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Jornal Maio

O último Eça

A obra do período final da vida de Eça de Queirós, definida pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, é a de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, de uma visão filosófica específica, ou de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova sensibilidade aberta às experiências do mundo sem as encerrar numa óptica unicitária, tendo delas uma visão supra-histórica.

Existe uma relação filosófica e ideológica entre o Fradique Mendes (“Memórias e Notas”), o conteúdo da maioria das cartas deste “proto-heterónimo” de Eça (com a devida exclusão das “cartas a Clara”), o conto de carácter religioso “S. Cristóvão” (1890) e o conto lírico-campestre “A Civilização” (1892). É como se Eça de Queirós, perfazendo 43 anos, literária e socialmente insatisfeito, decidisse fazer uma revisão de toda a sua obra anterior (mesmo a não publicada), de todos os seus momentos literários passados (escolas estéticas, influências estilísticas, leituras pessoais), privilegiando, como estratégia narrativa, não a realidade social exterior direta e a observação bem exprimida dessa realidade (seu anterior cânone realista), mas a sua realidade interior, a sua consciência psicológica, subjetiva, englobando as fases que ele próprio vivera enquanto “satanista” ultrarromântico (década de 1860), enquanto naturalista-realista socialmente empenhado (década de 1870) e enquanto realista cético aberto a outras novidades e experiências (entre 1880 e 1888). Assim, a partir de 1888, a estratégia discursiva de Eça deixaria de assentar na observação direta da realidade social exterior, desmascarando-a e criticando-a (esta é indubitavelmente a intenção última do projeto de Eça desde As Farpas e O Mistério da Estrada de Sintra até ao núcleo ideológico central d’ Os Maias), e passaria a assentar em três pontos centrais:

  1. a) a revisão subjetiva das impressões psicológicas, fundadas na memória pessoal, por que Eça vivera os momentos políticos, sociais, ideológicos e até profissionais do empolgamento e do fracasso das ideias da Geração de 70 para transformar Portugal. O encontro de Eça em 1884, no Porto, e fotografia publicada n’ A Ilustração, em 1885, com um deprimido Antero de Quental, com um regenerado Oliveira Martins, que preparava a sua entrada na vida política constitucional, com um jacobino e anti-litúrgico Guerra Junqueiro (cujas ideias Eça criticará via Fradique Mendes) e com um já conservador Ramalho Ortigão, deve ter tido forte influência na visão socialmente pessimista com que Eça encerrara Os Maias e A Relíquia. O que Eça diligenciara narrar em Os Maias fora a história da sua própria geração, que presumira fazer história e acabara por descobrir, no fim, que “a história é uma grande fantasia”. Por isso, Carlos da Maia desabafa para Ega: “Falhámos a vida, menino!”, e Teodorico Raposo descobre que, mais do que pela verdade, os povos se movem pela “ilusão”. Toda a obra posterior de Eça reflecte, por um lado, as condições daquele monumental falhanço, e, por outro, visa esboçar ficcional e ensaisticamente, através de uma metodologia meta-histórica e comparativista, novas alternativas sociais para o século XX: a vida simples do “segundo” Jacinto, a vida cosmopolita de Fradique, a partida inesperada de Gonçalo para Moçambique, quebrando o ciclo esmagador do rotativismo político, a vida benigna de Cristóvão. Forma-se, assim, o grande objectivo dos últimos dez anos de vida de Eça: descobrir alternativas sociais e civilizacionais para o esgotamento político e espiritual da sua geração, tomando como ponto de partida, não a objetividade das relações sociais à luz de uma perspetiva histórica voluntarista e determinista (década de 1870), mas à luz da subjetividade vivencial das suas próprias recordações de vinte anos de história de Portugal, como se percebe na introdução à Correspondência de Fradique Mendes e nas peripécias narrativas d’ A Ilustre Casa de Ramires.
  2. b) Se a matéria de que Eça se serve é a da sua própria memória vivencial, a estratégia narrativa será tanto a de revisitar, momento a momento, tema a tema, os “motivos emocionais” por que se desdobrara o núcleo central da crítica ao antigo Portugal (o político enfatuado, o proprietário avarento, o eclesiástico burocrata, o administrador de província, o bacharel presumido, o dandy balofo, o brasileiro opulento, a beata de sacristia, o poeta alucinado, o pensador lunático…), quanto a de questionar e de problematizar, à luz do pensamento europeu da década de 1890, sorvido em Paris, os grandes temas filosóficos vividos pela Geração de 70: o progresso e a razão, a cidade e o indivíduo, a prosperidade e a pobreza, o campo e o ruralismo, a educação do cidadão, o corpo da mulher e o amor, o bem, a virtude e a santidade, o saber e a ignorância, a Igreja e a salvação…;

