Greve da saúde
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Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas? E por que não te hei-de eu falar? Walt Whitman «A Ti», in Folhas de Erva Tradução de Maria de Lourdes Guimarães Relógio D’Água Editores, 2010
Estranho, se ao passares me encontrares e desejares falar-me, por que não me falas?
E por que não te hei-de eu falar?
Walt Whitman
«A Ti», in Folhas de Erva
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
Relógio D’Água Editores, 2010
Foi na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos.
O leitor pode estar a perguntar-se: “Será mesmo que a Odisseia é uma canção de luta?”
Antes de se tornar um livro ou um filme, tanto a Ilíada quanto a Odisseia de Homero eram cantos. Versos cantados, e é por essa denominação que continuam dividindo cada parte da narrativa desses heróis míticos – Aquiles e Ulisses (Odisseu). Não são “capítulos”, como na literatura, mas “cantos”.
Os poemas homéricos são bastante longos e, sendo cantados e memorizados, teriam sido propagados de geração em geração até ganhar a forma escrita alfabética dos Gregos. Posteriormente foram traduzidos para latim pelos Romanos e assim chegaram até nós seus versos, sem que saibamos ao certo como era a melodia original da música que os acompanhava.
Mas, considerando a Odisseia como canção, pode ser considerada “de luta”?
A tradição de contar em versos as façanhas dos guerreiros em sua memória remonta a esses aedos, como eram chamados na antiga Grécia os bardos que cantavam as glórias dos heróis do passado.
Na Ilíada se conta, na guerra de Troia, a razão da “fúria de Aquiles”, o modo como se enfrentou com Heitor após a morte de seu amigo Pátroclo, vestido com sua armadura. Na Odisseia, contudo, o que se narra é a história de Ulisses/Odisseu e suas peripécias (e também truques e mentiras) na tentativa de voltar e retomar o lar e o trono de rei na ilha de Ítaca.
É certo que a Ilíada trata da luta: a honra, a virtude, a destreza e a força dos guerreiros aqueus, em especial de Aquiles. Contudo, Odisseu luta não contra homens apenas, mas contra seres fantásticos, dotados de superpoderes, e até mesmo contra o deus dos mares Poseidon, cujo nome foi traduzido para o latim pelos romanos como Neptuno.
Considerando que a Odisseia é uma canção de luta, poderia perguntar-se: “Afinal, de que tipo de luta?” Não seria esta coluna dedicada especificamente à luta de classes?
As canções de luta de classes são, antes de mais nada, canções de luta, que conclamam à tomada de consciência, à mudança de atitude, ao rompimento com a passividade e o conformismo, e louvam aqueles que tiveram coragem para explicar, mobilizar e conduzir a luta da classe operária em diferentes sentidos e contextos.
Esse não é o sentido da Odisseia, onde o herói é um aristocrata, líder militar e proprietário de escravos que se manterão fieis ao seu amo para ajudá-lo a retomar o poder e ter restituídos seu lar, sua família e seus bens patrimoniais. Não se trata de tomada de consciência de classe, mas daquilo que Marx chamaria de uma disputa interclassista.
Na Odisseia, não há qualquer ruptura revolucionária com o modo de produção escravista antigo que, naquele contexto, estava se constituindo na Grécia e posteriormente em Roma, em oposição ao modo de produção asiático predominante nos impérios do Egito, da Mesopotâmia, da Pérsia, da Índia e da China antigas.
Então, qual é a importância desta canção de luta para o Ocidente e para a luta da classe trabalhadora? Ora, como diria o dramaturgo Bertolt Brecht, toda forma de linguagem reflete a ideologia de sua época, mas as formas estéticas que a elaboram servem como moldura narrativa de outras lutas a serem narradas. Cada povo e cada classe elabora seus próprios códigos de luta, mas sempre a partir de uma matriz referencial.
A Odisseia é um modelo que serviu a diversas historias na literatura, no cinema e nas artes plásticas relacionadas com o “retorno do herói”. Esse retorno pode também ser lido de forma alegórica, com a superação de desafios que a princípio o impediam de cumprir seus objetivos. Um jogo de estratégia em que a cada novo patamar de alcance surgem novas dificuldades imprevistas que envolvem o uso inteligente da força, da astúcia, das armas e em alguma instância da sorte, manifesta nessa história pela “ajuda dos deuses”.
