ponto de vista diferente. Para o autor de “Socialism After AI” (https://www.theideasletter.org/essay/socialism-after-ai/), a técnica não é “uma esfera puramente instrumental que a política orienta a partir do exterior”, uma perspetiva que constitui uma cegueira a respeito do problema de saber onde se situa presentemente o poder.
O poder de criar mundos
Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.
A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.
Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.
Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.
Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.
Os vencedores agora podem reescrever a história através da IA generativa. Mas qual o sentido de recorrer a uma tecnologia que falseia e deturpa?
Os múltiplos exemplos de erros, imprecisões, invenções e falsidades produzidos pelas respostas dos mecanismos de IA generativa já insinuavam um problema que agora ficou evidente: a possibilidade, e o risco, de se alterar o passado e reescrever a história.
Este é o principal alerta dos investigadores Nuno Moniz, da Universidade de Notre Dame, e Miguel Cardina, da Universidade de Coimbra, ao apresentarem, no início de maio, um relatório sobre o estudo, desenvolvido em conjunto com colegas de outros países, que buscava saber como o ChatGPT respondia a perguntas sobre quatro conflitos internacionais, entre eles a guerra colonial e os movimentos de libertação das antigas colónias portuguesas em África.
Os resultados confirmaram aquilo que estudiosos e utilizadores críticos da IA generativa já vinham constatando, independentemente da área de conhecimento: as respostas produzidas pelos robôs estão cheias de invenções, distorções, imprecisões, falsidades, omissões. A investigação escolheu lidar com o ChatGPT por ser o mais popular entre os chatbots e comprovou problemas recorrentes, como informações fabricadas – isto é, inventadas –, erros factuais básicos como a data de ocorrência de determinados eventos, narrativas históricas falsas ou distorcidas, influência da língua prevalecente no treino da máquina para a produção de resultados ideologicamente direcionados e narrativas diferentes ou mesmo contraditórias sobre os mesmos eventos, em função da língua.
As consequências são evidentes e muito graves: crianças e jovens deformados a partir de sistemas que estabelecem padrões de autoridade falsos e embaralham informações verdadeiras e fictícias, que se vão normalizando com o tempo.
Os vencedores agora podem reescrever a história através da IA generativa. Mas qual o sentido de recorrer a uma tecnologia que falseia e deturpa?
Diante desse quadro que, segundo os próprios investigadores, exige intervenção “urgente”, não se percebe muito bem porquê as recomendações ainda insistem na formação de grupos de estudo para avaliar as potencialidades e os riscos do uso da IA. Por que não a frontal rejeição do uso dessa tecnologia no sistema de ensino? Por que não o desenvolvimento de campanhas que alertem para as distorções que as interações com chatbots podem promover na formação das futuras gerações? Em janeiro, um grupo de professores lançou um manifesto exatamente nesses termos. Por que não investir na ampliação do alcance dessa crítica?
Não bastassem todos os argumentos bem sustentados sobre o desvirtuamento do processo educativo, que afeta a própria capacidade de pensar, valeria a pena considerar o contrassenso de se consultar uma fonte inconfiável. Qual o sentido de recorrer a esses robôs, se não podemos ter certeza das informações que nos fornecem e ainda precisamos ter o trabalho acrescido de confirmá-las?
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Num trecho do seu relatório, os autores fazem graça com o famoso adágio segundo o qual a história é escrita pelos vencedores: agora, passaria a ser escrita “por quem produz mais dados sobre ela”. Mas bastaria perguntar quem tem capacidade de produzir mais dados para concluir que, do ponto de vista ideológico, a situação não se altera tanto assim. Por sinal, reforça a notável observação de Walter Benjamin: nem os mortos estarão a salvo se os vencedores continuarem a vencer.
Importaria ainda avançar com mais perguntas: quem produz, desenvolve e controla esses modelos de linguagem? A quem interessaria promover incerteza e finalmente concretizar a distopia orwelliana de um mundo em que a história é permanentemente reescrita, de modo que a Eurásia e a Lestásia são aliadas na guerra contra a Oceania e logo a seguir a situação se inverte e as informações anteriores são descartadas porque se vive num presente contínuo e continuamente atualizado, sem memória do passado e, por isso, sem qualquer perspectiva de futuro?
Numa conhecida passagem do seu famoso ensaio sobre verdade e política, Hannah Arendt cita a resposta de Georges Clemenceau a um representante da República de Weimar a respeito das futuras interpretações sobre a Grande Guerra (a Primeira Guerra Mundial): tudo poderia ser dito, menos que a Bélgica invadiu a Alemanha.
Mais de um século depois, a depender do ChatGPT, já não se poderá ter tanta certeza.
A Inteligência Artificial Generativa é um artefacto para a expropriação intelectual dos professores e dos estudantes e corresponde a uma estratégia política das big tech para a precarização total da força de trabalho mundial.
(1)
Já não é possível ignorar as lutas das e dos trabalhadores da educação em distintas partes do mundo contra as plataformas das big tech utilizadas nas redes de ensino para intensificar a jornada de trabalho, ampliar o controle e a vigilância sobre o trabalho, desqualificar intelectualmente os docentes e os estudantes, inviabilizar a autonomia da escola por meio da corrosão da liberdade de cátedra e interditar a agência de sua comunidade no autogoverno da instituição. De facto, muitas dessas lutas interpelam as mudanças curriculares sob a égide do capital, em especial, pela chamada inteligência artificial generativa (IA-Gen.), e a reestruturação dos livros e materiais didáticos como sistemas de ensino e plataformas por holdings educacionais sob controle de fundos de investimentos. Essas corporações afinal objetivam difundir o que é dado a pensar em milhares de escolas e, ao mesmo tempo, lograr modelar os perfis dos estudantes e docentes para que componham seus portfólios de negócios e sua base política.
No Brasil, em maio de 2025, no estado do Paraná, o sindicato dos trabalhadores da educação APP-Sindicato convocou a Semana de Luto e Luta em Defesa da Vida, com greve e mobilizações em todo o Paraná contra o uso de plataformas, o adoecimento e a pressão excessiva sobre os(as) educadores(as)2. Em Londres, em 8 de março de 2026 aconteceu uma massiva Marcha contra as Máquinas, interpelando as corporações de IA3. Nos EUA, pais, estudantes e professores criaram o movimento Schools Beyond Screens e lançaram neste ano uma petição chamada “Tirem as big tech das Mesas das Crianças”4. Após quase cinco décadas, ocorreu uma greve dos educadores de São Francisco (UESF) contra a substituição tecnológica dos professores5, logrando cláusulas semelhantes às da grande greve dos argumentistas de Hollywood em 20236 que estão servindo de referência para os demais sindicatos de trabalhadores da educação. Na Florida, em 8 de maio de 2026, por ocasião de uma formatura da Faculdade de Artes e Humanidades e da Escola Nicholson de Comunicação e Mídia da Universidade da Flórida Central, a oradora, vinda do mundo empresarial, afirmou que a “ascensão da inteligência artificial é a próxima revolução industrial” provocando uma sonora e massiva vaia dos estudantes que se formavam7. Em Nova Iorque, mobilizações interromperam o projeto de escola secundária de Manhattan Next Gen8, pois pais, professores e estudantes entenderam que a escola poderia ser um laboratório de IA. É significativo que os exemplos de lutas são muitos9, nem sempre diretamente contra as big tech e, por isso, necessitam ser coligidos e analisados.
