Segundo o Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa da Porto Editora, nome feminino que significa 1) (mecânica) a capacidade de resistência de um material ao choque, que é medida pela energia necessária para produzir a fratura de um provete do material com dimensões determinadas; 2) (ecologia) capacidade de um sistema ecológico retornar ao estado original de equilíbrio, após suportar perturbação que o tenha afastado desse mesmo estado; 3) (psicologia) capacidade de reagir a trauma ou dificuldade, sem perda do equilíbrio emocional; 4) (figurado) capacidade de reagir e superar contrariedade ou situação de crise; faculdade de quem consegue lidar de forma positiva com fatores ou condições adversas.
EM NOVILÍNGUA:
A palavra resiliência é usada sobretudo nas últimas aceções acima mencionadas para designar a capacidade individual de reagir a traumas e dificuldades sem perda do equilíbrio emocional e de lidar de forma positiva com fatores ou condições adversas. Tornou-se, na linguagem empresarial e da governação, numa espécie de mantra que transfere para o indivíduo a responsabilidade por reagir a adversidades. Críticos do conceito, como o economista e sociólogo Thierry Ribault, que estudou catástrofes como a de Fukushima, sublinham “a natureza capacitista, irracional e determinista desta forma de religiosidade tecnofílica, que não está isenta de um conservadorismo que concede à genética um lugar central e hierárquico, como se existisse uma capacidade de resiliência associada a genes específicos”. Reagir a catástrofes naturais ou políticas como o comboio de tempestades deste inverno ou uma situação de guerra depende muito mais de políticas públicas e ação coletiva do que da “resiliência” de cada indivíduo. ASP
Durante o mês de julho vamos repor no Tempo Contra o Tempo o podcast Mudam-se os Tempos: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’ – já cantou o velho bardo. O curso da história move-se como as águas de um rio. Por vezes deixamo-nos levar por momentos de correntes rápidas, por outras, mansidão serena. Não é simples o seu movimento. Do ritmo que marca sempre passo, até à aceleração vertiginosa, avança-se nas conquistas sociais, mas as mesmas podem regredir em formas políticas avassaladoras. Ou vice-versa… Mas, ainda assim, ‘navegar é — sempre — preciso’. Estamos — todos e bem — embarcados. Este é o Podcast “Mudam-se os tempos”. Em cinco episódios com convidados especiais Roberto della Santa e Raquel Varela, historiadora, querem colocar sobre os próprios pés as principais ideias, imagens e conceitos que nos ajudam a saber e a fazer Portugal. De onde viemos? Para onde vamos? Toda a gente precisa interpretar a própria história para poder transformá-la. Em modo de conversa: como Portugal se formou? Quais são os seus principais desafios e dilemas? A isso vamos – agora mesmo!
Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
O cenário é surreal. Caixotes de papel amontoam-se na periferia da solarenga Lisboa. Lá dentro, 300 mil exames para serem digitalizados, numa plataforma que não acerta a primeira página com a segunda, convoca matemáticos para corrigir exames de línguas, e apaga respostas, fazendo aparecer ao lado dezenas de novas, mal o professor-classificador desliga o ecrã. O Governo diz não tornar pública toda a cadeia de lucro, dos bancos de investimento, das big techs, detentoras da memória destes dados, às empresas executoras, mas afirma, à luz do dia, estar a “monitorizar a velocidade” dos classificadores.
Nem os Monty Python conseguiriam inventar uma palhaçada idêntica. A credibilidade está ferida, é irreversível. Não se questiona – nem da parte da maioria dos sindicatos e partidos – o sentido de fazer um exame, a metrificação da avaliação, a (pasme-se) divisão da classificação do exame em itens (um professor não classifica todo o exame, mas cada professor classifica partes, para assim monitorizar a velocidade e dividir parcelas entre os mais rápidos); nem o facto de o professor não corrigir, apenas classificar (como pode um aluno aceitar ter uma nota sem que lhe expliquem os erros?) e claro, a monitorização, uma forma de controlo digital sobre o próprio corpo – literalmente, o corpo docente. Quanto tempo, onde e como ficou cada docente em cada resposta, para assim a IA calcular quanto tempo a máquina em breve precisará para fazer o mesmo. O Governo e a UE fizeram dos nossos professores e filhos – com o dinheiro que destinamos a educação coletiva de qualidade – ratos de laboratório do lucro dos acionistas da IA.
Desvela-se a realidade crua das classes dirigentes – as mesmas que colocam os filhos em colégios suíços, onde esta tecnologia é proibida e a manhã começa com trinta minutos de silêncio, meditação, seguida da leitura de obras filosóficas clássicas e termina com uma subida à montanha para conhecer a natureza. Uma aparência de algo semelhante, mais mixuruca, já existe hoje em alguns colégios de elite em Portugal, uma vez que a maioria do privado aderiu também à digitalização.
A IA, nem inteligente nem artificial, tem trabalho humano massivo por detrás (na entrega de dados na forma de respostas a exames, na classificação dos mesmos, e na digitalização braçal destes). Tudo pago pelos trabalhadores portugueses na forma de impostos que deveriam ser destinados a educar os filhos. Educá-los no melhor conhecimento histórico e filosófico, matemática, física, línguas e literatura, artes.
Nada disso: apenas testes de cruzes, simplificados, para a IA compreender o comando e a resposta, que é uma resposta padrão para ser processada por algoritmos. Alunos a ser treinados para a automação, uma nova era de “desantropormofização”, ou seja, desumanização em massa – a máquina engole o homem.
Portugal, é preciso dizê-lo sem meias palavras, foi o rato de laboratório da IA europeia ao abrigo do PRR, um empréstimo pago pelos Portugueses, anunciado como uma dádiva para combater a crise da Covid, mas de facto empréstimo, com juros, para a transição verde – que o digam em Boticas ou no Fundão –, transição digital dos serviços públicos e investimento em “segurança e defesa”, ou seja, guerra.
Em resposta à concorrência e guerras de Trump e ao enfrentamento mundial com outras potências, como a China e a Rússia, a UE delimitou, no mesmo discurso de Von der Leyen, a guerra e a educação digital. Como um campo único. De aposta do dinheiro público, ao lado do mega-financiamento a projetos de painéis solares e eólicas, que destroem campos agrícolas e o acesso a uma alimentação de qualidade.
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A pandemia de Covid não serviu para propor o regresso a uma saúde pública coletiva, com gestão democrática e quebra de patentes e investigação – em segurança –, sujeita a critérios científicos e clínicos transparentes. A crise foi usada não para parar e pensar, mas para avançar com o manicómio digital.
O avanço delirante do “ensino” online, da “saúde” online, dos contratos obscuros com farmacêuticas, e do Estado de exceção, da supressão de direitos. O super-homem deus da máquina, precisa de um super-Estado de exceção – até o Papa o percebeu, preocupado com que a religião cristã seja suprimida pela nova religião, a IA.
Da crise da Covid a burguesia europeia fez uma oportunidade: impor a IA, que todos odeiam e ninguém quer (segundo todas as sondagens realizadas, mais de 60 a 70% da população questiona a IA, os serviços online, a perda de sentido do trabalho, repetitivo). Os estudos da neurobiologia e da psicologia (mesmo da que é dominante, a comportamental) e até os inquéritos da OCDE confirmam: quem mais usa a IA usa menos o cérebro, é mais infeliz, tem mais problemas de saúde. Um desastre, um abismo.
Um abandono das crianças e jovens, pelos quais somos responsáveis como adultos, foi feito com o cumprimento escrupuloso da digitalização – agora os alunos são obrigados a produzir lucro, trabalho infantil, no lugar que um dia sonhou tirá-los do trabalho infantil, a escola. Fazem produção de dados e são dadores involuntários de corpo e alma (o seu cérebro) à experimentação tecnológica do desemprego, da guerra e da vigilância.
Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder.
A ligação entre guerra, vigilância e educação é central, disse a líder da UE. É natural, a precisão da geolocalização, a eficácia dos pompts, tudo isto é fulcral para criar códigos de programação – para a qual são necessários milhões de dados, cujo fornecimento vem da educação e dos serviços que preenchemos online, de sumários a relatórios clínicos.
Há uma nuvem, assente em gigantescos centros de dados, que une o like viciante do FB ou do Tiktok (que com esse like criam perfis, influem nos circuitos neurais), unem o like à resposta de pintar bolinhas na resposta a uma pergunta de um teste, à classificação digital num exame, à explosão de doenças ditas mentais, e à exatidão de um drone a implodir uma criança em Gaza.
Vivemos uma fase nova no capitalismo mundial. Não podemos pensar isto como inovação ou tecnologia, é terror, desagregação, não é inteligente, não é artificial, é material e concreto, somos milhões arrastados para a barbárie. Nunca desde a II Guerra Mundial a resistência política anticapitalista foi tão urgente.
Sabendo de antemão que a IA erra, que os erros são inevitáveis e que todos os estudos publicados demonstram que diminui a capacidade cerebral dos utilizadores. A UE parece ter escolhido um país periférico para o mega-ensaio de digitalização de 300 mil exames. Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
“Fazer depressa é fazer pior”, “não vamos outra vez falar de burocracia e técnica, escondendo a questão de fundo – descritores simples, comandos de resposta padronizados”, que medem o hiperfoco e não o desenvolvimento do cérebro e do conhecimento, “PIDE digital”, “inacreditável”, “temos de fazer greve”, “não somos entregadores”, “as perguntas eram tão imbecis que continham a resposta”, “os exames não avaliam”, “estou exausta”. Eis alguns dos comentários.
O que é a escola? O lugar coletivo de ensino-aprendizagem do melhor conhecimento produzido pelo conjunto da humanidade, sintetizado num currículo. Há algo nosso, que junta mortos e vivos, e que Marx denominava “intelecto geral”. Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder.
A educação não é um ato de entrega de um produto de ou a um jovem ou criança, é uma transformação interna, um desenvolvimento do cérebro (das funções psíquicas superiores). Por isso o lugar central da escola não é ocupar o tempo das crianças e jovens enquanto os pais estão a trabalhar. É, sim, o espaço do ensino dos conceitos teóricos de cada currículo (os fundamentos do conhecimento). A IA generativa é uma recombinação estatística de palavras com um código, que ao mesmo tempo é feita de expropriação do saber acumulado (milhões de dados, textos, respostas) e simultaneamente expropria o saber possível, ao substituir o processo lento, esforçado, reflexivo de conhecimento e de desenvolvimento do cérebro por comandos mecânicos e desprovidos de complexidade. É uma máquina que expropria continuamente o ensino-aprendizagem.
A IA não é “mais uma ferramenta” que nós “podemos usar como queremos”. Mesmo que fosse pública, com um código aberto – que deve ser –, nunca deveria ser usada em momento algum na educação, na escola, na universidade, mas apenas, por exemplo, para limpar sanitários ou salvar alguém no mar. A escola e a universidade são um ateliê de ensino, não uma fábrica de comandos.
Mas por um homem ferido/ num labirinto perdido/ entre uma morte e uma vida! Transforma-se o oprimido/ em instrumento opressor/ Nasce num peito uma guerra! / E, lá longe… Na sua terra/o abutre, o carrasco, /o nazi, / a peste./ enchendo o ventre de carne/escreve:/ “DITOSA PÁTRIA QUE TAIS FILHOS DESTE. António Calvinho
Bardamerda para tal gente e um hurra aos cadáveres de todos os soldados perdidos, afinal todos nós. João Viegas
Enquanto um só combatente estiver vivo, enquanto mulheres e filhos permanecerem vivos e com eles os traumas que a guerra colonial provocou nos corpos e nos espíritos, ela aí está: a guerra colonial.
Já muito se escreveu sobre aqueles treze anos que deixaram a marca mais dura e mais profunda no século XX português.
Os Soldados Perdidos, que tenho à minha frente, quarenta e oito anos depois de o seu autor, João Viegas, ter desembarcado no “paraíso de todos os medos”, como ele próprio qualificou aquela terra que atrai e repele a um tempo, será, talvez, a última obra literária sobre a guerra colonial escrita por um ex-combatente.
O stress provocado pela brutalidade e pela violência da guerra, pelo que viveram durante aqueles mais de dois anos, uma interrupção brutal na sua vida em construção, na continuidade das suas vidas profissionais, no amanho do campo, nos estudos despertou em muitos combatentes mobilizados como carne para canhão a necessidade e a vontade incontida de pôr no papel, tanta vez numa abordagem literária sem filtro, como quem respira, a realidade nua, brutal, sem contemplações, quase sem narrativa organizada; um grito, um berro tão violento quanto a própria guerra que o determinava.
Uma condenação sem apelo, saída do coração, da chaga aberta para sempre, do coto ainda mais provocador que inferiorizante como foi, aliás, o caso de um dos personagens reais, como são quase todos, senão todos, os que habitam esta obra tão singela e tão poderosa. Refiro-me ao Jorge Carneiro, militar e combatente de eleição e um revolucionário genuíno.
Assim foi a verdadeira aprendizagem daquela guerra para a geração que lhe sucedeu, pela pena de escritores que nunca o tinham sido ou que não constavam (ainda) do mainstream da literatura, a arte a brotar das profundas feridas que lhes marcaram a alma, quer pelo que viram fazer, quer pelo que fizeram e nunca pensaram ser capazes de fazer, quer pelo que sofreram na verdadeira solidão dos que enfrentam a morte iminente.
Em Os Soldados Perdidos encontramos a revelação profunda do humano pela exposição visceral dos soldados na sua permanente procura da sobrevivência física e anímica numa realidade cuja essência lhes escapa mas que vão aprendendo a dominar, a cada dia que passa no confronto com o inesperado, por vezes com o indizível.
Uma inteligência prática e uma capacidade inata de resistência constroem o seu mundo possível servindo-se da própria hierarquia que os sujeita.
O cotejo, que me atrai, de duas obras tão diferentes mas tão próximas como são Nó Cego, a obra-prima que se impõe como o requiem da guerra colonial e Os Soldados Perdidos, de João Viegas, decorre de, nesta última, termos um invulgar e poderoso enlace entre a veemente e sistemática condenação da guerra, e desta guerra em particular, a condenação frontal dos assassinos de voz meiga que a impõem por métodos brutais, totalitários e terroristas e a explícita e por vezes entusiástica celebração, mesmo exaltação, das qualidades militares daqueles que são forçados ao combate que está presente em Nó Cego.
Será uma característica de todas as guerras esta contradição, eventualmente percorrerá todas as obras, mas aqui encontramo-la no centro da narrativa. Aqui não se trata de uma constatação amarga. É uma forma muito bela, quase ingénua, de como se celebra a vida e a sua precariedade.
Falo-vos de um belo livro. Um belo livro caracterizado pela simplicidade narrativa que nos põe no centro da acção, por vezes quase frenética, mobilizados também nós “ao serviço da pátria” como ainda hoje sem qualquer pejo se diz daqueles que foram vítimas do fascismo e enviados para matar os seus irmãos de sofrimento ainda mais brutal, e depois, calhando, morrer.
Um estilo lesto e vivíssimo, sem rodriguinhos nem apaziguadores nem moralismos, sem complicações ficcionais, com a limpidez e a força da realidade crua, acompanha a acção do alferes miliciano Viegas, como tantos outros arrancado aos seus filhos – sem direito a beneficiar da figura de “amparo”, vá-se lá saber porquê, todos sabemos, ele fazia política e propaganda subversiva insidiosa contra a guerra colonial transformada na linha principal de ataque ao fascismo.
Feita a travessia do sofrimento, da contradição angustiante entre a consciência anti-fascista e anti-colonial e a consciência mobilizadora, tornada necessidade, de que tinha de levar os seus homens de volta para casa, fosse onde fosse e de que para isso tinha de saber estar à altura, ele, saído de uma instrução precária, feita à pressa, carne para canhão, eis o nosso alferes miliciano Viegas que escapou por entre os pingos da chuva, de volta ao seu CITAC, entretanto assaltado, roubado, encerrado e destruído pela PIDE, de volta ao encontro dos colegas e camaradas para o fazer renascer e com ele repercutir na arte a paz e a liberdade conquistadas.
A beleza dos jogos de amor desprendido, simples e divertido com Bela, a jovem informadora do PAIGC como todos sabiam, mas que oferecia momentos de prazer único naquelas paragens, fê-lo sofrer genuinamente quando foi presa pela PIDE e desterrada para um campo de concentração, o ilhéu das Galinhas, no arquipélago dos Bijagós.
Mas teve o prazer de ser o primeiro a receber o seu abraço emocionado e sentir correndo pela sua face as lágrimas de alegria e de emoção e de amor com que Bela se encolheu, feliz de novo, nos seus braços numa festa à liberdade de ambos e de ambas as pátrias.
A narrativa da experiência do alferes miliciano Viegas, desde o embarque no DC-6 para a Guiné, “o paraíso de todos os medos” até ao regresso a casa, dois anos depois de ser encharcado, sem aviso, pelo seu próprio suor, pegajoso e mórbido, com que Bissau na “época das chuvas” saúda os que mal assomam à porta do avião no aeroporto da Bissalanca, até dois meses depois do 25 de Abril, quando regressa à “metrópole”, é um palpitante hino à alegria de viver através das picadas da morte.
João Viegas fá-lo com uma entusiástica e quase absurda delicadeza, que se esconde por detrás da adopção sistemática da linguagem vulgar e rude dos homens na fronteira do suportável. Somos tocados profundamente pela sensibilidade esclarecida de um sentido crítico irredutível decorrente da sua inteligência de artista.
A sempre presente condenação do fascismo e da guerra colonial não prejudica a naturalidade com que, nela metido até aos cabelos, fosse simplesmente um soldado camarada dos homens que comandava desenvolvendo uma relação de grande fraternidade e compreensão com cada um, assumindo naturalmente com grande espontaneidade a capacidade de comando entre camaradas, estabelecendo uma hierarquia muito própria alicerçada nos humanos valores e interesses comuns: enfrentar as condições adversas, enfrentar aqueles que os obrigaram a designar por inimigos e que, na elementaridade radical da luta pela sobrevivência, foram forçados a agir como se assim fosse.
O alferes Viegas e os seus homens construíram um núcleo invencível, e não me refiro às vicissitudes do combate, porque simplesmente foram levados ao entendimento de que a sua vida e a sua humanidade essencial se enraizavam não tanto na eficácia do combate ao inimigo, que, reconheçamos, não era muita, mas na fraternidade e solidariedade que souberam construir.
E uma das coordenadas determinantes foi a compreensão de que a tragédia se combate com a alegria da camaradagem e que a coragem para a viver também pode nascer da própria acção.
Em Os Soldados Perdidos, o autor, ele mesmo o alferes miliciano Viegas, subverte pela forma como age e se relaciona com os seus homens, os cânones da hierarquia contrapondo-lhe, em pleno teatro de operações, a solidariedade e a fraternidade que constituem a verdadeira camaradagem. E mesmo a base da eficácia operacional possível.
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João Viegas consegue, na pessoa do alferes Viegas, pôr em prática os ensinamentos de A Arte de Ser Chefe, de Gaston Courtois, curiosamente um sacerdote francês ligado ao movimento dos trabalhadores católicos, estudada na Academia Militar, mas tão só, para tantas vezes serem postos de parte pelo carreirismo, pela opção do mando em vez do comando, pela pusilanimidade da carácter que fornece à burocracia todo o seu poder e pelo cretinismo militar, para parafrasear Lenine quando classifica o cretinismo parlamentar.
Na sua hostilidade radical à guerra e à hierarquia, o alferes Viegas, por amor dos seus homens e não à pátria dos fascistas, capitalistas e latifundiários que, inda hoje, roubam ao povo a sua pátria para lhe imporem a deles, revela-se um verdadeiro comandante, encostando às tábuas a hierarquia que sempre tentou submetê-lo às suas regras estritas sem realmente o conseguir.
Um verdadeiro comandante sempre na primeira linha a enfrentar os perigos que a todos ameaçavam. Ele próprio, ferido em combate e evacuado para de novo voltar por exigência sua para junto dos seus homens, os camaradas a quem pertencia e que comandou nas mais diversas situações, ora abrigando-se do tiro dos guerrilheiros, ora correndo de peito aberto sobre eles como o exemplo dos soldados africanos sob o seu comando o obrigava.
Mas bom, bom eram, quando a sorte o proporcionava e surgia a oportunidade, aquelas bebedeiras catárticas conjuntamente com a ida às meninas nas povoações já organizadas de acordo com o cânone colonizador. E para esses momentos de absoluta entrega ao prazer não importava arriscar de novo a vida numa emboscada ou no rebentamento de uma mina. A vida é nossa, vale mais arriscá-la porque nos sabe bem do que sob o látego infernal da hierarquia.
Viegas irá, já na última fase da comissão, ser colocado no Estado-Maior do comando-chefe por decisão directa do general Spínola, que antes de ser chefe dos bombistas do MDLP, no intento abstruso de fazer ajoelhar a democracia, esquecido de que há formas mais eficazes como ficou provado, foi um comandante militar de prestígio, apesar de condenado a perder a guerra já perdida logo que começou.
Aí, as capacidades de Viegas para analisar as diversas componentes do movimento das tropas baseado nos serviços de informações tornaram-no indispensável.
Sublinhe-se que os serviços de informações militares estavam organizados de acordo com a estrutura NATO a que o governo fascista de Salazar aderiu orgulhosamente para a defesa comum das nações democráticas da Europa, decerto com a garantia de que tais democracias não apoiariam, como sucedeu, o movimento democrático que timidamente eclodiu em Portugal na sequência da derrota do nazi-fascismo em 1945.
