Inflação

Tudo o que não lhe dizem sobre a inflação
Inflação Habitação INE categoria-economia edicao-2026-04-16 (23)

Tudo o que não lhe dizem sobre a inflação

O que se esconde por detrás da aparente transparência do “índice de preços ao consumidor” (IPC) calculado pelo INE? A taxa de inflação é igual para todos? E quanto à inflação imobiliária e ao preço das habitações, seja para compra, seja para arrendar?

Adriano Zilhão
O ressurgimento de uma doença de outros tempos: o escorbuto ou a peste do mar​ Cristina Semblano
categoria-opinião Doenças da miséria Inflação Reaparecimento de doenças

O ressurgimento de uma doença de outros tempos: o escorbuto ou a peste do mar​

O ressurgimento de doenças como o escorbuto, a tuberculose e a sarna em países ricos revela a crescente desigualdade na repartição da riqueza gerada pelos trabalhadores.

Cristina Semblano
Inflação Habitação INE categoria-economia edicao-2026-04-16 (23)

Tudo o que não lhe dizem sobre a inflação

O que se esconde por detrás da aparente transparência do “índice de preços ao consumidor” (IPC) calculado pelo INE? A taxa de inflação é igual para todos? E quanto à inflação imobiliária e ao preço das habitações, seja para compra, seja para arrendar?

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ilustração e animação: Pedro Páscoa

Quando se fala de inflação e da sua taxa (de inflação), está-se geralmente a falar da evolução no tempo do “índice de preços ao consumidor” (IPC) calculado pelo INE e harmonizado com Bruxelas.

Diz-se, por exemplo: o IPC aumentou 2 ou 3% (ou: a taxa de inflação foi de 2 ou 3%) em relação ao “período homólogo do ano passado”.

Mais do que economicamente, a taxa de inflação é um número socialmente muito importante, por exemplo na preparação das negociações colectivas entre trabalhadores e entidades patronais.

Do lado do trabalho, diz-se convencionalmente que os aumentos salariais contratuais têm de ser, pelo menos, iguais à tal taxa de inflação para os trabalhadores poderem, pelo menos, manter o seu poder de compra actual. Para o poderem melhorar, os aumentos percentuais têm de ser superiores à taxa de inflação.

Do lado do patronato e do governo, tenta-se, pelo contrário, negociar aumentos salariais abaixo da taxa de inflação. Argumenta-se com os “tempos difíceis” que se vivem. Curiosamente, patronato e governo vivem sempre tempos difíceis, mesmo com superavits orçamentais e lucros em erupção.

No caso dos funcionários públicos, o governo usa os chavões de Bruxelas: défice orçamental, dívida pública, austeridade para escapar ao chicote da Comissão Europeia. A doutrina geral é: fazer sacrifícios agora, para o futuro ser mais risonho para todos. A definição de futuro é bem conhecida: nunca é presente.

Os patrões privados argumentam, pelo seu lado, com a difícil conjuntura económica, com a temível concorrência internacional de países de mão de obra (ainda mais) barata, com a competitividade da economia e a necessidade de as empresas poderem ter margem para investir… no tal risonho futuro.

Seja como for, a “taxa de inflação” é universalmente tratada como um “facto objectivo”: um número gravado no mármore, que há-de servir de referência a todos.

Mas é mesmo?

O que é realmente esta taxa de inflação?

O que representa o índice de preços ao consumidor?

Vejamos o que a tal respeito escrevia muito recentemente uma publicação financeira alemã, económica e politicamente ultra-liberal, mas que, escrevendo para os seus liberais leitores, não precisa de ter especiais papas na língua:

“Se bem que a actual taxa de inflação, de 1,9%, se enquadre praticamente no valor-alvo do BCE, o nível de preços subiu quase 24% desde 2020. Compra-se hoje por 124 euros um cabaz de produtos que, em 2020, custava 100 euros. (…) Ora, se o nível de preços pulou cerca de 24% desde 2020, muitos salários não subiram na mesma medida no mesmo período. Daí o sofrimento dos operários e empregados com a situação presente (e com o SPD). Pior: os economistas falam em inflação operária, que é uma inflação claramente superior aos valores médios. A volatilidade (variação de preços) é máxima em segmentos como a energia e os bens alimentares — que são os que mais subiram desde 2020. Não tendo um operário “possibilidades de substituição” (não pode deixar de comer nem de aquecer a casa), o nível de preços mais elevado atinge-o no âmago da sua existência. Se bem que o cabaz médio de produtos do instituto de estatística dê aos bens alimentares uma ponderação de 12%, um operário que gasta 30% do seu dinheiro em bens alimentares e 15% em energia experimenta um nível de preços mais alto do que esse. Em suma: a inflação é politicamente incorrecta. Estabelece diferenças de classe.”1

Assim é: a taxa de inflação é um instrumento de luta de classes.

