Médicos de diversos países a trabalhar em Gaza observaram um padrão perturbador: crianças com um único ferimento de bala na cabeça ou no peito, sinal de que tinham sido deliberadamente alvejadas. Esta conclusão pôde ser tirada graças a uma pesquisa do jornal neerlandês de grande circulação de Volkskrant, que falou com médicos que estão entre as últimas testemunhas oculares internacionais presentes na Palestina.
Quinze médicos de diversos países disseram ao jornal neerlandês de Volkskrant que, durante o seu trabalho nos hospitais de Gaza, assistiram crianças até aos 15 anos com ferimentos de bala na cabeça ou no peito. Segundo a estimativa mais conservadora, assistiram 114 crianças com estes ferimentos, a maioria das quais faleceu.
O jornal falou com 17 médicos e uma enfermeira dos EUA, e também do Reino Unido, Austrália, Canadá e Holanda que trabalharam em seis hospitais e quatro clínicas em Gaza desde outubro de 2023. Quinze deles disseram ao de Volkskrant que trataram pelo menos 114 crianças até aos 15 anos com um único ferimento por arma de fogo na cabeça ou no peito. A maioria destas crianças morreu em consequência desses ferimentos. Os casos foram documentados entre o final de 2023 e meados de 2025 em 10 diferentes hospitais ou centros de saúde.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”
Um dos médicos, o cirurgião de trauma norte-americano Feroze Sidhwa, recordou o seu primeiro dia no Hospital Europeu de Gaza, em março de 2024, onde encontrou quatro rapazes com menos de 10 anos com ferimentos idênticos na cabeça num intervalo de 48 horas.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”, disse ao jornal o Dr. Feroze Sidhwa. Nos 13 dias seguintes, assistiu mais nove crianças com ferimentos semelhantes.
Testemunhas oculares disseram aos médicos que os projéteis provinham principalmente de atiradores de elite ou drones do Exército israelita (IDF).
Os médicos entrevistados enfatizaram que tais ferimentos dificilmente seriam acidentais. Peritos forenses consultados pelo jornal disseram que o padrão uniforme sugeria disparos direcionados, possivelmente por franco-atiradores ou drones.
Isso mesmo foi corroborado pelo antigo comandante das forças terrestres holandesas, Mart de Kruif, que afirmou que a probabilidade de terem sido disparos acidentais é insignificante, dado que os médicos descreveram mais de uma centena de casos.
O primeiro-ministro israelita, Netanyahu, e as chefias militares têm negado que os soldados estejam a atacar deliberadamente civis palestinianos. No entanto, soldados anónimos têm admitido repetidamente o contrário ao jornal israelita Haaretz.
Os médicos citados também descreveram o dilema moral que enfrentam: se falarem abertamente, podem ser impedidos de regressar a Gaza. Segundo a ONU, Israel negou a entrada a mais de 100 profissionais de saúde internacionais desde março de 2025, sem uma explicação detalhada.
Nota: este texto foi elaborado pelo Maio tendo como fontes, além do já mencionado artigo de de Volkskrant, outros media internacionais como a Al Jazeera, a BBC, The Guardian e a Reuters.
Vários órgãos de imprensa, nomeadamente o Expresso, o Público e a CNN, reproduziram elementos filtrados do dossiê da acusação do Ministério Público ao grupo armado nazi Movimento Armilar Lusitano (MAL).
Referem que o grupo mantinha uma lista de “alvos” potenciais que incluía personalidades políticas e jornalísticas, associações e partidos, na maioria ligados ao movimento dos trabalhadores e à esquerda — incluindo Raquel Varela, da associação Maio em Movimento, que publica o Maio, bem como outros membros associados do Maio ou que com ele colaboram, dirigentes sindicais, e que são também visados nesta ignomínia, uma “lista negra” de homens e mulheres de luta e liberdade.
Não aceitamos ataques aos intelectuais públicos, aos trabalhadores organizados, aos dirigentes sindicais, associações populares e democráticas que se batem pela democracia, pelos direitos de quem trabalha, pelas minorias oprimidas, pelo socialismo. Este último é o campo do Maio. Eles não nos intimidarão. Tal como o pacote laboral, não passarão.
A imprensa deu destaque, nesta lista, às “ameaças” ao atual primeiro-ministro, que, como outros dirigentes do PSD e do jornalismo institucional, também constam da lista. A detenção dos suspeitos do MAL ocorreu em 2025. O momento destas revelações não será, pois, mera coincidência, quando Montenegro se propunha selar uma aliança de governo de facto com o Chega, depois de aprovar o “pacote laboral” de precarização geral do trabalho e de destruição dos direitos dos trabalhadores, nomeadamente dos sindicais e da greve (no que falhou).
Queria-se fazer parecer que a separação era entre “todos os democratas”, de um lado, e uns “mauzões” nazis; e que não só Montenegro, mas até Ventura, faziam parte dos primeiros — quando é público e notório que muitos dos grupos nazis são públicos apoiantes do Chega, que tem entre os seus dirigentes e membro da AR um dos chefes políticos do grupo terrorista de extrema-direita ELP/MDLP de 1975.
A verdadeira separação é entre quem trabalha e quem explora trabalho, é entre quem defende a igualdade, a liberdade e a fraternidade, reais, e quem cultiva a violência contra os trabalhadores e homens e mulheres da cultura.
O Referencial de Competências da Administração Pública – ReCAP é o vilão silencioso que opera a matematização do real nas escolas. É o instrumento que permite homogeneizar, uma grelha de cinco níveis de exigência desenhada para escrutinar o foro íntimo do professor, asfixiando a possibilidade de qualquer autonomia intelectual.
ilustração: Mantraste
Propõe-se o exercício mental de acordar em 2028. Nas escolas, reina um darwinismo social implacável, onde a eficiência e a flexibilidade são características de seleção natural. Quem se adapta progride, quem hesita perante o absurdo estagna ou é descartado por se tornar um excedente. A uniformização do pensamento emergiu vitoriosa e o professor é, por fim, um recurso, uma peça na engrenagem cujo valor de mercado é medido pela sua docilidade. Como tudo é estratégia, a especificidade do ato educativo foi dissolvida na transversalidade e, ao procurar-se uniformizar os instrumentos, a sala de aula converteu-se num guiché de atendimento, repescando o imaginário taylorista do início do século XX. O professor de qualidade é agora aquele que evidencia comportamentos estritamente alinhados com a visão, estratégia e missão da organização. Nos clássicos distópicos falar de organização é o mesmo que falar da elite governante, essa que controla de forma totalitária quer a classe burocrática, quer os proles. Em Orwell, é o Partido, em Zamiatine, o Estado Único. Neste caso, a Administração Pública (AP) limita-se a invocar que apenas obedece às melhores práticas europeias – à OCDE e ao Conselho Europeu.
Neste admirável mundo novo, a novilíngua é prática diária, e concebida não para ampliar, mas para restringir o pensamento. O professor é um colaborador, um termo que mascara a relação de subordinação sob uma falsa aura de parceria. É proativo, pois antecipa os desejos da gestão e assume responsabilidades sem que seja necessário um estímulo externo ou uma compensação financeira. É flexível, o que na prática significa que tem uma capacidade infinita de vergar a mola e aceitar a precariedade com um sorriso. Acima de tudo, o novo docente é um trabalhador-robô que trocou a sua humanidade pelo automatismo (qualquer semelhança com a aproximação à IA é mera coincidência).
O Referencial de Competências da Administração Pública – ReCAP é o grande arquiteto desta distopia, o vilão silencioso que, em 2028, opera a matematização do real nas escolas, levada a cabo como no Estado Único de Zamiatine. É o instrumento que permite homogeneizar, uma grelha de cinco níveis de exigência desenhada para escrutinar o foro íntimo do professor. Atente-se como, neste panóptico, a Portaria n.º 214/2024 ergue esse sistema de vigilância que se ramifica em duas grandes categorias de controlo comportamental – competências transversais nucleares e competências transversais funcionais –, asfixiando a possibilidade de qualquer autonomia intelectual.
Acima de tudo, o novo docente é um trabalhador-robô que trocou a sua humanidade pelo automatismo.
Ora, as “Competências transversais nucleares” funcionam como os pilares da novilíngua, traduzindo a visão e a cultura da AP em amarras de conformidade para todos os trabalhadores, independentemente da sua função. A competência “Orientação para o serviço público” tornou-se a ferramenta de cosmética, onde o professor deve servir de exemplo para incrementar a confiança e reforçar a imagem de uma administração ao serviço do interesse coletivo. No nível 1, o professor limita-se a cumprir normas, contudo, a pressão surge no nível 4, onde deve servir de exemplo e encorajar os outros a adotar condutas que respondam às expectativas do serviço público. No nível 5, a distopia atinge o seu apogeu, o docente não só obedece como se torna o mentor do seu próprio controlo. É o próprio quem concebe os indicadores, quem define as metas, quem transforma qualquer projeto pedagógico numa sucessão de evidências para o relatório de avaliação e quem instrui os colegas a falar a língua do regime totalitário. Neste cenário, a ética foi devorada por uma estética da conformidade, onde importa menos a qualidade do ensino do que a capacidade para exibir (ou martelar) resultados. Veja-se a competência “Orientação para a mudança e inovação”, onde a novilíngua transformou as dificuldades e adversidades em desafios e oportunidades. A iteração dos cinco níveis exige muito mais do que adaptação, exige um entusiasmo obrigatório perante qualquer reforma (perdão, inovação).
A escola transformou-se numa fábrica de dados. Na “Orientação para os resultados”, que na verdade é orientação para os recursos, tal como um operário fabril que é instruído a não desperdiçar matéria-prima, o professor de nível 1 foca-se na sobrevivência minimalista do sistema. Na prática, isto traduz-se na gestão escrupulosa de fotocópias, no racionamento de material pedagógico e na aceitação de infra-estruturas degradadas (ou ainda com amianto) sob o pretexto da sustentabilidade da AP. Mas a verdadeira tirania da competência revela-se no nível 5, onde o professor deixa de ser apenas quem executa para se tornar quem concebe o sistema de controlo. Neste nível, o docente deve estabelecer metas ambiciosas e conceber metas específicas e mensuráveis para a qualidade. A sala de aula é um mero laboratório de processamento de dados. Nestas folhas de cálculo, o que é humano é descartado como ruído de processamento ou externalidade irrelevante. O que não pode ser quantificado (o afeto, o pensamento crítico, a autoestima, a solidariedade) simplesmente não existe para o sistema, porque não acompanha a inovação.