Isto quer dizer que a capacidade de obter informações sobre os movimentos do inimigo estava praticamente a cargo das unidades militares no terreno e, essencialmente, dependente da PIDE e sua vasta rede de bufos. Tal colocava a PIDE numa situação relativamente privilegiada, que sustentava uma certa arrogância quando em contacto com as unidades combatentes.
O alferes Viegas, quando ainda no comando operacional do seu pelotão, teve ocasião de confrontar uma dessas ratazanas da PIDE dando a fuga a um guerrilheiro de que o pide, o inspector Palma, se arrogara o direito de se apoderar para o torturar e extorquir informações, mostrando serviço.
As relações entre os militares e as polícias políticas foram sempre conflituais, o que se pode atribuir à frequente actividade política e golpista desenvolvida pelos militares, aliás na tradição revolucionária desde o afrontamento a Beresford que custou a vida ao general Gomes Freire de Andrade. O próprio 28 de Maio de Gomes da Costa teve, no seu desencadear, uma percepção dos interesses populares à flor da pele naturalmente esmagados logo de seguida pelas forças do capital e dos senhores da terra organizadas em torno de Salazar. Outras tentativas, várias, de derrubar os fascistas, envolveram civis e, sempre, militares até ao assalto ao quartel de Beja, em 1961, para proclamar o legítimo presidente da República, o general Humberto Delgado.
Nesta sua nova actividade acompanha de perto o Movimento dos Capitães, a aproximação ao PAIGC e as dificuldades inerentes ao encontro de forças beligerantes durante treze anos e que agora se confrontavam ainda, mas para encontrarem a melhor forma de se darem as mãos.
O Movimento dos Capitães, a caminho de se tornar Movimento das Forças Armadas, para atenuar a radicalidade do golpe, enquanto iam morrendo soldados e guerrilheiros esforçava-se por se libertar da estratégia spinolista de manter o império esgotado e apodrecido.
De regresso à vida de cidadão finalmente livre face ao poder, porque livre foi sempre perante si próprio, de cidadão politicamente comprometido e empenhado e não apenas cidadão sobrevivente de uma guerra que lhe não dizia respeito mas o confrontou nas suas mais profundas convicções, de regresso à sua actividade profissional num Portugal liberto do fascismo mas ainda e sempre sob ameaça dos “irredentistas”, o professor não descurou a defesa material da liberdade conquistada.
Agora já na sua escola, em Figueiró dos Vinhos, participou entusiasmado na preparação da resistência à possibilidade de uma incursão de um forte grupo terrorista que se constituía do lado de lá da fronteira, na Espanha franquista. A experiência humana e operacional ganha na luta contra a liberdade a que fora obrigado, estava agora pronta para a defender até às últimas consequências.
Duas personagens fundamentais, para além, naturalmente, do alferes Viegas, lui même, balizam todo o conceito estético, humanista e ético de Os Soldados Perdidos. São elas o furriel Trindade, formado na escola dos Rangers, formando combatentes com elevado grau de eficácia. Ele será o verdadeiro instrutor, o protector durante os combates, o companheiro seguro de tropelias, o amigo e companheiro de todos os momentos. E o comandante do destacamento de fuzileiros, o explosivo ruivo Labaredas, pronto para acorrer em auxílio sempre que necessário no combate ou na festa com que os combatentes celebram estarem vivos.
Estas duas personagens, na vivíssima simplicidade com que são descritas, expressam afinal, e de forma tão real, a complexidade radical da vida das tropas especiais, neste caso os “rangers” e os “fuzos”. Eles assumem como sua própria natureza, como justificação do próprio acto de combater numa guerra odiosa, uma superioridade moral, não em relação ao inimigo, que desse são próximos, talvez mesmo irmãos, numa ética própria, mesmo quando não percebida, que tantas vezes sublima a violência, até quando extrema, no combate que apenas fisicamente os opõe. Trata-se, pelo contrário, de uma superioridade que os faz permanecer, vivos ou mortos, uma acusação eterna às bestas engomadas que lhes impuseram a maior das violências: tirar a vida aos seus próprios irmãos.
A burocracia virtuosamente assassinada, a hierarquia metamorfoseada no desfrute da fraternidade, da solidariedade, da camaradagem. A humanidade manifestando-se em toda a sua beleza no “paraíso de todos os medos”. A abnegação e o medo, eis o ser humano na sua totalidade.
Ao longo da leitura destas páginas senti-me contigo, meu caro João Viegas. A acompanhar-te nas picadas, nas bebedeiras, nos combates, no estremecimento angustiado perante a tua luta pela vida quando ficaste gravemente ferido, a construir contigo, com o Trindade, com o Labaredas e a malta toda, pretos e brancos, a caminhada que me ia pôr do lado daqueles com que afinal iria identificar-me e unir forças para liquidar, ainda que só daquela vez, o inimigo comum.
Publicamos neste número do Maio uma resolução recentemente adoptada pelos delegados sindicais da fábrica-mãe da Mercedes-Benz em Estugarda na Alemanha. O seu título “Já basta! Protestar, resistir, greve! Os patrões querem luta de classes? Muito bem, vão tê-la!” não é o tom habitual que se espera na Alemanha da “co-gestão” e do “pacto social”.
ilustração: Pedro páscoa
A revista alemã de negócios Manager Magazin revelou há dias planos que circulam na administração do grupo Volkswagen. Em causa: duplicar de 50 para 100 mil a redução de efectivos já antes anunciada até 2030. Um em cada seis empregados à escala mundial.
A página em linha Börse Online informou depois da confirmação dos planos por um porta-voz do grupo: “O grupo, incluindo as suas marcas e empresas, vai ter de passar por uma transformação profunda.” Em Julho, o Conselho Fiscal deliberará definitivamente. Não se conhecem pormenores exactos, mas pelo menos quatro fábricas alemãs do grupo estarão ameaçadas de encerramento.
Nos últimos seis meses, a cotação da acção da VW perdera quase metade do valor. Claramente, os “mercados” exigiam medidas. Às medidas anunciadas reagiram “positivamente”.
O Governo alemão, uma coligação entre a CDU democrata-cristã e o SPD social-democrata, anunciou, também há poucos dias, um compromisso entre os dois partidos em matéria de “reforma“ do sistema de pensões. O compromisso introduzirá no sistema público distributivo, pela primeira vez, um “pilar obrigatório” de capitalização, nisso seguindo os planos em desenvolvimento sob a batuta da comissária Maria Luís Albuquerque para toda a UE. O Governo português prepara-se também, daí a reacção de Montenegro à conversa de Ventura sobre a idade das pensões.
No passado mês de Fevereiro, expúnhamos aqui no Maio os planos em desenvolvimento na Alemanha (e na Europa em geral) para desmantelar um a um os pilares do chamado “Estado social”, ou seja, as conquistas conseguidas pelos trabalhadores — e engolidas pelos governos capitalistas para evitar “males piores” — durante um século de greves, revoluções e lutas.
Estes pilares são, sobretudo, os sistemas de segurança social, incluindo a saúde pública e o sistema de pensões distributivo baseado no salário diferido, mas também o ensino público e universal baseado no saber, para formar cidadãos.
A crise do capitalismo mundial, aprofundando-se sem cessar, decreta: tudo isso é muito caro, corte-se!
Mas os planos incluem, também, o desmantelamento da “velha” base industrial “obsoleta”, de que a Alemanha é o mais proeminente representante na Europa. O novo rumo é: a todo o vapor para a “IA” e a economia de guerra.
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O desenvolvimento rápido da indústria chinesa, bem como os planos de guerra — para já aduaneira e comercial — do imperialismo americano contra a China precipitaram os acontecimentos. O grande capital industrial alemão está numa situação sem saída. Os novos entraves ao comércio livre à escala mundial rasteiraram a economia alemã, que assentava na exportação de bens e maquinaria industrial para todo o mundo a partir da energia barata fornecida pela Rússia e à sombra do guarda-chuva militar do Pentágono. A economia alemã estagna há quase dez anos.
No entanto, o dilema das cúpulas bancárias e industriais e, agora, políticas, da Alemanha e da Europa é muito difícil. É preciso reduzir drasticamente os “custos”, disso não restam dúvidas; para isso, é preciso reduzir os salários, tanto os salários directamente pagos aos trabalhadores, como o salário indirecto advindo da saúde e do ensino públicos, o salário diferido que são as pensões… Mas como fazê-lo, quando a classe operária alemã é a mais forte e organizada da Europa? Quando o partido que tradicionalmente a representa (o SPD) faz parte do governo? Não serão os previsíveis “conflitos sociais” daí resultantes e mesmo a presumível auto-imolação da social-democracia, a administradora ideal da “paz social”, um risco e um preço demasiado altos a pagar?
Quando o grupo VW fez o seu primeiro anúncio de reduções drásticas de salários e de despedimentos, no Outono de 2024, a resposta dos operários foi imediata e em massa. Assustada, a administração fez um acordo com os representantes dos trabalhadores, estendendo até 2030 a proibição de despedir em troca de uma certa “moderação” nos aumentos salariais.
A trégua mal durou um ano.
Mas não é só a VW. A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês. O gigante siderúrgico ThyssenKrupp fecha fábricas de antiquíssima tradição e despede com abandono. Grandes fornecedores do sector automóvel, nomes como Schaeffler, ZF, Bosch, etc., anunciam e executam encerramentos de locais de produção. Sucedem-se as falências no Mittelstand (a média indústria alemã especializada, designadamente, no fabrico e exportação de maquinaria especial sofisticada).
A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês.
Ninguém está a salvo. Ao fim de mais de um ano de “impasse”, em que o chanceler Merz era atacado de todos os lados pela sua incapacidade de “reformar”, o anunciado compromisso entre os partidos do governo em matéria de contra-reforma das aposentações, baseado na capitulação da social-democracia, representa um toque das trombetas para o grande assalto à classe trabalhadora alemã.
Depois do plano Draghi de 2023, a burocracia de Bruxelas trabalha a todo o vapor no desenho de planos de desmontagem, desmantelamento e destruição de tudo o que, na sequência da II Guerra Mundial, permitiu que sectores significativos das classes trabalhadoras dos países mais desenvolvidos da Europa pudessem ter uma vida relativamente tolerável.
A resolução dos delegados sindicais de uma das fábricas em que nasceu a indústria automóvel é um sinal de que a classe operária alemã e europeia não conta render-se sem dar batalha.
A fábrica da Mercedes Benz de Untertürkheim, perto de Estugarda, na Alemanha, tem actualmente cerca de 18 mil operários. É a fábrica-mãe da marca, fundada em 1904, considerada o berço da indústria automóvel. Ainda é o principal centro de competências da Mercedes. Ali se produzem motores de explosão e eléctricos, caixas de velocidades, eixos, baterias. Porém, está, como boa parte da indústria automóvel alemã, sob ataque do patronato. Reproduzimos aqui uma resolução dos delegados sindicais da Mercedes-Benz Untertürkheim.
Mal passa um dia sem novo anúncio de que tal empresa vai fazer despedimentos ou tem de “poupar” à nossa custa.
Crise por toda a parte.
E os patrões querem que sejamos nós a pagar.
Também não é que o governo faça alguma coisa por nós. Quer acabar com o imperativo legal da jornada de trabalho de 8 horas: que trabalhemos mais pelo mesmo salário ou até por menos. E ainda tem na manga a “reforma aos 70”.
Trabalhar até morrer. Do subsídio de cidadania1 passa-se a uma dita “prestação básica”. Querem que, destruindo-nos o patrão o posto de trabalho, fiquemos obrigados a aceitar até o emprego mais miseravelmente pago.
Andam a dar cabo do sistema de saúde à força de austeridade, a transformar a assistência médica em privilégio para ricos. O dinheiro que, por causa das medidas de austeridade, falta nas caixas da segurança social vai também para o rearmamento. Querem que os nossos jovens voltem a ir para a guerra defender os lucros das grandes empresas.
Ter pena de nós próprios, esperar numa pretensa “Alternativa para a Alemanha” ou implorar e suplicar ao governo não adianta.
Sem a nossa luta sindical e política não conseguiremos políticas melhores! Por isso, não vamos esperar que alguém nos mande protestar. Começamos já!
Sem a nossa luta sindical e política não conseguiremos políticas melhores! Por isso, não vamos esperar que alguém nos mande protestar. Começamos já!
A discussão com os nossos colegas no local de trabalho volta a ter mais forte cunho político. “Alguém pode parar aquele que percebeu a situação em que está?”2.
Aproveitamos todas as oportunidades que se nos apresentam para criticar os patrões e o seu governo. De futuro, que não haja mais assembleias de empresa, reuniões de conselho de empresa ou assembleias sindicais sem discussão política.
Ainda que de início sejamos poucos ou estejamos até sozinhos, se levantarmos a voz e tomarmos uma atitude, seremos mais.
Mal sintamos propício o clima entre o pessoal, organizaremos protestos na empresa e na nossa cidade.
Tomamos parte activa no nosso sindicato, exigindo, o mais rapidamente possível, a organização de manifestações contra a ganância dos patrões, contra o governo e por um futuro melhor. A greve, se necessário. E se as cúpulas sindicais se fizerem difíceis, avançamos nós próprios.
1 “Subsídio cidadão” (Bürgergeld), é o subsídio social de desemprego que garante o sustento de quem não tem meios para o conseguir sozinho. O governo pretende substituí-lo por uma “prestação básica”.
2 Do poema de Bertolt Brecht “Elogio da dialéctica”.
O Maio vai aproveitar os meses de verão para fazer algumas alterações. Vamos mudar de página (alojamento do site) para um modelo mais robusto, que diminua ataques informáticos e nos permita um ainda maior trabalho colaborativo. Neste julho faremos um Maio com cerca de 4 a 5 novos artigos por semana, sem editorial, e em agosto interromperemos três semanas, para férias e para mudar de site. Regressaremos no fim de agosto, retemperados, tal como vós, esperamos, por umas boas férias!
Caros leitores,
Há 9 meses propusemo-nos fazer um jornal, semanal, o Maio, que renovasse a esfera pública tendo a crítica do Estado e do mercado como central; a liberdade de pensamento como alfa e ómega de qualquer projeto coletivo; e a defesa dos trabalhadores e da cultura (não somos independentes do mundo do trabalho e da cultura, somos seus defensores como gente inteira que faz, pensa, luta, ama, sente, imagina, conhece. A habitação e a educação públicas são-nos tão queridas como o direito a querer e saber ler, escutar e conhecer a música e a sua história. Enfim, nada de humano nos é estranho.
Apoiado por sindicatos, associações e intelectuais críticos, cientistas, das exatas e das humanidades, artistas, desde então, o Maio teve mais de um milhão de visualizações, e saiu semanalmente.
Assumimos desde o início a recusa de qualquer financiamento do Estado, empresas ou publicidade. Graças a uma combinação de trabalho de qualidade, autónomo, de escritores, profissionais e amadores, que amam contar o país, e o mundo, ilustradores, cujo trabalho magnífico está espelhado na qualidade do design deste jornal, realizadores, a que se juntaram mais de 200 associados, o Maio cresceu imenso.
Fizemos tanto e vamos fazer muito mais. Vamos para a rua em reportagem ouvir quem trabalha e escutar o país fora de Lisboa. Vamos ter mais vídeo-reportagem. E vamos começar, esperamos pelo espaço apenas, uma escola, um espaço de encontros onde debates, cursos, teatro, atividades para crianças sem ecrãs, visitas e passeios, floresçam.
Vamos mudar de página (alojamento do site) este verão, para um modelo mais robusto, que diminua ataques informáticos, e nos permita também um ainda maior trabalho colaborativo. Neste julho faremos um Maio com cerca de 4 a 5 novos artigos por semana, sem editorial, e em agosto interromperemos três semanas, para férias e mudar de site. Regressaremos no fim de agosto, e tenhamos todos umas boas férias!
Segundo o Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa da Porto Editora, nome feminino que significa 1) (mecânica) a capacidade de resistência de um material ao choque, que é medida pela energia necessária para produzir a fratura de um provete do material com dimensões determinadas; 2) (ecologia) capacidade de um sistema ecológico retornar ao estado original de equilíbrio, após suportar perturbação que o tenha afastado desse mesmo estado; 3) (psicologia) capacidade de reagir a trauma ou dificuldade, sem perda do equilíbrio emocional; 4) (figurado) capacidade de reagir e superar contrariedade ou situação de crise; faculdade de quem consegue lidar de forma positiva com fatores ou condições adversas.
EM NOVILÍNGUA:
A palavra resiliência é usada sobretudo nas últimas aceções acima mencionadas para designar a capacidade individual de reagir a traumas e dificuldades sem perda do equilíbrio emocional e de lidar de forma positiva com fatores ou condições adversas. Tornou-se, na linguagem empresarial e da governação, numa espécie de mantra que transfere para o indivíduo a responsabilidade por reagir a adversidades. Críticos do conceito, como o economista e sociólogo Thierry Ribault, que estudou catástrofes como a de Fukushima, sublinham “a natureza capacitista, irracional e determinista desta forma de religiosidade tecnofílica, que não está isenta de um conservadorismo que concede à genética um lugar central e hierárquico, como se existisse uma capacidade de resiliência associada a genes específicos”. Reagir a catástrofes naturais ou políticas como o comboio de tempestades deste inverno ou uma situação de guerra depende muito mais de políticas públicas e ação coletiva do que da “resiliência” de cada indivíduo. ASP
Durante o mês de julho vamos repor no Tempo Contra o Tempo o podcast Mudam-se os Tempos: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’ – já cantou o velho bardo. O curso da história move-se como as águas de um rio. Por vezes deixamo-nos levar por momentos de correntes rápidas, por outras, mansidão serena. Não é simples o seu movimento. Do ritmo que marca sempre passo, até à aceleração vertiginosa, avança-se nas conquistas sociais, mas as mesmas podem regredir em formas políticas avassaladoras. Ou vice-versa… Mas, ainda assim, ‘navegar é — sempre — preciso’. Estamos — todos e bem — embarcados. Este é o Podcast “Mudam-se os tempos”. Em cinco episódios com convidados especiais Roberto della Santa e Raquel Varela, historiadora, querem colocar sobre os próprios pés as principais ideias, imagens e conceitos que nos ajudam a saber e a fazer Portugal. De onde viemos? Para onde vamos? Toda a gente precisa interpretar a própria história para poder transformá-la. Em modo de conversa: como Portugal se formou? Quais são os seus principais desafios e dilemas? A isso vamos – agora mesmo!
Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
O cenário é surreal. Caixotes de papel amontoam-se na periferia da solarenga Lisboa. Lá dentro, 300 mil exames para serem digitalizados, numa plataforma que não acerta a primeira página com a segunda, convoca matemáticos para corrigir exames de línguas, e apaga respostas, fazendo aparecer ao lado dezenas de novas, mal o professor-classificador desliga o ecrã. O Governo diz não tornar pública toda a cadeia de lucro, dos bancos de investimento, das big techs, detentoras da memória destes dados, às empresas executoras, mas afirma, à luz do dia, estar a “monitorizar a velocidade” dos classificadores.
Nem os Monty Python conseguiriam inventar uma palhaçada idêntica. A credibilidade está ferida, é irreversível. Não se questiona – nem da parte da maioria dos sindicatos e partidos – o sentido de fazer um exame, a metrificação da avaliação, a (pasme-se) divisão da classificação do exame em itens (um professor não classifica todo o exame, mas cada professor classifica partes, para assim monitorizar a velocidade e dividir parcelas entre os mais rápidos); nem o facto de o professor não corrigir, apenas classificar (como pode um aluno aceitar ter uma nota sem que lhe expliquem os erros?) e claro, a monitorização, uma forma de controlo digital sobre o próprio corpo – literalmente, o corpo docente. Quanto tempo, onde e como ficou cada docente em cada resposta, para assim a IA calcular quanto tempo a máquina em breve precisará para fazer o mesmo. O Governo e a UE fizeram dos nossos professores e filhos – com o dinheiro que destinamos a educação coletiva de qualidade – ratos de laboratório do lucro dos acionistas da IA.
Desvela-se a realidade crua das classes dirigentes – as mesmas que colocam os filhos em colégios suíços, onde esta tecnologia é proibida e a manhã começa com trinta minutos de silêncio, meditação, seguida da leitura de obras filosóficas clássicas e termina com uma subida à montanha para conhecer a natureza. Uma aparência de algo semelhante, mais mixuruca, já existe hoje em alguns colégios de elite em Portugal, uma vez que a maioria do privado aderiu também à digitalização.
A IA, nem inteligente nem artificial, tem trabalho humano massivo por detrás (na entrega de dados na forma de respostas a exames, na classificação dos mesmos, e na digitalização braçal destes). Tudo pago pelos trabalhadores portugueses na forma de impostos que deveriam ser destinados a educar os filhos. Educá-los no melhor conhecimento histórico e filosófico, matemática, física, línguas e literatura, artes.
Nada disso: apenas testes de cruzes, simplificados, para a IA compreender o comando e a resposta, que é uma resposta padrão para ser processada por algoritmos. Alunos a ser treinados para a automação, uma nova era de “desantropormofização”, ou seja, desumanização em massa – a máquina engole o homem.
Portugal, é preciso dizê-lo sem meias palavras, foi o rato de laboratório da IA europeia ao abrigo do PRR, um empréstimo pago pelos Portugueses, anunciado como uma dádiva para combater a crise da Covid, mas de facto empréstimo, com juros, para a transição verde – que o digam em Boticas ou no Fundão –, transição digital dos serviços públicos e investimento em “segurança e defesa”, ou seja, guerra.
