O Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha (CCC) convida as pessoas imigrantes, residentes em Caldas da Rainha, a integrarem um novo projeto artístico e comunitário, de teatro-dança e canto colectivo.
13 de novembro
Caldas da Rainha
Inscrições para projecto artístico participativo O Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha (CCC) convida as pessoas imigrantes, residentes em Caldas da Rainha, a integrarem um novo projeto artístico e comunitário, de teatro-dança e canto colectivo. 13 de novembro Caldas da Rainha
O Space Festival pretende explorar novas formas de produzir e divulgar a música experimental e improvisada em Portugal, ao promover o acesso a projetos artísticos consolidados e emergentes fora dos grandes centros urbanos 4 a 15 de novembro Paredes de Coura, Caminha, Valença, Arcos de Valdevez, Mondim de Basto, Montemor-
O Space Festival pretende explorar novas formas de produzir e divulgar a música experimental e improvisada em Portugal, ao promover o acesso a projetos artísticos consolidados e emergentes fora dos grandes centros urbanos
4 a 15 de novembro
Paredes de Coura, Caminha, Valença, Arcos de Valdevez, Mondim de Basto, Montemor-o-Velho
Festival de Cinema Português 7 a 16 de novembro Barreiro
Nesta criação com a Companhia Maior, Victor Hugo Pontes segue uma via eminentemente física, inspirado pelo potencial do corpo que já viveu muito tempo – um contraponto com a sua experiência prévia de trabalhar com adolescentes. Se na pujança da juventude interfere a falta de experiência e autodomínio, na idade maior
Nesta criação com a Companhia Maior, Victor Hugo Pontes segue uma via eminentemente física, inspirado pelo potencial do corpo que já viveu muito tempo – um contraponto com a sua experiência prévia de trabalhar com adolescentes. Se na pujança da juventude interfere a falta de experiência e autodomínio, na idade maior as limitações são resolvidas com a experiência de palco.
13 de novembro
Theatro Circo, Braga
Mostra de cinema insubmisso 6 a 8 de novembro Sala Estúdio Perpétuo, Porto
Recordar Adriano, cantar contra a guerra. Concerto de 39º aniversário da Associação José Afonso 21 novembro, 17h00 Fórum Lisboa

24 de Outubro de 2026, sede do SNPVAC Resolução Considerando que: * a população trabalhadora e jovem vive uma situação insuportável, causada pelos baixos salários, pela impossibilidade de aquisição ou arrendamento de habitação resultante do império da especulação imobiliária — na qual estão pesadamente implicados os membros do governo e deputados da
Considerando que:
os sindicalistas, trabalhadores e jovens reunidos em encontro nacional da Plataforma Unitária de Sindicatos decidem:
Não aceitamos o caminho da miséria e da guerra! A mobilização fraterna da juventude e dos trabalhadores dos países europeus e de todo o mundo pode e deve pôr fim à caminhada para o abismo económico, social e ecológico.
*Estiveram representados no encontro os seguintes sindicatos: SNPVAC (aviação), SITEU (enfermeiros), S.TO.P (profissionais da educação), STCC (call centres), STGSSP (grandes superfícies), STASA (indústria automóvel), Sindicato dos Estudantes e os movimentos sociais Solidários e Rede Ecossocialista, tendo participado individualmente sindicalistas de vários outros sindicatos. Estiveram presentes como observadores representantes da associação Habitação Hoje.
Os episódios sucedem-se e são invariavelmente com pessoas em situação de fragilidade perante um poder cuja natureza tem sido a do abuso.
Continuamos a falar da violência policial como se não fosse normativa em vez de excepcional, com a particularidade de os alvos serem frequentemente os invisíveis.
Os episódios sucedem-se e são invariavelmente com pessoas em situação de fragilidade perante um poder cuja natureza tem sido a do abuso, uma vez que manter a ordem perante um mundo desordenado apenas poderia resultar em violência, sobretudo quando essa parece ser cada vez mais a única ferramenta disponível para as forças policiais.
Odair Moniz, Cláudia Santos, o episódio da esquadra do Rato, a morte de um cidadão marroquino em Olhão, os episódios frequentes na esquadra de Alfragide são os que estão frescos na nossa memória e aqueles que tiveram atenção mediática. A excelente investigação do podcast Fumaça sobre violência policial (https://fronteiradomedo.pt/) oferece uma perspectiva mais profunda, preocupante e que não é episódica, mas classista com expressões racistas e xenófobas.
