Jornal Maio

Despedimento coletivo na Randstad:

"tratam as pessoas como números"

Num sector marcado pela pressão constante, pelos ritmos intensos e pela precariedade normalizada, fomos ao encontro de duas das cinco mulheres que hoje compõem a comissão de trabalhadores criada em apenas três dias para responder à intenção de despedimento coletivo de 42 trabalhadores da Randstad. São elas que, no meio da fragmentação e do isolamento impostos, assumem a tarefa de dar voz coletiva a quem está a ser despedido, de transformar experiências individuais em força comum e de abrir espaço para a organização onde antes havia silêncio.

Entrevista de Nuno Geraldes à Comissão de Trabalhadores da Randstad

Quem é a trabalhadora que hoje a Randstad quer despedir? Fale-nos do seu percurso de vida e trabalho.

Michelle Aaron Silva (MS): Tenho 37 anos e comecei a minha carreira profissional como mediadora orçamentista, em que tenho formação profissional. Porém, em 2012, por causa da queda que houve na área da construção civil, acabei por ficar sem trabalho, tendo-me depois uma colega que já trabalhava em call centre sugerido ir para o mesmo call centre em que ela trabalhava. Assim, iniciei em junho de 2013, tendo trabalhado na linha de inglês. Depois fui transitada para a linha de português, em 2015, e aí permaneci até maio do ano passado, quando me colocaram em situação de aguardar por um novo projeto. Em junho, entrei num projeto de inteligência artificial, em que permaneci até Setembro de 2025, quando mais uma vez me indicaram que iriam arranjar outro projeto.

Ana Faria (AF): Sou trabalhadora da Randstad há vários anos (tenho 36) e, ao longo de toda a minha vida profissional, inclusive no meu percurso com a Randstad, sempre procurei ser responsável, dedicada e disponível, mesmo em períodos difíceis e de grande pressão, típicos deste sector dos call centres. Infelizmente, hoje, sou mais uma dos trabalhadores afetados por esta intenção de despedimento coletivo. O que estamos todos a viver não é um mero percalço profissional, mas algo que afeta imenso a nossa estabilidade emocional, psicológica e até financeira. É uma situação que causa receio do futuro e afeta vidas e famílias. 

Há quantos anos trabalha neste setor e como descreve a evolução das condições de trabalho nos call centres ao longo desse tempo? 

AF: Trabalho neste sector desde 2015. Durante este período, pude acompanhar de perto a evolução das condições de trabalho nos call centres. Inicialmente, até poderia existir maior estabilidade, mas com o passar dos anos, o sector tornou-se mais exigente, marcado por maior pressão, com metas constantes e cansativas, ritmos intensos e estafantes e, infelizmente, uma clara precariedade laboral crescente. As empresas buscam a mão-de-obra mais barata e procuram contratar a termo, para não se comprometerem demasiado. É isso que hoje, nós, trabalhadores, estamos a viver. 

MS: Eu trabalho desde junho de 2013. A evolução que tivemos foi quase neutra. Sempre que era necessário ter melhores condições, tínhamos de exigir, caso contrário a empresa nada fazia. E a pressão no trabalho era cada vez maior.

O que sentiu quando recebeu a notícia de que estava incluída no despedimento coletivo?

MS: Senti que a empresa não tem qualquer humanismo e que nos trata como meros números.

AF: Quando recebi a notícia, senti frustração e uma completa desvalorização da empresa face a mim e a todos aqueles que nela trabalham e até, muitas vezes, sacrificam o seu tempo pessoal para “vestir a camisola”. Esta notícia do despedimento coletivo, não obstante, só demonstra que apenas o trabalhador “veste a camisola” da empresa, a empresa não “veste a camisola” do trabalhador, não se coloca no seu lugar e na sua realidade, apenas o vê como mais um número. Nós somos pessoas que trabalham e merecemos respeito, transparência, dignidade e valorização.

Entre os trabalhadores afetados há pessoas com mais de 10 anos de casa, trabalhadoras lactantes e pessoas com filhos. Que impacto humano tem este despedimento?