Em resposta à concorrência e guerras de Trump e ao enfrentamento mundial com outras potências, como a China e a Rússia, a UE delimitou, no mesmo discurso de Von der Leyen, a guerra e a educação digital. Como um campo único. De aposta do dinheiro público, ao lado do mega-financiamento a projetos de painéis solares e eólicas, que destroem campos agrícolas e o acesso a uma alimentação de qualidade.
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A pandemia de Covid não serviu para propor o regresso a uma saúde pública coletiva, com gestão democrática e quebra de patentes e investigação – em segurança –, sujeita a critérios científicos e clínicos transparentes. A crise foi usada não para parar e pensar, mas para avançar com o manicómio digital.
O avanço delirante do “ensino” online, da “saúde” online, dos contratos obscuros com farmacêuticas, e do Estado de exceção, da supressão de direitos. O super-homem deus da máquina, precisa de um super-Estado de exceção – até o Papa o percebeu, preocupado com que a religião cristã seja suprimida pela nova religião, a IA.
Da crise da Covid a burguesia europeia fez uma oportunidade: impor a IA, que todos odeiam e ninguém quer (segundo todas as sondagens realizadas, mais de 60 a 70% da população questiona a IA, os serviços online, a perda de sentido do trabalho, repetitivo). Os estudos da neurobiologia e da psicologia (mesmo da que é dominante, a comportamental) e até os inquéritos da OCDE confirmam: quem mais usa a IA usa menos o cérebro, é mais infeliz, tem mais problemas de saúde. Um desastre, um abismo.
Um abandono das crianças e jovens, pelos quais somos responsáveis como adultos, foi feito com o cumprimento escrupuloso da digitalização – agora os alunos são obrigados a produzir lucro, trabalho infantil, no lugar que um dia sonhou tirá-los do trabalho infantil, a escola. Fazem produção de dados e são dadores involuntários de corpo e alma (o seu cérebro) à experimentação tecnológica do desemprego, da guerra e da vigilância.
Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder.
A ligação entre guerra, vigilância e educação é central, disse a líder da UE. É natural, a precisão da geolocalização, a eficácia dos pompts, tudo isto é fulcral para criar códigos de programação – para a qual são necessários milhões de dados, cujo fornecimento vem da educação e dos serviços que preenchemos online, de sumários a relatórios clínicos.
Há uma nuvem, assente em gigantescos centros de dados, que une o like viciante do FB ou do Tiktok (que com esse like criam perfis, influem nos circuitos neurais), unem o like à resposta de pintar bolinhas na resposta a uma pergunta de um teste, à classificação digital num exame, à explosão de doenças ditas mentais, e à exatidão de um drone a implodir uma criança em Gaza.
Vivemos uma fase nova no capitalismo mundial. Não podemos pensar isto como inovação ou tecnologia, é terror, desagregação, não é inteligente, não é artificial, é material e concreto, somos milhões arrastados para a barbárie. Nunca desde a II Guerra Mundial a resistência política anticapitalista foi tão urgente.
Sabendo de antemão que a IA erra, que os erros são inevitáveis e que todos os estudos publicados demonstram que diminui a capacidade cerebral dos utilizadores. A UE parece ter escolhido um país periférico para o mega-ensaio de digitalização de 300 mil exames. Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
“Fazer depressa é fazer pior”, “não vamos outra vez falar de burocracia e técnica, escondendo a questão de fundo – descritores simples, comandos de resposta padronizados”, que medem o hiperfoco e não o desenvolvimento do cérebro e do conhecimento, “PIDE digital”, “inacreditável”, “temos de fazer greve”, “não somos entregadores”, “as perguntas eram tão imbecis que continham a resposta”, “os exames não avaliam”, “estou exausta”. Eis alguns dos comentários.
O que é a escola? O lugar coletivo de ensino-aprendizagem do melhor conhecimento produzido pelo conjunto da humanidade, sintetizado num currículo. Há algo nosso, que junta mortos e vivos, e que Marx denominava “intelecto geral”. Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder.
A educação não é um ato de entrega de um produto de ou a um jovem ou criança, é uma transformação interna, um desenvolvimento do cérebro (das funções psíquicas superiores). Por isso o lugar central da escola não é ocupar o tempo das crianças e jovens enquanto os pais estão a trabalhar. É, sim, o espaço do ensino dos conceitos teóricos de cada currículo (os fundamentos do conhecimento). A IA generativa é uma recombinação estatística de palavras com um código, que ao mesmo tempo é feita de expropriação do saber acumulado (milhões de dados, textos, respostas) e simultaneamente expropria o saber possível, ao substituir o processo lento, esforçado, reflexivo de conhecimento e de desenvolvimento do cérebro por comandos mecânicos e desprovidos de complexidade. É uma máquina que expropria continuamente o ensino-aprendizagem.
A IA não é “mais uma ferramenta” que nós “podemos usar como queremos”. Mesmo que fosse pública, com um código aberto – que deve ser –, nunca deveria ser usada em momento algum na educação, na escola, na universidade, mas apenas, por exemplo, para limpar sanitários ou salvar alguém no mar. A escola e a universidade são um ateliê de ensino, não uma fábrica de comandos.
Mas por um homem ferido/ num labirinto perdido/ entre uma morte e uma vida! Transforma-se o oprimido/ em instrumento opressor/ Nasce num peito uma guerra! / E, lá longe… Na sua terra/o abutre, o carrasco, /o nazi, / a peste./ enchendo o ventre de carne/escreve:/ “DITOSA PÁTRIA QUE TAIS FILHOS DESTE. António Calvinho
Bardamerda para tal gente e um hurra aos cadáveres de todos os soldados perdidos, afinal todos nós. João Viegas
Enquanto um só combatente estiver vivo, enquanto mulheres e filhos permanecerem vivos e com eles os traumas que a guerra colonial provocou nos corpos e nos espíritos, ela aí está: a guerra colonial.
Já muito se escreveu sobre aqueles treze anos que deixaram a marca mais dura e mais profunda no século XX português.
Os Soldados Perdidos, que tenho à minha frente, quarenta e oito anos depois de o seu autor, João Viegas, ter desembarcado no “paraíso de todos os medos”, como ele próprio qualificou aquela terra que atrai e repele a um tempo, será, talvez, a última obra literária sobre a guerra colonial escrita por um ex-combatente.
O stress provocado pela brutalidade e pela violência da guerra, pelo que viveram durante aqueles mais de dois anos, uma interrupção brutal na sua vida em construção, na continuidade das suas vidas profissionais, no amanho do campo, nos estudos despertou em muitos combatentes mobilizados como carne para canhão a necessidade e a vontade incontida de pôr no papel, tanta vez numa abordagem literária sem filtro, como quem respira, a realidade nua, brutal, sem contemplações, quase sem narrativa organizada; um grito, um berro tão violento quanto a própria guerra que o determinava.
Uma condenação sem apelo, saída do coração, da chaga aberta para sempre, do coto ainda mais provocador que inferiorizante como foi, aliás, o caso de um dos personagens reais, como são quase todos, senão todos, os que habitam esta obra tão singela e tão poderosa. Refiro-me ao Jorge Carneiro, militar e combatente de eleição e um revolucionário genuíno.
Assim foi a verdadeira aprendizagem daquela guerra para a geração que lhe sucedeu, pela pena de escritores que nunca o tinham sido ou que não constavam (ainda) do mainstream da literatura, a arte a brotar das profundas feridas que lhes marcaram a alma, quer pelo que viram fazer, quer pelo que fizeram e nunca pensaram ser capazes de fazer, quer pelo que sofreram na verdadeira solidão dos que enfrentam a morte iminente.
Em Os Soldados Perdidos encontramos a revelação profunda do humano pela exposição visceral dos soldados na sua permanente procura da sobrevivência física e anímica numa realidade cuja essência lhes escapa mas que vão aprendendo a dominar, a cada dia que passa no confronto com o inesperado, por vezes com o indizível.
Uma inteligência prática e uma capacidade inata de resistência constroem o seu mundo possível servindo-se da própria hierarquia que os sujeita.
O cotejo, que me atrai, de duas obras tão diferentes mas tão próximas como são Nó Cego, a obra-prima que se impõe como o requiem da guerra colonial e Os Soldados Perdidos, de João Viegas, decorre de, nesta última, termos um invulgar e poderoso enlace entre a veemente e sistemática condenação da guerra, e desta guerra em particular, a condenação frontal dos assassinos de voz meiga que a impõem por métodos brutais, totalitários e terroristas e a explícita e por vezes entusiástica celebração, mesmo exaltação, das qualidades militares daqueles que são forçados ao combate que está presente em Nó Cego.
Será uma característica de todas as guerras esta contradição, eventualmente percorrerá todas as obras, mas aqui encontramo-la no centro da narrativa. Aqui não se trata de uma constatação amarga. É uma forma muito bela, quase ingénua, de como se celebra a vida e a sua precariedade.
Falo-vos de um belo livro. Um belo livro caracterizado pela simplicidade narrativa que nos põe no centro da acção, por vezes quase frenética, mobilizados também nós “ao serviço da pátria” como ainda hoje sem qualquer pejo se diz daqueles que foram vítimas do fascismo e enviados para matar os seus irmãos de sofrimento ainda mais brutal, e depois, calhando, morrer.
Um estilo lesto e vivíssimo, sem rodriguinhos nem apaziguadores nem moralismos, sem complicações ficcionais, com a limpidez e a força da realidade crua, acompanha a acção do alferes miliciano Viegas, como tantos outros arrancado aos seus filhos – sem direito a beneficiar da figura de “amparo”, vá-se lá saber porquê, todos sabemos, ele fazia política e propaganda subversiva insidiosa contra a guerra colonial transformada na linha principal de ataque ao fascismo.
Feita a travessia do sofrimento, da contradição angustiante entre a consciência anti-fascista e anti-colonial e a consciência mobilizadora, tornada necessidade, de que tinha de levar os seus homens de volta para casa, fosse onde fosse e de que para isso tinha de saber estar à altura, ele, saído de uma instrução precária, feita à pressa, carne para canhão, eis o nosso alferes miliciano Viegas que escapou por entre os pingos da chuva, de volta ao seu CITAC, entretanto assaltado, roubado, encerrado e destruído pela PIDE, de volta ao encontro dos colegas e camaradas para o fazer renascer e com ele repercutir na arte a paz e a liberdade conquistadas.
A beleza dos jogos de amor desprendido, simples e divertido com Bela, a jovem informadora do PAIGC como todos sabiam, mas que oferecia momentos de prazer único naquelas paragens, fê-lo sofrer genuinamente quando foi presa pela PIDE e desterrada para um campo de concentração, o ilhéu das Galinhas, no arquipélago dos Bijagós.
Mas teve o prazer de ser o primeiro a receber o seu abraço emocionado e sentir correndo pela sua face as lágrimas de alegria e de emoção e de amor com que Bela se encolheu, feliz de novo, nos seus braços numa festa à liberdade de ambos e de ambas as pátrias.
A narrativa da experiência do alferes miliciano Viegas, desde o embarque no DC-6 para a Guiné, “o paraíso de todos os medos” até ao regresso a casa, dois anos depois de ser encharcado, sem aviso, pelo seu próprio suor, pegajoso e mórbido, com que Bissau na “época das chuvas” saúda os que mal assomam à porta do avião no aeroporto da Bissalanca, até dois meses depois do 25 de Abril, quando regressa à “metrópole”, é um palpitante hino à alegria de viver através das picadas da morte.
João Viegas fá-lo com uma entusiástica e quase absurda delicadeza, que se esconde por detrás da adopção sistemática da linguagem vulgar e rude dos homens na fronteira do suportável. Somos tocados profundamente pela sensibilidade esclarecida de um sentido crítico irredutível decorrente da sua inteligência de artista.
A sempre presente condenação do fascismo e da guerra colonial não prejudica a naturalidade com que, nela metido até aos cabelos, fosse simplesmente um soldado camarada dos homens que comandava desenvolvendo uma relação de grande fraternidade e compreensão com cada um, assumindo naturalmente com grande espontaneidade a capacidade de comando entre camaradas, estabelecendo uma hierarquia muito própria alicerçada nos humanos valores e interesses comuns: enfrentar as condições adversas, enfrentar aqueles que os obrigaram a designar por inimigos e que, na elementaridade radical da luta pela sobrevivência, foram forçados a agir como se assim fosse.
O alferes Viegas e os seus homens construíram um núcleo invencível, e não me refiro às vicissitudes do combate, porque simplesmente foram levados ao entendimento de que a sua vida e a sua humanidade essencial se enraizavam não tanto na eficácia do combate ao inimigo, que, reconheçamos, não era muita, mas na fraternidade e solidariedade que souberam construir.
E uma das coordenadas determinantes foi a compreensão de que a tragédia se combate com a alegria da camaradagem e que a coragem para a viver também pode nascer da própria acção.
Em Os Soldados Perdidos, o autor, ele mesmo o alferes miliciano Viegas, subverte pela forma como age e se relaciona com os seus homens, os cânones da hierarquia contrapondo-lhe, em pleno teatro de operações, a solidariedade e a fraternidade que constituem a verdadeira camaradagem. E mesmo a base da eficácia operacional possível.
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João Viegas consegue, na pessoa do alferes Viegas, pôr em prática os ensinamentos de A Arte de Ser Chefe, de Gaston Courtois, curiosamente um sacerdote francês ligado ao movimento dos trabalhadores católicos, estudada na Academia Militar, mas tão só, para tantas vezes serem postos de parte pelo carreirismo, pela opção do mando em vez do comando, pela pusilanimidade da carácter que fornece à burocracia todo o seu poder e pelo cretinismo militar, para parafrasear Lenine quando classifica o cretinismo parlamentar.
Na sua hostilidade radical à guerra e à hierarquia, o alferes Viegas, por amor dos seus homens e não à pátria dos fascistas, capitalistas e latifundiários que, inda hoje, roubam ao povo a sua pátria para lhe imporem a deles, revela-se um verdadeiro comandante, encostando às tábuas a hierarquia que sempre tentou submetê-lo às suas regras estritas sem realmente o conseguir.
Um verdadeiro comandante sempre na primeira linha a enfrentar os perigos que a todos ameaçavam. Ele próprio, ferido em combate e evacuado para de novo voltar por exigência sua para junto dos seus homens, os camaradas a quem pertencia e que comandou nas mais diversas situações, ora abrigando-se do tiro dos guerrilheiros, ora correndo de peito aberto sobre eles como o exemplo dos soldados africanos sob o seu comando o obrigava.
Mas bom, bom eram, quando a sorte o proporcionava e surgia a oportunidade, aquelas bebedeiras catárticas conjuntamente com a ida às meninas nas povoações já organizadas de acordo com o cânone colonizador. E para esses momentos de absoluta entrega ao prazer não importava arriscar de novo a vida numa emboscada ou no rebentamento de uma mina. A vida é nossa, vale mais arriscá-la porque nos sabe bem do que sob o látego infernal da hierarquia.
Viegas irá, já na última fase da comissão, ser colocado no Estado-Maior do comando-chefe por decisão directa do general Spínola, que antes de ser chefe dos bombistas do MDLP, no intento abstruso de fazer ajoelhar a democracia, esquecido de que há formas mais eficazes como ficou provado, foi um comandante militar de prestígio, apesar de condenado a perder a guerra já perdida logo que começou.
Aí, as capacidades de Viegas para analisar as diversas componentes do movimento das tropas baseado nos serviços de informações tornaram-no indispensável.
Sublinhe-se que os serviços de informações militares estavam organizados de acordo com a estrutura NATO a que o governo fascista de Salazar aderiu orgulhosamente para a defesa comum das nações democráticas da Europa, decerto com a garantia de que tais democracias não apoiariam, como sucedeu, o movimento democrático que timidamente eclodiu em Portugal na sequência da derrota do nazi-fascismo em 1945.
Isto quer dizer que a capacidade de obter informações sobre os movimentos do inimigo estava praticamente a cargo das unidades militares no terreno e, essencialmente, dependente da PIDE e sua vasta rede de bufos. Tal colocava a PIDE numa situação relativamente privilegiada, que sustentava uma certa arrogância quando em contacto com as unidades combatentes.
O alferes Viegas, quando ainda no comando operacional do seu pelotão, teve ocasião de confrontar uma dessas ratazanas da PIDE dando a fuga a um guerrilheiro de que o pide, o inspector Palma, se arrogara o direito de se apoderar para o torturar e extorquir informações, mostrando serviço.
As relações entre os militares e as polícias políticas foram sempre conflituais, o que se pode atribuir à frequente actividade política e golpista desenvolvida pelos militares, aliás na tradição revolucionária desde o afrontamento a Beresford que custou a vida ao general Gomes Freire de Andrade. O próprio 28 de Maio de Gomes da Costa teve, no seu desencadear, uma percepção dos interesses populares à flor da pele naturalmente esmagados logo de seguida pelas forças do capital e dos senhores da terra organizadas em torno de Salazar. Outras tentativas, várias, de derrubar os fascistas, envolveram civis e, sempre, militares até ao assalto ao quartel de Beja, em 1961, para proclamar o legítimo presidente da República, o general Humberto Delgado.
Nesta sua nova actividade acompanha de perto o Movimento dos Capitães, a aproximação ao PAIGC e as dificuldades inerentes ao encontro de forças beligerantes durante treze anos e que agora se confrontavam ainda, mas para encontrarem a melhor forma de se darem as mãos.
O Movimento dos Capitães, a caminho de se tornar Movimento das Forças Armadas, para atenuar a radicalidade do golpe, enquanto iam morrendo soldados e guerrilheiros esforçava-se por se libertar da estratégia spinolista de manter o império esgotado e apodrecido.
De regresso à vida de cidadão finalmente livre face ao poder, porque livre foi sempre perante si próprio, de cidadão politicamente comprometido e empenhado e não apenas cidadão sobrevivente de uma guerra que lhe não dizia respeito mas o confrontou nas suas mais profundas convicções, de regresso à sua actividade profissional num Portugal liberto do fascismo mas ainda e sempre sob ameaça dos “irredentistas”, o professor não descurou a defesa material da liberdade conquistada.
Agora já na sua escola, em Figueiró dos Vinhos, participou entusiasmado na preparação da resistência à possibilidade de uma incursão de um forte grupo terrorista que se constituía do lado de lá da fronteira, na Espanha franquista. A experiência humana e operacional ganha na luta contra a liberdade a que fora obrigado, estava agora pronta para a defender até às últimas consequências.
Duas personagens fundamentais, para além, naturalmente, do alferes Viegas, lui même, balizam todo o conceito estético, humanista e ético de Os Soldados Perdidos. São elas o furriel Trindade, formado na escola dos Rangers, formando combatentes com elevado grau de eficácia. Ele será o verdadeiro instrutor, o protector durante os combates, o companheiro seguro de tropelias, o amigo e companheiro de todos os momentos. E o comandante do destacamento de fuzileiros, o explosivo ruivo Labaredas, pronto para acorrer em auxílio sempre que necessário no combate ou na festa com que os combatentes celebram estarem vivos.
Estas duas personagens, na vivíssima simplicidade com que são descritas, expressam afinal, e de forma tão real, a complexidade radical da vida das tropas especiais, neste caso os “rangers” e os “fuzos”. Eles assumem como sua própria natureza, como justificação do próprio acto de combater numa guerra odiosa, uma superioridade moral, não em relação ao inimigo, que desse são próximos, talvez mesmo irmãos, numa ética própria, mesmo quando não percebida, que tantas vezes sublima a violência, até quando extrema, no combate que apenas fisicamente os opõe. Trata-se, pelo contrário, de uma superioridade que os faz permanecer, vivos ou mortos, uma acusação eterna às bestas engomadas que lhes impuseram a maior das violências: tirar a vida aos seus próprios irmãos.
A burocracia virtuosamente assassinada, a hierarquia metamorfoseada no desfrute da fraternidade, da solidariedade, da camaradagem. A humanidade manifestando-se em toda a sua beleza no “paraíso de todos os medos”. A abnegação e o medo, eis o ser humano na sua totalidade.
Ao longo da leitura destas páginas senti-me contigo, meu caro João Viegas. A acompanhar-te nas picadas, nas bebedeiras, nos combates, no estremecimento angustiado perante a tua luta pela vida quando ficaste gravemente ferido, a construir contigo, com o Trindade, com o Labaredas e a malta toda, pretos e brancos, a caminhada que me ia pôr do lado daqueles com que afinal iria identificar-me e unir forças para liquidar, ainda que só daquela vez, o inimigo comum.
Publicamos neste número do Maio uma resolução recentemente adoptada pelos delegados sindicais da fábrica-mãe da Mercedes-Benz em Estugarda na Alemanha. O seu título “Já basta! Protestar, resistir, greve! Os patrões querem luta de classes? Muito bem, vão tê-la!” não é o tom habitual que se espera na Alemanha da “co-gestão” e do “pacto social”.
ilustração: Pedro páscoa
A revista alemã de negócios Manager Magazin revelou há dias planos que circulam na administração do grupo Volkswagen. Em causa: duplicar de 50 para 100 mil a redução de efectivos já antes anunciada até 2030. Um em cada seis empregados à escala mundial.
A página em linha Börse Online informou depois da confirmação dos planos por um porta-voz do grupo: “O grupo, incluindo as suas marcas e empresas, vai ter de passar por uma transformação profunda.” Em Julho, o Conselho Fiscal deliberará definitivamente. Não se conhecem pormenores exactos, mas pelo menos quatro fábricas alemãs do grupo estarão ameaçadas de encerramento.
Nos últimos seis meses, a cotação da acção da VW perdera quase metade do valor. Claramente, os “mercados” exigiam medidas. Às medidas anunciadas reagiram “positivamente”.
