Tejo

Os rios da consciência
categoria-crónica Canoa Sonho Tejo edicao-2026-05-14 (27)

Os rios da consciência

Abalaram os quatro dali para Santo Amaro. Era uma caminhada de mais de duas horas, para poupar o dinheiro do comboio, mas valia a pena, o negócio era tentador. De resto, o passeio à beira-mar era aprazível.

Rui Viana Pereira
Os rios da consciência
categoria-crónica Barco Resistência Tejo edicao-2026-05-07 (26)

Os rios da consciência

Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com

Rui Viana Pereira
Os rios da consciência
categoria-crónica Lisboa Tascas Tejo edicao-2026-04-30 (25)

Os rios da consciência

O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus.

Rui Viana Pereira
Os rios da consciência
categoria-crónica Lisboa Tejo edicao-2026-04-23 (24)

Os rios da consciência

1.ª parte: O “paraíso na Terra” Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial

Rui Viana Pereira
categoria-crónica Canoa Sonho Tejo edicao-2026-05-14 (27)

Os rios da consciência

4.ª e última parte: O sonho de Augusto

Abalaram os quatro dali para Santo Amaro. Era uma caminhada de mais de duas horas, para poupar o dinheiro do comboio, mas valia a pena, o negócio era tentador. De resto, o passeio à beira-mar era aprazível.

Finalmente chegaram a Santo Amaro – moídos é certo, mas ansiosos por ver o tal barco. Bateram à porta do armazenista, que os levou ao devido local. Abriu-se o portão do armazém e pouco a pouco, no meio da penumbra, as pupilas foram-se abrindo para a presença de uma embarcação coberta de lonas e velas rotas, altaneira, amparada por estacas. Arredadas as lonas, revelou-se uma magnífica canoa de bastardo, esguia como uma faca, uma preciosidade como Augusto não via há muitos anos. Tinha uns sete a oito metros de comprido, pequeno calado, menos de três metros de boca. O quarteto de visitantes pôs-se a rondar a embarcação, inspeccionando-a minuciosamente.

– Reparem no espigão metálico de proa. Isto era uma canoa de bastardo de combate – anotou o pescador.

– De combate? – admirou-se Eduardo. – Era um barco da marinha de guerra?

– Não, a marinha de guerra não tem beldades destas. Isto é menino para correr acima de 30 nós ou mais com vento moderado. É de combate porque antigamente havia às vezes combates entre bairros rivais no Tejo. Já para não falar na necessidade de dar caça à pilhagem de corso vinda de fora.

O arrais subiu a um escadote, içou-se à altura do convés e sacou de lá um cadernal. Mirou-o de vários ângulos, revirou-o e por fim sentenciou:

– Este cadernal, com este desenho e estas roldanas de bronze, já não se fabricava quando eu entrei nas artes marinhas. Este barco há-de ter mais de oitenta anos!

O mestre calafate dirigiu-se a um monte de ferramentas que estava ali à mão de semear, agarrou numa espátula e pôs-se a raspar ao de leve as obras vivas do veleiro. Raspou, examinou, cheirou, e por fim emitiu o seu diagnóstico.

– Espantoso! Por mais velha que esta canoa seja, a madeira ainda cheira a resina. Está incrivelmente bem conservada. Depois de bem calafetada e pintada, este barco é um achado. Pelo que estou a ver, as obras vivas são feitas de mogno e pinho nórdico não sangrado; o convés deve ser de teca. E o mastro parece em muito boas condições. Já o velame … é lixo, vai ser preciso encomendá-lo todo de novo.

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Augusto entrou em profunda meditação. Por um lado, seria difícil alguma vez na vida conseguir uma embarcação de vela tão ágil como aquela. Por outro lado, uma canoa de bastardo é uma embarcação de dificílima manobra; exige uma tripulação muito experiente. O Eduardo não estava à altura de cambar uma vela daquelas, com mais de 15 metros quadrados; e com Leogarda não podia ele contar para as manobras de bordo. Além disso, ele próprio já não era o jovem atlético de outros tempos. E de resto não podia pensar só em si. Se adquirisse um barco à vela, teria de pensar em comodidades adequadas à família – cabina, beliches, cozinha de bordo, casa de banho … Ora a canoa tinha o convés raso; abaixo do convés, apenas o espaço suficiente para gatinhar em busca do cordame, das velas, das âncoras e demais aparelho indispensável à manobra. Era um barco todo ele concebido para combater e navegar a grande velocidade – velocidade e agilidade eram as suas principais armas, além do esporão metálico.

