Portugal

O triste panorama das relações de trabalho em Portugal
categoria-trabalho edicao-2026-10-22 (46) Portugal Relações de trabalho Pobreza Código do Trabalho

O triste panorama das relações de trabalho em Portugal

Um milhão de contratos precários, 2,5 milhões com salários inferiores a mil euros por mês, salários que representam cerca de 55 a 65% da média europeia. A “economia informal” representa mais de um terço (34,87%) de todo o PIB. Terceiro país da União Europeia com o maior número

António Garcia Pereira
O último Eça Miguel Real
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Portugal Eça de Queirós Civilização

O último Eça

A obra do período final da vida de Eça de Queirós, definida pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, é a de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, de uma visão filosófica específica, ou de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova...

Miguel Real
O complexo militar-industrial português
Armamento Defesa NATO Portugal categoria-política edicao-2026-07-09 (35)

O complexo militar-industrial português

A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O Governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África.

Michael Roberts
Quando o país vai bem, e o povo, mal, The Economist condecora Portugal Adriano Zilhão
categoria-opinião Portugal Economia edicao-2025-12-18 (09)

Quando o país vai bem, e o povo, mal, The Economist condecora Portugal

Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.

Adriano Zilhão
Canhões ou manteiga? Michael Roberts
categoria-opinião Guerra NATO Portugal Rearmarmento

Canhões ou manteiga?

“Por que não dedicar a capacidade [do sector automóvel] à produção militar?”, questionou Monteiro.

Michael Roberts
Os complexos comportamentais dos Portugueses Miguel Real
categoria-opinião Portugal Viriato edicao-2025-10-16 (01)

Os complexos comportamentais dos Portugueses

segundo Camões, a Lusitânia, donde os Portugueses derivariam por continuidade histórica, evidencia-se como a diferença específica entre a "Espanha" e Portugal;...

Miguel Real
categoria-trabalho edicao-2026-10-22 (46) Portugal Relações de trabalho Pobreza Código do Trabalho

O triste panorama das relações de trabalho em Portugal

Um milhão de contratos precários, 2,5 milhões com salários inferiores a mil euros por mês, salários que representam cerca de 55 a 65% da média europeia. A “economia informal” representa mais de um terço (34,87%) de todo o PIB. Terceiro país da União Europeia com o maior número de acidentes de trabalho. Assédio moral, enfraquecimento da organização coletiva: eis um retrato sombrio do Portugal que trabalha.

ilustração: Rita Comedida

O chamado mundo das relações de trabalho, em particular do trabalho assalariado e por conta de outrem, está no nosso país, e ao contrário dos discursos oficiais, cada vez mais transformado num autêntico paraíso para os patrões, em particular os de grande dimensão, e num inferno para os trabalhadores. 

Na verdade, em 2025, a população ativa portuguesa rondava os 5,5 milhões, cerca de um milhão dos quais tinha vínculos precários, como contratos a prazo ou ainda mais precários, como contratos de trabalho temporário, três a quatro milhões tinham um salário inferior a 1300 euros mensais e 2,5 milhões, cerca de metade da mesma população ativa, um salário inferior a mil euros por mês. Dos mais de dois milhões de portugueses em situação de pobreza, um milhão são trabalhadores empregados, o que significa que os miseráveis salários que recebem são insuficientes para assegurar uma vida condigna. 

Dos mais de dois milhões de portugueses em situação de pobreza, um milhão são trabalhadores empregados.

Um milhão e novecentos mil trabalhadores tinha de trabalhar aos sábados, domingos, feriados ou à noite, sendo que os trabalhadores portugueses são dos que na UE-27 ganham salários mais baixos, cerca de 55 a 65% da média europeia, e mais de um milhão deles têm de trabalhar 49 horas ou mais por semana. 

Aliás, e de acordo com as próprias estatísticas da UE, os custos horários unitários de trabalho, incluindo salários, contribuições para a Segurança Social, custos dos seguros e outras despesas, eram em Portugal de 18,2 euros/hora, na UE 27 de 33,4 euros/hora e na zona euro 37 euros/hora. Enquanto isto, os cinco maiores bancos embolsam lucros gigantescos, da ordem dos 12 milhões de euros por dia, e as empresas de setores como combustíveis, eletricidade e distribuição alimentar acumulam ganhos da ordem das centenas de milhões de euros por ano. E um presidente da comissão executiva de uma das empresas mais cotadas na bolsa, o chamado PSI, aufere em média, entre vencimentos e prémios, mais de 1,4 milhões de euros por ano, ou seja, mais de 100 mil euros por mês.

Ademais, entre 2015 e 2024, o PIB (produto interno bruto) cresceu 21%, mas apenas 5% desse aumento veio da produtividade, sendo que em 20 anos, cresceu 49,9%, mas os salários reais apenas 39%, o que significa que mais 12% da riqueza criada pelo trabalho migrou para o capital. 

Segundo os estudos e estimativas do Observatório de Economia e Gestão de Fraude da Economia, sediado na Faculdade de Economia do Porto, a chamada “economia informal” ou “economia não registada” representava em 2023 mais de um terço (34,87%!) de todo o PIB. Ora nesta enorme área de atividade, onde não há leis do trabalho, nem tribunais do trabalho, nem Autoridade para as Condições do Trabalho, nem descontos para a Segurança Social, nem prestações sociais, está seguramente um número considerável de trabalhadores individuais e até de microempresários que não aguentam o peso de uma fiscalidade asfixiante. Mas estão também empresas de média e até de grande dimensão que, propositadamente, exercem pelo menos parte da sua atividade à margem da lei; e o caso das partes das remunerações pagas sem descontos, “por baixo da mesa”, é disso um exemplo significativo. 

Por outro lado, esta situação mascara também a realidade noutras matérias extremamente relevantes, à cabeça das quais está a sinistralidade laboral. Portugal, com uma média de acidentes de trabalho da ordem dos 190 mil por ano, é o terceiro país da União Europeia com o maior número de acidentes, mas esta realidade há de ser ainda muito superior, só que uma parte dela não é declarada. Tal como é aliás também incontornável o fenómeno da gigantesca subnotificação, ou falta de participação, das doenças profissionais. Sendo que muitas delas, inclusivamente mortais, são apenas descobertas já depois de o trabalhador passar à reforma. 

Como sucessivos estudos do economista Eugénio Rosa têm demonstrado, o número real dos desempregados é, desde logo, por força do elevado número de trabalhadores no desemprego que, pela idade, pela doença ou pelo cansaço não alimentam qualquer esperança de arranjar novo emprego e não se inscrevem nos centros de emprego, muito superior aos desempregados constantes das estatísticas oficiais. E destes apenas metade consegue ter direito a receber o magro subsídio de desemprego. Realmente é muito difícil um trabalhador despedido, mais ainda com 40 ou 50 anos de idade, encontrar um novo emprego, sendo que o desemprego de longa duração representa cerca de 37% do desemprego total. 

A situação dos jovens, e em particular dos jovens qualificados, é particularmente grave num país que aceitou destruir a sua capacidade produtiva e dedicar-se esmagadoramente à prestação de serviços de alta intensidade e baixa qualificação e remuneração, como a agricultura intensiva, a restauração e o turismo, atingindo assim o desemprego jovem entre os 16 e os 24 anos os 19,5%. 

