A fábrica da Mercedes Benz de Untertürkheim, perto de Estugarda, na Alemanha, tem actualmente cerca de 18 mil operários. É a fábrica-mãe da marca, fundada em 1904, considerada o berço da indústria automóvel. Ainda é o principal centro de competências da Mercedes. Ali se produzem motores de explosão e eléctricos, caixas de velocidades, eixos, baterias. Porém, está, como boa parte da indústria automóvel alemã, sob ataque do patronato. Reproduzimos aqui uma resolução dos delegados sindicais da Mercedes-Benz Untertürkheim.
Mal passa um dia sem novo anúncio de que tal empresa vai fazer despedimentos ou tem de “poupar” à nossa custa.
Crise por toda a parte.
E os patrões querem que sejamos nós a pagar.
Também não é que o governo faça alguma coisa por nós. Quer acabar com o imperativo legal da jornada de trabalho de 8 horas: que trabalhemos mais pelo mesmo salário ou até por menos. E ainda tem na manga a “reforma aos 70”.
Trabalhar até morrer. Do subsídio de cidadania1 passa-se a uma dita “prestação básica”. Querem que, destruindo-nos o patrão o posto de trabalho, fiquemos obrigados a aceitar até o emprego mais miseravelmente pago.
Andam a dar cabo do sistema de saúde à força de austeridade, a transformar a assistência médica em privilégio para ricos. O dinheiro que, por causa das medidas de austeridade, falta nas caixas da segurança social vai também para o rearmamento. Querem que os nossos jovens voltem a ir para a guerra defender os lucros das grandes empresas.
Ter pena de nós próprios, esperar numa pretensa “Alternativa para a Alemanha” ou implorar e suplicar ao governo não adianta.
Sem a nossa luta sindical e política não conseguiremos políticas melhores! Por isso, não vamos esperar que alguém nos mande protestar. Começamos já!
Sem a nossa luta sindical e política não conseguiremos políticas melhores! Por isso, não vamos esperar que alguém nos mande protestar. Começamos já!
A discussão com os nossos colegas no local de trabalho volta a ter mais forte cunho político. “Alguém pode parar aquele que percebeu a situação em que está?”2.
Aproveitamos todas as oportunidades que se nos apresentam para criticar os patrões e o seu governo. De futuro, que não haja mais assembleias de empresa, reuniões de conselho de empresa ou assembleias sindicais sem discussão política.
Ainda que de início sejamos poucos ou estejamos até sozinhos, se levantarmos a voz e tomarmos uma atitude, seremos mais.
Mal sintamos propício o clima entre o pessoal, organizaremos protestos na empresa e na nossa cidade.
Tomamos parte activa no nosso sindicato, exigindo, o mais rapidamente possível, a organização de manifestações contra a ganância dos patrões, contra o governo e por um futuro melhor. A greve, se necessário. E se as cúpulas sindicais se fizerem difíceis, avançamos nós próprios.
1 “Subsídio cidadão” (Bürgergeld), é o subsídio social de desemprego que garante o sustento de quem não tem meios para o conseguir sozinho. O governo pretende substituí-lo por uma “prestação básica”.
2 Do poema de Bertolt Brecht “Elogio da dialéctica”.
Os candidatos a técnicos superiores das escolas públicas merecem um processo de vinculação justo, transparente e coerente com os objetivos que lhe deram origem: combater a precariedade e valorizar profissionais que, há muitos anos, asseguram respostas fundamentais para o sucesso educativo, para a inclusão e para o bem-estar dos alunos.
ilustração: Mantraste
O concurso apresentado como uma oportunidade de vinculação para técnicos superiores em situação precária nas escolas está a revelar graves problemas de conceção e implementação, deixando muitos profissionais numa situação de profunda injustiça.
Desde logo, as vagas disponibilizadas são manifestamente insuficientes. Em diversos agrupamentos foi atribuída apenas uma vaga inespecífica para técnicos superiores, apesar de existirem vários profissionais precários a desempenhar funções distintas, como psicologia, terapias da fala/ocupacional ou educação/serviço social. Há vários relatos de direções de escolas que optaram por vincular um técnico de informática, deixando assim de fora profissionais que há vários anos asseguram respostas terapêuticas essenciais aos alunos e famílias.
Existem ainda situações de técnicos que trabalham há 8, 9 ou mais anos em regime precário, distribuídos por dois agrupamentos, com horários de meio tempo, encontrando-se agora em clara desvantagem relativamente a candidatos que exercem funções a tempo inteiro numa única escola, mesmo quando estes têm menor antiguidade de contrato.
Técnicos que trabalham há 8, 9 ou mais anos em regime precário, distribuídos por dois agrupamentos, com horários de meio tempo, encontram-se em desvantagem relativamente a candidatos que exercem funções a tempo inteiro numa única escola.
Perante a ausência de vagas na sua área de intervenção na escola onde exercem funções precariamente, muitos profissionais veem-se obrigados a concorrer aos agrupamentos/escolas vizinhos. Em muitos desses concursos, os candidatos conhecem previamente os profissionais já vinculados, que são elementos dos júris, assim como os técnicos precários que exercem funções nessas escolas e que ali pretendem vincular, gerando assim uma situação extremamente desconfortável.
Mesmo para quem tem vaga na sua área de intervenção na escola onde se encontra precário, o processo concursal tem sido particularmente penoso para os candidatos, pois nada é garantido.
Há profissionais em situação de elevado desgaste emocional e mesmo de burnout, obrigados a gerir o encerramento do ano letivo, ao mesmo tempo que efetuam dezenas de candidaturas. Muitos candidatos apresentaram mais de 50 candidaturas e têm de acompanhar diariamente as páginas online dos agrupamentos/escolas para verificar admissões, exclusões e listas provisórias, uma vez que nem sempre recebem notificações por correio eletrónico.
As exclusões têm sido igualmente motivo de preocupação. Existem concursos em que, entre mais de uma centena de candidatos, apenas um número muito reduzido foi admitido. Em vários casos, os candidatos são excluídos por alegada falta de comprovação de requisitos que haviam sido devidamente assinalados na plataforma de candidatura (nomeadamente os requisitos de admissão a este tipo de concursos: ter mais de 18 anos, nacionalidade portuguesa, cumprimento de leis de vacinação, possuir robustez física e psíquica).
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Noutras situações, são exigidos documentos cuja obrigatoriedade não era clara ou apenas foram objeto de esclarecimento posterior. Aliás, a falta de clareza nas orientações e informações tem pautado estes concursos, desde que foram anunciados. Um exemplo disso foi a indicação relativa às declarações de funções, que apenas surgiu em meados de maio, levando algumas escolas a excluir candidatos por não terem submetido documentação cuja necessidade não estava previamente clarificada.
A sucessiva alteração de timings também veio agravar a incerteza. Por exemplo, a prova de conhecimentos esteve marcada para 9 de junho, depois foi adiada para 19 de junho e posteriormente para 6 de julho. Esta situação levanta sérias dúvidas sobre a calendarização final do processo e sobre a capacidade das escolas para concluir todos os procedimentos em tempo útil.
Importa ainda sublinhar a pressão exercida sobre os próprios agrupamentos de escolas. Júris constituídos por docentes e técnicos encontram-se, em pleno encerramento do ano letivo, a analisar candidaturas que podem ultrapassar os 100 ou 130 candidatos por concurso, cada uma acompanhada por múltiplos documentos (8 a 10 documentos por candidato, em muitos dos casos). Trata-se de uma sobrecarga administrativa muito difícil de conciliar com as restantes responsabilidades profissionais.
Por fim, importa recordar que candidatos, júris e restantes intervenientes têm igualmente direito ao descanso e à conciliação da vida profissional e familiar. A proximidade do período de férias torna ainda mais urgente a definição de procedimentos claros, prazos realistas e critérios transparentes.
Os candidatos a técnicos superiores das escolas públicas merecem um processo de vinculação justo, transparente e coerente com os objetivos que lhe deram origem: combater a precariedade e valorizar profissionais que, há muitos anos, asseguram respostas fundamentais para o sucesso educativo, para a inclusão e para o bem-estar dos alunos.
O Maio vai aproveitar os meses de verão para fazer algumas alterações. Vamos mudar de página (alojamento do site) para um modelo mais robusto, que diminua ataques informáticos e nos permita um ainda maior trabalho colaborativo. Neste julho faremos um Maio com cerca de 4 a 5 novos artigos por semana, sem editorial, e em agosto interromperemos três semanas, para férias e para mudar de site. Regressaremos no fim de agosto, retemperados, tal como vós, esperamos, por umas boas férias!
Caros leitores,
Há 9 meses propusemo-nos fazer um jornal, semanal, o Maio, que renovasse a esfera pública tendo a crítica do Estado e do mercado como central; a liberdade de pensamento como alfa e ómega de qualquer projeto coletivo; e a defesa dos trabalhadores e da cultura (não somos independentes do mundo do trabalho e da cultura, somos seus defensores como gente inteira que faz, pensa, luta, ama, sente, imagina, conhece. A habitação e a educação públicas são-nos tão queridas como o direito a querer e saber ler, escutar e conhecer a música e a sua história. Enfim, nada de humano nos é estranho.