A balada épica inspirou o cancioneiro dos trovadores de diversos contextos e épocas. Assim seria o Cantar del mio Cid ou a Chanson de Roland. Mais tarde, Os Lusíadas, de Camões, acabou sendo escrito diretamente inspirado na epopeia de Homero, em grande parte as viagens de Ulisses – a quem se atribuiu erroneamente a fundação de Lisboa, embora os Fenícios já andassem na costa de Portugal bem antes dos Gregos.
Até o início do século XX, o certo é que foi através de canções que foram propagadas as façanhas de heróis e anti-heróis populares. De malfeitores do “velho oeste” dos Estados Unidos, como Billy the Kid, personagens míticos como o gaúcho argentino Martín Fierro ou heróis populares de moral duvidosa como Lampião, o bandoleiro nordestino conhecido como o “rei do cangaço”, no Brasil. Essas narrativas épicas, cantadas em feiras itinerantes, eram vendidas em folhetos onde poderia se acompanhar a letra, gravuras da estória e às vezes até mesmo a partitura da melodia.
É precisamente na forma de poesia de cordel que compus aqui uma versão da Odisseia, no ritmo chamado de “martelo agalopado”, com versos de onze sílabas. Reduzi os 24 cantos do poema original de Homero a estrofes de dez versos, com o bordão que sintetiza a trama da história: “Ulisses da guerra pra casa voltando/ enfrenta Neptuno na fúria do mar”. Este é um panorama da Odisseia, uma cantoria de quase 20 minutos, resumindo o que no cinema dura duas ou até três horas, como a recente produção do cineasta Christopher Nolan.
A versão também é mais curta que outros poemas e obras literárias que se inspiram ou parodiam a Odisseia de Homero, como os Cantos de Ezra Pound ou o Ulysses de James Joyce. Aliás, Joyce escreveu sua versão vanguardista da Odisseia em Zurique, na mesma época em que Lenine ali se encontrava exilado, em 1916, no contexto da Primeira Guerra Mundial. Sabe-se que Lenine morava na mesma rua do Cabaret Voltaire, a casa noturna criada por Hugo Ball para produzir happenings dadaístas que desafiavam a estética tradicional. E talvez Lenine e Joyce tenham até mesmo casualmente conversado algum dia sobre literatura, podendo o escritor irlandês ter comentado ao revolucionário russo sobre seu ambicioso projeto homérico moderno que começara a escrever ali em Zurique.
Tudo isso poderia ter acontecido, mas o facto é que em outubro de 1917, na Estação Finlândia, Lenine dava início à revolução que acabaria com a exploração dos trabalhadores pela burguesia ociosa – o início de uma grande odisseia da classe trabalhadora. Mas não se tratava de restaurar uma era gloriosa da monarquia anterior, senão de inaugurar um mundo inteiramente novo. Para isso mobilizou toda sua capacidade na elaboração de táticas e estratégias que permitissem construir um poder paralelo para confrontar o Estado, tomar o poder, acabar com a guerra e dividir as terras.
Em outras palavras, tratava-se de usar a força e a astúcia para acabar com o mundo que os senhores da guerra e da terra haviam criado. Homens como os que lutaram na guerra de Troia, que acabou vencida não apenas pela força, mas sobretudo pela estratégia de Ulisses, astúcia que Homero cantou em versos, propagando suas aventuras ao longo de séculos. Se Ulisses retomou o poder, isso não seria possível sem a ajuda de entidades divinas e humanas, como a do seu filho, a do rei dos Feácios, mas também da classe trabalhadora representada pelo porqueiro Eumeu e do vaqueiro que, armados a seu lado, enfrentam seus inimigos.
Aqui, deixo uma livre interpretação da “canção de luta” de Homero que deveria se propagar em canto acompanhada apenas do arpejo lírico. Usamos apenas gravuras de John Flaxman, um artista inglês romântico do final do século XVIII cuja obra foi publicada no contexto das guerras napoleónicas. Porque, afinal, toda adaptação de uma odisseia sempre reflete o presente sobre o passado clássico da humanidade, de onde surgem sempre novas interpretações.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”.
“Como é viver no município onde o Chega ganhou?” Esta é a pergunta que mais tenho ouvido no último ano, quase ex-aequo com “como é que o Chega ganhou Albufeira?”