Os espancamentos dos manifestantes pelo direito à habitação na Praça D. João I às 3 horas da manhã foram justificados pela PSP, neste como na maioria dos casos, como resposta à provocação de um pequeno grupo. Não sabemos qual a provocação, mas sabemos, porque é habitual, que qualquer exigência de um direito é considerada provocação no momento presente. Além de apelidado como egoísmo pelo mesmo primeiro-ministro que nos aconselha a mentalidade Ronaldo como solução. Pois aqui estamos.
É assim em Paris, em Madrid e em Portugal.
Nem a estratégia nem o resultado são novos.
Na era cavaquista – e Montenegro tem vindo a reproduzi-la, traduzindo a austeridade em autoritarismo – era frequente as manifestações terminarem em cargas policiais, sob o mesmo pretexto, o da provocação, da desordem e dos desacatos, invariavelmente com uma gritante desproporcionalidade de resposta perante pessoas desarmadas.
Dois dos pressupostos teóricos essenciais para a manutenção da democracia, cada vez mais representação do que representativa, têm vindo a ser sistematicamente corrompidos e a situação do Porto ilustra-o na perfeição.
A atitude totalitária, misto de laxismo e cesarismo de Pedro Duarte – análoga à de Montenegro e Moedas – ao declarar que seria implacável com os manifestantes, e a consequente brutalidade da polícia, devem no mínimo levantar suspeitas sobre a idoneidade da conduta de ambos os intervenientes e sobre a violação da separação dos poderes judicial e executivo.
O outro pressuposto é simplesmente o da igualdade.
Onde está a carga policial, a crítica política ou a aplicação musculada da lei quando a extrema-direita incorre em ilegalidades como a invasão de rádios, manifestações do grupúsculo 1143 ou simulações de assaltos?
Essa duplicidade de critérios assenta na polícia como ferramenta para reprimir protestos resultantes do colapso económico. Thatcher fê-lo frequentemente para impedir as greves dos mineiros precisamente no momento em que o neoliberalismo se começava a apoderar dos mecanismos democráticos, acelerando a sua necrose.
Essa cooptação das instituições, primeiro via promiscuidade económica, e depois asfixia, começa agora a ter inegáveis efeitos no nosso quotidiano individual, não apenas de forma puramente económica, mas na forma como isso impacta as relações de poder.
A crise da habitação é apenas a face mais visível do estado natural de crise variável do metacapitalismo, com vários outros picos simultâneos, como o custo de vida, a falência do SNS e do ensino, e esse carácter multifactorial eleva-a de crise para um ataque com várias frentes.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver
Se em 2008 a descodificação da situação era bastante mais clara, podendo resumir-se o problema ao resgate dos bancos associado à degradação das nossas condições de vida, agora o catálogo de bodes expiatórios permite ao Governo desviar o foco da estrutura para a conjuntura, culpando populistas como Trump e as suas réplicas e as guerras, remetendo-se para uma posição de incapacidade.
O ridículo desta emergência é estarmos reduzidos ao grau zero das exigências a uma democracia esvaziada orientada no sentido ascendente, funcionando como facilitadora e porta giratória para o mundo corporativo. A crescente e permanente ausência de Estado, sobretudo nas zonas periféricas, em situações de calamidade como a do comboio de tempestades ou na simples gestão da tríade saúde/educação/habitação, demonstra como as instituições públicas nos defendem apenas quando coagidas, mas sobretudo como a nossa capacidade de organização para lá das suas fronteiras as pode substituir com mais sucesso e celeridade.
A confirmação inequívoca da real ameaça ao poder político que o poder popular constitui é a mudança do discurso de Pedro Duarte e de Montenegro, trocando ameaças por vontade de negociar.
Nessa negociação reside a armadilha. As cedências serão feitas na exacta medida do necessário para desmobilizar pessoas suficientes para fragilizar os protestos, caracterizando-os novamente como prototerrorismo e estancando o descontentamento dos restos de uma classe média que acredita na sua restauração até à agudização seguinte, continuando a perda de direitos num mundo cujo progresso económico tem sido à custa do retrocesso social.