O Governo alemão, uma coligação entre a CDU democrata-cristã e o SPD social-democrata, anunciou, também há poucos dias, um compromisso entre os dois partidos em matéria de “reforma“ do sistema de pensões. O compromisso introduzirá no sistema público distributivo, pela primeira vez, um “pilar obrigatório” de capitalização, nisso seguindo os planos em desenvolvimento sob a batuta da comissária Maria Luís Albuquerque para toda a UE. O Governo português prepara-se também, daí a reacção de Montenegro à conversa de Ventura sobre a idade das pensões.
No passado mês de Fevereiro, expúnhamos aqui no Maio os planos em desenvolvimento na Alemanha (e na Europa em geral) para desmantelar um a um os pilares do chamado “Estado social”, ou seja, as conquistas conseguidas pelos trabalhadores — e engolidas pelos governos capitalistas para evitar “males piores” — durante um século de greves, revoluções e lutas.
Estes pilares são, sobretudo, os sistemas de segurança social, incluindo a saúde pública e o sistema de pensões distributivo baseado no salário diferido, mas também o ensino público e universal baseado no saber, para formar cidadãos.
A crise do capitalismo mundial, aprofundando-se sem cessar, decreta: tudo isso é muito caro, corte-se!
Mas os planos incluem, também, o desmantelamento da “velha” base industrial “obsoleta”, de que a Alemanha é o mais proeminente representante na Europa. O novo rumo é: a todo o vapor para a “IA” e a economia de guerra.
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O desenvolvimento rápido da indústria chinesa, bem como os planos de guerra — para já aduaneira e comercial — do imperialismo americano contra a China precipitaram os acontecimentos. O grande capital industrial alemão está numa situação sem saída. Os novos entraves ao comércio livre à escala mundial rasteiraram a economia alemã, que assentava na exportação de bens e maquinaria industrial para todo o mundo a partir da energia barata fornecida pela Rússia e à sombra do guarda-chuva militar do Pentágono. A economia alemã estagna há quase dez anos.
No entanto, o dilema das cúpulas bancárias e industriais e, agora, políticas, da Alemanha e da Europa é muito difícil. É preciso reduzir drasticamente os “custos”, disso não restam dúvidas; para isso, é preciso reduzir os salários, tanto os salários directamente pagos aos trabalhadores, como o salário indirecto advindo da saúde e do ensino públicos, o salário diferido que são as pensões… Mas como fazê-lo, quando a classe operária alemã é a mais forte e organizada da Europa? Quando o partido que tradicionalmente a representa (o SPD) faz parte do governo? Não serão os previsíveis “conflitos sociais” daí resultantes e mesmo a presumível auto-imolação da social-democracia, a administradora ideal da “paz social”, um risco e um preço demasiado altos a pagar?
Quando o grupo VW fez o seu primeiro anúncio de reduções drásticas de salários e de despedimentos, no Outono de 2024, a resposta dos operários foi imediata e em massa. Assustada, a administração fez um acordo com os representantes dos trabalhadores, estendendo até 2030 a proibição de despedir em troca de uma certa “moderação” nos aumentos salariais.
A trégua mal durou um ano.
Mas não é só a VW. A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês. O gigante siderúrgico ThyssenKrupp fecha fábricas de antiquíssima tradição e despede com abandono. Grandes fornecedores do sector automóvel, nomes como Schaeffler, ZF, Bosch, etc., anunciam e executam encerramentos de locais de produção. Sucedem-se as falências no Mittelstand (a média indústria alemã especializada, designadamente, no fabrico e exportação de maquinaria especial sofisticada).
A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês.
Ninguém está a salvo. Ao fim de mais de um ano de “impasse”, em que o chanceler Merz era atacado de todos os lados pela sua incapacidade de “reformar”, o anunciado compromisso entre os partidos do governo em matéria de contra-reforma das aposentações, baseado na capitulação da social-democracia, representa um toque das trombetas para o grande assalto à classe trabalhadora alemã.
Depois do plano Draghi de 2023, a burocracia de Bruxelas trabalha a todo o vapor no desenho de planos de desmontagem, desmantelamento e destruição de tudo o que, na sequência da II Guerra Mundial, permitiu que sectores significativos das classes trabalhadoras dos países mais desenvolvidos da Europa pudessem ter uma vida relativamente tolerável.
A resolução dos delegados sindicais de uma das fábricas em que nasceu a indústria automóvel é um sinal de que a classe operária alemã e europeia não conta render-se sem dar batalha.
A fábrica da Mercedes Benz de Untertürkheim, perto de Estugarda, na Alemanha, tem actualmente cerca de 18 mil operários. É a fábrica-mãe da marca, fundada em 1904, considerada o berço da indústria automóvel. Ainda é o principal centro de competências da Mercedes. Ali se produzem motores de explosão e eléctricos, caixas de velocidades, eixos, baterias. Porém, está, como boa parte da indústria automóvel alemã, sob ataque do patronato. Reproduzimos aqui uma resolução dos delegados sindicais da Mercedes-Benz Untertürkheim.
Mal passa um dia sem novo anúncio de que tal empresa vai fazer despedimentos ou tem de “poupar” à nossa custa.
Crise por toda a parte.
E os patrões querem que sejamos nós a pagar.
Também não é que o governo faça alguma coisa por nós. Quer acabar com o imperativo legal da jornada de trabalho de 8 horas: que trabalhemos mais pelo mesmo salário ou até por menos. E ainda tem na manga a “reforma aos 70”.
Trabalhar até morrer. Do subsídio de cidadania1 passa-se a uma dita “prestação básica”. Querem que, destruindo-nos o patrão o posto de trabalho, fiquemos obrigados a aceitar até o emprego mais miseravelmente pago.
Andam a dar cabo do sistema de saúde à força de austeridade, a transformar a assistência médica em privilégio para ricos. O dinheiro que, por causa das medidas de austeridade, falta nas caixas da segurança social vai também para o rearmamento. Querem que os nossos jovens voltem a ir para a guerra defender os lucros das grandes empresas.
Ter pena de nós próprios, esperar numa pretensa “Alternativa para a Alemanha” ou implorar e suplicar ao governo não adianta.
Sem a nossa luta sindical e política não conseguiremos políticas melhores! Por isso, não vamos esperar que alguém nos mande protestar. Começamos já!
Sem a nossa luta sindical e política não conseguiremos políticas melhores! Por isso, não vamos esperar que alguém nos mande protestar. Começamos já!
A discussão com os nossos colegas no local de trabalho volta a ter mais forte cunho político. “Alguém pode parar aquele que percebeu a situação em que está?”2.
Aproveitamos todas as oportunidades que se nos apresentam para criticar os patrões e o seu governo. De futuro, que não haja mais assembleias de empresa, reuniões de conselho de empresa ou assembleias sindicais sem discussão política.
Ainda que de início sejamos poucos ou estejamos até sozinhos, se levantarmos a voz e tomarmos uma atitude, seremos mais.
Mal sintamos propício o clima entre o pessoal, organizaremos protestos na empresa e na nossa cidade.
Tomamos parte activa no nosso sindicato, exigindo, o mais rapidamente possível, a organização de manifestações contra a ganância dos patrões, contra o governo e por um futuro melhor. A greve, se necessário. E se as cúpulas sindicais se fizerem difíceis, avançamos nós próprios.
1 “Subsídio cidadão” (Bürgergeld), é o subsídio social de desemprego que garante o sustento de quem não tem meios para o conseguir sozinho. O governo pretende substituí-lo por uma “prestação básica”.
2 Do poema de Bertolt Brecht “Elogio da dialéctica”.
O Maio vai aproveitar os meses de verão para fazer algumas alterações. Vamos mudar de página (alojamento do site) para um modelo mais robusto, que diminua ataques informáticos e nos permita um ainda maior trabalho colaborativo. Neste julho faremos um Maio com cerca de 4 a 5 novos artigos por semana, sem editorial, e em agosto interromperemos três semanas, para férias e para mudar de site. Regressaremos no fim de agosto, retemperados, tal como vós, esperamos, por umas boas férias!
Caros leitores,
Há 9 meses propusemo-nos fazer um jornal, semanal, o Maio, que renovasse a esfera pública tendo a crítica do Estado e do mercado como central; a liberdade de pensamento como alfa e ómega de qualquer projeto coletivo; e a defesa dos trabalhadores e da cultura (não somos independentes do mundo do trabalho e da cultura, somos seus defensores como gente inteira que faz, pensa, luta, ama, sente, imagina, conhece. A habitação e a educação públicas são-nos tão queridas como o direito a querer e saber ler, escutar e conhecer a música e a sua história. Enfim, nada de humano nos é estranho.
Apoiado por sindicatos, associações e intelectuais críticos, cientistas, das exatas e das humanidades, artistas, desde então, o Maio teve mais de um milhão de visualizações, e saiu semanalmente.
Assumimos desde o início a recusa de qualquer financiamento do Estado, empresas ou publicidade. Graças a uma combinação de trabalho de qualidade, autónomo, de escritores, profissionais e amadores, que amam contar o país, e o mundo, ilustradores, cujo trabalho magnífico está espelhado na qualidade do design deste jornal, realizadores, a que se juntaram mais de 200 associados, o Maio cresceu imenso.
Fizemos tanto e vamos fazer muito mais. Vamos para a rua em reportagem ouvir quem trabalha e escutar o país fora de Lisboa. Vamos ter mais vídeo-reportagem. E vamos começar, esperamos pelo espaço apenas, uma escola, um espaço de encontros onde debates, cursos, teatro, atividades para crianças sem ecrãs, visitas e passeios, floresçam.
Vamos mudar de página (alojamento do site) este verão, para um modelo mais robusto, que diminua ataques informáticos, e nos permita também um ainda maior trabalho colaborativo. Neste julho faremos um Maio com cerca de 4 a 5 novos artigos por semana, sem editorial, e em agosto interromperemos três semanas, para férias e mudar de site. Regressaremos no fim de agosto, e tenhamos todos umas boas férias!
A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O Governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro. Porém, nos últimos cinco anos, Portugal construiu uma indústria militar surpreendentemente forte.
ilustração: Ricardo Ferreira
Portugal não teve sempre um complexo militar-industrial. Historicamente dependente de armamento estrangeiro, o país só começou a desenvolver uma indústria de defesa e aeroespacial independente na década de 1960, para sustentar as guerras coloniais. Na época do seu império global, viveu principalmente do poderio naval, adquirindo a maior parte do equipamento pesado a fornecedores estrangeiros. Mesmo depois de aderir à NATO, em 1949, continuou a carecer tanto de siderurgia pesada como de uma indústria de armamento, dependendo de importações.
A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro.
Agora, porém, no século XXI, Portugal construiu, nos últimos cinco anos, uma indústria militar surpreendentemente forte. A indústria de defesa cresceu rapidamente graças à inovação no sector privado, a par de subsídios do Estado e colaborações com a academia. O sector consta de uma rede altamente rentável e de alta tecnicidade de mais de 160 organizações, representadas pelo AED Cluster Portugal (Aeronáutica, Espaço e Defesa).
O complexo militar-industrial português não produz blindados em massa; é altamente especializado, fortemente baseado no modelo da “hélice tripla” que, integrando forças armadas, laboratórios de investigação universitários e fornecedores privados de tecnologia, cria tecnologias de “uso dual” (ou seja, civil e militar). As universidades portuguesas têm aumentado o seu investimento na investigação e desenvolvimento de armamento e outras tecnologias bélicas.
A produção de armamento dá muito dinheiro a ganhar, e muitas empresas portuguesas deram por isso. O sector português da defesa regista o seu maior crescimento desde que o país aderiu à União Europeia. Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo. A indústria da “defesa” portuguesa emprega agora cerca de 20 mil pessoas e gera receitas anuais superiores a 2100 milhões de euros. “E a tendência é ascendente”, indica José Neves, presidente da associação do sector, a AED Cluster Portugal, que engloba mais de 160 organizações portuguesas que trabalham nas áreas da aeronáutica, do espaço e da defesa.
Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo.
Para cumprir a meta acordada pela NATO de gastar 5% do PIB na defesa, o Governo também está a adquirir activamente equipamento ao estrangeiro. Lisboa compra fragatas à Itália, tanques à Alemanha e novos caças. Em Outubro do ano passado, o Governo português anunciou um aumento recorde das despesas militares para 2026. O orçamento da defesa aumentou quase 3800 milhões de euros, ou mais 23,2% em comparação com 2025.
Esta recente expansão está directamente relacionada com a guerra na Ucrânia e com a campanha de propaganda sobre a chamada “ameaça russa” à segurança da Europa. Portugal tem sido aliado da Ucrânia desde o início da invasão russa. O Governo contribui com dinheiro dos contribuintes para o mecanismo PURL, que medeia a compra de armas dos EUA para a Ucrânia. Estão a ser usados na Ucrânia drones e sistemas de comunicação portugueses.
Se bem que ainda possa ser relativamente pequeno em termos globais, o complexo militar-industrial português tem-se desenvolvido em subsectores de nicho de alta tecnologia mais do que na produção de equipamento tradicional. Há empresas portuguesas a fabricar drones ou componentes para grandes grupos internacionais da defesa. Empresas como o fabricante de drones Tekever ou a Critical Software são parceiros de confiança do sector da defesa à escala internacional, quer como fornecedores, quer — cada vez mais — como fabricantes de produtos acabados. Empresas como a Critical Software desenvolvem sistemas aeroespaciais e de defesa complexos, incluindo software de voo e interfaces-utilizador de co-piloto usadas por parceiros internacionais como a Saab. Portugal também investe muito na vigilância marítima, nas comunicações navio-costa e em navios auxiliares.
Para cumprir os ditames da NATO e modernizar as suas forças, Portugal está a proceder activamente a uma revisão da sua presença militar. Entre os reapetrechamentos mais importantes contam-se a modernização dos submarinos da classe Tridente, a integração de sistemas de recepção de alertas para a frota de F-16 e a reabilitação de centros estratégicos como a Base Aérea de Montijo e a Base das Lajes, nos Açores, mantida pelos EUA. O Governo está actualmente a conduzir um grande projecto de aquisição que visa a potencial substituição da sua frota de caças F-16 em obsolescência, estando nos pratos da balança jactos americanos caros e alternativas europeias, como o Gripen sueco.
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A empresa sueca de defesa Saab almeja vender a Portugal o seu sistema Gripen de avião de caça. “O Gripen-E seria uma solução verdadeiramente europeia”, segundo Daniel Boestad, vice-presidente do programa Gripen na Saab. A empresa aeroespacial portuguesa OGMA poderia fabricar peças para a aeronave, tal como já faz, designadamente, para a empresa brasileira Embraer, adquirindo Portugal, em troca, à Embraer aviões de transporte militar. “Além disso, estamos a analisar o potencial de alargamento da cooperação nas áreas da produção e MRO”, observou Boestad; a sigla MRO cobre a manutenção, reparação e revisão.
A empresa portuguesa Critical Software tem em desenvolvimento um simulador de voo para o Gripen-E. “Estamos a trabalhar com a Saab, porque é um desafio interessante e porque nos identificamos com o projecto”, refere João Carreira, director executivo da Critical Software. A sua empresa começou com apenas três colaboradores, em 1998, tendo, entretanto, crescido e passado a ser uma empresa internacional com cerca de 5 mil empregados. Inicialmente, a empresa produzia software para as fragatas da Marinha portuguesa. Actualmente, a Critical Software opera joint ventures com empresas como a BMW e colabora com empresas alemãs do sector da defesa como a Diehl e a Rheinmetall.
A enorme expansão da indústria de armamento portuguesa faz parte de uma viragem europeia para aumentar a despesa com a defesa, apoiada por financiamentos da UE. A Europa não está apenas a rearmar-se, está a reorientar a sua base industrial da produção civil para a produção militar, e Portugal está discretamente a aproveitar a onda.
Tudo isto é óptimo para os fabricantes de armas, mas pouco valor acrescenta à economia geral. Estima-se em não mais de 0,5% do rendimento nacional a contribuição central directa da próspera indústria militar/de defesa portuguesa, que emprega apenas 0,4% da força de trabalho. A defesa nunca será grande contribuinte para a prosperidade do país, ainda que renda milhões de euros às empresas envolvidas. E afectar preciosos recursos e mão de obra à produção de armas para matar e destruir vidas e meios de subsistência reduz os recursos disponíveis para investir em necessidades sociais reais e em melhorar a vida das pessoas.
No passado mês de Fevereiro, expúnhamos aqui no Maio os planos em desenvolvimento na Alemanha (e na Europa em geral) para desmantelar um a um os pilares do chamado “Estado social”, ou seja, as conquistas conseguidas pelos trabalhadores — e engolidas pelos governos capitalistas para evitar “males piores” — durante um século de greves, revoluções e lutas.
Estes pilares são, sobretudo, os sistemas de segurança social, incluindo a saúde pública e o sistema de pensões distributivo baseado no salário diferido, mas também o ensino público e universal baseado no saber, para formar cidadãos.
A crise do capitalismo mundial, aprofundando-se sem cessar, decreta: tudo isso é muito caro, corte-se!
Mas os planos incluem, também, o desmantelamento da “velha” base industrial “obsoleta”, de que a Alemanha é o mais proeminente representante na Europa. O novo rumo é: a todo o vapor para a “IA” e a economia de guerra.
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O desenvolvimento rápido da indústria chinesa, bem como os planos de guerra — para já aduaneira e comercial — do imperialismo americano contra a China precipitaram os acontecimentos. O grande capital industrial alemão está numa situação sem saída. Os novos entraves ao comércio livre à escala mundial rasteiraram a economia alemã, que assentava na exportação de bens e maquinaria industrial para todo o mundo a partir da energia barata fornecida pela Rússia e à sombra do guarda-chuva militar do Pentágono. A economia alemã estagna há quase dez anos.
No entanto, o dilema das cúpulas bancárias e industriais e, agora, políticas, da Alemanha e da Europa é muito difícil. É preciso reduzir drasticamente os “custos”, disso não restam dúvidas; para isso, é preciso reduzir os salários, tanto os salários directamente pagos aos trabalhadores, como o salário indirecto advindo da saúde e do ensino públicos, o salário diferido que são as pensões… Mas como fazê-lo, quando a classe operária alemã é a mais forte e organizada da Europa? Quando o partido que tradicionalmente a representa (o SPD) faz parte do governo? Não serão os previsíveis “conflitos sociais” daí resultantes e mesmo a presumível auto-imolação da social-democracia, a administradora ideal da “paz social”, um risco e um preço demasiado altos a pagar?
Quando o grupo VW fez o seu primeiro anúncio de reduções drásticas de salários e de despedimentos, no Outono de 2024, a resposta dos operários foi imediata e em massa. Assustada, a administração fez um acordo com os representantes dos trabalhadores, estendendo até 2030 a proibição de despedir em troca de uma certa “moderação” nos aumentos salariais.
A trégua mal durou um ano.
Mas não é só a VW. A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês. O gigante siderúrgico ThyssenKrupp fecha fábricas de antiquíssima tradição e despede com abandono. Grandes fornecedores do sector automóvel, nomes como Schaeffler, ZF, Bosch, etc., anunciam e executam encerramentos de locais de produção. Sucedem-se as falências no Mittelstand (a média indústria alemã especializada, designadamente, no fabrico e exportação de maquinaria especial sofisticada).
A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês.
Ninguém está a salvo. Ao fim de mais de um ano de “impasse”, em que o chanceler Merz era atacado de todos os lados pela sua incapacidade de “reformar”, o anunciado compromisso entre os partidos do governo em matéria de contra-reforma das aposentações, baseado na capitulação da social-democracia, representa um toque das trombetas para o grande assalto à classe trabalhadora alemã.
Depois do plano Draghi de 2023, a burocracia de Bruxelas trabalha a todo o vapor no desenho de planos de desmontagem, desmantelamento e destruição de tudo o que, na sequência da II Guerra Mundial, permitiu que sectores significativos das classes trabalhadoras dos países mais desenvolvidos da Europa pudessem ter uma vida relativamente tolerável.
A resolução dos delegados sindicais de uma das fábricas em que nasceu a indústria automóvel é um sinal de que a classe operária alemã e europeia não conta render-se sem dar batalha.
Segundo o Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa da Porto Editora, nome feminino que significa 1) (mecânica) a capacidade de resistência de um material ao choque, que é medida pela energia necessária para produzir a fratura de um provete do material com dimensões determinadas; 2) (ecologia) capacidade de um sistema ecológico retornar ao estado original de equilíbrio, após suportar perturbação que o tenha afastado desse mesmo estado; 3) (psicologia) capacidade de reagir a trauma ou dificuldade, sem perda do equilíbrio emocional; 4) (figurado) capacidade de reagir e superar contrariedade ou situação de crise; faculdade de quem consegue lidar de forma positiva com fatores ou condições adversas.
