Reentrada de pé em riste

O Maio vai aproveitar os meses de verão para fazer algumas alterações. Vamos mudar de página (alojamento do site) para um modelo mais robusto, que diminua ataques informáticos e nos permita um ainda maior trabalho colaborativo. Neste julho faremos um Maio com cerca de 4 a 5 novos artigos por semana, sem editorial, e em agosto interromperemos três semanas, para férias e para mudar de site. Regressaremos no fim de agosto, retemperados, tal como vós, esperamos, por umas boas férias!
O último Eça

A obra do período final da vida de Eça de Queirós, definida pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, é a de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, de uma visão filosófica específica, ou de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova sensibilidade aberta às experiências do mundo sem as encerrar numa óptica unicitária, tendo delas uma visão supra-histórica.
Complô

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições. A luta de libertação dos povos colonizados tornou-se uma das forças motrizes da história contemporânea.
O professor de Matemática e as “conservadoras”
Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças”.
Logo ali, ao virar da esquina
A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem.
Onde pára o ensino profissional?

Em 1889, o Estado foi à Europa buscar professores. Em 2026, vai buscar operários.
Coluna Vertebral

As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.
Dostoievski: a dor de uma alma atormentada no subsolo
Há algum tempo li um dos livros mais perturbadores da minha vida: Memórias do Subterrâneo (ou Memórias do Subsolo, ou ainda Cadernos do Subterrâneo, dependendo da edição), de Fiódor Dostoievski, publicado em 1864. O protagonista é um personagem sem nome que vive atormentado dentro dos seus pensamentos obsessivos e não consegue parar de se autoanalisar. É um homem demasiado inteligente, mas tão agarrado ao hábito do sofrer que se torna incapaz de tomar decisões benéficas para si próprio. O sofrimento ao qual ele se condena, talvez por ser demasiado familiar, tornou-se parte da própria identidade. Neste livro, Dostoievski faz uma crítica profunda ao “racionalismo” que emergia na Rússia da sua época.
A Odisseia de Nolan: do herói homérico ao anti-herói pós-moderno
A Odisseia é uma das principais epopeias da literatura grega antiga e uma das obras literárias mais antigas que sobreviveram. É atribuída a Homero, que teria vivido no século VIII antes da era corrente (AEC) e, tal como a Ilíada, centra-se nos acontecimentos associados a uma guerra, a de Troia, que terá ocorrido no século XIII ou início do século XII AEC, portanto há mais de 3000 anos. O realizador britânico Christopher Nolan, autor de filmes como a série dos Batman, Dunkirk ou Oppenheimer, realizou uma adaptação da Odisseia que tem levado multidões ao cinema neste verão de 2026 – e atraído também imensas críticas. O Maio publica, pela sua relevância, este texto de Andrés Ávila, da revista chilena El Porteño, para quem Nolan subverte completamente o sentido do poema. Isso “começa quando o filme coloca a culpa no centro da identidade do protagonista. Em Homero, a culpa constitui uma experiência que o herói deve viver e integrar; nunca o que o define. Na adaptação ocorre exatamente o contrário. A culpa deixa de ser uma dimensão da existência e passa a ser a essência do personagem. A partir desse momento, a viagem deixa de conduzir à autorrealização e passa a conduzir à negação de si próprio.”
Uma teoria marxista da crise no mundo contemporâneo
“Há todos os motivos para esperar outra recessão antes do final desta década. O rastilho pode ser aceso por um novo colapso financeiro, como em 2008. Desta vez, o estouro pode não ter início nos bancos, mas ser provocado pelo aumento da dívida das empresas e pelo custo do serviço dessa dívida.” Eis uma grande entrevista com o economista Michael Roberts publicada em chinês pela Academia Chinesa de Ciências Sociais em 2025. Traduzimo-la da versão inglesa, publicada na revista World Socialist Research.