É-o de duas maneiras diferentes: pela maneira como é estabelecido o índice; e pela sua própria existência como padrão do nível de preços.

1. A natureza do índice de preços ao consumidor e suas consequências

Em termos simples: o índice oficial de preços ao consumidor estabelece a variação dos preços médios dos produtos incluídos no cabaz de despesas “médio”, em que cada produto ou rubrica recebe uma certa ponderação “média”, que dá o seu peso relativo no cabaz. Subentende-se que a ponderação assim estabelecida das rubricas de despesa do cabaz é válida para toda a população. Não são, afinal, os mercados livres de acesso a todos e qualquer um? Quem quiser comprar uma mala Gucci tem livre entrada numa loja Gucci.

Mas não. Tal como a mala Gucci não é vendida a milhões de consumidores, apesar de ser de livre acesso, a ponderação do cabaz oficial também não corresponde à distribuição da despesa de todas as famílias.

Ou por outra: corresponde, mas só pela famosa lei das médias: aquela lei que faz que, se eu tiver uma galinha e tu nenhuma, “em média”, os dois temos meia galinha cada um.

No exemplo do jornal capitalista alemão que citámos: a família operária que tem de consagrar metade do que ganha — e não um quarto do que ganha, como supõe o cabaz oficial — à alimentação e à energia, essa família sofre uma taxa de inflação real não dos tais 1,9% médios do IPC, mas facilmente de mais do dobro disso. Basta pensar como a gasolina e o gasóleo já subiram entre 25 e 50% em poucas semanas, e o impacto que isso tem na vida dos trabalhadores e dos pequenos proprietários e “independentes”, tão comuns em sectores como os transportes, apesar de o índice de preços manter a sua pachorrenta evolução, tão bem “ponderada”.

Consequentemente, se, na negociação do contrato de trabalho, o operário for “aumentado” pela taxa de inflação, o seu poder de compra não se mantém igual: baixa. E pode perfeitamente baixar muito.

Como refere Eugénio Rosa2,

“Para quem vive com pouco, a alimentação, a energia e outros bens essenciais absorvem a maior parcela do rendimento mensal. Para quem tem rendimentos elevados, essas despesas pesam muito menos. Ora, quando os preços dos bens essenciais sobem acima da média, a inflação efetivamente sentida pelos mais pobres fica acima da inflação oficial. E os valores do INE acabam por ocultar a realidade e servir para enganar a opinião pública, os trabalhadores e pensionistas. E é isso exatamente o que está a acontecer. Em março de 2026, o IPC total subiu 2,7%, mas os produtos alimentares não transformados aumentaram 6,38% e os produtos energéticos 5,76%.”

A consequência disto, nas palavras de Eugénio Rosa é que

“para um pensionista com 686€ mensais (…), admitindo que gasta 50% do orçamento em alimentação, a inflação homóloga em março de 2026 já foi de 4,01% e não 2,7%; um trabalhador com um salário líquido de 1240 € por mês (...), com 30% do orçamento em alimentação, o valor de inflação homóloga já foi 3,05% em março de 2026 e não 2,7%; um diretor com uma remuneração de 5000 €, mas com uma estrutura de despesa muito mais próxima da média oficial, (22,52% em alimentação) para ele a inflação homóloga já foi 2,69% (...) praticamente o mesmo valor do IPC divulgado pelo INE”.