Apoiado por sindicatos, associações e intelectuais críticos, cientistas, das exatas e das humanidades, artistas, desde então, o Maio teve mais de um milhão de visualizações, e saiu semanalmente.
Assumimos desde o início a recusa de qualquer financiamento do Estado, empresas ou publicidade. Graças a uma combinação de trabalho de qualidade, autónomo, de escritores, profissionais e amadores, que amam contar o país, e o mundo, ilustradores, cujo trabalho magnífico está espelhado na qualidade do design deste jornal, realizadores, a que se juntaram mais de 200 associados, o Maio cresceu imenso.
Fizemos tanto e vamos fazer muito mais. Vamos para a rua em reportagem ouvir quem trabalha e escutar o país fora de Lisboa. Vamos ter mais vídeo-reportagem. E vamos começar, esperamos pelo espaço apenas, uma escola, um espaço de encontros onde debates, cursos, teatro, atividades para crianças sem ecrãs, visitas e passeios, floresçam.
Vamos mudar de página (alojamento do site) este verão, para um modelo mais robusto, que diminua ataques informáticos, e nos permita também um ainda maior trabalho colaborativo. Neste julho faremos um Maio com cerca de 4 a 5 novos artigos por semana, sem editorial, e em agosto interromperemos três semanas, para férias e mudar de site. Regressaremos no fim de agosto, e tenhamos todos umas boas férias!
A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O Governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro. Porém, nos últimos cinco anos, Portugal construiu uma indústria militar surpreendentemente forte.
ilustração: Ricardo Ferreira
Portugal não teve sempre um complexo militar-industrial. Historicamente dependente de armamento estrangeiro, o país só começou a desenvolver uma indústria de defesa e aeroespacial independente na década de 1960, para sustentar as guerras coloniais. Na época do seu império global, viveu principalmente do poderio naval, adquirindo a maior parte do equipamento pesado a fornecedores estrangeiros. Mesmo depois de aderir à NATO, em 1949, continuou a carecer tanto de siderurgia pesada como de uma indústria de armamento, dependendo de importações.
A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro.
Agora, porém, no século XXI, Portugal construiu, nos últimos cinco anos, uma indústria militar surpreendentemente forte. A indústria de defesa cresceu rapidamente graças à inovação no sector privado, a par de subsídios do Estado e colaborações com a academia. O sector consta de uma rede altamente rentável e de alta tecnicidade de mais de 160 organizações, representadas pelo AED Cluster Portugal (Aeronáutica, Espaço e Defesa).
O complexo militar-industrial português não produz blindados em massa; é altamente especializado, fortemente baseado no modelo da “hélice tripla” que, integrando forças armadas, laboratórios de investigação universitários e fornecedores privados de tecnologia, cria tecnologias de “uso dual” (ou seja, civil e militar). As universidades portuguesas têm aumentado o seu investimento na investigação e desenvolvimento de armamento e outras tecnologias bélicas.
A produção de armamento dá muito dinheiro a ganhar, e muitas empresas portuguesas deram por isso. O sector português da defesa regista o seu maior crescimento desde que o país aderiu à União Europeia. Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo. A indústria da “defesa” portuguesa emprega agora cerca de 20 mil pessoas e gera receitas anuais superiores a 2100 milhões de euros. “E a tendência é ascendente”, indica José Neves, presidente da associação do sector, a AED Cluster Portugal, que engloba mais de 160 organizações portuguesas que trabalham nas áreas da aeronáutica, do espaço e da defesa.
Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo.
Para cumprir a meta acordada pela NATO de gastar 5% do PIB na defesa, o Governo também está a adquirir activamente equipamento ao estrangeiro. Lisboa compra fragatas à Itália, tanques à Alemanha e novos caças. Em Outubro do ano passado, o Governo português anunciou um aumento recorde das despesas militares para 2026. O orçamento da defesa aumentou quase 3800 milhões de euros, ou mais 23,2% em comparação com 2025.
Esta recente expansão está directamente relacionada com a guerra na Ucrânia e com a campanha de propaganda sobre a chamada “ameaça russa” à segurança da Europa. Portugal tem sido aliado da Ucrânia desde o início da invasão russa. O Governo contribui com dinheiro dos contribuintes para o mecanismo PURL, que medeia a compra de armas dos EUA para a Ucrânia. Estão a ser usados na Ucrânia drones e sistemas de comunicação portugueses.
Se bem que ainda possa ser relativamente pequeno em termos globais, o complexo militar-industrial português tem-se desenvolvido em subsectores de nicho de alta tecnologia mais do que na produção de equipamento tradicional. Há empresas portuguesas a fabricar drones ou componentes para grandes grupos internacionais da defesa. Empresas como o fabricante de drones Tekever ou a Critical Software são parceiros de confiança do sector da defesa à escala internacional, quer como fornecedores, quer — cada vez mais — como fabricantes de produtos acabados. Empresas como a Critical Software desenvolvem sistemas aeroespaciais e de defesa complexos, incluindo software de voo e interfaces-utilizador de co-piloto usadas por parceiros internacionais como a Saab. Portugal também investe muito na vigilância marítima, nas comunicações navio-costa e em navios auxiliares.
Para cumprir os ditames da NATO e modernizar as suas forças, Portugal está a proceder activamente a uma revisão da sua presença militar. Entre os reapetrechamentos mais importantes contam-se a modernização dos submarinos da classe Tridente, a integração de sistemas de recepção de alertas para a frota de F-16 e a reabilitação de centros estratégicos como a Base Aérea de Montijo e a Base das Lajes, nos Açores, mantida pelos EUA. O Governo está actualmente a conduzir um grande projecto de aquisição que visa a potencial substituição da sua frota de caças F-16 em obsolescência, estando nos pratos da balança jactos americanos caros e alternativas europeias, como o Gripen sueco.
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A empresa sueca de defesa Saab almeja vender a Portugal o seu sistema Gripen de avião de caça. “O Gripen-E seria uma solução verdadeiramente europeia”, segundo Daniel Boestad, vice-presidente do programa Gripen na Saab. A empresa aeroespacial portuguesa OGMA poderia fabricar peças para a aeronave, tal como já faz, designadamente, para a empresa brasileira Embraer, adquirindo Portugal, em troca, à Embraer aviões de transporte militar. “Além disso, estamos a analisar o potencial de alargamento da cooperação nas áreas da produção e MRO”, observou Boestad; a sigla MRO cobre a manutenção, reparação e revisão.
A empresa portuguesa Critical Software tem em desenvolvimento um simulador de voo para o Gripen-E. “Estamos a trabalhar com a Saab, porque é um desafio interessante e porque nos identificamos com o projecto”, refere João Carreira, director executivo da Critical Software. A sua empresa começou com apenas três colaboradores, em 1998, tendo, entretanto, crescido e passado a ser uma empresa internacional com cerca de 5 mil empregados. Inicialmente, a empresa produzia software para as fragatas da Marinha portuguesa. Actualmente, a Critical Software opera joint ventures com empresas como a BMW e colabora com empresas alemãs do sector da defesa como a Diehl e a Rheinmetall.
A enorme expansão da indústria de armamento portuguesa faz parte de uma viragem europeia para aumentar a despesa com a defesa, apoiada por financiamentos da UE. A Europa não está apenas a rearmar-se, está a reorientar a sua base industrial da produção civil para a produção militar, e Portugal está discretamente a aproveitar a onda.
Tudo isto é óptimo para os fabricantes de armas, mas pouco valor acrescenta à economia geral. Estima-se em não mais de 0,5% do rendimento nacional a contribuição central directa da próspera indústria militar/de defesa portuguesa, que emprega apenas 0,4% da força de trabalho. A defesa nunca será grande contribuinte para a prosperidade do país, ainda que renda milhões de euros às empresas envolvidas. E afectar preciosos recursos e mão de obra à produção de armas para matar e destruir vidas e meios de subsistência reduz os recursos disponíveis para investir em necessidades sociais reais e em melhorar a vida das pessoas.
Durante o mês de julho vamos repor no Tempo Contra o Tempo o podcast Mudam-se os Tempos: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’ – já cantou o velho bardo. O curso da história move-se como as águas de um rio. Por vezes deixamo-nos levar por momentos de correntes rápidas, por outras, mansidão serena. Não é simples o seu movimento. Do ritmo que marca sempre passo, até à aceleração vertiginosa, avança-se nas conquistas sociais, mas as mesmas podem regredir em formas políticas avassaladoras. Ou vice-versa… Mas, ainda assim, ‘navegar é — sempre — preciso’. Estamos — todos e bem — embarcados. Este é o Podcast “Mudam-se os tempos”. Em cinco episódios com convidados especiais Roberto della Santa e Raquel Varela, historiadora, querem colocar sobre os próprios pés as principais ideias, imagens e conceitos que nos ajudam a saber e a fazer Portugal. De onde viemos? Para onde vamos? Toda a gente precisa interpretar a própria história para poder transformá-la. Em modo de conversa: como Portugal se formou? Quais são os seus principais desafios e dilemas? A isso vamos – agora mesmo!