Quero acreditar que a minha condição de desenraizado, alguém sem terra depois de se ter mudado de Lisboa para Albufeira há 9 anos, sem conseguir pertencer a nenhum dos locais, também eles desterritorializados, me permite ter uma visão mais clara da situação.
Estou igualmente distante do bairrismo local que se orgulha da sua própria destruição ao ser a capital do turismo, não apenas por discordar dessa valorização, como do Lisboa-centrismo que leva a interpretar o país à luz do que acontece na capital. Aliás, em jeito de piada costumo dizer aos meus amigos de Lisboa que brincam comigo por eu viver em terra de Chega, que ele estão pior, têm o Chega e o Moedas, um agente infiltrado.
Praticamente um ano depois da vitória de Rui Cristina em Albufeira e do seu partido em 3 das 4 freguesias, é já dolorosamente evidente que, tanto o presidente como o próprio CH operam na lógica de continuidade do PSD, acelerando, apesar de tudo, os efeitos colapsantes das suas políticas.
Muitos dos problemas de Albufeira já existiam antes de Rui Cristina assumir o cargo, mas a partir desse momento questões essenciais como a existência de passeios, iluminação pública, limpeza, recolha de lixo e gestão hídrica tornaram-se responsabilidade sua. Uma responsabilidade que escolheu, tal como os seus antecessores, ignorar, socorrendo-se do que aqui é louvado como a panaceia para todos os males: o turismo.
É para manter a indústria mais extractiva de todas que Albufeira se tem vindo a sacrificar desde o fim dos anos 70. Por si existe a cintilante Albufeira litoral, pintada de branco, todas as manhãs limpa e ordenada depois das noites turísticas cujo principal interesse é a alcoolização. Essa vitrina, incorpora spas, gastronomia tradicional portuguesa e um modus vivendi estilo Benidorm, consome implacavelmente todos os recursos, individuais e colectivos da outra Albufeira, a simultaneamente real e invisível.
Essa Albufeira, a dos que moram sem vista para o mar ou tempo para o visitar, que encontram todos os dias entulho e detritos junto ao contentor, que precisam de se deslocar de automóvel para fazer a reciclagem a mais de 1 km de distância, como também dele necessitam para tudo o resto, a menos que estejam dispostos a arriscar a vida de bicicleta nas estradas saturadas do verão, como eu e mais alguns loucos, é a Albufeira que acreditou nos cartazes que ostentavam a frase: “O Chega resolve.”
É importante ler o livro do Miguel Carvalho para perceber que o eleitorado do Chega não é necessariamente igual aos tipos abomináveis que se passeiam no parlamento como um fidalgo pela sua ganadaria no século XIX, e tentar compreender as razões pelas quais o partido de André persevera, embora as realidades locais e nacionais sejam distintas em alguns pontos.
Depois de acompanhar todos os debates, não fiquei surpreendido quando Cristina conquistou a câmara, pois numa prova cega, ele sairia certamente vencedor. Não por mérito próprio, mas por demérito dos oponentes, onde se contavam um candidato do PS sem retórica ou ideias que não a reprodução do insustentável estilo de vida vigente, sob cuja alçada, tanto Livre como BE se anularam numa coligação, a IL com o seu discurso de fetichismo thatcherista a promover o mercado livre como a igreja a terra prometida, um PSD estafado cuja melhor ideia que apresentou foi fazer um dinoparque igual ao da Lourinhã, e a ausência do PCP.
Cristina não é a explicação da sua própria vitória, não possui magnetismo pessoal, não é da terra ou tem o carisma de grande líder que uma certa facção portuguesa adora. A sua vitória deve-se ao que não parecia ser. Não parecia ser continuidade.
A sua vitória é explicada por uma conjugação de factores, alguns globais, outros específicos, sendo o mais importante deles a distância física e mental que serve de barreira entre o resto do país e o Algarve, equivalente a uma ZEE, Zona Económica Especial, estatuto extraordinário conferido às cidades sweatshops chinesas.
Explica-se também pela pouca oposição existente durante os executivos de José Carlos Rolo, Carlos Silva e Sousa e Desidério Silva, que reduziram durante mais de duas décadas, as suas acções à assembleia municipal e ao período de campanha eleitoral, contribuindo para o legítimo sentimento de abandono de uma população cada vez mais empobrecida, envelhecida e em busca da bala de prata que o neoliberalismo promete para todos os que se ajoelharem diante da sua divindade.