Embora muitas vezes dissociadas de táticas e estratégias contra as expressões do capital na educação, essas lutas têm contribuído de modo extraordinário para dissipar águas turvas que dissimulam as aceleradas e radicais mudanças nas escolas, em especial após 2022, ano em que a IA-Gen. se popularizou. Sem essas lutas, o presente artigo não seria possível.
Os limites táticos e estratégicos dessas lutas advêm, parcialmente, de uma leitura ainda incipiente do significado da dissociação entre as big tech e i) o complexo militar e de vigilância; ii) a plataformização de todas as formas de trabalho, e iii) o uso de IA pelas corporações educacionais, questões retomadas adiante. Os estudos realizados no âmbito do Coletivo de Estudos em Marxismo e Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro10 propugnam que é imprescindível examinar, compreender e explicar tais nexos para explicar as mudanças no trabalho docente e nos processos de ensino e aprendizagem que têm provocado o derretimento da autonomia intelectual dos estudantes. Mais amplamente, preocupa a refuncionalização das escolas e universidades públicas que podem estar substituindo a formação crítica, sistemática, metódica, comprometida com a internalização profunda dos conhecimentos – base da autonomia intelectual necessária para que todos os que possuem um rosto humano possam fazer uso autônomo e crítico da razão – pela universidade operacional11 que sacrifica os processos em nome dos produtos, os valores ético-políticos e a busca processual da verdade em virtude dos vieses epistemológicos dos algoritmos que reproduzem os valores políticos de suas corporações comprometidas com o complexo militar e de vigilância.
A análise centrada nos processos de ensino e aprendizagem nas salas de aula, se não levar em consideração as nervuras políticas e econômicas das big tech, apaga problemas e pode inspirar formas de lutas inexequíveis. Dois exemplos são destacáveis. A Internacional da Educação, nas Resoluções de seu 10o Congresso, realizado em Buenos Aires, em 2024, propôs: “Impulsionar as competências das organizações afiliadas para colaborar com empresas tecnológicas na definição do conteúdo e das metodologias que possibilitam a aprendizagem e o ensino profissional”12 e a Federação Americana de Professores (AFT) pactuou parcerias com empresas como Microsoft, OpenAI e Anthropic que envolvem grandes somas de recursos (US$ 23 milhões) para estabelecer a Academia Nacional de Instrução em IA13.
Embora seja justificável a defesa da regulação estatal das big tech compreendendo aspectos importantes como privacidade, propriedade intelectual e o uso ético e responsável da IA, tal enfoque não enfrenta o cerne do problema que nem arranhado é pelas abordagens dissociadas da natureza e do caráter das big tech, de seus Grandes Sistemas de Linguagem e do caráter performativo de seus algoritmos.
(2)
Existem diferenças específicas entre as big tech e as formas de privatização e mercantilização que foram difundidas nas escolas e universidades nos anos 1990. Um ponto a destacar é o tamanho dessas corporações. As sete gigantes, Alphabet (Google), Apple, Amazon, Microsoft, Meta (GAFAM), Nvidia e Tesla, estão sendo turbinadas por investimentos jamais imaginados. Somente as ações das corporações que atuam na IA nas bolsas estadunidenses correspondem ao valor total de todas as bolsas europeias reunidas14. Os investimentos previstos em infraestrutura, US$ 375 mil milhões em 2025 e mais de US$ 600 mil milhões em 202615,16 compreendem a ‘economia real’, como data centers, fábricas de semicondutores e fornecimento de energia e de água necessários para construir o poder de computação que a IA. exige. Além disso, é preciso computar os investimentos em mineradoras. Não menos importante, as vultosas somas aplicadas no desenvolvimento de supercomputadores e sistemas complexos, modelos de linguagem, todos eles indissociáveis da computação quântica. A Brookfield Asset Management estima que somente a infraestrutura de IA absorverá US$ 7 biliões nos próximos 10 anos17. Esse processo de acumulação é alavancado por investimentos de escala inédita e provoca mudanças disruptivas, monopolistas em todas as esferas da vida.
Contudo, a economia digital precisa ser realizada em curto intervalo de tempo, em virtude da obsolescência do setor, pirataria, novas abordagens tecnológicas, como foi o caso da Deep Seek, por exemplo. Por isso, a agressividade de ocupação dos mercados é um traço distintivo dessas corporações que enfrentam qualquer intento de regulação dos Estados. Nenhuma outra tecnologia foi tão concentrada e assumiu tal dimensão. Aproximadamente 6 mil milhões de pessoas utilizam quotidianamente smartphones, tornando o alcance das big tech planetário18.
Retomando a caracterização das big tech, o facto de serem corporações vinculadas ao complexo militar e de vigilância requer que seus sistemas de linguagem e seus algoritmos possam elaborar perfis das populações a partir dos quais: i) indivíduos poderiam ser alvos para os drones guiados pela IA.; ii) os sistemas de vigilância (na forma de aplicativos, câmeras de trânsito, reconhecimento facial) podem ser acionados para localizar trabalhadores não documentados, a exemplo da Palantir, iii) as corporações possam produzir hierarquias de humanidade, uma forma de racismo algorítmico, também utilizados nas guerras em que, por exemplo, drones identificam as pessoas palestinianas como alvos tidos como legítimos e, também, iv) as corporações podem se valer dos perfis dos estudantes de uma determinada escola, universidade, rede de ensino, territórios para personalizar o tipo de educação que as frações mais exploradas das classes trabalhadoras poderão receber, atualizando os novos dualismos educacionais. Essa hierarquia de perfis é intrínseca ao LLM e aos algoritmos.
