Despedimentos

Professores dos politécnicos: “Adeus, estás despedido”
categoria-trabalho Politécnico Precariedade Despedimentos edicao-2026-09-24 (42)

Professores dos politécnicos: “Adeus, estás despedido”

Na Escola Superior de Teatro e Cinema há docentes convidados há dez, quinze, dezanove (!) anos. Coordenam unidades curriculares, orientam mestrados, participam em júris e assumem responsabilidades indispensáveis ao funcionamento dos cursos, através de contratos sucessivamente renovados. Mas há professores cujos contratos terminam a 31 de julho e só serão recontratados

Joana Cardoso Santos
Sector automóvel: a batalha da Alemanha
Automóvel Despedimentos Greve Pensões categoria-trabalho edicao-2026-07-09 (35)

Sector automóvel: a batalha da Alemanha

Publicamos neste número do Maio uma resolução recentemente adoptada pelos delegados sindicais da fábrica-mãe da Mercedes-Benz em Estugarda na Alemanha. O seu título “Já basta! Protestar, resistir, greve! Os patrões querem luta de classes? Muito bem, vão tê-la!”

Adriano Zilhão
Despedimento coletivo na Randstad: "tratam as pessoas como números"
Call centres Despedimentos Precariedade categoria-trabalho edicao-2026-06-04 (30)

Despedimento coletivo na Randstad: "tratam as pessoas como números"

Num sector marcado pela pressão constante, pelos ritmos intensos e pela precariedade normalizada, fomos ao encontro de duas das cinco mulheres que hoje compõem a comissão de trabalhadores criada em apenas três dias para responder à intenção de despedimento coletivo de 42 trabalhadores da Randstad.

Nuno Geraldes
Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas
categoria-ciência Despedimentos Inteligência Artificial Tecnoterrorismo edicao-2026-06-04 (30)

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O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários seria substituir toda a força de trabalho humana por IA. Só que esta hipótese gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo qu

André Carmo
categoria-trabalho Politécnico Precariedade Despedimentos edicao-2026-09-24 (42)

Professores dos politécnicos: “Adeus, estás despedido”

Na Escola Superior de Teatro e Cinema há docentes convidados há dez, quinze, dezanove (!) anos. Coordenam unidades curriculares, orientam mestrados, participam em júris e assumem responsabilidades indispensáveis ao funcionamento dos cursos, através de contratos sucessivamente renovados. Mas há professores cujos contratos terminam a 31 de julho e só serão recontratados a partir de 1 de outubro. Em agosto e setembro ficam sem salário.

ilustração: Mantraste

No final de julho, os telefones começaram a tocar. “Gostamos muito do teu trabalho, não é com prazer que te digo isto, mas o contrato não vai ser renovado.” A outro docente foi dito que o contrato já não começaria a 1 de agosto e que talvez pudesse regressar “apenas em outubro”. O ano letivo na ESTC (Escola Superior de Teatro e Cinema) começa a 28 de setembro, segundo o calendário académico divulgado pela própria escola. Porém, em agosto havia docentes previstos nos horários que permaneciam sem contrato durante o mês de setembro e cuja contratação só deverá ter início a 1 de outubro. 

No caso da professora Andreia Carneiro, o telefonema serviu para marcar, nessa mesma tarde, uma reunião online com o diretor do departamento.

A explicação apresentada a vários era semelhante: durante anos, um reforço financeiro do então Instituto Politécnico de Lisboa (IPL) teria permitido acomodar parte dos custos das contratações docentes; esse reforço deixaria de existir. Os cenários variavam: adiar o início do contrato, reduzir a percentagem de contratação, mudar de categoria profissional ou abdicar da dedicação exclusiva.

Cada um ouviu apenas a sua parte da história. Só quando os docentes começaram a falar uns com os outros perceberam que outros colegas estavam a receber telefonemas semelhantes. 

As propostas de renovação para 2026/2027 tinham sido comunicadas durante abril e maio, como habitualmente, e os docentes tinham aceitado as condições apresentadas. A maioria das renovações foi aprovada pela Comissão Coordenadora do Conselho Técnico-Científico em 8 de maio de 2026, seguindo-se a tramitação administrativa.

A presidência e as direções dos departamentos da ESTC reconheceram posteriormente, por escrito, que as propostas tinham sido aprovadas pelos órgãos competentes, que essa aprovação demonstrava a necessidade pedagógica dos docentes e que muitos destes professores asseguram responsabilidades essenciais nos cursos.

Porém, entre 27 e 29 de julho, a poucos dias do termo de vários contratos, foram os professores informados de que as condições aprovadas poderiam não ser cumpridas. Sessenta membros da comunidade académica da ESTC subscreveram uma carta em defesa dos colegas e da escola.

Dois meses sem contrato e sem salário

Os contratos dos professores Nuno Leão e Diogo Bento terminaram a 31 de julho. Ambos foram informados de que o regresso seria apenas em outubro, deixando agosto e setembro sem salário.

A renovação de Diogo Bento consta expressamente da ata de 8 de maio: professor adjunto convidado, a tempo integral, por um ano, a partir de 1 de agosto de 2026. Na mesma ata encontram-se ratificadas outras renovações com essa data de início.

Entretanto, os horários de 2026/2027 publicados pela ESTC identificam Nuno Leão como “Prof. Responsável” nas três turmas do ramo de atores da licenciatura em Teatro, A1, A2 e A3, e como docente de Interpretação I. A escola conta publicamente com o seu trabalho, embora o docente continue sem um novo contrato celebrado.

Os recibos de agosto dos colegas cujos contratos terminaram em julho correspondem ao pagamento de férias não gozadas e dos proporcionais devidos pela cessação do vínculo. Não foi pago salário relativo a agosto nem qualquer compensação por caducidade do contrato. O compromisso anunciado (em setembro) de assegurar doze meses de contratação não resolve as perdas de rendimento durante o intervalo entre contratos, nem esclarece quando ou se será paga aquela compensação.

A compensação por caducidade continua sem resposta

Nos contactos de julho, foi utilizada, em alguns casos, a expressão “suspensão” para descrever o que aconteceria durante agosto e setembro. Os contratos, porém, tinham uma data de termo e cessaram. Os docentes ficaram sem salário e sem um novo vínculo celebrado com a instituição.

A Informação n.º 239/DAJ/2026, do Departamento de Assessoria Jurídica do IPL, tem como assunto o “Pagamento da compensação por caducidade dos contratos” e está datada de 27 de julho, precisamente o dia em que começaram os contactos sobre as alterações às renovações.

O documento reconhece que os docentes convidados são contratados a termo e que uma caducidade real e efetiva implica o pagamento das respetivas compensações. Invoca o artigo 293.º da Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas para fundamentar esse entendimento.

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Depois, recorre às regras do Código do Trabalho sobre sucessão de contratos. Segundo a interpretação desenvolvida nessa informação, a celebração de um novo contrato antes de decorrido um período equivalente a um terço da duração do anterior determina que os contratos sejam considerados sucessivos. Para contratos anuais, o documento traduz esse intervalo em quatro meses e conclui que uma interrupção de um ou dois meses não confere, nessa leitura, direito à compensação por caducidade.

Esta é a interpretação dos serviços jurídicos da instituição. O Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL) alertou, entretanto, o reitor para os encargos que podem decorrer da cessação dos contratos e da posterior celebração de novos vínculos, questionando a dimensão da alegada poupança. A 16 de setembro, os docentes continuam sem novidades sobre o pagamento das compensações.

Do pedido de renúncia à retirada da exclusividade

Andreia Carneiro está na ESTC desde 2014, é professora adjunta convidada, tem o título de especialista e está a realizar o doutoramento. Conta ao Maio: “A minha renovação foi aprovada em 8 de maio, a tempo integral, por um ano, com início em 1 de outubro de 2026. Trabalho atualmente em regime de dedicação exclusiva. Requeri-o no ano letivo passado, foi autorizado, e a minha remuneração reflete essa situação desde dezembro. Organizei a minha atividade profissional em função desse compromisso. Na reunião de julho, foi-me transmitido que teria de renunciar à dedicação exclusiva para o contrato seguinte. Respondi que não o faria voluntariamente. Se a instituição entendesse retirar esse regime ou alterar as condições aprovadas, teria de assumir formalmente a decisão, para que pudesse ser analisada e contestada pelos meios adequados.

