O trabalho por turnos causa disrupção do ciclo circadiano, com alterações metabólicas e hormonais, que têm vindo a ser associadas a um aumento do risco de várias doenças.
O trabalho por turnos causa disrupção do ciclo circadiano, com alterações metabólicas e hormonais, que têm vindo a ser associadas a um aumento do risco de várias doenças.
O trabalho por turnos tem aumentado em todo o mundo nos últimos anos. O recurso a esta forma de organização do trabalho é consequência do aumento da concorrência intensificada pela globalização. O trabalho por turnos tem efeitos negativos sobre a saúde dos trabalhadores, aumentando o seu risco de doença.
O trabalho por turnos causa disrupção do ciclo circadiano, com alterações metabólicas e hormonais, que têm vindo a ser associadas a um aumento do risco de várias doenças. Por outro lado, o trabalho por turnos favorece estilos de vida pouco saudáveis e afecta de sobremaneira os relacionamentos sociais e familiares. Os turnos têm um forte impacto em todos os aspetos da vida dos trabalhadores, incluindo alterações nos hábitos alimentares, nas actividades físicas, nos tempos de descanso e de recreio e noutros tipos de comportamentos.
O corpo humano está preparado para a luz diurna e a escuridão nocturna. Contrariar a biologia tem sempre um preço, que neste caso se paga em doença. Aqueles que trabalham por turnos não trabalham nem dormem de acordo com o seu ritmo circadiano endógeno, acabando os seus tempos biológicos e sociais por ficar desalinhados, com efeitos sobre a sua saúde e bem-estar. A ruptura dos ritmos circadianos internos, regulados por estímulos ambientais como são o ciclo dia-noite, associados com a exposição nocturna à luz, implicada na diminuição da secreção de melatonina, parecem ser os mecanismos chave das alterações biológicas.
Para além dos efeitos negativos no bem-estar e na saúde dos trabalhadores, há ainda redução da produtividade e eficiência, aumento das taxas de absentismo, e maior probabilidade de se cometerem erros e de ocorrerem acidentes
As estatísticas recentes indicam que uma grande parte da população activa tem hoje horários de trabalho irregulares, que incluem o trabalho nocturno e por turnos. Para além dos efeitos negativos no bem-estar e na saúde dos trabalhadores, há ainda uma redução da produtividade e eficiência, um aumento das taxas de absentismo, assim como maior probabilidade de se cometerem erros e de ocorrerem acidentes (o risco de erros, acidentes e lesões aumenta nos turnos nocturnos), especialmente quando a duração dos turnos é superior a oito horas, quando existem turnos sucessivos, sobretudo se estes forem nocturnos e não existirem pausas suficientes.
O sono é um comportamento humano fundamental, desempenhando um papel vital na manutenção do equilíbrio corporal e na promoção da saúde física e mental. As perturbações do sono estão associadas a problemas de saúde e têm impactos sociais negativos. As modificações dos padrões de sono, como acontece nos trabalhadores por turnos, mesmo que por períodos curtos, têm efeitos adversos na saúde nomeadamente nas doenças cardiovasculares e podem mesmo aumentar a mortalidade.
A má qualidade do sono é um preditor de riscos para a saúde, sendo que a redução do descanso nocturno por períodos prolongados, com a consequente alteração dos ritmos circadianos, altera o funcionamento metabólico para o qual também concorre o stress psicossocial associado aos turnos. Uma maior tendência para ocorrerem alterações neuropsicológicas como perturbações do humor e de ansiedade e influências negativas na capacidade de condução rodoviária tem sido documentada em numerosas investigações.
Os turnos obrigam os trabalhadores a mudarem com frequência os seus horários de sono, o que favorece não só o aparecimento de problemas do sono e da má qualidade do mesmo, como provoca uma inevitável perturbação da sua cronobiologia. O efeito adverso da interrupção repetida do ritmo circadiano, devido aos turnos de trabalho, poderá influenciar a secreção hormonal dos principais eixos hormonais do organismo e da melatonina fundamental na regulação do sono.