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(3)
Os Grandes Modelos de Linguagem de propriedade de corporações são indissociáveis dos sistemas complexos de algoritmos que condicionam quotidianamente milhões de pessoas e organizações em todo o mundo, incluindo as escolas e as universidades nas quais circula a grande maioria dos mais de 1400 milhões de estudantes e trabalhadores da educação em atividade. Distintamente das tecnologias de informação e comunicação como a televisão, por exemplo, as atuais tecnologias digitais permitem interação do sujeito que recebe a mensagem com os seus emissores, ainda que o seu lugar seja inclementemente subordinado. Likes, partilhas, comentários, postagens e imagens mobilizam o desejo, sequestram a atenção e geram a percepção de integração em determinados grupos. E não somente isso. As interações, por sua vez, “educam” os algoritmos que, com isso, condicionam ainda mais profundamente os seus usuários.
O facto de não ser uma rua de sentido único reforça a penetrante ideologia do sujeito de que ele faz parte de uma comunidade, seja ela religiosa, política, futebolística, etc. As big tech, como amplamente documentado, estão operando politicamente e dirigem seus algoritmos para reter a atenção e mobilizar paixões em prol da extrema-direita neofascista19. O quadro é ainda mais grave em virtude de sua escala. O controle dos dados que consubstanciam os perfis formatados pelos algoritmos e pelas corporações é tratado por elas como bens privados e livres de qualquer regulação estatal.
(4)
A partir das indicações desenvolvidas até aqui é possível retomar a discussão das corporações educacionais que estão se associando de modo subordinado às big tech. Estas são totalmente distintas das existentes há uma década. Atualmente, as corporações educacionais e grupos editoriais estão impulsionados pelos operadores financeiros e foram transformadas em sociedades anónimas, organizadas na forma de holdings e com ações nas bolsas de valores. Os investidores financeiros comandam as empresas nos conselhos de administração, um bastião de poder exclusivo. Prevalece a avaliação nos grupos educacionais de que a associação subordinada com as big tech é uma grande oportunidade para requalificar os negócios relacionados com os sistemas de ensino e as plataformas de trabalho. De facto, os currículos escolares, regra geral elaborados pelos aparelhos privados de hegemonia empresariais, como ocorreu com as Bases Nacionais Comuns Curriculares no Brasil, elaboradas pela aliança de dois conglomerados de APH (Lemann e Todos pela Educação) estão sendo operacionalizados por meio de planos de aula por IA e propagados nas escolas por intermédio de sistemas de ensino e plataformas de trabalho mediados pela IA-Gen.
Frequentemente, as próprias universidades e as redes de ensino, sob orientação governamental dos Ministérios da Educação e das Secretarias de Educação, adquirem esses sistemas e plataformas para suas escolas, aparentemente acreditando na possibilidade de um uso ético dos referidos artefactos para melhorar a eficiência do trabalho docente. Assim, incentivam os estudantes e professores a fazer um uso “responsável” da IA generativa, realimentando a megamáquina educativa do capital, como destacado em um estudo anterior (Leher, 2026)20.
A IA se apropria do acervo de conhecimentos que pertence aos povos, mas oferece aos seus usuários, espalhados por todo o mundo, produtos semelhantes a alimentos processados. Ela suprime os processos, deseduca os jovens ao afastá-los da leitura lenta e profunda, elabora resumos de textos que não serão lidos e inviabiliza os processos de elaboração criativa de textos. Uma pesquisa do MIT sobre o custo cognitivo de utilizar um Grande Modelo de Linguagem (LLM) na redação de ensaios concluiu que os participantes que utilizaram o ChatGPT para escrever apresentaram menor conectividade cerebral, pior memória do ensaio que acabavam de “escrever” e menor senso de autoria, uma vez que o pensamento foi externalizado21. Centenas de milhões de jovens têm sua capacidade de concentração comprometida, o que afeta o pensamento sistemático e concentrado. Formatos curtos, como o TikTok e o Instagram, deseducam a concentração interior. Milhões de jovens enfrentam sérias dificuldades para ler e utilizar a matemática básica. Com isso, o pensamento crítico vai se esvaindo cada vez mais, o que prejudica a capacidade de refletir sobre questões que são decisivas para o futuro da humanidade.
O impacto cognitivo de curto prazo da tecnologia é sombrio: vários estudos a associaram à perda de memória de curto prazo e descobriram que ela atrofia o pensamento crítico.
Desse modo, a expropriação sobretudo das classes trabalhadoras é realizada com a conivência das políticas nacionais e internacionais que deveriam proteger a formação intelectual dos estudantes. Com efeito, o impacto cognitivo de curto prazo da tecnologia é sombrio: vários estudos a associaram à perda de memória de curto prazo e descobriram que ela atrofia o pensamento crítico23,24.
Em Portugal, o Ministério da Educação e as câmaras municipais, sob a capa da inovação e da “abertura à comunidade” como ONGs, são os centros de entrada destes holdings nas escolas. No Brasil, atualmente na vanguarda mundial da mercantilização financeirizada da educação, os grandes grupos que atuam na educação possuem ações nas bolsas de valores e estão sob controle de fundos de investimentos, inclusive pelos maiores fundos como Blackstone, Apollo, KKR, Carlyle, Advent, e gestoras de ativos como BlackRock, a maior do mundo com ativos da ordem de US$ 10 biliões, e Oppenheimer, entre outros. No caso brasileiro, o setor privado é responsável por cerca de 70% das matrículas do ensino superior: dos 10 milhões de estudantes no ensino superior, 5,2 milhões estão na modalidade a distância – EaD (INEP, 2024) que não assegura sequer uma formação compatível com os objetivos legais minimalistas do ensino superior. A financeirização dos holdings educacionais produz uma nefasta monopolização das matrículas estudantis. De facto, embora existam 2600 instituições de ensino superior, apenas uma dezena de holdings já possui cerca de 60% dos estudantes e, no caso da EaD, a concentração dos dez maiores grupos alcança preocupantes 80% das matrículas.
Na educação básica, governos comprometidos com a austeridade contra o trabalho e a soberania popular sobre os assuntos públicos, adotam as tecnologias digitais nos moldes do “tecnossolucionismo”. Se as crianças não estão indo bem na alfabetização, as tecnologias irão resolver o problema. Se existem distorções entre a idade da criança e o seu nível de ensino, idem, tecnologias podem ‘corrigir’ o problema. Se a língua portuguesa é muito complicada, uma IA pode simplificá-la. Esse discurso neoliberal é empreendido por uma tecnocracia que se diz técnica, referenciada em supostas provas científicas e, com isso, afastam os professores de todas as decisões relevantes sobre a escola e as políticas educacionais. Essa perspectiva abriu largas autoestradas para a entrada das corporações educacionais nas escolas, por meio da comercialização de seus sistemas de ensino e plataformas de trabalho nas escolas. Desse modo, com a anuência e ação dos governos de austeridade, as corporações despejam nas salas de aula a educação processada, “macdonaldizada” e calibrada para os diferentes perfis sociais, realimentando as desigualdades sociais e naturalizando a separação das escolas para dirigidos e as escolas para dirigentes. Assim, por que ler Saramago se é possível difundir competências instrumentais condizentes com o mercado para os jovens pobres?