Ou seja, aumentos de salários pelo índice do INE mantêm o poder de compra dos directores; mas baixam o poder de compra da esmagadora maioria dos trabalhadores e pensionistas…

Repare-se, ainda, na piscadela irónica da publicação alemã citada mais acima: o operário sofre com a mudança do nível dos preços, mal reflectida no índice anual de inflação; mas sofre, também, com o SPD. O SPD é o Partido Social-Democrata alemão, o partido tradicional da classe trabalhadora. Qual a relação? A relação é que o SPD se tem comprometido em sucessivos governos de austeridade — e tem sofrido um declínio eleitoral espectacular. O que a revista diz é que o operário sofre com os preços e sofre com o partido que ele acreditava ser o representante da sua classe e dos seus interesses na luta contra a carestia. E, desiludido, acaba por lhe virar costas. A piscadela de olho divertida dos jornalistas burgueses tem esse significado: ainda bem que o SPD faz por nós o nosso trabalho de fazer sofrer os operários! Quem diz o SPD, não precisa de olhar muito longe para encontrar, em Portugal, os seus equivalentes, em singelo ou em geringonça.

Chegamos, pois, a uma curiosa ligação directa entre inflação e ascenso dos populistas de extrema-direita, que se especializaram em colher na rede da demagogia os frutos desta safra.

2. O porquê do índice de preços ao consumidor

O Ministério das Finanças e o Banco Central, e os respectivos chefes na Comissão Europeia, no Banco Central Europeu e no FMI, mantêm o sobrolho ferrado com severidade na taxa de inflação. Ao mínimo sinal de ela se afastar do “valor-alvo” (2% ao ano no máximo, no caso do BCE), aqui d’el-rei, que é preciso aumentar as taxas de juro, encarecer o crédito, abrandar a economia.

O aspecto curioso é que, para controlar os preços, se aumenta um preço, o preço do dinheiro, do crédito. Que é também o preço das hipotecas de quem comprou casa.

Há uma ressalva a isto, naturalmente: se for para financiar a guerra, venha a inflação, que é maneira mais “suave” de baixar os salários. A administração Trump procura a todo o custo evitar que o banco central dos EUA, a Reserva Federal, aumente as taxas de juro, apesar de a dívida do Estado e o défice orçamental americanos serem estratosféricos. Para tal efeito, já substituiu o presidente do banco central.

Em todo o caso: inflação significa aumento dos preços. Mas preços, há muitos.

Mencionemos dois outros tipos de preços: os preços dos activos financeiros (acções, obrigações e variados títulos derivados que se negociam em bolsas ou fora delas) e os preços do imobiliário (que, de resto, também é cada vez mais um activo financeiro, e cada vez menos um bem destinado à habitação).

O fenómeno curioso no que toca a estes preços é duplo: a sua inflação tem sido muito superior à taxa de inflação, também em Portugal. Por exemplo, a evolução dos preços (ou seja, a inflação) no mercado imobiliário foi de mais de 100% nos últimos dez anos.

No entanto, esta inflação galopante desperta emoções muito menos violentas entre os nossos governantes. Não parece preocupar de todo nem o Ministério das Finanças, nem o Banco de Portugal, nem a Comissão Europeia, nem o BCE. Bem pelo contrário: a subida dos índices bolsistas é saudada com garrafas de champanhe e os governantes rejubilam com a atracção dos “investidores” pelo nosso belo país.

Preços diferentes tratados diferentemente

Porquê esta diferença de tratamento? A resposta é simples e remete-nos outra vez para as classes sociais.

O índice de preços ao consumidor reflecte (distorcidamente, como vimos) o rendimento dos trabalhadores, os preços dos produtos em que são consumidos os salários. Reflecte, nessa medida, o “custo do trabalho”, que é preciso manter muito bem controlado. Sendo todo o valor novo gerado exclusivamente pelo trabalho, se o “custo” do próprio trabalho aumentar muito, a parte do valor gerado pelo trabalho que é apropriada pelo capital em forma de lucro, juro e renda diminui.

Ora, os índices bolsistas e imobiliários reflectem precisamente (também de maneira distorcida, mas deixemos isso para outra ocasião) o valor e o rendimento dos capitais dos capitalistas, na forma de lucros, juros e rendas.

A taxa de inflação não é, portanto, um “facto objectivo”. É um instrumento político. Serve para patronato e governos controlarem o “custo do trabalho”. Ajuda a impedir que os salários subam além do estritamente necessário à sobrevivência do trabalhador.

Já a inflação bolsista e imobiliária é procurada e considerada muito útil e necessária, porque reflecte o aumento dos lucros e das rendas de capitalistas e senhorios.

Controlo da inflação para garantir austeridade para o trabalho; descontrolo do champanhe para garantir os lucros ilimitados nas bolsas.