Para adequar o barco à família e transformar aquele cavalo selvagem numa aprazível embarcação de lazer, teria de levantar o convés, construir uma cabina, instalar um motor, encomendar dois jogos de velas (o equivalente a mais de cinco anos de salário de guarda-freio). E retirar o espigão de proa, que certamente não seria do agrado da guarda marinha nos tempos correntes.

Os seus sonhos de pré-reformado acabavam de se diluir nos grãos de areia do cálculo, lavados pela maré da sua realidade proletária.

Fosse ou não viável tal transformação, Augusto jamais teria meios para a sustentar. Ainda que a canoa viesse praticamente de borla, o negócio era inviável para ele. Esta triste conclusão arrancou-lhe por fim umas quantas lágrimas de frustração, discretamente disfarçadas na penumbra do barracão.

Deu aos amigos e ao filho um relato das suas conclusões, não se poupando a detalhes, para que os mestres não se desiludissem quanto ao grande amor que ele já nutria pela embarcação.

Despediram-se do armazenista com muitos agradecimentos, raparam os bolsos à cata de moedas para pagar o bilhete de comboio para Lisboa e lá regressaram, cabisbaixos e meditabundos. Augusto sentou-se à janela, do lado do mar, donde não tirou os olhos até chegar ao Cais do Sodré. Os seus sonhos de pré-reformado acabavam de se diluir nos grãos de areia do cálculo, lavados pela maré da sua realidade proletária.

De resto, ainda bem que não se meteu em trabalhos. Poucos anos passados, logo após o derrube da ditadura, a vela passaria a ser considerada pela suposta “vanguarda revolucionária” não uma arte popular, como sempre fora, mas um luxo de ricaços. E arrais, calafates, pescadores e outras artes tradicionais foram, conforme previu Mestre Matias, proletarizados e varridos da face da terra, para dar lugar a uma indústria de entretenimento sem sentido e, como todas as indústrias capitalistas, violentamente destrutiva.

(fim)

categoria-crónica Barco Resistência Tejo edicao-2026-05-07 (26)

Os rios da consciência

3.ª parte: A cabeça de Tito

Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua.

Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua.

O velejador lera muito nas bibliotecas secretas de alguns dos seus amigos de Algés. Tivera muitas conversas sussurradas com outros oponentes à ditadura. Enfim, não era nem inocente nem ignorante em matéria de política e oposição ao regime. Ao cabo de muitos anos de conversas com certos amigos, um deles abeirou-se um dia, na Esplanada de Cristal, para lhe bichanar ao ouvido:

– Tenho um amigo a quem tenho falado de ti. Ele anda sempre por fora, mas agora está cá de passagem e gostava de conversar contigo. Importas-te de vir?

O Augusto percebeu que tudo aquilo devia estar planeado há muito tempo, mas por razões de segurança o convite vinha súbito e sem aviso prévio. Meteram-se no carro do amigo, que era advogado, e puseram-se a dar voltas e mais voltas, como se andassem perdidos, ou perseguidos. Passaram por Belém, subiram a Monsanto, pararam no alto de um monte como se estivessem a admirar a paisagem, e quando ficou claro que não havia vivalma em redor e ninguém os seguia, rumaram a Linda-a-Velha por estradas secundárias. Aí, numa vivenda, esperava-o “o tal amigo”. Era evidente que se tratava de um controleiro do PCP emergido da clandestinidade.

Estiveram os três à conversa durante quatro horas. O controleiro, habilidosamente, foi indagando a solidez das ideias do Augusto, o seu estofo para enfrentar condições adversas, e por fim, satisfeito com o que sondara, propôs-lhe que aderisse ao PCP como militante permanente. Augusto assentiu sem hesitação. Há muito tempo lhe parecia que era ali que devia estar, não ser simples vítima passiva da ditadura. Apenas chamou a atenção para o facto de, tendo família e filho a quem devia sustentar, não tendo feitio para abandonar as suas responsabilidades partilhadas e não tendo posses, nem património, nem outros rendimentos além do seu próprio trabalho, não poderia alinhar em certas aventuras clandestinas.

– Não há problema. Existem muitíssimas tarefas úteis ao partido e à resistência que tu és competente para desempenhar, sem pôr a família em risco. Ficamos combinados. Daqui a alguns dias há-de vir outro camarada falar contigo, para distribuir tarefas, e passas a responder perante ele. Agora tenho de ir embora, que se faz tarde. Mas antes, uma coisa importante: além de tudo aquilo que já falámos, há alguma dúvida que queiras pôr?