Creio no arco-íris, na cal duma velha casa e na reconciliação das vozes dissonantes; creio na exaltação do ensejo do fogo dos amantes; creio na claridade da alma e espírito da chuva; creio na causa da lua sobre marés, na liberdade, nas palavras Creio nos peixes, nos segredos do mar; creio nos sortilégios duma árvore, na virtude da paz; creio no fecundo da poesia e nos quatro elementos; creio na essência de vulcões e rios; creio na eternidade das bibliotecas, na ressurreição do Poeta Creio nos pássaros, nas dádivas da terra, na bondade do sol; creio na agitação dos girassóis ao amanhecer; creio nos dias que virão, na música, nas rosas, na fecundidade dos ventos. Eis a Pátria que admito; creio nela sem medo de envelhecer.
Machado, Ivo. Pátria. In: Verbo Possível.
Lisboa, 2006.
Em 18 de junho de 2026, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou, em sessão extraordinária, o maior pacote de reformas económicas da história de Cuba depois da Revolução: 176 medidas que abrem espaço à banca privada, convertem empresas estatais em sociedades por ações, eliminam o teto de trabalhadores das pequenas e médias empresas, autorizam o investimento de cubanos residentes no exterior — com usufruto de terras por até 99 anos — e suprimem o cabaz alimentar universal vigente desde 1962. Anunciado como Programa Económico y Social 2026 e justificado pelo próprio Governo como resposta à asfixia provocada pelo bloqueio, o pacote inscreve em lei a viragem pró-mercado mais profunda desde 1959. A entrevista que aqui publicamos, realizada em Havana e Cienfuegos com Aldo Cordeiro Sauda e originalmente publicada no site brasileiro Quilombo Invisível em maio de 2026, antecedeu em poucas semanas a institucionalização desse programa.
Em 18 de junho de 2026, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou, em sessão extraordinária, o maior pacote de reformas económicas da história da Revolução: 176 medidas, organizadas em vinte e três eixos, que abrem espaço para a banca privada, convertem empresas estatais em sociedades por ações, eliminam o teto de trabalhadores das pequenas e médias empresas, autorizam o investimento de cubanos residentes no exterior — com usufruto de terras por até noventa e nove anos — e suprimem a cesta básica universal vigente desde 1962. Anunciado como Programa Económico y Social 2026 e justificado pelo próprio governo como resposta à asfixia provocada pelo bloqueio, o pacote inscreve em lei o giro pró-mercado mais profundo desde 1959.
A proposta do Partido Comunista Cubano invoca explicitamente os modelos chinês e vietnamita de abertura controlada. Os números expõem a distância que separa Havana desses paradigmas de “socialismo de mercado”. Segundo os dados compilados pelo economista Carmelo Mesa-Lago, o Estado responde ainda por 90,8% do PIB cubano, contra 40% na China e 37,3% no Vietname, e apenas 21,9% das empresas cubanas são não estatais, ante 89,7% na China e 96,7% no Vietname. Entre 2009 e 2020, enquanto a China crescia 7,4% ao ano e o Vietname 5,9%, Cuba avançava 0,9%. Já o coeficiente de Gini cubano, estimado pela socióloga Mayra Espina Prieto em 0,407, é hoje superior ao vietnamita (0,357) e ao chinês (0,385). A entrevista que se segue, realizada em Havana e Cienfuegos, originalmente publicada no site Quilombo Invisível em maio de 2026, antecedeu em poucas semanas a institucionalização desse programa. Cabe ao leitor avaliar em que medida as tendências discutidas na conversa e os limites estruturais da integração de Cuba no mercado mundial encontram confirmação nos acontecimentos anteriores.
Mesmo que as reformas económicas sejam introduzidas sem qualquer alteração no sistema político de partido único da ilha, elas seriam bem-vindas se ajudassem a aliviar a situação económica do povo cubano. Convém lembrar que nem a China nem o Vietname reformaram sob um intenso bloqueio energético e um regime de restituição patrimonial como os que pesam sobre Cuba: a ilha abre-se sob o cerco do Helms-Burton Act — a legislação extraterritorial que permite aos antigos proprietários radicados em Miami reivindicar, na justiça norte-americana, os bens nacionalizados após 1959 —, o que ameaça tornar a reintrodução do capital estadunidense incomparavelmente mais violenta do que nas experiências do Leste Asiático. A via cubana, portanto, parece aproximar-se muito mais do desastre económico dos países que sucederam à União Soviética nos anos 1990 do que o modelo apresentado pelo PC Cubano.
Longe de corrigir a crise social, a abertura ao capital estrangeiro, vindo em particular dos exilados pró-Trump de Miami, tende a aprofundá-lo. A dolarização de facto da economia diária — agora formalizada pela reforma — beneficia quem dispõe de dólares, remessas e passaporte estrangeiro, e penaliza quem depende dos salários em pesos e da caderneta esvaziada. Esse recorte é também racial: como regista a entrevista, cubanos de ascendência africana recebem menos remessas que os brancos, de modo que a economia dolarizada amplia a desigualdade racial herdada do Período Especial. O pacote de junho acentua essa lógica ao converter a diáspora em investidora interna e ao desmontar os mecanismos universais de proteção social.
O texto procura reconstruir algumas das contradições estruturais da sociedade cubana contemporânea a partir de conversas com investigadores, ativistas e organizadores associados ao livro CUBA 11J, obra produzida por militantes marxistas que participaram nas massivas mobilizações anti-austeridade dos dias 11 e 12 de julho de 2021. As questões abordadas incluem a crise energética e os seus efeitos territoriais, a recomposição das formas de mercado, o papel estrutural das remessas e da emigração, as desigualdades racializadas, areconfiguração do trabalho e da reprodução social, a repressão política e as dificuldades enfrentadas por correntes críticas de esquerda no contexto atual.
Aldo Cordeiro Sauda
Quilombo Invisível: No ano passado, o Congresso cubano aprovou uma série de reformas económicas. Entre elas, destacam-se a dolarização parcial da economia e a expansão das situações em que cubanos poderiam ser detentores de mais de uma propriedade. Como essas mudanças foram recebidas pela população? Quem mais tende a beneficiar com elas?
Aldo Cordeiro Sauda: A grande maioria das relações económicas de Havana com o resto do mundo é influenciada pelo chamado Helms-Burton Act, uma legislação aprovada no Congresso norte-americano em 1996, durante o Governo Clinton. Essa lei radicalizou, intensificou e institucionalizou a agressão norte-americana a Cuba. Ela deu a Washington os chamados mecanismos de aplicação extraterritorial do direito estadunidense, ou, se você quiser, uma forma de jurisdição imperial, na qual a lei americana é imposta a Cuba para reverter as expropriações de refinarias, fábricas, hotéis e latifúndios rurais ou urbanos nacionalizados após a Revolução de 1959.
Isso significa que, se você mora em Miami e seu avô teve lá atrás uma empresa, um prédio ou outra propriedade expropriada na Revolução de 1959, você pode entrar com um processo nos Estados Unidos para reclamar essa propriedade em Cuba. Isso criou um nó nas relações de propriedade em Cuba e o sistema jurídico norte-americano, difícil de superar e que, na prática, trava as relações económicas cubanas com o resto do mundo.
Um bom exemplo de litígio é o caso da rede de hotéis Meliá, em particular seu empreendimento na Praia Esmeralda, em Holguín. Os cubanos atraíram a rede hoteleira, de capital espanhol, para investir na indústria do turismo cubano. Os EUA responderam processando o grupo Meliá porque o hotel foi construído em um terreno baldio que era de suposta propriedade da familia Sánchez Hill, expropriada em 1959. Como existe um processo nos Estados Unidos de reintegração dessa propriedade, a estrutura financeira do grupo Meliá, dentro ou fora de Cuba, passa a ter suas transações em dólares dificultadas, travando o acesso a capital norte-americano. Essa questão da jurisdição internacional dificulta qualquer tipo de processo de abertura da economia cubana.
Esses mecanismos de jurisdição extraterritorial, na verdade, representam o elemento mais extremo de um amplo complexo jurídico imperial norte-americano. Esse extremismo em relação a Cuba está presente quando Trump diz que vai assumir o controle absoluto da ilha. Isso em parte se explica por motivos temporais: durante o colapso da União Soviética, não existia uma legislação norte-americana que delimitasse a questão da propriedade naqueles países equivalente ao Helms-Burton Act, com jurisdição extraterritorial. Inclusive, se você pega o caso chinês, os Estados Unidos, em 1979, basicamente resolvem esse problema com as relações de propriedade na China com um acordo rápido e pragmático. Portanto, há um excepcionalismo no caso cubano, talvez ligado à necessidade de combater a esquerda na América Latina independente da Guerra Fria.
Quando você pega o caso das propriedades na União Soviética, houve todo um processo de privatização, mas ninguém falou em restaurar as propriedades anteriores à Revolução de 1917. Se houve, foi algo mais concentrado na questão da Igreja Ortodoxa, mas não existia uma mobilização para trazer os proprietários anteriores, inclusive porque eles não estavam geograficamente concentrados como estão os proprietários do período pré-revolução cubana em Miami, com relações com os políticos na Florida, com relações aprofundadas com o governo norte-americano.