Foi-me ainda colocado o cenário de uma contratação a tempo parcial ou numa categoria inferior, no contexto de uma passagem das ofertas públicas para convites diretos. Uma eventual contratação como assistente convidada representaria uma descida face à categoria em que exerço funções e à renovação aprovada pelos órgãos científicos.

Nos primeiros dias de setembro, a proposta comunicada já era outra: manutenção da categoria de professora adjunta convidada e do tempo integral, mas com um contrato de dez meses e sem dedicação exclusiva. Outros colegas receberam propostas semelhantes, mantendo, em vários casos, as categorias e as percentagens de contratação.

Entretanto, a escola comprometeu-se a assegurar os doze meses. Ainda não sabemos, contudo, se serão formalizados num único contrato anual ou através de um contrato de dez meses seguido de adendas para os dois meses restantes (viram essas adendas, depois no verão de 2027?!). Sem as minutas, não podemos avaliar as condições nem as garantias dessa solução. Na reunião de 16 de setembro, foi-nos confirmado que a dedicação exclusiva dos professores especialistas não será mantida.

Mudou também a justificação apresentada. Em julho, foi-nos dito que os professores convidados não poderiam ter dedicação exclusiva. Mais recentemente, o argumento passou a incidir sobre o título de especialista: estes docentes deveriam manter uma ligação à atividade profissional e, nesse entendimento, não beneficiar daquele regime.

A manutenção da categoria e do tempo integral deixa, assim, por resolver uma alteração com consequências salariais concretas. No meu caso, o contrato anunciado já não corresponde às condições em que atualmente trabalho. A 16 de setembro, continuo sem uma minuta que permita conhecer integralmente o que me será proposto para 1 de outubro.”

Decisões profissionais tomadas com base nas renovações

Uma outra docente da ESTC, que prefere manter o anonimato, tinha igualmente a renovação aprovada para 2026/2027. Segundo o seu testemunho, ainda em julho foi aconselhada a requerer dedicação exclusiva para corresponder às necessidades e aos horários previstos pela escola.

Exercia funções noutra instituição de ensino há várias décadas. Para poder assumir a dedicação exclusiva na ESTC, pediu uma licença sem vencimento nessa instituição que, entretanto, assegurou a sua substituição.

Não pode, por isso, regressar simplesmente à situação anterior. A alteração das condições de contratação na ESTC coloca em causa uma decisão profissional tomada com base nas indicações recebidas e na continuidade com que contava.

A incerteza chega aos estudantes

As consequências estendem-se ao acompanhamento dos alunos. Vários dos professores orientam mestrados que serão concluídos em 1 a 2 anos. Quem os vai orientar? Como?

“Embora a escola conte com a minha continuidade”, diz Andreia Carneiro, “a ausência de um contrato formalizado para outubro deixa por esclarecer as condições em que assegurarei essas responsabilidades. Os estudantes deveriam poder concluir o seu percurso com a certeza de que a instituição garante o acompanhamento e a realização das provas.

Continuo também prevista na organização de 2026/2027 como diretora da Especialização em Produção do Mestrado em Teatro, com unidades curriculares na licenciatura e funções de coordenação. A escola prepara o ano letivo contando com o trabalho de docentes que ainda desconhecem as condições exatas em que o irão prestar.”

Respostas diferentes entre escolas

O SPGL confirmou aos docentes a existência de situações relacionadas em várias unidades orgânicas da Universidade Politécnica de Lisboa. As respostas não têm sido uniformes.

Na reunião de 6 de agosto com o sindicato, em que participaram docentes de diferentes escolas, essa disparidade tornou-se evidente. Na ESTC, havia contratos que tinham efetivamente cessado. Na Escola Superior de Comunicação Social, segundo a informação então disponível ao sindicato, não estaria prevista uma interrupção entre vínculos, mas estavam em causa contratações de dez meses. Segundo os testemunhos recolhidos só se aperceberam das alterações quando foram processados os vencimentos.

O compromisso agora transmitido na ESTC – “a meio de setembro, e porque nos mobilizámos”, diz um dos docentes – não dá garantias algumas. O que está efetivamente em cima da mesa? Acalmar a resistência dos docentes ao despedimento, e apenas por um ano?

O reitor justificou a situação com dificuldades financeiras. A presidência e as direções dos departamentos da ESTC confirmaram, por escrito, a inexistência de capacidade de reforço orçamental para suportar a totalidade das contratações propostas. 

A cada nova reunião, muda o que nos dizem ser possível; pelo caminho, muda também a interpretação das regras que nos apresentam.

A insuficiência orçamental recai, assim, sobre docentes com quem a instituição conta para assegurar os cursos. Pelo modo como as condições vão sendo revistas, dir-se-ia que esperamos uma mesada, ajustada ao que sobrar no orçamento. Só que temos trabalho atribuído, responsabilidades perante os estudantes e contas para pagar. A cada nova reunião, muda o que nos dizem ser possível; pelo caminho, muda também a interpretação das regras que nos apresentam. Aos docentes parece caber apenas reorganizar a vida à medida de cada nova versão.

Necessidades permanentes asseguradas por contratos temporários

Há docentes convidados na ESTC há dez, quinze, dezanove (!) anos. Rita Wengorovius está há 19 anos a ver os seus contratos serem renovados anualmente. Coordenam unidades curriculares, orientam mestrados, participam em júris e assumem responsabilidades indispensáveis ao funcionamento dos cursos, através de contratos sucessivamente renovados.

Andreia Carneiro está na escola desde 2014, tal como Diogo Bento. Nuno Leão está desde 2019. Ao longo desses anos, as contratações foram sendo renovadas e reajustadas, por vezes com alterações de percentagem e de regime, sem abertura de vagas de carreira suficientes para integrar os docentes que respondem a necessidades permanentes.

É também habitual começarmos a dar aulas antes de recebermos o contrato assinado, que pode demorar meses a chegar. A continuidade do trabalho tem assentado, em boa medida, na confiança dos docentes na instituição.

A própria presidência da ESTC reconhece que “existem necessidades docentes de natureza permanente que têm sido asseguradas, durante longos períodos, através de vínculos temporários”. O compromisso de assegurar mais doze meses de contratação deixa por resolver esta situação: professores necessários todos os anos continuam dependentes de decisões anuais sobre a sua continuidade e as condições do seu trabalho.

O lugar dos especialistas na nova universidade

A transformação do IPL em Universidade Politécnica de Lisboa tornou mais visível outra questão: o lugar dos docentes com título de especialista. Segundo as informações transmitidas à comunidade académica, estes professores enfrentam limitações no acesso a determinadas responsabilidades de coordenação de ciclos de estudos. Nas informações recentemente divulgadas sobre candidaturas internas a projetos e bolsas de investigação, o acesso surge reservado a docentes com doutoramento, excluindo especialistas sem esse grau, sejam convidados ou docentes de carreira.

Estas indicações, a que se junta a retirada anunciada da dedicação exclusiva, levantam dúvidas sobre o reconhecimento institucional de profissionais cuja experiência continua a ser necessária à lecionação e à contratação na categoria de professor adjunto convidado.

Parece desenhar-se uma separação entre os especialistas, entendidos sobretudo como profissionais ligados ao setor de atividade, e os doutorados, a quem é reservado um conjunto crescente de responsabilidades científicas e oportunidades de investigação. Nas áreas artísticas, esta separação merece discussão: a prática profissional, a criação, a investigação e a produção de conhecimento cruzam-se frequentemente no trabalho dos mesmos docentes.

Depois de prometerem doze meses, a incerteza continua

A Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC) comprometeu-se a assegurar contratos de doze meses, mas, a 16 de setembro, os docentes ainda não receberam as minutas. A dedicação exclusiva será retirada aos professores especialistas e continuam sem resposta as perdas de rendimento de agosto e setembro e o pagamento das compensações por caducidade.