Não há maior evidência do desequilíbrio da relação de poderes do que na atitude institucional face à ocupação dos espaços públicos por manifestantes a exigir apenas o cumprimento das promessas, não de Abril, mas da democracia liberal, voluntariando-se para reunir os fragmentos desse sonho, reprimindo-os política e policialmente.
Simultaneamente, essas mesmas forças colocam-se voluntariamente na dependência das elites económicas que ocupam ilegal e permanentemente os espaços públicos de acesso às praias em locais como a Comporta e a Arrábida ou na destruição total de Covas do Barroso.
Tudo isto acontece num cenário rentista, extractivo, onde as gerações mais novas vivem pior do que os seus pais, apesar do alardear constante da boa saúde da economia, sem qualquer tradução nas nossas vidas, as dos seus deserdados.
A revolta é a prova de que estamos vivos por estarmos fartos de apenas sobreviver.
Ainda somos os 99%.
A autora, socióloga curda iraniana, defende que os opositores da agressão dos EUA e de Israel ao Irão devem ir além do “campismo”, ou não conseguiremos reconstruir uma esquerda genuinamente emancipadora nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular.
Uma traição às memórias do Sul Global
Desde a contra-revolução islâmica contra a verdadeira revolução de 1979, parte da esquerda nacional e internacional passou a subordinar a análise de classe e género à sua interpretação unilateral do anti-imperialismo. Os protestos das mulheres contra o uso obrigatório do véu, por exemplo, foram marginalizados, contribuindo inadvertidamente para a consolidação da ordem religiosa e patriarcal, que passou a ser apresentada como garantia de “autenticidade cultural”, sinal distintivo em relação ao Ocidente e marcador de independência nacional. Foi tomando forma uma narrativa dominante que vê a Revolução Iraniana exclusivamente pelo prisma anti-ocidental, assim apagando as forças laicas, feministas, queer, curdas, socialistas e outras forças progressistas. Esta ideologia é estruturalmente incapaz de reconhecer a legitimidade de lutas internas em Estados anti-ocidentais. Povos não ocidentais são reconhecidos unicamente como objecto do imperialismo ocidental; a experiência vivida, a memória colectiva e as subjectividades políticas de grupos subalternos — mulheres/comunidades queer, minorias étnicas e as classes populares — são sistematicamente depreciadas como distracções insignificantes ou invenções do Ocidente.
Após o colapso da URSS, em 1991, esta orientação subsistiu na forma de um terceiro-mundismo estatista: transferiu-se a lealdade às populações para a lealdade a Estados “anti-americanos”, subordinando-se os direitos das mulheres, das pessoas queer e das minorias à “unidade anti-imperialista”. Esta perspectiva, simultaneamente eurocêntrica e orientalista, ignora a subjectividade dos povos não ocidentais. Só leva a sério a violência que emana do campo dos EUA e recusa-se a reconhecer que as populações do Sul Global possam lutar genuinamente por direitos e liberdades democráticos.
A “unidade anti-colonial” transforma-se assim em autoritarismo nacionalista. E aceita a lógica de um “estado de emergência” aparentemente permanente: dá-se prioridade ao poder do Estado, à segurança e à influência geopolítica (por exemplo: “Lutamos na Síria para não termos de lutar em Teerão”).
O campismo transforma a memória anticolonial num instrumento de legitimação de Estados pós-coloniais autoritários. Faz do Estado o agente da resistência e priva os povos tanto da sua legitimidade como da sua subjectividade política. Trai, deste modo, memórias subalternas que tantas vezes se constituíram contra o próprio Estado. Paradoxalmente, Estados como o Irão são apresentados como “independentes do capitalismo global”, quando eles não deixam de ser máquinas de exploração interna e de militarismo, exactamente preocupadas em integrar-se no capitalismo global e em competir com outros Estados nesse palco.
É exactamente na sua relação com as margens colonizadas do Irão que esta lógica revela com máxima clareza a sua violência. O campismo não se limita a apagar a pluralidade das forças de oposição iranianas. Enraizado numa concepção quase colonial e securitária da soberania e das fronteiras, reproduz também hierarquias internas, relegando para segundo plano ou mesmo desqualificando as lutas étnicas curdas e de outros povos não persas. A este respeito, desde a jihad de 1980 contra o Curdistão até aos mais de 100 ataques recentes a partidos curdos iranianos exilados no Curdistão iraquiano durante a guerra, os campistas têm-se amiúde mostrado ainda mais hostis aos curdos do que o próprio governo iraniano, minimizando ou marginalizando a legitimidade da sua resistência.