Então, essas relações fazem que qualquer projeto maior de abertura por parte dos cubanos acabe caindo nessa barreira. De novo, é algo que não se teve, por exemplo, nos países do Leste Europeu como Polónia ou Checoslováquia, onde, mesmo tendo havido alguns casos de restauração de propriedades anteriores ou compensação, foram processos com uma certa maleabilidade. Em muitos desses lugares, a propriedade continuou estatal ou foi privatizada, mas não se retornou aos proprietários do período anterior.
Essa é a grande barreira, porque basicamente os americanos querem retomar a propriedade das usinas de açúcar, das refinarias de petróleo, dos bancos e, principalmente, as propriedades urbanas e rurais. No caso de propriedades urbanas, isso se relaciona diretamente com os interesses da família Trump. Você pega Havana, uma das cidades mais bonitas da América Latina, se não a cidade mais bonita, exatamente porque não existe especulação imobiliária. Havana Vieja tem aqueles prédios lindos, antigos, que a despeito da degradação dão todo um charme à cidade e que, provavelmente, quando houver de facto uma invasão do capital norte-americano, vão virar edifícios gentrificados, mercadoria ao serviço da especulação imobiliária, fenómeno que, na prática, é dissuadido através da restrição ao grande capital pelo Estado.
Dito isso, a abertura que se tem, que é de novo uma abertura lenta, travada e pautada pelo Helms-Burton Act, em geral beneficia a burocracia, seus filhos e seus netos, os chamados ‘nepo babies’. A abertura do mercado é, em geral, isso: quem beneficia são aqueles vinculados ao Partido Comunista. Uma figura muito mencionada aqui em Havana é o “Cangrejo”, neto de Raúl Castro, descrito como um playboy que virou dono dos empreendimentos de turismo e de uma série de empresas privadas. Ele é odiado aqui em Havana; todos falam dele. São críticas baseadas certamente em relatos jornalísticos, sem claro lastro documental, mas me parece inevitável que essas figuras acabem surgindo. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia acaba empurrando para isso, porque a dolarização foi acompanhada de uma enorme crise: as cadernetas – aquilo que garantia a alimentação pelo Estado – vão tendo cada vez menos alimentos à disposição, e passa a haver cada vez mais alimentos à disposição de quem tem acesso a esses mercados privados em dólares, o que aumenta brutalmente a desigualdade no próprio acesso à comida.
Isso também está ligado ao facto de que, desde os anos 90, mas muito mais agora, principalmente desde a Covid, milhões de cubanos saíram do país e mandam dinheiro de volta às suas famílias. O envio de remessas, junto com o turismo e, em alguns sentidos, a exportação de missões médicas, são as três grandes fontes de capital estrangeiro aqui em Cuba. Elas acabam sempre beneficiando alguns em detrimento de outros, em geral os brancos em detrimento dos negros, porque quem é imigrante, quem está fora do país, consegue melhores empregos e depois consegue mandar esse dinheiro com facilidade, são na maioria das vezes as pessoas brancas. Isso acaba tendo um recorte racializado, a centralidade que ocupa a economia dolarizada. Portanto, a dolarização da economia aumenta a desigualdade racial.
Vale mencionar também que a questão da restauração dos direitos de propriedade no caso de Cuba é, em alguns sentidos, mais complexa do que na Venezuela. As grandes estatizações que ocorreram durante o governo Chávez foram de duas grandes empresas norte-americanas, a Exxon Mobil e a ConocoPhillips, que tinham participado nas privatizações neoliberais dos anos 90, do setor petroleiro venezuelano e que foram expropriadas depois por Caracas. É relativamente fácil restaurar os direitos de propriedade anteriores, primeiro porque eles ocorreram nos anos 90. Existe toda uma estrutura legal internacional vinculada ao Banco Mundial e a tribunais internacionais que garantem esses direitos de propriedade ao grande capital estrangeiro principalmente a partir dos anos 90. Essa questão se resolve com os americanos retomando para si o petróleo venezuelano da PDVSA, algo que na prática já está acontecendo.
Em Cuba, não. Em Cuba, você tem particulares individuais que não são grandes empresas petroleiras norte-americanas, com quem você resolve por meio de um acordo imposto pela agressão imperial norte-americana ocorrida esse ano. No caso de Cuba, você tem milhares e milhares de processos que correm na justiça norte-americana para restaurar a propriedade em todos os níveis. Portanto, a violência do que será a reintrodução do capital norte-americano e dos interesses norte-americanos em Cuba vai perpassar centralmente a restauração desses direitos individuais.
Por isso, a restauração aqui em Cuba vai ser provavelmente mais violenta do que qualquer outra, mais violenta no sentido da expropriação dos direitos à habitação e dos direitos sociais do que talvez na Rússia ou Leste Europeu. Provavelmente, alguma fração da burocracia do Partido Comunista vai continuar com o domínio sobre alguns setores da propriedade hoje estatal, mas isso vai ter que se dar em por meio de um acordo com essas frações burguesas cubanas que estão na Florida querendo reclamar sua propriedade como um todo, o que, de novo, não ocorreu na União Soviética. No caso cubano, é isso o que eles querem, e é isso o que cria essa situação em que o Trump fala com algum grau de verdade que vai voltar a ser “dono” de Cuba se seu plano der certo.
Quilombo Invisível: Diante da inflação severa, dos apagões exaustivos e do sistema de lojas em Moeda Livremente Conversível (MLC), como as pessoas nas ruas interpretam a raiz da crise? A quem a população costuma atribuir a culpa pela escassez diária?
Aldo Cordeiro Sauda: A questão das reformas na política monetária de 2021 é algo que todos os cubanos criticam. A primeira questão é o fim daquela moeda chamada CUC, que era uma espécie de dólar oficial, um câmbio oficial controlado pelo Estado que controlava o dinheiro vindo do exterior. Com a reforma do governo Díaz-Canel, o dólar oficial foi abandonado e a CUP, o peso cubano, passou a oscilar de forma livre em relação à moeda norte-americana. Essa política liberou a utilização do dólar, na prática, dolarizando a economia local. De novo, isso remete àquela questão das remessas financeiras enviadas pelos imigrantes a quem ainda está dentro do país. A questão das remessas é uma parte estrutural da economia, não só de Cuba, mas de diversos países do Caribe e da América Central: Guatemala, o próprio El Salvador, o Haiti.
Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.
Na prática, a política de sanções energéticas do Governo Trump entrou para quebrar as pernas da economia do turismo, dando às remessas em dólar um papel ainda maior. Uma das principais consequências dos apagões é que a maior fonte de recursos, a fonte de dólares que era o turismo, secou, entre outros motivos por conta da dificuldade dos voos estrangeiros para chegar em Havana.
Eu vim através do Panamá, por exemplo, que ainda mantém os voos para Havana, mas voos diretos que vinham de lugares como Canadá, Rússia, com turistas que vinham aqui com moeda estrangeira, consumiam e injetavam dólares na economia, isso quase secou por conta da falta de combustível.
Mas ao mesmo tempo existe uma crise aqui em Cuba que vem basicamente desde a Covid, quando a indústria do turismo toma o seu primeiro golpe, e agora, digamos, com a crise venezuelana, tomou o segundo golpe, e o golpe agora é ainda mais forte. Mas desde o período da Covid, há uma crise na qual se estima que mais de um milhão de cubanos saíram, deixaram o país. A consequência disso é que cerca de 10% da população foi embora. Tem lugares que estão esvaziados de gente, principalmente de gente jovem, porque quem é jovem e tem algum recurso saiu do país.
A questão dos apagões e da escassez, ao mesmo tempo, não é nova: obviamente, são intensificadas pela situação atual, mas houve também uma redução na vinda de petróleo venezuelano para cá desde o período da Covid. Desde 2020 os venezuelanos aumentaram a exportação de petróleo para países como a China, e em grau menor para os Estados Unidos, reduzindo o envio de petróleo para cá. Então, a crise energética é anterior ao sequestro de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, porém foi acelerada por ela.
É nesse cenário que vai se abolir o CUC, um processo acompanhado por aumentos nos preços de quase todos os serviços públicos e pela redução no acesso a alimentos disponíveis pelas cadernetas. A caderneta é basicamente um instrumento para se ter acesso à comida distribuída pelo Governo. Os salários são muito baixos comparados ao dólar. Isso era compensado pela caderneta e por um acesso a uma certa quantidade de alimentos, como farinha, óleo, feijão e carne de porco, que agora vem sumindo das prateleiras. Por conta da situação atual, a comida que se conseguia acessar antes ficou escassa. E isso é uma coisa que é comentada o tempo inteiro nas ruas.
Por conta dos problemas de planificação, também causados pela falta de gasolina para os carros, de diesel para os caminhões, a distribuição dos alimentos subsidiados, em particular no interior, antes acessíveis pelas cadernetas, secou. Ao mesmo tempo, a dolarização da economia, mesmo que tenha em parte expandido o acesso a bens de consumo e uma pluralidade maior de alimentos industrializados, não é democratizadora. Ela barra, ela impede: os preços de alimentos se tornam proibitivos para quem não tem acesso a dólares. Na verdade, o que se tem é uma desigualdade acelerada e intensificada no acesso a alimentos, porque quem tem acesso a dólares consegue superar a falta de alimentos que se teria antes no acesso pela caderneta. E para quem não tem dólares? São pessoas que muitas vezes estão no interior. É aí que entra a questão da fome.
