Jornal Maio

Tejo

Rui Viana Pereira
Abalaram os quatro dali para Santo Amaro. Era uma caminhada de mais de duas horas, para poupar o dinheiro do comboio, mas valia a pena, o negócio era tentador. De resto, o passeio à beira-mar era aprazível.
Rui Viana Pereira
Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua.
Rui Viana Pereira
O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus.
Rui Viana Pereira
Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial e geoestratégico. Mas o seu argumento mais interessante foi, durante bastante tempo, a cultura local. O magnetismo deste argumento transparece nas palavras dos poetas árabes, que elegeram Lisboa como o “paraíso na Terra”.