Cristina fez uma única promessa durante a campanha, a de não dar casas a ciganos, assim como Trump, no primeiro mandato, construiu a sua campanha sobre o muro na fronteira com o México. O discurso contra a comunidade cigana já era recorrente em Albufeira muito antes de ser o branding fundacional da extrema-direita nas televisões, e ninguém se coibia de o proferir, pelo que, Cristina veio institucionalizar a ideia de que os ciganos são o problema também em Albufeira e por sua culpa, não há casas onde morar, ainda que uma grande maioria viva nos dois acampamentos próximos da minha casa.
Embora não seja noticiado, todos os anos há vários pequenos incêndios florestais no perímetro em redor dos acampamentos ciganos e em várias ocasiões em que assisti à actuação dos bombeiros, a conclusão, tanto de civis como de bombeiros, é de culpabilização da comunidade cigana, mesmo sem provas. Recordo-me de ter ligado para os bombeiros há poucos meses para avisar de um incêndio e o primeiro comentário do outro lado foi: “Isso são os ciganos.”
Não é, portanto, surpreendente ter sido um bombeiro que afirma não perceber nada de política a vencer a freguesia de Albufeira e de Olhos de Água. Também não são surpreendentes as conversas que tive com um membro do executivo de Cristina, que afirmava não ter nada contra os ciganos, mas “isto é o que as pessoas querem ouvir”, insistia depois de eu tentar explicar que não podia estigmatizar toda uma comunidade para seu proveito político, ilustrando, involuntariamente, o populismo da forma mais exemplar possível.
Uma vez que os ciganos são pouco visíveis no quotidiano da cidade e raramente na zona litoral, foi necessário um bode expiatório com as costas mais largas, e eis que entram os imigrantes em cena.
Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita, ainda no executivo de José Carlos Rolo, o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”. A acusação contra os imigrantes ficou no ar e nos cartazes de Ventura, mas não nos de Cristina, talvez por ter compreendido rapidamente que, sem eles, todas as empresas voltariam a ter falta de mão de obra num nível de desespero tão grande, que, tanto a Sonae, como a Jerónimo Martins e o supermercado Apolónia faziam campanhas de recrutamento e ostentavam cartazes de oferta de emprego, o ano todo.
Os bots de André nas redes sociais trataram do resto e bastava estar em qualquer grupo de Facebook remotamente relacionado com Albufeira para assistir à regurgitação ad nauseam de comentários sobre o sentimento de insegurança, cujas razões o RASI veio desmentir, ao ver passar os grupos de “indianos”, apesar de nunca ter havido qualquer aumento de criminalidade relacionado, nem aqui, nem no resto do país.
Neste ponto em particular, o executivo anterior abriu caminho para a vitória do seu oponente mais à direita, primeiro por negar o aumento de criminalidade ao mesmo tempo que aumentava o policiamento e depois, ao permitir que seis autocarros descarregassem 300 nazis de fora da cidade para marcharem pelas ruas de Albufeira, em cânticos e erguendo tochas como se estivéssemos na Itália de Mussolini.
Aqui e em todo o lado – Israel prova-o –, se há cor que os racistas respeitam mais do que o branco da pele, é o verde do dinheiro, por isso basta considerar a questão étnica no âmbito da luta de classes para perceber que os grupos de homens imigrantes, a vaguear pelas ruas sozinhos por terem sido impedidos de trazer as famílias, assustavam por “não se enquadrarem”, mas os asiáticos donos das cadeias hoteleiras a passear em carros topo de gama estão tão bem inseridos como as comunidades inglesas que vivem numa bolha, qual reformado da Florida.
Essa é uma das ideias que me surge recorrentemente quando penso sobre esta zona: Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
A esmagadora maioria das pessoas locais entre os 25 e os 55 anos conseguem permanecer em Albufeira (e no Algarve) porque não têm de pagar renda, ou por terem herdado uma casa de família, terem recuperado uma ruína ou comprarem casas de aço ou madeira, dado que, muito antes de a gentrificação ser considerada um problema nacional por acontecer em Lisboa e no Porto, já o era no Algarve.
Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.