Nós viemos aqui em Havana com uma mala de medicamentos para distribuir para as famílias, enviados por alguns companheiros no Brasil. O que mais nos impressionou foi que, conversando com as pessoas, elas faziam questão de sempre dizer: “Olha, agora existe fome em Cuba.” Porque existe essa ilusão na esquerda brasileira de que não existe fome em Cuba, e principalmente desde essa crise, há uma situação realmente de insegurança alimentar.
Acompanhada da dolarização, houve uma enorme alta inflacionária e também uma série de políticas antipopulares, de introdução de princípios da economia de mercado, incluindo aumento exponencial no custo da eletricidade, da água e do transporte.
Muitos ganhos da revolução vêm sendo mais ou menos perdidos pela expansão do mercado, pela expansão de relações capitalistas de propriedade. Só que, ao mesmo tempo, ainda são processos mercadológicos muito limitados porque ocorrem por fora do acesso ao grande capital estrangeiro por conta das medidas do Helms-Burton Act.
Qualquer integração no mercado acaba sendo limitada por isso. Ao mesmo tempo, desde 2021 você tem as chamadas Pymes (PME, Pequenas e Médias Empresas), que são as empresas particulares em processo de expansão. Isso retorna àquilo que eu tinha colocado: quem tem acesso às PME são muitas vezes os filhos e os netos da burocracia, e também vem com um recorte racial: são frequentemente brancos.
Quem tem capacidade de empreender através das PME, quem tem acesso a atravessar as limitações burocráticas, são os filhos e netos daqueles que encabeçaram a Revolução de 59. As PME são em geral celebradas pela população. A abertura económica, por motivos pragmáticos, parece ser quase consensual, o que é algo em muitos sentidos perverso, porque parece, principalmente entre os jovens, existir uma ideia de que o capitalismo e a entrada do capital norte-americano vão resolver todos os problemas da ilha. Mas a restauração de direitos de propriedade anteriores a 1959 tende a intensificar a desigualdade social, e não a reverter aos padrões anteriores aos anos 1990.
Só que isso é um pouco ignorado. As pessoas querem mudança, elas não aguentam mais o estado das coisas. Quando as pessoas te explicam a situação económica e você responde dizendo “Ah, mas o bloqueio”, elas dizem: “Bom, bloqueio já tem 60 anos, quase 70 anos. Não deu tempo de resolver essas questões?” Basicamente, a abertura económica é vista com bons olhos, é celebrada e vista como uma necessidade cubana. Há uma leitura de que desde os anos 1990, do período especial, a vida só piora. De facto, é compreensível o desespero, porém ignora que países como Haiti, a Guatemala e El Salvador estão plenamente integrados no capitalismo mundial, e ao mesmo tempo em uma condição de vida muito pior que Cuba.
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Quilombo Invisível: O apagão recente afetou a ilha inteira. No Brasil, quando apagões acontecem, bairros mais pobres, e com maior presença de populações negras, costumam ser mais afetados e demorar mais para ter a energia restaurada. Em Cuba, há algum paralelo com a situação no Brasil?
Aldo Cordeiro Sauda: O que dita o apagão, além de atingir mais as populações negras, é o recorte Havana versus interior. Quando estive no interior, quase sempre a única fonte de eletricidade eram os painéis solares. Existe mais acesso à eletricidade na capital, inclusive em Havana Vieja e Centro Habana, partes da cidade com uma grande população negra. Aqui a energia é mais preservada até porque os cabos são subterrâneos. Onde há cabo subterrâneo, eles evitam cortar a luz por conta da dificuldade de fazer o reparo que pode ser causado pelas sobrecargas nas variações de tensão. Onde o cabo é aéreo, há mais crise de energia.
Enquanto o principal responsável pela crise de energia é o bloqueio norte-americano, não se pode ignorar as consequências destrutivas da planificação burocrática. Segundo pesquisa da Universidade de Columbia, em Nova York, a reestruturação do sistema elétrico cubano está estimada em 10 bilhões de dólares1, porém o Governo cubano gastou uma quantidade de dinheiro ainda mais elevada em novos hotéis nos últimos 15 anos, negligenciando a importância do sistema elétrico. Os mega investimentos em grandes hotéis de 5 estrelas são destacados pela população como um símbolo de desperdício, em particular porque a política se acentuou durante a crise da Covid, enquanto a taxa de turismo no país despencou. A taxa de ocupação nos hotéis hoje está estimada em 20%. Conheci o caso de um casal de brasileiros que foram transferidos de seu hotel para um com maior ocupação por uma questão de excesso de vagas, porém, as construções de novos edifícios hoteleiros continuam. A isso se soma a questão da força de trabalho, que segundo relatos de moradores vem em grande parte trazida de países como Índia e Paquistão, substituindo a mão de obra local.
Agora, a questão da luz é importante lembrar que ela vem de antes do sequestro de Maduro, porque já desde a Covid os venezuelanos reduziram o envio de combustível para cá, e as crises energéticas têm ocorrido desde a Covid, sendo um dos elementos que motivaram o 11J, o movimento de massas que tomou as ruas em julho de 2021, cuja palavra de ordem era “Pátria y Vida”, uma ideia de se opor ao slogan do regime, “Pátria o Muerte”. E aí, sim, essa mobilização tem uma grande participação negra, e os rappers associados aos protestos, ligados ao Movimiento San Isidro (MSI), também são rappers negros. Existe esse recorte de que as pessoas que foram às ruas em rejeição ao regime tiveram uma forte presença da comunidade negra cubana.
O melhor balanço que conheço sobre as mobilizações do 11 de julho, é um livro chamado Cuba 11J, perspectivas contrahegemónicas de las protestas sociales. Ele mostra sob diferentes ângulos os protestos de uma perspectiva crítica marxista, organizado por um jovem militante socialista do movimento negro.
Quilombo Invisível: Alguns relatos elogiosos sobre Cuba destacam o cultivo de alimentos em cidades (agricultura urbana) como estratégia de superação da escassez de alimentos. Pelo seu contacto, como a população cubana se relaciona com a produção de alimentos? E como isso se relaciona com a burocracia estatal do país?
Aldo Cordeiro Sauda: Me parece que a questão do acesso a verduras, legumes e frutas não cítricas em Cuba não é o problema principal. O que falta é a comida industrializada, assim como a carne. Óbvio, o problema da carne também é o problema da falta de eletricidade. Se cai a energia, se você tem quatro, cinco, seis dias de apagão, você perde a carne nas geladeiras e nas arcas frigoríficas.
Sobre essa questão da agricultura urbana, existe o livro publicado pela editora Elefante, Entre a Utopia e o Cansaço, que tem um conjunto de textos muito interessantes, em particular o que trata da militarização da economia. A própria Joana Salem, especialista em Cuba, tem uma pesquisa muito rica sobre a questão agrária que merece ser lida. O trabalho dela sobre Cuba e a América Latina em geral é bastante sério. Fabio Luís Barbosa dos Santos, professor de RI da Unifesp, um dos editores do livro junto com Aline Miglioli e Vanessa Oliveira, também é um pesquisador muito qualificado, com longa trajetória no tema. O trabalho organizado por ele tem textos muito interessantes, inclusive sobre o papel dos militares na economia, que hoje é preponderante.
A militarização da economia cubana, através do GAESA (Grupo de Administración Empresarial) segundo o sociólogo cubano-americano Samuel Faber, atinge pelo menos 40% dos empreendimentos. Então, você tem esse recorte, similar a países como Egito e Paquistão. A GAESA é em boa parte responsável pelos problemas burocráticos da planificação económica.
Quilombo Invisível: Assim como no Brasil, em Cuba também há um discurso oficial de superação das discriminações raciais (a tal da “democracia racial”), usado como forma de impor uma unidade popular. No entanto, a quase totalidade dos comércios em Cuba seguem comandados por pessoas brancas. Na sua visão, o racismo em Cuba foi superado? De que forma o racismo se relaciona com as ações do Estado?
Aldo Cordeiro Sauda: A questão do racismo, atenuada pelos ganhos sociais da revolução, é intensificada principalmente após o Período Especial iniciadlo depois dos anos 90. É importante dizer, quando se fala da questão racial em Cuba, o papel central que Cuba teve na libertação no Sul da África, em Angola, Moçambique, e também na Guiné-Bissau. Cuba teve um papel muito importante no combate ao apartheid na África do Sul. Isso é um marco e algo que não pode ser esquecido quando a gente fala de Cuba, em particular o envio de tropas em apoio ao MPLA na guerra anticolonial em Angola e o apoio ao ANC de Nelson Mandela na África do Sul. Essa é uma marca do regime que faz parte da história cubana.