Tais ações são brutalmente coercivas. Os sistemas de avaliação erigidos pelas políticas neoliberais dos anos 1990 pela OCDE, as contrarreformas do Processo de Bolonha nas universidades europeias, a massificação da EaD no Brasil são processos indissociáveis da exigência de que os professores preencham demorados e inúteis plataformas diariamente, ampliando o controle, a exploração, a exaustão e o sofrimento laboral. Como destacado pelo movimento “Tirem as Big Tech das Mesas das Crianças” as escolas devem estar livres dessas corporações.
(5)
A ofensiva das big tech cujo epicentro encontra-se nos EUA25 e das corporações educacionais a elas subordinadas, distribuídas em diversos países, mira o conjunto da formação das classes trabalhadoras e, como expressão do capital-imperialismo, está inserida na geopolítica e na geoeconomia mundiais. As movimentações do capital engendram outras expressões das lutas de classes em âmbito mundial. Como apontado, essas contradições se materializam na forma de lutas, greves, mobilizações dos trabalhadores da educação e dos estudantes. Não é possível a neutralidade ética. Os coletivos de pesquisa do campo crítico, sindicatos, jornais como o Maio não podem deixar de ser parte de um esforço unitário e coordenado para coligir e analisar as lutas que eclodem em toda a parte contra tal ofensiva do capital.
Existem iniciativas antissistémicas, mas ainda de magnitude modesta. No I Seminário Internacional Capitalismo Digital, Financeirização e Educação, realizado em julho de 2025 no campus da Praia Vermelha da UFRJ com a participação de pesquisadores de diversas universidades brasileiras e da Universidade de Barcelona e do Chile foi consensuada a criação da Rede Internacional de Estudos e Pesquisas sobre o Avanço do Capital por meio de Tecnologias Digitais na Educação. Em julho de 2026, na Universidade de Barcelona, acontecerá o II Congresso Internacional sobre Capitalismo e Educação, no qual a referida rede internacional poderá ganhar nova dimensão. Outra iniciativa afim é o projeto de investigação continental da Red Social para la Educación Pública en las Américas (Initiative for Democratic Education in the Americas) Políticas de las “nuevas” derechas hacia la educación pública, resistências y alternativas, cujo documento de trabalho foi discutido de modo sistemático ao longo de 2024 e de 2025 em dois seminários, o primeiro na Argentina (2024, CTERA) e o seguinte no México em 2025 (UNAM) com pesquisadores e ativistas sociais de Argentina, Canadá, Colômbia, Costa Rica, Equador, Estados Unidos, Guatemala, Honduras e México. Essas iniciativas, inclusive as greves indicadas no presente texto, embora limitadas, confirmam que está havendo um adensamento de ações contra as novas expressões do capital na educação.
Existem avanços tecnocientíficos que foram desenvolvidos na sociedade capitalista que, por meio de rupturas profundas, poderão ser apropriadas pelos povos em busca da soberania popular para além do capital.
Uma tarefa urgente é construir conexões mais orgânicas com as lutas sindicais e estudantis que se espalham pelo mundo. Quando a presidente da AFT, Randi Weingarten, afirmou que “achámos que precisávamos trabalhar com as maiores empresas do mundo. Fomos até elas”, o que prontamente foi acolhido pelas big tech que irão repassar mais de US$ 30 milhões para a constituição de centros de formação que irão acionar 400 mil docentes nos próximos anos26 é evidente que o tema alcança a grande política do capital! Sem um esforço coordenado dos sindicatos comprometidos com a desmercantilização da educação, logo a aliança das big tech irá ampliar a subordinação de outras grandes organizações sindicais.
Pensar as tecnologias na educação requer radicalidade. Não se trata, obviamente, de inseri-las em manuais sobre o bom uso da IA, como querem muitas universidades, nem de treinar professores para um uso adequado das mesmas.
Plataformas de comunicação virtuais, aplicativos de tradução, acesso livre aos acervos de museus e bibliotecas e programas de busca sofisticados, capazes de respostas que sejam excelentes pontos de partida para novos estudos, devem ser objetivos internacionalistas. Concretamente, existem avanços tecnocientíficos que foram desenvolvidos na sociedade capitalista que, por meio de rupturas profundas, poderão ser apropriadas pelos povos em busca da soberania popular para além do capital. Esse movimento está apenas se iniciando e somente avançará a partir do internacionalismo, pois tais plataformas não mercantis não podem se esgotar nos Estados em uma perspectiva chauvinista. É uma luta empolgante e necessária para o porvir da humanidade. Juntos, lograremos avanços!
1 Professor catedrático da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
11 CHAUI, Marilena. A universidade operacional. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas/Sorocaba, v. 4, n. 3, 1999. Disponível em: Portal de Periódicos Uniso. Acesso em: 17 maio 2026.
20 Leher, R. IA, TECNOFASCISMO Y EDUCACIÓN. Importancia estratégica de la pedagogía ludita. (Prólogo) In: Jarquín, M. La pedagogía ludita. Bs.As. CLACSO, 2026 (no prelo)
22 ABBAS, Muhammad; JAM, Farooq Ahmed; KHAN, Tariq Iqbal. Is it harmful or helpful? Examining the causes and consequences of generative AI usage among university students. International Journal of Educational Technology in Higher Education, v. 21, art. 10, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s41239-024-00444-7. Acesso em: 15 maio 2026.
23 Noor Al-Sibai. Study Finds That People Who Entrust Tasks to AI Are Losing Critical Thinking Skills. Futurism. 18/02/2025. Disponível em: https://futurism.com/study-ai-critical-thinking. Acesso em 15/-5/26.
24 LEE, Hao-Ping et al. The Impact of Generative AI on Critical Thinking: Self-Reported Reductions in Cognitive Effort and Confidence Effects From a Survey of Knowledge Workers. In: CHI CONFERENCE ON HUMAN FACTORS IN COMPUTING SYSTEMS, 2025, Yokohama. Proceedings […]. New York: ACM, 2025. p. 1-22.
25 A China possui particularidades que não foram examinadas no presente texto.
O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários seria substituir toda a força de trabalho humana por IA. Só que esta hipótese gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo que se produz?