EM NOVILÍNGUA:
A palavra resiliência é usada sobretudo nas últimas aceções acima mencionadas para designar a capacidade individual de reagir a traumas e dificuldades sem perda do equilíbrio emocional e de lidar de forma positiva com fatores ou condições adversas. Tornou-se, na linguagem empresarial e da governação, numa espécie de mantra que transfere para o indivíduo a responsabilidade por reagir a adversidades. Críticos do conceito, como o economista e sociólogo Thierry Ribault, que estudou catástrofes como a de Fukushima, sublinham “a natureza capacitista, irracional e determinista desta forma de religiosidade tecnofílica, que não está isenta de um conservadorismo que concede à genética um lugar central e hierárquico, como se existisse uma capacidade de resiliência associada a genes específicos”. Reagir a catástrofes naturais ou políticas como o comboio de tempestades deste inverno ou uma situação de guerra depende muito mais de políticas públicas e ação coletiva do que da “resiliência” de cada indivíduo. ASP
Durante o mês de julho vamos repor no Tempo Contra o Tempo o podcast Mudam-se os Tempos: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’ – já cantou o velho bardo. O curso da história move-se como as águas de um rio. Por vezes deixamo-nos levar por momentos de correntes rápidas, por outras, mansidão serena. Não é simples o seu movimento. Do ritmo que marca sempre passo, até à aceleração vertiginosa, avança-se nas conquistas sociais, mas as mesmas podem regredir em formas políticas avassaladoras. Ou vice-versa… Mas, ainda assim, ‘navegar é — sempre — preciso’. Estamos — todos e bem — embarcados. Este é o Podcast “Mudam-se os tempos”. Em cinco episódios com convidados especiais Roberto della Santa e Raquel Varela, historiadora, querem colocar sobre os próprios pés as principais ideias, imagens e conceitos que nos ajudam a saber e a fazer Portugal. De onde viemos? Para onde vamos? Toda a gente precisa interpretar a própria história para poder transformá-la. Em modo de conversa: como Portugal se formou? Quais são os seus principais desafios e dilemas? A isso vamos – agora mesmo!
#freshseafood
Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
O cenário é surreal. Caixotes de papel amontoam-se na periferia da solarenga Lisboa. Lá dentro, 300 mil exames para serem digitalizados, numa plataforma que não acerta a primeira página com a segunda, convoca matemáticos para corrigir exames de línguas, e apaga respostas, fazendo aparecer ao lado dezenas de novas, mal o professor-classificador desliga o ecrã. O Governo diz não tornar pública toda a cadeia de lucro, dos bancos de investimento, das big techs, detentoras da memória destes dados, às empresas executoras, mas afirma, à luz do dia, estar a “monitorizar a velocidade” dos classificadores.
Nem os Monty Python conseguiriam inventar uma palhaçada idêntica. A credibilidade está ferida, é irreversível. Não se questiona – nem da parte da maioria dos sindicatos e partidos – o sentido de fazer um exame, a metrificação da avaliação, a (pasme-se) divisão da classificação do exame em itens (um professor não classifica todo o exame, mas cada professor classifica partes, para assim monitorizar a velocidade e dividir parcelas entre os mais rápidos); nem o facto de o professor não corrigir, apenas classificar (como pode um aluno aceitar ter uma nota sem que lhe expliquem os erros?) e claro, a monitorização, uma forma de controlo digital sobre o próprio corpo – literalmente, o corpo docente. Quanto tempo, onde e como ficou cada docente em cada resposta, para assim a IA calcular quanto tempo a máquina em breve precisará para fazer o mesmo. O Governo e a UE fizeram dos nossos professores e filhos – com o dinheiro que destinamos a educação coletiva de qualidade – ratos de laboratório do lucro dos acionistas da IA.
Desvela-se a realidade crua das classes dirigentes – as mesmas que colocam os filhos em colégios suíços, onde esta tecnologia é proibida e a manhã começa com trinta minutos de silêncio, meditação, seguida da leitura de obras filosóficas clássicas e termina com uma subida à montanha para conhecer a natureza. Uma aparência de algo semelhante, mais mixuruca, já existe hoje em alguns colégios de elite em Portugal, uma vez que a maioria do privado aderiu também à digitalização.
A IA, nem inteligente nem artificial, tem trabalho humano massivo por detrás (na entrega de dados na forma de respostas a exames, na classificação dos mesmos, e na digitalização braçal destes). Tudo pago pelos trabalhadores portugueses na forma de impostos que deveriam ser destinados a educar os filhos. Educá-los no melhor conhecimento histórico e filosófico, matemática, física, línguas e literatura, artes.
Nada disso: apenas testes de cruzes, simplificados, para a IA compreender o comando e a resposta, que é uma resposta padrão para ser processada por algoritmos. Alunos a ser treinados para a automação, uma nova era de “desantropormofização”, ou seja, desumanização em massa – a máquina engole o homem.
Portugal, é preciso dizê-lo sem meias palavras, foi o rato de laboratório da IA europeia ao abrigo do PRR, um empréstimo pago pelos Portugueses, anunciado como uma dádiva para combater a crise da Covid, mas de facto empréstimo, com juros, para a transição verde – que o digam em Boticas ou no Fundão –, transição digital dos serviços públicos e investimento em “segurança e defesa”, ou seja, guerra.
Em resposta à concorrência e guerras de Trump e ao enfrentamento mundial com outras potências, como a China e a Rússia, a UE delimitou, no mesmo discurso de Von der Leyen, a guerra e a educação digital. Como um campo único. De aposta do dinheiro público, ao lado do mega-financiamento a projetos de painéis solares e eólicas, que destroem campos agrícolas e o acesso a uma alimentação de qualidade.
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A pandemia de Covid não serviu para propor o regresso a uma saúde pública coletiva, com gestão democrática e quebra de patentes e investigação – em segurança –, sujeita a critérios científicos e clínicos transparentes. A crise foi usada não para parar e pensar, mas para avançar com o manicómio digital.
O avanço delirante do “ensino” online, da “saúde” online, dos contratos obscuros com farmacêuticas, e do Estado de exceção, da supressão de direitos. O super-homem deus da máquina, precisa de um super-Estado de exceção – até o Papa o percebeu, preocupado com que a religião cristã seja suprimida pela nova religião, a IA.
Da crise da Covid a burguesia europeia fez uma oportunidade: impor a IA, que todos odeiam e ninguém quer (segundo todas as sondagens realizadas, mais de 60 a 70% da população questiona a IA, os serviços online, a perda de sentido do trabalho, repetitivo). Os estudos da neurobiologia e da psicologia (mesmo da que é dominante, a comportamental) e até os inquéritos da OCDE confirmam: quem mais usa a IA usa menos o cérebro, é mais infeliz, tem mais problemas de saúde. Um desastre, um abismo.
Um abandono das crianças e jovens, pelos quais somos responsáveis como adultos, foi feito com o cumprimento escrupuloso da digitalização – agora os alunos são obrigados a produzir lucro, trabalho infantil, no lugar que um dia sonhou tirá-los do trabalho infantil, a escola. Fazem produção de dados e são dadores involuntários de corpo e alma (o seu cérebro) à experimentação tecnológica do desemprego, da guerra e da vigilância.
Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder.
A ligação entre guerra, vigilância e educação é central, disse a líder da UE. É natural, a precisão da geolocalização, a eficácia dos pompts, tudo isto é fulcral para criar códigos de programação – para a qual são necessários milhões de dados, cujo fornecimento vem da educação e dos serviços que preenchemos online, de sumários a relatórios clínicos.
Há uma nuvem, assente em gigantescos centros de dados, que une o like viciante do FB ou do Tiktok (que com esse like criam perfis, influem nos circuitos neurais), unem o like à resposta de pintar bolinhas na resposta a uma pergunta de um teste, à classificação digital num exame, à explosão de doenças ditas mentais, e à exatidão de um drone a implodir uma criança em Gaza.
Vivemos uma fase nova no capitalismo mundial. Não podemos pensar isto como inovação ou tecnologia, é terror, desagregação, não é inteligente, não é artificial, é material e concreto, somos milhões arrastados para a barbárie. Nunca desde a II Guerra Mundial a resistência política anticapitalista foi tão urgente.
Sabendo de antemão que a IA erra, que os erros são inevitáveis e que todos os estudos publicados demonstram que diminui a capacidade cerebral dos utilizadores. A UE parece ter escolhido um país periférico para o mega-ensaio de digitalização de 300 mil exames. Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
“Fazer depressa é fazer pior”, “não vamos outra vez falar de burocracia e técnica, escondendo a questão de fundo – descritores simples, comandos de resposta padronizados”, que medem o hiperfoco e não o desenvolvimento do cérebro e do conhecimento, “PIDE digital”, “inacreditável”, “temos de fazer greve”, “não somos entregadores”, “as perguntas eram tão imbecis que continham a resposta”, “os exames não avaliam”, “estou exausta”. Eis alguns dos comentários.
O que é a escola? O lugar coletivo de ensino-aprendizagem do melhor conhecimento produzido pelo conjunto da humanidade, sintetizado num currículo. Há algo nosso, que junta mortos e vivos, e que Marx denominava “intelecto geral”. Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder.
A educação não é um ato de entrega de um produto de ou a um jovem ou criança, é uma transformação interna, um desenvolvimento do cérebro (das funções psíquicas superiores). Por isso o lugar central da escola não é ocupar o tempo das crianças e jovens enquanto os pais estão a trabalhar. É, sim, o espaço do ensino dos conceitos teóricos de cada currículo (os fundamentos do conhecimento). A IA generativa é uma recombinação estatística de palavras com um código, que ao mesmo tempo é feita de expropriação do saber acumulado (milhões de dados, textos, respostas) e simultaneamente expropria o saber possível, ao substituir o processo lento, esforçado, reflexivo de conhecimento e de desenvolvimento do cérebro por comandos mecânicos e desprovidos de complexidade. É uma máquina que expropria continuamente o ensino-aprendizagem.
A IA não é “mais uma ferramenta” que nós “podemos usar como queremos”. Mesmo que fosse pública, com um código aberto – que deve ser –, nunca deveria ser usada em momento algum na educação, na escola, na universidade, mas apenas, por exemplo, para limpar sanitários ou salvar alguém no mar. A escola e a universidade são um ateliê de ensino, não uma fábrica de comandos.
Mas por um homem ferido/ num labirinto perdido/ entre uma morte e uma vida! Transforma-se o oprimido/ em instrumento opressor/ Nasce num peito uma guerra! / E, lá longe… Na sua terra/o abutre, o carrasco, /o nazi, / a peste./ enchendo o ventre de carne/escreve:/ “DITOSA PÁTRIA QUE TAIS FILHOS DESTE. António Calvinho
Bardamerda para tal gente e um hurra aos cadáveres de todos os soldados perdidos, afinal todos nós. João Viegas
Enquanto um só combatente estiver vivo, enquanto mulheres e filhos permanecerem vivos e com eles os traumas que a guerra colonial provocou nos corpos e nos espíritos, ela aí está: a guerra colonial.
Já muito se escreveu sobre aqueles treze anos que deixaram a marca mais dura e mais profunda no século XX português.
Os Soldados Perdidos, que tenho à minha frente, quarenta e oito anos depois de o seu autor, João Viegas, ter desembarcado no “paraíso de todos os medos”, como ele próprio qualificou aquela terra que atrai e repele a um tempo, será, talvez, a última obra literária sobre a guerra colonial escrita por um ex-combatente.
O stress provocado pela brutalidade e pela violência da guerra, pelo que viveram durante aqueles mais de dois anos, uma interrupção brutal na sua vida em construção, na continuidade das suas vidas profissionais, no amanho do campo, nos estudos despertou em muitos combatentes mobilizados como carne para canhão a necessidade e a vontade incontida de pôr no papel, tanta vez numa abordagem literária sem filtro, como quem respira, a realidade nua, brutal, sem contemplações, quase sem narrativa organizada; um grito, um berro tão violento quanto a própria guerra que o determinava.
Uma condenação sem apelo, saída do coração, da chaga aberta para sempre, do coto ainda mais provocador que inferiorizante como foi, aliás, o caso de um dos personagens reais, como são quase todos, senão todos, os que habitam esta obra tão singela e tão poderosa. Refiro-me ao Jorge Carneiro, militar e combatente de eleição e um revolucionário genuíno.
Assim foi a verdadeira aprendizagem daquela guerra para a geração que lhe sucedeu, pela pena de escritores que nunca o tinham sido ou que não constavam (ainda) do mainstream da literatura, a arte a brotar das profundas feridas que lhes marcaram a alma, quer pelo que viram fazer, quer pelo que fizeram e nunca pensaram ser capazes de fazer, quer pelo que sofreram na verdadeira solidão dos que enfrentam a morte iminente.
Em Os Soldados Perdidos encontramos a revelação profunda do humano pela exposição visceral dos soldados na sua permanente procura da sobrevivência física e anímica numa realidade cuja essência lhes escapa mas que vão aprendendo a dominar, a cada dia que passa no confronto com o inesperado, por vezes com o indizível.
Uma inteligência prática e uma capacidade inata de resistência constroem o seu mundo possível servindo-se da própria hierarquia que os sujeita.
O cotejo, que me atrai, de duas obras tão diferentes mas tão próximas como são Nó Cego, a obra-prima que se impõe como o requiem da guerra colonial e Os Soldados Perdidos, de João Viegas, decorre de, nesta última, termos um invulgar e poderoso enlace entre a veemente e sistemática condenação da guerra, e desta guerra em particular, a condenação frontal dos assassinos de voz meiga que a impõem por métodos brutais, totalitários e terroristas e a explícita e por vezes entusiástica celebração, mesmo exaltação, das qualidades militares daqueles que são forçados ao combate que está presente em Nó Cego.
Será uma característica de todas as guerras esta contradição, eventualmente percorrerá todas as obras, mas aqui encontramo-la no centro da narrativa. Aqui não se trata de uma constatação amarga. É uma forma muito bela, quase ingénua, de como se celebra a vida e a sua precariedade.
Falo-vos de um belo livro. Um belo livro caracterizado pela simplicidade narrativa que nos põe no centro da acção, por vezes quase frenética, mobilizados também nós “ao serviço da pátria” como ainda hoje sem qualquer pejo se diz daqueles que foram vítimas do fascismo e enviados para matar os seus irmãos de sofrimento ainda mais brutal, e depois, calhando, morrer.
Um estilo lesto e vivíssimo, sem rodriguinhos nem apaziguadores nem moralismos, sem complicações ficcionais, com a limpidez e a força da realidade crua, acompanha a acção do alferes miliciano Viegas, como tantos outros arrancado aos seus filhos – sem direito a beneficiar da figura de “amparo”, vá-se lá saber porquê, todos sabemos, ele fazia política e propaganda subversiva insidiosa contra a guerra colonial transformada na linha principal de ataque ao fascismo.
Feita a travessia do sofrimento, da contradição angustiante entre a consciência anti-fascista e anti-colonial e a consciência mobilizadora, tornada necessidade, de que tinha de levar os seus homens de volta para casa, fosse onde fosse e de que para isso tinha de saber estar à altura, ele, saído de uma instrução precária, feita à pressa, carne para canhão, eis o nosso alferes miliciano Viegas que escapou por entre os pingos da chuva, de volta ao seu CITAC, entretanto assaltado, roubado, encerrado e destruído pela PIDE, de volta ao encontro dos colegas e camaradas para o fazer renascer e com ele repercutir na arte a paz e a liberdade conquistadas.
A beleza dos jogos de amor desprendido, simples e divertido com Bela, a jovem informadora do PAIGC como todos sabiam, mas que oferecia momentos de prazer único naquelas paragens, fê-lo sofrer genuinamente quando foi presa pela PIDE e desterrada para um campo de concentração, o ilhéu das Galinhas, no arquipélago dos Bijagós.
Mas teve o prazer de ser o primeiro a receber o seu abraço emocionado e sentir correndo pela sua face as lágrimas de alegria e de emoção e de amor com que Bela se encolheu, feliz de novo, nos seus braços numa festa à liberdade de ambos e de ambas as pátrias.
A narrativa da experiência do alferes miliciano Viegas, desde o embarque no DC-6 para a Guiné, “o paraíso de todos os medos” até ao regresso a casa, dois anos depois de ser encharcado, sem aviso, pelo seu próprio suor, pegajoso e mórbido, com que Bissau na “época das chuvas” saúda os que mal assomam à porta do avião no aeroporto da Bissalanca, até dois meses depois do 25 de Abril, quando regressa à “metrópole”, é um palpitante hino à alegria de viver através das picadas da morte.
João Viegas fá-lo com uma entusiástica e quase absurda delicadeza, que se esconde por detrás da adopção sistemática da linguagem vulgar e rude dos homens na fronteira do suportável. Somos tocados profundamente pela sensibilidade esclarecida de um sentido crítico irredutível decorrente da sua inteligência de artista.
A sempre presente condenação do fascismo e da guerra colonial não prejudica a naturalidade com que, nela metido até aos cabelos, fosse simplesmente um soldado camarada dos homens que comandava desenvolvendo uma relação de grande fraternidade e compreensão com cada um, assumindo naturalmente com grande espontaneidade a capacidade de comando entre camaradas, estabelecendo uma hierarquia muito própria alicerçada nos humanos valores e interesses comuns: enfrentar as condições adversas, enfrentar aqueles que os obrigaram a designar por inimigos e que, na elementaridade radical da luta pela sobrevivência, foram forçados a agir como se assim fosse.
O alferes Viegas e os seus homens construíram um núcleo invencível, e não me refiro às vicissitudes do combate, porque simplesmente foram levados ao entendimento de que a sua vida e a sua humanidade essencial se enraizavam não tanto na eficácia do combate ao inimigo, que, reconheçamos, não era muita, mas na fraternidade e solidariedade que souberam construir.
E uma das coordenadas determinantes foi a compreensão de que a tragédia se combate com a alegria da camaradagem e que a coragem para a viver também pode nascer da própria acção.
Em Os Soldados Perdidos, o autor, ele mesmo o alferes miliciano Viegas, subverte pela forma como age e se relaciona com os seus homens, os cânones da hierarquia contrapondo-lhe, em pleno teatro de operações, a solidariedade e a fraternidade que constituem a verdadeira camaradagem. E mesmo a base da eficácia operacional possível.
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João Viegas consegue, na pessoa do alferes Viegas, pôr em prática os ensinamentos de A Arte de Ser Chefe, de Gaston Courtois, curiosamente um sacerdote francês ligado ao movimento dos trabalhadores católicos, estudada na Academia Militar, mas tão só, para tantas vezes serem postos de parte pelo carreirismo, pela opção do mando em vez do comando, pela pusilanimidade da carácter que fornece à burocracia todo o seu poder e pelo cretinismo militar, para parafrasear Lenine quando classifica o cretinismo parlamentar.
Na sua hostilidade radical à guerra e à hierarquia, o alferes Viegas, por amor dos seus homens e não à pátria dos fascistas, capitalistas e latifundiários que, inda hoje, roubam ao povo a sua pátria para lhe imporem a deles, revela-se um verdadeiro comandante, encostando às tábuas a hierarquia que sempre tentou submetê-lo às suas regras estritas sem realmente o conseguir.
Um verdadeiro comandante sempre na primeira linha a enfrentar os perigos que a todos ameaçavam. Ele próprio, ferido em combate e evacuado para de novo voltar por exigência sua para junto dos seus homens, os camaradas a quem pertencia e que comandou nas mais diversas situações, ora abrigando-se do tiro dos guerrilheiros, ora correndo de peito aberto sobre eles como o exemplo dos soldados africanos sob o seu comando o obrigava.
Mas bom, bom eram, quando a sorte o proporcionava e surgia a oportunidade, aquelas bebedeiras catárticas conjuntamente com a ida às meninas nas povoações já organizadas de acordo com o cânone colonizador. E para esses momentos de absoluta entrega ao prazer não importava arriscar de novo a vida numa emboscada ou no rebentamento de uma mina. A vida é nossa, vale mais arriscá-la porque nos sabe bem do que sob o látego infernal da hierarquia.
Viegas irá, já na última fase da comissão, ser colocado no Estado-Maior do comando-chefe por decisão directa do general Spínola, que antes de ser chefe dos bombistas do MDLP, no intento abstruso de fazer ajoelhar a democracia, esquecido de que há formas mais eficazes como ficou provado, foi um comandante militar de prestígio, apesar de condenado a perder a guerra já perdida logo que começou.
Aí, as capacidades de Viegas para analisar as diversas componentes do movimento das tropas baseado nos serviços de informações tornaram-no indispensável.
Sublinhe-se que os serviços de informações militares estavam organizados de acordo com a estrutura NATO a que o governo fascista de Salazar aderiu orgulhosamente para a defesa comum das nações democráticas da Europa, decerto com a garantia de que tais democracias não apoiariam, como sucedeu, o movimento democrático que timidamente eclodiu em Portugal na sequência da derrota do nazi-fascismo em 1945.
Isto quer dizer que a capacidade de obter informações sobre os movimentos do inimigo estava praticamente a cargo das unidades militares no terreno e, essencialmente, dependente da PIDE e sua vasta rede de bufos. Tal colocava a PIDE numa situação relativamente privilegiada, que sustentava uma certa arrogância quando em contacto com as unidades combatentes.
O alferes Viegas, quando ainda no comando operacional do seu pelotão, teve ocasião de confrontar uma dessas ratazanas da PIDE dando a fuga a um guerrilheiro de que o pide, o inspector Palma, se arrogara o direito de se apoderar para o torturar e extorquir informações, mostrando serviço.
As relações entre os militares e as polícias políticas foram sempre conflituais, o que se pode atribuir à frequente actividade política e golpista desenvolvida pelos militares, aliás na tradição revolucionária desde o afrontamento a Beresford que custou a vida ao general Gomes Freire de Andrade. O próprio 28 de Maio de Gomes da Costa teve, no seu desencadear, uma percepção dos interesses populares à flor da pele naturalmente esmagados logo de seguida pelas forças do capital e dos senhores da terra organizadas em torno de Salazar. Outras tentativas, várias, de derrubar os fascistas, envolveram civis e, sempre, militares até ao assalto ao quartel de Beja, em 1961, para proclamar o legítimo presidente da República, o general Humberto Delgado.
Nesta sua nova actividade acompanha de perto o Movimento dos Capitães, a aproximação ao PAIGC e as dificuldades inerentes ao encontro de forças beligerantes durante treze anos e que agora se confrontavam ainda, mas para encontrarem a melhor forma de se darem as mãos.