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O professor robotnik é escrutinado no seu quotidiano operacional, onde a linguagem comum do ReCAP molda cada gesto, bem visível nas “Competências transversais funcionais”.
Na competência de “Inteligência emocional”, não basta ensinar, é preciso controlar as suas emoções (nível 2) e garantir que as necessidades emocionais dos outros estão salvaguardadas (nível 5). Quem manifesta cansaço ou indignação é acusado de não ter inteligência, pois falha em manter a objetividade sob pressão. Até porque quem age de forma rápida e decisiva em situações de crise é premiado com o nível 5 na competência “Iniciativa”.
O erro, outrora parte da aprendizagem, é agora um desvio intolerável inscrito na competência “Tomada de decisão”, exigindo que o professor tome decisões com rapidez (nível 1), mesmo que envolvam escolhas impopulares (nível 1), que siga estritamente procedimentos e diretrizes para evitar falhas, castrando a criatividade docente.
Estas especificidades são apenas amostras do panorama que levam a que o docente de 2028 viva obcecado pela otimização dos recursos, ou pelo sucesso educativo. O professor deve adaptar a sua voz para seduzir o aluno-cliente e os agentes económicos que ditam o currículo (visível em qualquer nível da competência “Orientação para a participação”, onde se inscreve o garante da participação dos cidadãos e dos agentes económicos no processo de tomada de decisão). E, no topo desta pirâmide, reina, como diria Michael Sandel, a tirania do mérito. Aqueles que ascendem aos níveis superiores olham com desdém para os que ficam para trás, rotulando a exaustão alheia como uma falha individual. Para os que não alinham, o sistema reserva as sinergias, um eufemismo para a perda de identidade.
Nesta escola-empresa, o burnout é uma epidemia silenciosa. No entanto, seguindo a lógica da novilíngua, o esgotamento é visto como uma falha individual na gestão do stress e não como sintoma de uma sociedade profundamente enferma. O professor que adoece é aquele que não soube ser suficientemente robô, que não conseguiu transformar a frustração em frenesim pelo trabalho.
Sucede que nos romances distópicos há sempre a figura do herói, que semeia a esperança e transporta o último reduto de humanidade. Em Fahrenheit 451, Montag resgata a vida da cinza dos livros que outrora era obrigado a queimar, até compreender que “agarrarei o mundo para nunca mais o largar. E já o toquei com um dedo para começar”. Em Nós, de Zamiatine, D-503 descobre o sonho e, com ele, a claridade quase dolorosa da imaginação que leva à realidade: “Bebi as centelhas doces, picantes, frias. E nesse momento o meu sangue e todo o universo correram mil vezes mais velozes; a terra girava com a leveza duma pena. E todas as coisas se tornaram para mim leves, simples, claras.” Em 1984, Winston Smith procura desesperadamente preservar um espaço íntimo onde o pensamento ainda não foi colonizado pelo Partido. Em V de Vendetta, Evey Hammond emerge transformada e é nessa metamorfose que culmina a marcha apoteótica de pessoas anónimas usando máscaras de Guy Fawkes, multiplicadas na rua, num símbolo de dissolução do medo e, simultaneamente, de resistência de massas.
O herói distópico não é necessariamente um revolucionário, no entanto, todas estas personagens têm um traço em comum, todas recusam reduzir-se à utilidade que o regime lhes reserva. Aliás, a rebelião começa no momento em que preservam uma visceralidade a que o sistema não consegue aceder. A esperança parece residir, então, na recusa de ser um autómato.
Para lá das distopias, como Ulrich, em O Homem sem Qualidades, de Robert Musil, o herói-professor deve manter viva a linda sombra do ‘como seria’ sobre o seu coração. No caos disfarçado de 2028, sob o Big Brother do ReCAP, a salvação está em preferir a ‘lógica deslizante’ da alma à rigidez dos procedimentos, mantendo a escola como o lugar onde, ainda, se amplia o possível.
O exercício mental termina. E apercebemo-nos de que 2028 já está aí, ao virar da esquina.
Quando a Índia incorporou Goa em 1961, muitos goeses com cidadania portuguesa ou ligações a Portugal emigraram nos anos seguintes. A maior vaga histórica chegou após a independência das colónias africanas de Portugal, nomeadamente Moçambique e Angola. Durante gerações, muitos sul-asiáticos, sobretudo hindus gujaratis, muçulmanos, ismaelitas e goeses, tinham vivido na África Oriental sob domínio colonial português. Com a descolonização, milhares relocalizaram-se em Portugal. Mais recentemente, desde a década de 1990, Portugal tem atraído novos migrantes diretamente do Sul da Ásia, em particular da Índia, Paquistão, Bangladesh e Nepal. A maioria provém de famílias de classe média baixa. Muitos trabalham na agricultura, construção, hotelaria, restauração, entregas e pequenos negócios. O desconhecimento em relação à comunidade sul-asiática em Portugal é grande, o que acentua fenómenos de racismo e promove a sua invisibilidade política. Jonas Van Vossole entrevistou para o Maio Amit Singh, investigador na Universidade de Coimbra.
ilustração: Ricardo Ferreira
Jonas Van Vossole (JVV): Com campanhas como “Isto não é Bangladesh” e operações policiais como as do Martim Moniz, a comunidade sul-asiática tornou-se um dos principais alvos da propaganda racista e anti-migração da extrema-direita e, crescentemente, do próprio Governo, apesar de ser uma comunidade relativamente pequena.
Quais são as origens históricas desta comunidade em Portugal? Como se relacionam as diferentes vagas com a história colonial portuguesa: o subcontinente indiano, a África Oriental, Macau?
Amit Singh (AS): Durante o período colonial português na Índia, um pequeno número de goeses com formação superior veio para Portugal em busca de educação e emprego. Um ponto de viragem decisivo ocorreu quando a Índia incorporou Goa em 1961. Muitos goeses com cidadania portuguesa ou ligações a Portugal emigraram nos anos seguintes. A maior vaga histórica chegou após a independência das colónias africanas de Portugal, nomeadamente Moçambique e Angola, em meados da década de 1970. Durante gerações, muitos sul-asiáticos, sobretudo hindus gujaratis, muçulmanos, ismaelitas e goeses, tinham vivido na África Oriental sob domínio colonial português. Com a descolonização, milhares relocalizaram-se em Portugal.
Desde a década de 1990, Portugal tem atraído novos migrantes diretamente do Sul da Ásia, em particular da Índia, Paquistão, Bangladesh e Nepal. A maioria provém de famílias de classe média baixa. Muitos trabalham na agricultura, construção, hotelaria, restauração, entregas e pequenos negócios. O migrante sul-asiático recente típico é frequentemente um jovem adulto de família de classe trabalhadora ou média baixa que vê a migração como uma estratégia de mobilidade social e segurança económica. Embora muitos comecem em setores de baixos salários, o espectro vai de trabalhadores agrícolas a licenciados e empresários. Esta diversidade é importante porque o debate público em Portugal tende a retratar os migrantes sul-asiáticos como um grupo homogéneo, quando na realidade diferem consideravelmente em termos de nacionalidade, classe, educação, religião e percurso migratório.
(JVV): O que nos dizem os números? Qual é a proporção real de imigrantes do subcontinente indiano nos fluxos migratórios para Portugal?
(AS): Tem havido um aumento muito acentuado da imigração para Portugal nos últimos anos, e a migração sul-asiática é uma parte visível dessa subida — mas não é uma “explosão súbita do nada”, e continua a ser uma minoria num boom migratório muito mais amplo, impulsionado sobretudo pelo Brasil e pela África lusófona. Os sul-asiáticos têm um peso significativo entre as novas chegadas, mas não são a comunidade dominante em termos de população. Antes de 2015–2018, a migração sul-asiática era relativamente pequena: a comunidade indiana nos inícios de 2010 situava-se entre os 10 000 e os 20 000, e os nepaleses e bangladeshis eram muito poucos. Após 2017, a comunidade indiana cresceu dos 34 000 (cerca de 2022) para 100 000 (2024), tornando-se a segunda maior comunidade a seguir à brasileira; seguem-se aproximadamente 58 000 nepaleses, 55 199 bangladeshis e 48 508 paquistaneses (Público, 27 de abril de 2026). Estas quatro comunidades somaram cerca de 652,12 milhões de euros em contribuições para a Segurança Social em 2025 (Público, ibid.).
(JVV): Quais são as principais dificuldades que estas comunidades enfrentam: legais, administrativas, ao nível das condições de trabalho? E qual tem sido o efeito concreto da conhecida disfunção da AIMA na vida das pessoas, no seu estatuto legal e no acesso a direitos laborais?
(AS): A AIMA adotou uma estratégia deliberada de assédio aos migrantes sul-asiáticos, através de atrasos que não podem ser explicados por mera incompetência institucional. Quero citar o meu próprio caso: tenho um visto de ensino superior há oito anos. Até 2022, raramente tive problemas em renovar a minha autorização de residência online; desde janeiro de 2026, estou bloqueado no processo de renovação. Após seis meses de espera, marcaram-me uma presença para verificação de documentos — algo que poderia ter sido feito online. Durante esse período de espera, não posso viajar para o estrangeiro, o que me fez perder seminários e eventos académicos. Agora tenho de viajar por uma emergência familiar sem ter a minha autorização de residência, situação que cria a possibilidade de um regresso a Portugal com enormes complicações legais.
Sem documentos válidos, não podem abrir conta bancária, não podem circular livremente e, em muitos casos, são explorados pelos seus empregadores.