Por outro lado, a vida no interior das empresas está cada vez mais difícil, com o assédio moral, ou seja, a política do medo, da perseguição, da discriminação, a ser generalizadamente utilizado como ferramenta de gestão para levar os trabalhadores a aceitarem piores condições de trabalho e/ou salários mais baixos. 

Os truques e as artimanhas patronais multiplicam-se e endurecem na maior das impunidades. Os salários “partidos” em várias componentes, em que apenas uma delas é chamada de vencimento base, e só ela constitui a base de cálculo, em caso de despedimento, por exemplo. Ou a composição do salário com prestações remuneratórias atribuídas – e logo também retiradas – por atos de gestão, ou seja, pelo mero arbítrio dos patrões, que assim conseguem manter aquietados e controlados um número significativo de trabalhadores que, com receio de verem a sua retribuição subitamente diminuída para cerca de metade, a tudo ou quase tudo se prestam. 

A chamada “avaliação de desempenho” está hoje generalizadamente transformada, até pela falta de efetivo controlo, seja ele sindical ou judicial, num meio privilegiado de conferir um verniz de pretensa objetividade ou cientificidade à discriminação e à perseguição e no colocar na calha para o despedimento os indesejáveis, ou seja, os trabalhadores que não baixam a cabeça e não abdicam de lutar pelos seus direitos e de denunciar as ilegalidades e arbítrios patronais. 

Os mecanismos de defesa individual e sobretudo coletiva dos trabalhadores estão muito enfraquecidos.

E os mecanismos de defesa individual e sobretudo coletiva dos trabalhadores estão muito enfraquecidos. Ainda que os números oficiais camuflem a realidade do elevado número de trabalhadores que são sindicalizados mas que, por receio de represálias, não o comunicam ao patrão, o certo é que, também por responsabilidade própria dos sindicatos, por incapacidade de compreender as novas realidades do mundo do trabalho e de combaterem o ultra individualismo da ideologia neoliberal e por terem aceitado um recuo histórico para serem meras estruturas de fraca reivindicação económica, a taxa oficial de sindicalização é muito baixa, rondando os cerca de 7%. 

E, mercê desse enfraquecimento da organização dos trabalhadores e das medidas cirúrgicas adotadas pelo Código do Trabalho e intensificadas pelas chamadas reformas laborais da Troika, e mantidas no essencial em vigor por todos os governos dos últimos 25 anos, a contratação coletiva, quer em termos de número absoluto de convenções coletivas, quer de número de trabalhadores abrangidos, desceu drasticamente, sendo os últimos dados oficiais de 272 convenções e 885 mil trabalhadores abrangidos, isto é, somente 15% do total. 

Ao contrário da sistemática propaganda patronal e governamental, o número e intensidade das formas de luta coletiva são fracos (tendo, porém, e felizmente, conhecido uma evolução bastante positiva com as duas greves gerais contra o pacote laboral). Assim, em 2024, segundo os dados do Ministério do Trabalho, verificaram-se apenas 219 greves, abrangendo perto de 66 mil trabalhadores. 

Em contrapartida, os despedimentos, em especial os despedimentos coletivos, que lançam trabalhadores para a rua às dezenas ou às centenas, têm aumentado, havendo atingido em 2025 os 562, com mais de 6500 trabalhadores despedidos. 

Por seu turno, os meios legais de defesa dos direitos dos trabalhadores constituem outra fraude. As custas judiciais são, precisamente para funcionarem como um travão no acesso aos tribunais do trabalho, escandalosamente caras e por isso, de acordo com os dados estatísticos do Ministério da Justiça, de cerca de 200 mil processos laborais entrados anualmente entre 1976 e 1978, passámos, sobretudo a partir de 1990 e em particular nos últimos 10-15 anos, para um número da ordem de apenas 50 mil. 

Grande parte dos julgadores desconhece o que é a realidade das relações de trabalho e de todas estas artimanhas patronais e o que é, por exemplo, o fortíssimo constrangimento que um trabalhador, sobretudo se for precário, enfrenta para conseguir arranjar prova testemunhal, através de colegas seus em situação idêntica e, logo, sujeitos a toda a espécie de retaliações. As indemnizações por danos morais, designadamente nos casos de violações graves dos direitos laborais, como por exemplo de assédio moral, são, mercê de uma dominante e miserabilista cultura judiciária, ridiculamente baixas, constituindo assim um meio de impunidade, senão mesmo de incentivo à reincidência dos patrões violadores da lei.

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As indemnizações legalmente devidas em caso de despedimento coletivo ou extinção do posto de trabalho são também escandalosamente baixas, porque calculadas apenas a partir daquilo que é pago ao trabalhador a título de remuneração base (e não de toda a retribuição que ele recebe) e à irrisória razão de 14 dias de retribuição por cada ano de antiguidade.

Acresce que se o trabalhador quiser impugnar um desses despedimentos, tem desde logo que devolver de imediato ao patrão a referida indemnização de antiguidade e depois esperar anos, às vezes três, quatro, cinco ou mesmo mais, por uma decisão favorável. A mesma demora espera também o trabalhador atingido por um despedimento individual ilícito, sendo certo que, com frequência, mesmo condenado a reintegrar o trabalhador, que por tal reintegração optou, o patrão não o reintegra, tudo isto sem consequências de maior.

Formação adequada e garantia das devidas condições de higiene e segurança no trabalho são coisas que, em muitos sectores e em muitas empresas, em particular, por exemplo, na construção civil e nas indústrias transformadoras (aqueles sectores nos quais se verifica um maior número de acidentes de trabalho), não existem, sendo mesmo consideradas um “custo” que é preciso diminuir a todo o transe ou até eliminar, para assim se garantirem maiores lucros.

E a atividade inspetiva e sancionatória, em particular por parte da propositadamente depauperada e desvalorizada ACT (Autoridade para as Condições de Trabalho) é coisa que também praticamente não existe.

Por fim, em caso de acidente de trabalho ou de doença profissional, os respetivos processos judiciais são uma verdadeira e longuíssima tortura e revitimização das vítimas da doença ou acidente, abandonadas à sua sorte, sem capacidade para guerrear com as poderosas seguradoras e os seus sempre prestáveis peritos. Para mais, com base numa Tabela Nacional de Incapacidades totalmente ultrapassada e inadequada, mas a cuja revisão o omnipotente lobby segurador se tem oposto com êxito desde há décadas.

A generalidade dos trabalhadores portugueses está assim sujeita a que, enquanto podem trabalhar no máximo das suas capacidades, lhes devorem a carne e lhes chupem o sangue, para, assim que sofrem um acidente, ficam doentes ou simplesmente mais velhos e cansados, serem, de forma totalmente indigna, atirados para um canto como um trapo imprestável.

É tempo, pois, de os trabalhadores portugueses e das organizações que dizem representá-los se erguerem, de forma resoluta e firme, em defesa da dignidade de quem trabalha!

categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Portugal Eça de Queirós Civilização

O último Eça

A obra do período final da vida de Eça de Queirós, definida pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, é a de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, de uma visão filosófica específica, ou de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova sensibilidade aberta às experiências do mundo sem as encerrar numa óptica unicitária, tendo delas uma visão supra-histórica.