O Movimento dos Capitães, a caminho de se tornar Movimento das Forças Armadas, para atenuar a radicalidade do golpe, enquanto iam morrendo soldados e guerrilheiros esforçava-se por se libertar da estratégia spinolista de manter o império esgotado e apodrecido.
De regresso à vida de cidadão finalmente livre face ao poder, porque livre foi sempre perante si próprio, de cidadão politicamente comprometido e empenhado e não apenas cidadão sobrevivente de uma guerra que lhe não dizia respeito mas o confrontou nas suas mais profundas convicções, de regresso à sua actividade profissional num Portugal liberto do fascismo mas ainda e sempre sob ameaça dos “irredentistas”, o professor não descurou a defesa material da liberdade conquistada.
Agora já na sua escola, em Figueiró dos Vinhos, participou entusiasmado na preparação da resistência à possibilidade de uma incursão de um forte grupo terrorista que se constituía do lado de lá da fronteira, na Espanha franquista. A experiência humana e operacional ganha na luta contra a liberdade a que fora obrigado, estava agora pronta para a defender até às últimas consequências.
Duas personagens fundamentais, para além, naturalmente, do alferes Viegas, lui même, balizam todo o conceito estético, humanista e ético de Os Soldados Perdidos. São elas o furriel Trindade, formado na escola dos Rangers, formando combatentes com elevado grau de eficácia. Ele será o verdadeiro instrutor, o protector durante os combates, o companheiro seguro de tropelias, o amigo e companheiro de todos os momentos. E o comandante do destacamento de fuzileiros, o explosivo ruivo Labaredas, pronto para acorrer em auxílio sempre que necessário no combate ou na festa com que os combatentes celebram estarem vivos.
Estas duas personagens, na vivíssima simplicidade com que são descritas, expressam afinal, e de forma tão real, a complexidade radical da vida das tropas especiais, neste caso os “rangers” e os “fuzos”. Eles assumem como sua própria natureza, como justificação do próprio acto de combater numa guerra odiosa, uma superioridade moral, não em relação ao inimigo, que desse são próximos, talvez mesmo irmãos, numa ética própria, mesmo quando não percebida, que tantas vezes sublima a violência, até quando extrema, no combate que apenas fisicamente os opõe. Trata-se, pelo contrário, de uma superioridade que os faz permanecer, vivos ou mortos, uma acusação eterna às bestas engomadas que lhes impuseram a maior das violências: tirar a vida aos seus próprios irmãos.
A burocracia virtuosamente assassinada, a hierarquia metamorfoseada no desfrute da fraternidade, da solidariedade, da camaradagem. A humanidade manifestando-se em toda a sua beleza no “paraíso de todos os medos”. A abnegação e o medo, eis o ser humano na sua totalidade.
Ao longo da leitura destas páginas senti-me contigo, meu caro João Viegas. A acompanhar-te nas picadas, nas bebedeiras, nos combates, no estremecimento angustiado perante a tua luta pela vida quando ficaste gravemente ferido, a construir contigo, com o Trindade, com o Labaredas e a malta toda, pretos e brancos, a caminhada que me ia pôr do lado daqueles com que afinal iria identificar-me e unir forças para liquidar, ainda que só daquela vez, o inimigo comum.
Publicamos neste número do Maio uma resolução recentemente adoptada pelos delegados sindicais da fábrica-mãe da Mercedes-Benz em Estugarda na Alemanha. O seu título “Já basta! Protestar, resistir, greve! Os patrões querem luta de classes? Muito bem, vão tê-la!” não é o tom habitual que se espera na Alemanha da “co-gestão” e do “pacto social”.
ilustração: Pedro páscoa
A revista alemã de negócios Manager Magazin revelou há dias planos que circulam na administração do grupo Volkswagen. Em causa: duplicar de 50 para 100 mil a redução de efectivos já antes anunciada até 2030. Um em cada seis empregados à escala mundial.
A página em linha Börse Online informou depois da confirmação dos planos por um porta-voz do grupo: “O grupo, incluindo as suas marcas e empresas, vai ter de passar por uma transformação profunda.” Em Julho, o Conselho Fiscal deliberará definitivamente. Não se conhecem pormenores exactos, mas pelo menos quatro fábricas alemãs do grupo estarão ameaçadas de encerramento.
Nos últimos seis meses, a cotação da acção da VW perdera quase metade do valor. Claramente, os “mercados” exigiam medidas. Às medidas anunciadas reagiram “positivamente”.
O Governo alemão, uma coligação entre a CDU democrata-cristã e o SPD social-democrata, anunciou, também há poucos dias, um compromisso entre os dois partidos em matéria de “reforma“ do sistema de pensões. O compromisso introduzirá no sistema público distributivo, pela primeira vez, um “pilar obrigatório” de capitalização, nisso seguindo os planos em desenvolvimento sob a batuta da comissária Maria Luís Albuquerque para toda a UE. O Governo português prepara-se também, daí a reacção de Montenegro à conversa de Ventura sobre a idade das pensões.
No passado mês de Fevereiro, expúnhamos aqui no Maio os planos em desenvolvimento na Alemanha (e na Europa em geral) para desmantelar um a um os pilares do chamado “Estado social”, ou seja, as conquistas conseguidas pelos trabalhadores — e engolidas pelos governos capitalistas para evitar “males piores” — durante um século de greves, revoluções e lutas.
Estes pilares são, sobretudo, os sistemas de segurança social, incluindo a saúde pública e o sistema de pensões distributivo baseado no salário diferido, mas também o ensino público e universal baseado no saber, para formar cidadãos.
A crise do capitalismo mundial, aprofundando-se sem cessar, decreta: tudo isso é muito caro, corte-se!
Mas os planos incluem, também, o desmantelamento da “velha” base industrial “obsoleta”, de que a Alemanha é o mais proeminente representante na Europa. O novo rumo é: a todo o vapor para a “IA” e a economia de guerra.
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O desenvolvimento rápido da indústria chinesa, bem como os planos de guerra — para já aduaneira e comercial — do imperialismo americano contra a China precipitaram os acontecimentos. O grande capital industrial alemão está numa situação sem saída. Os novos entraves ao comércio livre à escala mundial rasteiraram a economia alemã, que assentava na exportação de bens e maquinaria industrial para todo o mundo a partir da energia barata fornecida pela Rússia e à sombra do guarda-chuva militar do Pentágono. A economia alemã estagna há quase dez anos.
No entanto, o dilema das cúpulas bancárias e industriais e, agora, políticas, da Alemanha e da Europa é muito difícil. É preciso reduzir drasticamente os “custos”, disso não restam dúvidas; para isso, é preciso reduzir os salários, tanto os salários directamente pagos aos trabalhadores, como o salário indirecto advindo da saúde e do ensino públicos, o salário diferido que são as pensões… Mas como fazê-lo, quando a classe operária alemã é a mais forte e organizada da Europa? Quando o partido que tradicionalmente a representa (o SPD) faz parte do governo? Não serão os previsíveis “conflitos sociais” daí resultantes e mesmo a presumível auto-imolação da social-democracia, a administradora ideal da “paz social”, um risco e um preço demasiado altos a pagar?
Quando o grupo VW fez o seu primeiro anúncio de reduções drásticas de salários e de despedimentos, no Outono de 2024, a resposta dos operários foi imediata e em massa. Assustada, a administração fez um acordo com os representantes dos trabalhadores, estendendo até 2030 a proibição de despedir em troca de uma certa “moderação” nos aumentos salariais.
A trégua mal durou um ano.
Mas não é só a VW. A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês. O gigante siderúrgico ThyssenKrupp fecha fábricas de antiquíssima tradição e despede com abandono. Grandes fornecedores do sector automóvel, nomes como Schaeffler, ZF, Bosch, etc., anunciam e executam encerramentos de locais de produção. Sucedem-se as falências no Mittelstand (a média indústria alemã especializada, designadamente, no fabrico e exportação de maquinaria especial sofisticada).
A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês.
Ninguém está a salvo. Ao fim de mais de um ano de “impasse”, em que o chanceler Merz era atacado de todos os lados pela sua incapacidade de “reformar”, o anunciado compromisso entre os partidos do governo em matéria de contra-reforma das aposentações, baseado na capitulação da social-democracia, representa um toque das trombetas para o grande assalto à classe trabalhadora alemã.
Depois do plano Draghi de 2023, a burocracia de Bruxelas trabalha a todo o vapor no desenho de planos de desmontagem, desmantelamento e destruição de tudo o que, na sequência da II Guerra Mundial, permitiu que sectores significativos das classes trabalhadoras dos países mais desenvolvidos da Europa pudessem ter uma vida relativamente tolerável.
A resolução dos delegados sindicais de uma das fábricas em que nasceu a indústria automóvel é um sinal de que a classe operária alemã e europeia não conta render-se sem dar batalha.
A fábrica da Mercedes Benz de Untertürkheim, perto de Estugarda, na Alemanha, tem actualmente cerca de 18 mil operários. É a fábrica-mãe da marca, fundada em 1904, considerada o berço da indústria automóvel. Ainda é o principal centro de competências da Mercedes. Ali se produzem motores de explosão e eléctricos, caixas de velocidades, eixos, baterias. Porém, está, como boa parte da indústria automóvel alemã, sob ataque do patronato. Reproduzimos aqui uma resolução dos delegados sindicais da Mercedes-Benz Untertürkheim.
Mal passa um dia sem novo anúncio de que tal empresa vai fazer despedimentos ou tem de “poupar” à nossa custa.
Crise por toda a parte.
E os patrões querem que sejamos nós a pagar.
Também não é que o governo faça alguma coisa por nós. Quer acabar com o imperativo legal da jornada de trabalho de 8 horas: que trabalhemos mais pelo mesmo salário ou até por menos. E ainda tem na manga a “reforma aos 70”.
Trabalhar até morrer. Do subsídio de cidadania1 passa-se a uma dita “prestação básica”. Querem que, destruindo-nos o patrão o posto de trabalho, fiquemos obrigados a aceitar até o emprego mais miseravelmente pago.
Andam a dar cabo do sistema de saúde à força de austeridade, a transformar a assistência médica em privilégio para ricos. O dinheiro que, por causa das medidas de austeridade, falta nas caixas da segurança social vai também para o rearmamento. Querem que os nossos jovens voltem a ir para a guerra defender os lucros das grandes empresas.
Ter pena de nós próprios, esperar numa pretensa “Alternativa para a Alemanha” ou implorar e suplicar ao governo não adianta.
Sem a nossa luta sindical e política não conseguiremos políticas melhores! Por isso, não vamos esperar que alguém nos mande protestar. Começamos já!
Sem a nossa luta sindical e política não conseguiremos políticas melhores! Por isso, não vamos esperar que alguém nos mande protestar. Começamos já!
A discussão com os nossos colegas no local de trabalho volta a ter mais forte cunho político. “Alguém pode parar aquele que percebeu a situação em que está?”2.
Aproveitamos todas as oportunidades que se nos apresentam para criticar os patrões e o seu governo. De futuro, que não haja mais assembleias de empresa, reuniões de conselho de empresa ou assembleias sindicais sem discussão política.
Ainda que de início sejamos poucos ou estejamos até sozinhos, se levantarmos a voz e tomarmos uma atitude, seremos mais.
Mal sintamos propício o clima entre o pessoal, organizaremos protestos na empresa e na nossa cidade.
Tomamos parte activa no nosso sindicato, exigindo, o mais rapidamente possível, a organização de manifestações contra a ganância dos patrões, contra o governo e por um futuro melhor. A greve, se necessário. E se as cúpulas sindicais se fizerem difíceis, avançamos nós próprios.
1 “Subsídio cidadão” (Bürgergeld), é o subsídio social de desemprego que garante o sustento de quem não tem meios para o conseguir sozinho. O governo pretende substituí-lo por uma “prestação básica”.
2 Do poema de Bertolt Brecht “Elogio da dialéctica”.
O Maio vai aproveitar os meses de verão para fazer algumas alterações. Vamos mudar de página (alojamento do site) para um modelo mais robusto, que diminua ataques informáticos e nos permita um ainda maior trabalho colaborativo. Neste julho faremos um Maio com cerca de 4 a 5 novos artigos por semana, sem editorial, e em agosto interromperemos três semanas, para férias e para mudar de site. Regressaremos no fim de agosto, retemperados, tal como vós, esperamos, por umas boas férias!
Caros leitores,
Há 9 meses propusemo-nos fazer um jornal, semanal, o Maio, que renovasse a esfera pública tendo a crítica do Estado e do mercado como central; a liberdade de pensamento como alfa e ómega de qualquer projeto coletivo; e a defesa dos trabalhadores e da cultura (não somos independentes do mundo do trabalho e da cultura, somos seus defensores como gente inteira que faz, pensa, luta, ama, sente, imagina, conhece. A habitação e a educação públicas são-nos tão queridas como o direito a querer e saber ler, escutar e conhecer a música e a sua história. Enfim, nada de humano nos é estranho.
Apoiado por sindicatos, associações e intelectuais críticos, cientistas, das exatas e das humanidades, artistas, desde então, o Maio teve mais de um milhão de visualizações, e saiu semanalmente.
Assumimos desde o início a recusa de qualquer financiamento do Estado, empresas ou publicidade. Graças a uma combinação de trabalho de qualidade, autónomo, de escritores, profissionais e amadores, que amam contar o país, e o mundo, ilustradores, cujo trabalho magnífico está espelhado na qualidade do design deste jornal, realizadores, a que se juntaram mais de 200 associados, o Maio cresceu imenso.
Fizemos tanto e vamos fazer muito mais. Vamos para a rua em reportagem ouvir quem trabalha e escutar o país fora de Lisboa. Vamos ter mais vídeo-reportagem. E vamos começar, esperamos pelo espaço apenas, uma escola, um espaço de encontros onde debates, cursos, teatro, atividades para crianças sem ecrãs, visitas e passeios, floresçam.
Vamos mudar de página (alojamento do site) este verão, para um modelo mais robusto, que diminua ataques informáticos, e nos permita também um ainda maior trabalho colaborativo. Neste julho faremos um Maio com cerca de 4 a 5 novos artigos por semana, sem editorial, e em agosto interromperemos três semanas, para férias e mudar de site. Regressaremos no fim de agosto, e tenhamos todos umas boas férias!
A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O Governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro. Porém, nos últimos cinco anos, Portugal construiu uma indústria militar surpreendentemente forte.
ilustração: Ricardo Ferreira
Portugal não teve sempre um complexo militar-industrial. Historicamente dependente de armamento estrangeiro, o país só começou a desenvolver uma indústria de defesa e aeroespacial independente na década de 1960, para sustentar as guerras coloniais. Na época do seu império global, viveu principalmente do poderio naval, adquirindo a maior parte do equipamento pesado a fornecedores estrangeiros. Mesmo depois de aderir à NATO, em 1949, continuou a carecer tanto de siderurgia pesada como de uma indústria de armamento, dependendo de importações.
A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro.
Agora, porém, no século XXI, Portugal construiu, nos últimos cinco anos, uma indústria militar surpreendentemente forte. A indústria de defesa cresceu rapidamente graças à inovação no sector privado, a par de subsídios do Estado e colaborações com a academia. O sector consta de uma rede altamente rentável e de alta tecnicidade de mais de 160 organizações, representadas pelo AED Cluster Portugal (Aeronáutica, Espaço e Defesa).
O complexo militar-industrial português não produz blindados em massa; é altamente especializado, fortemente baseado no modelo da “hélice tripla” que, integrando forças armadas, laboratórios de investigação universitários e fornecedores privados de tecnologia, cria tecnologias de “uso dual” (ou seja, civil e militar). As universidades portuguesas têm aumentado o seu investimento na investigação e desenvolvimento de armamento e outras tecnologias bélicas.
A produção de armamento dá muito dinheiro a ganhar, e muitas empresas portuguesas deram por isso. O sector português da defesa regista o seu maior crescimento desde que o país aderiu à União Europeia. Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo. A indústria da “defesa” portuguesa emprega agora cerca de 20 mil pessoas e gera receitas anuais superiores a 2100 milhões de euros. “E a tendência é ascendente”, indica José Neves, presidente da associação do sector, a AED Cluster Portugal, que engloba mais de 160 organizações portuguesas que trabalham nas áreas da aeronáutica, do espaço e da defesa.
Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo.
Para cumprir a meta acordada pela NATO de gastar 5% do PIB na defesa, o Governo também está a adquirir activamente equipamento ao estrangeiro. Lisboa compra fragatas à Itália, tanques à Alemanha e novos caças. Em Outubro do ano passado, o Governo português anunciou um aumento recorde das despesas militares para 2026. O orçamento da defesa aumentou quase 3800 milhões de euros, ou mais 23,2% em comparação com 2025.
Esta recente expansão está directamente relacionada com a guerra na Ucrânia e com a campanha de propaganda sobre a chamada “ameaça russa” à segurança da Europa. Portugal tem sido aliado da Ucrânia desde o início da invasão russa. O Governo contribui com dinheiro dos contribuintes para o mecanismo PURL, que medeia a compra de armas dos EUA para a Ucrânia. Estão a ser usados na Ucrânia drones e sistemas de comunicação portugueses.
Se bem que ainda possa ser relativamente pequeno em termos globais, o complexo militar-industrial português tem-se desenvolvido em subsectores de nicho de alta tecnologia mais do que na produção de equipamento tradicional. Há empresas portuguesas a fabricar drones ou componentes para grandes grupos internacionais da defesa. Empresas como o fabricante de drones Tekever ou a Critical Software são parceiros de confiança do sector da defesa à escala internacional, quer como fornecedores, quer — cada vez mais — como fabricantes de produtos acabados. Empresas como a Critical Software desenvolvem sistemas aeroespaciais e de defesa complexos, incluindo software de voo e interfaces-utilizador de co-piloto usadas por parceiros internacionais como a Saab. Portugal também investe muito na vigilância marítima, nas comunicações navio-costa e em navios auxiliares.
Para cumprir os ditames da NATO e modernizar as suas forças, Portugal está a proceder activamente a uma revisão da sua presença militar. Entre os reapetrechamentos mais importantes contam-se a modernização dos submarinos da classe Tridente, a integração de sistemas de recepção de alertas para a frota de F-16 e a reabilitação de centros estratégicos como a Base Aérea de Montijo e a Base das Lajes, nos Açores, mantida pelos EUA. O Governo está actualmente a conduzir um grande projecto de aquisição que visa a potencial substituição da sua frota de caças F-16 em obsolescência, estando nos pratos da balança jactos americanos caros e alternativas europeias, como o Gripen sueco.
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A empresa sueca de defesa Saab almeja vender a Portugal o seu sistema Gripen de avião de caça. “O Gripen-E seria uma solução verdadeiramente europeia”, segundo Daniel Boestad, vice-presidente do programa Gripen na Saab. A empresa aeroespacial portuguesa OGMA poderia fabricar peças para a aeronave, tal como já faz, designadamente, para a empresa brasileira Embraer, adquirindo Portugal, em troca, à Embraer aviões de transporte militar. “Além disso, estamos a analisar o potencial de alargamento da cooperação nas áreas da produção e MRO”, observou Boestad; a sigla MRO cobre a manutenção, reparação e revisão.
A empresa portuguesa Critical Software tem em desenvolvimento um simulador de voo para o Gripen-E. “Estamos a trabalhar com a Saab, porque é um desafio interessante e porque nos identificamos com o projecto”, refere João Carreira, director executivo da Critical Software. A sua empresa começou com apenas três colaboradores, em 1998, tendo, entretanto, crescido e passado a ser uma empresa internacional com cerca de 5 mil empregados. Inicialmente, a empresa produzia software para as fragatas da Marinha portuguesa. Actualmente, a Critical Software opera joint ventures com empresas como a BMW e colabora com empresas alemãs do sector da defesa como a Diehl e a Rheinmetall.
A enorme expansão da indústria de armamento portuguesa faz parte de uma viragem europeia para aumentar a despesa com a defesa, apoiada por financiamentos da UE. A Europa não está apenas a rearmar-se, está a reorientar a sua base industrial da produção civil para a produção militar, e Portugal está discretamente a aproveitar a onda.
Tudo isto é óptimo para os fabricantes de armas, mas pouco valor acrescenta à economia geral. Estima-se em não mais de 0,5% do rendimento nacional a contribuição central directa da próspera indústria militar/de defesa portuguesa, que emprega apenas 0,4% da força de trabalho. A defesa nunca será grande contribuinte para a prosperidade do país, ainda que renda milhões de euros às empresas envolvidas. E afectar preciosos recursos e mão de obra à produção de armas para matar e destruir vidas e meios de subsistência reduz os recursos disponíveis para investir em necessidades sociais reais e em melhorar a vida das pessoas.
Segundo o Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa da Porto Editora, nome feminino que significa 1) (mecânica) a capacidade de resistência de um material ao choque, que é medida pela energia necessária para produzir a fratura de um provete do material com dimensões determinadas; 2) (ecologia) capacidade de um sistema ecológico retornar ao estado original de equilíbrio, após suportar perturbação que o tenha afastado desse mesmo estado; 3) (psicologia) capacidade de reagir a trauma ou dificuldade, sem perda do equilíbrio emocional; 4) (figurado) capacidade de reagir e superar contrariedade ou situação de crise; faculdade de quem consegue lidar de forma positiva com fatores ou condições adversas.