A pouco mais de duas semanas de 1 de outubro, data prevista para o início dos novos contratos, continuamos sem saber exatamente o que vamos assinar. Na ESTC prosseguem as reuniões para esclarecer as condições de contratação para 2026/2027. O compromisso entretanto transmitido pela escola é o de assegurar vínculos de doze meses. Falta conhecer os documentos que o concretizam.

Também é claro que as renovações dos professores especialistas não incluirão a dedicação exclusiva. Para quem trabalha atualmente nesse regime, isso representa uma alteração das condições contratuais e uma redução da remuneração. Quanto aos colegas cujos contratos terminaram em julho, não foi apresentada qualquer medida para mitigar a perda de rendimentos durante agosto e setembro, nem recebemos novidades sobre o pagamento das compensações por caducidade.

É este o ponto a que se chegou depois de um verão de telefonemas, reuniões e sucessivas alterações às condições que tinham sido aprovadas pelos órgãos da escola.

Uma mudança de nome sem estabilidade para os docentes

Ao longo do último ano, a comunidade académica participou em reuniões e encontros sobre o projeto IPL 2033, apresentado como uma reflexão estratégica sobre o futuro da instituição. Em julho, foi informada da transformação em Universidade Politécnica. As perguntas são muitas: vai haver, como no Reino Unido, uma destruição do ensino profissional com fusões que acabam com cursos? Como se faz uma universidade com despedimentos dos especialistas e precariedade sistémica?

O ensino artístico depende de equipas qualificadas, da continuidade do acompanhamento e da articulação entre experiência profissional, criação e investigação. A desvalorização dos professores e a instabilidade dos seus vínculos comprometem essas condições. O futuro destas escolas não pode assentar na disponibilidade permanente dos docentes para absorver perdas de rendimento, interrupções contratuais e mudanças de regras decididas à última hora.

A carta dos 60 docentes assinala a contradição entre essa ambição e as alterações impostas a quem contribui para o funcionamento e a qualidade dos cursos. É necessária uma resposta política sobre o financiamento destas transformações, a proteção das condições de trabalho e o futuro do ensino artístico no ensino superior público. 

A escola prepara-se para iniciar as aulas a 28 de setembro e os contratos previstos para outubro continuam sem minuta. O compromisso dos doze meses aguarda concretização, a retirada da dedicação exclusiva foi confirmada e as perdas de rendimento dos colegas permanecem sem solução anunciada. Para quem assegura há anos necessidades permanentes da instituição, o próximo ano letivo começa, uma vez mais, sem a estabilidade que esse trabalho exige.

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Sector automóvel: a batalha da Alemanha

Publicamos neste número do Maio uma resolução recentemente adoptada pelos delegados sindicais da fábrica-mãe da Mercedes-Benz em Estugarda na Alemanha. O seu título “Já basta! Protestar, resistir, greve! Os patrões querem luta de classes? Muito bem, vão tê-la!” não é o tom habitual que se espera na Alemanha da “co-gestão” e do “pacto social”.

ilustração: Pedro páscoa

A revista alemã de negócios Manager Magazin revelou há dias planos que circulam na administração do grupo Volkswagen. Em causa: duplicar de 50 para 100 mil a redução de efectivos já antes anunciada até 2030. Um em cada seis empregados à escala mundial. 

A página em linha Börse Online informou depois da confirmação dos planos por um porta-voz do grupo: “O grupo, incluindo as suas marcas e empresas, vai ter de passar por uma transformação profunda.” Em Julho, o Conselho Fiscal deliberará definitivamente. Não se conhecem pormenores exactos, mas pelo menos quatro fábricas alemãs do grupo estarão ameaçadas de encerramento. 

Nos últimos seis meses, a cotação da acção da VW perdera quase metade do valor. Claramente, os “mercados” exigiam medidas. Às medidas anunciadas reagiram “positivamente”.

O Governo alemão, uma coligação entre a CDU democrata-cristã e o SPD social-democrata, anunciou, também há poucos dias, um compromisso entre os dois partidos em matéria de “reforma“ do sistema de pensões. O compromisso introduzirá no sistema público distributivo, pela primeira vez, um “pilar obrigatório” de capitalização, nisso seguindo os planos em desenvolvimento sob a batuta da comissária Maria Luís Albuquerque para toda a UE. O Governo português prepara-se também, daí a reacção de Montenegro à conversa de Ventura sobre a idade das pensões.

No passado mês de Fevereiro, expúnhamos aqui no Maio os planos em desenvolvimento na Alemanha (e na Europa em geral) para desmantelar um a um os pilares do chamado “Estado social”, ou seja, as conquistas conseguidas pelos trabalhadores — e engolidas pelos governos capitalistas para evitar “males piores” — durante um século de greves, revoluções e lutas. 

Estes pilares são, sobretudo, os sistemas de segurança social, incluindo a saúde pública e o sistema de pensões distributivo baseado no salário diferido, mas também o ensino público e universal baseado no saber, para formar cidadãos. 

A crise do capitalismo mundial, aprofundando-se sem cessar, decreta: tudo isso é muito caro, corte-se!

Mas os planos incluem, também, o desmantelamento da “velha” base industrial “obsoleta”, de que a Alemanha é o mais proeminente representante na Europa. O novo rumo é: a todo o vapor para a “IA” e a economia de guerra.

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O desenvolvimento rápido da indústria chinesa, bem como os planos de guerra — para já aduaneira e comercial — do imperialismo americano contra a China precipitaram os acontecimentos. O grande capital industrial alemão está numa situação sem saída. Os novos entraves ao comércio livre à escala mundial rasteiraram a economia alemã, que assentava na exportação de bens e maquinaria industrial para todo o mundo a partir da energia barata fornecida pela Rússia e à sombra do guarda-chuva militar do Pentágono. A economia alemã estagna há quase dez anos. 

No entanto, o dilema das cúpulas bancárias e industriais e, agora, políticas, da Alemanha e da Europa é muito difícil. É preciso reduzir drasticamente os “custos”, disso não restam dúvidas; para isso, é preciso reduzir os salários, tanto os salários directamente pagos aos trabalhadores, como o salário indirecto advindo da saúde e do ensino públicos, o salário diferido que são as pensões… Mas como fazê-lo, quando a classe operária alemã é a mais forte e organizada da Europa? Quando o partido que tradicionalmente a representa (o SPD) faz parte do governo? Não serão os previsíveis “conflitos sociais” daí resultantes e mesmo a presumível auto-imolação da social-democracia, a administradora ideal da “paz social”, um risco e um preço demasiado altos a pagar?

Quando o grupo VW fez o seu primeiro anúncio de reduções drásticas de salários e de despedimentos, no Outono de 2024, a resposta dos operários foi imediata e em massa. Assustada, a administração fez um acordo com os representantes dos trabalhadores, estendendo até 2030 a proibição de despedir em troca de uma certa “moderação” nos aumentos salariais. 

A trégua mal durou um ano. 

Mas não é só a VW. A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês. O gigante siderúrgico ThyssenKrupp fecha fábricas de antiquíssima tradição e despede com abandono. Grandes fornecedores do sector automóvel, nomes como Schaeffler, ZF, Bosch, etc., anunciam e executam encerramentos de locais de produção. Sucedem-se as falências no Mittelstand (a média indústria alemã especializada, designadamente, no fabrico e exportação de maquinaria especial sofisticada).

 A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês.

 Ninguém está a salvo. Ao fim de mais de um ano de “impasse”, em que o chanceler Merz era atacado de todos os lados pela sua incapacidade de “reformar”, o anunciado compromisso entre os partidos do governo em matéria de contra-reforma das aposentações, baseado na capitulação da social-democracia, representa um toque das trombetas para o grande assalto à classe trabalhadora alemã. 

Depois do plano Draghi de 2023, a burocracia de Bruxelas trabalha a todo o vapor no desenho de planos de desmontagem, desmantelamento e destruição de tudo o que, na sequência da II Guerra Mundial, permitiu que sectores significativos das classes trabalhadoras dos países mais desenvolvidos da Europa pudessem ter uma vida relativamente tolerável.