Inflação imobiliária e habitação

O sector imobiliário tem a particularidade de ser aquele em que os “problemas” das duas classes sociais se tocam.

“Habitar” é uma condição básica para viver. É indispensável para ter uma família. Além disso, habitar é “binário”: pode-se comer um pão, um pão e meio ou dois pães. Casa, ou se tem, ou não se tem.

Vejamos como se põe este “problema binário” à população portuguesa actual, particularmente aos jovens à procura de primeira habitação, própria ou arrendada. Particularmente nas grandes cidades, onde se situam praticamente todas as possibilidades de emprego.

O preço do metro quadrado de habitação em Lisboa mais do que duplicou nos últimos dez anos. Em 2025, segundo dados oficiais, situava-se, em Lisboa, entre 4500 e 5 mil euros. A compra de uma casa de família de 100 m2 em Lisboa, hoje, representa, assim (além da contribuição própria exigida pela banca), um encargo hipotecário mensal de mais de 2 mil euros para um empréstimo a 30 anos. Acresce que a “taxa de esforço” aceite pela banca para a prestação mensal calculada é, no máximo, de cerca de um terço do rendimento líquido do comprador. No caso examinado, este terá de ser, portanto, de 6 mil euros ou mais, correspondentes a algo como 10 mil euros brutos ou mais.

Portanto, os empréstimos bancários para compra de habitação estão reservados a compradores cujo rendimento bruto não ande longe de 10 mil euros mensais ou 120 mil anuais.

Em 2025, havia (para o IRS de 2023), 81 mil agregados com rendimentos superiores a 8300 euros mensais (100 mil anuais). São 1,35% dos contribuintes! E escusado será dizer que a percentagem de agregados jovens dentro deste pequeno número é ínfima.

Note-se que o cenário não muda no caso do arrendamento. Os benefícios fiscais concedidos pelo Governo Montenegro a senhorios que pratiquem “rendas moderadas” situam o tecto das rendas “moderadas” em 2300€, ou seja, num valor mensal semelhante à prestação acima referida para o caso da compra.

A luta contra a inflação faz parte da luta da classe trabalhadora para aumentar os seus salários e condições de vida.

O mercado da habitação de Lisboa é, portanto, acessível a cerca de 1% da população total do país e a indistinguíveis migalhas da sua população jovem. E nas restantes grandes cidades pouca diferença há, porque, embora os preços do imobiliário sejam inferiores a Lisboa, também o são os rendimentos do trabalho.

Surge esta pergunta muito legítima: mas então como é que há transacções imobiliárias significativas em Portugal, pelo menos em Lisboa, que justifiquem estas subidas de preços e rendas, ainda por cima não sendo de prever que pessoas com rendimentos do mais alto escalão estejam sem abrigo?

A resposta é óbvia: a procura de imóveis é cada vez mais constituída não por trabalhadores locais à procura de tecto, mas por especuladores financeiros e imobiliários (organizados em “fundos”) espalhados pelo mundo inteiro onde quer que haja capitais em busca de aplicação rendosa (não esquecendo, é certo, que há decerto muito boa gente com rendimentos muito superiores aos declarados ao fisco, mas esses também não são trabalhadores).

Conclusão

A inflação é um instrumento da luta de classes contra a classe trabalhadora. A luta contra a inflação faz parte da luta da classe trabalhadora para aumentar os seus salários e condições de vida. Mas é uma parte que põe particularmente em relevo o carácter político dessa luta. Ela não se pode travar com o olhar fixo nos índices do INE e da Comissão Europeia, mas na construção de sindicatos de combate e de organização política que ajudem os trabalhadores a derrubar a sociedade de classes e a tomar colectivamente à sua conta os grandes meios de produção e de troca, incluindo a terra para construção.


1 The Pioneer Morning Briefing 27-03-2026, Gabor Steingart.
2 Estudo sobre a inflação oficial divulgada todos os meses pelo INE, 8 de Abril de 2026, in “
https://www.eugeniorosa.com/articles/download/606“.

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O ressurgimento de uma doença de outros tempos: o escorbuto ou a peste do mar​

Retrato da França (1)

O ressurgimento de doenças como o escorbuto, a tuberculose e a sarna em países ricos revela a crescente desigualdade na repartição da riqueza gerada pelos trabalhadores.