Mas a situação dos migrantes sul-asiáticos que trabalham na agricultura, construção e restauração é ainda mais precária. Sem documentos válidos, não podem abrir conta bancária, não podem circular livremente e, em muitos casos, são explorados pelos seus empregadores: trabalhando em excesso, mal pagos, mantidos em condições de vida desumanas. A falta de documentação válida coloca-os numa precariedade legal, social, psicológica e económica que resulta em múltiplas violações de direitos humanos. Ao atrasar a emissão e renovação de documentos, o Estado português nega a estes migrantes o direito a viver com dignidade, a trabalhar em condições decentes e a aceder às necessidades humanas básicas. Sem documentos válidos, encontram-se num limbo jurídico que os torna vulneráveis à exploração — os empregadores privados recusam aceitar o recibo comprovativo de pedido emitido pela AIMA — e que os impede de aceder a serviços básicos, incluindo habitação. As incertezas geradas por este limbo não só violam inúmeros direitos laborais como provocam ansiedade crónica e sérios problemas de saúde mental. Mesmo os que têm documentos válidos não estão em condições de contestar a AIMA ou a polícia, pois já se encontram numa situação vulnerável por falta de rendimentos suficientes, barreiras linguísticas, falta de informação e de redes locais.
Já sabemos que há migrantes que passam a noite à porta das instalações da AIMA à espera que abram de manhã. É simplesmente humilhante. Em vários casos — incluindo a minha própria experiência —, funcionários da AIMA, do IRN e dos CTT recusaram comunicar em inglês e humilharam publicamente sul-asiáticos por não falarem português, negando-lhes a prestação de serviços. Este padrão normalizou-se também nos espaços públicos. A polícia, a administração e a AIMA têm falhado na prestação de serviços de apoio e tornaram-se eles próprios a principal fonte de problemas para os imigrantes. O apoio disponível é manifestamente insuficiente, e a polícia, na maioria dos casos, não leva a sério as queixas apresentadas. Nos postos de controlo de imigração, os sul-asiáticos são alvo de escrutínio racial e interrogatórios sistemáticos.
Apesar do contributo valioso destas comunidades para os fundos da Segurança Social e para a construção da sociedade portuguesa, são ignoradas pelo Estado e pela sociedade. Parece-me que a sociedade portuguesa, sob a influência da ideologia de extrema-direita, desenvolveu uma apatia relativamente aos direitos destes migrantes. São vistos como fanáticos — sobretudo os muçulmanos —, sujos e propensos ao crime. Estes migrantes são vítimas de racismo e discriminação quotidianos — que em muitos casos não chegam a ser denunciados —, não só por parte das agências governamentais mas também por parte de portugueses em geral. Os imigrantes sul-asiáticos são culpabilizados pela crise da habitação e pelo aumento da criminalidade, mas não são responsáveis por nenhum dos dois fenómenos. São os ricos ocidentais que compram casas e os portugueses que arrendam os seus imóveis a turistas. Os imigrantes sul-asiáticos não têm capacidade financeira para gerar uma crise habitacional em Portugal, e não existem estudos que demonstrem qualquer correlação entre o aumento da imigração sul-asiática e o aumento da criminalidade.
Todos os trabalhadores em Portugal têm direito à igualdade de direitos; o problema central reside no acesso efetivo ao seu exercício. A questão crucial é saber se os imigrantes sul-asiáticos marginalizados conseguem aceder a esses direitos com a mesma eficácia que os trabalhadores portugueses. Na situação atual, muitos não conseguem, pelas razões já discutidas. É, por isso, urgente construir solidariedade entre todos os trabalhadores, de modo a que a luta contra a injustiça social e as desigualdades estruturais possa ser travada coletivamente. Esta luta é um projeto comum, que exige responsabilidade e apoio mútuos. Um movimento fundado em interesses partilhados e causas comuns tem mais probabilidades de garantir o direito a uma vida digna e decente para todos.
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O papel negativo do atual Governo de direita também merece escrutínio: a sua postura anti-imigração reflete-se nas rusgas policiais ao Martim Moniz em 2024, na aprovação de legislação sobre nacionalidade que não é favorável aos imigrantes sul-asiáticos e nos discursos de ódio anti-imigração. Em termos gerais, os migrantes sul-asiáticos estão a ser progressivamente alienados da sociedade mainstream e empurrados para uma condição de cidadãos de segunda categoria em Portugal.
(JVV): Apesar de serem o principal alvo da propaganda da extrema-direita, as comunidades sul-asiáticas não parecem ter-se tornado uma causa política sustentada para a esquerda. A que se deve isso, na sua opinião?
(AS): Uma grande proporção dos migrantes da Índia, Nepal, Bangladesh e Paquistão chegou a Portugal apenas na última década. As relações políticas costumam demorar anos, ou até gerações, a desenvolver-se. Os migrantes sul-asiáticos concentraram-se sobretudo na obtenção de estatuto legal, emprego, habitação e reunificação familiar, mais do que na participação política. As comunidades sul-asiáticas em Portugal continuam fragmentadas por origem nacional, língua, religião, região e casta, o que dificulta a mobilização política coletiva.
(JVV): A esquerda falhou na construção de relações políticas significativas com estas comunidades? E, se sim, o que explica esse fracasso?
(AS): Os migrantes sul-asiáticos são ainda relativamente recentes. Muitos não têm cidadania e não podem votar nas eleições nacionais. Acredito que os partidos de esquerda em Portugal tendem a investir os seus recursos onde os retornos eleitorais são mais imediatos. As comunidades com menor participação eleitoral recebem menos atenção de todos os partidos. Por outro lado, parte da diáspora sul-asiática tem posições que nem sempre se alinham facilmente com a política da esquerda europeia contemporânea: a maioria dos migrantes sul-asiáticos é socialmente conservadora, religiosa, orientada para a família e para o empreendedorismo individual, mais do que sindicalizada. Isso pode deixar os partidos de esquerda incertos sobre como envolver politicamente estas comunidades.
A polícia, a administração e a AIMA têm falhado na prestação de serviços de apoio e tornaram-se eles próprios a principal fonte de problemas para os imigrantes.
A esquerda falhou na construção de relações significativas porque não investiu o suficiente em recrutar líderes sul-asiáticos, promover candidatos destas comunidades, construir relações de base e compreender a diversidade interna das populações sul-asiáticas. Embora partidos como o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português tenham genericamente defendido os direitos dos migrantes, nenhum construiu ainda uma base política sul-asiática sólida e duradoura comparável às relações que alguns partidos europeus de esquerda desenvolveram com comunidades imigrantes mais antigas.
(JVV): Há também uma ausência notável de esforço sindical para organizar os setores onde os trabalhadores sul-asiáticos estão muito presentes, nomeadamente a pesca e o setor agrícola no Alentejo. Como explica isso? Os sindicatos não querem, não conseguem, ou são simplesmente indiferentes?
(AS): A agricultura e as pescas têm sido historicamente dos setores mais difíceis de sindicalizar, porque os trabalhadores têm frequentemente contratos temporários ou sazonais e mudam com frequência de entidade patronal e de região. Os trabalhadores imigrantes temem perder o emprego se se tornarem ativos em conflitos laborais. Estas condições dificultam a organização coletiva independentemente da nacionalidade. Muitos trabalhadores sul-asiáticos em Portugal tinham processos de regularização pendentes, situações de residência temporária e dependência de intermediários ou recrutadores de mão de obra. Trabalhadores que receiam perder o emprego ou as perspetivas de residência são muitas vezes relutantes em aderir a sindicatos ou participar em ações coletivas. A barreira linguística é também um obstáculo real à construção de confiança e comunicação.
Muitas estruturas sindicais foram construídas em torno dos trabalhadores portugueses e dos setores laborais mais antigos. Os migrantes sul-asiáticos chegaram mais depressa do que as instituições se adaptaram. Nesse sentido, o que existe é sobretudo inércia institucional, falta de prioridade estratégica e fraco conhecimento das comunidades migrantes, mais do que hostilidade declarada. Os sindicatos portugueses não desenvolveram ainda uma estratégia para os trabalhadores sul-asiáticos à altura da importância crescente destas comunidades em setores como a agricultura do Alentejo.
(JVV): Existem formas de auto-organização dentro destas comunidades: associações, lideranças políticas, iniciativas coletivas?
(AS): Os sul-asiáticos pertencem a culturas não confrontacionais; em Portugal, hesitam em desafiar as autoridades, uma vez que a obediência à autoridade é um dos valores centrais da cultura asiática. A maioria dos imigrantes sul-asiáticos carece do ímpeto anticolonial que os seus antepassados tiveram. Em Portugal, a maioria das organizações de imigrantes concentra-se no apoio comunitário, nos direitos dos migrantes, na representação cultural e na integração, mais do que na política eleitoral. Alguns exemplos relevantes:
A NIALP – Associação Intercultural de Lisboa, fundada por membros da comunidade nepalesa, trabalha na integração, nos direitos dos migrantes e no apoio social. A Portugal Multicultural Academy Association tem fortes ligações à comunidade bangladeshi e presta apoio em educação, formação e questões de imigração. A Bhoomi – Indian Cultural and Welfare Association promove a vida cultural indiana e o bem-estar comunitário, funcionando como plataforma de envolvimento cívico para os indianos residentes em Portugal. Existem ainda associações bangladeshis locais em Lisboa e Porto, bem como a Associação Luso-Paquistanesa em Lisboa, que participa em reuniões com a AIMA. Nos últimos anos, as associações sul-asiáticas começaram a intervir publicamente em matéria de legislação sobre imigração, atrasos nas autorizações de residência, exploração laboral e xenofobia. As associações indiana e bangladeshi criticaram publicamente, por exemplo, as alterações à legislação de imigração em 2024.
(JVV): Quais são os principais obstáculos a esse tipo de organização: vulnerabilidade legal, diversidade interna, falta de recursos, hostilidade institucional?
(AS): A mobilização política parece menos urgente do que as preocupações económicas imediatas. Muitos migrantes estão focados no estatuto legal e no avanço económico. A maioria das organizações funciona com voluntários e carece dos recursos, pessoal e acesso aos meios de comunicação de que dispõem as grandes organizações da sociedade civil portuguesa. As comunidades são altamente fragmentadas: “sul-asiático” inclui indianos, bangladeshis, paquistaneses, nepaleses e cingaleses, divididos ainda por língua, religião, região e classe. Muitas associações privilegiam as necessidades práticas em detrimento da agenda política: o foco está frequentemente em ajudar as pessoas a obter documentos, encontrar habitação, lidar com os procedimentos da AIMA, aprender português ou aceder a cuidados de saúde.