A resolução dos delegados sindicais de uma das fábricas em que nasceu a indústria automóvel é um sinal de que a classe operária alemã e europeia não conta render-se sem dar batalha.

Call centres Despedimentos Precariedade categoria-trabalho edicao-2026-06-04 (30)

Despedimento coletivo na Randstad: "tratam as pessoas como números"

Entrevista de Nuno Geraldes à Comissão de Trabalhadores da Randstad

Num sector marcado pela pressão constante, pelos ritmos intensos e pela precariedade normalizada, fomos ao encontro de duas das cinco mulheres que hoje compõem a comissão de trabalhadores criada em apenas três dias para responder à intenção de despedimento coletivo de 42 trabalhadores da Randstad. São elas que, no meio da fragmentação e do isolamento impostos, assumem a tarefa de dar voz coletiva a quem está a ser despedido, de transformar experiências individuais em força comum e de abrir espaço para a organização onde antes havia silêncio.

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Quem é a trabalhadora que hoje a Randstad quer despedir? Fale-nos do seu percurso de vida e trabalho.

Michelle Aaron Silva (MS): Tenho 37 anos e comecei a minha carreira profissional como mediadora orçamentista, em que tenho formação profissional. Porém, em 2012, por causa da queda que houve na área da construção civil, acabei por ficar sem trabalho, tendo-me depois uma colega que já trabalhava em call centre sugerido ir para o mesmo call centre em que ela trabalhava. Assim, iniciei em junho de 2013, tendo trabalhado na linha de inglês. Depois fui transitada para a linha de português, em 2015, e aí permaneci até maio do ano passado, quando me colocaram em situação de aguardar por um novo projeto. Em junho, entrei num projeto de inteligência artificial, em que permaneci até Setembro de 2025, quando mais uma vez me indicaram que iriam arranjar outro projeto.

Ana Faria (AF): Sou trabalhadora da Randstad há vários anos (tenho 36) e, ao longo de toda a minha vida profissional, inclusive no meu percurso com a Randstad, sempre procurei ser responsável, dedicada e disponível, mesmo em períodos difíceis e de grande pressão, típicos deste sector dos call centres. Infelizmente, hoje, sou mais uma dos trabalhadores afetados por esta intenção de despedimento coletivo. O que estamos todos a viver não é um mero percalço profissional, mas algo que afeta imenso a nossa estabilidade emocional, psicológica e até financeira. É uma situação que causa receio do futuro e afeta vidas e famílias.

Há quantos anos trabalha neste setor e como descreve a evolução das condições de trabalho nos call centres ao longo desse tempo?

AF: Trabalho neste sector desde 2015. Durante este período, pude acompanhar de perto a evolução das condições de trabalho nos call centres. Inicialmente, até poderia existir maior estabilidade, mas com o passar dos anos, o sector tornou-se mais exigente, marcado por maior pressão, com metas constantes e cansativas, ritmos intensos e estafantes e, infelizmente, uma clara precariedade laboral crescente. As empresas buscam a mão-de-obra mais barata e procuram contratar a termo, para não se comprometerem demasiado. É isso que hoje, nós, trabalhadores, estamos a viver.

MS: Eu trabalho desde junho de 2013. A evolução que tivemos foi quase neutra. Sempre que era necessário ter melhores condições, tínhamos de exigir, caso contrário a empresa nada fazia. E a pressão no trabalho era cada vez maior.

O que sentiu quando recebeu a notícia de que estava incluída no despedimento coletivo?

MS: Senti que a empresa não tem qualquer humanismo e que nos trata como meros números.

AF: Quando recebi a notícia, senti frustração e uma completa desvalorização da empresa face a mim e a todos aqueles que nela trabalham e até, muitas vezes, sacrificam o seu tempo pessoal para “vestir a camisola”. Esta notícia do despedimento coletivo, não obstante, só demonstra que apenas o trabalhador “veste a camisola” da empresa, a empresa não “veste a camisola” do trabalhador, não se coloca no seu lugar e na sua realidade, apenas o vê como mais um número. Nós somos pessoas que trabalham e merecemos respeito, transparência, dignidade e valorização.

Entre os trabalhadores afetados há pessoas com mais de 10 anos de casa, trabalhadoras lactantes e pessoas com filhos. Que impacto humano tem este despedimento?

AF: É verdade: como membro da comissão de trabalhadores, estou a ter, nos últimos dias, um contacto mais direto com os meus colegas que estão na mesma leva de despedimento coletivo e a ouvir as suas realidades diárias enquanto pais de filhos menores, lactantes e, inclusive, cuidadores de pessoas idosas e com condições de deficiência. Isto faz que o meu lado mais empático venha à tona. Gostaria que a própria Randstad tivesse igualmente essa empatia e esse contacto direto com os trabalhadores, pudesse escutar as suas histórias pessoais, repletas de luta e resiliência, para que pudesse valorizar-nos, tratar-nos com mais respeito e dignidade e ir contra esta maré atual no mercado de trabalho, que alimenta a precariedade a todo o custo. O mundo corporativo, de um modo geral, está cada vez mais distante das pessoas, já não é humano e dispensa ouvir o que os seus funcionários têm a dizer, não se importando em acompanhar as suas vivências, preocupações e receios mais íntimos. Contudo, esta comissão serve para dar voz aos que a Randstad quer agora calar e valorizar aqueles que estão a ser ignorados por esta empresa.

Com o passar dos anos, o sector tornou-se mais exigente, marcado por maior pressão, com metas constantes e cansativas, ritmos intensos e estafantes e, infelizmente, uma precariedade laboral crescente.

MS: Como podem imaginar, todos temos famílias e contas para pagar, e a instabilidade afeta todos tanto a nível financeiro como emocional.

Como foi vivido entre os trabalhadores o processo de tentativa de transferência de Braga e Porto para Elvas?

MS: No meu caso, isso não me foi proposto, mas é fácil de perceber que isso é uma oferta inconcebível.

AF: Devido a esta tentativa da Randstad de transferir funcionários que residem em Braga e no Porto para Elvas, a mais de 300 km das suas residências, o ambiente vivido por cada trabalhador foi de incerteza, frustração e muita pressão. Aceitar ou não esta proposta pode pôr em causa a realidade pessoal, familiar e financeira do trabalhador. Isso traz uma sensação de insegurança, medo, injustiça e inclusive revolta. É uma clara tentativa da Randstad de pressionar indiretamente estas pessoas a rescindirem os seus contratos, a abandonarem os seus postos de trabalho, o que sairia à empresa muito mais rentável que pagar o despedimento de trabalhadores com muitos anos de casa. São estas estratégias subtis e sujas das empresas em geral, e também da Randstad, a que nós, trabalhadores de Portugal, estamos sujeitos diariamente.

Como interpretou essas transferências e que impacto tiveram nos trabalhadores envolvidos?

AF: A tentativa da Randstad de transferir trabalhadores para tão longe apenas demonstra a pouca ou nenhuma preocupação da empresa com os seus funcionários. Não estão interessados em saber o impacto pessoal e profissional que isso possa causar. Não se importam com a estabilidade familiar, profissional e financeira das pessoas envolvidas. Essa mudança de local de trabalho exigiria toda uma reestruturação da vida familiar, da rotina do trabalhador, acresceria custos de deslocação, alteração de horários e seria incomportável no que diz respeito à conciliação da vida laboral com a vida pessoal e familiar. A maioria dos trabalhadores têm filhos menores e são cuidadores, então esta proposta ou tentativa da Randstad é como um método de destabilizar o psicológico do funcionário e levá-lo a desistir do seu emprego.

MS: Estou certa de que ficaram estupefactos com a falta de sensibilidade da nossa entidade patronal, ao fazer tal proposta.

A Randstad é uma multinacional gigantesca, com presença em vários países. Como interpreta o argumento de que “não existem projetos” para estes trabalhadores?