EM NOVILÍNGUA:
A palavra resiliência é usada sobretudo nas últimas aceções acima mencionadas para designar a capacidade individual de reagir a traumas e dificuldades sem perda do equilíbrio emocional e de lidar de forma positiva com fatores ou condições adversas. Tornou-se, na linguagem empresarial e da governação, numa espécie de mantra que transfere para o indivíduo a responsabilidade por reagir a adversidades. Críticos do conceito, como o economista e sociólogo Thierry Ribault, que estudou catástrofes como a de Fukushima, sublinham “a natureza capacitista, irracional e determinista desta forma de religiosidade tecnofílica, que não está isenta de um conservadorismo que concede à genética um lugar central e hierárquico, como se existisse uma capacidade de resiliência associada a genes específicos”. Reagir a catástrofes naturais ou políticas como o comboio de tempestades deste inverno ou uma situação de guerra depende muito mais de políticas públicas e ação coletiva do que da “resiliência” de cada indivíduo. ASP
Durante o mês de julho vamos repor no Tempo Contra o Tempo o podcast Mudam-se os Tempos: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’ – já cantou o velho bardo. O curso da história move-se como as águas de um rio. Por vezes deixamo-nos levar por momentos de correntes rápidas, por outras, mansidão serena. Não é simples o seu movimento. Do ritmo que marca sempre passo, até à aceleração vertiginosa, avança-se nas conquistas sociais, mas as mesmas podem regredir em formas políticas avassaladoras. Ou vice-versa… Mas, ainda assim, ‘navegar é — sempre — preciso’. Estamos — todos e bem — embarcados. Este é o Podcast “Mudam-se os tempos”. Em cinco episódios com convidados especiais Roberto della Santa e Raquel Varela, historiadora, querem colocar sobre os próprios pés as principais ideias, imagens e conceitos que nos ajudam a saber e a fazer Portugal. De onde viemos? Para onde vamos? Toda a gente precisa interpretar a própria história para poder transformá-la. Em modo de conversa: como Portugal se formou? Quais são os seus principais desafios e dilemas? A isso vamos – agora mesmo!
Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
O cenário é surreal. Caixotes de papel amontoam-se na periferia da solarenga Lisboa. Lá dentro, 300 mil exames para serem digitalizados, numa plataforma que não acerta a primeira página com a segunda, convoca matemáticos para corrigir exames de línguas, e apaga respostas, fazendo aparecer ao lado dezenas de novas, mal o professor-classificador desliga o ecrã. O Governo diz não tornar pública toda a cadeia de lucro, dos bancos de investimento, das big techs, detentoras da memória destes dados, às empresas executoras, mas afirma, à luz do dia, estar a “monitorizar a velocidade” dos classificadores.
Nem os Monty Python conseguiriam inventar uma palhaçada idêntica. A credibilidade está ferida, é irreversível. Não se questiona – nem da parte da maioria dos sindicatos e partidos – o sentido de fazer um exame, a metrificação da avaliação, a (pasme-se) divisão da classificação do exame em itens (um professor não classifica todo o exame, mas cada professor classifica partes, para assim monitorizar a velocidade e dividir parcelas entre os mais rápidos); nem o facto de o professor não corrigir, apenas classificar (como pode um aluno aceitar ter uma nota sem que lhe expliquem os erros?) e claro, a monitorização, uma forma de controlo digital sobre o próprio corpo – literalmente, o corpo docente. Quanto tempo, onde e como ficou cada docente em cada resposta, para assim a IA calcular quanto tempo a máquina em breve precisará para fazer o mesmo. O Governo e a UE fizeram dos nossos professores e filhos – com o dinheiro que destinamos a educação coletiva de qualidade – ratos de laboratório do lucro dos acionistas da IA.
Desvela-se a realidade crua das classes dirigentes – as mesmas que colocam os filhos em colégios suíços, onde esta tecnologia é proibida e a manhã começa com trinta minutos de silêncio, meditação, seguida da leitura de obras filosóficas clássicas e termina com uma subida à montanha para conhecer a natureza. Uma aparência de algo semelhante, mais mixuruca, já existe hoje em alguns colégios de elite em Portugal, uma vez que a maioria do privado aderiu também à digitalização.
A IA, nem inteligente nem artificial, tem trabalho humano massivo por detrás (na entrega de dados na forma de respostas a exames, na classificação dos mesmos, e na digitalização braçal destes). Tudo pago pelos trabalhadores portugueses na forma de impostos que deveriam ser destinados a educar os filhos. Educá-los no melhor conhecimento histórico e filosófico, matemática, física, línguas e literatura, artes.
Nada disso: apenas testes de cruzes, simplificados, para a IA compreender o comando e a resposta, que é uma resposta padrão para ser processada por algoritmos. Alunos a ser treinados para a automação, uma nova era de “desantropormofização”, ou seja, desumanização em massa – a máquina engole o homem.
Portugal, é preciso dizê-lo sem meias palavras, foi o rato de laboratório da IA europeia ao abrigo do PRR, um empréstimo pago pelos Portugueses, anunciado como uma dádiva para combater a crise da Covid, mas de facto empréstimo, com juros, para a transição verde – que o digam em Boticas ou no Fundão –, transição digital dos serviços públicos e investimento em “segurança e defesa”, ou seja, guerra.
Em resposta à concorrência e guerras de Trump e ao enfrentamento mundial com outras potências, como a China e a Rússia, a UE delimitou, no mesmo discurso de Von der Leyen, a guerra e a educação digital. Como um campo único. De aposta do dinheiro público, ao lado do mega-financiamento a projetos de painéis solares e eólicas, que destroem campos agrícolas e o acesso a uma alimentação de qualidade.
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A pandemia de Covid não serviu para propor o regresso a uma saúde pública coletiva, com gestão democrática e quebra de patentes e investigação – em segurança –, sujeita a critérios científicos e clínicos transparentes. A crise foi usada não para parar e pensar, mas para avançar com o manicómio digital.
O avanço delirante do “ensino” online, da “saúde” online, dos contratos obscuros com farmacêuticas, e do Estado de exceção, da supressão de direitos. O super-homem deus da máquina, precisa de um super-Estado de exceção – até o Papa o percebeu, preocupado com que a religião cristã seja suprimida pela nova religião, a IA.
Da crise da Covid a burguesia europeia fez uma oportunidade: impor a IA, que todos odeiam e ninguém quer (segundo todas as sondagens realizadas, mais de 60 a 70% da população questiona a IA, os serviços online, a perda de sentido do trabalho, repetitivo). Os estudos da neurobiologia e da psicologia (mesmo da que é dominante, a comportamental) e até os inquéritos da OCDE confirmam: quem mais usa a IA usa menos o cérebro, é mais infeliz, tem mais problemas de saúde. Um desastre, um abismo.
Um abandono das crianças e jovens, pelos quais somos responsáveis como adultos, foi feito com o cumprimento escrupuloso da digitalização – agora os alunos são obrigados a produzir lucro, trabalho infantil, no lugar que um dia sonhou tirá-los do trabalho infantil, a escola. Fazem produção de dados e são dadores involuntários de corpo e alma (o seu cérebro) à experimentação tecnológica do desemprego, da guerra e da vigilância.
Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder.
A ligação entre guerra, vigilância e educação é central, disse a líder da UE. É natural, a precisão da geolocalização, a eficácia dos pompts, tudo isto é fulcral para criar códigos de programação – para a qual são necessários milhões de dados, cujo fornecimento vem da educação e dos serviços que preenchemos online, de sumários a relatórios clínicos.
Há uma nuvem, assente em gigantescos centros de dados, que une o like viciante do FB ou do Tiktok (que com esse like criam perfis, influem nos circuitos neurais), unem o like à resposta de pintar bolinhas na resposta a uma pergunta de um teste, à classificação digital num exame, à explosão de doenças ditas mentais, e à exatidão de um drone a implodir uma criança em Gaza.
Vivemos uma fase nova no capitalismo mundial. Não podemos pensar isto como inovação ou tecnologia, é terror, desagregação, não é inteligente, não é artificial, é material e concreto, somos milhões arrastados para a barbárie. Nunca desde a II Guerra Mundial a resistência política anticapitalista foi tão urgente.
Sabendo de antemão que a IA erra, que os erros são inevitáveis e que todos os estudos publicados demonstram que diminui a capacidade cerebral dos utilizadores. A UE parece ter escolhido um país periférico para o mega-ensaio de digitalização de 300 mil exames. Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin: o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso apurar “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas de parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
“Fazer depressa é fazer pior”, “não vamos outra vez falar de burocracia e técnica, escondendo a questão de fundo – descritores simples, comandos de resposta padronizados”, que medem o hiperfoco e não o desenvolvimento do cérebro e do conhecimento, “PIDE digital”, “inacreditável”, “temos de fazer greve”, “não somos entregadores”, “as perguntas eram tão imbecis que continham a resposta”, “os exames não avaliam”, “estou exausta”. Eis alguns dos comentários.
O que é a escola? O lugar coletivo de ensino-aprendizagem do melhor conhecimento produzido pelo conjunto da humanidade, sintetizado num currículo. Há algo nosso, que junta mortos e vivos, e que Marx denominava “intelecto geral”. Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam a IA e deixam o cérebro em ponto morto, cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder.
A educação não é um ato de entrega de um produto de ou a um jovem ou criança, é uma transformação interna, um desenvolvimento do cérebro (das funções psíquicas superiores). Por isso o lugar central da escola não é ocupar o tempo das crianças e jovens enquanto os pais estão a trabalhar. É, sim, o espaço do ensino dos conceitos teóricos de cada currículo (os fundamentos do conhecimento). A IA generativa é uma recombinação estatística de palavras com um código, que ao mesmo tempo é feita de expropriação do saber acumulado (milhões de dados, textos, respostas) e simultaneamente expropria o saber possível, ao substituir o processo lento, esforçado, reflexivo de conhecimento e de desenvolvimento do cérebro por comandos mecânicos e desprovidos de complexidade. É uma máquina que expropria continuamente o ensino-aprendizagem.
A IA não é “mais uma ferramenta” que nós “podemos usar como queremos”. Mesmo que fosse pública, com um código aberto – que deve ser –, nunca deveria ser usada em momento algum na educação, na escola, na universidade, mas apenas, por exemplo, para limpar sanitários ou salvar alguém no mar. A escola e a universidade são um ateliê de ensino, não uma fábrica de comandos.
Mas por um homem ferido/ num labirinto perdido/ entre uma morte e uma vida! Transforma-se o oprimido/ em instrumento opressor/ Nasce num peito uma guerra! / E, lá longe… Na sua terra/o abutre, o carrasco, /o nazi, / a peste./ enchendo o ventre de carne/escreve:/ “DITOSA PÁTRIA QUE TAIS FILHOS DESTE. António Calvinho
Bardamerda para tal gente e um hurra aos cadáveres de todos os soldados perdidos, afinal todos nós. João Viegas
Enquanto um só combatente estiver vivo, enquanto mulheres e filhos permanecerem vivos e com eles os traumas que a guerra colonial provocou nos corpos e nos espíritos, ela aí está: a guerra colonial.
Já muito se escreveu sobre aqueles treze anos que deixaram a marca mais dura e mais profunda no século XX português.
Os Soldados Perdidos, que tenho à minha frente, quarenta e oito anos depois de o seu autor, João Viegas, ter desembarcado no “paraíso de todos os medos”, como ele próprio qualificou aquela terra que atrai e repele a um tempo, será, talvez, a última obra literária sobre a guerra colonial escrita por um ex-combatente.
O stress provocado pela brutalidade e pela violência da guerra, pelo que viveram durante aqueles mais de dois anos, uma interrupção brutal na sua vida em construção, na continuidade das suas vidas profissionais, no amanho do campo, nos estudos despertou em muitos combatentes mobilizados como carne para canhão a necessidade e a vontade incontida de pôr no papel, tanta vez numa abordagem literária sem filtro, como quem respira, a realidade nua, brutal, sem contemplações, quase sem narrativa organizada; um grito, um berro tão violento quanto a própria guerra que o determinava.
Uma condenação sem apelo, saída do coração, da chaga aberta para sempre, do coto ainda mais provocador que inferiorizante como foi, aliás, o caso de um dos personagens reais, como são quase todos, senão todos, os que habitam esta obra tão singela e tão poderosa. Refiro-me ao Jorge Carneiro, militar e combatente de eleição e um revolucionário genuíno.
Assim foi a verdadeira aprendizagem daquela guerra para a geração que lhe sucedeu, pela pena de escritores que nunca o tinham sido ou que não constavam (ainda) do mainstream da literatura, a arte a brotar das profundas feridas que lhes marcaram a alma, quer pelo que viram fazer, quer pelo que fizeram e nunca pensaram ser capazes de fazer, quer pelo que sofreram na verdadeira solidão dos que enfrentam a morte iminente.
Em Os Soldados Perdidos encontramos a revelação profunda do humano pela exposição visceral dos soldados na sua permanente procura da sobrevivência física e anímica numa realidade cuja essência lhes escapa mas que vão aprendendo a dominar, a cada dia que passa no confronto com o inesperado, por vezes com o indizível.
Uma inteligência prática e uma capacidade inata de resistência constroem o seu mundo possível servindo-se da própria hierarquia que os sujeita.
O cotejo, que me atrai, de duas obras tão diferentes mas tão próximas como são Nó Cego, a obra-prima que se impõe como o requiem da guerra colonial e Os Soldados Perdidos, de João Viegas, decorre de, nesta última, termos um invulgar e poderoso enlace entre a veemente e sistemática condenação da guerra, e desta guerra em particular, a condenação frontal dos assassinos de voz meiga que a impõem por métodos brutais, totalitários e terroristas e a explícita e por vezes entusiástica celebração, mesmo exaltação, das qualidades militares daqueles que são forçados ao combate que está presente em Nó Cego.
Será uma característica de todas as guerras esta contradição, eventualmente percorrerá todas as obras, mas aqui encontramo-la no centro da narrativa. Aqui não se trata de uma constatação amarga. É uma forma muito bela, quase ingénua, de como se celebra a vida e a sua precariedade.
Falo-vos de um belo livro. Um belo livro caracterizado pela simplicidade narrativa que nos põe no centro da acção, por vezes quase frenética, mobilizados também nós “ao serviço da pátria” como ainda hoje sem qualquer pejo se diz daqueles que foram vítimas do fascismo e enviados para matar os seus irmãos de sofrimento ainda mais brutal, e depois, calhando, morrer.
Um estilo lesto e vivíssimo, sem rodriguinhos nem apaziguadores nem moralismos, sem complicações ficcionais, com a limpidez e a força da realidade crua, acompanha a acção do alferes miliciano Viegas, como tantos outros arrancado aos seus filhos – sem direito a beneficiar da figura de “amparo”, vá-se lá saber porquê, todos sabemos, ele fazia política e propaganda subversiva insidiosa contra a guerra colonial transformada na linha principal de ataque ao fascismo.
Feita a travessia do sofrimento, da contradição angustiante entre a consciência anti-fascista e anti-colonial e a consciência mobilizadora, tornada necessidade, de que tinha de levar os seus homens de volta para casa, fosse onde fosse e de que para isso tinha de saber estar à altura, ele, saído de uma instrução precária, feita à pressa, carne para canhão, eis o nosso alferes miliciano Viegas que escapou por entre os pingos da chuva, de volta ao seu CITAC, entretanto assaltado, roubado, encerrado e destruído pela PIDE, de volta ao encontro dos colegas e camaradas para o fazer renascer e com ele repercutir na arte a paz e a liberdade conquistadas.
A beleza dos jogos de amor desprendido, simples e divertido com Bela, a jovem informadora do PAIGC como todos sabiam, mas que oferecia momentos de prazer único naquelas paragens, fê-lo sofrer genuinamente quando foi presa pela PIDE e desterrada para um campo de concentração, o ilhéu das Galinhas, no arquipélago dos Bijagós.
Mas teve o prazer de ser o primeiro a receber o seu abraço emocionado e sentir correndo pela sua face as lágrimas de alegria e de emoção e de amor com que Bela se encolheu, feliz de novo, nos seus braços numa festa à liberdade de ambos e de ambas as pátrias.
A narrativa da experiência do alferes miliciano Viegas, desde o embarque no DC-6 para a Guiné, “o paraíso de todos os medos” até ao regresso a casa, dois anos depois de ser encharcado, sem aviso, pelo seu próprio suor, pegajoso e mórbido, com que Bissau na “época das chuvas” saúda os que mal assomam à porta do avião no aeroporto da Bissalanca, até dois meses depois do 25 de Abril, quando regressa à “metrópole”, é um palpitante hino à alegria de viver através das picadas da morte.
João Viegas fá-lo com uma entusiástica e quase absurda delicadeza, que se esconde por detrás da adopção sistemática da linguagem vulgar e rude dos homens na fronteira do suportável. Somos tocados profundamente pela sensibilidade esclarecida de um sentido crítico irredutível decorrente da sua inteligência de artista.
A sempre presente condenação do fascismo e da guerra colonial não prejudica a naturalidade com que, nela metido até aos cabelos, fosse simplesmente um soldado camarada dos homens que comandava desenvolvendo uma relação de grande fraternidade e compreensão com cada um, assumindo naturalmente com grande espontaneidade a capacidade de comando entre camaradas, estabelecendo uma hierarquia muito própria alicerçada nos humanos valores e interesses comuns: enfrentar as condições adversas, enfrentar aqueles que os obrigaram a designar por inimigos e que, na elementaridade radical da luta pela sobrevivência, foram forçados a agir como se assim fosse.
O alferes Viegas e os seus homens construíram um núcleo invencível, e não me refiro às vicissitudes do combate, porque simplesmente foram levados ao entendimento de que a sua vida e a sua humanidade essencial se enraizavam não tanto na eficácia do combate ao inimigo, que, reconheçamos, não era muita, mas na fraternidade e solidariedade que souberam construir.
E uma das coordenadas determinantes foi a compreensão de que a tragédia se combate com a alegria da camaradagem e que a coragem para a viver também pode nascer da própria acção.
Em Os Soldados Perdidos, o autor, ele mesmo o alferes miliciano Viegas, subverte pela forma como age e se relaciona com os seus homens, os cânones da hierarquia contrapondo-lhe, em pleno teatro de operações, a solidariedade e a fraternidade que constituem a verdadeira camaradagem. E mesmo a base da eficácia operacional possível.
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João Viegas consegue, na pessoa do alferes Viegas, pôr em prática os ensinamentos de A Arte de Ser Chefe, de Gaston Courtois, curiosamente um sacerdote francês ligado ao movimento dos trabalhadores católicos, estudada na Academia Militar, mas tão só, para tantas vezes serem postos de parte pelo carreirismo, pela opção do mando em vez do comando, pela pusilanimidade da carácter que fornece à burocracia todo o seu poder e pelo cretinismo militar, para parafrasear Lenine quando classifica o cretinismo parlamentar.
Na sua hostilidade radical à guerra e à hierarquia, o alferes Viegas, por amor dos seus homens e não à pátria dos fascistas, capitalistas e latifundiários que, inda hoje, roubam ao povo a sua pátria para lhe imporem a deles, revela-se um verdadeiro comandante, encostando às tábuas a hierarquia que sempre tentou submetê-lo às suas regras estritas sem realmente o conseguir.
Um verdadeiro comandante sempre na primeira linha a enfrentar os perigos que a todos ameaçavam. Ele próprio, ferido em combate e evacuado para de novo voltar por exigência sua para junto dos seus homens, os camaradas a quem pertencia e que comandou nas mais diversas situações, ora abrigando-se do tiro dos guerrilheiros, ora correndo de peito aberto sobre eles como o exemplo dos soldados africanos sob o seu comando o obrigava.
Mas bom, bom eram, quando a sorte o proporcionava e surgia a oportunidade, aquelas bebedeiras catárticas conjuntamente com a ida às meninas nas povoações já organizadas de acordo com o cânone colonizador. E para esses momentos de absoluta entrega ao prazer não importava arriscar de novo a vida numa emboscada ou no rebentamento de uma mina. A vida é nossa, vale mais arriscá-la porque nos sabe bem do que sob o látego infernal da hierarquia.
Viegas irá, já na última fase da comissão, ser colocado no Estado-Maior do comando-chefe por decisão directa do general Spínola, que antes de ser chefe dos bombistas do MDLP, no intento abstruso de fazer ajoelhar a democracia, esquecido de que há formas mais eficazes como ficou provado, foi um comandante militar de prestígio, apesar de condenado a perder a guerra já perdida logo que começou.
Aí, as capacidades de Viegas para analisar as diversas componentes do movimento das tropas baseado nos serviços de informações tornaram-no indispensável.
Sublinhe-se que os serviços de informações militares estavam organizados de acordo com a estrutura NATO a que o governo fascista de Salazar aderiu orgulhosamente para a defesa comum das nações democráticas da Europa, decerto com a garantia de que tais democracias não apoiariam, como sucedeu, o movimento democrático que timidamente eclodiu em Portugal na sequência da derrota do nazi-fascismo em 1945.
Isto quer dizer que a capacidade de obter informações sobre os movimentos do inimigo estava praticamente a cargo das unidades militares no terreno e, essencialmente, dependente da PIDE e sua vasta rede de bufos. Tal colocava a PIDE numa situação relativamente privilegiada, que sustentava uma certa arrogância quando em contacto com as unidades combatentes.
O alferes Viegas, quando ainda no comando operacional do seu pelotão, teve ocasião de confrontar uma dessas ratazanas da PIDE dando a fuga a um guerrilheiro de que o pide, o inspector Palma, se arrogara o direito de se apoderar para o torturar e extorquir informações, mostrando serviço.