Existe uma relação filosófica e ideológica entre o Fradique Mendes (“Memórias e Notas”), o conteúdo da maioria das cartas deste “proto-heterónimo” de Eça (com a devida exclusão das “cartas a Clara”), o conto de carácter religioso “S. Cristóvão” (1890) e o conto lírico-campestre “A Civilização” (1892). É como se Eça de Queirós, perfazendo 43 anos, literária e socialmente insatisfeito, decidisse fazer uma revisão de toda a sua obra anterior (mesmo a não publicada), de todos os seus momentos literários passados (escolas estéticas, influências estilísticas, leituras pessoais), privilegiando, como estratégia narrativa, não a realidade social exterior direta e a observação bem exprimida dessa realidade (seu anterior cânone realista), mas a sua realidade interior, a sua consciência psicológica, subjetiva, englobando as fases que ele próprio vivera enquanto “satanista” ultrarromântico (década de 1860), enquanto naturalista-realista socialmente empenhado (década de 1870) e enquanto realista cético aberto a outras novidades e experiências (entre 1880 e 1888).

É como se Eça de Queirós, perfazendo 43 anos, literária e socialmente insatisfeito, decidisse fazer uma revisão de toda a sua obra anterior”

Assim, a partir de 1888, a estratégia discursiva de Eça deixaria de assentar na observação direta da realidade social exterior, desmascarando-a e criticando-a (esta é indubitavelmente a intenção última do projeto de Eça desde As Farpas e O Mistério da Estrada de Sintra até ao núcleo ideológico central d’ Os Maias), e passaria a assentar em três pontos centrais:

a) a revisão subjetiva das impressões psicológicas, fundadas na memória pessoal, por que Eça vivera os momentos políticos, sociais, ideológicos e até profissionais do empolgamento e do fracasso das ideias da Geração de 70 para transformar Portugal. O encontro de Eça em 1884, no Porto, e fotografia publicada n’ A Ilustração, em 1885, com um deprimido Antero de Quental, com um regenerado Oliveira Martins, que preparava a sua entrada na vida política constitucional, com um jacobino e anti-litúrgico Guerra Junqueiro (cujas ideias Eça criticará via Fradique Mendes) e com um já conservador Ramalho Ortigão, deve ter tido forte influência na visão socialmente pessimista com que Eça encerrara Os Maias e A Relíquia. O que Eça diligenciara narrar em Os Maias fora a história da sua própria geração, que presumira fazer história e acabara por descobrir, no fim, que “a história é uma grande fantasia”. Por isso, Carlos da Maia desabafa para Ega: “Falhámos a vida, menino!”, e Teodorico Raposo descobre que, mais do que pela verdade, os povos se movem pela “ilusão”. Toda a obra posterior de Eça reflecte, por um lado, as condições daquele monumental falhanço, e, por outro, visa esboçar ficcional e ensaisticamente, através de uma metodologia meta-histórica e comparativista, novas alternativas sociais para o século XX: a vida simples do “segundo” Jacinto, a vida cosmopolita de Fradique, a partida inesperada de Gonçalo para Moçambique, quebrando o ciclo esmagador do rotativismo político, a vida benigna de Cristóvão. Forma-se, assim, o grande objectivo dos últimos dez anos de vida de Eça: descobrir alternativas sociais e civilizacionais para o esgotamento político e espiritual da sua geração, tomando como ponto de partida, não a objetividade das relações sociais à luz de uma perspetiva histórica voluntarista e determinista (década de 1870), mas à luz da subjetividade vivencial das suas próprias recordações de vinte anos de história de Portugal, como se percebe na introdução à Correspondência de Fradique Mendes e nas peripécias narrativas d’ A Ilustre Casa de Ramires.
b) Se a matéria de que Eça se serve é a da sua própria memória vivencial, a estratégia narrativa será tanto a de revisitar, momento a momento, tema a tema, os “motivos emocionais” por que se desdobrara o núcleo central da crítica ao antigo Portugal (o político enfatuado, o proprietário avarento, o eclesiástico burocrata, o administrador de província, o bacharel presumido, o dandy balofo, o brasileiro opulento, a beata de sacristia, o poeta alucinado, o pensador lunático…), quanto a de questionar e de problematizar, à luz do pensamento europeu da década de 1890, sorvido em Paris, os grandes temas filosóficos vividos pela Geração de 70: o progresso e a razão, a cidade e o indivíduo, a prosperidade e a pobreza, o campo e o ruralismo, a educação do cidadão, o corpo da mulher e o amor, o bem, a virtude e a santidade, o saber e a ignorância, a Igreja e a salvação…;
c) Se a matéria (ou seja, o conteúdo extraliterário) e a estratégia (ou seja, os pontos de abordagem literária) são estes, o método que Eça seguirá é indubitavelmente, não a observação realista (que permanecerá, embora mitigada), mas o método comparativo: a comparação entre tempos diversos, entre civilizações diversas e entres fases diversas de uma mesma civilização. Ora, é justamente este o método usado em A Correspondência de Fradique Mendes, tanto em “Memórias e Notas” como nas cartas propriamente ditas (comparação entre religiões, entre civilizações diferentes, entre tempos diferentes de uma mesma civilização…), em A Cidade e as Serras (comparação entre momentos diferentes de uma mesma civilização: o momento maximamente urbano comparado com o momento rural), em A Ilustre Casa de Ramires (comparação entre as fases diferentes dos últimos setenta anos de Portugal; comparação entre fidalgos medievais e constitucionais…) e nas Lendas de Santos, principalmente em “S. Cristóvão” (comparação entre diferentes formas de poder e diferentes formas de assunção do sagrado) e nas diversas crónicas que vai publicando no Brasil e em Portugal. A utilização deste método permite que a visão do narrador não seja nunca a de um participante empenhado na história, mas a de um observador (os narradores de A Cidade e as Serras e Correspondência de Fradique Mendes não são as personagens principais, mas amigos delas) que dialoga e põe a nu, comparativamente, visões diferentes, resultados diferentes de diferentes perspetivas, ou seja, a tal método escapa-lhe, por um lado, a omnisciência narrativa; e, por outro, o empenho social militante, abrindo horizontes a uma visão humanista e meta-histórica dos acontecimentos, das ideias e das próprias fases da história. É justamente esta a grande característica por que penetramos no humanismo do último Eça: o despreendimento da conjuntura histórica circunstancial e a projecção, nos factos narrados e na estratégia de narração, de uma visão sobre a totalidade da história, isto é, de uma visão meta-histórica. Agora, a partir de 1888, Eça não pretende fazer (década de 1870) ou retratar (década de 1880) a história, mas avaliá-la, não pretende transformar Portugal criticando as suas elites, mas avaliar todas as ideias que ideológica e filosoficamente encapuzaram Portugal, levando a democracia constitucional ao fracasso e fazendo perigar a coroa de D. Carlos I. 

É este o último Eça, que se caracteriza por

1) predominância da subjectividade face ao império da realidade, com forte atenuação do realismo como processo literário (que continua como modelo formal, embora atenuado);
2) revisitação de todos os temas fundamentais da história da civilização ocidental através das personagens criadas e, basicamente, da história de Portugal, como se Portugal e a Europa se encontrassem esgotados do seu esforço criador de mundos e tudo fosse necessário repensar, recomeçando uma outra Europa e um outro Portugal;
3) atenuação da observação realista e sobrevalorização subjetiva do comparativismo histórico, dando lugar a textos (romances, crónicas, contos) em que mais se sobrevaloriza a componente ensaística do que a componente descritivista, isto é, textos de fundo e horizonte meta-históricos;
4) No conteúdo romanesco e jornalístico, explícita sensibilidade e um empenhamento activo na valorização do “pobre”, apelando a uma solução política e civilizacional promotora do “pão” e da “casa” para todos.