Estas violências fazem parte de uma história mais antiga, agravada pelo apoio activo — ou pelo silêncio — de alguns actores do mundo árabe e de alguns segmentos da esquerda. O genocídio de Al-Anfal, levado a cabo por Saddam Hussein durante a Guerra Irão-Iraque, que custou a vida a cerca de 180 mil curdos simplesmente por causa da sua identidade, ilustra esta dinâmica. Ao trauma da repressão assassina acrescentou-se o apoio de parte do mundo árabe e a negação do genocídio por parte de intelectuais.
Mais recentemente, em 2018, a ocupação de Afrin, no Rojava, pelo Exército turco foi acompanhada de violência, expulsão e destruição sistemáticas. Em resposta, o chefe do Hamas, Khaled Mashaal, afirmou: “A vitória em Afrin é um símbolo da vontade da Turquia. Se Deus quiser, apresentaremos grandes epopeias em ajuda ao nosso povo”, antes de passar a elogiar a direcção do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan e do seu partido, o Partido da Justiça e Desenvolvimento, no poder há mais de vinte anos.
Estes acontecimentos produziram, infelizmente, uma ruptura duradoura nos laços entre as lutas curdas e as do mundo árabe ou persa, bem como com certas partes da autoproclamada esquerda anti-imperialista, que tantas vezes evitou reconhecer e apoiar a luta curda.
A recente guerra contra o Irão não apareceu de repente; foi longamente preparada por um regime de sanções que funciona como uma tecnologia imperial de produção de vulnerabilidade social, como já se tinha demonstrado no Iraque. As sanções não se limitaram a empobrecer a população, alimentar a inflação, corroer os cuidados de saúde e o emprego e enfraquecer as capacidades colectivas de resistência; ajudaram, também, a gerar condições favoráveis para a escalada militar. Confinando o país a uma economia eternamente sitiada, normalizaram o estado de excepção, consolidaram os aparelhos rentistas e securitários do Estado e passaram os custos da crise para cima das classes populares. Ao fazê-lo, prepararam o terreno tanto material como ideológico para a guerra: uma sociedade exausta, fragmentada e reduzida à luta pela sobrevivência fica mais exposta a projectos de militarização externos. As sanções mostram, assim, o que realmente são: não uma alternativa à guerra, mas uma das suas formas preparatórias.
No entanto, se bem que reais e devastadoras, as sanções não são, por si só, responsáveis pelas condições de vida indignas num país rico em recursos como o Irão. Contra as leituras “campistas” que reduzem todas as formas de desigualdade social no Irão às sanções ocidentais, a análise também deve enfrentar a economia política do próprio Irão: uma ordem capitalista marcada por uma privatização dura, precariedade laboral generalizada — a informação disponível indica que mais de 90 por cento dos contratos são temporários — e um regime de dominação e privação organizado internamente, sustentado em parte na exploração extrema e na expropriação de trabalhadores racializados e indocumentados, especialmente afegãos e baloches. Para os campistas, os protestos populares no Irão são interpretados como descontentamento económico, causado inteiramente pelas sanções, obscurecendo, assim, o papel central das políticas do próprio Estado. Uma consequência desta lógica campista é que, ao minimizar a dinâmica real da oposição interna à República Islâmica, ela estabelece uma falsa equivalência, assente na transviada noção de que tal “descontentamento económico” está em consonância com o projecto reaccionário pahlavista de mudança de regime por cima. Ao contrário do que afirmam os campistas, opor-se à mudança pró-imperialista de regime não passa por rejeitar ou deslegitimar a revolta interna contra a República Islâmica.