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Além disto a duração do período de sono é sempre um pouco mais curta nos trabalhadores por turnos do que nos trabalhadores diurnos e a adaptação cronobiológica do ciclo sono-vigília é geralmente inadequada. Experimentalmente verificou-se que a restrição do sono tem impacto no funcionamento hormonal. Mesmo após uma exposição prolongada ao trabalho noturno, apenas uma minoria dos trabalhadores (menos de 3%) mostram uma adaptação completa do seu padrão circadiano ao trabalho noturno.
Relativamente às mulheres trabalhadoras, alguns autores colocaram a hipótese de a desregulação dos ritmos circadianos pela exposição noturna à luz poder influenciar a ovulação e implantação do ovo na parede uterina, tal como foi verificado em modelos animais, podendo assim afectar a fertilidade e mesmo a gravidez desde fases muito precoces. Outros autores sugeriram que alguns horários de trabalho, incluindo o trabalho por turnos e o trabalho nocturno, podem apresentar riscos para as mulheres grávidas. Estudos observacionais encontraram um risco acrescido de complicações na gravidez, de parto pré-termo ou de baixo peso ao nascer nos filhos de mulheres expostas ao trabalho por turnos.
Não deixam lugar a dúvidas os muitos estudos epidemiológicos realizados nos últimos anos, que destacam que estilos de vida desalinhados com os ritmos naturais envolvem um risco acrescido de efeitos indesejáveis na saúde e um aumento da incidência de várias doenças. Em comparação com indivíduos que trabalham num horário típico de oito horas, aqueles que trabalham por turnos apresentam maior risco de desenvolver doenças como diabetes mellitus de tipo 2, doenças cardiovasculares, problemas digestivos, distúrbios do sono, depressão, deficiência de vitamina D (devido à redução da exposição à luz solar) e obesidade. Também os seus estilos de vida parecem ser menos saudáveis incluindo uma maior frequência de hábitos sedentários, hábitos tabágicos e consumo de substâncias calmantes, hipnóticas e psicostimulantes como a cafeína. O trabalho por turnos, incluindo o trabalho noturno, tem sido apontado como factor de risco de muitas doenças crónicas, incluindo o cancro.
O trabalho por turnos foi identificado como um importante factor de risco ocupacional devendo os trabalhadores serem alertados para manifestações precoces de doenças. A modificação e racionalização dos horários dos turnos pode ajudar na minimização dos riscos. Horários longos e com tempos mais curtos entre os turnos estão associados a um pior alinhamento circadiano e a um sono mais curto. Maximizar a proporção do tempo de descanso, cumprindo estritamente o horário do início e do fim do turno, garantindo que as equipas começam e terminam no mesmo horário a cada 24 horas, melhoram o sono e a performance. As rotações lentas dos turnos minimizam os problemas do sono.
A Saúde Ocupacional das empresas deverá fazer a avaliação do risco e acompanhar os trabalhadores de uma forma individualizada e apertada de natureza iminentemente preventiva. Uma vez que muitos dos efeitos nefastos do trabalho por turnos na saúde são do tipo dose-resposta, ou seja, maior efeito quanto maior é o tempo de exposição, a melhor forma de os prevenir será reservar este tipo de trabalho apenas para actividades onde ele é imprescindível, mas, mesmo nestes casos, deverá reduzir-se o tempo de exposição dos trabalhadores a este tipo de horários.
O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.
A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os ferroviários espanhóis, que vivem momentos de profunda dor e angústia.
Perante esta tragédia, o SFRCI expressa a sua solidariedade para com os trabalhadores ferroviários espanhóis, reconhecendo o impacto humano e profissional de acontecimentos desta natureza numa classe que diariamente assume responsabilidades fundamentais na segurança e no transporte de passageiros.
As referências à eventual falha dos sistemas de segurança e à insuficiência de meios redundantes de protecção, capazes de assegurar a operação em condições de segurança quando os sistemas digitais falham, reforçam a necessidade de uma investigação rigorosa e independente, que permita apurar as causas do acidente e retirar todas as conclusões necessárias à prevenção de futuras tragédias.