As relações entre os militares e as polícias políticas foram sempre conflituais, o que se pode atribuir à frequente actividade política e golpista desenvolvida pelos militares, aliás na tradição revolucionária desde o afrontamento a Beresford que custou a vida ao general Gomes Freire de Andrade. O próprio 28 de Maio de Gomes da Costa teve, no seu desencadear, uma percepção dos interesses populares à flor da pele naturalmente esmagados logo de seguida pelas forças do capital e dos senhores da terra organizadas em torno de Salazar. Outras tentativas, várias, de derrubar os fascistas, envolveram civis e, sempre, militares até ao assalto ao quartel de Beja, em 1961, para proclamar o legítimo presidente da República, o general Humberto Delgado.
Nesta sua nova actividade acompanha de perto o Movimento dos Capitães, a aproximação ao PAIGC e as dificuldades inerentes ao encontro de forças beligerantes durante treze anos e que agora se confrontavam ainda, mas para encontrarem a melhor forma de se darem as mãos.
O Movimento dos Capitães, a caminho de se tornar Movimento das Forças Armadas, para atenuar a radicalidade do golpe, enquanto iam morrendo soldados e guerrilheiros esforçava-se por se libertar da estratégia spinolista de manter o império esgotado e apodrecido.
De regresso à vida de cidadão finalmente livre face ao poder, porque livre foi sempre perante si próprio, de cidadão politicamente comprometido e empenhado e não apenas cidadão sobrevivente de uma guerra que lhe não dizia respeito mas o confrontou nas suas mais profundas convicções, de regresso à sua actividade profissional num Portugal liberto do fascismo mas ainda e sempre sob ameaça dos “irredentistas”, o professor não descurou a defesa material da liberdade conquistada.
Agora já na sua escola, em Figueiró dos Vinhos, participou entusiasmado na preparação da resistência à possibilidade de uma incursão de um forte grupo terrorista que se constituía do lado de lá da fronteira, na Espanha franquista. A experiência humana e operacional ganha na luta contra a liberdade a que fora obrigado, estava agora pronta para a defender até às últimas consequências.
Duas personagens fundamentais, para além, naturalmente, do alferes Viegas, lui même, balizam todo o conceito estético, humanista e ético de Os Soldados Perdidos. São elas o furriel Trindade, formado na escola dos Rangers, formando combatentes com elevado grau de eficácia. Ele será o verdadeiro instrutor, o protector durante os combates, o companheiro seguro de tropelias, o amigo e companheiro de todos os momentos. E o comandante do destacamento de fuzileiros, o explosivo ruivo Labaredas, pronto para acorrer em auxílio sempre que necessário no combate ou na festa com que os combatentes celebram estarem vivos.
Estas duas personagens, na vivíssima simplicidade com que são descritas, expressam afinal, e de forma tão real, a complexidade radical da vida das tropas especiais, neste caso os “rangers” e os “fuzos”. Eles assumem como sua própria natureza, como justificação do próprio acto de combater numa guerra odiosa, uma superioridade moral, não em relação ao inimigo, que desse são próximos, talvez mesmo irmãos, numa ética própria, mesmo quando não percebida, que tantas vezes sublima a violência, até quando extrema, no combate que apenas fisicamente os opõe. Trata-se, pelo contrário, de uma superioridade que os faz permanecer, vivos ou mortos, uma acusação eterna às bestas engomadas que lhes impuseram a maior das violências: tirar a vida aos seus próprios irmãos.
A burocracia virtuosamente assassinada, a hierarquia metamorfoseada no desfrute da fraternidade, da solidariedade, da camaradagem. A humanidade manifestando-se em toda a sua beleza no “paraíso de todos os medos”. A abnegação e o medo, eis o ser humano na sua totalidade.
Ao longo da leitura destas páginas senti-me contigo, meu caro João Viegas. A acompanhar-te nas picadas, nas bebedeiras, nos combates, no estremecimento angustiado perante a tua luta pela vida quando ficaste gravemente ferido, a construir contigo, com o Trindade, com o Labaredas e a malta toda, pretos e brancos, a caminhada que me ia pôr do lado daqueles com que afinal iria identificar-me e unir forças para liquidar, ainda que só daquela vez, o inimigo comum.
Publicamos neste número do Maio uma resolução recentemente adoptada pelos delegados sindicais da fábrica-mãe da Mercedes-Benz em Estugarda na Alemanha. O seu título “Já basta! Protestar, resistir, greve! Os patrões querem luta de classes? Muito bem, vão tê-la!” não é o tom habitual que se espera na Alemanha da “co-gestão” e do “pacto social”.
ilustração: Pedro páscoa
A revista alemã de negócios Manager Magazin revelou há dias planos que circulam na administração do grupo Volkswagen. Em causa: duplicar de 50 para 100 mil a redução de efectivos já antes anunciada até 2030. Um em cada seis empregados à escala mundial.
A página em linha Börse Online informou depois da confirmação dos planos por um porta-voz do grupo: “O grupo, incluindo as suas marcas e empresas, vai ter de passar por uma transformação profunda.” Em Julho, o Conselho Fiscal deliberará definitivamente. Não se conhecem pormenores exactos, mas pelo menos quatro fábricas alemãs do grupo estarão ameaçadas de encerramento.
Nos últimos seis meses, a cotação da acção da VW perdera quase metade do valor. Claramente, os “mercados” exigiam medidas. Às medidas anunciadas reagiram “positivamente”.
O Governo alemão, uma coligação entre a CDU democrata-cristã e o SPD social-democrata, anunciou, também há poucos dias, um compromisso entre os dois partidos em matéria de “reforma“ do sistema de pensões. O compromisso introduzirá no sistema público distributivo, pela primeira vez, um “pilar obrigatório” de capitalização, nisso seguindo os planos em desenvolvimento sob a batuta da comissária Maria Luís Albuquerque para toda a UE. O Governo português prepara-se também, daí a reacção de Montenegro à conversa de Ventura sobre a idade das pensões.
No passado mês de Fevereiro, expúnhamos aqui no Maio os planos em desenvolvimento na Alemanha (e na Europa em geral) para desmantelar um a um os pilares do chamado “Estado social”, ou seja, as conquistas conseguidas pelos trabalhadores — e engolidas pelos governos capitalistas para evitar “males piores” — durante um século de greves, revoluções e lutas.
Estes pilares são, sobretudo, os sistemas de segurança social, incluindo a saúde pública e o sistema de pensões distributivo baseado no salário diferido, mas também o ensino público e universal baseado no saber, para formar cidadãos.
A crise do capitalismo mundial, aprofundando-se sem cessar, decreta: tudo isso é muito caro, corte-se!
Mas os planos incluem, também, o desmantelamento da “velha” base industrial “obsoleta”, de que a Alemanha é o mais proeminente representante na Europa. O novo rumo é: a todo o vapor para a “IA” e a economia de guerra.
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O desenvolvimento rápido da indústria chinesa, bem como os planos de guerra — para já aduaneira e comercial — do imperialismo americano contra a China precipitaram os acontecimentos. O grande capital industrial alemão está numa situação sem saída. Os novos entraves ao comércio livre à escala mundial rasteiraram a economia alemã, que assentava na exportação de bens e maquinaria industrial para todo o mundo a partir da energia barata fornecida pela Rússia e à sombra do guarda-chuva militar do Pentágono. A economia alemã estagna há quase dez anos.
No entanto, o dilema das cúpulas bancárias e industriais e, agora, políticas, da Alemanha e da Europa é muito difícil. É preciso reduzir drasticamente os “custos”, disso não restam dúvidas; para isso, é preciso reduzir os salários, tanto os salários directamente pagos aos trabalhadores, como o salário indirecto advindo da saúde e do ensino públicos, o salário diferido que são as pensões… Mas como fazê-lo, quando a classe operária alemã é a mais forte e organizada da Europa? Quando o partido que tradicionalmente a representa (o SPD) faz parte do governo? Não serão os previsíveis “conflitos sociais” daí resultantes e mesmo a presumível auto-imolação da social-democracia, a administradora ideal da “paz social”, um risco e um preço demasiado altos a pagar?
Quando o grupo VW fez o seu primeiro anúncio de reduções drásticas de salários e de despedimentos, no Outono de 2024, a resposta dos operários foi imediata e em massa. Assustada, a administração fez um acordo com os representantes dos trabalhadores, estendendo até 2030 a proibição de despedir em troca de uma certa “moderação” nos aumentos salariais.
A trégua mal durou um ano.
Mas não é só a VW. A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês. O gigante siderúrgico ThyssenKrupp fecha fábricas de antiquíssima tradição e despede com abandono. Grandes fornecedores do sector automóvel, nomes como Schaeffler, ZF, Bosch, etc., anunciam e executam encerramentos de locais de produção. Sucedem-se as falências no Mittelstand (a média indústria alemã especializada, designadamente, no fabrico e exportação de maquinaria especial sofisticada).
A Alemanha sangra actualmente postos de trabalho industriais ao ritmo de 16 mil por mês.
Ninguém está a salvo. Ao fim de mais de um ano de “impasse”, em que o chanceler Merz era atacado de todos os lados pela sua incapacidade de “reformar”, o anunciado compromisso entre os partidos do governo em matéria de contra-reforma das aposentações, baseado na capitulação da social-democracia, representa um toque das trombetas para o grande assalto à classe trabalhadora alemã.
Depois do plano Draghi de 2023, a burocracia de Bruxelas trabalha a todo o vapor no desenho de planos de desmontagem, desmantelamento e destruição de tudo o que, na sequência da II Guerra Mundial, permitiu que sectores significativos das classes trabalhadoras dos países mais desenvolvidos da Europa pudessem ter uma vida relativamente tolerável.
A resolução dos delegados sindicais de uma das fábricas em que nasceu a indústria automóvel é um sinal de que a classe operária alemã e europeia não conta render-se sem dar batalha.
A fábrica da Mercedes Benz de Untertürkheim, perto de Estugarda, na Alemanha, tem actualmente cerca de 18 mil operários. É a fábrica-mãe da marca, fundada em 1904, considerada o berço da indústria automóvel. Ainda é o principal centro de competências da Mercedes. Ali se produzem motores de explosão e eléctricos, caixas de velocidades, eixos, baterias. Porém, está, como boa parte da indústria automóvel alemã, sob ataque do patronato. Reproduzimos aqui uma resolução dos delegados sindicais da Mercedes-Benz Untertürkheim.
Mal passa um dia sem novo anúncio de que tal empresa vai fazer despedimentos ou tem de “poupar” à nossa custa.
Crise por toda a parte.
E os patrões querem que sejamos nós a pagar.
Também não é que o governo faça alguma coisa por nós. Quer acabar com o imperativo legal da jornada de trabalho de 8 horas: que trabalhemos mais pelo mesmo salário ou até por menos. E ainda tem na manga a “reforma aos 70”.
Trabalhar até morrer. Do subsídio de cidadania1 passa-se a uma dita “prestação básica”. Querem que, destruindo-nos o patrão o posto de trabalho, fiquemos obrigados a aceitar até o emprego mais miseravelmente pago.
Andam a dar cabo do sistema de saúde à força de austeridade, a transformar a assistência médica em privilégio para ricos. O dinheiro que, por causa das medidas de austeridade, falta nas caixas da segurança social vai também para o rearmamento. Querem que os nossos jovens voltem a ir para a guerra defender os lucros das grandes empresas.
Ter pena de nós próprios, esperar numa pretensa “Alternativa para a Alemanha” ou implorar e suplicar ao governo não adianta.
Sem a nossa luta sindical e política não conseguiremos políticas melhores! Por isso, não vamos esperar que alguém nos mande protestar. Começamos já!
Sem a nossa luta sindical e política não conseguiremos políticas melhores! Por isso, não vamos esperar que alguém nos mande protestar. Começamos já!
A discussão com os nossos colegas no local de trabalho volta a ter mais forte cunho político. “Alguém pode parar aquele que percebeu a situação em que está?”2.
Aproveitamos todas as oportunidades que se nos apresentam para criticar os patrões e o seu governo. De futuro, que não haja mais assembleias de empresa, reuniões de conselho de empresa ou assembleias sindicais sem discussão política.
Ainda que de início sejamos poucos ou estejamos até sozinhos, se levantarmos a voz e tomarmos uma atitude, seremos mais.
Mal sintamos propício o clima entre o pessoal, organizaremos protestos na empresa e na nossa cidade.
Tomamos parte activa no nosso sindicato, exigindo, o mais rapidamente possível, a organização de manifestações contra a ganância dos patrões, contra o governo e por um futuro melhor. A greve, se necessário. E se as cúpulas sindicais se fizerem difíceis, avançamos nós próprios.
1 “Subsídio cidadão” (Bürgergeld), é o subsídio social de desemprego que garante o sustento de quem não tem meios para o conseguir sozinho. O governo pretende substituí-lo por uma “prestação básica”.
2 Do poema de Bertolt Brecht “Elogio da dialéctica”.
O Maio vai aproveitar os meses de verão para fazer algumas alterações. Vamos mudar de página (alojamento do site) para um modelo mais robusto, que diminua ataques informáticos e nos permita um ainda maior trabalho colaborativo. Neste julho faremos um Maio com cerca de 4 a 5 novos artigos por semana, sem editorial, e em agosto interromperemos três semanas, para férias e para mudar de site. Regressaremos no fim de agosto, retemperados, tal como vós, esperamos, por umas boas férias!
Caros leitores,
Há 9 meses propusemo-nos fazer um jornal, semanal, o Maio, que renovasse a esfera pública tendo a crítica do Estado e do mercado como central; a liberdade de pensamento como alfa e ómega de qualquer projeto coletivo; e a defesa dos trabalhadores e da cultura (não somos independentes do mundo do trabalho e da cultura, somos seus defensores como gente inteira que faz, pensa, luta, ama, sente, imagina, conhece. A habitação e a educação públicas são-nos tão queridas como o direito a querer e saber ler, escutar e conhecer a música e a sua história. Enfim, nada de humano nos é estranho.
Apoiado por sindicatos, associações e intelectuais críticos, cientistas, das exatas e das humanidades, artistas, desde então, o Maio teve mais de um milhão de visualizações, e saiu semanalmente.
Assumimos desde o início a recusa de qualquer financiamento do Estado, empresas ou publicidade. Graças a uma combinação de trabalho de qualidade, autónomo, de escritores, profissionais e amadores, que amam contar o país, e o mundo, ilustradores, cujo trabalho magnífico está espelhado na qualidade do design deste jornal, realizadores, a que se juntaram mais de 200 associados, o Maio cresceu imenso.
Fizemos tanto e vamos fazer muito mais. Vamos para a rua em reportagem ouvir quem trabalha e escutar o país fora de Lisboa. Vamos ter mais vídeo-reportagem. E vamos começar, esperamos pelo espaço apenas, uma escola, um espaço de encontros onde debates, cursos, teatro, atividades para crianças sem ecrãs, visitas e passeios, floresçam.
Vamos mudar de página (alojamento do site) este verão, para um modelo mais robusto, que diminua ataques informáticos, e nos permita também um ainda maior trabalho colaborativo. Neste julho faremos um Maio com cerca de 4 a 5 novos artigos por semana, sem editorial, e em agosto interromperemos três semanas, para férias e mudar de site. Regressaremos no fim de agosto, e tenhamos todos umas boas férias!
A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O Governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro. Porém, nos últimos cinco anos, Portugal construiu uma indústria militar surpreendentemente forte.
ilustração: Ricardo Ferreira
Portugal não teve sempre um complexo militar-industrial. Historicamente dependente de armamento estrangeiro, o país só começou a desenvolver uma indústria de defesa e aeroespacial independente na década de 1960, para sustentar as guerras coloniais. Na época do seu império global, viveu principalmente do poderio naval, adquirindo a maior parte do equipamento pesado a fornecedores estrangeiros. Mesmo depois de aderir à NATO, em 1949, continuou a carecer tanto de siderurgia pesada como de uma indústria de armamento, dependendo de importações.
A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro.
Agora, porém, no século XXI, Portugal construiu, nos últimos cinco anos, uma indústria militar surpreendentemente forte. A indústria de defesa cresceu rapidamente graças à inovação no sector privado, a par de subsídios do Estado e colaborações com a academia. O sector consta de uma rede altamente rentável e de alta tecnicidade de mais de 160 organizações, representadas pelo AED Cluster Portugal (Aeronáutica, Espaço e Defesa).
O complexo militar-industrial português não produz blindados em massa; é altamente especializado, fortemente baseado no modelo da “hélice tripla” que, integrando forças armadas, laboratórios de investigação universitários e fornecedores privados de tecnologia, cria tecnologias de “uso dual” (ou seja, civil e militar). As universidades portuguesas têm aumentado o seu investimento na investigação e desenvolvimento de armamento e outras tecnologias bélicas.
A produção de armamento dá muito dinheiro a ganhar, e muitas empresas portuguesas deram por isso. O sector português da defesa regista o seu maior crescimento desde que o país aderiu à União Europeia. Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo. A indústria da “defesa” portuguesa emprega agora cerca de 20 mil pessoas e gera receitas anuais superiores a 2100 milhões de euros. “E a tendência é ascendente”, indica José Neves, presidente da associação do sector, a AED Cluster Portugal, que engloba mais de 160 organizações portuguesas que trabalham nas áreas da aeronáutica, do espaço e da defesa.
Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo.
Para cumprir a meta acordada pela NATO de gastar 5% do PIB na defesa, o Governo também está a adquirir activamente equipamento ao estrangeiro. Lisboa compra fragatas à Itália, tanques à Alemanha e novos caças. Em Outubro do ano passado, o Governo português anunciou um aumento recorde das despesas militares para 2026. O orçamento da defesa aumentou quase 3800 milhões de euros, ou mais 23,2% em comparação com 2025.
Esta recente expansão está directamente relacionada com a guerra na Ucrânia e com a campanha de propaganda sobre a chamada “ameaça russa” à segurança da Europa. Portugal tem sido aliado da Ucrânia desde o início da invasão russa. O Governo contribui com dinheiro dos contribuintes para o mecanismo PURL, que medeia a compra de armas dos EUA para a Ucrânia. Estão a ser usados na Ucrânia drones e sistemas de comunicação portugueses.
Se bem que ainda possa ser relativamente pequeno em termos globais, o complexo militar-industrial português tem-se desenvolvido em subsectores de nicho de alta tecnologia mais do que na produção de equipamento tradicional. Há empresas portuguesas a fabricar drones ou componentes para grandes grupos internacionais da defesa. Empresas como o fabricante de drones Tekever ou a Critical Software são parceiros de confiança do sector da defesa à escala internacional, quer como fornecedores, quer — cada vez mais — como fabricantes de produtos acabados. Empresas como a Critical Software desenvolvem sistemas aeroespaciais e de defesa complexos, incluindo software de voo e interfaces-utilizador de co-piloto usadas por parceiros internacionais como a Saab. Portugal também investe muito na vigilância marítima, nas comunicações navio-costa e em navios auxiliares.
Para cumprir os ditames da NATO e modernizar as suas forças, Portugal está a proceder activamente a uma revisão da sua presença militar. Entre os reapetrechamentos mais importantes contam-se a modernização dos submarinos da classe Tridente, a integração de sistemas de recepção de alertas para a frota de F-16 e a reabilitação de centros estratégicos como a Base Aérea de Montijo e a Base das Lajes, nos Açores, mantida pelos EUA. O Governo está actualmente a conduzir um grande projecto de aquisição que visa a potencial substituição da sua frota de caças F-16 em obsolescência, estando nos pratos da balança jactos americanos caros e alternativas europeias, como o Gripen sueco.
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A empresa sueca de defesa Saab almeja vender a Portugal o seu sistema Gripen de avião de caça. “O Gripen-E seria uma solução verdadeiramente europeia”, segundo Daniel Boestad, vice-presidente do programa Gripen na Saab. A empresa aeroespacial portuguesa OGMA poderia fabricar peças para a aeronave, tal como já faz, designadamente, para a empresa brasileira Embraer, adquirindo Portugal, em troca, à Embraer aviões de transporte militar. “Além disso, estamos a analisar o potencial de alargamento da cooperação nas áreas da produção e MRO”, observou Boestad; a sigla MRO cobre a manutenção, reparação e revisão.
A empresa portuguesa Critical Software tem em desenvolvimento um simulador de voo para o Gripen-E. “Estamos a trabalhar com a Saab, porque é um desafio interessante e porque nos identificamos com o projecto”, refere João Carreira, director executivo da Critical Software. A sua empresa começou com apenas três colaboradores, em 1998, tendo, entretanto, crescido e passado a ser uma empresa internacional com cerca de 5 mil empregados. Inicialmente, a empresa produzia software para as fragatas da Marinha portuguesa. Actualmente, a Critical Software opera joint ventures com empresas como a BMW e colabora com empresas alemãs do sector da defesa como a Diehl e a Rheinmetall.
A enorme expansão da indústria de armamento portuguesa faz parte de uma viragem europeia para aumentar a despesa com a defesa, apoiada por financiamentos da UE. A Europa não está apenas a rearmar-se, está a reorientar a sua base industrial da produção civil para a produção militar, e Portugal está discretamente a aproveitar a onda.
Tudo isto é óptimo para os fabricantes de armas, mas pouco valor acrescenta à economia geral. Estima-se em não mais de 0,5% do rendimento nacional a contribuição central directa da próspera indústria militar/de defesa portuguesa, que emprega apenas 0,4% da força de trabalho. A defesa nunca será grande contribuinte para a prosperidade do país, ainda que renda milhões de euros às empresas envolvidas. E afectar preciosos recursos e mão de obra à produção de armas para matar e destruir vidas e meios de subsistência reduz os recursos disponíveis para investir em necessidades sociais reais e em melhorar a vida das pessoas.
Tradução de Adriano Zilhão.
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