Os outros não só não encontram casas disponíveis como não conseguem pagar as que encontram, ou, nos raros casos em que tal é possível, deparam-se com a escolha entre sobreviver na precariedade do turismo ou arriscar na criação do próprio emprego numa zona onde se promove sol, noite e mar, mas quando a festa é permanente, é mera encenação a cobrir o vazio.
Quando a única coisa que há para oferecer é isso (ao contrário de Lisboa, onde existe oferta cultural), o consumo segue a lei da oferta e da procura, mudando-se para onde o preço for mais baixo, sejam as Balcãs, o Norte de África ou Espanha, revelando a bolha que é o turismo.
Uma vez rebentada a bolha, Albufeira entra em desespero, como aconteceu na grande crise de 2008 e está a acontecer agora, com taxas de ocupação em Julho na casa dos 30% e o pânico instalado dado a noite da Rua da Oura estar abaixo do esperado.
Mesmo dentro dos trâmites da arquitectura predatória turística, Cristina está em modo de implosão, como seria expectável de um partido composto essencialmente por refugo do PSD.
Além de atingir Albufeira no seu orgulhoso centro, o turismo, o executivo de Cristina tem vindo a devastar as poucas efemérides que restavam orientadas para os residentes e não para os visitantes. São exemplos disso o fim do mercado quinzenal e da Festa de Natal, no ano passado reduzida a uma tenda com um ringue de patinagem.
Em seu lugar recebe-se um concurso de street food do melhor hambúrguer, confirmando mais do que o apagamento dos resquícios da identidade de Albufeira, aqui sim, a sua Grande Substituição por paródias malparidas de modelos anglo-saxónicos.
O culminar dos constantes tiros no pé de Cristina, como aconteceu em Mora, onde o Chega ganhou, materializa-se na grotesca farsa de transformar a festa do Dia do Município, habitualmente na praia dos Pescadores com presença da comunidade e animação em palco, num provinciano espectáculo de luz projectada na fachada da autarquia.
Faz sentido para uma autarquia que é apenas fachada, onde a gramática do medo assenta menos em o Outro vir tomar o lugar dos que cá estão, uma vez que existem mais lugares do que ocupantes, do que em o Outro não vir tomar o lugar que lhe é reservado com reverência. Cristina, qual Salazar sulista com toques de KKK em modo messias, enquanto, tal como Cavaco e Montenegro, roga que o deixem trabalhar, faz ajustes directos no valor de 239 mil euros a uma empresa apoiante do CH (ver revista Sábado), contrata a irmã sem concurso público (ver jornal Público), descapitaliza o Imortal até ao ponto de ameaçar as equipas profissionais de um clube que foi campeão sub-18 há um ano. Numa autarquia onde a cultura se resume a comer, beber e servir, o desporto assume um papel de inserção social tão importante como em bairros problemáticos, embora os desertos sejam diferentes.
Entretanto, com temperaturas acima dos 30 graus há várias semanas, a população a decaduplicar durante o verão e as canibalizantes culturas de regadio de alta intensidade, como o abacate e a laranja, cuja figura de proa é Macário Correia, eleito presidente da Assembleia Municipal de Faro com o apoio do Chega, Cristina manifesta-se contra a dessalinizadora. Desta forma, a direita coopta a pouca resistência ambiental existente, deixando os deserdados da esquerda e dos movimentos populares num beco sem saída entre o silêncio e o alinhar de interesses com o Chega.
Os motivos de Cristina, é claro, são menos do que puros e procuram defender, não o ambiente, mas a hotelaria junto da praia da Falésia, que receberá as descargas de água com metais pesados provenientes do processo da dessalinizadora, resultando na destruição da que é considerada uma das mais belas praias da Europa e de todo o seu turismo.
O deprimente é que Cristina foi o político mais activo contra a dessalinizadora e tem razão sobre a sua futilidade. Não por as barragens estarem cheias, mas porque colmatará apenas as perdas de água de rebentamento de condutas e beneficiará, não a população, mas os abacateiros de Macário e a hotelaria.
Doze meses depois de Rui Cristina, que, nas poucas vezes em que aparece nas ruas rodeado de seguranças, é para tiktoks ou fotografias, ter tomado posse, alguns dos apoiantes começam a ser seus críticos, atestando que deixar o Chega autodestruir-se poderá ser a via mais rápida para nos livrarmos dele.