Entre o apocalipse dos trabalhadores e o tecnoterrorismo: a IA como campo de batalha
A 5 de Maio, Robert Reich, perigoso esquerdista que trabalhou nas administrações dos presidentes Ford e Carter, foi secretário do Trabalho dos EUA durante o consulado de Clinton e integrou a comissão consultiva para a transição económica de Obama, assinava um texto intitulado “The AI Job Apocalypse Is Already Happening1”. Nele se assinalava o modo como, para fazer crescer os seus lucros, as grandes empresas estão a utilizar a IA e os potenciais ganhos de produtividade resultantes da sua integração nos processos produtivos como pretexto para cortar salários e postos de trabalho. Independentemente de a IA poder substituir os postos de trabalho cortados, e isso não parece ser a questão mais relevante, as grandes empresas estão a aproveitar essa possibilidade para despedimentos em massa.
Entre janeiro e abril de 2026, mais de 128 000 trabalhadores foram despedidos. A Meta despediu 8000, apontando para 10 000 até ao final de 20262, a Amazon 30 000, os seis maiores bancos de Wall Street mais 15 000, na Oracle o número pode ascender aos 30 000, o mesmo que a UPS espera despedir ao longo de 2026, a empresa química Dow anuncia 4500 e a Block aponta para uma redução de 40% da sua força de trabalho (± 4000 trabalhadores). Já em maio, a tecnológica norte-americana Cloudfare anunciou o despedimento de cerca de 1100 pessoas3 (20% da sua força de trabalho). Entretanto, Evan Spiegel, CEO da empresa norte-americana Snap, responsável pelo Snapchat, anunciou (imagina-se que numa daquelas sessões online sem direito a diálogo) o despedimento de cerca de 1000 trabalhadores, incluindo 16% do seu quadro de pessoal a tempo inteiro4.
Mesmo que muitas das pessoas despedidas não tenham ainda sido substituídas, ou possam sequer vir a sê-lo, pela IA, o turbo-capitalismo digital powered by AI empurra as grandes empresas neste sentido5. Afinal de contas, a competição feroz é a alma do negócio e, como é sabido, a noção de que os trabalhadores são variável de ajustamento fez escola. O facto de a IA ser capaz de realizar tarefas intelectuais que até há poucos anos só pareciam possíveis na ficção científica6, acentuando a fragilização dos trabalhadores de colarinho branco, só dá mais visibilidade ao fenómeno.
O hype é tanto que, no Dia do Trabalhador, se realizou no Beato Innovation District, a primeira edição do Agents Day, destinada a developers, founders e builders. Promovida pela CTO Portugal, comunidade de líderes em tecnologia e IA, foi anunciada como uma iniciativa que visava “colocar agentes de IA a trabalhar pelos humanos7”. Ao mesmo tempo, vai fazendo caminho o celestial canto dos administradores de empresas, para quem “a IA vai substituir os trabalhadores que não se adaptarem8”. Parafraseando Margaret Thatcher, poder-se-ia até dizer que a IA é o método, o objetivo é despedir trabalhadores.
No limite, toda a força de trabalho humana seria substituída por IA. O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários. Só que esta hipótese, explorada em The AI Layoff Trap9, e que decorre de uma lógica individual irrepreensível por parte de empresas que lutam pela sobrevivência na selva capitalista, gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo que se produz? Ou, recorrendo a terminologia marxista, desde quando é possível a substituição integral de trabalho vivo por trabalho morto? Mas, infelizmente, não é tudo. Parece que o aperfeiçoamento da IA só piora as coisas, dado que o impulso para substituir trabalho humano por IA se intensifica e acelera. Uma verdadeira corrida para o abismo ou para uma crise de sobreprodução de proporções bíblicas.
Num mundo profundamente desigual, em que o rendimento real dos trabalhadores caiu 12%, enquanto o dos CEO aumentou 54% entre 2019 e 202510, e onde os bilionários e os ultra-ricos dominam os media e a IA (mais de metade dos grandes grupos mundiais de media são detidos por bilionários, 9 das 10 maior empresas na área das redes sociais são geridas por apenas seis bilionários, algo que sucede com 8 das 10 maiores empresas de IA, com apenas três delas a possuírem quase 90% de quota de mercado11), o tecnoterrorismo impõe-se como discurso dominante que legitima despedimentos, instala o medo e a insegurança, constitui-se enquanto mecanismo ideológico disciplinador de uma força de trabalho amedrontada que, por isso, perde capacidade reivindicativa.
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Por outras palavras, trata-se de “uma narrativa futurista que amplifica ameaças hipotéticas para mascarar as contradições muito concretas do presente (...) [funcionando] como um espelho quebrado manejado pelo capital tecnológico: cada caco devolve uma imagem ampliada do perigo, mas nunca permite enxergar a totalidade. Em vez de descrever realisticamente o que a IA é capaz de fazer, projecta fantasias hiperbólicas que servem para legitimar a precarização, pressionar salários e justificar reformas regressivas12”. Até porque, segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho13, apesar de 25% dos empregos no mundo estarem potencialmente expostos à IA, apenas 5-6% enfrentam ameaça de extinção; para além de, como também é evidenciado por esta organização, existirem inúmeros desafios metodológicos relacionados com a medição dos aumentos de produtividade resultantes da adopção da IA14.
Naturalmente, o impacto sobre o trabalho não se limita ao desemprego (real ou imaginário). Como se defende em “O trabalho explorado por trás da inteligência artificial15”, por trás de cada suposta conquista da IA existe um exército de trabalhadores precarizados que, nas mais das vezes, se encontram a milhares de quilómetros de Silicon Valley. Analistas de dados, motoristas de entrega, moderadores de conteúdos, são milhões os trabalhadores mal remunerados em todo o mundo – Venezuela, Bulgária, Índia, Quénia, Filipinas ou México são alguns dos locais onde se concentram – que executam tarefas repetitivas e monótonas indispensáveis ao desenvolvimento da IA, muitas vezes colocando as suas vidas em risco. Bem diz o povo, longe da vista, longe do coração. E assim se exporta e invisibiliza sub-desenvolvimento, trabalho indigno e miséria social, ao mesmo tempo que se varrem para debaixo do tapete os inúmeros riscos psicossociais associados ao uso da IA16 (ex: vigilância intrusiva, perda de autonomia e dignidade no trabalho, recolha de dados excessiva, etc.).
Por economia de espaço, abstemo-nos ainda de falar dos enormes custos ecológicos resultantes dos consumos de água, energia eléctrica, solo e outros recursos necessários ao funcionamento da infraestrutura da IA, centros de dados, servidores e restante parafernália tecnológica; do aprofundamento do fosso entre a metrópole imperialista e as periferias; ou dos efeitos da IA sobre a inteligência, a criatividade, a empatia, a ética e a saúde mental de crianças e jovens; ou da superinteligência que tem gerado fundados receios sobre a sua potencial capacidade para pôr fim à humanidade17.
Por uma IA ao serviço do povo!