Augusto, que era de uma honestidade inabalável em tudo na vida, ponderou por brevíssimos instantes e por fim saiu-se com esta:

– Sim, tenho uma dúvida. Uma coisa que não consigo entender: porque é que foi preciso pôr a prémio a cabeça de Josip Broz Tito?

Esta simples pergunta traçou o futuro de Augusto. A partir daí, todos os seus amigos simpatizantes do PCP deixaram de lhe falar, olhando-o com desconfiança, fugindo dele como o diabo da cruz. Apenas lhe sobraram como amigos os indiferentes à situação política, os anarquistas e os democratas-cristãos da oposição. Mesmo depois da queda da ditadura, os antigos amigos comunistas não voltaram a dirigir-lhe a palavra. Foi, pura e simplesmente, ostracizado.

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Augusto não era, portanto, alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua. A seu tempo, o próprio Eduardo se encarregaria de tomar as suas próprias opções e aprender a resguardá-las dos bufos e outros meliantes – uma arte difícil de aprender e que exige longo treino; e que, ao mais pequeno deslize, podia provocar grandes sofrimentos ao próprio e aos seus conhecidos e familiares. Por conseguinte, as conversas de carácter político entre Augusto e Leogarda restringiam-se ao segredo da alcova. Nunca na presença da criança.

Daí aquele sinal discretamente levado aos lábios diante dos três mestres presentes na tasca. Ora, não só eles não perceberam o recado, como Eduardinho, ainda por cima, se entusiasmou com o tema e, do alto da sua arrogância adolescente, interrompeu o discurso do Mestre Matias com um disparate qualquer da sua lavra. Ainda não tinha acabado de pronunciar a segunda frase, quando teve a vaga sensação de que se criara um estranho ambiente na mesa. Interrompeu-se, perplexo. Passaram meia dúzia de segundos silenciosos.

– Assim não vale a pena falarmos – disse por fim Mestre Torvo.

As sobrancelhas do Eduardinho ergueram-se, mais perplexas ainda. De que raio estavam eles a falar? Foi preciso vir o pai em auxílio da sua falta de ciência.

– O que o Mestre Torvo quer dizer é que se falarmos uns por cima dos outros, se interrompermos o raciocínio dos outros a torto e a direito, então mais vale ficarmos calados, porque isso significa que ninguém está a ouvir ninguém.

Estes mestres não tinham quem lhes dissesse como trabalhar, quando trabalhar, que meios técnicos adoptar no exercício da sua profissão, com quem negociar e de quem fugir…

Aquela ética artesanal apanhou o Eduardo de surpresa. Não estava acostumado à maneira de ser das gentes ribeirinhas, habituadas a ponderar cada pequeno passo da sua própria vida. Às vezes pareciam ficar paralisados sobre uma falésia, ou quais estátuas embaladas num bote ao sabor das ondas. Quem os observasse diria que estavam em atitude contemplativa perante o mar e outras forças da natureza. Mas o que eles estavam de facto a fazer nesses momentos era um exercício de meditação sobre o seu presente, o passado e o futuro, como se fossem … donos da sua própria vida. Estes mestres não tinham quem lhes dissesse como trabalhar, quando trabalhar, que meios técnicos adoptar no exercício da sua profissão, com quem negociar e de quem fugir, que material comprar, como o usar, que rumo tomar, a quem vender o seu peixe, como aplicar os poucos cabedais que possuíam, enfim, como viver a vida. Só anos mais tarde o Eduardo conseguiu compreender plenamente o sentido daquele momento.

Ao cabo de um longo silêncio embaraçoso, Augusto aproveitou para mudar de assunto: saberiam eles de alguma embarcação que estivesse à venda por uma módica quantia?

O arrais conhecia alguém em Santo Amaro de Oeiras que tinha um barco armazenado, do qual gostaria de ver-se livre, para esvaziar o armazém e dar-lhe outro fim – bastaria que lhe pagassem o frete da grua, para transportar o barco até à doca. O negócio era tentador.