A segurança ferroviária tem de ser uma prioridade absoluta e inegociável. A tecnologia é fundamental, mas não pode constituir a única barreira de protecção. É indispensável garantir sistemas de segurança fiáveis, mecanismos redundantes de recurso, manutenção adequada, investimento contínuo nas infraestruturas e condições de trabalho que permitam aos profissionais desempenhar as suas funções com segurança.
Nenhuma consideração económica ou operacional pode sobrepor-se à vida humana. Um sistema ferroviário verdadeiramente seguro exige prevenção, investimento, responsabilidade e respeito por todos os trabalhadores e passageiros.
Neste momento de dor, a Direcção do SFRCI associa-se ao luto dos ferroviários espanhóis e de todo o sector ferroviário, reiterando a sua solidariedade para com as famílias enlutadas e desejando uma rápida e plena recuperação a todos os feridos.
Às vítimas mortais, a nossa homenagem. Às famílias, as nossas sentidas condolências. Aos feridos, os votos de rápidas melhoras. Aos ferroviários espanhóis, a nossa solidariedade fraterna.
A tragédia ferroviária de 28 de outubro, em Urda, Toledo, exige respostas que não se compadecem com a simples alegação de erro humano. Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.
As primeiras notícias atiram imediatamente o foco para quem, alegadamente, tomou uma decisão errada. Mas identificar um eventual erro individual não explica a avaria inicial, a organização do trabalho, nem por que razão as restantes barreiras de segurança não impediram o desastre.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano. Quando ocorre uma avaria, essas exigências multiplicam-se precisamente quando cada decisão requer maior cuidado.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano.
Teria uma equipa reforçada, com funções claras de apoio e verificação, permitido detetar o perigo a tempo? A investigação deve responder. Não basta contar pessoas numa sala. Importa perceber que apoio estava disponível e como funcionou.
A redundância na segurança também se faz com trabalhadores.É necessário prever o erro e garantir meios para o detetar e corrigir, antes de provocar consequências irreversíveis.
José Luis Villa, antigo diretor-geral da Renfe, questionou no El Mundo a explicação centrada no indivíduo, apontando responsabilidades de gestão e problemas de coordenação. A sua avaliação não substitui a investigação, mas lembra que as decisões de quem organiza e dirige também devem ser escrutinadas.
Portugal precisa de ter esta discussão perante a perspetiva de mais empresas de passageiros na rede. Pergunto: mais operadores e circulações serão acompanhados por investimento na infraestrutura, manutenção, contratação e coordenação? Se aumentarem as exigências sem aumentarem os meios, não estaremos a criar condições para um risco acrescido?
Esta discussão também exige olhar para as prioridades do investimento. A modernização ferroviária deve melhorar as deslocações quotidianas, ligar populações e garantir alternativas de transporte. Os comboios suburbanos, regionais e serviços do interior precisam de investimento continuado, tal como as oficinas e os profissionais que asseguram o seu funcionamento. A alta velocidade não dispensa uma rede de proximidade fiável.
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O valor de um serviço público não se mede apenas pela receita dos bilhetes. Mede-se também pelas populações que serve, pela coesão territorial e pela segurança que oferece. E qualquer modelo de exploração deve ser avaliado por esses critérios.
Entretanto, os maquinistas espanhóis já tinham uma greve convocada para 29 de outubro. Exigiam melhorias de segurança, comunicações de emergência, contratação e cumprimento das pausas. Não sabemos se essas medidas teriam evitado esta tragédia. E se tivessem? Sabemos que os trabalhadores já reclamavam respostas e queriam ser ouvidos. E se tivessem sido?
Quando uma greve é apresentada apenas pelos transtornos que provoca, fica por explicar aquilo que os trabalhadores procuram proteger. Defender quem trabalha na ferrovia é também defender quem viaja. A segurança exige investimento, organização e trabalhadores em número suficiente para a garantir.
O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança públicas, mas a repressão contra quem luta por direitos. São um corpo dos empresários e do Estado, foi assim em 1838, na Maria da Fonte, na República e no Estado Novo, é assim hoje no Rossio e em Covas de Barroso.