Hoje, como no contexto de aparecimento dos luditas, o problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas. Aquilo que podemos observar é que, hoje, os principais beneficiários da IA são os grandes monopolistas da Big Tech. São eles que, num contexto de degradação generalizada das condições de vida – afinal, já levamos mais de meio século de contra-revolução neoliberal –, se empanturram em vil metal ao mesmo tempo que atiram com trabalhadores para o desemprego. Os donos da IA tornaram-se uma espécie de casta privilegiada que concentra todo o poder – económico, social, político e cultural –, enquanto os restantes, sem qualquer controlo sobre a arquitetura da IA, disputam as migalhas que caem da mesa com que se banqueteiam. Deve ser isto aquilo a que chamam “trickle down economics”.
E é por isso que, em vez de se discutir o alcance potencial da IA para promover um aumento generalizado do bem-estar, como, por exemplo, a possibilidade de todos trabalharmos menos horas sem qualquer perda de remuneração, antes pelo contrário aumentando salários, e termos todos mais tempo para viver, aceitando a lógica (que já vimos ser discutível mas é aquela que está na base do tecnoterrorismo vigente) de que a IA gera enormes ganhos de produtividade, aquilo que sucede são despedimentos em barda e uma chantagem permanente sobre os trabalhadores que, como é bom de ver, ou se adaptam ou sucumbem ao avanço inexorável da IA.
O problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas.
Porque é que não se usam os extraordinários avanços tecnológicos para libertar quem vive do seu trabalho, daquilo que nele é penoso, arriscado, desumano e alienante? Porque é que em vez de a tecnologia ser colocada ao serviço do povo trabalhador, para que este tenha todo o tempo para ser aquilo que deseja ser, é utilizada como cutelo sobre o seu pescoço? Porque, como sempre sucede no capitalismo, independentemente das suas metamorfoses ao longo do tempo, se privatizam os ganhos e socializam as perdas. Como defende Prabhat Patnaik, “se a humanidade está no limiar de grandes avanços científicos e tecnológicos, então a necessidade do socialismo, para tirar partido desses avanços, torna-se esmagadora. O socialismo torna-se então uma sociedade que não é apenas mais equitativa, mas que pode de facto fazer justiça ao engenho humano na introdução de profundos avanços tecnológicos, precisamente devido à sua natureza equitativa, precisamente porque é uma sociedade onde o trabalho e o produto são partilhados equitativamente entre todos18”.
Sendo produto de um empreendimento coletivo, a única forma aceitável de governo da IA passa pela socialização da sua propriedade19. Só assim, os seus efeitos deletérios sobre as classes trabalhadoras podem passar a ser uma carta fora do baralho ou, pelo menos, uma preocupação genuína, dado que seriam estes os donos da IA e os principais interessados em que ela não funcionasse como ferramenta digital de exploração. Por algum motivo, o recente manifesto da Palantir não menciona trabalhadores nem sindicatos. Porque sabe que “os trabalhadores por si só, se se organizarem, são capazes de parar as linhas de produção da morte. Uma greve geral no vale do Silício, ou mesmo nos próprios escritórios da Palantir, é o pesadelo deste projeto20”.
Com uma política anti-monopolista e a socialização da IA, mesmo os seus efeitos nocivos sobre a nossa “casa comum21” seriam potencialmente mitigados, até porque o trabalhador comum não tem possibilidades de construir um bunker numa ilha remota ou de sequer se imaginar a viver em Marte como fazem os multimilionários tecnofascistas. Enquanto a IA for pensada apenas e só com vista ao lucro e à acumulação de riqueza por meia dúzia de sociopatas, que perdem a maior parte do seu tempo atormentados com a possibilidade de perderem uns milhões22, não existe qualquer possibilidade de não operar enquanto ferramenta de produção de miséria social em massa.
Neste sentido, a IA corresponde a uma forma altamente sofisticada e complexa de extractivismo socioecológico. Parafraseando Proudhon, a “IA é roubo!” e reverter esta lógica passaria, por exemplo, por tornar público, universal e gratuito o acesso à tecnologia, inclusive à sua arquitetura mais elementar que hoje permanece debaixo de um manto de enorme opacidade (afinal, o segredo é a alma do negócio). Desmercantilizar a IA implica também que a sua infraestrutura fique sujeita a controlo democrático e transparente, que esta seja concebida enquanto propriedade comum da humanidade. Caso contrário, “não [se] pode controlar o seu futuro, não [se] é livre, não [se] é independente e não [se] pode decidir sobre o seu futuro nem proteger a sua democracia23” e a oligarquia tecno-digital reforça o seu poder totalitário. A este respeito, em Portugal, vale a pena salientar a proposta pioneira de criação do Instituto Nacional para a Computação Avançada, feita pelo PCP24.
Como se afirma em “Automation and AI: A Socialist Perspective on Workers’ Rights25”, um projeto socialista para a IA seria capaz de colocar os aumentos de produtividade e eficiência ao serviço do bem-estar de quem vive do seu trabalho. Como? Diminuindo erros e eliminando desperdícios nos processos produtivos; assegurando as tarefas repetitivas e libertando os trabalhadores para aquilo que é mais recompensador; substituindo os trabalhos sujos e perigosos, reduzindo acidentes e melhorando a segurança nos locais de trabalho; criando condições para o aparecimento de novas ocupações, altamente qualificadas e bem remuneradas; impedindo despedimentos sob pretexto de adopção da IA26; aumentando o tempo livre para atividades de lazer e ócio, jornadas de trabalho mais curtas e mais tempo de férias; levando a cabo grandes investimentos em serviços e infraestruturas públicas. Contudo, fazer avançar uma agenda tão progressista requer, naturalmente, que se combatam os inúmeros riscos e desafios que a IA coloca hoje ao trabalho. Para além do desemprego, da compressão salarial e das desigualdades crescentes, que já antes vimos, também a vigilância e o controlo permanentes devem ser combatidos, bem como a degradação do trabalho que o torna desumano.
Ao contrariar o tecnoterrorismo e os seus efeitos, indo à raiz do problema, uma perspectiva socialista da IA cria um novo horizonte de possibilidades para os trabalhadores, susceptível de libertar todo o potencial da tecnologia e colocá-lo ao seu serviço. A IA deve ser escravizada e não fazer de nós escravos. E essa foi a intuição inicial dos luditas que vale a pena recuperar para a atualidade e, em última instância, foi contra isso que se revoltaram há cerca de dois séculos, lançando a semente que viria a germinar num potente movimento operário e nos primeiros sindicatos. Não contra as máquinas, mas sim contra os grandes monopólios do capitalismo.