Não se pode atribuir a pobreza generalizada no Irão unicamente às sanções; ela mergulha igualmente raízes numa economia política rentista e na monopolização das importações, ambas instrumentalizadas pela República Islâmica. As suas políticas de segurança e regionais não são simplesmente reacções à pressão externa. Pelo contrário: tais políticas são parte integrante da lógica de sobrevivência do Estado, canalizando recursos para instituições coercivas e projectos ideológico-militares, enquanto a população fica exausta e empobrecida. Como argumenta Kayhan Valadbaigi, as sanções ajudam a intensificar a concentração de riqueza na oligarquia, consolidando as estruturas de poder. Passam os custos para cima dos mais vulneráveis, justificam a repressão e enriquecem ainda mais a oligarquia. As políticas de choque económico — flutuações para o dólar, eliminação da taxa de câmbio preferencial — apresentam-se como medidas calculadas de “sobrevivência” num contexto de vulnerabilidade.
Além disso, os campistas apagam a violência da República Islâmica contra o povo. Assassinatos, tortura, execuções, disparos sobre feridos em hospitais e ataques a cerimónias fúnebres são ignorados ou negados e, assim, legitimados. Apoiando uma teocracia autoritária e anti-imperialista, esvazia-se a linguagem da emancipação de todo o conteúdo real.
A propagação do campismo autoritário faz-se em grande parte pelas redes sociais. Aí, a legitimação de Estados autoritários entrelaça-se com um anti-ocidentalismo redutor e, em alguns casos, com anti-semitismo e padrões de pensamento conspirativos.
Apesar das assimetrias objectivas entre Israel (apoiado pelo Ocidente) e a República Islâmica (sob sanções ocidentais), mecanismos políticos e simbólicos semelhantes operam para ambos: bandeiras dos EUA e de Israel em certos comícios “pró-Irão”; bandeiras do Estado iraniano (ou da República Islâmica) e retratos de Ali Khamenei em algumas mobilizações pró-palestinianas. Todos estes gestos são susceptíveis de transformação de lutas legítimas em justificações para a violência, ao mesmo tempo que desacreditam tanto a resistência iraniana como a palestiniana. A mesma lógica se aplica à agora famosa palavra de ordem “Mulher, Vida, Liberdade” (Jin, Jiyan, Azadî). Apropriada pela extrema-direita ocidental, pela extrema-direita iraniana na diáspora e por correntes pró-genocídio, tem sido instrumentalizada para apoiar a violência militarizada.
Esta lógica não é específica ao Irão. Como David Brophy argumentou em relação ao Xinjiang, há partes da esquerda internacional que têm tratado a repressão dos uigures e de outros povos muçulmanos menos como uma questão de direitos nacionais e violência estatal do que como um problema de propaganda, financiamento ou manipulação geopolítica ocidental; no caso de Vijay Prashad e Tings Chak, esta postura desculpabilizadora chegou ao ponto de se basear em fontes fabricadas, aparentemente geradas por IA. Mas a instrumentalização cínica dos direitos humanos pelos Estados ocidentais não torna menos real o sofrimento a que tal linguagem se reporta.
Sabemos perfeitamente como movimentos progressistas e radicais do Sul Global muitas vezes acabam apropriados pela direita, uma vez divulgados no Ocidente. Mas esse processo não nos pode fazer abandonar o dever de solidariedade. O caso do movimento queer ilustra-o bem: o “branqueamento cor-de-rosa” por Estados como Israel não anula nem a força emancipatória da queerness nem a necessidade de solidariedade com queers que enfrentem repressão seja em que contexto for. A legitimidade de uma resistência depende unicamente do seu conteúdo emancipatório e da sua implantação entre os oprimidos, nunca da sua apropriação.
O campismo contribui de formas muito concretas para a perpetuação de injustiças históricas e contemporâneas. Pela dispersão e fragmentação cria um vácuo político, que é gradualmente preenchido pela direita e pela extrema-direita, tanto na região como em todo o mundo. A extrema-direita iraniana na diáspora ocupa este vácuo, simplificando a revolução e diabolizando o “anti-imperialismo”. Pode, deste modo, apresentar-se como única força de mudança. Homogeneizando artificialmente populações inteiras (“Todos os ucranianos que resistem à Rússia são nazis.” “Todos os revolucionários sírios são jihadistas.” “Todos os iranianos que se revoltam apoiam Israel ou os monárquicos.”), o campismo torna-se cúmplice da ascensão das forças imperialistas e reacionárias.