A questão é se sobreviveremos ao processo.
Perante a ameaça de greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar, o presidente do INEM recua nas medidas nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis
Perante a ameaça de greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar, o presidente do INEM recua nas medidas nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.

Estava em marcha a maior redução de sempre do dispositivo do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). O Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM) perderia, de uma só vez, 100 ambulâncias: 56 ambulâncias próprias do INEM seriam destinadas a transferências inter-hospitalares e outras 46 ambulâncias de suporte imediato de vida (SIV) seriam convertidas em veículos ligeiros (carros), perdendo a capacidade de transportar doentes.
Os riscos eram evidentes: menos ambulâncias iriam significar um aumento dos tempos de resposta, uma redução dos cuidados diferenciados e, em última instância, a perda de vidas.
Este colapso anunciado promoveria a criação de condições para a entrada de privados no SIEM.
Perante um caderno reivindicativo destinado exclusivamente a proteger e reforçar a resposta que o INEM presta aos cidadãos, o Governo não tinha como justificar a rejeição das propostas apresentadas.
O processo negocial, concluído em 17 dias, resultou num acordo que representa o recuo nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.
Ficou ainda definido que a transformação das ambulâncias SIV em veículos ligeiros, contestada pelo STEPH, sem vantagens apresentadas por Luís Cabral, e que ia reduzir a capacidade de transporte de doentes, avançará apenas através de um projeto-piloto, sendo que, em simultâneo, será criada, no mesmo local, uma nova ambulância, compensando esta perda da capacidade de transporte de doentes.
Este acordo permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica.
O acordo prevê também o reforço dos recursos humanos. O concurso anunciado para a contratação de 150 técnicos de emergência pré-hospitalar (TEPH) será aumentado para 200 vagas, distribuídas pelas quatro regiões do País. Está igualmente previsto o alargamento da formação de TEPH às ambulâncias dos parceiros do INEM, nomeadamente dos bombeiros e da Cruz Vermelha Portuguesa, possibilitando assim que estas entidades tenham também profissionais de saúde tão qualificados quanto o INEM.
Este acordo representa um recuo face às medidas anunciadas pelo presidente do INEM e permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica. Representa uma desautorização do Governo ao presidente Luís Cabral, que vê assim mais um conjunto de medidas e decisões suprimidas pela razão.
Foi um bom acordo para o INEM, mas, sobretudo, para o País e para os cidadãos.
Foi uma vitória dos técnicos de emergência pré-hospitalar, que se recusam a compactuar com o desmantelamento do INEM e da Emergência Médica.
É um dia histórico para o País, protagonizado pelos trabalhadores que salvam vidas diariamente e que agora assumiram também um papel decisivo na definição das políticas de emergência médica.
Iniciar-se-á a 25 deste mês de Setembro a apreciação parlamentar da lei orgânica do INEM, que representa também ameaças ao sistema. Existe um amplo consenso quanto a estas ameaças e a sua revogação apresenta-se cada vez mais como uma inevitabilidade.
Os trabalhadores do INEM permanecerão atentos e interventivos como sempre nas garantias de que as mudanças servirão o INEM, a emergência médica e os cidadãos. Não toleraremos destruição ou retrocessos e o País sabe que pode contar connosco.
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, otimização é um nome feminino que designa 1) ato ou efeito de otimizar; 2) reestruturação efetuada com o objetivo de obter o maior rendimento possível; 3) determinação, no estudo de um problema, da solução que, de entre todas as soluções possíveis, conduza
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, otimização é um nome feminino que designa 1) ato ou efeito de otimizar; 2) reestruturação efetuada com o objetivo de obter o maior rendimento possível; 3) determinação, no estudo de um problema, da solução que, de entre todas as soluções possíveis, conduza aos resultados mais satisfatórios.
EM NOVILÍNGUA:
Se perguntarmos ao Google, este, usando a IA, diz-nos que a definição básica de otimização significa reestruturar ou ajustar variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível. Usando a nossa própria inteligência, numa simples ida ao supermercado, podemos ver como se “reestruturam ou ajustam variáveis para obter o maior rendimento ou o melhor resultado possível”: a variável “emprego” nas caixas foi “reestruturada” para obter o “maior rendimento ou o melhor resultado possível” (para os patrões): os clientes são agora “convidados” a fazer o trabalho dos e das operadoras de caixa que foram, entretanto, despedidos. Ou então fazem fila pacientemente por vezes na única caixa aberta operada por um empregado. ASP
Sai agosto, entra setembro. E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise, regressa a penates.