Os partidos políticos, os sindicatos e os meios de comunicação não criaram canais suficientes através dos quais as vozes sul-asiáticas possam influenciar o debate público. Sem aberturas institucionais, as organizações comunitárias tendem a permanecer viradas para dentro. A diversidade interna é também um obstáculo real: línguas, religiões, identidades nacionais e origens de classe distintas. Um empresário indiano em Lisboa, um trabalhador agrícola bangladeshi em Odemira e um trabalhador nepalês num restaurante no Porto têm prioridades muito diferentes. No entanto, as gerações mais novas e os migrantes com maior formação participam crescentemente no debate público sobre imigração, em iniciativas antirracistas e em trabalho académico e jornalístico. O paradoxo é que os sul-asiáticos se tornam cada vez mais importantes para a economia e a demografia portuguesas, mas continuam sub-representados nos partidos políticos, nos sindicatos, na política municipal e nos meios de comunicação nacionais.
(JVV): Há alguma voz política emergente, por mais frágil que seja, dentro destas comunidades?
(AS): A liderança tem vindo crescentemente não só de empresários e instituições religiosas, mas também de ativistas pelos direitos dos migrantes, investigadores, jornalistas e organizadores comunitários que trabalham em torno dos direitos laborais, regularização, habitação e integração. Na comunidade nepalesa, uma das figuras mais visíveis é Kamal Prasad Bhattarai, presidente da associação NIALP. Na comunidade bangladeshi, líderes como Alam Shah Kazolm e Rana Taslim Ud-Din têm atuado como intermediários entre os migrantes e as instituições portuguesas. A comunidade indiana é mais fragmentada. Na comunidade paquistanesa, Muhammad Yassin e Muhammad Khalid Ejaz são lideranças reconhecidas.
Segundo o dicionário da língua portuguesa da Porto Editora, nome masculino que significa 1) ódio, antipatia ou aversão aos Judeus enquanto grupo étnico e religioso; 2) doutrina ou prática que promove hostilidade, perseguição, discriminação, preconceito e/ou violência contra judeus, em virtude da sua identidade étnica e/ou religiosa.
EM NOVILÍNGUA:
O combate ao antissemitismo e a aprovação de leis como o Antisemitism Awareness Act nos EUA ou a proibição do discurso de ódio contra os Judeus e a negação do Holocausto no Código Penal alemão do pós-guerra são conquistas civilizacionais. Mas isto é completamente subvertido quando legislação como a aprovada em novembro de 2024 na Alemanha, a resolução “Nie wieder ist jetzt” ("Nunca mais é agora"), é usada para criminalizar o apoio a grupos como o BDS (Boicote, Desinvestimento, Sanções) contra o atual governo genocida de Israel ou para reprimir violentamente manifestantes que exercem o seu direito de protestar contra os crimes praticados diariamente por Israel contra o povo palestiniano e libanês. ASP
Eis com que se parece uma semana normal numa empresa privada de prestação de serviços de localização e avaliação de modelos de IA para uma das “Big Five”1. O testemunho foi-nos prestado sob anonimato (lendo, percebe-se porquê). Descreve as relações entre o empregador e os trabalhadores no seu local de trabalho, “relações que evidenciam que não estamos, de forma alguma, numa relação entre partes iguais. Estamos numa relação assimétrica de poder onde quem necessita de trabalhar tem de aceitar o impensável e quem contrata é generosamente remunerado para defender os interesses da empresa – e é importante dizer que estes se resumem exclusivamente à subjugação do trabalhador e à demissão total da responsabilidade de ‘liderar’ e construir um bom produto para o cliente, de confiar ao trabalhador as condições e autonomia para produzir um bom produto”.
ilustração: Mantraste
Como é uma semana relativamente normal na empresa onde trabalho? Tenho de começar por dizer que não tenho um empregador, tenho vários: trabalho numa empresa contratada por um dos gigantes tecnológicos para, inicialmente, internacionalizar algumas das soluções digitais da especialidade deste gigante. Portanto, o meu cliente paga à minha empresa para prestar um serviço. A minha empresa é uma das filiais do grupo, com presença global.
À primeira vista, parece tratar-se de três empregadores. A coisa não é tão simples. O cliente divide-se em dois grupos, que têm objetivos contraditórios: um deles é o serviço de consultoria do gigante tecnológico, de quem recebemos diretamente o trabalho durante o nosso dia; o outro é o braço de operações do mesmo gigante, que dita as métricas que pretende ver implementadas. Já vou em quatro empregadores. É-nos vedado qualquer acesso às responsabilidades exclusivas que cada uma destas figuras tem. Falo em “empregadores” de um modo irónico, porque decisões impopulares são frequentemente imputadas a um dos clientes dentro do cliente – e, embora seja sobejamente conhecido o poder de um gigante tecnológico para fazer impor a sua vontade a um prestador de serviços, os trabalhadores conseguiram recolher algumas informações junto de diferentes gestores diretos que confirmam a forte conivência do empregador com o cliente.
Os trabalhadores são maioritariamente estrangeiros, embora a filial portuguesa tenha iniciado atividade num período pré-IA, dispondo de um orçamento inicial suficientemente atrativo para fazer que um número significativo de trabalhadores de uma Teleperformance mudasse para a minha empresa. O forte desconhecimento da legislação laboral, o medo, o individualismo meritocrático e as condições absolutamente execráveis do mercado de trabalho atual são os principais obstáculos a uma possível união entre os trabalhadores da minha empresa. Contudo, importa ressalvar que, no passado, foram bloqueados os primeiros e últimos tímidos esforços para uma organização dos trabalhadores, sob pretexto de que o cliente cessaria a sua atividade com a minha empresa em caso de organização coletiva dos trabalhadores.
Dito isto, passarei a dizer como se desenrolam os dias. É no ambiente de trabalho do cliente, no seu ecossistema operativo, que quer eu e os meus colegas quer a chefia da minha empresa nos defrontamos todos os dias. Somos obrigados a manter a nossa comunicação quase completamente informal, porque, como nos recorda a nossa empresa todos os dias, o cliente é um gigante tecnológico que está habituado a ter o que quer, depressa, sem protestos, sem estrutura, sem planeamento, sem concessões. Assim, com exceção de algumas ocasiões em que necessitamos de pedir e justificar horas, não trocamos um único e-mail entre nós. Comunicamos por chats, e para cada projeto – às vezes, para cada tarefa – é criado um chat. O histórico é apagado decorrido algum tempo. A informação relevante para os trabalhadores é comunicada em reuniões e somente as reuniões de projeto costumam ter notas e/ou ser gravadas. As perguntas dos trabalhadores são enviadas com antecedência e as respostas dadas no momento, não deixando ao trabalhador qualquer tempo de reflexão, comparação ou análise. Algumas destas reuniões passaram a ser, uma vez despojadas do inconveniente da questão inesperada, gravadas. Cumpre-se o ritual do consentimento e da aparência de diálogo. O management reúne com cada elemento da sua equipa individualmente, sem notas, frequentemente sem ordem de trabalhos.
O cliente é um gigante tecnológico que está habituado a ter o que quer, depressa, sem protestos, sem estrutura, sem planeamento, sem concessões.
Cumpre-se o ritual da proteção da privacidade. E aquilo a que frequentemente se assiste é ao puro devassar da dignidade do trabalhador enquanto tal, da sua integridade emocional e psicológica. Nas reuniões com o nosso management, chamemos-lhe um middle management, ou direção intermédia, somos ameaçados com processos disciplinares por desafiarmos decisões que degradam a qualidade do nosso trabalho, sem qualquer prova – aliás, contra todas as provas, com recurso a um texto preparado pela IA, como num caso de que escutei a gravação e que se referia a um trabalhador de métricas exemplares; sem qualquer visibilidade para além dos limitados acessos que nos são concedidos pelo cliente, somos responsabilizados nestas reuniões pela falta de trabalho normalmente verificada durante períodos em que o cliente está a analisar o produto entregue, somos culpabilizados pela competição e eventual perda de quota de mercado em migração para serviços de IA, quando nem a nossa empresa nem o nosso cliente nos disseram quais as ferramentas e cursos que gostariam de ver-nos dominar e concluir.
O nosso contrato estipula que o empregador se reserva o direito de definir exclusivamente os critérios de avaliação do desempenho anualmente, mas estes são partilhados sempre a mais de meio do ano e, no que diz respeito aos critérios de obtenção de um bónus, contratualmente estipulado e fixado num máximo que difere de trabalhador para trabalhador, estes foram partilhados por email (um dos tais raros emails) dias antes da data em que se convencionou atribuir o bónus. Todos os anos, estes critérios mudam – critérios que vêm acompanhados de quotas, naturalmente, porque a realidade já tem de vir previamente estabelecida e organizada num Excel e a excelência limitada, contadinha, antes de encarnar na figura humana. Este ano foi particularmente polémico, pois a nossa chefia decidiu que a assiduidade é uma característica do desempenho – logicamente (??) – e, como tal, alguns trabalhadores viram-se confrontados com uma situação caricata: tiveram mau desempenho porque ele não existiu. As baixas só podem ser uma astúcia do trabalhador preguiçoso e malandro, sobre o qual importa levar a melhor, naturalmente. Durante estas mesmas reuniões, onde vai morrer numa vala comum a ideia enfezada de que estamos perante uma relação entre partes iguais, a nossa avaliação anual decorre de um para um: o manager que gere a equipa e o trabalhador sob essa chefia, sem qualquer tabela, sem análise mais ou menos detalhada, sem possibilidade de apelo. São apresentadas razões que determinaram uma avaliação mais baixa para o trabalhador e que oscilam entre o ofensivo e desesperado (o trabalhador teve fraco desempenho porque não foi a eventos sociais fora, ou parcialmente fora, do horário de trabalho, sem que o nosso cargo cumpra alguma função de vendas, marketing ou relações públicas) e o fantasioso (o trabalhador deveria ter criado mais trabalho para si), resvalando mesmo para o ataque pessoal (apesar de reconhecido publicamente pelos pares pelo seu trabalho de qualidade, devidamente documentado, o trabalhador questionou as prioridades da chefia com o intuito de melhorar o modo como se trabalha, e todo o trabalho do ano é resumido ao momento de desafio do chefe). Como somos uma empresa composta por cerca de 100-150 trabalhadores (em Lisboa) em regime híbrido alternado, percebemos que os recursos humanos servem também o clima de opacidade quando nos negam mecanismos de recurso e de avaliação externa, pelo que o apelo é de novo reenviado ao manager direto, o mesmo que nos fez a avaliação.