O conceito que exprime estas quatro características através de uma única designação e um único sentido é o de humanismo – humanismo enquanto filosofia defensora de uma autenticidade humana com intervenção social activa no sentido de generalizar o bem entre os povos sem a submissão a uma escola partidária ou filosófica única. Assim, a ser correcta esta perspectiva, a obra do último Eça, definido pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, classificar-se-ia, sobretudo, como a obra de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, não de uma visão filosófica específica, não de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova sensibilidade aberta às experiências do mundo (como o denotam os volumes das Notas Contemporâneas e das Cartas de Paris) sem as encerrar numa óptica unicitária, tendo delas uma visão supra-histórica, como um observador tão imparcial quanto possível porque dominando todos os tempos e todos os espaços da história humana (ao modo enciclopedismo polímata de Fradique Mendes; ao modo de Jacinto de Paris; ao modo de Gonçalo Mendes Ramires, conhecedor do passado e do presente de sua família, síntese de uma visão de Portugal; ao modo de Cristóvão, que tudo experimenta, desde a mais profunda abjeção à mais intensa glória) – não se deixando ideologicamente enfeitiçar por nenhuma perspetiva particular –, e inclinando sempre esta visão para uma generalização do bem e da riqueza entre os seus concidadãos. Nesta nova sensibilidade, a literatura já não serve uma classe social ou uma ideia prévia, mas, como bem notou António José Saraiva (na esteira de Álvaro Lins e João Gaspar Simões), possui estatuto equivalente ao do ensaio, transfigura-se numa literatura de conhecimento, que busca possibilidades e soluções, que se auto-interroga, problematiza ideias feitas e preconceitos, que desafia os grandes temas civilizacionais (a pobreza e a riqueza, a cidade e o campo, o bem e o mal, o povo e as elites, a santidade e a salvação, o homem e a sua história: as Lendas dos Santos, A Cidade e as Serras e A Correspondência de Fradique Mendes) e procura inquirir, sem uma dogmática prévia, a grandeza e a decadência da história de Portugal (A Ilustre Casa de Ramires). Ensaio porque, para tal tipo de literatura inquiridora, não existe estilo literário acabado e pronto a usar, como o eram o realismo e o naturalismo: “S. Cristóvão” evidencia-se como um ensaio romanceado sobre a procura de salvação, verdadeiramente é uma parábola sobre a impossibilidade de salvação na Terra, como veremos, onde Eça evidencia todas as formas de se ser útil e de se ser bom, de todas concluindo da incapacidade do homem para extirpar o mal do seu coração; A Cidade e as Serras patenteia-se como um ensaio sobre as fases inicial e terminal da nossa civilização, concluindo da impossibilidade de uma existência saudável e humana em qualquer um destes extremos e lançando a hipótese de a felicidade se encontrar num equilíbrio entre a simplicidade rural e o progresso técnico (Jacinto leva o telefone para Tormes e as casas dos caseiros passam a ter janelas de vidro); A Correspondência de Fradique Mendes é um autêntico ensaio epistolar sobre o amor, a religião, o ecletismo de fim de século, o homem antigo e o homem democrata, Portugal…; e A Ilustre Casa de Ramires, cruzando um estilo romântico e um estilo realista, assume-se como um ensaio romanceado sobre as dúvidas e as perplexidades que a existência de Portugal levanta, concluindo-se que a essência contraditória e paradoxal de Portugal é o de ser e não ser simultaneamente: presumir-se rico, mas apiedar-se dos pobres; ser nobre, mas ter uma mentalidade igualitária; ser bondoso e generoso, mas sentir inveja; ser vaidoso, mas ser incapaz de se mostrar superior; ser prestável e útil, mas ter consciência das diferenças sociais.

Armamento Defesa NATO Portugal categoria-política edicao-2026-07-09 (35)

O complexo militar-industrial português

A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O Governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro. Porém, nos últimos cinco anos, Portugal construiu uma indústria militar surpreendentemente forte.

ilustração: Ricardo Ferreira

Portugal não teve sempre um complexo militar-industrial. Historicamente dependente de armamento estrangeiro, o país só começou a desenvolver uma indústria de defesa e aeroespacial independente na década de 1960, para sustentar as guerras coloniais. Na época do seu império global, viveu principalmente do poderio naval, adquirindo a maior parte do equipamento pesado a fornecedores estrangeiros. Mesmo depois de aderir à NATO, em 1949, continuou a carecer tanto de siderurgia pesada como de uma indústria de armamento, dependendo de importações. 

A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro.

Agora, porém, no século XXI, Portugal construiu, nos últimos cinco anos, uma indústria militar surpreendentemente forte. A indústria de defesa cresceu rapidamente graças à inovação no sector privado, a par de subsídios do Estado e colaborações com a academia. O sector consta de uma rede altamente rentável e de alta tecnicidade de mais de 160 organizações, representadas pelo AED Cluster Portugal (Aeronáutica, Espaço e Defesa).

O complexo militar-industrial português não produz blindados em massa; é altamente especializado, fortemente baseado no modelo da “hélice tripla” que, integrando forças armadas, laboratórios de investigação universitários e fornecedores privados de tecnologia, cria tecnologias de “uso dual” (ou seja, civil e militar). As universidades portuguesas têm aumentado o seu investimento na investigação e desenvolvimento de armamento e outras tecnologias bélicas.

A produção de armamento dá muito dinheiro a ganhar, e muitas empresas portuguesas deram por isso. O sector português da defesa regista o seu maior crescimento desde que o país aderiu à União Europeia. Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo. A indústria da “defesa” portuguesa emprega agora cerca de 20 mil pessoas e gera receitas anuais superiores a 2100 milhões de euros. “E a tendência é ascendente”, indica José Neves, presidente da associação do sector, a AED Cluster Portugal, que engloba mais de 160 organizações portuguesas que trabalham nas áreas da aeronáutica, do espaço e da defesa.

 

Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo.

 

Para cumprir a meta acordada pela NATO de gastar 5% do PIB na defesa, o Governo também está a adquirir activamente equipamento ao estrangeiro. Lisboa compra fragatas à Itália, tanques à Alemanha e novos caças. Em Outubro do ano passado, o Governo português anunciou um aumento recorde das despesas militares para 2026. O orçamento da defesa aumentou quase 3800 milhões de euros, ou mais 23,2% em comparação com 2025.

Esta recente expansão está directamente relacionada com a guerra na Ucrânia e com a campanha de propaganda sobre a chamada “ameaça russa” à segurança da Europa. Portugal tem sido aliado da Ucrânia desde o início da invasão russa. O Governo contribui com dinheiro dos contribuintes para o mecanismo PURL, que medeia a compra de armas dos EUA para a Ucrânia. Estão a ser usados na Ucrânia drones e sistemas de comunicação portugueses.

Se bem que ainda possa ser relativamente pequeno em termos globais, o complexo militar-industrial português tem-se desenvolvido em subsectores de nicho de alta tecnologia mais do que na produção de equipamento tradicional. Há empresas portuguesas a fabricar drones ou componentes para grandes grupos internacionais da defesa. Empresas como o fabricante de drones Tekever ou a Critical Software são parceiros de confiança do sector da defesa à escala internacional, quer como fornecedores, quer — cada vez mais — como fabricantes de produtos acabados. Empresas como a Critical Software desenvolvem sistemas aeroespaciais e de defesa complexos, incluindo software de voo e interfaces-utilizador de co-piloto usadas por parceiros internacionais como a Saab. Portugal também investe muito na vigilância marítima, nas comunicações navio-costa e em navios auxiliares.