MS: A Randstad afirma ter trabalhos em múltiplas áreas além de call centre e tem ofertas no seu próprio site que se adequariam a alguns dos colegas que constam neste despedimento coletivo; no entanto, a maioria de nós tem formação noutras áreas e não houve qualquer interesse da empresa em ver outras possibilidades.

AF: Sendo a Randstad uma multinacional gigantesca, com alcance internacional e presença em diversos mercados, é mesmo muito difícil acreditar e não nos questionarmos acerca da inexistência de projetos que encaixem com o perfil de cada trabalhador, sobretudo porque estamos a falar de pessoas com anos de experiência no sector e, além disso, muitos com formação académica e técnica noutras áreas, com bastante conhecimento do mundo do trabalho. Compreendemos as mudanças a que o mercado está sujeito e que podem existir projetos que não duram para sempre. Não obstante, o que todos os trabalhadores sentem é que a Randstad poderia e deveria ter feito e apresentado um esforço muito maior no que diz respeito ao cumprimento do nosso contrato de trabalho, na cláusula que exige que se procurem alternativas reais de emprego dentro da empresa, muito antes de se avançar para um despedimento coletivo da dimensão que agora estamos a presenciar. Mais uma vez, saliento que nós, trabalhadores envolvidos, dispomos de imensas capacidades, competências e aptidões adquiridas ao longo de tantos anos de presença no mercado de trabalho. Estamos habituados aos mais diversos tipos de atendimento ao cliente, acostumados à pressão e à exigência de uma constante adaptação aos ritmos e solicitações do mercado. Por isso, acreditamos na legitimidade de nos perguntarmos se realmente foram verdadeiramente exploradas todas as possibilidades de colocação noutros projetos compatíveis com o perfil de cada trabalhador afetado. Como não observamos, na realidade, esse esforço por parte da Randstad, o nosso sentimento é que houve muita rapidez em constatar que somos totalmente dispensáveis e substituíveis para a empresa. Com a constituição desta comissão de negociação, esperamos obter da Randstad o real esforço por manter os nossos postos de trabalho, dando-lhes a oportunidade de demonstrar a sua responsabilidade social, que seja proporcional à dimensão internacional desta empresa. Falamos de gestão de recursos humanos e, principalmente, de vidas humanas, famílias e pessoas que contam com a Randstad para obter a estabilidade profissional tão sonhada e a valorização que merecem.

Como vê a forma como a empresa tem gerido os trabalhadores nos últimos tempos?

MS: Tem-se tentado livrar de todos os que lhes mostram que fazem uma má gestão do trabalho e que estão há mais tempo, e usam desculpas descabidas para o fazer. Obviamente usam falsos argumentos para os despedimentos, porque ficaria feio assumir a realidade.

AF: Na Randstad, e de uma maneira geral no mundo corporativo, vejo a gestão dos trabalhadores demasiado focada nos custos e nas reduções. Sente-se muita falta de transparência e inexistência de um diálogo sincero entre trabalhador e a Randstad, neste caso concreto. As múltiplas tentativas de mudança de local de trabalho ou mesmo de despedimento apresentam-se como formas indiretas de pressionar a saída voluntária do trabalhador, o que se traduz num jogo pouco limpo e claro.

Como descreveria o ambiente atual entre os colegas de trabalho?

MS: É um ambiente de incerteza.

AF: Neste momento, o ambiente, face a esta situação de despedimento coletivo, traduz um sentimento generalizado de incerteza, insegurança e medo do futuro. Por outro lado, todos têm tentado ajudar-se uns aos outros a manter a calma e estar plenamente informados do que realmente está a acontecer. Vê-se união e solidariedade. Nesse sentido, a comissão de trabalhadores também acaba por assumir um papel de grande responsabilidade na transmissão desse companheirismo, entreajuda, transparência em cada passo e total disponibilidade para escutar o que cada pessoa afetada tem para dizer. Todos têm voz e a comissão de trabalhadores irá traduzir para a Randstad, em momentos futuros de negociação, todas as preocupações e exigências dos trabalhadores afetados.

O sector dos call centres emprega milhares de trabalhadores em Portugal, muitos deles precários, migrantes ou mulheres. Acha que este despedimento revela problemas estruturais do setor?

MS: Obviamente, há falta de regulamentação no nosso sector e os patrões aproveitam-se disso.

AF: Este despedimento coletivo traduz de uma forma bastante clara o grande problema estrutural deste sector dos call centres. Somos um sector demasiado precarizado, constituído por pessoas maioritariamente em condições de fragilidade e vulnerabilidade social. Por causa disso, o nosso sector deveria ser mais protegido, nomeadamente pelo próprio Governo.

Fala-se muito de deslocalizações para países com salários mais baixos e menos direitos. Os trabalhadores têm consciência dessa pressão constante?

AF: Sim, essa é uma realidade muito presente no nosso sector de call centres, e os trabalhadores têm plena consciência dessa pressão e de que, infelizmente, estão sujeitos a ser substituídos a qualquer momento por outros funcionários cujos direitos laborais são ainda menos protegidos. O mercado deste sector baseia-se na centralização de redução de custos e na rentabilidade imediata, o que faz que tenhamos de lutar contra a deslocalização dos projetos para mercados onde os salários sejam mais baixos e os direitos dos trabalhadores sejam poucos ou inexistentes. Isto apenas demonstra os valores e princípios que as empresas da atualidade, inclusive a Randstad, defendem: a construção de um grande império e uma grande fortuna à custa do trabalho precário dos pobres, frágeis e vulneráveis.

MS: A chefia faz questão de falar disso para exercer pressão nos trabalhadores.

Que importância tem a organização coletiva e a criação de uma comissão representativa neste momento?

MS: Dá a possibilidade de, em conjunto, tentarmos encontrar alternativas a esta situação e garantir que todos tenhamos o apoio e a ajuda necessária.

AF: É de suma importância a organização e criação desta comissão representativa, porque conseguimos dar voz àqueles que a Randstad quer calar. Lutaremos pelos direitos de todos e cada um, com prioridade em manter os postos de trabalho. Esta organização coletiva como comissão de trabalhadores pretende demonstrar a nossa força e resistência. Procuraremos, nesse sentido, exigir respostas e maior transparência por parte da empresa, fazê-los cumprir as suas obrigações legais e contratuais e garantir os direitos de todos os trabalhadores.

A empresa está a pressionar trabalhadores para assinarem acordos individuais? Que perigos existem nesses acordos?

MS: Tentaram fazê-lo no final do ano passado, sugerindo valores abaixo dos dos nossos direitos. O maior perigo é as pessoas não estarem devidamente informadas dos seus direitos e serem despachadas como se fossem objetos descartáveis, pondo-se em situações de vida precárias.

AF: Sim, a empresa propôs a vários trabalhadores acordos individuais. Não obstante, sugerimos a todos o devido acompanhamento jurídico ou sindical. A maioria dos trabalhadores afetados são sindicalizados, e a constituição desta comissão têm igualmente como função o esclarecimento e a total transparência do que esses acordos individuais significam e os perigos que deles decorrem. É fundamental que cada trabalhador afetado não esteja sozinho e que esteja plenamente consciente do processo que o envolve, para que tome uma decisão completamente informada

O que pensa quando vê trabalhadores com anos de dedicação serem colocados numa situação de desemprego e insegurança total?

MS: Sinto que a empresa desvaloriza toda a dedicação, o que causa frustração.

AF: É impossível, face a esta situação, não sentir frustração e revolta, seja pela minha própria situação, seja pela situação de cada pessoa afetada por esta intenção de despedimento coletivo. Todos somos pessoas com anos de dedicação aos projetos em que a Randstad está inserida; todos, com certeza, sempre procuraram ser o mais dedicados e profissionais possível e, subitamente, esta tentativa de despedimento apenas desperta um sentimento de total desvalorização do nosso esforço e do compromisso que assumimos com a Randstad desde o primeiro dia. Infelizmente, querem demonstrar-nos que somos substituíveis e alimentam a precariedade laboral.

Que responsabilidade têm o Governo e o Ministério do Trabalho perante situações como esta?