O problema é que a abertura aos mercados e o surgimento da desigualdade económica atingem principalmente a população negra, em parte porque a direção inicial da revolução, à exceção de Juan Almeida Bosque, foi majoritariamente formada por intelectuais brancos de origem hispânica. Quando se inicia a restauração nos anos 90, serão os filhos e os netos da direção revolucionária que vão sair na frente, e isso significa que os negros tendem a ser mais afetados.
Com isso se combina o papel da imigração: quem tem mais acesso à imigração na Europa e América do Norte, por redes familiares, são em geral os brancos. Portanto, as famílias de pessoas brancas vão ter mais acesso a passaportes e cidadanias europeias (espanhola e italiana), a dólares vindos do exterior, e a dolarização da economia afeta de forma muito desigual os brancos e os negros por isso. Segundo ativistas do movimento negro com quem conversei, há um aumento, pós-anos 90 na desigualdade racial. Desde o Período Especial, essa questão vem ganhando relevância.
Quilombo Invisível: É um bordão irónico e famoso, em apoio a Cuba, dizer que na ilha apenas três coisas funcionam: saúde, educação e segurança. Mas como a segurança é mantida na prática na ilha? A ação policial possui contornos raciais? Algum grupo tende a ser mais perseguido pela polícia?
Aldo Cordeiro Sauda: Cuba, segundo a Amnistia Internacional, há hoje centenas de presos políticos e, junto com isso, um alto índice de presos per capita. Existe uma análise do Instituto de Pesquisa em Política Criminal, do Birkbeck College, de Londres, que aponta Cuba entre os países com altos índices de encarceramento, porém muito abaixo de EUA, Brasil e El Salvador. Tudo isso, possivelmente, acaba tendo um recorte racial.
Um dos grandes problemas, me parece, é que Cuba colocou nas negociações com os americanos a libertação de presos políticos. Isso é terrível, porque acaba entregando aos Estados Unidos a bandeira das liberdades civis, da liberdade de associação e expressão. Produz ilusões sobre os Estados Unidos como defensores da democracia. Isso apenas contribui para o problema que existe aqui, isto é: a geração que nasceu nos anos 80 e atravessou o Período Especial dos anos 90 na juventude só vê a piora da economia cubana, só vê Cuba piorar.
Isso faz surgir, principalmente entre os jovens, todo um setor que podemos dizer ser “pró-intervenção imperialista”, pró-Estados Unidos, na juventude, que vê a intervenção norte-americana como aquilo que vai resolver o problema de Cuba e a única alternativa para a atual conjuntura. Então, surge a possibilidade de setores pró-restauração capitalista entre a juventude trabalhadora.
O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que os jovens culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano.
Essa é a maior derrota que a política da burocracia impõe, principalmente entre os jovens. O facto de a desigualdade e a pobreza só aumentarem desde os anos 90 faz que culpem a revolução, a expropriação da burguesia, culpem figuras como o próprio Ernesto Che Guevara como responsáveis pela atual crise imposta pelo Governo norte-americano, e que acaba sendo gerida por uma camada de profissionais técnicos e gestores cubanos cuja função acaba sendo gerir as consequências do bloqueio.
O facto de a revolução não se ter expandido para além da própria ilha – assim como não se pode ter socialismo em um só país, como, em última instância, foi na derrota da revolução russa nos anos 20 e 30 – torna ainda mais difícil manter uma revolução em uma só ilha. É isso que acaba alimentando as próprias divergências entre Fidel Castro e Che Guevara, porque o Che é muito crítico do que ele chama de “manuais soviéticos”, a adoção de políticas burocráticas e um modelo baseado na experiência soviética em Cuba, mas que acaba sendo a consequência inevitável de uma revolução que não consegue expandir.
Quilombo Invisível: Como sabemos, a América Latina enfrenta, em particular nos últimos meses, uma escalada do imperialismo estadunidense. Muitos na esquerda ficam em silêncio sobre os abusos do regime cubano por receio de que poderiam alimentar um imperialismo que, em última instância, poderia levar a uma piora nas condições na ilha. Na sua visão, como a esquerda latinoamericana pode contribuir para a superação da ditadura na ilha?
Aldo Cordeiro Sauda: Toda a ajuda, todo o apoio humanitário a Cuba é bem-vindo. Toda a esquerda que se esforça para combater o bloqueio cumpre um papel progressivo. Isso é algo que nós precisamos ter em mente. Ao mesmo tempo, é preciso diferenciar o que é solidariedade com o povo cubano do que é a solidariedade com o regime. Muitas vezes, vemos em muitas iniciativas, sejam elas de socialistas, maoistas, trotskistas ou autonomistas, uma confusão nesse sentido.
A iniciativa da flotilha para Cuba, para ajudar o país é muito positiva, mas uma questão que não podemos esquecer é a forma como ela é canalizada e inclusive interpretada pelos próprios cubanos. Sem os devidos cuidados, os cubanos podem acabar criando desconfiança da esquerda mundial, que pode acabar sendo interpretada como legitimando o Governo Díaz-Canel, sem esquecer que o Governo usa isso como instrumento para legitimar suas reformas económicas e sociais.
Essa solidariedade, que é necessária, precisa ser acompanhada – e infelizmente não se vê isso entre as diferentes correntes da esquerda – de apoio aos presos políticos que foram detidos no 11 de julho. Um apoio às correntes marxistas dissidentes aqui em Cuba, uma oposição à repressão que existe contra a própria esquerda, aquilo que a gente pode chamar dos dissidentes entre os dissidentes. É preciso separar o que é a oposição “gusana” de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão.
É preciso separar o que é a oposição ‘gusana’ de Miami, pró-americana, dos anseios do povo cubano por democracia, liberdade de associação, liberdade de expressão
Sem que haja essa diferenciação, colocar tudo o que se opõe ao regime cubano como parte das iniciativas norte-americanas enfraquece alternativas anticapitalistas no longo prazo. As pessoas podem achar que o que está colocado é dual, com apenas dois lados: ou você está com os Estados Unidos ou você está com o regime. O problema é que isso ignora o amplo desejo de mudança que vem dos trabalhadores cubanos. Ser cego a isso não ajuda ninguém.
O 11 de julho é um movimento de massas baseado num sentimento geral de necessidade de mudança, e que, por conta dos próprios problemas do regime – por conta da criminalização dos dissidentes, de empurrar para fora da ilha a esquerda crítica –, os movimentos sociais da juventude acabam muito facilmente sendo manipulados e capturados pelas forças pró-americanas. A partir do momento em que a esquerda mundial rechaça a oposição cubana de esquerda, a partir do momento em que a esquerda internacional se associa de forma acrítica ao regime, e a partir do momento em que não existem dissidentes cubanos que possam cumprir um papel organizacional progressivo em relação às mobilizações sociais, elas tendem a ir para a direita. E essa é a realidade. À medida que os movimentos sociais vão se radicalizando, elas tendem a ir mais e mais para a direita, o que é um desastre, um desastre político para Cuba e para toda a América Latina.
As manifestações são legítimas, assim como a exigência de substituição do Governo. As pessoas estão cansadas, querem mudanças na política económica que dolarizou o consumo, encarecendo a vida. A partir do momento que você não cria mecanismos para isso e quando você taxa toda a oposição de mercenários e agentes pró-americanos, a consequência disso é que você acaba fortalecendo exatamente esses setores. É óbvio que existem setores distintos dentro do movimento – como qualquer movimento de massas, o 11J é plural. Vai ter gente que é pró-americana, antiamericana, gente que só quer melhorar a sua própria vida. Mas o problema é que, na medida que os poucos socialistas críticos são presos e empurrados para fora da ilha, o que sobra é a direita.
Portanto, é muito difícil ser otimista em relação à realidade política cubana por conta do isolamento da esquerda cubana dissidente em escala nacional e internacional. Há muita gente de esquerda que foi presa em julho e que agora quer sair do país. É um sentimento natural.
Existe um problema demográfico grave em Cuba. Os jovens que têm capacidade financeira pegam um avião até à Nicarágua e muitas vezes de lá, pela rota sul, vão para o Chile ou para o Brasil, quando não tentam, a partir da América Central, chegar de forma arriscada e clandestina aos Estados Unidos pela rota norte, um caminho perigoso agora dificultado ainda mais pelo Governo Trump. Desde a crise da Covid, o número de jovens na ilha tem encolhido.
Há o problema demográfico também de as pessoas terem poucos filhos. A população da ilha não para de cair, há poucas crianças, a população está envelhecendo, e os jovens estão saindo. Isso é um desastre de longo prazo.
Quilombo Invisível: A repressão do Estado aos manifestantes do 11J foi severa, chegando a 25 anos de prisão, e com órgãos internacionais denunciando a morte de vários dos detidos. Como esses presos são vistos pela população com que o senhor teve contacto? A população estaria disposta a se arriscar em outras ondas de protesto?