AF: É verdade: como membro da comissão de trabalhadores, estou a ter, nos últimos dias, um contacto mais direto com os meus colegas que estão na mesma leva de despedimento coletivo e a ouvir as suas realidades diárias enquanto pais de filhos menores, lactantes e, inclusive, cuidadores de pessoas idosas e com condições de deficiência. Isto faz que o meu lado mais empático venha à tona. Gostaria que a própria Randstad tivesse igualmente essa empatia e esse contacto direto com os trabalhadores, pudesse escutar as suas histórias pessoais, repletas de luta e resiliência, para que pudesse valorizar-nos, tratar-nos com mais respeito e dignidade e ir contra esta maré atual no mercado de trabalho, que alimenta a precariedade a todo o custo. O mundo corporativo, de um modo geral, está cada vez mais distante das pessoas, já não é humano e dispensa ouvir o que os seus funcionários têm a dizer, não se importando em acompanhar as suas vivências, preocupações e receios mais íntimos. Contudo, esta comissão serve para dar voz aos que a Randstad quer agora calar e valorizar aqueles que estão a ser ignorados por esta empresa. 

 

Com o passar dos anos, o sector tornou-se mais exigente, marcado por maior pressão, com metas constantes e cansativas, ritmos intensos e estafantes e, infelizmente, uma precariedade laboral crescente.

 

MS: Como podem imaginar, todos temos famílias e contas para pagar, e a instabilidade afeta todos tanto a nível financeiro como emocional.

Como foi vivido entre os trabalhadores o processo de tentativa de transferência de Braga e Porto para Elvas?

MS: No meu caso, isso não me foi proposto, mas é fácil de perceber que isso é uma oferta inconcebível.

AF: Devido a esta tentativa da Randstad de transferir funcionários que residem em Braga e no Porto para Elvas, a mais de 300 km das suas residências, o ambiente vivido por cada trabalhador foi de incerteza, frustração e muita pressão. Aceitar ou não esta proposta pode pôr em causa a realidade pessoal, familiar e financeira do trabalhador. Isso traz uma sensação de insegurança, medo, injustiça e inclusive revolta. É uma clara tentativa da Randstad de pressionar indiretamente estas pessoas a rescindirem os seus contratos, a abandonarem os seus postos de trabalho, o que sairia à empresa muito mais rentável que pagar o despedimento de trabalhadores com muitos anos de casa. São estas estratégias subtis e sujas das empresas em geral, e também da Randstad, a que nós, trabalhadores de Portugal, estamos sujeitos diariamente. 

Como interpretou essas transferências e que impacto tiveram nos trabalhadores envolvidos? 

AF: A tentativa da Randstad de transferir trabalhadores para tão longe apenas demonstra a pouca ou nenhuma preocupação da empresa com os seus funcionários. Não estão interessados em saber o impacto pessoal e profissional que isso possa causar. Não se importam com a estabilidade familiar, profissional e financeira das pessoas envolvidas. Essa mudança de local de trabalho exigiria toda uma reestruturação da vida familiar, da rotina do trabalhador, acresceria custos de deslocação, alteração de horários e seria incomportável no que diz respeito à conciliação da vida laboral com a vida pessoal e familiar. A maioria dos trabalhadores têm filhos menores e são cuidadores, então esta proposta ou tentativa da Randstad é como um método de destabilizar o psicológico do funcionário e levá-lo a desistir do seu emprego. 

MS: Estou certa de que ficaram estupefactos com a falta de sensibilidade da nossa entidade patronal, ao fazer tal proposta.

A Randstad é uma multinacional gigantesca, com presença em vários países. Como interpreta o argumento de que “não existem projetos” para estes trabalhadores?

MS: A Randstad afirma ter trabalhos em múltiplas áreas além de call centre e tem ofertas no seu próprio site que se adequariam a alguns dos colegas que constam neste despedimento coletivo; no entanto, a maioria de nós tem formação noutras áreas e não houve qualquer interesse da empresa em ver outras possibilidades.

AF: Sendo a Randstad uma multinacional gigantesca, com alcance internacional e presença em diversos mercados, é mesmo muito difícil acreditar e não nos questionarmos acerca da inexistência de projetos que encaixem com o perfil de cada trabalhador, sobretudo porque estamos a falar de pessoas com anos de experiência no sector e, além disso, muitos com formação académica e técnica noutras áreas, com bastante conhecimento do mundo do trabalho. Compreendemos as mudanças a que o mercado está sujeito e que podem existir projetos que não duram para sempre. Não obstante, o que todos os trabalhadores sentem é que a Randstad poderia e deveria ter feito e apresentado um esforço muito maior no que diz respeito ao cumprimento do nosso contrato de trabalho, na cláusula que exige que se procurem alternativas reais de emprego dentro da empresa, muito antes de se avançar para um despedimento coletivo da dimensão que agora estamos a presenciar. Mais uma vez, saliento que nós, trabalhadores envolvidos, dispomos de imensas capacidades, competências e aptidões adquiridas ao longo de tantos anos de presença no mercado de trabalho. Estamos habituados aos mais diversos tipos de atendimento ao cliente, acostumados à pressão e à exigência de uma constante adaptação aos ritmos e solicitações do mercado. Por isso, acreditamos na legitimidade de nos perguntarmos se realmente foram verdadeiramente exploradas todas as possibilidades de colocação noutros projetos compatíveis com o perfil de cada trabalhador afetado. Como não observamos, na realidade, esse esforço por parte da Randstad, o nosso sentimento é que houve muita rapidez em constatar que somos totalmente dispensáveis e substituíveis para a empresa. Com a constituição desta comissão de negociação, esperamos obter da Randstad o real esforço por manter os nossos postos de trabalho, dando-lhes a oportunidade de demonstrar a sua responsabilidade social, que seja proporcional à dimensão internacional desta empresa. Falamos de gestão de recursos humanos e, principalmente, de vidas humanas, famílias e pessoas que contam com a Randstad para obter a estabilidade profissional tão sonhada e a valorização que merecem. 