MS: Têm responsabilidade, pois quando empresas como estas vêm, recebem vantagens fiscais e dinheiro absurdo do Estado por estarem a criar empregos; e depois de algum tempo e terem lucros milionários, o Estado ainda considera trazer mais precariedade para a população que já passa por tantas dificuldades financeiras.

AF: Obviamente, o Governo e o Ministério do Trabalho têm a imensa responsabilidade de fiscalizar estas situações e de proteger as pessoas afetadas, sobretudo as que se encontram em maior situação de fragilidade. Devem igualmente criar mecanismos que impeçam que esta situação e tantas outras no sector dos call centres se tornem frequentes e normalizadas. Quando existe uma tentativa de despedimento coletivo, falamos de uma situação que não afeta somente algumas pessoas ou se trata de um problema interno de uma empresa. Especially mos perante uma questão social, com impacto real na vida dos cidadãos, e cabe ao Governo e ao Ministério do Trabalho garantir os direitos dos trabalhadores, para que não existam abusos e faltas de transparência nestes processos. Atualmente existe em Portugal uma proposta de reforma laboral que visa, antes de mais, alimentar a precariedade dos trabalhadores do nosso país e favorecer o enriquecimento das empresas e dos patrões. Salientamos que a principal responsabilidade do Governo é promover a estabilidade profissional e financeira dos cidadãos, começando pelos mais desfavorecidos. Se não podemos contar com a proteção governamental, com quem podemos contar?

Que mensagem gostaria de deixar aos restantes trabalhadores dos call centres e juventude trabalhadora em Portugal?

AF: Gostaria de deixar uma mensagem de união, resiliência e coragem. Não deixem que as empresas vos tornem substituíveis, isolados e sem voz. Não deixem que a situação de instabilidade e insegurança de cada um vos cale. Vamos lutar sempre por melhores condições laborais e humanas, por melhor qualidade de vida. Procurem organizar-se coletivamente. A união faz a força. Merecemos respeito e dignidade. Somos importantes. Lutemos pela nossa valorização, dignidade e melhores condições de trabalho!

MS: Sindicalizem-se, combatam o assédio moral que existe, lutem por melhores condições de trabalho e pelos vossos direitos.

categoria-ciência Despedimentos Inteligência Artificial Tecnoterrorismo edicao-2026-06-04 (30)

Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas

2.ª parte

O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários seria substituir toda a força de trabalho humana por IA. Só que esta hipótese gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo que se produz?

Entre o apocalipse dos trabalhadores e o tecnoterrorismo: a IA como campo de batalha

A 5 de Maio, Robert Reich, perigoso esquerdista que trabalhou nas administrações dos presidentes Ford e Carter, foi secretário do Trabalho dos EUA durante o consulado de Clinton e integrou a comissão consultiva para a transição económica de Obama, assinava um texto intitulado “The AI Job Apocalypse Is Already Happening1”. Nele se assinalava o modo como, para fazer crescer os seus lucros, as grandes empresas estão a utilizar a IA e os potenciais ganhos de produtividade resultantes da sua integração nos processos produtivos como pretexto para cortar salários e postos de trabalho. Independentemente de a IA poder substituir os postos de trabalho cortados, e isso não parece ser a questão mais relevante, as grandes empresas estão a aproveitar essa possibilidade para despedimentos em massa.

Entre janeiro e abril de 2026, mais de 128 000 trabalhadores foram despedidos. A Meta despediu 8000, apontando para 10 000 até ao final de 20262, a Amazon 30 000, os seis maiores bancos de Wall Street mais 15 000, na Oracle o número pode ascender aos 30 000, o mesmo que a UPS espera despedir ao longo de 2026, a empresa química Dow anuncia 4500 e a Block aponta para uma redução de 40% da sua força de trabalho (± 4000 trabalhadores). Já em maio, a tecnológica norte-americana Cloudfare anunciou o despedimento de cerca de 1100 pessoas3 (20% da sua força de trabalho). Entretanto, Evan Spiegel, CEO da empresa norte-americana Snap, responsável pelo Snapchat, anunciou (imagina-se que numa daquelas sessões online sem direito a diálogo) o despedimento de cerca de 1000 trabalhadores, incluindo 16% do seu quadro de pessoal a tempo inteiro4.

Mesmo que muitas das pessoas despedidas não tenham ainda sido substituídas, ou possam sequer vir a sê-lo, pela IA, o turbo-capitalismo digital powered by AI empurra as grandes empresas neste sentido5. Afinal de contas, a competição feroz é a alma do negócio e, como é sabido, a noção de que os trabalhadores são variável de ajustamento fez escola. O facto de a IA ser capaz de realizar tarefas intelectuais que até há poucos anos só pareciam possíveis na ficção científica6, acentuando a fragilização dos trabalhadores de colarinho branco, só dá mais visibilidade ao fenómeno.

O hype é tanto que, no Dia do Trabalhador, se realizou no Beato Innovation District, a primeira edição do Agents Day, destinada a developers, founders e builders. Promovida pela CTO Portugal, comunidade de líderes em tecnologia e IA, foi anunciada como uma iniciativa que visava “colocar agentes de IA a trabalhar pelos humanos7”. Ao mesmo tempo, vai fazendo caminho o celestial canto dos administradores de empresas, para quem “a IA vai substituir os trabalhadores que não se adaptarem8”. Parafraseando Margaret Thatcher, poder-se-ia até dizer que a IA é o método, o objetivo é despedir trabalhadores.

No limite, toda a força de trabalho humana seria substituída por IA. O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários. Só que esta hipótese, explorada em The AI Layoff Trap9, e que decorre de uma lógica individual irrepreensível por parte de empresas que lutam pela sobrevivência na selva capitalista, gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo que se produz? Ou, recorrendo a terminologia marxista, desde quando é possível a substituição integral de trabalho vivo por trabalho morto? Mas, infelizmente, não é tudo. Parece que o aperfeiçoamento da IA só piora as coisas, dado que o impulso para substituir trabalho humano por IA se intensifica e acelera. Uma verdadeira corrida para o abismo ou para uma crise de sobreprodução de proporções bíblicas.

Num mundo profundamente desigual, em que o rendimento real dos trabalhadores caiu 12%, enquanto o dos CEO aumentou 54% entre 2019 e 202510, e onde os bilionários e os ultra-ricos dominam os media e a IA (mais de metade dos grandes grupos mundiais de media são detidos por bilionários, 9 das 10 maior empresas na área das redes sociais são geridas por apenas seis bilionários, algo que sucede com 8 das 10 maiores empresas de IA, com apenas três delas a possuírem quase 90% de quota de mercado11), o tecnoterrorismo impõe-se como discurso dominante que legitima despedimentos, instala o medo e a insegurança, constitui-se enquanto mecanismo ideológico disciplinador de uma força de trabalho amedrontada que, por isso, perde capacidade reivindicativa.

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Por outras palavras, trata-se de “uma narrativa futurista que amplifica ameaças hipotéticas para mascarar as contradições muito concretas do presente (...) [funcionando] como um espelho quebrado manejado pelo capital tecnológico: cada caco devolve uma imagem ampliada do perigo, mas nunca permite enxergar a totalidade. Em vez de descrever realisticamente o que a IA é capaz de fazer, projecta fantasias hiperbólicas que servem para legitimar a precarização, pressionar salários e justificar reformas regressivas12”. Até porque, segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho13, apesar de 25% dos empregos no mundo estarem potencialmente expostos à IA, apenas 5-6% enfrentam ameaça de extinção; para além de, como também é evidenciado por esta organização, existirem inúmeros desafios metodológicos relacionados com a medição dos aumentos de produtividade resultantes da adopção da IA14.