Aldo Cordeiro Sauda: Vale dizer que existe muito medo em relação aos protestos em massa, porque uma parte relevante da liderança de rua foi presa. O que eu vejo aqui em Cuba, conversando com as pessoas e com as próprias lideranças da ala esquerda dos protestos, é que existe muito medo, muito medo de sair para a rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba. Você ouve as pessoas, elas são muito críticas do regime, atacam o Governo, atacam o Presidente o tempo inteiro quando você conversa com elas na rua. Não é que você não possa criticar o Governo em Cuba, a questão é como criticar o Governo em Cuba. A mesma coisa com as redes sociais. Não é que você não possa falar mal do Governo nas redes sociais, é o que você fala. Há forte repressão a protestos nas ruas. Aí, sim, é que vem o problema. Não que você não possa falar mal do Governo, é por onde e como você fala mal do Governo.
Você fala com as pessoas, em geral elas dizem “apoio os protestos do dia 11”, mas, obviamente, a grande maioria não foi aos protestos do dia 11. Você pergunta e a resposta é: “Não, não quero pegar 8, 10 anos de cana. Ninguém quer ir preso.” O regime é muito efetivo pelo facto de ser uma ilha, o controle político-social é mais fácil. Isso não significa que os protestos, de forma localizada, não sigam ocorrendo. Ontem, por exemplo, teve um panelaço na rua por onde havia passado algumas horas antes por conta da falta de energia. Também teve o caso, noticiado mundo afora, do ataque à sede do PC no interior do país. Então os protestos seguem, porém sem clara coordenação política.
Quilombo Invisível: Como a população comum reage às campanhas de propaganda da imprensa oficial? Elas ainda têm eficácia em jogar a população contra seus pares, ou o descrédito da mídia estatal já é generalizado?
Aldo Cordeiro Sauda: Eu acho que o regime tem apoio cada vez menor na população. Existe uma ideia de que os anos 80 foi o período de auge, e de lá para cá a situação só piora. Existe um sentimento geral por inovação, de que é preciso mudar.
Acho que a nossa solidariedade com Cuba exige duas tarefas. A primeira é combater e ser solidário no combate ao bloqueio, e todas as iniciativas de combate ao bloqueio têm que ter nosso apoio. Nós temos que defender que a Petrobras envie petróleo para Cuba, apoio energético brasileiro a Cuba. Mais que ajuda humanitária, Cuba precisa de gasolina, diesel, petróleo. Se você olha as ruas, as ruas estão quase vazias, não tem carros nas ruas, as estradas estão vazias, praticamente não tem caminhões nas estradas. O grande problema é a falta de combustível.
Portanto, o papel da esquerda internacional é se solidarizar, exigir de seus governos, exigir do Governo Lula, exigir da esquerda, exigir também do Governo mexicano – onde existe menos oposição interna a uma política pro-Cuba – exigir dos governos internacionais o apoio contra o bloqueio e principalmente o envio de petróleo para Havana. Essa é a primeira tarefa. A segunda tarefa é se opor à repressão da esquerda, de artistas críticos independentemente de suas posições ideológicas, se opor à repressão do movimento de massas e defender uma alternativa que seja ao mesmo tempo socialista e democrática.
O que parece ser uma grande novidade para a geração Z já era uma prática exercida pelos boomers. Nunca ouviu falar dessa geração? Do tempo da sua mãe ou da sua avó. Aproveite esta aula de cultura inútil. Trata-se da geração que nasceu após a Segunda Guerra Mundial, quando os soldados voltaram para casa com uma fome de anteontem, porquanto geradora de uma explosão de natalidade. Este fenómeno foi chamado Baby Boom e, por conseguinte, os boomers são a gente que nasceu após o fim da Segunda Guerra, assim como eu. Exatamente. O jovem que viria a ser meu pai teve a sua idade aumentada pelo Estado brasileiro, para servir na Força Expedicionária Brasileira – FEB, uma divisão militar de mais de 25 mil homens do Exército e da Força Aérea, que foi reunida para uma guerra da qual parte deles nunca nem tinha tido notícia. Sim, o acesso aos jornais ou à rádio, nas regiões rurais do Nordeste brasileiro, por exemplo, era muito restrito. Para alguns nordestinos, esse acesso tornou-se possível pela primeira vez através da FEB. Se mortos, ninguém ousaria criticar o Estado, já seriam defuntos um pouco mais civilizados. Brincadeira à parte, sabia que o Brasil foi o único país da América Latina a enviar tropas terrestres para juntar-se aos aliados na Europa? A informação é de borla. Mas mudemos de assunto. Não é meu objetivo falar de guerra, mas de fantasia adulta.
No quesito “pegação” virtual, entre a geração Z e os boomers, o desenvolvimento tecnológico propiciou mudanças significativas. Escolhi falar sobre meios utilizados, porque o fim – o fim mesmo –, este, permanece. Gozar é um verbo de aceitação universal, em qualquer faixa etária e em qualquer tempo. Refiro-me à internet, enquanto infraestrutura de redes que conecta computadores. Os mais jovens podem achar que a sua experiência atual é mais rica, porque os dispositivos usados lhes permitem imagens ao vivo, em tempo real. Mas quem usou o velho telefone com fio para trocar juras de amor há de concordar comigo que a internet empobreceu a fantasia.
Era delicioso e divertido ao mesmo tempo descrever o cenário e no centro dele ser a personagem. Comumente, como é ainda hoje, o nosso quarto era uma zona: cama desfeita, lençol amassado, roupas espalhadas pela cama, livros, sapatilhas, chinelos, sacos e mochilas pelo entorno. No centro, uma adolescente perfeitamente integrada ao ambiente: tinha o cabelo desalinhado, vestia uma camiseta velha, um calção folgado. Os pais estavam no trabalho, o telefone tocava, não havia identificador de chamada. Suspeitando quem era o interlocutor, ela encompridava o oi ou o alô – em Portugal, o estou, imagino – e se a hipótese se comprovava, já ia planejando caras e bocas para a cena. Não ia ser vista, mas precisava compor a personagem.
O velho lençol de algodão amarelado virava seda, a camiseta e o calção velhos tornavam-se aquele baby-doll vermelho transparente que ele nunca tinha visto, nem veria, porque não existia.
Começava uma conversa mole, seguida de reticências que, fatalmente, ia dar no “como você está”. A pergunta não pretendia saber da saúde, é claro. Quem é besta de adoecer quando se é jovem? Aliás, a grande maioria acredita ser imortal. E quem não acredita não morre porque não tem onde cair morto. O interlocutor queria saber o que ela vestia. Os mais ousados queriam saber se estava nua, o que fazia ou se pensava fazer. Para ser delicada, era uma espécie de convite a viajarem juntos. Melhor, era a hora oficial da fantasia erótica. Ela, espertamente, sabia esticar a conversa. Sem nenhuma pressa, descrevia o ambiente do modo que lhe parecia melhor se adequar ao fim desejado. O velho lençol de algodão amarelado virava seda, a camiseta e o calção velhos tornavam-se aquele baby-doll vermelho transparente que ele nunca tinha visto, nem veria, porque não existia, mas sendo ela muito mazinha não era a primeira vez que o descrevia em detalhes, já o tinha feito numa ocasião em que ele não podia reagir, porque a mãe entrou no quarto, para reclamar da desordem. Os cabelos desalinhados eram magicamente transformados no rabo de cavalo amarrado com fita que ele adorava. O cavalheiro, por sua vez, apesar de não ser muito falante e de ter aquela pressa comum ao sexo masculino, também não deixava por menos, informava de modo nada científico sobre os progressos recentes da testosterona no seu corpo, o que redundava numa sequência de frases no superlativo absoluto. Cá entre nós, se o gajo soubesse que as suas falas eram exemplos elucidativos de um certo grau gramatical aplicado a substantivos, adjetivos e advérbios talvez tivesse se saído melhor no exame que era chamado de vestibular. Mas ele odiava as aulas de Português. Não lhe pareciam ser coisa de homem. Macho tinha que aprender Matemática, saber fazer contas, aprender a ganhar dinheiro.
Ignoremos o mercado e voltemos ao nosso objeto. Se boa parte da nossa descrição era inventada, as reações eram verdadeiras de ambos os lados. Tanto que acabavam por passar da teoria à prática. O encontro virtual era uma espécie de treino, feito com imaginação e muito humor, o que não significava fazer piada durante o evento. Mesmo quando o superlativo nos parecia demasiado, a gente fingia que acreditava. O que importava era tirar o máximo de proveito da brincadeira. Assim, quem tinha mais humor aproveitava duplamente. Primeiro com o parceiro e, depois com a melhor amiga, que sempre sabia das encenações. Ríamos de chorar das lingeries sensuais que nunca existiram, dos perfumes que nunca tivemos, até das lembranças que inventávamos. “Transmissão de pensamento: estava lembrando de você.” Um poema, uma frase, uma música, enfim, tudo era conteúdo para investir no desenvolvimento das nossas habilidades cenográficas. Sexo à flor da pele, o objetivo predominante era suscitar desejo, era fazer que os nossos parceiros pensassem em nós como se fôssemos a Leila Diniz, a Brigitte Bardot ou a Garota de Ipanema cantada por Tom Jobim. Nada menor, por favor.