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Como vê a forma como a empresa tem gerido os trabalhadores nos últimos tempos? 

MS: Tem-se tentado livrar de todos os que lhes mostram que fazem uma má gestão do trabalho e que estão há mais tempo, e usam desculpas descabidas para o fazer. Obviamente usam falsos argumentos para os despedimentos, porque ficaria feio assumir a realidade.

AF: Na Randstad, e de uma maneira geral no mundo corporativo, vejo a gestão dos trabalhadores demasiado focada nos custos e nas reduções. Sente-se muita falta de transparência e inexistência de um diálogo sincero entre trabalhador e a Randstad, neste caso concreto. As múltiplas tentativas de mudança de local de trabalho ou mesmo de despedimento apresentam-se como formas indiretas de pressionar a saída voluntária do trabalhador, o que se traduz num jogo pouco limpo e claro. 

Como descreveria o ambiente atual entre os colegas de trabalho? 

MS: É um ambiente de incerteza.

AF: Neste momento, o ambiente, face a esta situação de despedimento coletivo, traduz um sentimento generalizado de incerteza, insegurança e medo do futuro. Por outro lado, todos têm tentado ajudar-se uns aos outros a manter a calma e estar plenamente informados do que realmente está a acontecer. Vê-se união e solidariedade. Nesse sentido, a comissão de trabalhadores também acaba por assumir um papel de grande responsabilidade na transmissão desse companheirismo, entreajuda, transparência em cada passo e total disponibilidade para escutar o que cada pessoa afetada tem para dizer. Todos têm voz e a comissão de trabalhadores irá traduzir para a Randstad, em momentos futuros de negociação, todas as preocupações e exigências dos trabalhadores afetados. 

O sector dos call centres emprega milhares de trabalhadores em Portugal, muitos deles precários, migrantes ou mulheres. Acha que este despedimento revela problemas estruturais do setor? 

MS: Obviamente, há falta de regulamentação no nosso sector e os patrões aproveitam-se disso.

AF: Este despedimento coletivo traduz de uma forma bastante clara o grande problema estrutural deste sector dos call centres. Somos um sector demasiado precarizado, constituído por pessoas maioritariamente em condições de fragilidade e vulnerabilidade social. Por causa disso, o nosso sector deveria ser mais protegido, nomeadamente pelo próprio Governo. 

Fala-se muito de deslocalizações para países com salários mais baixos e menos direitos. Os trabalhadores têm consciência dessa pressão constante?

AF: Sim, essa é uma realidade muito presente no nosso sector de call centres, e os trabalhadores têm plena consciência dessa pressão e de que, infelizmente, estão sujeitos a ser substituídos a qualquer momento por outros funcionários cujos direitos laborais são ainda menos protegidos. O mercado deste sector baseia-se na centralização de redução de custos e na rentabilidade imediata, o que faz que tenhamos de lutar contra a deslocalização dos projetos para mercados onde os salários sejam mais baixos e os direitos dos trabalhadores sejam poucos ou inexistentes. Isto apenas demonstra os valores e princípios que as empresas da atualidade, inclusive a Randstad, defendem: a construção de um grande império e uma grande fortuna à custa do trabalho precário dos pobres, frágeis e vulneráveis. 

MS: A chefia faz questão de falar disso para exercer pressão nos trabalhadores.

Que importância tem a organização coletiva e a criação de uma comissão representativa neste momento? 

MS: Dá a possibilidade de, em conjunto, tentarmos encontrar alternativas a esta situação e garantir que todos tenhamos o apoio e a ajuda necessária.