Naturalmente, o impacto sobre o trabalho não se limita ao desemprego (real ou imaginário). Como se defende em “O trabalho explorado por trás da inteligência artificial15”, por trás de cada suposta conquista da IA existe um exército de trabalhadores precarizados que, nas mais das vezes, se encontram a milhares de quilómetros de Silicon Valley. Analistas de dados, motoristas de entrega, moderadores de conteúdos, são milhões os trabalhadores mal remunerados em todo o mundo – Venezuela, Bulgária, Índia, Quénia, Filipinas ou México são alguns dos locais onde se concentram – que executam tarefas repetitivas e monótonas indispensáveis ao desenvolvimento da IA, muitas vezes colocando as suas vidas em risco. Bem diz o povo, longe da vista, longe do coração. E assim se exporta e invisibiliza sub-desenvolvimento, trabalho indigno e miséria social, ao mesmo tempo que se varrem para debaixo do tapete os inúmeros riscos psicossociais associados ao uso da IA16 (ex: vigilância intrusiva, perda de autonomia e dignidade no trabalho, recolha de dados excessiva, etc.).

Por economia de espaço, abstemo-nos ainda de falar dos enormes custos ecológicos resultantes dos consumos de água, energia eléctrica, solo e outros recursos necessários ao funcionamento da infraestrutura da IA, centros de dados, servidores e restante parafernália tecnológica; do aprofundamento do fosso entre a metrópole imperialista e as periferias; ou dos efeitos da IA sobre a inteligência, a criatividade, a empatia, a ética e a saúde mental de crianças e jovens; ou da superinteligência que tem gerado fundados receios sobre a sua potencial capacidade para pôr fim à humanidade17.

Por uma IA ao serviço do povo!

Hoje, como no contexto de aparecimento dos luditas, o problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas. Aquilo que podemos observar é que, hoje, os principais beneficiários da IA são os grandes monopolistas da Big Tech. São eles que, num contexto de degradação generalizada das condições de vida – afinal, já levamos mais de meio século de contra-revolução neoliberal –, se empanturram em vil metal ao mesmo tempo que atiram com trabalhadores para o desemprego. Os donos da IA tornaram-se uma espécie de casta privilegiada que concentra todo o poder – económico, social, político e cultural –, enquanto os restantes, sem qualquer controlo sobre a arquitetura da IA, disputam as migalhas que caem da mesa com que se banqueteiam. Deve ser isto aquilo a que chamam “trickle down economics”.

E é por isso que, em vez de se discutir o alcance potencial da IA para promover um aumento generalizado do bem-estar, como, por exemplo, a possibilidade de todos trabalharmos menos horas sem qualquer perda de remuneração, antes pelo contrário aumentando salários, e termos todos mais tempo para viver, aceitando a lógica (que já vimos ser discutível mas é aquela que está na base do tecnoterrorismo vigente) de que a IA gera enormes ganhos de produtividade, aquilo que sucede são despedimentos em barda e uma chantagem permanente sobre os trabalhadores que, como é bom de ver, ou se adaptam ou sucumbem ao avanço inexorável da IA.

O problema da IA não é a tecnologia em si mesma, mas a arquitectura do poder a partir da qual ele emerge e se desenvolve. No capitalismo digital, como no industrial, o importante é saber quem controla a tecnologia e que escolhas são feitas.

Porque é que não se usam os extraordinários avanços tecnológicos para libertar quem vive do seu trabalho, daquilo que nele é penoso, arriscado, desumano e alienante? Porque é que em vez de a tecnologia ser colocada ao serviço do povo trabalhador, para que este tenha todo o tempo para ser aquilo que deseja ser, é utilizada como cutelo sobre o seu pescoço? Porque, como sempre sucede no capitalismo, independentemente das suas metamorfoses ao longo do tempo, se privatizam os ganhos e socializam as perdas. Como defende Prabhat Patnaik, “se a humanidade está no limiar de grandes avanços científicos e tecnológicos, então a necessidade do socialismo, para tirar partido desses avanços, torna-se esmagadora. O socialismo torna-se então uma sociedade que não é apenas mais equitativa, mas que pode de facto fazer justiça ao engenho humano na introdução de profundos avanços tecnológicos, precisamente devido à sua natureza equitativa, precisamente porque é uma sociedade onde o trabalho e o produto são partilhados equitativamente entre todos18”.

Sendo produto de um empreendimento coletivo, a única forma aceitável de governo da IA passa pela socialização da sua propriedade19. Só assim, os seus efeitos deletérios sobre as classes trabalhadoras podem passar a ser uma carta fora do baralho ou, pelo menos, uma preocupação genuína, dado que seriam estes os donos da IA e os principais interessados em que ela não funcionasse como ferramenta digital de exploração. Por algum motivo, o recente manifesto da Palantir não menciona trabalhadores nem sindicatos. Porque sabe que “os trabalhadores por si só, se se organizarem, são capazes de parar as linhas de produção da morte. Uma greve geral no vale do Silício, ou mesmo nos próprios escritórios da Palantir, é o pesadelo deste projeto20”.

Com uma política anti-monopolista e a socialização da IA, mesmo os seus efeitos nocivos sobre a nossa “casa comum21” seriam potencialmente mitigados, até porque o trabalhador comum não tem possibilidades de construir um bunker numa ilha remota ou de sequer se imaginar a viver em Marte como fazem os multimilionários tecnofascistas. Enquanto a IA for pensada apenas e só com vista ao lucro e à acumulação de riqueza por meia dúzia de sociopatas, que perdem a maior parte do seu tempo atormentados com a possibilidade de perderem uns milhões22, não existe qualquer possibilidade de não operar enquanto ferramenta de produção de miséria social em massa.

Neste sentido, a IA corresponde a uma forma altamente sofisticada e complexa de extractivismo socioecológico. Parafraseando Proudhon, a “IA é roubo!” e reverter esta lógica passaria, por exemplo, por tornar público, universal e gratuito o acesso à tecnologia, inclusive à sua arquitetura mais elementar que hoje permanece debaixo de um manto de enorme opacidade (afinal, o segredo é a alma do negócio). Desmercantilizar a IA implica também que a sua infraestrutura fique sujeita a controlo democrático e transparente, que esta seja concebida enquanto propriedade comum da humanidade. Caso contrário, “não [se] pode controlar o seu futuro, não [se] é livre, não [se] é independente e não [se] pode decidir sobre o seu futuro nem proteger a sua democracia23” e a oligarquia tecno-digital reforça o seu poder totalitário. A este respeito, em Portugal, vale a pena salientar a proposta pioneira de criação do Instituto Nacional para a Computação Avançada, feita pelo PCP24.

Como se afirma em “Automation and AI: A Socialist Perspective on Workers’ Rights25”, um projeto socialista para a IA seria capaz de colocar os aumentos de produtividade e eficiência ao serviço do bem-estar de quem vive do seu trabalho. Como? Diminuindo erros e eliminando desperdícios nos processos produtivos; assegurando as tarefas repetitivas e libertando os trabalhadores para aquilo que é mais recompensador; substituindo os trabalhos sujos e perigosos, reduzindo acidentes e melhorando a segurança nos locais de trabalho; criando condições para o aparecimento de novas ocupações, altamente qualificadas e bem remuneradas; impedindo despedimentos sob pretexto de adopção da IA26; aumentando o tempo livre para atividades de lazer e ócio, jornadas de trabalho mais curtas e mais tempo de férias; levando a cabo grandes investimentos em serviços e infraestruturas públicas. Contudo, fazer avançar uma agenda tão progressista requer, naturalmente, que se combatam os inúmeros riscos e desafios que a IA coloca hoje ao trabalho. Para além do desemprego, da compressão salarial e das desigualdades crescentes, que já antes vimos, também a vigilância e o controlo permanentes devem ser combatidos, bem como a degradação do trabalho que o torna desumano.

Ao contrariar o tecnoterrorismo e os seus efeitos, indo à raiz do problema, uma perspectiva socialista da IA cria um novo horizonte de possibilidades para os trabalhadores, susceptível de libertar todo o potencial da tecnologia e colocá-lo ao seu serviço. A IA deve ser escravizada e não fazer de nós escravos. E essa foi a intuição inicial dos luditas que vale a pena recuperar para a atualidade e, em última instância, foi contra isso que se revoltaram há cerca de dois séculos, lançando a semente que viria a germinar num potente movimento operário e nos primeiros sindicatos. Não contra as máquinas, mas sim contra os grandes monopólios do capitalismo.