Para cumprir os ditames da NATO e modernizar as suas forças, Portugal está a proceder activamente a uma revisão da sua presença militar. Entre os reapetrechamentos mais importantes contam-se a modernização dos submarinos da classe Tridente, a integração de sistemas de recepção de alertas para a frota de F-16 e a reabilitação de centros estratégicos como a Base Aérea de Montijo e a Base das Lajes, nos Açores, mantida pelos EUA. O Governo está actualmente a conduzir um grande projecto de aquisição que visa a potencial substituição da sua frota de caças F-16 em obsolescência, estando nos pratos da balança jactos americanos caros e alternativas europeias, como o Gripen sueco.

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A empresa sueca de defesa Saab almeja vender a Portugal o seu sistema Gripen de avião de caça. “O Gripen-E seria uma solução verdadeiramente europeia”, segundo Daniel Boestad, vice-presidente do programa Gripen na Saab. A empresa aeroespacial portuguesa OGMA poderia fabricar peças para a aeronave, tal como já faz, designadamente, para a empresa brasileira Embraer, adquirindo Portugal, em troca, à Embraer aviões de transporte militar. “Além disso, estamos a analisar o potencial de alargamento da cooperação nas áreas da produção e MRO”, observou Boestad; a sigla MRO cobre a manutenção, reparação e revisão. 

A empresa portuguesa Critical Software tem em desenvolvimento um simulador de voo para o Gripen-E. “Estamos a trabalhar com a Saab, porque é um desafio interessante e porque nos identificamos com o projecto”, refere João Carreira, director executivo da Critical Software. A sua empresa começou com apenas três colaboradores, em 1998, tendo, entretanto, crescido e passado a ser uma empresa internacional com cerca de 5 mil empregados. Inicialmente, a empresa produzia software para as fragatas da Marinha portuguesa. Actualmente, a Critical Software opera joint ventures com empresas como a BMW e colabora com empresas alemãs do sector da defesa como a Diehl e a Rheinmetall.

A enorme expansão da indústria de armamento portuguesa faz parte de uma viragem europeia para aumentar a despesa com a defesa, apoiada por financiamentos da UE. A Europa não está apenas a rearmar-se, está a reorientar a sua base industrial da produção civil para a produção militar, e Portugal está discretamente a aproveitar a onda.

Tudo isto é óptimo para os fabricantes de armas, mas pouco valor acrescenta à economia geral. Estima-se em não mais de 0,5% do rendimento nacional a contribuição central directa da próspera indústria militar/de defesa portuguesa, que emprega apenas 0,4% da força de trabalho. A defesa nunca será grande contribuinte para a prosperidade do país, ainda que renda milhões de euros às empresas envolvidas. E afectar preciosos recursos e mão de obra à produção de armas para matar e destruir vidas e meios de subsistência reduz os recursos disponíveis para investir em necessidades sociais reais e em melhorar a vida das pessoas.


Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-opinião Portugal Economia edicao-2025-12-18 (09)

Quando o país vai bem, e o povo, mal, The Economist condecora Portugal

Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral, The Economist anunciava ter elegido a economia portuguesa a “melhor da OCDE”. Isto porque, em 2025, Portugal teria combinado um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma “bolsa esfuziante”.

Enquanto o país do trabalho entrava em greve geral ou, não podendo, aplaudia quem a fazia, o primeiro-ministro Montenegro e o seu inexpressivo ministro da propaganda Amaro encontraram um bom motivo para se ufanarem.

Entre o país parar e Montenegro e a sua ministra do Trabalho fugirem das câmaras como o diabo da cruz, saíra uma prenda inesperada na rifa do governo.

A revista The Economist anunciava a eleição da economia portuguesa como a “melhor da OCDE” em 2025.

The Economist é uma velha revista económica e política anglo-saxónica. Há mais de 150 anos que alimenta o diálogo interno das elites do capital financeiro mundial, longe das interferências do “grande público”. Não cultiva, do capitalismo, a propaganda vulgar das penas compradas, mas uma propaganda mais culta e refinada.

E ninguém parece ter ido ver as razões que exactamente fundamentaram a atribuição do galhardete, os critérios das “notas” de The Economist.

Ei-los aqui: “Em 2025 [Portugal] combinou um forte crescimento do PIB, inflação baixa e uma bolsa esfuziante.”

Crescimento do PIB: porque “o turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos”.

“Bolsa esfuziante”: porque lucros e dividendos subiram em flecha, não se conhece outra forma de a bolsa “esfuziar”.

“Inflação moderada” porque… The Economist tem o cuidado de retirar dos índices de inflação convencionais os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis: são “voláteis” — pesarão, talvez, na bolsa de quem trabalha; mas, para milionários, são amendoins!

O turismo esteve em grande, e grande número de estrangeiros ricos estão a instalar-se no país para aproveitar os impostos baixos.

Tudo isto, no mesmo momento em que a classe trabalhadora da “melhor economia da OCDE” entrava, pela primeira vez em mais de uma década, em greve geral unida, exasperada pela degradação dos salários, dos horários e ritmos de trabalho, da habitação, do SNS e dos serviços públicos e levada ao rubro pelo projecto de devolver as relações de trabalho ao nível da Idade Média.

É impossível não recordar 2012 e a troika.

Era primeiro-ministro Passos Coelho, de triste memória; era chefe do grupo parlamentar do PSD um Luís Montenegro ainda não spinum-renascido. O ministro das Finanças de então, Vítor Gaspar, saiu-se com uma sentença involuntária e inesquecivelmente brilhante: “O país está melhor, mas as pessoas estão pior.”

Os méritos de Gaspar no engrandecimento do país pelo empobrecimento dos seus habitantes foram inegáveis — e de tal modo ofuscaram os píncaros da finança mundial, na “pessoa” do FMI, que este em breve lhe proporcionou um cargo de direcção na augusta instituição. O tirocínio ministerial concluíra-se, com efeito, pouco antes, tendo-se o dito ministro, segundo lenda talvez urbana, demitido depois de ser alvo dos escarros dos seus concidadãos num supermercado de Lisboa (não se sabendo se terá dito “chateia-me que me cuspam em cima”).

O certo, porém, é que o gaspariano lema fez carreira. Tornou-se política oficial de todos os governos que lhe sucederam: uns, de mais delicada geringonça, outros de mais bruta matraca — como o actual, chefiado pelo poldro do multimilionário Violas dos casinos.

Regressemos, pois, à distinção dada pela revista da alta finança. Atentando nos critérios em que ela se baseou, vê-se que Montenegro teve a merecida homenagem por tornar, de facto, o “país cada vez melhor”, pondo “as pessoas cada vez pior”.

Mas “pessoas” é nome algo genérico. Abram-se honrosíssimas excepções para os proprietários dos novíssimos Porsches, Ferraris e outras altas cilindradas que sulcam as auto-estradas da melhor economia da OCDE.

Tal é a comenda e a sina de Montenegro: sim, põe o povo cada vez pior; mas que grande vida dá aos “estrangeiros ricos” que vivem dos impostos dos portugueses e imigrantes pobres, e para os portugueses ricos que vivem de manter o sistema que esmifra estes e beneficia aqueles!