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O absurdo faz-se duramente sentir durante cada dia de trabalho, em que temos de registar 37.5 horas de trabalho semanal – quer tenhamos tarefas, que são da exclusiva responsabilidade do cliente, quer não tenhamos, temos de registar essas mesmas 37.5 horas, porque, segundo o nosso empregador, o cliente paga para que trabalhemos 8 horas diárias, mas não nos dá trabalho todos os dias, embora haja dias em que nos dá trabalho que corresponde, caso se mantivessem as estimativas e prazos desejados, a 2, 3 ou 4 trabalhadores. Quando estamos a trabalhar, temos de trabalhar em vários projetos simultaneamente e sucumbir à ditadura da interpelação imediata num chat, pelo que a consciência exata da quantidade de tempo despendido em cada tarefa ou comunicação é, naturalmente, fragmentária, o que não nos dispensa da violência de o registarmos ou de justificarmos o tempo utilizado acima da média, ou do esperado. Recentemente, deixámos de poder registar abertamente o tempo que utilizamos em verificação de correspondência eletrónica, chats (os dos projetos em que não estamos ativos no momento, mas em que nos poderão envolver a qualquer momento), ou mesmo tempo dedicado a ajudar um ou outro colega com as suas tarefas. Desde o momento em que o nosso trabalho passou a incidir cada vez mais sobre modelos de linguagem e curadoria de resultados gerados por IA em projetos-piloto desprovidos de qualquer contexto, irrepetíveis e sempre diferentes, as estimativas previamente utilizadas pela gestão para calcular o tempo médio necessário à realização de um tipo de tarefa estruturado, rotineiro e estandardizado deixaram de fazer sentido, não havendo qualquer base de cálculo para aquelas. No entanto, e enquanto nos pedem para inovar sem recursos, acessos e visibilidade no que toca ao cliente, foi recentemente introduzido um critério de avaliação que atribuirá um peso (que recompensará, portanto) ao trabalho realizado abaixo da estimativa atribuída a uma tarefa. Falamos de um trabalhador pressionado para reduzir o seu tempo e, por extensão, o tempo médio (para todos os colegas), ao realizar uma tarefa à qual foi dada uma estimativa que não existe e cuja relevância é da exclusiva responsabilidade do manager. Que trabalho ou dignidade resta para inovar ou pensar o que se trabalha é um mistério que se coaduna incrivelmente bem com a linguagem mística falada no meio corporativo.
Um trabalhador que entre numa empresa como esta entra já esmagado e é forçado a fazer concessões, pois necessita de trabalhar para viver. Aqui não há escolha nem liberdade.
Mas falei de inovação. Falemos de formação: somos autorizados a registar tempo para treino e formação. Perguntamos ao nosso management que competências poderemos adquirir num nível básico. Não nos dizem, não sabem, de modo que fica ao critério de cada um lançar o tiro no escuro. De outro modo, caso não consigamos completar as 7,5 horas de trabalho diário em tarefas ou treino, resta-nos registar o tempo não usado como “tempo de ócio”.
Recordo que tudo isto se passa na infraestrutura do cliente ao qual prestamos serviços.
Fomos recentemente informados de que todo o aumento salarial (na melhor das hipóteses, equivalente à taxa de inflação oficial, à semelhança do último ano) se encontra em suspenso, “devido à situação geopolítica” global, situação que não impediu que a empresa comunicasse um crescimento de cerca de 10% na primeira metade do ano.
A ACT, quando contactada a respeito de vários abusos, evidencia a sua impotência para abordar as formas de exploração dos trabalhadores da economia digital, pois comunicou que teria de analisar documentação e registos – justamente aqueles que não existem, ou que, existindo, se encontram a circular transitoriamente no ecossistema digital do cliente.
Não há qualquer consenso a obter, não há qualquer negociação a efetuar. A pedido do cliente, os trabalhadores que são despedidos são automaticamente bloqueados e impedidos de aceder ao seu computador a partir do momento em que são informados da decisão tomada.
Um trabalhador que entre numa empresa como esta entra já esmagado e é forçado a fazer concessões, pois necessita de trabalhar para viver. Aqui não há escolha nem liberdade.
“Big Five” ou “Big Tech”: as cinco empresas tecnológicas mais influentes e dominantes dos EUA: Alphabet (Google), Apple, Microsoft, Amazon e Meta (Facebook).
Na sequência de uma petição pública e de um movimento popular em torno da criação de um Museu Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática nos Açores, o sonho ganhou vida, com a unanimidade de todos os partidos com assento no Parlamento regional. Os arqueólogos José Luís Neto e Pedro Parreira apresentam o manifesto que se encontra por detrás da organização popular, na esperança de que estas ideias sejam agora escutadas pelo Governo da República, no processo que se segue.
Nós, cidadãos independentes, humanistas, açorianos e não açorianos, vimos propor a criação do primeiro museu nacional fora do território continental de Portugal, concretamente na Região Autónoma dos Açores, dedicado à arqueologia subaquática portuguesa, a constituir pelo Governo da República Portuguesa, com vista ao harmonioso desenvolvimento humano, à emancipação da pessoa, à coesão territorial e a uma positiva ideia de futuro para o país.
No 50.º aniversário do 25 de Abril, entendemos ser nosso dever dar início às comemorações do primeiro cinquentenário da Constituição da República de 1976, que consagrou a autonomia dos Açores e da Madeira, a que acresce, em 2027, as Comemorações dos 600 anos da descoberta e povoamento dos Açores –, com uma ideia agregadora, que una a totalidade do território e respeite as autonomias regionais, permitindo, em paralelo, iniciar uma reflexão responsável e construtiva sobre as relações institucionais na República Portuguesa.
Portugal possui a terceira maior área marítima económica exclusiva da União Europeia, a quinta maior da Europa e a vigésima maior do mundo. Nesta, calcula-se existirem talvez que cerca de 7000 naufrágios, de pelo menos 45 distintas bandeiras. Os Açores correspondem a cerca de metade dessa área marítima económica exclusiva.
Ou seja, com apenas 2,5% da população nacional, tem um mar que se equivale ao do Continente e Madeira somados. Com ocupação humana em somente 8,5% da história marítima em território atualmente português, representa, desde logo, 15% de todo o potencial arqueológico subaquático nacional. Nele jazem destroços de navios portugueses, espanhóis, ingleses, franceses, holandeses, italianos, prussianos, dinamarqueses, americanos, alemães, noruegueses, austríacos, russos e brasileiros. Martinho da Boémia, precisou de vir viver e casar nos Açores, para compreender que o mundo era esférico e produzir o Erdapfel, um dos primeiros globos terrestres.
Desde a publicação da Lei n.º 19/2000, de 10 de agosto, as regiões autónomas têm autonomia na gestão do património cultural, nomeadamente o arqueológico e, consequentemente, do património cultural subaquático. O que é verificável é que, no que respeita à gestão do património cultural subaquático, o centro dinamizador do país é Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, Açores.
Foi nos Açores que, provavelmente, ocorreu a primeira intervenção de arqueologia subaquática no país (talvez que Angra, talvez que Troia (de Setúbal), nos finais da década de 50); foi onde garantidamente se realizou a primeira campanha internacional de arqueologia subaquática (1972); sendo criada a primeira reserva arqueológica subaquática (1973). Fez-se a primeira legislação de arqueologia inspirada na convenção da UNESCO, antecipando a ratificação portuguesa (2004); criou-se o primeiro parque arqueológico subaquático (2005) e os demais existentes no país (2012, 2014, dois em 2015); desenhou-se o primeiro roteiro do património cultural subaquático do país (2017). Os Açores tornaram-se não no primeiro sítio, mas sim na primeira região integral do mundo, a receber o Best Pratices for Underwater Cultural Heritage, da UNESCO (2019); são o primeiro sítio de toda a Europa, no âmbito da arqueologia subaquática, a ser premiado com o European Heritage Label, da União Europeia (2020); viram ser o projeto Margullar, considerado a melhor Cooperação Turística Internacional, pela ASICOTUR (2022); criaram os primeiros centros interpretativos de naufrágios do país (2023); editaram a primeira coleção de arqueologia subaquática portuguesa (2023); lançaram a primeira a rota turística marítima para o grande público (2024).
Não há, em qualquer outra região do país, um conhecimento tão profundo acerca do mar cultural. O património cultural subaquático português carece de um sinal otimista por parte da administração pública, com vista à dignificação do mar cultural. Porque, como disse certa vez Agustina Bessa-Luís: “A cultura é o que identifica um povo com a sua finalidade”. O que propomos é lógica pedra de fecho de abóboda, após observar-se o percurso até aqui trilhado. E um museu nacional que não fica na capital já não é incomum. O que é inédito é um museu nacional que fique além do território continental português. É algo que simplesmente nunca foi sequer tentado e não existe, no país. Chegou a hora!
Se a Rede Portuguesa de Museus engloba, e bem, museus regionais e municipais dos Açores e Madeira, impõe-se que o tecido museológico nacional, crie igualmente estruturas nesses territórios, mormente para um tema que se reconhece como de fulcral importância no contexto cultural português e se encontra por fundar.