É por isso urgente “virar o jogo” e resgatar para o trabalho o potencial emancipador desta “nova” tecnologia. Rejeitando tanto as acusações preconceituosas dirigidas aos neoluditas de hoje, como a sua mais recente variação – “populismo IA27 –, desenvolvendo uma cultura contra-hegemónica esclarecida, consciente e crítica e uma alternativa socialista que coloque a IA, não enquanto fetiche28, mas sim como produto histórico-geográfico do capitalismo, no centro das suas preocupações, promovendo ação coletiva e lugares de encontro cara a cara, onde a empatia, a solidariedade e a confiança se constroem. Não num futuro longínquo onde apenas os historiadores da longa duração poderão ser capazes de vislumbrar retrospetivamente os ganhos civilizacionais resultantes da IA, deixando na penumbra o seu rasto de destruição e violência social, mas tão rapidamente quanto possível para evitar que este se torne cada vez mais real. Lutemos, pois, por uma IA ao serviço do povo!
13 Gmyrek P, Berg J, Kamiński K, Konopczyński F, Ładna A, Nafradi B, Rosłaniec K, Troszyński M (2025) Generative AI and Jobs: A Refined Global Index of Occupational Exposure, ILO Working Paper 140 (Geneva, ILO). https://doi.org/10.54394/HETP0387.
14 Ver ILO (2026) The Impact of Artificial Intelligence on Productivity: Evidence Across Levels of Aggregation, Research brief. International Labour Office.
22 A partir da análise dos ficheiros Epstein, é possível compreender que a urdimenta de planos e estratégias de preservação dos privilégios é a principal ocupação do tempo das elites globais. Ver https://the.ink/s/epstein (acedido a 11 de maio de 2026).
De uma penada, aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado, rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando são rotulados de tecnofóbicos e olhados com sobranceira repugnância. Seriam os novos luditas que, assim reza esta versão da história, teriam sido contra o desenvolvimento tecnológico, a inovação e o futuro.
Num mundo onde a evolução devia
Livrar-nos do esforço ingrato
Para a humana criação
Se nos tira esse prazer
Pra que serve então?
AI, Cara de Espelho, 2026
A propósito de inteligência artificial generativa (IA), sobre a qual, só em 2026, já se escreveram milhares de artigos científicos, ensaios, crónicas e textos de opinião (alguns deles claramente gerados por chatbots porque o tom monocórdico do mangas de alpaca não engana), um dos epítetos com que são brindados aqueles que procuram colocar questões, problematizar aquilo que lhes é apresentado como inevitabilidade ou facto consumado (se eu tivesse um euro por cada vez que li ou ouvi a expressão “não se pode parar o vento com as mãos” já não precisava de trabalhar), rejeitando o discurso hegemónico sobre IA que se vai instalando, é a de serem neoluditas.
De uma penada, são rotulados de tecnofóbicos e olhados com o esgar de sobranceira repugnância que habitualmente se lança a quem não embarca no deslumbramento tecnológico vigente. Os luditas, assim reza esta versão da história, teriam sido contra o desenvolvimento tecnológico, a inovação e o futuro. Eram gente ignorante e dogmática que via uma máquina a vapor e tratava logo de a destruir com uma moca. Hoje, saltando da revolução industrial para a digital, seria a vez de os neoluditas fazerem o mesmo com portáteis, tablets, smartphones, aspiradores, frigoríficos e quaisquer outros dispositivos digitais assentes em IA. Dois mundos diferentes, um mesmo inexorável destino – o seu triste fim.
Mas será que esta leitura faz jus ao papel desempenhado pelos luditas no contexto da revolução industrial? Que lições dessa história podemos nós retirar para melhor lidar com as circunstâncias atuais? Que caminhos podemos trilhar para que a IA seja colocada ao serviço de quem vive do seu trabalho? Este é o exercício que pretendo desenvolver neste texto e, para isso, começo por recuar no tempo para delinear os contornos do movimento liderado pelo “general Ludd”, passando depois à leitura da IA enquanto campo de batalha político-ideológica, concluindo com algumas notas a propósito da necessidade de desenvolver um projeto socialista para a IA.
Rage Against the Machine, ou talvez não
Embora não seja clara a origem da expressão ludita e exista um interessante debate historiográfico em torno desta matéria e assuntos conexos, em “Luddite Lessons”1 remete-se para um conjunto de atos de sabotagem, motins e ataques variados levados a cabo na segunda metade do século XVIII, que se prolongam pelo século XIX, por parte de artesãos do sector têxtil que, percebendo que o capitalismo industrial ameaçava as suas condições de subsistência e não tendo qualquer instância de mediação e/ou representação política formal, optaram por seguir a via da ação direta e dos protestos violentos, que dirigiam tanto à maquinaria como aos barões da indústria. A sua atuação era geograficamente muito localizada e não existia nenhuma estrutura organizada que articulasse as lutas em todo o Reino Unido. Neste contexto, emerge a figura (provavelmente mitológica) de Ned Ludd, uma espécie de Robin Hood de uma classe trabalhadora que se debatia com inúmeras desigualdades e injustiças.
O ludismo é, por isso, a um tempo, sintoma de mal-estar e manifestação de descontentamento social. A sua acção não decorria de um qualquer delírio tecnofóbico ou hostilidade primária contra a maquinaria, correspondendo, isso sim, à manifestação de um sentimento profundo de injustiça relativamente àqueles – os patrões da industrialização – que enriqueciam devido à degradação das condições de vida dos trabalhadores (muitos deles artesãos ou camponeses convertidos em operários) e à apatia de governos que não demonstravam qualquer vontade de intervir com vista à regulação das relações laborais2. Tratava-se, por isso, de um projeto político e económico que, através de um repertório diversificado de práticas subversivas (para E. P. Thompson tratava-se de um movimento quase insurrecional3), procurou rebelar-se contra os efeitos da industrialização sobre as vidas concretas dos trabalhadores e melhorar as suas condições de vida. Pretendia, essencialmente, assegurar os meios de subsistência mais básicos como, por exemplo, acesso a alimentação e vestuário, e limitar o recurso ao trabalho infantil. Neste sentido, o seu contributo para despertar consciências em torno da necessidade de construir uma sociedade mais igualitária e de denunciar o custo humano da mudança económica não pode ser descartado como irrelevante.
Para os luditas, a máquina não era simplesmente um sofisticado artefacto tecnológico feito de diversas peças, roldanas, manivelas e pedais que importava destruir. Ela significava o lugar onde o poder se materializava, era o símbolo maior da concentração de poder obscena do grande industrial e, ao mesmo tempo, da perda de autonomia e controlo sobre o tempo da vida quotidiana por parte dos trabalhadores assalariados. Os luditas não eram, por isso, antitecnologia, mas sim militantes em prol de sociedades menos desiguais que, frequentemente, desencadeavam a sua ação na sequência de episódios pontuais de flagrante injustiça social (ex: despedimentos em massa, cortes salariais, colheitas pobres, etc.). Na verdade, tratando-se maioritariamente de artesãos, correspondiam às camadas sociais mais qualificadas e dotadas de competências técnicas especializadas. Longe de serem tecnologicamente incapazes, seriam provavelmente as pessoas mais capazes de levar a cabo uma crítica qualificada do desenvolvimento tecnológico e dos seus efeitos sociais, económicos, culturais e políticos.