Para The Economist como para Montenegro, “país” são os portugueses ricos e os novos estrangeiros ricos.

Para mal deles, as “pessoas”, os trabalhadores, portugueses e imigrantes, que estão cada vez pior, não estão dispostos a aguentar muito mais.


*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

categoria-opinião Guerra NATO Portugal Rearmarmento

Canhões ou manteiga?

O presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Armindo Monteiro, afirmou que, preparando-se os países da NATO para aumentar a despesa em matéria de defesa até 5% dos PIBs nacionais, Portugal devia converter algumas das suas fábricas à produção de armas. “Por que não dedicar a capacidade [do sector automóvel] à produção militar?”, questionou Monteiro.

Recentemente, o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Armindo Monteiro, afirmou que, preparando-se os países da NATO para aumentar a despesa em matéria de defesa até 5% dos PIBs nacionais, Portugal devia converter algumas das suas fábricas à produção de armas. “Temos de reativar algumas indústrias de defesa que ainda temos, mas sobretudo aproveitar algumas indústrias que estão plenamente operacionais e convertê-las. Um exemplo é o sector automóvel, que está a sofrer uma recessão; por que não dedicar essa capacidade à produção militar?”, questionou Monteiro, acrescentando ser relativamente simples transformar a fabricação de automóveis em fabrico de armas e que tal estava já a acontecer.

Mas será fabricar armas para a guerra a melhor maneira de Portugal e outros países europeus aumentarem a produção nacional e o emprego? As grandes potências parecem determinadas a transformar o mundo num imenso quartel. A despesa global com armamento ascendeu a 2,7 biliões de dólares no ano passado e está para acelerar. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs um plano de rearmamento da Europa (Rearm Europe), que visa mobilizar até 800 mil milhões de euros para financiar um incremento maciço da despesa com defesa. “Estamos numa era de rearmamento, e a Europa está pronta para aumentar maciçamente a despesa com a defesa.” Enquanto isso, a ameaça existencial representada pela emergência climática está a chegar a uma etapa crítica, devendo a comunidade internacional andar antes a mobilizar recursos dessa ordem de grandeza para a criação de uma economia pós-carbono.

“A questão de fundo é saber se estamos dispostos a aceitar que a corrida global aos armamentos é inevitável, e as alterações climáticas irreversíveis.”

Os governantes costumam argumentar que o aumento da despesa militar criará emprego e puxará pela economia. Então, mas para criar emprego, somos a favor de fabricar armas que servem para matar gente? O economista ortodoxo Maynard Keynes disse uma vez que, para puxar pela economia, “os governos deviam pagar gente para cavar buracos no chão e depois voltar a enchê-los”. O leitor ficará tentado a responder: “Mas que estupidez, não era melhor pagar para construir estradas e escolas?” Keynes responderia: “Está bem, paguem-lhes para construir escolas. A questão, aqui, é que não interessa o que façam, desde que o Estado crie emprego.”

Só que Keynes estava enganado. Interessa, sim. Se o tipo de empregos não interessasse, por que não aumentar drasticamente a produção de tabaco e promover o vício, assim criando emprego? A maior parte das pessoas opor-se-lhe-ia, por isso prejudicar diretamente a saúde. Ora, fabricar armas (convencionais e não convencionais) é extremamente prejudicial.

Não faltam produtos e serviços socialmente úteis que poderiam proporcionar emprego e salário aos trabalhadores. Infelizmente, muitos dirigentes sindicais apoiam as indústrias armamentistas porque muitos filiados seus nelas conseguem empregos seguros e bem remunerados, em que podem praticar orgulhosamente as suas competências especializadas. No entanto, diversificar a produção em detrimento do armamento poderia ser tão fácil quanto Monteiro pensa que é passar do fabrico de automóveis para o fabrico de tanques e bombas. Mais: teria maior potencial de criação de emprego. A produção de armas é particularmente intensiva em capital, gerando, por isso, menos empregos, em termos relativos, do que a produção civil. Um estudo norte-americano concluiu que, se o governo dos EUA investisse mil milhões de dólares em sectores civis alternativamente à produção militar, geraria até 140% mais emprego. Os investimentos em energia limpa, cuidados de saúde e educação criam também número muito maior de empregos em todas as faixas salariais, incluindo empregos de rendimento médio e alto.

Portugal tem um pequeno sector de produção de armamento, originalmente controlado pelo Estado para apoiar as forças armadas, particularmente durante as guerras coloniais do pós-1945. Essa estrutura acabou quando se deu a Revolução dos Cravos, em 1974-75. Atualmente, a indústria do armamento gera apenas 73 milhões de dólares por ano, correspondentes principalmente a sete grandes empresas privadas e cerca de trezentas micro, pequenas e médias empresas, que empregam apenas 32 mil pessoas, abarcando os sectores da aeronáutica, construção e reparação naval, têxtil, automação e robótica, metalurgia e desenvolvimento de software.

Em vez de apelar à expansão deste sector para satisfazer os objetivos bélicos da NATO e puxar pelos lucros das empresas privadas de armamento, como o presidente da federação empresarial portuguesa gostava, o governo português podia assumir o controlo pleno do sector e usar os recursos e as competências da força de trabalho para a produção civil, fosse de energias renováveis ou de desenvolvimento de inteligência artificial. São sectores que requerem competências idênticas e oferecem salários tão bons como a indústria de armamento. Seriam empregos melhores para os trabalhadores e para todos nós: postos de trabalho em indústrias que muito carecem de expansão e que não contribuem para um mundo mais perigoso, mas para um mundo mais seguro.

Nem sequer é certo que os trabalhadores atualmente empregados na produção de armamento se opusessem à mudança. Um estudo que perguntou aos trabalhadores da indústria armamentista se eles se opunham à diversificação indicou que os trabalhadores se dividiam; mas a mensagem forte que ficou foi que, para qualquer mudança, era preciso consultá-los. Eles detinham conhecimento indispensável em matéria do que fosse necessário fazer para tal diversificação.

Assim, propostas de redução da produção de armamento não podem vir de cima para baixo. Têm de dar voz e um papel aos sindicalistas, ouvir as ideias dos trabalhadores a respeito de planos alternativos praticáveis. O governo deveria criar uma agência para a diversificação que concebesse um programa de transição que, na reafectação a novos empregos, preservasse qualificações, empregos, salários e pensões.

Porém, a questão de fundo ainda é saber se estamos dispostos a aceitar que a corrida global aos armamentos é inevitável, e as alterações climáticas irreversíveis. Ou se, em alternativa, erguemos uma nova economia, assente nas orgulhosas tradições do movimento operário, de internacionalismo e luta pelo desarmamento, uma economia em que as qualificações dos trabalhadores possam servir para produções socialmente úteis, não para fazer armas de destruição maciça.

categoria-opinião Portugal Viriato edicao-2025-10-16 (01)

Os complexos comportamentais dos Portugueses

DÚVIDA METÓDICA

Segundo Camões, a Lusitânia, donde os Portugueses derivariam por continuidade histórica, evidencia-se como a diferença específica entre a "Espanha" e Portugal; e Viriato, como chefe da Lusitânia, surge igualmente e consequentemente como pai histórico ancestral dos Portugueses.