É por isso urgente “virar o jogo” e resgatar para o trabalho o potencial emancipador desta “nova” tecnologia. Rejeitando tanto as acusações preconceituosas dirigidas aos neoluditas de hoje, como a sua mais recente variação – “populismo IA27 –, desenvolvendo uma cultura contra-hegemónica esclarecida, consciente e crítica e uma alternativa socialista que coloque a IA, não enquanto fetiche28, mas sim como produto histórico-geográfico do capitalismo, no centro das suas preocupações, promovendo ação coletiva e lugares de encontro cara a cara, onde a empatia, a solidariedade e a confiança se constroem. Não num futuro longínquo onde apenas os historiadores da longa duração poderão ser capazes de vislumbrar retrospetivamente os ganhos civilizacionais resultantes da IA, deixando na penumbra o seu rasto de destruição e violência social, mas tão rapidamente quanto possível para evitar que este se torne cada vez mais real. Lutemos, pois, por uma IA ao serviço do povo!

(fim)


1 Ver https://robertreich.substack.com/p/how-can-the-stock-market-be-soaring?emci=dd2db07a-7d48-f111-8ef2-000d3a14b640&emdi=60051659-7549-f111-8ef2-000d3a14b640&ceid=3928027 (acedido a 5 de maio de 2026).

2 Ver https://www.publico.pt/2026/04/24/enter/noticia/meta-planeia-despedir-10-forca-trabalho-apostar-ia-2172372 (acedido a 8 de maio de 2026).

3 Ver https://www.publico.pt/2026/05/08/enter/noticia/cloudflare-despede-20-juntase-vaga-cortes-ia-2174028 (acedido a 9 de maio de 2026).

4 Ver https://sol.iol.pt/economia/noticias/snapchat-aposta-na-inteligencia-artificial-e-avanca-com-corte-de-mil-postos-de-trabalho/20260415/69dfbaac0cf2d0ed34b82dd3 (acedido a 8 de maio de 2026).

5 Ver, por exemplo: https://www.publico.pt/2026/04/29/p3/cronica/despedir-causa-ia-decisao-empresas-vao-desfazer-2172921 (acedido a 8 de maio de 2026).

6 Borges R (2026) Impactos da IA no trabalho intelectual e nos serviços públicos. Le Monde Diplomatique, Edição Portuguesa, n.º 235.

7 Ver https://dinheirovivo.dn.pt/empresas/1-de-maio-evento-agent-days-vai-colocar-agentes-de-ia-a-trabalhar-pelos-humanos (acedido a 6 de maio de 2026).

8 Ver, por exemplo: https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/a-ia-vai-substituir-os-trabalhadores-que-nao-se-adaptarem/ (acedido a 8 de maio de 2026).

9 Disponível em https://arxiv.org/abs/2603.20617 (acedido a 5 de maio de 2026).

10 Ver https://www.oxfam.org/en/press-releases/top-ceo-pay-increased-20-times-faster-workers-pay-2025 (acedido a 8 de maio de 2026).

11 Oxfam (2026) Resisting the Rule of the Rich: Protecting Freedom from Billionaire Power. Oxfam International, p. 12.

12 Ver https://notasdissidentes.substack.com/p/tecnoterrorismo-e-o-espelho-quebrado (acedido a 3 de maio de 2026).

13 Gmyrek P, Berg J, Kamiński K, Konopczyński F, Ładna A, Nafradi B, Rosłaniec K, Troszyński M (2025) Generative AI and Jobs: A Refined Global Index of Occupational Exposure, ILO Working Paper 140 (Geneva, ILO). https://doi.org/10.54394/HETP0387.

14 Ver ILO (2026) The Impact of Artificial Intelligence on Productivity: Evidence Across Levels of Aggregation, Research brief. International Labour Office.

15 Disponível em https://passapalavra.info/2023/05/148371/ (acedido a 4 de maio de 2026).

16 Ver Karimova T (2026) AI Systems at Work: A Changing Psychosocial Work Environment. ILO Working Paper 170. International Labour Office.

17 Ver https://vientosur.info/tesis-para-una-critica-ecosocialista-de-la-inteligencia-artificial/ (acedido a 11 de maio de 2026).

18 Disponível em https://resistir.info/patnaik/patnaik_01fev26.html (acedido a 2 de fevereiro de 2026).

19 Disponível em https://www.currentaffairs.org/news/the-only-ethical-model-for-ai-is-socialism (acedido a 11 de maio de 2026).

20 Disponível em https://www.esquerda.net/artigo/fascismo-digital-alianca-entre-o-capital-e-extrema-direita/98026 (acedido a 11 de maio de 2026).

21 Para uma reflexão em torno desta ideia ver https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html (acedido a 11 de maio de 2026).

22 A partir da análise dos ficheiros Epstein, é possível compreender que a urdimenta de planos e estratégias de preservação dos privilégios é a principal ocupação do tempo das elites globais. Ver https://the.ink/s/epstein (acedido a 11 de maio de 2026).

23 Ver https://expresso.pt/sociedade/tecnologia/2026-05-10-isto-nao-e-uma-democracia-e-uma-oligarquia-tecnologica-b2872baa (acedido a 11 de maio de 2026).

24 Disponível em https://www.pcp.pt/cria-instituto-nacional-para-computacao-avancada-ip-laboratorio-do-estado (acedido a 11 de maio de 2026).

25 Disponível em https://jeffreystamberger.com/writing/automation-and-ai-a-socialist-perspective-on-workers-rights (acedido a 9 de maio de 2026).

26 A este respeito, na China, parecem existir já exemplos de sinal positivo. Ver, por exemplo, https://www.abrilabril.pt/internacional/justica-chinesa-decide-adocao-da-ia-nao-justifica-despedimento (acedido a 8 de maio de 2026).

27 Ver http://tiny.cc/4783101 (acedido a 11 de maio de 2026).

28 Disponível em https://monthlyreview.org/articles/the-fetishism-of-ai/ (acedido a 4 de maio de 2025).

Professores dos politécnicos: “Adeus, estás despedido”
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categoria-trabalho Politécnico Precariedade Despedimentos edicao-2026-09-24 (42)

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Na Escola Superior de Teatro e Cinema há docentes convidados há dez, quinze, dezanove (!) anos. Coordenam unidades curriculares, orientam mestrados, participam em júris e assumem responsabilidades indispensáveis ao funcionamento dos cursos, através de contratos sucessivamente renovados. Mas há professores cujos contratos terminam a 31 de julho e só serão recontratados

Joana Cardoso Santos
Sector automóvel: a batalha da Alemanha
Automóvel Despedimentos Greve Pensões categoria-trabalho edicao-2026-07-09 (35)

Sector automóvel: a batalha da Alemanha

Publicamos neste número do Maio uma resolução recentemente adoptada pelos delegados sindicais da fábrica-mãe da Mercedes-Benz em Estugarda na Alemanha. O seu título “Já basta! Protestar, resistir, greve! Os patrões querem luta de classes? Muito bem, vão tê-la!”

Adriano Zilhão
Despedimento coletivo na Randstad: "tratam as pessoas como números"
Call centres Despedimentos Precariedade categoria-trabalho edicao-2026-06-04 (30)

Despedimento coletivo na Randstad: "tratam as pessoas como números"

Num sector marcado pela pressão constante, pelos ritmos intensos e pela precariedade normalizada, fomos ao encontro de duas das cinco mulheres que hoje compõem a comissão de trabalhadores criada em apenas três dias para responder à intenção de despedimento coletivo de 42 trabalhadores da Randstad.

Nuno Geraldes
Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas
categoria-ciência Despedimentos Inteligência Artificial Tecnoterrorismo edicao-2026-06-04 (30)

Inteligência artificial generativa e trabalho: aprendendo com os luditas

O sonho molhado de pós-humanistas, tecnofascistas e multimilionários seria substituir toda a força de trabalho humana por IA. Só que esta hipótese gera um resultado coletivo absolutamente irracional, mesmo na óptica do capital. Afinal de contas, sem trabalhadores humanos, quem vai consumir aquilo qu

André Carmo

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