Com efeito, como assinala Steven E. Jones em Against Technology: From the Luddites to Neo-Luddism2, como especialistas no uso da tecnologia do seu tempo, que era justamente aquilo que lhes permitia ganhar a vida, os luditas procuravam essencialmente proteger o seu direito à tecnologia e não, como na habitual caricatura depreciativa, advogar o regresso a um tempo idílico e pré-tecnológico.
Tanto os luditas, no passado, como os neoluditas, hoje, parecem desempenhar uma função social da maior relevância, contestando a noção de que o desenvolvimento tecnológico é um fenómeno natural e não produto de escolhas humanas.
Dois séculos volvidos e, em 2015, Stephen Hawking, Elon Musk e Bill Gates seriam co-nomeados para o Luddite Award por manifestarem publicamente as suas reservas relativamente à evolução da IA5. Destacadas figuras do pensamento contemporâneo como Rachel Carson, Jacques Ellul, Ivan Illich, Langdon Winner ou, mais recentemente, Evnegy Morozov seriam também merecedoras desse epíteto6. O simples facto de se manifestar cepticismo relativamente ao sentido do desenvolvimento tecnológico ou de se expressar algum distanciamento crítico relativamente a entendimentos meramente virtuosos da inovação, sem ter em conta os inúmeros riscos e potenciais consequências nefastas destes processos sócio-técnicos, leva à colagem de rótulos como, por exemplo, o de neoludita, que operam sobretudo enquanto dispositivos estigmatizantes que inviabilizam a possibilidade do diálogo, da crítica e, em última instância, do pensamento.
O ludismo, sublinha-se em Breaking Things at Work7, encerra em si uma perspectiva crítica da tecnologia, sobretudo no que diz respeito aos seus efeitos sobre os processos produtivos e as condições de trabalho – a tecnologia não é neutra, mas sim um campo de batalha –, rejeita a lógica do aumento da produtividade e da eficiência como fins últimos a alcançar e assume uma condição eminentemente contrária às relações sociais do capitalismo, independentemente de este assentar na máquina a vapor ou no microchip8.
Neste sentido, tanto os luditas, no passado, como os neoluditas, hoje, parecem desempenhar uma função social da maior relevância, contestando a noção ingénua de que o desenvolvimento tecnológico é um fenómeno natural e não o produto de escolhas humanas (políticas, institucionais, jurídicas, etc.). Para além disso, ao fazerem das estruturas e sistemas de poder o objeto do seu questionamento, manifestando preocupações existenciais sobre o presente e o futuro, contribuem para um entendimento mais abrangente do desenvolvimento tecnológico, criando as condições necessárias para que a politização do debate em torno da tecnologia possa ocorrer. Que é como quem diz, a disputa pelo poder.
(continua)
Cassidy J (2025) Luddite Lessons. The weavers lost the fight to save their livelihoods. As A.I. looms, can we do better? The New Yorker, April 21, p. 20-24.
Para aprofundar a compreensão sobre quem eram os luditas e como se organizavam ver, por exemplo, Bailey B (1998) The Luddite Rebelion. New York University Press.
Alonso A, Arzoz I (2021) El desencanto del Progreso: Para una crítica luddita de la tecnología. Editorial Dykinson, p.31.
Mueller G (2021) Breaking Things at Work: The Luddites Are Right about Why You Hate Your Job. Verso Books.
Ver, para uma crítica profunda do “capitalismo tecnológico”, Sadowski J (2025) The mechanic and the Luddite : a ruthless criticism of technology and capitalism. University of California Press.
Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?
ilustração: Ricardo ferreira
Quando, por ocasião dos 50 anos de Abril e Novembro, uma turma de estudantes universitários elaborou uma série de trabalhos sobre esse período, constatou-se que todos os grupos que haviam escrito sobre o 25 de Novembro, de diferentes formas, partiam do mesmo pressuposto: a ação militar dos “moderados” tinha posto cobro a um “golpe da extrema-esquerda”, tinha evitado “a guerra civil e a ditadura” e instalado “a democracia”.
Foi fácil verificar que essa era uma resposta-tipo fornecida por todas as mais populares plataformas de inteligência artificial generativa então disponíveis. Ou seja, todos os textos dos estudantes eram diferentes, mas nenhum deles escapava à premissa base fornecida pela engenhoca.
A aceleração dos ritmos industrializados de ensino-aprendizagem com que se fabricalizou o ensino superior (esquartejado em cadeiras semestrais, saturado por turmas extensas, sobreposições inevitáveis de conteúdos, testes, trabalhos, provas, exames…) inviabilizou qualquer possibilidade de discutir seriamente quer o 25 de Novembro, quer a parametrização em que os dispositivos de IA o enquadravam, como e porquê.
O episódio ilustra com eloquência a conhecida e disputada tese da não neutralidade da técnica, por oposição à ideia generalizada de que as “tecnologias” são em si mesmas neutrais, só os seus usos lhes determinam a bondade ou maldade. De há muito que uma longa tradição de autores vem sustentadamente combatendo este ponto de vista. Uma nova técnica, como lembrava, há décadas, Neil Postman, muda tudo.
No caso da chamada inteligência artificial, cúspide até aqui das possibilidades geradas pelo que Touring chamou ao computador, “a máquina das máquinas”, a proposta é perigosamente extremista. Completar a inteligência humana, chamemos-lhe “natural”, por um dispositivo protético que potencie a primeira sem ser esmagada pelo segundo.
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Há, inclusivamente, quem se dedique a especular pelo prisma da filosofia política até que ponto um uso “socialista” desta ferramenta não poderia resolver no futuro problemas que os esboços socialistas passados não conseguiram solucionar. Mas essa é uma variante do modelo de raciocínio sobre a neutralidade da técnica. Numa reflexão penetrante, Evgeny Morozov expõe, sobre a IA, um ponto de vista diferente. Para o autor de “Socialism After AI” (https://www.theideasletter.org/essay/socialism-after-ai/), a técnica não é “uma esfera puramente instrumental que a política orienta a partir do exterior”, uma perspetiva que constitui uma cegueira a respeito do problema de saber onde se situa presentemente o poder.
O poder de criar mundos
Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.
A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.
Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.
Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.
Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.
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