Se Montenegro é português, eu quero ser espanhol!*

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Enquanto aqui ao lado, em Espanha, o despejo de Maricarmen Abascal, uma reformada de 87 anos, despejada da casa, em Madrid, onde viveu mais de 70 anos, por um fundo de investimento imobiliário que se tornou proprietário do prédio onde habitava, gerou uma enorme onda de protestos, que levou o governo de Pedro Sánchez a tomar algumas tímidas medidas de proteção dos inquilinos, o primeiro-ministro Montenegro (o da casita maneirinha em Espinho que já lhe valeu vários processos-crime) diz que “não se deixa intimidar”, insiste que 2300 euros é uma renda “moderada” e avança com um Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU) que protege senhorios e proprietários e desprotege ainda mais os inquilinos e (candidatos a) compradores de casa.

Eis algumas das medidas desse NRAU: acelera os despejos – quem falhar o pagamento da renda por dois meses (antes era três) já pode ser despejado. Nenhuma medida de proteção para agregados familiares em dificuldades. Deixa de haver limites aplicáveis à subida da renda inicial em novos contratos, nem condicionamento baseado na última renda praticada. A lei elimina o limite anterior de duas rendas para caução (que ficam sem limites) e pagamentos de renda antecipados, que podem subir para três rendas. Nenhuma medida para travar a escalada do valor mediano por metro quadrado, que, segundo o INE, atingiu os 10,17€ por metro quadrado no segundo trimestre de 2026, registando uma subida homóloga de 10,2% num só ano.

Também o INE indica que mais de 20% dos novos contratos de arrendamento já têm empresas como senhorios (fundos de investimento imobiliário, batizados em Espanha de fundos abutres).

Enquanto o NRAU começou a ser discutido na AR, eis um recado à atenção de José Luís Carneiro e António José Seguro: as próximas eleições legislativas estão agendadas apenas para setembro ou outubro de 2029, ou seja, daqui a três anos. Vão continuar a aguentar este Governo minoritário, que  não faz outra coisa a não ser aplicar um programa que não foi sufragado pelos portugueses, que foi escondido de todos, e consiste, do pacote laboral à saúde e à habitação, em sacar dinheiro do erário público e dos nossos bolsos para despejá-lo nos bolsos de patrões e senhorios privados? 

Quem não consegue que o salário chegue ao fim do mês, nem comprar ou alugar casa, ou está em risco de perdê-la não pode ficar sentado à espera de que o Governo apodreça — e, fiquem cientes, não vai ficar à espera: olhem para o outro lado da fronteira ou para a cidade-estado de Berlim, onde o partido mais votado tem no seu programa a socialização dos grandes senhorios. 


*Almada Negreiros, no seu Manifesto Anti-Dantas, dizia: “Se o Dantas é português, eu quero ser espanhol!”

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