As descobertas extraordinárias da arqueologia subaquática portuguesa, realizadas ao longo de várias décadas, nomeadamente as da baía de Angra do Heroísmo, se alinhadas numa narrativa sólida, objetiva e cientificamente autónoma, podem explicar que a navegação atlântica somente faz pleno sentido, se se compreender a evolução da arte de navegação no extremo ocidental da península ibérica desde os seus mais recuados primórdios, base a partir da qual, muitos milénios depois, veio a ser inventada a caravela, depois a nau, que permitiram a navegação atlântica de longo curso, que permitiu aos portugueses chegar ao mundo inteiro (e consequentemente os demais povos europeus), razão pela qual faz sentido que este museu, reunindo a identidade e o espólio museográfico desta e de todas as outras partes nacionais, desejavelmente seja implementado nos Açores, pois sem a ciência, a tecnologia e o engenho humanos, a estas não se poderia ter aportado.
“Legítima defesa, com excesso de meios”: foi esta uma das justificações invocadas pela juíza responsável pelo julgamento do agente da PSP que tirou a vida a um trabalhador cabo-verdiano desarmado, residente em Portugal há mais de vinte anos, ao proferir a sentença. Três anos e meio de pena suspensa. É o que vale, para a justiça portuguesa, a vida de Odair Moniz.
É a morte sem dolo, em que não há um crime intencional, direto e pessoal, mas sim um mero dano colateral ou efeito secundário da gestão social, económica ou policial. É não só a naturalização da ideia de que há vidas que valem mais, como a banalização da morte quando o corpo vitimado é o de um trabalhador precário, racializado, periférico. É, sobretudo, o lugar onde o poder do Estado define quem tem o direito de viver e quem pode ser eliminado sem que isso provoque consequências jurídicas ou comoção pública.
A naturalização da distinção entre sujeitos, através do destino da violência e até das suas mortes, tem-se mostrado um dispositivo fundamental deste Governo nas periferias de Lisboa. Perpetua-se, assim, uma dinâmica de guerra civil não declarada, através da qual aqueles submetidos às condições mais degradantes de trabalho e remuneração são paralisados na sua força de revolta pela generalização do medo face ao extermínio pelo Estado. É o braço armado de uma luta de classes na qual são mobilizadas características físicas, de origem racial e preconceitos sociais para enfraquecer e dividir os trabalhadores. Essa dinâmica, com relações coloniais explícitas, atua como “Estado protetor” diante da propriedade e quem a detém, enquanto age como “Estado predador” diante de outros.
O trabalhador “normal”, considerado cidadão, sofre da exploração mais ou menos dentro do Estado de Direito; o trabalhador racializado sofre de superexploração e de violência que cai fora do Estado de Direito. A impunidade em relação a mortes como a de Odair, que tem vindo a ser naturalizada pelo Estado português, funciona como um meio de manter as desigualdades sociais e paralisar a luta dos trabalhadores. Não há como não enquadrar este episódio como a violência máxima e estabelecer um paralelo com as histórias daqueles que sofreram e sofrem marcas das experiências coloniais e racistas.
Mas mais que isso, também é um alerta a toda a classe trabalhadora: num quadro de inimputabilidade das forças “de segurança”, que vai desde a brutalidade dos polícias na manifestação da recente greve geral ao julgamento dos marinheiros do NRP Mondego e à obstinação de impor o pacote laboral, na guerra de classe da burguesia contra quem trabalha o assassínio de Odair Moniz é a consagração do seu direito, de facto, a matar um ser humano desarmado.
Tenho o rádio ligado na Antena 2, enquanto limpo pés de galinhas. Mortas. O campo da estética ainda não inclui pedicure galinácea. Ouço ópera: Pagliacci. Esta ópera tem um prólogo: um ator alerta o público para que o que vão ver não serão palhaçadas, mas acontecimentos comuns à vida de muitas pessoas. Aproprio-me do mesmo prólogo para vos dizer que os meus pés de galinha não vão conduzir à comédia, mas a factos reais, que desgraçadamente atingem a vida da maioria.
Não me surpreende se alguém torcer o nariz ao se perguntar se vou comer pés de galinha. Sim, vou. O pé de galinha é um alimento altamente nutritivo, tem uma elevada concentração de colagénio e proteína. É o que dizem os grandes criadores de galinhas. O baixo preço e a comprovação de que atuam na eliminação dos pés de galinha que carregamos ao redor dos olhos podem fazer desse produto, que iria para o lixo, um campeão de vendas.
A higienização dos pés de galinha não é das coisas mais bonitas que se faz na cozinha. Embora já os compremos parcialmente limpos, outras tarefas complementam a limpeza. A primeira delas é fazer a mutilação de parte dos dedos, o que me remete imediatamente para a grave ação de violência praticada por torturadores, nas guerras, nos regimes ditatoriais e, por vezes, bem pertinho de nós, nas organizações criminosas e em sistemas prisionais.
Faz parte da higiene eliminar a falange distal, ou mais cientificamente, a falange ungueal, onde se encontra a unha. Uma a uma, a repetição desse ato e a música – sem que seja descartado o propósito culinário – me carregam por caminhos inusitados. Coisas da subjetividade.
Penso na fome e em Josué de Castro, médico brasileiro, cuja vida foi dedicada a explicar e a combater a fome. A sua pesquisa constata que, ao contrário das causas comumente aludidas à época – condições físicas, climáticas e étnicas –, a fome no Brasil não era um fenómeno natural, mas o resultado de desigualdades sociais, má distribuição de renda e concentração de terras. Pleno de razão. Mas a sua defesa de uma reserva mundial contra a fome contrariou os interesses de grupos económicos nacionais e internacionais, ao ponto de ter seus direitos políticos cassados em 1964, por ocasião do golpe militar. Para não ser preso, exilou-se em Paris, onde continuou a luta contra a fome até morrer. “Metade da humanidade não come; a outra não dorme com medo da que não come”, dizia ele. Hoje, caríssimo Josué de Castro, a sua afirmação precisa ser revisitada. A realidade só piorou: temos também – talvez mais – muito medo dos que comem, principalmente dos que comem caviar, lagosta, foie gras, etc., regados a Romanee Conti.
Penso na ignorância dos famintos e em Paulo Freire, educador brasileiro, considerado um dos pensadores mais notáveis da história da pedagogia mundial. Tornou-se famoso por ter desenvolvido um método de alfabetização de adultos orientado para o desenvolvimento da consciência crítica. Pedagogia do Oprimido, sua obra mais conhecida, está entre os três livros mais citados em trabalhos académicos de ciências sociais no mundo. Foi homenageado com dezenas de títulos de doutor honoris causa. Mas, também, à semelhança de Josué de Castro, sofreu imensas perseguições durante a ditadura militar brasileira. O facto de ter tido uma vida de extrema pobreza, agravada durante a crise económica de 1929, como também a precariedade da região onde ele vivia explicam a expressão “educar pela fome” a ele associada. Para ele, a fome não era apenas falta de alimento, era uma violência praticada por aqueles que deviam assumir a tarefa de proteger. Foi preso sob a acusação de doutrinação e subversão e ao sair da prisão forçado ao exílio.
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Penso ainda na guerra e na literatura produzida pelo Primo Levi. Por fim, penso na sua morte. Paro aí, para me perguntar o que justificaria o seu suicídio. Arrisco-me a supor que a profundidade do saber crítico o pôs diante de uma realidade insuportável. A ideia me assusta. Se o capital e o Estado levantarem a mesma hipótese, podem tomá-la como justificativa para que a educação se restrinja tão somente a preparar para o mercado de trabalho. Nenhuma novidade, nós o sabemos. O liberalismo advoga essa prática desde a sua origem. Mas, convenhamos, um exemplo sempre fortalece, sobretudo quando proveniente de um resistente antifascista convicto, participante da luta armada clandestina, nos anos da Segunda Grande Guerra. Primo Levi foi capturado pela milícia fascista e deportado para o campo de extermínio de Auschwitz, sobreviveu ao holocausto e dedicou a sua vida a escrever sobre os mecanismos de desumanização dos regimes autoritários. Não se pode dizer que foi um derrotado. Trata-se de alguém cujas memórias foram registadas e tornadas públicas através dos seus livros, que denunciam os horrores do holocausto. Se considerarmos o sentido da vida para ele, podemos dizer que, apesar dos sofrimentos impostos, a sua luta não foi vã. Contudo, ele escolheu antecipar a morte.
Pode-se concluir que o conhecimento mata?
Parecer-vos-ia um grande absurdo se os poderes constituídos afirmassem que a oferta da educação direcionada para a prática, a produtividade, o desenvolvimento capitalista tem o propósito de preservar a vida dos trabalhadores?
Imaginemos a grande mídia, com todos os recursos de que dispõe, declarando: CONHECIMENTO MATA.
Um grande absurdo? Alguém acreditaria?
Eu vos digo que muitas pessoas, além de acreditar, juntar-se-iam aos divulgadores oficiais. Algumas até acrescentariam com ares de sabedoria: se o que Josué de Castro queria era solucionar o problema da fome, podia ter estudado as propriedades nutricionais da casca de banana, da casca da maçã e de outros alimentos que vão para o lixo. Meteu-se no que não era de sua conta. Por sua vez, Paulo Freire podia ter alfabetizado aquela gente miserável do Nordeste na cartilha que rezava “Vovó viu a uva”. Em lugar de enfatizar a fome, como ele fez, estaria fomentando curiosidade por uma fruta que quase ninguém conhecia naquela região do Brasil. Então, sem medo de estar sendo leviana, eu afirmo que muitas pessoas, sim, acreditariam.
As mesmas pessoas que pensam ter acabado a contradição capital-trabalho; as mesmas que, mesmo estando a trabalhar em regime de 24/7, sempre ligadas, como analisa Jonathan Crary1, ao afirmar que o sono é a última fronteira não mercantilizada do capitalismo contemporâneo, creem que ao serem patrões de si mesmos estão a um passo de se tornarem capitalistas; as mesmas que estão a fazer cursos de inteligência artificial – de iniciante à pós graduação –, acreditando que estão sendo preparadas para serem líderes de um mundo novo; as mesmas que vivem do trabalho, mas enchem a boca quando se declaram empreendedoras, como se isso as distinguisse de uma ainda pequena parcela de gente pobre que alinha com a defesa dos direitos do trabalho. Enfim, dependendo de quem formula e de quem veicula a propaganda, a mentira repetida torna-se verdade.