Agosto é um mês que me irrita, desde que não o passo no meio dos montes ou na cidade do Porto.
Eu adorava ficar na cidade em agosto, porque estavam os amigos que viviam fora, de férias e cheios de tempo.
O Porto serenava, tinha uma onda diferente do resto do ano.
Na Beira Alta não me apercebia da turba, a não ser numa festa ou outra.
Juntávamos o grupo de urbanitas que desciam ao povoado vindos como bandos de pardais.
Este ano a Costa Nova estava a rebentar pelas costuras, apesar da quebra no consumo. A lancheira ganhou aos bares e restaurantes, cujo preço é incomportável para uma família.
Começaram por cortar nas entradas e nas saídas, as sobremesas. Depois dividiam um prato, uma água e até um café.
Os restaurantes mais caros, a dita pancada alta, sempre cheios a baterem certo com o luxuoso parque automóvel.
Há qualquer coisa que não bate certo, porque nunca vi, a não ser no tempo dos yuppies, tanto carro de luxo. Ferrari para aqui, Aston Martin para ali, Maseratis lindos.
E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise.
Aqui em Aveiro diz-se que quem não rema, já remou, o que é certinho como o Big Ben.
Agosto descarna todas estas idiossincrasias que me fazem pele de galinha.
Uns cospem para o chão, outros ameaçam de pancadaria por um lugar de estacionamento, a tatuagem suada numa camisola de mangas cavas, o gelado a ser lambido por um piercing na ponta da língua...
E eu sempre a dizer a mim que não tinha fumado nada, que não tinha engolido nadinha, que tudo é real, que tenho de aguentar, o ai aguenta, aguenta do outro pedante, até setembro.
E aguentei.
Hoje vai tocar a corneta.
A partir de amanhã, como dizia a nossa Sophia de Mello Breyner, vai-se notar mais aristocracia de comportamento, que era o seu grande objetivo com o socialismo, um sentido de solidariedade, de igualdade, de fraternidade.
Os mais humildes são quase sempre os mais nobres.
Todos os anos, nas freguesias da ilha Terceira, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?”

Deve haver poucas coisas de que goste ou desgoste tanto como uma boa e uma má peça de teatro. Colam-se ao corpo o belo, o sublime, a criação, e o torpe, o bizarro e o constrangimento. No tempo de Shakespeare o teatro era popular, durava com frequência cinco horas, e as pessoas conversavam, comiam, pateavam, aplaudiam, bebiam e riam no meio da peça.
Leva-me a imaginação para cinco horas de uma peça, cinco horas sentados, sem respirar (tossir é ainda mais grave), conceptual, sem narrativa, com atores tão dramáticos que exageram o exagero e que o encenador acha que para ver as entranhas é preciso mostrá-las.
O que mudou de Shakespeare até hoje? Ouço tantos atores queixarem-se do público, creio que não sabem, ou já deixaram de saber, que só quando todos fizermos teatro haverá públicos para teatro. Foi mais ou menos isso que encontrei na ilha Terceira. E não me tomem por defensora dessa ideia de que só o que é lúdico e alegre é tolerável. Em rigor, uma boa peça de teatro, dramática, intensa, profunda, só pode ser boa quando amplas camadas da população fazem teatro, é esse o meu argumento, e que remete para uma ideia que não é minha, mas de um senhor barbudo, desconhecido por tantos, chamado Karl Marx: no capitalismo dá-se a separação entre produtores e consumidores; nem todos seremos grandes atores, mas todos iremos gostar de teatro se todos fizermos teatro ou, como disse Boal, o teatro é tão importante que até deve ser feito por atores.
Recordo de memória um testemunho do Zeca, já amado pelas massas, em que ele dizia que agora tinha muito público, mas do que ele gostava mesmo era de cantar com as pessoas e não para as pessoas.
Fui àquela que foi, com certeza, a festa mais deslumbrante onde alguma vez estive na vida – e olhem que conheço algumas festas populares nos Alpes e nos Pirenéus, refúgios de cultura que a orografia, a vida camponesa e os subsídios agrícolas preservaram. A festa foi o Carnaval da Ilha Terceira. Uma ilha em que todos fazem teatro. Uma ilha que mudou a relação entre produtores e consumidores, e o sentido do trabalho e, por isso, da cultura.
