Os rios da consciência
3.ª parte: A cabeça de Tito
Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua.
O velejador lera muito nas bibliotecas secretas de alguns dos seus amigos de Algés. Tivera muitas conversas sussurradas com outros oponentes à ditadura. Enfim, não era nem inocente nem ignorante em matéria de política e oposição ao regime. Ao cabo de muitos anos de conversas com certos amigos, um deles abeirou-se um dia, na Esplanada de Cristal, para lhe bichanar ao ouvido:
– Tenho um amigo a quem tenho falado de ti. Ele anda sempre por fora, mas agora está cá de passagem e gostava de conversar contigo. Importas-te de vir?
O Augusto percebeu que tudo aquilo devia estar planeado há muito tempo, mas por razões de segurança o convite vinha súbito e sem aviso prévio. Meteram-se no carro do amigo, que era advogado, e puseram-se a dar voltas e mais voltas, como se andassem perdidos, ou perseguidos. Passaram por Belém, subiram a Monsanto, pararam no alto de um monte como se estivessem a admirar a paisagem, e quando ficou claro que não havia vivalma em redor e ninguém os seguia, rumaram a Linda-a-Velha por estradas secundárias. Aí, numa vivenda, esperava-o “o tal amigo”. Era evidente que se tratava de um controleiro do PCP emergido da clandestinidade.
Estiveram os três à conversa durante quatro horas. O controleiro, habilidosamente, foi indagando a solidez das ideias do Augusto, o seu estofo para enfrentar condições adversas, e por fim, satisfeito com o que sondara, propôs-lhe que aderisse ao PCP como militante permanente. Augusto assentiu sem hesitação. Há muito tempo lhe parecia que era ali que devia estar, não ser simples vítima passiva da ditadura. Apenas chamou a atenção para o facto de, tendo família e filho a quem devia sustentar, não tendo feitio para abandonar as suas responsabilidades partilhadas e não tendo posses, nem património, nem outros rendimentos além do seu próprio trabalho, não poderia alinhar em certas aventuras clandestinas.
– Não há problema. Existem muitíssimas tarefas úteis ao partido e à resistência que tu és competente para desempenhar, sem pôr a família em risco. Ficamos combinados. Daqui a alguns dias há-de vir outro camarada falar contigo, para distribuir tarefas, e passas a responder perante ele. Agora tenho de ir embora, que se faz tarde. Mas antes, uma coisa importante: além de tudo aquilo que já falámos, há alguma dúvida que queiras pôr?
Augusto, que era de uma honestidade inabalável em tudo na vida, ponderou por brevíssimos instantes e por fim saiu-se com esta:
– Sim, tenho uma dúvida. Uma coisa que não consigo entender: porque é que foi preciso pôr a prémio a cabeça de Josip Broz Tito?
Esta simples pergunta traçou o futuro de Augusto. A partir daí, todos os seus amigos simpatizantes do PCP deixaram de lhe falar, olhando-o com desconfiança, fugindo dele como o diabo da cruz. Apenas lhe sobraram como amigos os indiferentes à situação política, os anarquistas e os democratas-cristãos da oposição. Mesmo depois da queda da ditadura, os antigos amigos comunistas não voltaram a dirigir-lhe a palavra. Foi, pura e simplesmente, ostracizado.
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Augusto não era, portanto, alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua. A seu tempo, o próprio Eduardo se encarregaria de tomar as suas próprias opções e aprender a resguardá-las dos bufos e outros meliantes – uma arte difícil de aprender e que exige longo treino; e que, ao mais pequeno deslize, podia provocar grandes sofrimentos ao próprio e aos seus conhecidos e familiares. Por conseguinte, as conversas de carácter político entre Augusto e Leogarda restringiam-se ao segredo da alcova. Nunca na presença da criança.
Daí aquele sinal discretamente levado aos lábios diante dos três mestres presentes na tasca. Ora, não só eles não perceberam o recado, como Eduardinho, ainda por cima, se entusiasmou com o tema e, do alto da sua arrogância adolescente, interrompeu o discurso do Mestre Matias com um disparate qualquer da sua lavra. Ainda não tinha acabado de pronunciar a segunda frase, quando teve a vaga sensação de que se criara um estranho ambiente na mesa. Interrompeu-se, perplexo. Passaram meia dúzia de segundos silenciosos.
– Assim não vale a pena falarmos – disse por fim Mestre Torvo.
As sobrancelhas do Eduardinho ergueram-se, mais perplexas ainda. De que raio estavam eles a falar? Foi preciso vir o pai em auxílio da sua falta de ciência.
– O que o Mestre Torvo quer dizer é que se falarmos uns por cima dos outros, se interrompermos o raciocínio dos outros a torto e a direito, então mais vale ficarmos calados, porque isso significa que ninguém está a ouvir ninguém.
Estes mestres não tinham quem lhes dissesse como trabalhar, quando trabalhar, que meios técnicos adoptar no exercício da sua profissão, com quem negociar e de quem fugir…
Aquela ética artesanal apanhou o Eduardo de surpresa. Não estava acostumado à maneira de ser das gentes ribeirinhas, habituadas a ponderar cada pequeno passo da sua própria vida. Às vezes pareciam ficar paralisados sobre uma falésia, ou quais estátuas embaladas num bote ao sabor das ondas. Quem os observasse diria que estavam em atitude contemplativa perante o mar e outras forças da natureza. Mas o que eles estavam de facto a fazer nesses momentos era um exercício de meditação sobre o seu presente, o passado e o futuro, como se fossem … donos da sua própria vida. Estes mestres não tinham quem lhes dissesse como trabalhar, quando trabalhar, que meios técnicos adoptar no exercício da sua profissão, com quem negociar e de quem fugir, que material comprar, como o usar, que rumo tomar, a quem vender o seu peixe, como aplicar os poucos cabedais que possuíam, enfim, como viver a vida. Só anos mais tarde o Eduardo conseguiu compreender plenamente o sentido daquele momento.
Ao cabo de um longo silêncio embaraçoso, Augusto aproveitou para mudar de assunto: saberiam eles de alguma embarcação que estivesse à venda por uma módica quantia?
O arrais conhecia alguém em Santo Amaro de Oeiras que tinha um barco armazenado, do qual gostaria de ver-se livre, para esvaziar o armazém e dar-lhe outro fim – bastaria que lhe pagassem o frete da grua, para transportar o barco até à doca. O negócio era tentador.
Nisto, ouve-se uma sirene, num lamento que começou como um leve sibilo e foi crescendo até se tornar uma toada ensurdecedora. Sinal de que era uma da tarde, hora do almoço dos operários das oficinas metalomecânicas das redondezas. Ao uivo lúgubre da sirene seguiu-se uma vaga ululante de operários que invadiu as mesas da tasca e abancou numa berraria tão ensurdecedora quanto a sirene. Era uma explosão de energias represas em que todos falavam ao mesmo tempo e quanto mais alto falavam mais tinham de elevar a voz para se fazerem ouvir, sendo que no fim ninguém se escutava. Todas aquelas santas almas, passadas quatro horas de gestos técnicos que não controlavam, com fins que desconheciam, alienados dos propósitos e da organização do seu próprio trabalho, iam ali explodir à beira de um prato, ao qual se seguiria um cigarrinho, ao qual se seguiriam outras quatro horas de trabalho alienado.
– Vamos embora, que já não se pode estar aqui – berrou o mestre calafate por cima da vozearia.
(continua)