Nisto, ouve-se uma sirene, num lamento que começou como um leve sibilo e foi crescendo até se tornar uma toada ensurdecedora. Sinal de que era uma da tarde, hora do almoço dos operários das oficinas metalomecânicas das redondezas. Ao uivo lúgubre da sirene seguiu-se uma vaga ululante de operários que invadiu as mesas da tasca e abancou numa berraria tão ensurdecedora quanto a sirene. Era uma explosão de energias represas em que todos falavam ao mesmo tempo e quanto mais alto falavam mais tinham de elevar a voz para se fazerem ouvir, sendo que no fim ninguém se escutava. Todas aquelas santas almas, passadas quatro horas de gestos técnicos que não controlavam, com fins que desconheciam, alienados dos propósitos e da organização do seu próprio trabalho, iam ali explodir à beira de um prato, ao qual se seguiria um cigarrinho, ao qual se seguiriam outras quatro horas de trabalho alienado.

– Vamos embora, que já não se pode estar aqui – berrou o mestre calafate por cima da vozearia.

(continua)

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Os rios da consciência

2ª parte: Filho, queres vir comigo à pesca?

O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus.

Estava-se a meio do mês, era dia de descanso e em casa do Augusto não havia dinheiro nem comida. Às sete e meia da manhã foi acordar o Eduardinho:

– Filho, vou à pesca. Queres vir comigo?

O rapaz saltou da cama como uma mola. Tudo quanto cheirasse a aventuras com o pai, fosse lá o que fosse, era sempre divertido e oferecia a oportunidade rara de estar com ele, sempre desaparecido num dos seus dois empregos, de dia guarda-freio, de noite guarda nocturno. Pegaram na sacola da pesca, em três canas e num balde e abalaram colina abaixo, em direcção ao rio. Chegados ao Cais do Sodré, passaram pela tasca onde se serviam petiscos e iscos para a pesca. Depois foram sentar-se numa das muralhas que espartilham o rio, a dar banho à minhoca. Duas canas para pescar à boia, à cata de tainhas; uma linha para pescar ao fundo, na fé de que alguma enguia ou robalo caíssem na esparrela.

Não era a primeira vez que o Eduardo ia à pesca com o pai, por isso já sabia que tinha de fazer um esforço maduro para não bulir com ele, a não ser que o Augusto apelasse à conversa. A pesca era, para o pai, o equivalente da meditação budista – e muita coisa havia a meditar, naquele aperto financeiro em que se encontrava a família. Mas a meditação piscatória tem uma característica bem diversa da meditação oriental: em vez de exigir o máximo tempo possível de concentração num só ponto (a chama de uma vela, a cana do próprio nariz, uma unha do pé), apela à repartição do cérebro em quatro partes, cada uma delas totalmente concentrada num assunto, realizando aquilo que nós chamamos hoje em dia multitasking. E foi assim que, no meio de várias ondas paralelas de pensamento – uma das quais incidia na bóia –, uma vaga nostalgia começou a inundar a cabeça de Augusto.

Augusto tinha tido uma juventude aventurosa. Entre a espampanante peixeira algarvia com quem se amancebou durante alguns anos, a vela desportiva, os passeios de férias pelas serranias de norte a sul do país – onde, enrolado numa manta, se revezava de noite com os pastores que encontrava pelo caminho, de atalaia contra contrabandistas e assaltantes de gado –, tinha muitas aventuras rocambolescas para contar aos amigos na esplanada de Algés (o Palácio de Cristal, como lhe chamavam). Mas o casamento com a Leogarda e o nascimento do Eduardinho tinham posto ponto final às aventuras. Tinha agora a responsabilidade de cuidar daquele pimpolho, de lhe prover educação e saúde, de lhe mostrar o mundo e de o ensinar a caminhar de espinha erecta.

Pôs-se a cogitar naqueles 16 anos de duplo emprego, do qual apenas lhe sobravam quatro horas diárias de sono. A parcimónia do descanso começava a minar-lhe a saúde. Por outro lado, como o Eduardo estava perto de se tornar independente, aproximava-se aquela altura da vida em que ele e a Leogarda, empregada na função pública, mereciam voltar a namorar, a gozar uma vida de casal folgazão que lhes fora vedada durante 16 anos. Olhando para a boia agitada de ondinhas, vieram-lhe à memória os tempos felizes de velejador, quando vogava abstraído de tudo e de todos, concentrado na harmonização do barco e do seu próprio corpo com os elementos todo-poderosos da natureza – o vento, o mar, as correntes, os baixios, os sinais do horizonte e das aves marinhas … Esta vaga bruta de pensamentos derramou-se-lhe do cérebro ao coração, onde sentiu uma espécie de aperto. Não seria já tempo de recuperar alguns gozos da juventude, enquanto o corpo ainda lhe dispensava forças para tanto?