 

  1. c) Se a matéria (ou seja, o conteúdo extraliterário) e a estratégia (ou seja, os pontos de abordagem literária) são estes, o método que Eça seguirá é indubitavelmente, não a observação realista (que permanecerá, embora mitigada), mas o método comparativo: a comparação entre tempos diversos, entre civilizações diversas e entres fases diversas de uma mesma civilização. Ora, é justamente este o método usado em A Correspondência de Fradique Mendes, tanto em “Memórias e Notas” como nas cartas propriamente ditas (comparação entre religiões, entre civilizações diferentes, entre tempos diferentes de uma mesma civilização…), em A Cidade e as Serras (comparação entre momentos diferentes de uma mesma civilização: o momento maximamente urbano comparado com o momento rural), em A Ilustre Casa de Ramires (comparação entre as fases diferentes dos últimos setenta anos de Portugal; comparação entre fidalgos medievais e constitucionais…) e nas Lendas de Santos, principalmente em “S. Cristóvão” (comparação entre diferentes formas de poder e diferentes formas de assunção do sagrado) e nas diversas crónicas que vai publicando no Brasil e em Portugal. A utilização deste método permite que a visão do narrador não seja nunca a de um participante empenhado na história, mas a de um observador (os narradores de A Cidade e as Serras e Correspondência de Fradique Mendes não são as personagens principais, mas amigos delas) que dialoga e põe a nu, comparativamente, visões diferentes, resultados diferentes de diferentes perspetivas, ou seja, a tal método escapa-lhe, por um lado, a omnisciência narrativa; e, por outro, o empenho social militante, abrindo horizontes a uma visão humanista e meta-histórica dos acontecimentos, das ideias e das próprias fases da história. É justamente esta a grande característica por que penetramos no humanismo do último Eça: o despreendimento da conjuntura histórica circunstancial e a projecção, nos factos narrados e na estratégia de narração, de uma visão sobre a totalidade da história, isto é, de uma visão meta-histórica. Agora, a partir de 1888, Eça não pretende fazer (década de 1870) ou retratar (década de 1880) a história, mas avaliá-la, não pretende transformar Portugal criticando as suas elites, mas avaliar todas as ideias que ideológica e filosoficamente encapuzaram Portugal, levando a democracia constitucional ao fracasso e fazendo perigar a coroa de D. Carlos I. 

É este o último Eça, que se caracteriza por

1) predominância da subjectividade face ao império da realidade, com forte atenuação do realismo como processo literário (que continua como modelo formal, embora atenuado);

2) revisitação de todos os temas fundamentais da história da civilização ocidental através das personagens criadas e, basicamente, da história de Portugal, como se Portugal e a Europa se encontrassem esgotados do seu esforço criador de mundos e tudo fosse necessário repensar, recomeçando uma outra Europa e um outro Portugal;

3) atenuação da observação realista e sobrevalorização subjetiva do comparativismo histórico, dando lugar a textos (romances, crónicas, contos) em que mais se sobrevaloriza a componente ensaística do que a componente descritivista, isto é, textos de fundo e horizonte meta-históricos;

4) No conteúdo romanesco e jornalístico, explícita sensibilidade e um empenhamento activo na valorização do “pobre”, apelando a uma solução política e civilizacional promotora do “pão” e da “casa” para todos.