A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital.
Eu diria que, ao contrário, a ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores. Com um sério agravante: alguns, conscientemente, repetem a mentira do opositor como se fora ideia própria. Tornam-se lacaios, bajuladores, submissos, dissimulados, na ilusão de obter vantagens.
Como o capital de tudo tira proveito, também acaba por monetizar a desconfiança, na medida em que aprofunda o individualismo. O trabalho, já o sabemos, não põe os trabalhadores do mesmo lado. A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital. É maravilhoso para o sistema que eles, os trabalhadores, tenham um Deus, não importa qual, a quem agradecer pelos pés de galinha, pelas cascas de banana e por tudo que o capital descarta e ainda pode ser reciclado, sem cotejamentos, sem que se questione a base material da riqueza, sem elaborações teóricas que conduzam às desigualdades sociais e, por conseguinte, ao alinhamento com a própria classe social. Em tempos de crise do capital, que haja Deus, que haja profetas e salvadores. Enquanto o sistema promove e se sustenta na desigualdade, cria os meios através dos quais nos faz crer que somos todos iguais.
Um palavrão viria a calhar.
Capitalismo tardio e os fins do sono. Lisboa, Antígona, 2018.
Poucos dias depois do comício na avenida, Julieta saiu do trabalho e apanhou o costumeiro eléctrico para casa. As viagens nos transportes públicos são muitas vezes propícias a pensar na morte da bezerra, e foi assim que ela fez a viagem, dando voltas e mais voltas no espírito a possíveis soluções para induzir o filho de novo à fala. Ora pensar na morte da bezerra, sobretudo na cidade, é fonte potencial de desastres, atropelamentos, tropeções e cortes nos dedos com as facas de cozinha.
Mergulhada em meditações, saiu do eléctrico, desceu a calçada, e só quando chegou à porta de casa e quis usar a chave se apercebeu: tinha deixado a malinha de mão no eléctrico! Com um sobressalto que quase lhe arrancou o coração do peito, recordou imediatamente que dentro da malinha tinha não só os documentos de identificação pessoal, mas também um molho de panfletos da Oposição. Tocou à campainha, subiu as escadas a galope e, desfeita em lágrimas, contou ao marido o sucedido.
Nesse dia, depois de deitar a criança, o casal meteu-se na cozinha, a queimar papéis, panfletos, livros, cadernos de apontamentos e contactos e tudo o mais que pudesse ser comprometedor. Toda a casa cheirava a papel queimado. Levaram a noite inteira nisto, porque os modernos apartamentos na cidade não têm lareira e queimar papéis nos bicos de gás do fogão é uma operação morosa. Depois de bem vasculhada toda a casa à cata de papéis comprometedores, concluíram a operação a tempo de irem trabalhar. E lá foram eles, de coração apertado, sempre à espera de serem abordados por torcionários da PIDE, com a dolorosa noção de que de nada serviria aquela trabalheira toda, porque uma mala com documentos de identificação acompanhados de panfletos inflamados contra a ditadura equivalia a uma confissão, por mais papéis que queimassem.
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Passou mais um dia de expectativa angustiada. À noite, estava Gastão a pôr a mesa para jantar, com a ajuda da criança (que eles procuravam manter sempre ocupada), quando toca o telefone. Havia uma regra naquela casa: à hora de jantar não se atendia o telefone nem se ligava a televisão. Contudo, dado que ainda não estavam sentados à mesa e ansiavam por notícias da malinha (já quase preferiam ser caçados, para acabar com aquela penosa expectativa), Julieta decidiu abrir uma excepção e atender o telefone.
– Estou a falar com a senhora Julieta Montês? – perguntou uma hesitante voz de homem, sussurrada.
Não valia a pena negar. Sim, era a própria.
– A senhora por acaso … hum… por acaso não perdeu uma malinha de mão com o bilhete de identidade?
Nenhuma referência aos panfletos. Que poderia isso querer dizer? Para quê negar, se o homem já sabia o nome, o número de telefone e a morada? Mais uma vez Julieta confirmou.
Pois bem, ele tinha encontrado a mala e estava disposto a entregar-lha. Ela que comparecesse no dia seguinte no edifício sede dos Correios, no Terreiro do Paço (onde se situam vários ministérios e uma esquadra de Polícia), às 15 horas em ponto, e pedisse ao porteiro para ir ao gabinete da direcção de registos.
O casal sentiu-se dividido entre a esperança e um sentimento de fatalidade. Não havia outra coisa a fazer. Era ir lá e … o que fosse soaria. Passaram a noite às voltas na cama, incapazes de dormir. Era a segunda noite em branco nessa semana, até parecia que estavam em treinos para a tortura do sono.
Passaram a noite às voltas na cama, incapazes de dormir. Era a segunda noite em branco nessa semana, até parecia que estavam em treinos para a tortura do sono.
No dia seguinte Julieta compareceu no local e hora aprazados. O porteiro encaminhou-a por um corredor e que procurasse a sétima porta à direita. Lá foi ela, com as pernas a tremer. Primeira porta, segunda porta, terceira porta … e assim sucessivamente, até chegar a uma porta com uma placa a dizer: “Gabinete de Censura”. Quase lhe desfaleceram as pernas, julgou que ia baquear de joelhos. E logo: não espera, esta é a sexta porta … olhou para trás, donde viera, a recontar as portas. Sim, era a sexta porta. Encheu-se de coragem e avançou para a sétima. Bateu à porta. Que entrasse. Viu-se diante de um senhor de bigode e pêra. Os dois estavam lívidos, como se tivessem caído no balde da cal.
– Senhora Julieta Montês?
Julieta acenou que sim, com a garganta tão seca e apertada que nem conseguia articular, como o filho.
– Tem aqui a sua mala – disse ele sem mais delongas e estendendo-lhe a mala com mãos trémulas. – Leve-a já daqui para fora, por favor. E se por acaso nos encontrarmos um dia na rua, faça de conta que nunca nos vimos nem conhecemos. Siga pelo corredor na mesma direcção em que veio e saia pela porta de serviço – acrescentou o homem, empurrando-a com cortesia, mas firmemente para a porta do gabinete.
Finalmente Julieta conseguiu desobstruir a garganta:
– Obrigada. Muito obrigada. Muito, muito agradecida. Nunca mais vou esquecer este bom gesto.
– Esqueça. Por favor, esqueça que eu existo. – E bateu a porta.
Julieta saiu em passo estugado. No primeiro café que encontrou enfiou-se na casa de banho para inspeccionar a mala. Lá estavam os documentos de identidade e os panfletos. O homem nem tivera coragem para os destruir! Felizmente, tivera coragem suficiente para restituir a mala, mas era evidente que quase morrera de susto. Julieta demorou-se uns bons minutos na casa de banho. Amarfanhou os panfletos, meteu-os um a um na retrete, puxou o autoclismo umas trinta vezes e por fim regressou ao emprego, bastante aliviada. Parece que a tormenta tinha passado. Nesse fim de semana o casal foi à Costa da Caparica comemorar o bom sucesso da aventura com uma mariscada. Voltaram os sorrisos à família, ainda que a criança continuasse sem pio.
Julião, tal como o pediatra tinha vaticinado, acabou por recuperar a fala dois anos depois, no primeiro dia em que foi à escola e entrou em contacto com outros colegas da mesma idade. E, como já se disse, não guardou qualquer memória da turbamulta na avenida, naquele maio de 1958. Herdeiro do racionalismo humanista do pai, da ousadia arrebatada da mãe e de uma noção de justiça social multiplicada por dois, viria mesmo a meter-se, na universidade, em protestos estudantis, a levar na cabeça quatro pontos abertos por um cassetete e a tornar-se uma figura destacada na luta contra a ditadura. Mas nunca, até ao fim dos seus dias, deixaria de sentir uma espécie de paralisia nas imediações de um cavalo.
Quando as controversas comemorações do Quinto Centenário do Nascimento de Camões se aproximam do fim e podemos já fazer um primeiro balanço das publicações que ficarão para o futuro dos estudos camonianos, há que olhar com atenção para a produção ensaística e literária do poeta, crítico e professor António Carlos Cortez que, quer na sua obra literária (prosa e poesia), quer em artigos, crónicas ou ensaios publicados em jornais ou em livros, não tem poupado esforços para trazer até nós e, bem entendido, até aos estudantes e professores, a obra de Luís de Camões, restaurada e limpa do mofo ou da invisibilidade a que o mau uso, o oportunista aproveitamento ou a astuta minimização tão frequentemente a têm condenado.
Muito trabalho tem ACC desenvolvido em torno da poesia camoniana, em conferências, congressos, cursos, mas também dando-lhe vida ficcional (conto “Camões, um Regresso”, in Cenas Portuguesas), revisitando ou glosando poemas (“Errar todo o discurso de teus anos” in À Flor da Pele, “Erros, Eros” in Condor), publicando ensaios sobre o ensino da poesia (“Camões no Ensino. Segundo Amor Tiverdes” in O Fim da Educação) e dedicando ao ensino da épica e da lírica dois livros incontornáveis: Uma Estória de Os Lusíadas (a sair brevemente) e Para Ler Camões (2025).
É no último, Para Ler Camões, que aqui nos focamos. António Carlos Cortez publicou este livro a pensar nos professores e nos alunos dos ensinos secundário e universitário e também nos muitos leitores interessados em ler o poeta quinhentista. Trata-se, pois, de uma obra com claros objectivos didácticos, cumpridos pela escolha de uma linguagem muito clara, sempre que possível, simples, sem ser simplista, e pela apresentação, utilíssima de uma reflexão sobre a poesia, aplicação prática de propostas de análise de 35 poemas e, finalmente, da leitura crítica de textos essenciais de alguns camonistas.
Deste modo, o livro organiza-se em três grandes secções que comportam diferentes partes, como a consulta do índice revela.