Em pouco tempo a generosidade do rio encheu-lhes o balde com duas enguias, três fataças e uns quantos peixes miúdos, entre bogas e outros. Já bastava para alimentar a família durante o fim de semana. Por mais que tardassem a chegar a casa, dentro da água do balde os peixes não perderiam peso.

– Eduardo, estou a pensar em ir a Pedrouços, falar com uns amigos. Queres ir pôr os peixes em casa, ou vens comigo?

Mais uma vez o rapaz optou com entusiasmo pela companhia do pai. Procuraram uma cabina telefónica, avisaram a mãe do atraso e que não contasse com eles para o almoço, meteram-se no eléctrico para Algés (como guarda-freio, ele e o filho não tinham de pagar bilhete) e apearam-se em Pedrouços. Augusto tinha, contudo, de arranjar maneira de alimentar o filho, com apenas algumas moedas no bolso. Procurou uma tasca sua velha conhecida, perto da Rua da Praia de Pedrouços, onde negociou com o tasqueiro a utilização das brasas para assarem dois dos peixes que tinham pescado, a troco da compra de uma sopa, que dividiram entre os dois, e quatro batatas cozidas. O tasqueiro, que já o conhecia há muitos anos e estava habituado a servir a miséria ribeirinha, não pôs entraves.

Entraram na cantina e Augusto olhou derredor. Na verdade, vinha no fito de encontrar alguns conhecidos que por ali costumavam almoçar. Encontrou dois deles instalados numa das longas mesas com bancos corridos. Saudou, apresentou o filho e juntou-se a eles. O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus: Mestre Matias, experimentado arrais, e Mestre Torvo, um dos calafates mais requisitados das docas de Belém e Pedrouços.

Mestre Matias pôs-se a lastimar a perseguição de que se sentia alvo desde há tempos: queriam que ele trabalhasse para uma empresa náutica, fazendo-lhe um cerco psicológico e económico – era obrigado a comprar o gasóleo mais caro do que a tal empresa, que o comprava por grosso e a preço de favor; o mesmo se passava com os aparelhos de pesca, o velame, o poleame, enfim tudo lhe saía mais caro do que à tal empresa, o que o impedia de competir com eles e o empurrava para a sua grilhoa. Cada vez lhe era mais difícil obter as licenças necessárias ao exercício da sua profissão autónoma, porque empresários, burocratas e legisladores todos estavam “de conluio contra ele”.

– Em suma, querem proletarizar-me a toda a força – sentenciou Mestre Matias. Mestre Torvo secundou-o. Estava a acontecer o mesmo a toda a gente na zona ribeirinha. Proletarização à bomba, por assim dizer.

Augusto percebeu que rumo levava a conversa e levou discretamente o dedo aos lábios, por causa da presença do Eduardinho, mas os convivas não perceberam o sinal.

(continua)

categoria-crónica Lisboa Tejo edicao-2026-04-23 (24)

Os rios da consciência

1.ª parte: O “paraíso na Terra”

Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial e geoestratégico. Mas o seu argumento mais interessante foi, durante bastante tempo, a cultura local. O magnetismo deste argumento transparece nas palavras dos poetas árabes, que elegeram Lisboa como o “paraíso na Terra”.

Isto queria dizer que não era preciso ser hashshashin e desatar a matar infiéis para ascender ao paraíso. Bastava vir viver para a cidade de Lisboa. Aí, sem correrem o risco de censura e punição, os imigrantes podiam amantizar-se com quem queriam, sem olhar a sexos, etnias, pigmentos e proveniências, vendo no outro apenas a sensualidade das curvas, dos pacotes e dos sorrisos; podiam vestir-se como entendessem, sem cumprirem farpelas corporativas e sem por isso serem amarrados ao poste para exibição pública; podiam regular os termos do seu próprio comércio, mais baseado no valor da honra e do bom nome do que no valor da moeda.

Lisboa foi desabrochando como uma flor, em volta da qual zumbiam centenas de embarcações de todos os tamanhos e feitios, umas construídas por armadores enriquecidos, outras a mando da nobreza, a maioria pela mão das artes náuticas populares, apurada ao longo de séculos e extremamente especializadas: construíam-se barcos específicos para carregar tonéis de vinho, outros lenha, outros cereais, outros passageiros … enfim, a lista completa das embarcações de raiz popular ocupar-nos-ia dezenas de páginas.

