COLUNA VERTEBRAL
O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista
As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.
António Carlos Cortez
Professor de Português e de Literatura Portuguesa, poeta, ensaísta e crítico literário
Não é preciso recordar uma das grandes teses de Hanna Arendt expostas nesse livro fundamental, A Condição Humana, em cujas páginas perpassa, luminosa e profética, a ideia de que o progresso humano, assente na tecnologia, é um logro. Entre as duas vias – a da contemplação e a da actividade –, Arendt não tem dúvidas: o homem tem jogado o seu destino no conflito entre Marta e Maria, essas duas vias onde o espírito ou se dissolve, ou renasce. A única hipótese de salvação, diz Arendt, na senda de seu mestre Heidegger, é o regresso à “língua de tradição”, essa mesma que se opõe à “língua técnica”. Para simplificar, direi: ou a formatação em curso – desde a formação dos professores às práticas docentes tidas por inovadoras e muito sedutoras – vencerá a classe docente, ou os professores, de forma consciente e corajosa, compreendem que no campo da educação, tão importante quanto a dignificação salarial, é a visão contemplativa, isto é, a via do intelecto. Não há, na verdade, educação democrática se tudo obedece aos mesmos modelos e concepções de ensino e aprendizagem. Não há sequer democracia que resista se é nas escolas e nas universidades que as crianças, os adolescentes e os jovens adultos apenas aprendem a fazer operações meramente instrumentais, visando o resultado, a nota, mas não o saber. Tudo isto é ainda mais relevante quando, por um lado, crescem no mundo forças de ideologia nazi-fascista, ou de natureza totalitária, as quais, com o imenso poder financeiro e económico dos grandes mamutes digitais, pretendem explorar o mercado de trabalho e, fundamentalmente, mecanizá-lo e desumanizá-lo; mais grave porque, por outro lado, a educação está a servir de laboratório para essa política vampiresca em que as relações humanas se irão diluir, substituídas pelas máquinas dos algoritmos da eficácia.
No caso de Portugal, país onde as diversas iliteracias atingem números elevadíssimos, onde a leitura de textos complexos é deficiente e cerca de sete em cada dez portugueses não entende senão mensagens simples, com apenas um ou dois verbos, onde os exames nacionais, depois de duas décadas de facilitismo nefando, caminham agora para a digitalização das avaliações, tudo isto tem proporções de hecatombe cultural. Claro que este governo e mesmo outros anteriores, tudo vendo sob a óptica do mais pobre progressismo, não pensou, não discutiu, não se aconselhou com os professores e com os que estudam o impacto negativo da IA no campo da educação. Não bastam os livros e os artigos, os ensaios e as provas reais de que a IA é inimiga do pensamento e da sensibilidade para que o ministro da Educação recue. Nem mesmo as advertências do papa Leão XIV na sua recente encíclica servem de aviso. Os políticos que o povo elegeu deturpam o poder e as políticas ao serviço desses eleitores. Depois de eleitos, a agenda que vence é a dos interesses privados e, no caso vertente, a agenda dos grandes grupos empresariais do digital que vêem na IA a arma que lhes faltava para dominarem o mercado do trabalho e, na origem, a educação.
A educação está a servir de laboratório para essa política vampiresca em que as relações humanas se irão diluir, substituídas pelas máquinas dos algoritmos da eficácia.
Eis a razão, ou as razões, pelas quais em Portugal está praticamente tudo errado no que respeita às políticas educativas. Errada a ideia do “aprender a aprender”, que mais não foi do que mascarar de autonomia a aquisição de saberes, a qual não existe nem se consolida se o professor nada conta nesse processo. Errada a ideia de “rigor e excelência”, se desde a formação de professores nas universidades, passando pelas passagens de escalão em função de acções de formação – o mais das vezes absolutamente inúteis e secantes para os que são obrigados a fazê-las para passarem de escalão –, tudo se avalia não a partir do rigor (não pode haver onde nem sequer há, nas formações, bibliografia de referência e matérias verdadeiramente úteis e urgentes para o ensino das mais diversas disciplinas), nem, muito menos, a partir da excelência. Neste particular, o da “excelência”, é deplorável que ela passe por questões subjectivas: as classificações de “Excelente” dadas pelas escolas estão reservadas a um numerus clausus. Se o avaliado não for simpático para quem o avalia, pode nem mesmo ter uma classificação de “Muito Bom”, pois que neste reino da estupidez educativa, o “rigor e a excelência” – que nasceu quando do império de Maria de Lourdes Rodrigues – mais não são do que o princípio da arbitrariedade total. Que tem tudo isto que ver com a IA? Tudo. Façamos problema, como disse o Padre António Vieira.
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Se antes da IA na educação a fraude no ensino-aprendizagem sempre existiu, com a IA, num país que não lê – muitos professores e a maioria dos estudantes -, que se espera que aconteça? O ChatGPT faz os trabalhos pelos alunos. Mas também fará o trabalho que compete aos professores. Como quem decide progressões e avaliações tem mentalidade gestora (sofre de uma doença incurável: o ódio ao livro, à memória, ao intelecto, ao saber rigoroso porque nascido de leituras), esse director ou directora irão privilegiar sempre os docentes adeptos do “progresso” e da “inovação”. A escola portuguesa, com as gerações de professores mais recentes já formatadas na ideologia oca do digital, transformar-se-á em sistema de certificação online de diplomas. O mesmo na universidade. Vence o técnico, o formador, não o professor que, com livros e sedutor e culto nas suas aulas, se entrega à arte de Comenius: fazer pensar e fazer sentir. E fazer isso com base num “saber de leituras feito”. Esse professor é detestado pelos colegas de profissão que nele vêem a extensão do que desconhecem. Num país que teve quase trezentos anos de Inquisição, sonha-se com um auto-de-fé onde o intelectual arda e arda bem!
Que tem tudo isto que ver com a IA, com o fim da democracia e da escola que quereremos que seja democrática e lugar de saber? Tudo. As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade. Falsificação de resultados, trabalhos feitos por plataformas digitais, professores transformados em formadores de centrais digitais onde crianças, adolescentes e jovens adultos aprendem a teclar, mas deixam de saber escrever, de saber pensar e de saber sentir, a IA promete-vos o paraíso. Sucede que é o paraíso do admirável mundo nojo: todos iguais, brutalizados, estúpidos e inimigos da liberdade. Eis a escola do futuro. Ah! E o professor que pensa e sente e tem memória e lê e comunica com magia? Esse já estava num verso de Cesário: o seu “velho professor das aulas de Latim”, pedindo esmola na rua.