O escorbuto é uma doença provocada por uma carência profunda e prolongada em vitamina C que tinha sido praticamente erradicada no século XX nos países industrializados, principalmente na Europa. O escorbuto pode ser responsável, entre outros sintomas, por dores ósseas intensas e uma fraqueza muscular invalidante, hemorragias da pele e das gengivas e uma alteração do estado geral, podendo, na ausência de tratamento (absorção de vitamina C) levar à morte. Segundo um estudo levado a cabo por uma equipa de pediatras hospitalares franceses em colaboração com investigadores do INSERM e publicado em 6 de dezembro de 2024 na revista científica inglesa The Lancet Regional Health – Europe, o reaparecimento desta doença é preocupante, revelando as possíveis consequências do aumento da precariedade socioeconómica na situação nutricional das crianças em França.

Abrangendo dois períodos distintos, pré-pandemia (2015-2020) e pós-pandemia (2020-2023), o estudo integrou factores socioeconómicos como a malnutrição severa ou o índice de preços ao consumo. O aumento de casos de crianças hospitalizadas com escorbuto desde 2015 (888 casos diagnosticados no conjunto do território francês) foi mais importante no período pós-pandémico: entre 2020 e 2023, o aumento acumulado foi de 34,5% tendo mesmo atingido 200% nas crianças com idade compreendida entre 5 e 10 anos. Incidindo apenas nas crianças hospitalizadas, o número de casos diagnosticados pode não ser significativo do total de casos de escorbuto em França.

Porque é que, em meados da segunda década do século XXI, uma doença do passado ressurge naquela que é considerada a sétima potência mundial e a segunda da União Europeia? Se o escorbuto era conhecido como a doença dos corsários ou a peste do mar, é porque ela atingia os marinheiros, privados durante as longas travessias do mar, de fruta e legumes. Uma outra população atingida era a população carcerária – donde a expressão ainda hoje em voga em França, de “levar laranjas aos reclusos” – pelas mesmas razões: a carência de vitaminas e, neste caso de vitamina C. É a razão pela qual os autores procuraram relacionar a evolução do escorbuto com a da malnutrição severa e esta com a inflação, incidindo em particular sobre os bens alimentares e, no seio destes, sobre os alimentos frescos.

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Sem que se possa estabelecer uma correlação a 100%, na medida em que o fenómeno poderá também decorrer de maus hábitos alimentares, o certo é que, durante o mesmo período, a malnutrição severa aumentou de 20% em França. No caso das crianças hospitalizadas após março de 2020, 22,6% sofriam de malnutrição severa, 4% de disfuncionamentos autísticos e 5% de anorexia, ou seja, patologias que também podem explicar uma nutrição deficiente. Posto isto, é difícil não ver neste aumento da malnutrição os efeitos devastadores da inflação que assolou a França e, para além desta, uma grande parte do mundo no pós-pandemia, devido à desorganização das redes de abastecimento, num primeiro tempo, e à guerra na Ucrânia e às sanções à Rússia, num segundo tempo, com o consequente aumento dos preços da energia (e outras matérias-primas), difundindo-se ao conjunto das economias.

Por fim e mesmo depois do aumento de preços decorrente destes factores ter sido absorvido, continuaram a verificar-se evoluções exponenciais de preços, particularmente no que concerne aos bens alimentares e de primeira necessidade, reflectindo a voracidade das cadeias de produção e distribuição para manter ou elevar as margens. Neste contexto e na ausência de indexação dos salários à inflação, verificou-se uma quebra dos rendimentos reais dos trabalhadores, mais importante no caso dos de baixos rendimentos, onde o peso da alimentação na estrutura dos consumos é mais elevado. Não é, por conseguinte, de admirar que o consumo de bens alimentares tenha caído em 2023 de 11,4% em volume e que, em 2024, oito franceses em cada dez ganhando o salário mínimo ou um rendimento inferior declare não ter meios para alimentar correctamente os filhos.

O escorbuto não é a única doença do passado a cujo ressurgimento assistimos em França. De há alguns anos a esta parte vimos surgir outras doenças que tinham sido erradicadas nos países desenvolvidos, como a tuberculose e a sarna. À semelhança do escorbuto, trata-se do que podemos chamar doenças da miséria, que, surgindo em países ricos, revelam a crescente desigualdade que preside à repartição da riqueza gerada pelos trabalhadores.


*Economista. A autora escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

No próximo artigo, “O aumento da mortalidade infantil em França”.

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Cristina Semblano
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