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Para o caminhante do século XXI é difícil crer na profusão de ribeiras, riachos, arroios, minas de água, boqueirões, bicas, regueirões, fontes e outros murmúrios que atravessavam a cidade. Todas elas foram encanadas muitos palmos abaixo da terra, tornando-se invisíveis. Sobraram, escavados pela teimosia das águas, os vales ladeados de colinas. Onde os barcos varinos subiam ribeiras como a de Alcântara, carregados de produtos, correm agora filas intermináveis de carros. A cidade refrescada de água transformou-se em espaço tórrido no Verão onde, para bebermos um copo de água, temos de andar centenas de metros e por fim abrir os cordões à bolsa. Pelo caminho encontraremos inúmeras vestígios arqueológicos de fontes, bicas e bebedouros – todos selados, secos, especados como postais turísticos amarelecidos; o próprio Aqueduto das Águas Livres teve de despedir-se da liberdade com que corria e apenas subsiste como monumental emplastro ressequido, atravessado na paisagem citadina. E é de crer que, se as autoridades locais dispusessem da tecnologia adequada, já há muito teriam encanado o próprio rio Tejo. A vastidão do Mar da Palha, com os seus 23 km de diâmetro, seria hoje uma ampla zona terraplanada, abarrotada de arranha-céus, esplanadas privadas e centros comerciais. Só por milagre este mar continua a reflectir a sua luz nas paredes da cidade e as suas águas continuam a pulsar, subindo e descendo ao sabor das marés. Mas o facto é que, do rio Trancão até ao rio Jamor, medeiam 22 km (em linha recta), ao longo dos quais, das mais de 20 linhas de água que lá corriam, nem uma só sobreviveu à fúria de encanação.

Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho.

A imensa bolsa interior da foz do Tejo, o Mar da Palha, é uma auto-estrada traiçoeira de baixios e correntes contrárias entre si, de ventos entrecruzados soprados pelas diversas colinas de Lisboa. Quem se aventure num batel sem conhecer as manhas do rio corre o risco de ser levado pela força da maré cheia até Vila Franca de Xira ou, pior ainda, ser descarregado em alto mar pelo poder da vazante. Para navegar no Mar da Palha é preciso conhecer cada palmo das suas águas, correntes e contracorrentes com a meticulosidade de quem conhece cada centímetro do corpo amado.

Tal era o caso do Augusto da Paiva Justo, velejador de extracção proletária. Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho. Sem posses para adquirir o seu próprio barco, era frequentemente requisitado pelos ricaços que possuíam iates na doca de Belém ou na baía de Cascais, mandantes que não sabiam navegar, nem queriam saber, e que em muitos casos jamais poriam os butes a bordo, sob pena de desatarem a gritar pelo Gregório; mas gostavam de ostentar nas estantes umas quantas taças de regata. O Augusto era o patrão de bordo que os ajudava a ilustrar as prateleiras.

À zona ribeirinha nem só as ribeiras vinham desaguar. Havia também as praias, onde a nobreza e a burguesia gostavam de ir a banhos de indolência e a criançada erguia castelinhos de areia que seriam arrasados pela maré seis horas depois, em justa metáfora da obliteração de todas as vaidades imperiais pela maré do tempo. Uma dessas praias, a mais famosa durante algum tempo, era a de Pedrouços. Escusa o meu leitor de ir lá procurá-la, já não existe. Lisboa, que tanto gosta de entoar fados e loas ao rio que lhe banha a pança, é madrasta para o Tejo, ao qual não pára nunca de roubar terreno. Em Pedrouços, como em toda a zona ribeirinha, roubou-lhe centenas de metros, terraplanando a torto e a direito. O único vestígio do rio que o leitor ainda pode aí encontrar será, nalgumas velhas casas (se elas ainda lá estiverem), umas misteriosas argolas nas paredes – em tempos serviam para prender a amarração dos botes dos pescadores. Hoje, daí até ao rio, distam mais de 500 metros. Tal é a medida da espoliação imposta ao rio e aos artesãos.

(continua)

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Abalaram os quatro dali para Santo Amaro. Era uma caminhada de mais de duas horas, para poupar o dinheiro do comboio, mas valia a pena, o negócio era tentador. De resto, o passeio à beira-mar era aprazível.

Rui Viana Pereira
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Os rios da consciência

Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com

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O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus.

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1.ª parte: O “paraíso na Terra” Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial

Rui Viana Pereira

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