Complexos comportamentais são atitudes constantes que, nascidas e desenvolvidas historicamente, impregnam os hábitos coletivos dos Portugueses. São quatro os complexos comportamentais: 1) o complexo viriatino, retrato do português “puro”, a “essência” do português. Imagem nascida no Renascimento; 2) o complexo vieirino, o português que, por via do seu grandioso passado no século XVI, se concebe no futuro de novo um povo superior (o Quinto Império); 3) o complexo pombalino, a crença de Portugal ser construtivamente um povo atrasado e que só poderá desenvolver-se indo buscar capital e tecnologia à Europa; 4) o complexo canibalista, que evidencia que, tendo vivido moderna e contemporaneamente sob uma constante repressão, desenvolveu para com o outro atitudes negativistas, fundadas na humilhação, na delação, na inveja.

1 - VIRIATO – Origem exemplar de Portugal

No justo momento histórico em que Portugal inicia o processo de declínio do império, na segunda metade do século XVI, desponta a imagem de Viriato como símbolo da origem exemplar de Portugal.

Resgatada dos fundos da história por Sá de Miranda, a imagem de Viriato dá corpo à crítica deste autor aos modos culturais dominantes em Portugal na segunda metade do século XVI, imagem que, quatrocentos anos depois, os republicanos figuram no Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro, e o Estado Novo recupera na sua visão fantasmática e delirante da história de Portugal com o cognome de “Pai da Pátria”.

Com efeito, no final do período da Expansão, são literariamente traçados os contornos simbólicos da dupla imagem viriatina que até aos nossos dias iluminará a figuração histórica deste chefe lusitano. Neste aspeto particular, as mais importantes referências histórico-literárias que se encontram, neste período, são as de Sá de Miranda e de Luís de Camões. Com efeito, são estes dois autores que, possivelmente fazendo-se eco da leitura de traduções italianas e portuguesas dos autores latinos que abundavam no Renascimento, fixarão a imagética que, desde então, por afirmação reiterada (Frei Bernardo de Brito, Brás Garcia Mascarenhas, Teófilo Braga, Mendes Corrêa/A. Schulten, João de Barros) ou por negação absoluta (Alexandre Herculano, António Sérgio, Amílcar Guerra/Carlos Fabião) têm composto o conjunto de vetores simbólicos sintetizados na dupla imagem histórico-mítica de Viriato.

Esta dupla imagem pode ser sintetizada do seguinte modo:

  1. Destacam-se na imagética clássica viriatina os traços míticos do "patriarca" ou "pai da pátria", enquanto seu fundador longínquo, espécie de raiz primordial de Portugal, que Fernando Pessoa, no século XX, cristalizará designando Viriato como figura de "antemanhã", uma espécie de sol nascente eticamente exemplar, cuja lisa conduta face aos seus companheiros e face ao estrangeiro se constituirá como paradigma moral para os Portugueses de sempre. Delineia-se aqui a imagética moral de Viriato, que Sá de Miranda acentuará;
  2. A imagem histórica de Viriato surge também como padrão militar heróico cujo exemplo ressoará e será imitado pela longa genealogia de homens ilustres que compõem o destino guerreiro de Portugal. Delineia-se neste caso a imagética de exemplar bravura militar face a inimigos poderosos e às adversidades de Portugal, que Luís de Camões acentuará fortemente.

Em Sá de Miranda, encontramos uma importante referência a Viriato na "Carta a António Pereira, Senhor do Basto, Quando se Partiu para a Corte co’a Casa Toda". Leiamos um excerto desta "carta", redigida em data incerta, mas sempre depois de 1529/30 (casamento e instalação de Sá de Miranda no Minho):

Como eu vi correr pardaus
Por Cabeceiras de Basto,
cresceram cercas e gasto,
vi, por caminhos tão maus,
tal trilha e tamanho rasto.
Logo os meus olhos ergui
à casa antiga e à torre,
e disse comigo assi:
"Se Deus não nos val aqui,
perigoso imigo corre!"
Não me temo de Castela,
donde inda guerra não soa;
mas temo-me de Lisboa,
que, ao cheiro desta canela,
o Reino nos despovoa.
E que algum embique e caia,
(afora vá o mau agouro!)
falar por aquela praia
da grandeza de Cambraia,
Narsinga das torres d’ouro!
Ouves, Viriato, o estrago
que cá vai dos teus costumes?
Os leitos, mesas e os lumes,
todo cheira: eu óleos trago;
vem outros, trazem perfumes.
E ao bom trajo dos pastores,
com que saíste à peleja
dos Romãos tam vencedores,
são mudados os louvores;
não há quem t’haja enveja.

Sá de Miranda socorre-se da figura de Viriato como arquétipo moral de Portugal, evidenciando por contraste uma acelerada dissolução de costumes sociais trazida pela riqueza quinhentista proveniente da "canela", dos "pardaus" (moeda corrente na Índia) e pela atração mirífica de "Cambraia" e "Narsinga". Assim, Sá de Miranda focaliza a imagem de Viriato comparando o carácter impoluto e heroico deste, que, usando o "trajo dos pastores" (indício semântico de simplicidade e austeridade), saiu dos "Romãos" vencedor, com o carácter dos portugueses de Quinhentos que, "ao cheiro desta canela", atraídos pela riqueza do Oriente, "o Reino nos despovoa". Ou seja: se os Portugueses persistirem no exemplo espartano de Viriato, serão vencedores de outros povos; mas se se abandonarem ao uso de "perfumes", correndo atrás de "pardaus", só se salvarão se "Deus" os valer "aqui", onde o "imigo" é o próprio português.

A escrita desta "carta", na primeira metade do século XVI, num tempo em que a nobreza do interior de Portugal abandonava as quintas e os solares para assumir uma função meramente cortesã, sem um útil papel social, cristaliza definitivamente a imagem mítica de Viriato como paradigma moral da nação, figura de pastor impoluto que, devido às suas qualidades exemplares, dificultara longamente o domínio romano na Península Ibérica.

Em Os Lusíadas, escrito na segunda metade do século XVI (1.ª edição 1572), Luís de Camões fixa definitivamente a segunda vertente imagética da figura histórico-mítica de Viriato. Camões representa Viriato como "patriarca" militar dos Portugueses, modelo originário e motor de heroísmo a partir dos quais se conformam todos os feitos ilustres dos Portugueses, seja enquanto defesa bélica do território português, seja enquanto promotor "da lusitana antiga liberdade" (I, 6), isto é, dos valores da liberdade e independência nacionais, seja, ainda, enquanto exemplo militar e moral dos feitos que os Portugueses cometiam nos "novos mundos" do mundo. No "Concílio dos Deuses", do Canto I, Camões põe no discurso de Júpiter a descrição daquela "forte gente" que eram os Portugueses:

"Eternos moradores do luzente,
Estelífero pólo e claro assento,
Se, do grande valor da forte gente
De Luso não perdeis o pensamento
Deveis de ter sabido claramente,
Como é dos fados grandes certo intento,
Que por ela se esqueçam os humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
"Já lhe foi (bem o vistes) concedido,
C’um poder tão singelo e tão pequeno,
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Pois contra o Castelhano tão temido
Sempre alcançou favor do céu sereno;
Assi que sempre, enfim, com fama e glória,
Teve os troféus pendentes da vitória.
"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
Que co’a gente de Rómulo alcançaram,
Quando com Viriato, na inimiga
Guerra romana, tanto se afamaram;
Também deixo a memória que os obriga
A grande nome, quando alevantaram
Um por seu capitão, que, peregrino,
Fingiu na cerva espírito divino.
(I, 24 - 26)

Júpiter declara que os Portugueses já venceram o "Mouro forte e guarnecido" e o "Castelhano tão temido" e, numa autêntica viagem no tempo, que reflete o saber histórico renascentista, recua a Viriato e a Sertório (este identificado pela lenda da "cerva" ou corça, que o seguiria e lhe sussurraria ao ouvido as táticas militares romanas – três últimos versos). Nestas estâncias, a figura de Viriato é moldada historicamente segundo a "fama antiga" que os Portugueses levantam, vencendo sempre os seus inimigos: os Romanos enquanto ainda Lusitanos, posteriormente os Mouros e os Castelhanos. E se estes povos surgem como os três inimigos dos Portugueses na constelação imagética de Camões, as três figuras "heróicas" deles vencedores são Viriato (I, 26), D. Afonso Henriques (III, 30 a 84) e Nuno Álvares Pereira (IV, 13 a 50).