Na Europa, nenhuma esquerda coerente aceitaria aliar-se às bandeiras da extrema-direita com o argumento de que uma potência inimiga estava a atacar o país. No entanto, para o Irão, alguns consideram aceitável exigir que os Iranianos se apaguem e alinhem atrás de forças reaccionárias, nacionalistas, fanáticas e até fascizantes. Implícito em tal assimetria está, na prática, que os povos do Sul Global devam contentar-se com uma escolha entre dominação imperial e barbárie interna. Ora, precisamente, a República Islâmica é um Estado que deve ser chamado pelo que é: uma formação fascizante, uma extrema-direita não ocidental, especialmente no que diz respeito a minorias étnico-nacionais e aos imigrantes afegãos.
Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte.
A recente declaração “antiguerra” sobre o Irão expõe o impasse político do “campismo”: um discurso antiguerra que permite que certos segmentos da esquerda convirjam com meios fascistas, anti-semitas, neonazis e conspiracionistas. A declaração reúne signatários de meios políticos aparentemente opostos: por um lado, figuras anti-guerra campistas “descolonizadoras”, como Vijay Prashad, Sandew Hira, Ramón Grosfoguel, Boaventura de Sousa Santos, Munyaradzi Mushonga, Ajamu Baraka, Nordine Saïdi e Paulina Aroch Fugellie; e, por outro, uma série de figuras — incluindo Dieudonné, Alain de Benoist, Thomas Werlet, Jean-Michel Vernochet, Christian Bouchet, Marion Sigaut, Jacob Cohen, Pierre-Antoine Plaquevent e Arnaud Develay —, bem como organizações como a RN, Égalité & Réconciliation, L’Œuvre française e o Mouvement France Résistance, todas associadas a correntes conservadoras, de extrema-direita, nacionalistas ou fascistas. Esta justaposição ilustra como uma forma puramente geopolítica de anti-imperialismo se pode tornar compatível com a política de extrema-direita. Neste contexto, o regime iraniano e o seu criminoso chefe supremo, Ali Khamenei, ressurgem nas vestes de “voz contra a arrogância e o terrorismo”, enquanto, sob a bandeira da política anti-guerra, se normaliza uma tolerância profundamente preocupante para com a violência dos Estados pós-coloniais contra as suas próprias populações.
A coerência política exige recusar, tanto para os Iranianos como para qualquer outro povo, qualquer instância de acomodação do fascismo em nome de um “mal menor” geopolítico. Não peçamos aos Iranianos que aceitem politicamente realidades que a esquerda se recusaria a aceitar para si própria noutra parte. Assim como não marchamos com os fascistas, nem debaixo das bandeiras deles: lutamos contra eles, mesmo quando eles se apropriam do vocabulário da liberdade para lhe inverter o significado.
Identicamente ao estalinismo, que tanto contribuiu para desacreditar o socialismo, o “campismo” no Irão enfraquece a esquerda e fortalece a extrema-direita. Aprofunda, enquanto isso, a divisão Norte-Sul e legitima a repressão de movimentos anti-tirania no Sul. O resultado é o isolamento das forças emancipatórias, a desconfiança dos exilados para com a esquerda, no Norte (incluindo as correntes da descolonização) e o colapso da solidariedade internacional.
O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.
As prisioneiras feministas curdas condenadas à morte na prisão de Evin são capazes de manifestar a sua solidariedade com a resistência palestiniana — mesmo correndo o risco de perder parte do seu apoio no Irão. Já os anti-imperialistas autoritários e identitários se mostram, instalados no conforto do Ocidente ou de outro sítio, incapazes de demonstrar solidariedade comparável com as lutas populares no Irão. Chegam, o que é ainda mais grave, a negar ou duvidar da verdadeira dimensão do sofrimento.
É urgente deixar o “campismo” para trás. Caso contrário, não se conseguirá reconstruir uma esquerda genuinamente emancipatória nem revitalizar um internacionalismo verdadeiramente popular, como tentam fazer redes como a Peoples Want. O anti-imperialismo só é autêntico se combater todas as formas de dominação, em toda a parte e para toda a gente.
1 Publicado originalmente em tempestmag.org/ Tradução de Adriano Zilhão.
Jornal MaioSomayeh Rostampour
Luís Montenegro esqueceu-se certamente de perguntar ao amigo empreiteiro que lhe fez um preço maneirinho para a sua casa de Espinho como é que se constroem casas. Vai daí…
A intervenção policial no Porto e em Lisboa na noite de 24 para 25 de outubro para desmobilizar as manifestações contra a crise habitacional foi mais um capítulo do uso do aparelho coercivo do Estado em benefício de uma classe exploradora e rentista.