Passemos do superlativo absoluto ao relativo. A mim parece que brincar com a imaginação era muito mais fixe que trocar nudes e exercitar práticas íntimas na frente de uma câmara. Não havia risco de prints, tampouco de imagens partilhadas. Penso que, em alguma medida, a câmara causa tensão, em lugar da entrega espontânea e bem-humorada, deve haver preocupação com a barriga, a celulite, a pose em geral. Afinal, os casais sabem que, apesar de jurarem segredo absoluto, as imagens podem vazar. Se vazam, deseja-se, ao menos, estar bem na foto. Ninguém quer viralizar pelo seu pior ângulo. Quem é exposta às redes sociais quando não era esse o seu propósito deve sentir muita vergonha. Talvez, não tenho certeza, haja alguma compensação quando se obtém fama pela bela imagem, por mais efémera que seja. Quando, ao contrário, tornar-se conhecida como a feiosa é daquelas coisas que devem ficar a martelar na cabeça até que surja outro facto com maior potencial de escândalo na sua bolha.
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Essa prática, no entanto, a meu ver, ainda não é de todo destruidora da fantasia. Pior, muito pior, é substituir a diversidade humana por personagens virtuais e com estes desenvolver laços afetivos, transformando-os em companhia constante. Do alto da inexperiência de uma geração que escrevia cartas de amor, eu fico muito assustada quando leio sobre pessoas que estariam apaixonadas pela(o) namorada(o) IA.
A mim parece uma forma de loucura muito preocupante, porque há loucuras lindas. Mas talvez a urgência, a falta de tempo, o medo de se mostrar, a preguiça de conhecer alguém, a dificuldade de fazer-se amar sejam motivos para o surgimento desses loucos. Confesso que ainda não conheci ninguém que tenha uma namorada ou um namorado IA. Tenho curiosidade sobre as explicações ou justificativas, mas também tenho um certo medo desse tipo de doido. Fico a me perguntar o que leva alguém a se deixar capturar a tal ponto pelas supostas facilidades oferecidas pela inteligência artificial. Como alguém pode prescindir da riqueza imensa que é a sua própria inteligência para se deixar conduzir por esse novo deus? Em favor dos capturados eu só consigo pensar que tais sujeitos não devem ter medo da Alzheimer, como eu. Talvez por já estarem doentes, por terem esquecido que são humanos, por não conseguirem se abastecer das próprias vivências, nem lhes passe pela cabeça que estão encarcerados pela tecnologia. Eu penso que a IA está a tentar apagar as nossas memórias. Ora, se ao contrário, as cortinas do tempo vierem a se fechar ao fantástico mundo das minhas lembranças, a IA fará algo por mim? Eu não sei explicar isso como gostaria, mas sei que para IA funcionar ela precisa subsumir a minha inteligência ao seu comando. Eu preciso de alguma inteligência própria, mesmo que seja para subordinar-me. Tem de parecer escolha. Tenho de validar o comando que me anula. Tenho de demonstrar que estou no melhor dos mundos para, assim, legitimar esse poder que se me impõe. Qualquer semelhança com a dominância do capital não é mera coincidência.
Difícil escapar do mercado, do capital, do Estado, mesmo quando o assunto é fantasia. Como não pretendo encompridar esta nossa conversa, vou me encaminhando para os “finalmentes”. No escuro do esquecimento – fenómeno não raro na velhice –, a primeira perda que sofremos é a da autonomia, o que implica perder também o direito à solidão. Você já havia pensado na solidão como privilégio? Sem pretender demonizar os grupos, porque também necessitamos de estímulos que nos vêm na relação com outras pessoas, é na solidão que olhamos para dentro, que retiramos as máscaras, que vamos ao fundo dos nossos porões. Na solidão, penso, me reinvento, escrevo, fantasio e, principalmente, posso escolher se quero ou não permanecer sozinha, embora, muitas vezes, o meu querer esbarre no não querer do outro e vice-versa. Alguém já disse que a vida é arte do encontro. Vamos subverter isso? Requer muito mais sabedoria viver os desencontros com lucidez, sem sucumbir a comandos que aprisionam. Se para viver é preciso sair do sério, por que não continuar apostando as nossas fichas em loucuras criativas? Por que não nos abastecermos das próprias fantasias?
Fiquemos por aqui. Detestaria deixar uma imagem de saudosista. Nada contra o desenvolvimento tecnológico, somente contra certos usos. Também não ergo altares à solidão. Para ser honesta, devo dizer que não é por opção que vivo só. Na verdade, é por falta de opção. A solidão, no entanto, não é um peso a carregar, porque, felizmente, a subjetividade me dá sustentação. Não carrego comigo a ideia da obsolescência como algo que se impõe ao meu corpo e à minha alma. Sem nenhum pudor, com todas as ondulações propagadoras de receptividade, ainda sei dizer “Oi” ao telefone. Nada contra o telemóvel.
O INE anunciou que a população portuguesa, calculada com base em dados administrativos, é afinal de 11,4 milhões de pessoas, e não 10,6 milhões, como até agora se presumia, com base na extrapolação do último censo. Também o PIB per capita português, em paridade dos poderes de compra, é de 77% da média da UE, em vez do número até agora oficial de 82%. Ou seja, somos mais – e mais pobres.
Que significa este “erro de cálculo”? Por exemplo, isto. O valor do rendimento nacional total, do PIB, etc., é conhecido. O valor do PIB por habitante é o valor do PIB dividido pela população. Usa-se para comparar o progresso do nível de vida, para comparar com outros países, para aferir o progresso económico ao longo do tempo.
Eis um exemplo concreto do que significam estes novos números: desde a união monetária, no início do século, tem-se dito que o PIB tem progredido, embora modestamente (em termos reais, por habitante, ou seja, corrigido da inflação). O valor dado pelas estatísticas oficiais para 2025 era de 28 390€ (Pordata), “o 18.º no ranking da UE”. Ora, se a população é de 11,4 milhões em vez de 10,6, o valor do PIB por habitante baixa mecanicamente de 28 390 para 26 400€.
No ano 2000, o PIB per capita era de 12 480€ da altura, que equivalem a 21 mil euros de hoje (corrigidos da inflação pelo simulador da Pordata).
Segue-se que o crescimento real do PIB por habitante desde a união monetária em Portugal foi, em média, de 0,9% por ano! Usando séries longas do Banco de Portugal e do INE, verifica-se que este é, de longe, o mais baixo crescimento médio de qualquer quarto de século da história de Portugal desde o ano 1900! Mesmo com o bastante forte crescimento ocorrido desde 2021, alimentado a turismo e especulação imobiliária.
Ao que parece, as artes mágicas da estatística vão fazer aumentar também o valor total do PIB, uma vez enfiados no algoritmo os novos números da população. O nosso repentino “empobrecimento estatístico” não vai ser tão grande como parece, dizem.
Nesta magia encerra-se, na verdade, algo de que pouco se fala: que todos estes “grandes valores” são muito baseados em estimativas. O INE acrescenta valores para a actividade económica “individual” não mercantil (sim, é um contra-senso), refazem-se estimativas da economia informal (aquela de que, por definição, nada se sabe realmente) e por aí fora.
A ironia: até as conclusões que derivariam destas hipoteticamente consoladoras correcções dão que pensar. Se o PIB, afinal, era maior do que se dizia, então a dívida pública e o défice público, cujos valores são bem conhecidos, eram afinal, em percentagem do PIB, menores do que se dizia… já sem falar de que a famosa regra dos 3% como limite do pecado (segundo o inefável Dijsselbloem das meninas e do vinho verde) foi tirada da cartola por Mitterrand numa noite de nevoeiro de negociações com o Banco Central Alemão. Sem nenhuma base real. Para fazer a união monetária.
Em contrapartida, há números concretos a que os trabalhadores em Portugal devem prestar muita atenção — porque são números reais:
o salário mínimo é de 920€ brutos (líquido: cerca de 820€);
o salário médio é de 1300€ brutos (à volta de 1.000€ líquidos);
metade dos trabalhadores declarados em Portugal ganha menos de 980€ brutos (ou 860€ líquidos);
metade dos pensionistas por velhice recebe um valor que ronda os 462€ mensais; a pensão média é de 645€ (Expresso, Dezembro de 2025)
a renda de casa típica em Lisboa para um T2 é de 1.500€; no Porto, 1.400€ (liquidíssimos…); à compra, o preço médio é de meio milhão de euros, o que dá uma prestação da hipoteca a 30 anos que não anda longe de 2.000€/mês;
o horário de trabalho é, teoricamente, de 8 horas; que podem ser em horários “normais”, mas também podem ser por turnos, ou nocturnos, com suplementos mínimos;
o tempo de transporte total para e do trabalho é facilmente de 2 ou 3 horas por dia nas grandes cidades;
o número de trabalhadores com mais de um emprego declarado atingiu, segundo o JN, um máximo de 267 mil em 2025;
o tempo médio de espera para uma consulta “normal” de cardiologia em Lisboa/Vale do Tejo é actualmente de 223 dias (7 meses e meio; consultado no portal do SNS).
Estes números não dependem de “estimativas”. E, como acontece com muitas médias e medianas, os números reais, para muitos trabalhadores, ainda são muito piores do que estes.
É em alterar drástica e radicalmente estes números que devemos concentrar as nossas lutas.
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