AF: É de suma importância a organização e criação desta comissão representativa, porque conseguimos dar voz àqueles que a Randstad quer calar. Lutaremos pelos direitos de todos e cada um, com prioridade em manter os postos de trabalho. Esta organização coletiva como comissão de trabalhadores pretende demonstrar a nossa força e resistência. Procuraremos, nesse sentido, exigir respostas e maior transparência por parte da empresa, fazê-los cumprir as suas obrigações legais e contratuais e garantir os direitos de todos os trabalhadores. 

A empresa está a pressionar trabalhadores para assinarem acordos individuais? Que perigos existem nesses acordos?

MS: Tentaram fazê-lo no final do ano passado, sugerindo valores abaixo dos dos nossos direitos. O maior perigo é as pessoas não estarem devidamente informadas dos seus direitos e serem despachadas como se fossem objetos descartáveis, pondo-se em situações de vida precárias.

AF: Sim, a empresa propôs a vários trabalhadores acordos individuais. Não obstante, sugerimos a todos o devido acompanhamento jurídico ou sindical. A maioria dos trabalhadores afetados são sindicalizados, e a constituição desta comissão têm igualmente como função o esclarecimento e a total transparência do que esses acordos individuais significam e os perigos que deles decorrem. É fundamental que cada trabalhador afetado não esteja sozinho e que esteja plenamente consciente do processo que o envolve, para que tome uma decisão completamente informada

O que pensa quando vê trabalhadores com anos de dedicação serem colocados numa situação de desemprego e insegurança total?

MS: Sinto que a empresa desvaloriza toda a dedicação, o que causa frustração.

AF: É impossível, face a esta situação, não sentir frustração e revolta, seja pela minha própria situação, seja pela situação de cada pessoa afetada por esta intenção de despedimento coletivo. Todos somos pessoas com anos de dedicação aos projetos em que a Randstad está inserida; todos, com certeza, sempre procuraram ser o mais dedicados e profissionais possível e, subitamente, esta tentativa de despedimento apenas desperta um sentimento de total desvalorização do nosso esforço e do compromisso que assumimos com a Randstad desde o primeiro dia. Infelizmente, querem demonstrar-nos que somos substituíveis e alimentam a precariedade laboral. 

Que responsabilidade têm o Governo e o Ministério do Trabalho perante situações como esta? 

MS: Têm responsabilidade, pois quando empresas como estas vêm, recebem vantagens fiscais e dinheiro absurdo do Estado por estarem a criar empregos; e depois de algum tempo e terem lucros milionários, o Estado ainda considera trazer mais precariedade para a população que já passa por tantas dificuldades financeiras.

AF: Obviamente, o Governo e o Ministério do Trabalho têm a imensa responsabilidade de fiscalizar estas situações e de proteger as pessoas afetadas, sobretudo as que se encontram em maior situação de fragilidade. Devem igualmente criar mecanismos que impeçam que esta situação e tantas outras no sector dos call centres se tornem frequentes e normalizadas. Quando existe uma tentativa de despedimento coletivo, falamos de uma situação que não afeta somente algumas pessoas ou se trata de um problema interno de uma empresa. Especially mos perante uma questão social, com impacto real na vida dos cidadãos, e cabe ao Governo e ao Ministério do Trabalho garantir os direitos dos trabalhadores, para que não existam abusos e faltas de transparência nestes processos. Atualmente existe em Portugal uma proposta de reforma laboral que visa, antes de mais, alimentar a precariedade dos trabalhadores do nosso país e favorecer o enriquecimento das empresas e dos patrões. Salientamos que a principal responsabilidade do Governo é promover a estabilidade profissional e financeira dos cidadãos, começando pelos mais desfavorecidos. Se não podemos contar com a proteção governamental, com quem podemos contar? 

Que mensagem gostaria de deixar aos restantes trabalhadores dos call centres e juventude trabalhadora em Portugal?

AF: Gostaria de deixar uma mensagem de união, resiliência e coragem. Não deixem que as empresas vos tornem substituíveis, isolados e sem voz. Não deixem que a situação de instabilidade e insegurança de cada um vos cale. Vamos lutar sempre por melhores condições laborais e humanas, por melhor qualidade de vida. Procurem organizar-se coletivamente. A união faz a força. Merecemos respeito e dignidade. Somos importantes. Lutemos pela nossa valorização, dignidade e melhores condições de trabalho!

MS: Sindicalizem-se, combatam o assédio moral que existe, lutem por melhores condições de trabalho e pelos vossos direitos.