No Canto III, o discurso de Vasco da Gama ao "rei" de Melinde permite uma caracterização ainda mais clara da figura de Viriato no imaginário camoniano. Vasco da Gama trata, em primeiro lugar, da "larga terra" (III, 5), relatando elementos identificadores da geografia humano-mítica da Europa (III, 6-16); seguidamente, caracteriza a própria Europa (III, 17-19), e, finalmente, descreve Portugal, designando-o como "Reino Lusitano" (III, 30), "Ditosa pátria minha amada" (III, 21). Assim, depois de Camões concentrar geográfica e literariamente o Mundo na Europa, a Europa na "Espanha" e esta em Portugal, trata-se agora de saber como estabelecerá a mais antiga, primitiva e originária separação entre "Espanha" (no sentido da totalidade da Península Ibérica) e Portugal. E a resposta vem logo na estância seguinte:

Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
de Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os íncolas primeiros.
Desta o Pastor nasceu, que no seu nome
Se vê que de homem forte os feitos teve,
Cuja fama ninguém virá que dome,
Pois a grande de Roma não se atreve.
Esta, o velho que os filhos próprios come,
Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
Veio a fazer no mundo tanta parte,
Criando-a Reino ilustre, e foi desta arte:
(III, 21-22)

Assim, segundo Camões, a Lusitânia, donde os Portugueses derivariam por continuidade histórica, evidencia-se como a diferença específica entre a "Espanha" e Portugal; e Viriato, como chefe da Lusitânia, surge igualmente e consequentemente como pai histórico ancestral dos Portugueses. Por isso, o nome de "Viriato" não pode ser um nome comum, mas, como o de todos os "patriarcas", tem de possuir um significado simbólico e ontológico refletor da sua imagética mítica: Camões aponta, nos dois primeiros versos da estância 22, a origem etimológica do nome de "Viriato" como proveniente do substantivo latino vir, viris, designando homem forte, nobre, ilustre. Deste modo, a figuração lendária de Viriato surge, em Camões, como o elemento distintivo ou o primeiro marco histórico-mítico que terá originariamente retirado Portugal da indeterminação geográfica (a "Espanha") e da indeterminação temporal, e que, como modelo e fermento, ecoará na geração de heróis cujos feitos, seguindo o seu exemplo, originou o Portugal das Descobertas. É justamente por esta identificação territorial entre a região dos Lusitanos e Portugal e por esta identificação moral e militar, ambas de natureza mítico-imagética (isto é, sem fundamentação em fontes históricas seguras), que Camões se permitirá designar abundantemente Portugal por "Reino Lusitano" e os "Portugueses" por "Lusitanos". Porém – e esta distinção é muitíssimo importante – Camões não inverte a ordem dos termos, designando os "Lusitanos" por "Portugueses", tornando historicamente indistintos ambos os povos, o que só acontecerá 25 anos depois, na "Parte I" da Monarquia Lusitana de Frei Bernardo de Brito (1597).

Se, em Sá de Miranda, o apelo à figura de Viriato é envolvido de considerações morais e se, em Luís de Camões, a imagética viriatina funciona como uma espécie de certidão de nascimento heróico de Portugal, embora ambos os autores possuam uma vinculação ideológica à atmosfera do poder político ligado à Expansão, seja utilizando o nome de Viriato para a glorificação desta (Camões), seja para a sua crítica moral (Sá de Miranda), os autores que, de um ponto de vista cronológico, tratam imediatamente a seguir o tema de Viriato e dos Lusitanos, Frei Bernardo de Brito e Brás Garcia Mascarenhas, possuem já uma perspetiva muito diferente.

De facto, o tornado ideológico em que consistira a derrota de D. Sebastião em Alcácer Quibir, em 1578, a consequente perda da independência de Portugal, em 1580, e a aclamação de Filipe II de Espanha como Filipe I de Portugal nas Cortes de Tomar, em 1581, possuem fortíssimas repercussões na imagética histórico-mítica de Viriato, que a literatura exprimirá muito solidamente. Enquanto em Sá de Miranda e Luís de Camões, como vimos, era postulada uma genealogia moral, militar e territorial entre os Lusitanos e os Portugueses, o que provocava semelhante identificação entre Viriato e os Portugueses "ilustres", nos dois autores seguintes, um sob o efeito da perda de independência de Portugal (Frei Bernardo de Brito), outro sob o efeito da Guerra da Restauração (Brás Garcia Mascarenhas), de que foi um "herói", estas genealogia e identificação propostas no século XVI são de tal modo absolutizadas e extremadas que, verdadeiramente, a identificação entre "Lusitanos" e "Portugueses" deixa de ser apenas moral e militar, de natureza genealógica e mítica, e passa a ser total: os Lusitanos são os Portugueses de antigamente e os Portugueses coevos são os Lusitanos de antigamente. Assim, em Frei Bernardo de Brito e em Brás Garcia Mascarenhas, nos livros Monarquia Lusitana e Viriato Trágico, respetivamente, os lusitanos que combatem os romanos são amiúde designados por "Portugueses", estabelecendo-se deste modo uma continuidade histórica real e factual que não só não estava contida em Sá de Miranda e em Luís de Camões, como igualmente nenhuma fonte documental objetiva podia então (como hoje) comprovar. Foram as profundas alterações motivadas pela ocupação castelhana de Portugal, no caso de Frei Bernardo de Brito, e pela Restauração, no caso de Brás Garcia Mascarenhas, que provocaram uma idêntica alteração na imagem literária de Viriato. Por isso, se em 1572, Luís de Camões apenas usa uma vez o qualificativo de "liberdade" para caracterizar a ação dos Lusitanos (I, 6), em 1597, Brás Garcia Mascarenhas usa abundantemente expressões como "livre" e "liberdade" para qualificar a ação dos Lusitanos. A repercussão das alterações do poder político nacional na construção semântica da narrativa histórico-literária de Frei Bernardo de Brito torna-se, por vezes, tão manifesta que, intercalada na descrição das façanhas dos Lusitanos ditos "portugueses", este autor não se coíbe de evidenciar intenções político-ideológicas totalmente exteriores ao fio narrativo.

Assim, das obras de Sá de Miranda, Camões, Bernardo de Brito e Brás Garcia Mascarenhas, reflexo de um Portugal decadentista, nasce a imagem de Viriato como exemplo moral e militar, imagem recorrente e complexo histórico de que os Portugueses se socorrem sempre que, em momentos de crise, se sentem ameaçados na sua identidade histórica e cultural.

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