Não imaginava que pudesse estar sete horas a assistir a teatro sem debandar ou atirar tomates ao palco. Mas estive, e durante três dias, sete horas num dia, cinco no outro. Espero convencer-vos de que não exagero nas palavras. Tudo o que morreu em quase toda a parte do mundo ali mantém-se vivo, como semente de um futuro porvir. Na Terceira quem produz é quem consome, os que escutam música são músicos, os espectadores também fazem teatro, a cultura é de todos. Por razões que não estão totalmente claras – apesar de muitos terem estudado, e bem, o fenómeno –, o Carnaval como sempre foi, teatro popular (não teatro para o povo), ali mantém-se.
Todos os anos, nas freguesias da ilha, mais de 50 grupos de “bailinhos” auto-organizados, andam de freguesia em freguesia, de sexta a terça de Carnaval, mais de 1500 músicos e atores. Em geral, começam por um grupo de amigos, pelas alturas do Natal. Um diz: “Este ano tiramos um bailinho?” Vão ter com poetas locais – alguns escritores maiores formados em anos desta façanha que é ser humano – e contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA, da falta de dinheiro e dos esquemas para o conseguir, das vaquinhas e das touradas, do amor, da morte, da vida. Nada de humano lhes é estranho. Reconhecimento e representação, duas palavras-chave para entender a subjetividade e a política. Depois, a eles juntam-se um dos mais de 30 grupos musicais das filarmónicas que, agora com o roubo da IA e dos direitos de autor pelas big techs e afins, voltaram a compor mais músicas originais. Pede-se às costureiras para fazerem os fatos, em geral pomposos e brilhantes, e por elas desenhados. Também aqui quem faz pensa. Ensaia-se durante os dias frios de janeiro, nas sedes das sociedades recreativas, casas do povo, dezenas destes lugares e, se necessário, garagens, com batata-doce e alfaias agrícolas ao lado de cervejas e alcatra fumegante. Há grupos de homens, mulheres, mistos, jovens e velhos, lavradores, cabeleireiras, biólogos, mecânicos, professores, polícias, enfermeiros, lavradores, cientistas, um encontro democrático, igualitário.
Contam uma história, em verso, que fala de Trump e do Governo regional, da amante do padeiro e do pão de má qualidade do vizinho, da casa de prostituição e do casamento, da imigração e do retorno, da TAP e da SATA…
Geralmente cada peça dura entre 25 e 40 minutos. Quando chega o dia, cada grupo de bailinhos, em geral 20 a 30 pessoas, vai de freguesia em freguesia apresentar no palco da sociedade filarmónica, recreativa, casa do povo, dos lavradores, o seu bailinho. Não há dinheiro, ninguém paga para fazer, entrar, assistir e participar.
É muito difícil explicar a todos, mas sobretudo aos atores, que o problema do teatro não está no público. Nem o problema dos escritores ou dos músicos está nos leitores e nos ouvintes. O problema está nesta divisão entre produtores e consumidores, entrem quem pensa e quem faz.
O sociólogo Richard Sennett defende que a democracia não se encontra numa cidade em que cada um respeita a cultura do outro, essencializada (visão kantiana e multiculturalista), mas na existência de espaços – como não elogiar as sociedades filarmónicas, o sentar à mesma mesa e conviver, os bailes? – onde vivemos e convivemos com quem é diferente (universalismo concreto). Uma cidade sem muros nem ameias foi o que encontrei no Carnaval da Terceira.
A classificação eventual do Carnaval da Terceira como património imaterial da humanidade reconhece a importância desta cultura, desta gente, desta arte, mas paradoxalmente pode impor-lhe limites e uma arquitetura que põe em causa essa mesma espontaneidade, essa relação entre trabalho e cultura, essa autonomia, que faz este carnaval. Caberá aos que fazem teatro pensar sobre este desafio.
*Este artigo foi realizado no âmbito da residência da historiadora Raquel Varela na 1ª edição do Monte Brasil – Festival Internacional de Literatura e História de Angra do Heroísmo. Associação Dois Caminhos/Lar Doce Livro.
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