1. Contra o entorpecimento dos ecrãs, a língua subversiva da poesia
Apresentando-se como uma advertência ao leitor (estudantes, pais, professores) sobre “o que se vai ler”, a primeira secção é, afinal, uma demorada e muito clara reflexão do autor sobre o contexto educativo e civilizacional em que vivemos e que determina o estado crítico da escola e as dificuldades que os estudantes enfrentam face a textos complexos, dificuldades acrescidas quando se trata de textos poéticos complexos e não contemporâneos.
A constatação é sombria, como não pode deixar de sê-lo a consciência de estarmos a viver numa “era de vazio”, anunciada por autores como Lipovetski, já nos anos 80, e agudizada hoje pelo domínio neoliberal que rege a vida e as sociedades por interesses meramente economicistas, servindo-se de trabalhadores acríticos, produtivos e descartáveis, sem tempo nem capacidade para a reflexão, a reunião solidária, a vida verdadeira. São trabalhadores assim que a escola dos ecrãs prepara, humanos quase humanoides, treinados na rapidez comandada pelo algoritmo, controlados por grelhas e pela competição desenfreada, entorpecidos e estupidificados pela velocidade e a fosforescência dos ecrãs.
Neste contexto, ler Camões é não só inútil, como até pernicioso à lógica do rei produtividade cega. Ler Camões – ler poesia – requer tempo, aprendizagem aprofundada, atenção ao humano que se ergue pela voz do texto, aquisição demorada das ferramentas linguísticas e estilísticas que permitem avançar na compreensão do outro e de si mesmo. Por isso, o tempo que a leitura da poesia requer é, para a máquina financeira e burocrática que domina o poder, tempo perdido. E assim fomos caminhando para uma escola de analfabetos muito escolarizados a quem a educação, esta educação redutora dos ecrãs, é capaz de dotar de capacidades técnicas e tecnológicas notáveis, mas à custa do empobrecimento do espírito, do humanismo, do prazer da imaginação e da construção colectiva, da cultura que, como a língua, eleva a ser humano acima dos outros animais.
O empobrecimento e subalternização das humanidades – literatura, história, filosofia – e das artes é, segundo o ponto de vista crítico do autor, consequência do projecto social neoliberal e causa da ignorância que, em última instância, alimenta o populismo e mata a democracia.
É a essa luta contra este estado da educação em fim de estação que o autor tem dado voz, incessantemente, e é nela que a publicação deste livro se inscreve, defendendo que o olhar desencantado sobre a educação não pode significar desistência.
“É por estas e outras questões factuais que escrevo este livro no quadro dos quinhentos anos do nascimento de Camões. Por acreditar, enfim, que, pese embora as sucessivas guerras movidas contra a literatura, contra as humanidades e as artes, há no lugar mais fundo dos estudantes dos mais diversos graus de ensino, bem como numa larga maioria de docentes, um coração que pulsa de vida, uma imaginação que espera por ser agitada” (p. 31).
Na verdade, o primeiro capítulo, enunciador e anunciador dos “pontos cardeais para ler Camões”, vai para além de Camões, convida a uma profunda reflexão sobre a essência da poesia, “arte verbal” que fortalece o pensamento, apela a um imaginário potenciador do conhecimento de si mesmo e do outro, enriquece, poderosamente, a capacidade do uso da linguagem dotada de possibilidades livres e libertadoras. Nesse sentido, o autor chama a atenção para o carácter transgressor da poesia, esse modo único, estranho e alternativo de exprimir o pensamento, o valor explosivo da metáfora, a consciência da audição ou aquisição de uma voz humana singular e, por isso, aberta à interpretação atenta. Assim deve ser lido Camões nas escolas, liberto da poeira laudatória e devolvido à sua humanidade, orientando os estudantes num percurso leitor aberto ao desvendamento do mistério do seu discurso poético único e maravilhoso.
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“Daqui deriva outra finalidade deste trabalho: considerar que, sendo a poesia uma eternização do efémero, transferência do vivido para o pensado e do pensado para o revivido na escrita, é no acto de se ler bem a poesia que se pode ter na leitura do texto literário uma das mais revolucionárias armas contra o processo de destruição da sensibilidade. O livro é um corpo, um organismo vivo que todo o estudante pode e deve descobrir para, no fundo, alcançar o grande desígnio da educação, já inscrito em Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”, da Antiguidade” (p. 30).
2. Celebrar Camões: ler Camões, libertar Camões
A segunda secção deste livro ficará, em nossa opinião, registada para o futuro como um momento de assinalável importância nos estudos camonianos. O autor escolhe 30 sonetos, quatro redondilhas e duas canções e para cada poema propõe uma análise interpretativa que os estudantes, os professores e os leitores em geral muito ganharão em ler. É este o caminho para devolver Camões aos leitores? É este o caminho, sim, porque a selecção, longe de ser arbitrária, é perfeita na construção de um quadro mental e estético da poesia lírica de Camões e porque as propostas interpretativas são muito atenta e fundamentadamente apresentadas, optando o autor pelo uso de uma linguagem simples, dentro da inevitável complexidade, rigorosa e de agradável leitura. Caminhar na leitura de cada poema na companhia deste livro de António Carlos Cortez é uma experiência muito compensadora, porque, liberto o poema da ganga metaliterária, esquemática e biografista empobrecedora, é como se o lêssemos pela primeira vez, lendo com o ensaísta a possibilidade de sentidos a que as portas por ele abertas permitem aceder e iluminam.
Não se pense, no entanto, que ACC aligeira o tom e evita as dificuldades. Pelo contrário, aquilo que ele propõe é uma análise interpretativa profunda, e fá-lo convocando, com natural pertinência e eficiência, os mais diversos instrumentos necessários à decifração do texto, naquilo que o poeta diz e como o diz. Por isso, cada poema é um universo de sentido que é lido na sua singularidade, recorrendo o autor a referentes dos estudos literários e da estilística, da história, da filosofia, da história da arte, das religiões, da estética, enfim, a todas as disciplinas e conhecimento que faça sentido no desvendamento do sentido e no modo do poema.
O que este livro nos ensina a reconhecer é um Camões renovado, diríamos, um Camões nosso contemporâneo.
Independentemente da singularidade de cada poema, o autor estabelece uma riquíssima rede de relações intertextuais, quer relacionando poemas do poeta em estudo, quer estabelecendo pontes com poetas anteriores e posteriores a Camões. No primeiro caso, registamos, como exemplo, a sugestão da “obrigatoriedade” de leitura do tríptico da fonte, completo, ou seja, a leitura das redondilhas “Descalça vai para a fonte”, “Descalça vai pela neve” e “Na fonte está Lianor” e não o isolamento da secção mais conhecida, que é a primeira. No segundo caso, um exemplo muito curioso, para além das relações estabelecidas entre poemas de Camões e diversos poetas portugueses contemporâneos (Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira, Ruy Belo, Gastão Cruz…), é o caso da intertextualidade despertada pelo soneto “Que me quereis perpétuas saudades” com dois poetas de línguas diferentes: Aragon (“Que cherchez-vous de moi perpétuels orages”) e Carlos de Oliveira (“Que me quereis perpétuas miragens”). A este propósito, escreve ACC:
“Tal facto prova algo que não devemos perder de vista: ler um clássico é sempre um gesto que nos levará a ler contemporâneos. O movimento contrário é igualmente verdade. Como defendeu T. S. Eliot, um poeta de agora, se for dotado de uma individualidade própria, obrigar-nos-á a ler os poetas de ontem” (p. 107).
Do mesmo modo procede o ensaísta que homenageia os camonistas que o precederam, alguns seus mestres, convocando-os, ao longo do ensaio e sempre que a análise de um poema bebe em fontes alheias. Assim, nesta segunda secção, encontramos referências ou citações de outros que se confrontaram com a lírica camoniana, como Maria Vitalina Leal de Matos, Jacinto do Prado Coelho, Rita Marnoto, António José Saraiva, Maria de Lurdes Saraiva, Jorge de Sena, António Sérgio, Hernâni Cidade, Vítor Manuel Aguiar e Silva, Fiama Hasse Pais Brandão. As suas opções interpretativas são sempre identificadas, num gesto de seriedade intelectual que não podemos deixar de assinalar.
3. Ensaios iluminadores da leitura do texto literário
Se, já nos comentários dos poemas, ACC aponta os nomes e as opções interpretativas de que se serve ou que rejeita, na terceira secção deste livro, intitulada “Leituras de Camões”, o autor convida à reflexão sobre as razões da dificuldade de navegar na ensaística camoniana, autêntico labirinto, muitas vezes tecido de contraditórios caminhos. Clarificando, propõe um olhar focado em quatro camonistas cuja obra, diversa e fundamental, ilustra a riqueza e diversidade da abordagem da obra poética de Camões: Aguiar e Silva, Helder Macedo, Yvette Centeno e Fiama Hasse Pais Brandão. Das proposta filológica e hermenêutica de Aguiar e Silva às inscritas nos estudos simbólicos de Helder Mcedo, Yvette Centeno e Fiama (estes três, não por acaso, poetas), não existe contradição, antes linhas diversas que se enriquecem e contribuem para a consciência da riqueza que a poesia de Camões encerra.
A fechar o livro, dois notáveis ensaístas são trazidos para a reflexão em torno do ensino da literatura: Óscar Lopes e Manuel Gusmão, o primeiro referenciado na sua persistente publicação ensaística em busca do sentido da obra inscrita no contexto – histórico, sociológico, cultural – e da instauração de um humanismo de rosto social, o segundo, analisando e elaborando da sua obra crítica de abertura ao mundo, interpretado pela especificidade da linguagem literária, expressão múltipla e excepcional do humano, e considerando a sua obra “Uma Razão Dialógica” de imprescindível importância pedagógica e crítica, na defesa da literatura como diálogo entre humanos, cooperativo e transformador.
Enfim, o modo como este livro fornece aos leitores instrumentos eficazes para a compreensão aprofundada da obra do poeta, aproximando o seu rosto humano da nossa humanidade contemporânea e, com ele, do mundo em que viveu, palco de contradições e mudanças como o nosso mundo, fazem dele um útil instrumento de trabalho. O que este livro nos ensina a reconhecer é um Camões renovado, diríamos, um Camões nosso contemporâneo.
António Carlos Cortez, Para ler Camões,
Ed. Página a Página (2025)
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