Os rios da consciência
2.ª parte: Filho, queres vir comigo à pesca?
O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus.
Estava-se a meio do mês, era dia de descanso e em casa do Augusto não havia dinheiro nem comida. Às sete e meia da manhã foi acordar o Eduardinho:
– Filho, vou à pesca. Queres vir comigo?
O rapaz saltou da cama como uma mola. Tudo quanto cheirasse a aventuras com o pai, fosse lá o que fosse, era sempre divertido e oferecia a oportunidade rara de estar com ele, sempre desaparecido num dos seus dois empregos, de dia guarda-freio, de noite guarda nocturno. Pegaram na sacola da pesca, em três canas e num balde e abalaram colina abaixo, em direcção ao rio. Chegados ao Cais do Sodré, passaram pela tasca onde se serviam petiscos e iscos para a pesca. Depois foram sentar-se numa das muralhas que espartilham o rio, a dar banho à minhoca. Duas canas para pescar à boia, à cata de tainhas; uma linha para pescar ao fundo, na fé de que alguma enguia ou robalo caíssem na esparrela.
Não era a primeira vez que o Eduardo ia à pesca com o pai, por isso já sabia que tinha de fazer um esforço maduro para não bulir com ele, a não ser que o Augusto apelasse à conversa. A pesca era, para o pai, o equivalente da meditação budista – e muita coisa havia a meditar, naquele aperto financeiro em que se encontrava a família. Mas a meditação piscatória tem uma característica bem diversa da meditação oriental: em vez de exigir o máximo tempo possível de concentração num só ponto (a chama de uma vela, a cana do próprio nariz, uma unha do pé), apela à repartição do cérebro em quatro partes, cada uma delas totalmente concentrada num assunto, realizando aquilo que nós chamamos hoje em dia multitasking. E foi assim que, no meio de várias ondas paralelas de pensamento – uma das quais incidia na bóia –, uma vaga nostalgia começou a inundar a cabeça de Augusto.
Augusto tinha tido uma juventude aventurosa. Entre a espampanante peixeira algarvia com quem se amancebou durante alguns anos, a vela desportiva, os passeios de férias pelas serranias de norte a sul do país – onde, enrolado numa manta, se revezava de noite com os pastores que encontrava pelo caminho, de atalaia contra contrabandistas e assaltantes de gado –, tinha muitas aventuras rocambolescas para contar aos amigos na esplanada de Algés (o Palácio de Cristal, como lhe chamavam). Mas o casamento com a Leogarda e o nascimento do Eduardinho tinham posto ponto final às aventuras. Tinha agora a responsabilidade de cuidar daquele pimpolho, de lhe prover educação e saúde, de lhe mostrar o mundo e de o ensinar a caminhar de espinha erecta.
Pôs-se a cogitar naqueles 16 anos de duplo emprego, do qual apenas lhe sobravam quatro horas diárias de sono. A parcimónia do descanso começava a minar-lhe a saúde. Por outro lado, como o Eduardo estava perto de se tornar independente, aproximava-se aquela altura da vida em que ele e a Leogarda, empregada na função pública, mereciam voltar a namorar, a gozar uma vida de casal folgazão que lhes fora vedada durante 16 anos. Olhando para a boia agitada de ondinhas, vieram-lhe à memória os tempos felizes de velejador, quando vogava abstraído de tudo e de todos, concentrado na harmonização do barco e do seu próprio corpo com os elementos todo-poderosos da natureza – o vento, o mar, as correntes, os baixios, os sinais do horizonte e das aves marinhas … Esta vaga bruta de pensamentos derramou-se-lhe do cérebro ao coração, onde sentiu uma espécie de aperto. Não seria já tempo de recuperar alguns gozos da juventude, enquanto o corpo ainda lhe dispensava forças para tanto?
Em pouco tempo a generosidade do rio encheu-lhes o balde com duas enguias, três fataças e uns quantos peixes miúdos, entre bogas e outros. Já bastava para alimentar a família durante o fim de semana. Por mais que tardassem a chegar a casa, dentro da água do balde os peixes não perderiam peso.
– Eduardo, estou a pensar em ir a Pedrouços, falar com uns amigos. Queres ir pôr os peixes em casa, ou vens comigo?
Mais uma vez o rapaz optou com entusiasmo pela companhia do pai. Procuraram uma cabina telefónica, avisaram a mãe do atraso e que não contasse com eles para o almoço, meteram-se no eléctrico para Algés (como guarda-freio, ele e o filho não tinham de pagar bilhete) e apearam-se em Pedrouços. Augusto tinha, contudo, de arranjar maneira de alimentar o filho, com apenas algumas moedas no bolso. Procurou uma tasca sua velha conhecida, perto da Rua da Praia de Pedrouços, onde negociou com o tasqueiro a utilização das brasas para assarem dois dos peixes que tinham pescado, a troco da compra de uma sopa, que dividiram entre os dois, e quatro batatas cozidas. O tasqueiro, que já o conhecia há muitos anos e estava habituado a servir a miséria ribeirinha, não pôs entraves.
Entraram na cantina e Augusto olhou derredor. Na verdade, vinha no fito de encontrar alguns conhecidos que por ali costumavam almoçar. Encontrou dois deles instalados numa das longas mesas com bancos corridos. Saudou, apresentou o filho e juntou-se a eles. O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus: Mestre Matias, experimentado arrais, e Mestre Torvo, um dos calafates mais requisitados das docas de Belém e Pedrouços.
Mestre Matias pôs-se a lastimar a perseguição de que se sentia alvo desde há tempos: queriam que ele trabalhasse para uma empresa náutica, fazendo-lhe um cerco psicológico e económico – era obrigado a comprar o gasóleo mais caro do que a tal empresa, que o comprava por grosso e a preço de favor; o mesmo se passava com os aparelhos de pesca, o velame, o poleame, enfim tudo lhe saía mais caro do que à tal empresa, o que o impedia de competir com eles e o empurrava para a sua grilhoa. Cada vez lhe era mais difícil obter as licenças necessárias ao exercício da sua profissão autónoma, porque empresários, burocratas e legisladores todos estavam “de conluio contra ele”.
– Em suma, querem proletarizar-me a toda a força – sentenciou Mestre Matias. Mestre Torvo secundou-o. Estava a acontecer o mesmo a toda a gente na zona ribeirinha. Proletarização à bomba, por assim dizer.
Augusto percebeu que rumo levava a conversa e levou discretamente o dedo aos lábios, por causa da presença do Eduardinho, mas os convivas não perceberam o sinal.
(continua)