Politicamente morto, o ministro Luís Neves é a representação do que de mais podre existe neste sistema: alguém que se serviu durante anos da sua posição no poder estatal para beneficiar economicamente e que encabeça agora uma operação violentíssima e desproporcional contra manifestações pacíficas. Fá-lo como prova de vida e para rogar o perdão do Chega, que contra ele fez obsessiva campanha durante todo o verão, para agora se deixar seduzir pela sua ação autoritária.
Esta deriva não devia ser surpresa. A elite económico-financeira defende à bastonada os seus interesses, a história demonstra-o. Neste caso, essa elite está não só a influenciar a cúpula governativa, como está ela mesma lá instalada: veja-se o património imobiliário daqueles que nos pedem mais sacrifícios ou para largarmos o “egoísmo”.
Não se agride só a luta pela habitação e as garantias constitucionais que nos restam, mas a experiência verdadeiramente democrática das assembleias populares que, em pequena escala, envolve politicamente as novas gerações, ao contrário do sistema farsante desta república oligárquica. Quando convidado para discursar nas comemorações do 10 de junho de 2019, o inenarrável João Miguel Tavares, passista amargurado e representante da miséria moral e intelectual do “comentariado” mediático, clamou poeticamente à classe política: “Deem-nos alguma coisa em que acreditar”. Agora que os jovens acreditam na construção de uma alternativa ao Estado económico e social que nos sufoca, é o mesmo pobre Tavares que, paradoxal mas significativamente, se levanta, não contra a emergência habitacional, mas contra as acampadas e as ideias “comunistas” que lá detetou.
A passividade de António José Seguro perante um dos mais visíveis atropelos às liberdades civis desde abril de 1974 é também um lembrete para os que encostam a esquerda à ditadura do voto útil e do mal menor. Abdicamos da construção de alternativas políticas em nome da defesa da democracia… e levamos bastonadas.
A revolta deve traduzir-se em formulação política. Não queremos defender o statu quo das sádicas alterações ao NRAU aprovadas recentemente pela direita. Queremos que o statu quo seja radicalmente transformado. Urge controlar as rendas e a compra do nosso parque habitacional por investidores e fundos especulativos estrangeiros (e nacionais) e a ampliação da habitação pública, por via de mais construção, recuperação e expropriação de imóveis sem utilidade social.
Apresentemos propostas, pautemos o debate, construamos uma alternativa que conquiste a maioria social.
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome masculino que designa 1) conversa entre duas ou mais pessoas; 2) troca de ideias ou opiniões com o propósito de chegar a um entendimento; 3) Em literatura, teatro, televisão, cinema: conjunto das falas ou réplicas ditas em discurso direto pelas personagens
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome masculino que designa 1) conversa entre duas ou mais pessoas; 2) troca de ideias ou opiniões com o propósito de chegar a um entendimento; 3) Em literatura, teatro, televisão, cinema: conjunto das falas ou réplicas ditas em discurso direto pelas personagens de uma obra.
EM NOVILÍNGUA:
Doze longos dias depois de a polícia de choque ter dialogado com os manifestantes pelo direito à habitação na Praça D. João I, no Porto, com argumentos contundentes, que deixaram dezenas de feridos, o PR António José Seguro finalmente decidiu expressar algumas ideias, quem sabe talvez mesmo uma opinião, afirmando que “a cultura portuguesa é de diálogo, não é de violência nem de confronto”. Mas logo acrescentou, sem nunca condenar a atuação policial, que “para exercermos a liberdade, temos de nos respeitar todos e, para nos respeitarmos todos, temos de cumprir a lei”. Ora a lei, e acima dela a Constituição, já o esclareceram dezenas de juristas, está do lado dos manifestantes, não da polícia. Atrás de quem se esconde outro “desaparecido”, o PM Luís Montenegro, que lá afirmou que "o Governo está sempre disponível para dialogar". O diálogo, ora aí está. Diálogo em que o porta-voz de PM e PR é a polícia: os manifestantes falam de habitação, a polícia responde com o bastão. ASP
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