O conceito que exprime estas quatro características através de uma única designação e um único sentido é o de humanismo – humanismo enquanto filosofia defensora de uma autenticidade humana com intervenção social activa no sentido de generalizar o bem entre os povos sem a submissão a uma escola partidária ou filosófica única. Assim, a ser correcta esta perspectiva, a obra do último Eça, definido pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, classificar-se-ia, sobretudo, como a obra de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, não de uma visão filosófica específica, não de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova sensibilidade aberta às experiências do mundo (como o denotam os volumes das Notas Contemporâneas e das Cartas de Paris) sem as encerrar numa óptica unicitária, tendo delas uma visão supra-histórica, como um observador tão imparcial quanto possível porque dominando todos os tempos e todos os espaços da história humana (ao modo enciclopedismo polímata de Fradique Mendes; ao modo de Jacinto de Paris; ao modo de Gonçalo Mendes Ramires, conhecedor do passado e do presente de sua família, síntese de uma visão de Portugal; ao modo de Cristóvão, que tudo experimenta, desde a mais profunda abjeção à mais intensa glória) – não se deixando ideologicamente enfeitiçar por nenhuma perspetiva particular –, e inclinando sempre esta visão para uma generalização do bem e da riqueza entre os seus concidadãos. Nesta nova sensibilidade, a literatura já não serve uma classe social ou uma ideia prévia, mas, como bem notou António José Saraiva (na esteira de Álvaro Lins e João Gaspar Simões), possui estatuto equivalente ao do ensaio, transfigura-se numa literatura de conhecimento, que busca possibilidades e soluções, que se auto-interroga, problematiza ideias feitas e preconceitos, que desafia os grandes temas civilizacionais (a pobreza e a riqueza, a cidade e o campo, o bem e o mal, o povo e as elites, a santidade e a salvação, o homem e a sua história: as Lendas dos Santos, A Cidade e as Serras e A Correspondência de Fradique Mendes) e procura inquirir, sem uma dogmática prévia, a grandeza e a decadência da história de Portugal (A Ilustre Casa de Ramires). Ensaio porque, para tal tipo de literatura inquiridora, não existe estilo literário acabado e pronto a usar, como o eram o realismo e o naturalismo: “S. Cristóvão” evidencia-se como um ensaio romanceado sobre a procura de salvação, verdadeiramente é uma parábola sobre a impossibilidade de salvação na Terra, como veremos, onde Eça evidencia todas as formas de se ser útil e de se ser bom, de todas concluindo da incapacidade do homem para extirpar o mal do seu coração; A Cidade e as Serras patenteia-se como um ensaio sobre as fases inicial e terminal da nossa civilização, concluindo da impossibilidade de uma existência saudável e humana em qualquer um destes extremos e lançando a hipótese de a felicidade se encontrar num equilíbrio entre a simplicidade rural e o progresso técnico (Jacinto leva o telefone para Tormes e as casas dos caseiros passam a ter janelas de vidro); A Correspondência de Fradique Mendes é um autêntico ensaio epistolar sobre o amor, a religião, o ecletismo de fim de século, o homem antigo e o homem democrata, Portugal…; e A Ilustre Casa de Ramires, cruzando um estilo romântico e um estilo realista, assume-se como um ensaio romanceado sobre as dúvidas e as perplexidades que a existência de Portugal levanta, concluindo-se que a essência contraditória e paradoxal de Portugal é o de ser e não ser simultaneamente: presumir-se rico, mas apiedar-se dos pobres; ser nobre, mas ter uma mentalidade igualitária; ser bondoso e generoso, mas sentir inveja; ser vaidoso, mas ser incapaz de se mostrar superior; ser prestável e útil, mas ter consciência das diferenças sociais.